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Rádio Sermonettes
Hakim Bey

As categorias de arte naive ["ingênua"], art brut, arte insana ou arte ecêntrica, que se borram em várias outras categorias de arte neo-primitiva ou primitivo-urbana - todas essas formas de categorizar e etiquetar arte se mantém sem sentido:-- isto é, não apenas inúteis em última instância, mas também essencialmente não-sensuais, desconectadas do corpo & desejo. O que realmente caracteriza todas essas formas de arte? Não sua marginalidade em relação a um discurso mainstream ["corrente"] de arte... Céus, QUE mainstream? QUE discurso? Se fôssemos falar que há um discurso pós-moderno em curso, então o conceito de margem não significa mais nada. O pós-pós-modernismo, contudo, nem mesmo admitirá a existência de qualquer discurso de qualquer tipo. A arte se calou em silêncio. Não há mais categorias, muito menos mapas de centro & margem. Nos livramos dessa merda toda, certo?

Errado. Porque UMA categoria sobrevive: Capital. O Capitalismo-Tardio-Demais. O Espetáculo, a Simulação, Babilônia, como quiser chamar. Toda arte pode ser posicionada ou etiquetada em relação a este discurso. E é precisamente & apenas em relação com esse espetáculo-bem-de-consumo metafísico que a arte outsider ["de fora"] pode ser vista como marginal. E se esse espetáculo pode ser considerado como uma para-mídia (em toda sua complexidade sinuosa), então a arte outsider deve ser chamada i-mediata. Ela não rola na paramídia do espetáculo. É feita apenas para @ artista e para sua comitiva imediata (amig@s, família, vizinh@s, tribo); & ela participa apenas de uma economia de dádiva de reciprocidade positiva. Apenas essa não-categoria de imediatismo pode assim aproximar um entendimento adequado & defesa dos aspectos corpóreos da arte outsider, sua conexão com os sentidos & com o desejo, & sua evasão ou mesmo ignorância da mediação/alienação inerente à recuperação espetacular & re-produção. Veja bem, isso não tem nada a ver com o conteúdo de qualquer gênero outsider, tampouco concerne a forma ou intenção do trabalho, nem a ingenuidade ou saber do artista ou dos receptáculos da arte. O seu imediatismo jaz precisamente em seu sentido de produção imaginal. Ele comunica ou é presenteado de pessoa a pessoa, seio-a-seio como dizem os sufis, sem passar pelo mecanismo de distorção da para-mídia espetacular.

Quando a arte ioguslava ou haitiana ou o grafite nova-yorkino foram descobertos & comodificados, os resultados foram insatisfatórios em diversos pontos:--(1) Em termos do pseudo-discurso do Mundo da Arte, toda sua assim-chamada ingenuidade está condenada a se manter exótica, ou mesmo exagerada, & decididamente marginal--mesmo quando ela atinge altos preços (por um ano ou dois). A entrada forçada da arte outsider no espetáculo de mercadorias é uma humilhação. (2) Recuperação como mercadoria engaja @ artista numa reciprocidade negativa--i.e., quando primeiramente @ artista recebeu inspiração como uma dádiva gratuita, então fez uma doação diretamente a outras pessoas, que puderam ou não devolver seu entendimento, ou mistificação, ou um frango & um engradado de cerveja (reciprocidade positiva), o artista agora primeiro cria por dinheiro & recebe em dinheiro, enquanto todo aspecto de troca de dádivas recede em níveis secundários de sentido & finalmente começa a desvanecer (reciprocidade negativa). Finalmente nós temos arte turística, & o entretenimento condescendente, & então o tédio condescendente, daqueles que não mais pagarão pelo inautêntico. (3) Ou o Mundo da Arte vampiriza a energia do outsider, suga tudo que pode e passa o cadáver pro mundo da publicidade ou o mundo do entretenimento popular. Através dessa re-produção a arte finalmente perde sua aura & murcha e morre. Verdade, o traço utópico pode continuar, mas em sua essência a arte foi traída.

A injustiça desses termos como arte insana ou neo-primitiva jaz no fato de que essa arte não é produzida apenas pelos loucos ou inocentes, mas por todos que evitam a alienação da para-mídia. Seu verdadeiro apelo jaz na aura intensa que ela adquire através de presença imaginal imediata, não apenas em seu estilo visionário ou conteúdo, mas mais importantemente por sua mera "presentidade" (i.e., está aqui e é um presente). Nesse sentido é mais, e não menos, nobre que a arte mainstream da era pós-moderna--que é precisamente a arte da ausência ao invés da presença.

A única maneira justa (ou maneira bela, como dizem os Hopis) de se tratar a arte outsider seria mantê-la secreta--recusar-se a definí-la--passá-la em frente como um segredo, de pessoa-a-pessoa, seio-a-seio--ao invés de passá-la através da paramídia (jornais, periódicos, galerias, museus, livros de cafeteria, MTV, etc.). Ou mesmo melhor:--tornarmo-nos louc@s & inocentes nós mesm@s--para que assim Babilônia nos classifique quando nem a adorarmos nem a criticarmos mais--quando a tivermos esquecido (mas não perdoado!), & relembrado nossos próprios si-mesmos proféticos, nossos corpos, nossa verdadeira vontade.

Tradução: Iago

Referências


Rádio Sermonettes
Vernissage Visão Crua Um Potlatch Imediatista

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