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Você Pode Correr, Mas Não Pode Se Esconder

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Espere Resistência
CrimethInc

Turismo? Escape da rotina!


"Caro CrimIdéia,

Estou preso aqui na Noruega com os meus pais nestas férias idiotas. Deus, parece que eu poderia ir à maldita lua com eles, e ainda assim seria como estar em casa. Estas pessoas fazem tudo parecer simples e idiota, até fiordes e barcos vikings. Eu sei que tenho sorte de estar aqui ― a maioria dos meus amigos nunca terá a chance de conhecer este lugar ― e isso só mais uma amostra de como as coisas estão fodidas ― mas isso não é nem mesmo como estar aqui, é mais como estar com a minha família na porcaria de mundo falso no qual eles vivem.

Obrigado."


Quando chega o fim-de-semana, os estudantes universitários colocam suas mochilas nos carros e vão até a praia. Eles chegam logo antes do pôr-do-sol e passam uma hora inteira desfazendo as malas, armando suas barracas e acendendo a churrasqueira. Então eles aumentam o volume do aparelho de som, assam carne, bebem, gritam e discutem até a meia-noite. Quando eles acordam na manhã seguinte, eles passam mais uma hora desarmando as barracas, limpando a área onde acamparam, se forem ambientalistas, antes de dirigir de volta para casa. Tudo que eles fizeram na praia poderiam ter feito mais facilmente em casa, mas a praia é fetichizada como uma zona de recreação e lazer: se você está lá, você sabe que não tem horários e se divertindo ― quer ou não você nade nas ondas, caminhe em silêncio sob as estrelas, ou encontre a carcaça de um tubarão carregada pela maré, com pequenos caranguejos dançando em sua carne.


Anos mais tarde eles voltam lá com suas famílias, armando barracas de brinquedo para as crianças e mesas dobráveis para os adultos, bebericando vinho enquanto assistem DVDs. Se eles são ricos, vão visitar praias em outros continentes, nunca deixando a bolha da toalha do hotel, quarto do hotel, navio de cruzeiro, resort.


Mas seria injusto acusar todos que partem em férias de ignorar o que está ao seu redor ― pelo contrário, você sempre pode identificar turistas de alta classe pelas suas câmeras de vídeo e guias cultos. Vamos examinar esses espécimes mais sofisticados para chegar ao fundo do turismo como um fenômeno.


Vindo de uma subcultura na qual possuir e aparentar são mais enfatizados que sentir e agir, turistas burgueses procuram diversão na possessão simbólica de outras partes do mundo além daquela que eles normalmente ocupam. Eles conseguem isso pelo ato de olhar ― "olhar pontos turísticos" ― assim como os conquistadores de antigamente observavam os povos recentemente subjugados. É este o real significado de todas fotos e vídeos: as imagens podem não ser importantes mais tarde (exceto para aquelas sofríveis mostras de slides aos quais imaginamos que os imperadores Romanos submeteriam suas cortes, se eles tivessem a tecnologia), elas podem não ser tiradas com aspiração artística, mas eles servem para firmar o turista como colecionador ― eles colecionam imagens do mesmo modo que outros colecionam borboletas ou saques de guerra. Está é a única forma que o burguês conhece de se relacionar com coisas estrangeiras*: o belo e o selvagem formam belas cenas, mas eles não têm significado até que elas tenham sido caçados, capturados, alfinetados.


As fotos batidas apressadamente são preservadas como se estivessem no formol, e os turistas parabenizam a si mesmos por saberem tudo sobre a Noruega, sobre a arquitetura italiana, a vida selvagem no Oceano Pacífico, os desafios dos primeiros exploradores das regiões polares, a infância problemática de Van Gogh ("e isso", entoa o turista enquanto guia a sua audiência por uma exibição de slides de fotos tiradas através de uma corda sob a direção de outro guia, como isso é pós-moderno, "é a sala na qual ele passou seu primeiros seis anos!"). As lentes nunca saem dos olhos dos turistas durante suas férias, no sentido literal ou figurado. A mediação é fundamental na experiência do turista ― qualquer coisa para manter o mundo à distância, para evitar se envolver.


