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Uma noite com Noam Chomsky

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Noam Chomsky

8 de Outubro de 2001 - Transcrição de uma palestra conferida no Fórum de Tecnologia e Cultura, realizado no Instituto de Tecnologia de Michghan (MIT)

Todos sabem que é o pessoal da TV que governa o mundo [platéia ri]. Acabei de receber um ultimato obrigando-me a estar aqui e não lá. Bem, a última palestra que apresentei aqui nesse forum foi sobre um tópico bem mais agradável. Era sobre como nós, os homens, somos uma espécie em extinção e, dada a natureza de nossas instituições, estamos possivelmente bastante próximos de nos destruirmos a nós mesmos em pouquíssimo tempo. Agora podemos respirar aliviados, uma vez que o tópico de hoje ainda mais agradável: a nova guerra contra o terrorismo. Infelizmente, o mundo continua nos oferecendo coisas que o fazem cada vez mais terrível à medida que o tempo passa.

Eu vou considerar duas condições básicas para essa palestra.

A primeira delas é o que eu considero ser o reconhecimento do fato. Isto é, que os eventos de 11 de setembro foram uma atrocidade terrível, provavelmente o incidente mais devastador em toda a história do crime, fora a guerra. A segunda condição tem a ver com com os objetivos. Estou considerando que nosso objetivo é reduzir a probabilidade de tais crimes, sejam eles contra nós ou contra qualquer outra pessoa. Se alguém não aceitar tais condições, então o que eu vou dizer não está direcionado a essa pessoa. Se todos aqui aceitam-nas, então inúmeras questões podem ser levantadas, que merecem bastante reflexão.

Uma questão, e sem dúvida a mais importante, é: o que está acontecendo nesse exato instante? Implícita nela está outra questão: o que podemos fazer a respeito? A segunda tem a ver com o reconhecimento de que o que ocorreu em 11 de setembro é um evento histórico, um evento que mudará a História. Estou para concordar com isso. Penso ser verdade. Foi um evento histórico e a pergunta que devemos fazer é: por quê? A terceira pergunta tem a ver com o título "A Guerra Contra o Terrorismo". O que é isso exatamente? E há uma outra pergunta relacionada a essa última: o que é terrorismo? A quarta questão, que é mais restrita mas igualmente importante tem a ver com as origens dos crimes de 11 de setembro. E a quinta questão sobre a qual quero falar um pouco é que quais são as opções que temos para lutar contra o terrorismo e lidar com as situações que o propiciam.

Bem, vamos começar. Falarei sobre a situação no Afeganistão. Eu me limitarei apenas a fontes incontroversas, como o New York Times [platéia ri]. De acordo com o New York Times, há no Afeganistão um total de 7 ou 8 milhões de pessoas beirando a fome. Essa situação é verdadeira mesmo antes de 11 de setembro. Eles sobrevivem com ajuda de instituições internacionais. Em 16 de setembro a revista Times reportou que os EUA obrigaram que o Paquistão impedissem a entrada dos caminhões com provimentos de comida e outros mantimentos no Afeganistão. Pelo que pude averigüar, não houve nenhuma manifestação acerca disso nos EUA ou, por essa razão, na Europa. Esse assunto esteve em cadeia de radio nacional na Europa no dia seguinte. Não houve nenhum tipo de manifestação nos EUA ou na Europa, pelo que sei, para impedir essa imposição de matança massiva por fome de milhões de pessoas. A ameaça de ataques militares logo após os acontecimentos de 11 de setembro forçou a remoção de funcionários de ajuda internacional que trabalhavam em programas de assistência. Na verdade, estou novamente citando o New York Times. A imagens de refugiados alcançando o Paquistão depois de longas e penosas jornadas do Afeganistão eram cenas descritas como sendo de desespero e medo, à medida em que a ameaça de ataques liderados pelos EUA iam tornando os seus sofrimentos já antigos em uma catástrofe potencial. O país estava na beira de um precipício e nós o empurramos, citando um funcionário de ajuda que fora evacuado, tal como transcrito no New York Times.

