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Yaka

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Bolo'Bolo (livro)
P.M.


Yaka.gif
O ibu tem boa índole, simpática e carente de amor, ou é briguento, fechado, violento? Será que só é agressivo porque o pesadelo do trabalho e da repressão o deixou invejoso, frustrado e irritável? Pode ser que sim. E ainda podem existir também ciúme, orgulho ofendido, destrutividade, antipatia, luxúria e assassinato, megalomania, obstinação, agressividade, explosões de raiva, delírios, Não dá para deixar de fora essas possibilidades. Por isso a yaka é necessária ao bolo’bolo.

A yaka torna possíveis as querelas, disputas, lutas e guerras.[1]

Tédio, tristes histórias de amor, loucura, misantropia, decepções, conflitos acerca de honra e de estilo de vida e até mesmo o êxtase podem levar a yakas. Elas podem acontecer entre:

Duelo.gif
  • ibus e bolos
  • bolos e bolos
  • tegas e ibus
  • bolos e vudos
  • ibus e sumis
  • vudos e sumis
  • etc.

Como outras formas de troca (neste caso, de violência física), as yakas (lutas) podem ser regulamentadas por certos acordos comuns, de modo a limitar o risco e o perigo. Ajudar os ibus e os bolos a manter o código da yaka será uma das tarefas das assembléias de bairro e de comarcas:

  • um desafio formal deve ocorrer na presença de ao menos duas testemunhas;
  • um desafio sempre pode ser recusado;
  • as respectivas assembléias (yaka-comitês de bolos, bairros, comarcas, etc.) devem ser convidadas a tentar a reconciliação;
  • a escolha das armas e da hora do duelo cabe ao desafiado;
  • o tipo de armadura é parte da arma;
  • o duelo deve ocorrer na presença de uma delegação dos respectivos comitês;
  • o respectivo yaka-comitê providencia as armas para ambas as partes;
  • assim que uma das partes se declara vencida, a luta cessa;
  • armas cujo alcance é maior do que a capacidade de ver o branco do olho do inimigo são proibidas (cerca de 100 jardas);
  • somente armas mecânicas (o corpo, bastões, maças, espadas, fundas, lanças, flechas, machados, pedras) são permitidas; nada de revólveres, venenos, granadas, fogo, etc.[2]

Os comitês de duelo arrumam as armas e o campo de batalha, organizam árbitros (armados, se preciso), cuidam de transportar e medicar os feridos ou moribundos, protegem os espectadores, animais, plantas, etc.

Armas.jpg

Se comunidades maiores (bolos, bairros, comarcas, etc.) entram em luta, os respectivos comitês de duelo podem ser obrigados a consideráveis esforços. Os danos causados pelas lutas devem ser reparados pelos desafiantes, mesmo em caso de vitória. Os duelos quase nunca estarão ligados a vantagens materiais para os vencedores, já que são muito caros e as partes são obrigadas a viver juntas depois. Assim, a maioria das motivações para duelos estaria no campo das contradições emocionais, culturais ou pessoais. Eles podem servir para aumentar ou diminuir a reputação de uma pessoa (munu). (No caso de prevalecerem as ideologias não-violentas, diminuir.)

É impossível predizer quão freqüentes, violentas e extensas serão as yakas. Elas são um fenômeno cultural, uma forma de comunicação e interação. Já que envolvem muitas desvantagens sociais e materiais (feridas, danos, reputações arruinadas), provam que são a exceção. Duelos e lutas não são jogos, e não podem simplesmente significar a representação ou sublimação da agressividade – não podem ser considerados um tipo de terapia; são riscos sérios e reais. É até mesmo possível que certas identidades culturais tenham que morrer sem lutas periódicas ou permanentes. A violência continua, mas não necessariamente a história.