O turista vem de um mundo com mania de controle, já é um especialista em se proteger até a morte. Os burgueses insistem em ficarem seguros onde que quer que vão ― não apenas de perigo real, mas de qualquer coisa que não tenha sido antecipada, compreendida, controlada. Os guias de viagem e guias turísticos, os itinerários cuidadosamente planejados, os ônibus turísticos, museus e hotéis, os exércitos de vendedores prontos para suprir qualquer necessidade fabricada ― tudo isso se combinam para garantir que estar em Oslo ou no Zimbabwe seja tão similar quanto possível a estar no Rio Grande do Sul. Mas ainda assim, por baixo de tudo, turismo ainda é uma tentativa desesperada de vivenciar algo diferente, algo "exótico", que é o mesmo que dizer ― algo não tão sem vida, sem significado, tedioso, banal e insípido quanto o dia-a-dia sob a tirania do secador de cabelos e do telefone celular.*


E logo a grande tragédia é que o turismo destrói o observado enquanto mantém o observador alienado. Assim como os exploradores cortaram trilhas cada vez mais largas através dos ambientes naturais durante suas explorações, até que em alguns lugares só restassem deles peixes em aquários e plantas em vasos, o turista esmaga embaixo de si exatamente aquilo que ele está procurando. O ser humano dentro do homem burguês precisa de diversidade, perigo, aventura, mas o burguês dentro dele canaliza essas necessidades em iniciativas substitutas e em apostas com garantias contra prejuízo: ao viajar para Honduras, ele ainda quer falar inglês; ao fazer canoagem em correntezas, ele ainda precisa assinar um contrato e uma "trilha histórica" para seguir (pois toda experiência com algum significado é mantida como refém no passado, ou nas vidas de outras pessoas), ao pousar em Marte, ele olha em volta procurando algum cartaz que indique a próxima visita guiada. Tendo em suas mãos o poder do deus irado, o Dólar, ele é capaz de forçar todo mundo que ele encontra a confiná-lo em sua rede de segurança. Onde quer que o turista pise, em breve não resta nada além dos detritos de sua própria falência criativa e cultural ― visitem Tijuana, no México se quiserem prova. Culturas inteiras foram aniquiladas por onde esteve; turismo não é o sucessor das antigas jornadas e peregrinações, mas do imperialismo colonial.


Na ausência da coisa real, o turista fica com a simulação. Até mesmo os guias de viagem mais loucos ("Europa a dois dólares por dia!", "Antártida para caroneiros!") são museus de aventura fossilizada no momento em que são publicados ― como se pudesse haver tal coisa como um guia para aventuras, quando aventura é exatamente aquilo que acontece fora dos mapas. O máximo que o turista mais ousado pode encontrar a trilha gelada daqueles que embarcaram sem mapas ― no seu rastro, ele tem que se contentar com monumentos, museus e parques temáticos, sempre largando perguntas de retórica ("Como seria se...?") sem se conectar com as possíveis respostas à sua própria vida. Consternado, ele compra mais guias de viagem, como de praxe buscando uma solução no mercado ao invés de se livrar de sua alienação e tentar uma aproximação diferente.


A qualidade comum que unifica todos os turistas é a desconexão: eles não estão nem um pouco envolvidos com aquilo que vêem, perseguindo somente a paisagem sem nenhum comprometimento, responsabilidade e desafio que vem junto com o compromisso com a vida real. Eles podem votar passivamente no seu local ou pintura favorito, ou, na melhor das hipóteses, desenvolver um sentimento paternalista de que ambientes ou culturas excepcionais devam ser protegidas e usá-lo como distintivo, mas nunca lhes ocorre que eles estão interagindo com os mundos que eles observam com tanto desprendimento. É por isso que eles são incapazes de reconhecer a sua parte na erradicação do que tentam proteger, e ainda mais incapazes de confrontar o seu desconforto espiritual e inquietação. Eles podiam estar em suas casas, ou em qualquer lugar, doando-se a algum projeto, se envolvendo em algo fora das exigências do trabalho e do status social, assumindo responsabilidade pelos efeitos de suas ações e considerando suas decisões com a seriedade apropriada; ao invés disso, eles partem em férias para a terra do nunca, levando a sua alienação aos confins mais afastados do globo. Lá, esta alienação se replica, os levando a cruzeiros marítimos cada vez mais caros e caçadas por souvenirs como viciados apáticos em busca de estímulos ― quando tudo que precisam para quebrar o feitiço seria que se comprometessem com algum valor ou sonho, um que os levaria ao perigo, partiria seus corações, até alcançar uma glória esfarrapada e todas essas outras coisas que devemos vivenciar para vivermos uma vida plena e engajada. Eles poderiam fazer tudo isso sem jamais ter de fazer uma reserva de passagem aérea ou fazer as malas. O fato de que eles são capazes de manter a sua distância da vida tão facilmente à dez mil quilômetros de casa como no meio de sua rotina diária é uma prova do triunfo global do auto-estranhamento universal.