O Programa Mundial da Comida da ONU, que é o principal entre os que lá existem, puderam retomar os serviços depois de três semanas, no início de outubro. Começaram devagar, dando continuidade à remessa de alimentos. Eles já não tinham funcionários de ajuda internacionais no Afeganistão, de forma que a distribuição dos alimentos foi paralizada. Isso foi feito assim que os bombardeios começaram. Puderam depois dar continuidade ao programa, mas de forma bem mais precária, enquanto as agências de ajuda começaram a levantar a voz condenando a iniciativa dos EUA de jogarem mantimentos pelo ar no Afeganistão, condenando-os como elementos de propaganda que traziam muito mais malefícios que benefícios. Depois da primeira semana de bombardeamento, o New York Times notou, numa página secundária, em apenas uma linha, num artigo sobre qualquer outra coisa, que pela aritimética da ONU haverá dentro em breve 7.5 milhões de afegãos em necessidade extrema por até mesmo um pedaço de pão, e que dentro de poucas semanas o inverno rigoroso fará com que a entrega de alimentos em determinadas áreas seja totalmente impossível, mas que - ainda no mesmo artigo - com o bombardeamento, a entega não deve chegar à metade do que se precisa. Um comentário casual. Que nos diz que a civilização ocidental está antecipando a matança de - é só fazer os cálculos - 3 ou 4 milhões de pessoas ou algo assim. No mesmo dia, o líder da civilização ocidental negou com desprezo, uma vez mais, as ofertas de negociação pela entrega do alvo alegado, Osama bin Laden, sob a entrega de alguma evidência para substanciar a demanda pela rendinção total. Isso foi negado. No mesmo dia a Porta-Voz oficial da ONU encarregada pela distribuição de alimentos implorou aos EUA que parassem o bombardeio no intuito de salvar milhões de vítimas. Pelo que sei, tal pedido sequer foi considerado. Isso foi numa segunda-feira. No dia 17 de outubro várias outras organizações juntaram-se à ONU no pedido de encerramento dos bombardeios. Isso não aparece no New York Times, mas é mencionado no Boston Globe, dentro de uma reportagem sobre outro tópico.

Bem, podíamos facilmente continuar, mas tudo isso nos mostra antes de tudo o que está acontecendo. Parece que o que está acontecendo é um tipo de genocídio silencioso. Esses fatos também nos mostram a reação da cultura de elite dos EUA, uma cultura em que estamos inseridos. Eles indicam que não sabemos exatamente o que vai acontecer, mas que existem planos sendo feitos e programas implementados que podem levar à morte de vários milhões de pessoas nas próximas semanas... bastante casualmente, sem direito a comentário ou reflexões; é algo tipo normal, aqui e em boa parte da Europa. Não no resto do mundo. Na verdade, nem mesmo na maior parte da Europa. Assim, se vocês lerem os jornais irlandeses ou os jornais escoceses... tão próximos, as reações variam enormemente. Bom, isso é o que está acontecendo nesse exato minuto. O que está acontecendo está sob nosso controle. Podemos fazer bastante para mudar o que está acontecendo. E é basicamente isso.

Discutamos agora uma questão um pouco mais abstrata, esquecendo por uns instantes que estamos vivenciando íncolumes a matança de 3 ou 4 milhões de pessoas. Voltemos à questão do evento histórico que ocorreu no dia 11 de setembro. Como eu disse, acho que é assim. Foi um evento histórico. Não, infelizmente, por conta de sua escala, desagradável até em pensar. Entretanto, em termos da escala, ele não é assim tão incomum. Eu disse que é o pior... provavelmente o pior dos piores crimes contra a humanidade. E isso pode ser verdade. Mas há crimes terroristas que são mais extremos, infelizmente. Ainda assim, é um evento histórico porque houve uma mudança. A mudança foi a direção para a qual as armas estavam apontadas. Isso é novo. Radicalmente novo. Vejamos a história dos EUA.

A última vez que o território nacional dos EUA foi atacado ou ameaçado foi quando os britânicos ataram fogo em Washington em 1814. Houve vários outros casos... É comum citarem Pearl Harbor, mas essa analogia não é muito boa. Os japoneses bombardearam bases militares em duas colônias norte-americanas, e não o território nacional; colônias que foram tomadas de seus habitantes naturais de uma forma nada simpática. Essa é a primeira vez que o território americano foi atacado em larga escala. Pode-se até encontrar exemplos menores; mas esse ataque é único.

Durante os últimos 200 anos, nós, os EUA, despojamos, ou invariavelmente exterminamos a população indígena local - isso significa muitos milhões de pessoas, conquistamos a metade do México, depedramos a região da América Central e Caribenha, algumas vezes além, conquistamos o Havaí e as Filipinas, matando vários 100.000 filipinos no processo. Desde a Segunda Grande Guerra, os EUA têm extendido seus domínios ao redor do mundo de uma maneira que eu não preciso descrever. Mas sempre matando alguém, as lutas sempre foram em outros lugares. Não aqui. Não em território nacional.