Referências

  1. Desde que o ibu surgiu, ficamos livres do "homem", e, infelizmente, nos livramos ao mesmo tempo de perguntas assim: O homem é violento ou não-violento? É bom ou mau por natureza? (Nos livramos também da "natureza".) Todas essas definições sobre o estranho ser chamado homem – particularmente as humanistas, positivas – sempre tiveram conseqüências catastróficas. Se o homem é bom, o que devemos fazer com aqueles que (excepcionalmente, é claro) são maus? A solução histórica tem sido colocá-los em campos fechados e "reeducá-los". Em caso de não dar certo – afinal, eles tiveram uma chance – o jeito era internar em hospitais psiquiátricos, atirar neles, pôr na câmara de gás ou queimá-los. Thomas More conhecia o homem, mas queria punir o adultério com a pena de morte em sua humanística utopia. Nós preferimos não conhecer. Assim o ibu pode ser violento, pode até sentir prazer em atacar direta e pessoalmente outros ibus. Não existem ibus normais.

    É pura demagogia querer explicar o fenômeno das guerras modernas pela existência da violência interpessoal. Nada é mais pacífico, não-violento e delicado que o interior de um exército: os soldados se ajudam uns aos outros, dividem comida, se apoiam emocionalmente, são "bons camaradas". Toda a violência deles é manipulada, focada num inimigo. Mesmo nesse caso, os sentimentos não são importantes. A guerra se tornou um processo burocrático, industrializado e anônimo de desinfecção em massa. A raiva e a agressividade só serviriam para atrapalhar as modernas técnicas de guerra, poderiam até impedir que ela acontecesse. A guerra não se baseia na lógica da violência, do sentimento, mas na lógica do estatismo, da economia, da organização hierárquica. Sua forma pode ser comparada à medicina: a forma não-emocional de lidar com corpos em disfunção. (Compare a terminologia em comum: operações, intervenções, desinfecções, manobras. E o paralelismo nas hierarquias.)

    Mas, se guerra significa violência direta, apaixonada e coletiva, yaka é a forma de torná-la possível novamente. Possível, porque não seria necessária e assim nunca assumiria proporções catastróficas. Talvez por motivos similares Callembach introduz um tipo de ritual guerreiro neolítico estilizado em sua Ecotopia (p. 91). Mas isso acontece fora do cotidiano e é uma espécie de experiência oficial. Guerras reais, como é possível com a yaka, não são compatíveis com a Ecotopia; de que têm medo? E é claro que as mulheres são excluídas desses jogos de guerra, porque não são violentas por natureza. Mais um mito tipicamente machista...

  2. Mas como fazer com que essas regras de guerra sejam respeitadas? Será que a violência não vai simplesmente superar todas as inibições e regras? Esse medo é típico de uma civilização que baniu a violência direta durante séculos para preservar a burocratizada violência estatal. Como a violência será experimentada no dia-a-dia, as pessoas aprenderão a lidar com ela de maneira racional. (O mesmo vale para sexualidade, fome, música, etc.) A racionalidade é ligada à redundância: eventos que ocorrem raramente levam a reações catastróficas. As regras de guerra funcionavam bem no tempo dos antigos gregos e romanos, na Idade Média, entre os índios norte-americanos e em muitas outras civilizações. Somente em casos de comunicação insuficiente poderiam ocorrer catástrofes como César, Gengis Khan, Cortez, etc. bolo’bolo excluirá tais acidentes históricos: teremos comunicação universal (telefone, redes de computadores, etc.) e as regras serão conhecidas. É claro que as complicações são possíveis. A obrigatoriedade de seguir as regras pode levar a milícias provisórias, por exemplo, se um dos lados insistir na transgressão. Essas milícias poderiam desenvolver uma dinâmica interior e virar um tipo de exército, que por sua vez precisaria ser controlado por milícias mais fortes. Mas tal escalada pressupõe um sistema econômico centralizado com recursos adequados e espaços socialmente vazios onde pudesse acontecer. Ambas as condições faltarão. Também é imaginável que um latoeiro arrebatado e solitário construa uma bomba atômica no porão de uma fábrica deserta e esteja a ponto de destruir um bairro inteiro ou uma comarca segundo seu nima (identidade cultural). Ele teria alguns problemas para conseguir o material necessário sem que ninguém por perto suspeitasse. O controle social espontâneo impediria o pior. Mas mesmo um latoeiro maluco seria menos perigoso que os cientistas e políticos de hoje...


Bolo'Bolo (livro)
Fasi Yaka Munu

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