Basicamente, turismo não é uma atividade de lazer mas um modo de vida, uma expressão do vácuo no coração da sociedade consumista. O executivo faz as mesmas coisas no Louvre, no Himalaia e na Jamaica que faz em sua própria vizinhança quando passa de carro por um grupo de árvores sendo cortadas para dar lugar a um novo posto de gasolina. O que é necessário para tirá-lo deste transe, fazê-lo se relacionar com aqueles ao seu redor e assumir responsabilidade pelas suas ações? O destino do planeta depende da nossa resposta a esta questão, ou então desarmá-lo e desativá-lo.


Para fazer ambos, temos que localizar as nossas partes que ainda não foram totalmente desconectadas, buscar as paixões que ainda se remoem dentro de nós. Para o bem ou para o mal, a maioria de nós quer viajar ― nossos corações saltam ante a possibilidade de largar tudo e sair livre e de mãos vazias por uma paisagem que não nos seja familiar, e isto tem que estar entranhado mais fundo que o condicionamento burguês. Viagens estão associadas com liberdade e romance; era o estado original de nossa espécie, e ainda ansiamos por isso. Ao viajarmos podemos nos livrar dos nossos velhos "eu" e caçar outros que nos esperam em mundo alternativos ― viajar nos possibilita um tipo especial de liberdade, pois sem novos horizontes tendemos a repetir as escolhas já bem praticadas que já fizemos, em servidão à inércia na ausência de outro mestre.


Mas com todo o planeta padronizado sob o imperialismo corporativo e o capitalismo industrial, quando carregamos as sementes destes venenos dentro de nossos peitos, como colonizadores colonizados, onde mais podemos ir? Como vamos viajar agora?


No mesmo lugar. As aventuras do futuro serão criadas, não por Ocidentais que destroem civilizações na sua tentativa desesperada para escaparem da sua própria civilização, mas por pessoas que pegam partes familiares deste planeta e as transformam no desconhecido. Brasília pode se tornar a Paris de 1968, assim como a Paris tediosa de sempre se tornou, em maio daquele ano, na Barcelona de 1936; pequenas cidades no sudeste podem hospedar centros sociais e levantes como os de Oaxaca e Berlim; um sentimento do seu próprio significado e capacidades pode transformar até mesmo o quarto de um bairro nobre no cenário de um verdadeiro épico. Na verdade, este sempre foi o caso: só podemos observar o mundo passivamente, ou agirmos nele como um participante ― tudo depende disto, quer você esteja em casa ou no topo do monte Ararat.


Ao viajarmos sem sair do lugar, podemos redescobrir a arte da participação que é essencial para qualquer aventura ― e finalmente partirmos numa jornada, ao invés de em mais uma fuga.


ESCAPE DO ESCAPISMO!


  • - Veja por exemplo o ecoturismo, que é baseado na idéia de que um pequeno fragmento de um ecossistema deve ser deixado em paz enquanto ele servir para entreter a classe turística. Eles partem em férias para fazer ooh e aah para a vida selvagem quando eles nem ao menos reciclam garrafas em suas próprias cozinhas. Eles falam sobre lugares "especiais" que devem ser transformados em parques e reservas, negligenciando o fato de que o próprio chão onde vivem já foi igualmente selvagem e belo antes de ser destruído pelos estilos de vida que eles recusam a questionar.


  • - De fato, quando ouvimos atentamente aos relatos sobre seqüestro e rins roubados compartilhados pela juventude burguesa nas férias de verão no circuito mochileiro/alberguista, fica claro que são praticamente fantasias, lendas de algo real e perigoso ― ou seja, empolgante! ― que aconteceu com alguém que era como você, narradas numa fé desesperada de que algo louco e novo ainda seja possível mesmo neste mundo e descritas da única forma que os burgueses sabem descrever o que não lhes é familiar: terror!

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