No caso da Europa, a mudança é ainda mais dramática porque sua história é ainda mais horrível que a nossa. Nós somos basicamente um produto da Europa. Por centenas de anos, a Europa tem dizimado povos em todo o mundo. Foi desse modo que eles conquistaram o mundo; não foi dando doce a crianças. Durante esse período, a Europa de fato sofreu com guerras sangrentas, mas uma guerra em que assassinos europeus se matavam mutuamente. O principal esporte da Europa durante centenas de anos foi o genocídio. A única razão pela qual tal esporte saiu de moda em 1945 foi... não teve nada a ver com democracia ou paz ou outra noção similar. Tinha a ver com o fato que todo mundo entendeu que da próxima vez que jogassem esse jogo, seria o fim do mundo. Porque os europeus, e mesmo os americanos, tinham desenvolvido armas de destruição tão potentes que aquele jogo tinha mesmo de ser descartado. E esses fatos são mais antigos do que pensamos. No Século XVII, cerca de 40% da população da Alemanha foi aniquilada em apenas uma guerra.

Mas durante todo esse período de assasinatos sangrentos, tudo se deu assim: europeus matando uns aos outros, e europeus matando povos fora da Europa. O Congo não atacou a Bélgica, a Índia não atacou a Inglaterra, a Algeria não atacou a França. É uniforme. Há algumas pequenas exceções, mas bastante insignificantes em escala, certamente invisivel na escala do que a Europa e os EUA têm feito no resto do mundo. Essa é a primeira mudança. A primeira vez que as armas foram apontadas para o lado oposto. E na minha opinião essa é provavelmente a razão pela qual estamos vendo reações tão divergentes nos dois lados do Mar Irlandês. Tenho notado isso em muitas entrevistas em ambos os lados. O mundo pode parecer bastante diferente, dependendo de que lado você está: dos que estão com o chicote ou dos que estão apanhando por centenas de anos. Muito diferente. Desse modo, eu penso que o choque e a surpresa na Europa e nos EUA são bastante compreensíveis. É um evento histórico, apesar de não sê-lo em escala, mas em algo diferente. E essa é a razão pela qual o resto do mundo... a maior parte do resto do mundo olha para esse evento de maneira tão diferenciada. Não que não simpatizem com as vítimas das atrocidades ou estejam horrorizadas com elas, isso é quase uniforme, mas vendo os fatos de uma perspectiva diferente. Algo que deveríamos tentar entender.

Bom, vamos agora para a terceira questão, "o que é a guerra contra o terrorismo?" e uma outra questão relevante: "o que é terrorismo?" A guerra contra o terrorismo tem sido descrita como uma batalha contra uma praga, um câncer que está sendo espalhado por um povo bárbaro, por "oponentes inescrupulosos da civilização". Esse é um sentimento que eu compartilho. As palavras que estou citando, no entanto, são de 20 anos atrás. São as palavras do presidente Reagan e de sua Secretaria do Estado. A administração Reagan chegou ao poder há 20 anos declarando que o ponto central de sua política internacional seria a guerra contra o terrorismo internacional. Essa mesma administração começou sua empreitada contra a praga disseminada por openentes inescrupulosos da civilização criando uma rede de terrorismo internacional extraordinária, totalmente sem precedentes em escala, que foi responsável por atrocidades em massa por todo o mundo. Não vou entrar em detalhes acerca disso. Vocês estão todos cientes disso; tenho certeza que aprenderam tudo direitinho na escola. [platéia ri]

Mas vou mencionar um caso que é totalmente incontroverso, de modo que não precisemos sequer arguir sobre a validade dele, que não chega a ser de modo nenhum o mais extremo, mas sem dúvida incontroverso. Ele é inconroverso por conta dos julgamentos das maiores autoridades internacionais do Corte Internacional de Justiça, a Corte Mundial, e do Conselho de Segurança da ONU. Então esse caso é incontroverso, pelo menos para pessoas que têm um mínimo de respeito por leis internacionais, direitos humanos, justiça e coisas assim. E agora vou propor a vocês uma tarefa de casa. Vocês podem ter uma estimativa do tamanho da categoria desse caso se simplesmente fizerem uma pesquisa da quantidade de vezes que esse caso incontroverso tem sido citado nos últimos dias. E é um caso particularmente relevante, não somente porque é incontroverso, mas porque oferece um precedente de como um estado coberto por leis internacionais trataria... de fato tratou o terrorismo internacional, o que é incontroverso. E esse caso foi ainda mais extremo que os eventos de 11 de setembro. Estou falando da guerra americana de Reagan contra a Nicarágua, que deixou dezenas de milhares de pessoas mortas, o país arruinado, talvez até impossível de se reerguer.

A Nicarágua respondeu a esses ataques. Mas não lançando bombas em Washington. A resposta foi levar o caso à Corte Mundial; não tiveram nenhum problema em apresentar evidências. A Corte Mundial aceitou o caso, julgou em favor da Nicarágua e condenou os EUA pelo "uso ilegal de força", o que é um outro nome para terrorismo internacional, ordenou que os EUA parassem o crime e que pagassem os danos que causaram. Os EUA obviamente desconsideraram a corte com total desprezo e anunciou que não aceitaria ser julgada por ela daí por diante. A Nicarágua então recorreu ao Conselho de Segurança da ONU, que demandou todos os Estados a considerarem as leis internacionais. Nenhum estado em particular foi mencionado, mas todos sabiam a que estado a ONU se referia. Os EUA desconsideraram a resolução. Os EUA são agora o único país que não apenas foi condenado pela Corte Mundial por terrorismo internacional, mas também desconsiderou uma resolução do Conselho de Segurança ordenando que todos os estados devem obedecer as leis internacionais. A Nicarágua foi então para a Assembléia Geral onde tecnicamente as resoluções não podem ser desconsideradas, mas um voto negativo dos EUA acarretaria na desconsideração. A resolução da Assembléia Geral foi basicamente a mesma, opondo-se a ela apenas os EUA, Israel e El Salvador. No ano seguinte, os EUA puderam contar somente com Israel na opisição, de modo que dois votos se opuseram à observação da lei internacional. Naquele ponto, não havia mais nada que a Nicarágua pudesse fazer dentro da lei. O país havia tentado todas as medidas possíveis. Medidas que não funcionam num mundo gerido pela força.

Esse caso é incontroverso, mas não é de modo nenhum o mais extremo. Ganharíamos um conhecimento sem par acerca de nossa cultura e sociedade e acerca do que está acontecendo agora se nos perguntássemos "o quanto sabemos acerca disso? o quanto falamos sobre isso? o quanto aprendemos sobre essas coisas na escola? o quanto tais assuntos ocupam a primeira página dos jornais?" E isso é apenas o começo. A resposta dos EUA à Corte Mundial e ao Conselho de Segurança foi a imediata organização de uma guerra. Incidentalmente, essa era uma guerra que envolvia duas partes. Os termos dessa guerra também mudaram. Pela primeira vez houve ordens oficiais... ordens oficiais ao exército terrorista para atacar o que chamaram "soft targets", ou alvos compostos por civis sem defesa, e para manterem-se afastados do exército da Nicarágua. Eles puderam fazer isso porque os EUA tinha controle total do ar por sobre a Nicarágua e o exército mercenário foi armado com equipamentos de comunicação avançados. Não era um exército de guerrilheiros, no sentido normal da expressão e podiam receber instruções acerca do posicionamento das forçar armadas da Nicarágua, de forma que podiam atacar comunidades agriculturais, clínicas de saúde, etc. "Soft targets" que não acarretavam em qualquer tipo de punição. Essas ordens foram ordens oficiais.

Qual foi a reação nos EUA? Foi sabida. Houve uma reação sobre esses acontecimentos. A medida foi considerada como sensata pela opinião de liberais da esquerda. Michael Kinsley, representante da esquerda na discussão, escreveu um artigo em que diz que não devíamos criticar a medida de forma tão leviana como o Human Rights Watch tinha acabado de fazer. Ele disse que uma "medida sensata" tem de "levar em conta o teste de análise de custo-benefício" -- isto é, estou citando agora, que é a análise da "quantidade de sangue e sofrimento que decorrerá, e a probabilidade de que a democracia vencerá no final das contas". Democracia tal como os EUA entendem o termo, que é geograficamente ilustrado nos países ao redor. Notem que é axiomático o fato de que os EUA, as elites americanas, é que possuem o direito de conduzirem tal análise e de levarem a cabo tais medidas se os testes mostrarem que assim deve ser. Os testes foram de fato positivos. Funcionou. Quando a Nicarágua finalmente sucumbiu aos ataques super-poderosos, os comentaristas aberta e alegramente comemoraram o sucesso dos métodos que foram adotados e descreveram-nos com fidelidade. Eu vou citar a revista Time apenas como um exemplo. Eles comemoraram os métodos adotados "para acabar com a economia e posicionar-se contra uma guerra longa e mortal que duraria até que os nativos tirassem o governo do poder pelas próprias mãos", com um custo para os EUA que são "mínimos", deixando a vítima "com pontes estraçalhadas, estações de energia sabotadas, e fazendas arruinadas", e desse modo proporcionando ao candidato dos EUA "uma causa ganha": terminando assim com o "empobrecimento do povo da Nicarágua." O New York Times publicou um artigo sobre o assunto com o seguinte título "Unidos na Alegria".

Essa é a cultura em que vivemos e ela nos revela vários fatos. Um é o fato de que o terrirismo funciona. Ele não falha. Funciona. Violência geralmente funciona. Essa é a história do mundo. Ademais, é um erro analítico sérip dizer, como usualmente é dito, que o terrorismo é a arma dos fracos. Como outras formas de violência, o terrorismo é primariamente a arma dos fortes, majoritariamente, de fato. É considerado ser a arma dos fracos porque os fortes também controlam os sistemas doutrinais e o terrorismo que fazem não é considerado como tal. Isso é quase universal. Não sei de nenhuma exceção histórica, até os piores assassinos de massa vêem o mundo assim. Consideremos os nazistas. Eles não estavam fazendo terrorismo na Europa ocupada. Estavam protegendo a população local do terrorismo dos partidários. E como outros movimentos de resistência, havia terrorismo. Os nazistas estavam lutando contra o terror. Ademais, os EUA essencialmente concordaram com isso. Depois da guerra, as forças armadas dos EUA fizeram estudos das operações anti-terror dos nazistas na Europa. Primeiramento devo dizer que os EUA se apossaram desse conhecimento e começaram a colocá-lo em prática, freqüentemente contra os mesmos alvos, a antiga resistência. Mas os militares também estudaram os métodos nazistas, publicando estudos interessantes, algumas vezes críticos, porque muitos dos métodos não eram corretamente utilizados; então uma análise crítica: não fizeram isso bem-feito, fizeram aquilo bem-feito. Esses métodos todavia, com o conselho dos oficiais do Wermacht que foram trazidos paros EUA, tornaram-se o manual de contra-insurgência, de anti-terror, de conflito de baixa intensidade, como são chamados. E esses são os manuais e os procedimentos que estão sendo usados. Então não é apenas o fato que os nazistas fizeram o que fizeram, mas que suas ações foram consideradas pelos líderes da civilação ocidental - isto é, nós - a coisa certa a fazer. E então tratamos de fazê-los nós mesmos. O terrorismo não é a arma dos fracos. É a arma daqueles que estão contra nós, quem quer que sejamos. E se puderem achar uma exceção histórica para isso, ficarei interessado em conhecer.

Bem, uma indicação interessante da natureza de nossa cultura, ou alta cultura, é o meio como isso tudo é considerado. Um desses meios é a eliminação de informação. Assim ninguém jamais ouviu falar nisso. E o poder da propaganda e doutrina americanas é tamanho que mesmo entre as vítimas esses fatos são quase desconhecidos. Quero dizer, quando se fala acerca disso para as pessoas na Argentina, é preciso lembrá-los. Ah, sim, isso aconteceu, nós esquecemos disso. A informação é profundamente eliminada. As conseqüências do monopólio da violência podem ser bastante poderosas em termos ideológicos e em outros termos.

Bom, uma aspecto luminar de nossa própria atitude no que diz respeito ao terrorismo é a reação à idéia de que a Nicarágua tinha o direito de se defender. Na verdade, eu investiguei esse ponto em detalhe com buscas em bancos de dados e esse tipo de coisa. A idéia de que a Nicarágua tivesse o direito de se defendr era considerada ultrajante. Não há absolutamente nada nos comentários da mídia em evidência indicando que a Nicarágua podia ter tal direito. E esse fato foi explorado pela administração Reagan e sua propaganda de uma maneira bastante interessante. Aqueles entre vocês que viveram esse período lembrarão que eles periodicamente lançavam rumores que a Nicarágua estava recebendo jatos MIG da Russia. Na época, os gaviões e as pombas se opuseram. Os gaviões diziam "ok, vamos bombardeá-los". As pombas diziam "peraí, vamos ver primeiro se os rumores são verdadeiros; se os rumores forem verdadeiros, então podemos bombardeá-los, porque eles são uma ameaça aos EUA". Que interessante! De repente eles estavam recebendo MIGs. Bem, eles bem que tentaram comprar jatos em países europeus, mas os EUA pressionaram os seus aliados de forma que eles não enviassem à Nicarágua meios de proteção, porque queriam que eles acabassem indo ter com os russos. Isso era bom para propósitos propagandísticos. Então eles se tornaram uma ameaça aos EUA. Lembrem-se, eles estavam a apenas dois dias de marcha de Harlingen, no Texas. Nós até mesmo declaramos estado de emergência nacional em 1985 para proteger o país contra a ameaça da Nicarágua. Por que eles iriam querer jatos? Bem, pelas razões que já mencionei. Os EUA tinham total controle sob o espaço aéreo deles, estavam sobrevoando-o e usando-o para fornecer instruções à milica terrorista de forma a permitir que eles atacassem "soft targets" sem que precisassem ter de enfrentar as forças armadas do país. Todos sabiam que essa era a razão. Eles não vão usar os seus jatos para nada além disso. Mas a idéia de que a Nicarágua pudesse defender seu espaço aé;reo contra ataques super-poderosos que estavam direcionando forças terroristas para atacar alvos civis indefensáveis, isso foi considerado nos EUA como ultrajante, e de maneira bastante uniforme. As exceções são tão poucas que eu poderia listá-las. Eu não quero sugerir que vocês acreditem piamente em mim. Dêem uma olhada. Isso inclue nossos próprios políticos, incidentalmente.

Outro exemplo de como consideramos o terroriamo está acontecendo nesse exato minuto. Os EUA acabaram de designar um embaixador para a ONU que liderará a guerra contra o terrorismo. Quem é ele? Bem, seu nome é John Negroponte. Ele foi o embaixador americano no estado feudal, que é exatamente isso, de Honduras no início dos anos 80. Houve certa confusão acerca do fato de que ele devia estar sabendo, e certamente esse era o caso, da matança em larga escala e outras atrocidades que estavam sendo feitas pelas forças de segurança em Honduras, forças estas que estavamos apoiando. Mas isso é apenas um detalhe. Como pro-cônsul de Honduras, como ele era chamado lá, ele eta o supervisor local da guerra terrorista baseada em Honduras, algo pelo qual o seu país tinha sido condenado pela Corte Mundial e também pelo Conselho de Segurança. E ele acabou de ser designado como embaixador da ONU para liderar uma guerra contra o terrorismo. Um outro experimento que vocês podem fazer é checar para ver qual foi a reação a respeito disso. Bom, eu direi o que vocês vão achar, mas procurem assim mesmo. Isso nos diz um bocado acerca da guerra contra o terrorismo e um bocado acerca de nós mesmos.

Depois que os EUA tomaram o país novamente sob as condições que foram tão bem ilustradas na imprensa, o país ficou bastante destruído nos anos 80, mas tem ido à bancarrota desde então em todos os aspectos. Economicamente ele tem decaído significativamente desde que os EUA o dominou, democraticamente e em todos os demais aspectos. É agora o segundo país mais pobre no hemisfério. Devo dizer... Não vou falar a respeito disso, mas eu mencionei que eu falei sobre a Nicarágua porque esse é um caso incontroverso. Se vocês olharem para os outros países naquela região, o terrorismo foi ali muito mais extremo e ele está diretamente relacionado a Washington e isso não é de maneira nenhuma tudo.

Mas isso estava acontecendo em outras partes do mundo também; considere a África. Durante os anos Reagan, os ataques sul-africanos contra os países vizinhos, que foram financiados pelos EUA e a Grã-Bretanha, mataram cerca de um milhão e meio de pessoas e deixaram um prejuízo de 60 bilhões de dólares e países completamente destruídos. E se formos ao redor do mundo, encontraremos mais exemplos.

Agora essa foi a primeira guerra contra o terrorismo sobre a qual acabei de dar alguns pequenos exemplos. É de se esperar que prestemos atenção a eles? Ou talvez achar que eles possam ser relevantes? Afinal eles não são exemplos da história antiga. Bem, evidentimente não o são se vocês levarem em consideração os tópicos correntes da discussão sobre a guerra contra o terrorismo que tem sido o principal foco de atenção nos últimos dias.

Eu mencionei que a Nicarágua se tornou o segundo país mais pobre do hemisfero. Qual é o mais pobre deles? Bem, é claro que é o Haiti, que também foi vítima da maior parte das intervenções americanas no século XX. Deixamos aquele lugar totalmente destruído. É o país mais pobre. A Nicarágua é o segundo na escala das intervenções dos EUA durante o séc. XX. É o segundo mais pobre. Na verdade, essa posição está sendo disputada com a Guatemala. Muda a cada ano ou dois. Também existe uma disputa acerca de que país foi a pior vítima das intervenções norte-americanas. Acho que esperam que pensemos que tudo isso foi algum tipo de acidente. Que taisfatos nada tem a ver com o que ocorreu na história. Talvez.

O país que mais violou os direitos humanos na décade de 90 foi a Colómbia, sem sombra de dúvida. Esse país foi também o que mais recebeu apoio militar dos EUA durante esse período, mantendo desse modo o terrorismo e a violação dos direitos humanos. Em 1999, a Colómbia foi substituída pela Turquia na escala de maior destinatário de armas americanas no mundo inteiro, isso excluindo Israel e Egito, que estão numa categoria separada. E isso nos diz bastante acerca da guerra contra o terrorismo.

Por que a Turquia estava recebendo tamanha quantidade de armas norte-americanas? Bem, se vocês observarem o fluxo de armas dos EUA na Turquia, vão notar que a Turquia sempre recebeu armas norte-americanas. É um lugar estratégico, membro da OTAN, etc. Mas o fluxo de armas para a Turquia cresceu significamente em 1984. Não teve nada a ver com a guerra fria. Os russos estavam sendo derrotados. Tal fluxo manteve-se alto entre 1984 a 1999. Quando ele diminuiu, foi substituído pela Colómbia. O que aconteceu entre 1984 e 1999? Bem, em 1984 a Turquia iniciou uma guerra terrorista contra os curdos no sudeste da Turquia. E esse foi exatamente o momento em que a ajuda dos EUA alcançaram o topo, ajuda militar. E não foram apenas pistolas. Foram jatos, tanques, treino militar, etc. Tal ajuda manteve-se alta à medida que as atrocidades também cresciam no decorrer dos anos 90. O ano em que o maior apoio se deu foi 1997. Em 1997, a ajuda militar dos EUA à Turquia foi maior do que no período de 1950 e 1983, ou seja, durante a guerra fria, o que é uma indicação do quanto a guerra fria influenciou as medidas. E os resultados foram impressionantes. Isso acarretou num total de 2-3 milhões de refugiados. Uma das piores limpezas étnicas do final da década de 90. Dezenas de milhares de pessoas mortas, 3500 vilas e cidades destruídas, muito mais do que em Kosovo. E os EUA eram responsáveis pela manutenção de 80% das armas, aumentando esse número na proporção do aumento das atrocidades, que alcançou o seu cume em 1997. O apoio começou a declinar em 1999 porque, uma vez mais, o terrorismo funciona geralmente assim quando é liderado por seus agentes principais, majoritariamente os poderosos. Desse modo, em 1999, a terror turco, chamado obviamente anti-terror - mas, como eu já disse, isso é universal -, funcionou. Então a Turquia foi substituída pela Colómbia, que ainda não tivera sucesso em sua guerra terrorista. E desse modo tiveram de alcançar a primeira posição na escala de recipientes de armas norte-americanas.

Bem, o que faz tudo isso particularmente impressionante é que esses acontecimentos estavam tomando lugar bem no meio de uma grande avalanche de auto-congratulação por parte dos intelectuais ocidentais que provavelmente não tem par na história. Quero dizer, vocês todos devem lembrar disso. Foi apenas há alguns anos atrás. Grande auto-adulação sobre como pela primeira vez na história nós fomos tão magnificentes; que nós estamos nos posicionando a favor de princípios e valores; dedicados à anulação da falta de humanidade em toda a parte do mundo na nova era disso-e-daquilo, e assim por diante. E nós certamente não podemos tolerar atrocidades nos países fronteiriços da OTAN. Esse tipo de coisa foi repetido várias vezes. Apenas dentro das fronteiras da OTAN é que podemos não somente tolerar atrocidades bem piores, mas também contribuir com elas. Outra investigação acerca da civilização ocidental e nossa própria é quão freqüentemente tal assunto tem sido levado em consideração? Tentem investigar. Não vou repetir. Mas é instrutivo. É um ato bastante impressionante para um sistema de propaganda numa sociedade livre. É bastante interessante. Eu não acredito que se pudesse fazer isso num estado totalitário.

E a Turquia está bastante grata. Apenas há alguns dias atrás, o primeiro ministro Ecevit anunciou que a Turquia se uniria à guerra contra o terrorismo, bastante entusiasticamente, bem mais que outros países. Na verdade, ele disse que seu país contribuiria com tropas, coisa que nenhum outro país estaria ansioso por fazer. E ele explicou porquê. Ele disse: nós devemos gratidão aos EUA porque foram os EUA o único país que contribuiu tão significativamente para nossa, em suas palavras, "guerra contra o terrorismo", isto é, para a nossa própria limpreza étnica massiva e atrocidades e terrorismo. Outros países ajudaram um pouco, mas ficaram na retaguarda. Os EUA, no entanto, contribuíram entusiastica e decisivamente e conseguiram fazer isso por conta do silêncio - pode ser a palavra certa - das classes educadas da população que poderiam facilmente saber os detalhes desse caso. É um país livre, no final das contas. Você pode ler relatos de direitos humanos. Você pode ler todo tipo de coisa. Mas escolhemos contribuir com as atrocidades e a Turquia está bastante feliz, eles nos devem por isso e desse modo contrbuirão com tropas exatamente como o fizeram na guerra da Sérvia. A Turquia foi bastante elogiada por usar os F-16 que demos a eles para bombardear a Sérvia, exatamente como tinham feito com sua própria população até o momento em que foram bem-sucedidos em eliminar o terrorismo interno - como eles assim denominaram. E como é comum, como sempre ocorre, resistência não inclui terrorismo. É uma verdade na Revolução Americana. É uma verdade em cada um dos casos que conheço. Assim como é verdade que aqueles que possuem um monopólio de violência falam sobre si próprios como se estivessem lutando contra o terrorismo.

Isso é de fato bastante impressionante e tem a ver com a coalisão que está sendo organzada para lutar na guerra contra o terrorismo. E é bastante interessante ver como tal coalisão está sendo descrita. Então dêem uma olhada no jornal Christian Science Monitor dessa manhã. Esse é um bom jornal. Um dos melhores jornais internacionais, com cobertura real do mundo. A história principal, a que está na primeira página, é sobre como os EUA, vocês sabem, as pessoas costumavam não gostar dos EUA, mas agora estão começando a respeitar esse país, e elas estão bastante felizes com a maneira pela qual os EUA estão lidando com essa guerra contra o terrorismo. E o principal exemplo, bem, na verdade o único exemplo sério, os outros são apenas piadas, é a Algéria. Acontece que a Algéria está bastante entusiasmada com a guerra dos EUA contra o terrorismo. A pessoa que escreveu o artigo é um expert sobre assuntos da África. Ele deve saber que a Algéria é um dos estados mais terroristas no mundo e tem promovido atentados terroristas terríveis contra a sua própria população nos últimos anos, na verdade. Por algum tempo, esses fatos eram encobertos. Mas foram finalmente expostos em França por desertores do exército da Algéria. Isso já se tornou público lá e na Inglaterra. Aqui, no entanto, ainda estamos orgulhosos porque um dos piores estados terroristas do mundo está agora entusiasticamente cumprimentando os EUA por sua guerra contra o terrorismo, e mesmo festejando o fato de ser os EUA o país a liderar tal guerra. Isso mostra como estamos nos tornando popular.

E se vocês olharem para a coalisão que está sendo formada contra o terrorismo, isso vai revelar bastante mais coisas. Um dos membros principais de tal coalisão é a Rússia, que está contente por ter os EUA como aliados em sua própria guerra terrorista assassina na Chechênia. A China também está se unindo entusiasticamente. Lá também eles estão contentes por terem o apoio nas atrocidades que estão cometendo na região oeste do país contra os que são denominados muçulmanos sectários. A Turquia, como já mencionei, está bastante contente com a guerra contra o terror. Eles são especialistas. A Algéria, a Indonésia, estão todos contentes por ter ainda mais apoio dos EUA pelas atrocidades que estão cometendo em Ache e em outros lugares. Podemos considerar em detalhe cada membro da lista; a lista de estados que se uniram na coalisão contra o terror é bastante impressionante. Eles têm uma característica em comum. Eles estão certamente entre os maiores estados terroristas do mundo. E eles estão sendo liderados pelo campeão de todos.

Bom, isso nos leva à questão "o que é terrorismo?" Eu tenho considerado que nós todos entendemos o conceito de terrorismo. Bem, o que é terrorismo então? Bom, existem respostas fáceis para essa questão. Há uma definição oficial. Você pode encontrá-la no código dos EUA ou em manuais militares dos EUA. Uma breve sentença tirada de um manual militar dos EUA é bastante justa: terrorismo é o uso calculado da violência ou a ameaça de violência para se alcançar objetivos de ordem política ou religiosa através do uso de intimidação, coerção ou da perpetração do medo. Isso é terrorismo. É uma definição bastante justa. Eu considero razoável acitá-la. O problema é que ela não pode ser aceitada, porque se você o faz, conseqüências erradas podem resultar. Por exemplo, todas as conseqüências que acabei de citar. Há uma grande tentativa nesse instante na ONU de se tentar desenvolver um tratado compreensivo sobre o terrorismo. Quando Kofi Annan recebeu o prêmio Nobel há pouco tempo, vocês devem ter percebido que foi dito que ele teria falado que devíamos parar de perdermos mais tempo no tocante a isso e agirmos o quanto antes.

Mas há um problema. Se usarmos a definição oficial de terrorismo no tratado compreensivo, teremos resultados completamente errados. Desse modo, isso não pode ser feito. Na verdade, é ainda pior que isso. Se vocês derem uma olhadinha na definição de Guerrilha de Baixa Intensidade, que é a medida oficial dos EUA, você verão que ela é uma paráfrase bastante próxima do que acabei de ler. Na verdade, Guerrilha de Baixa Intensidade é apenas um outro nome para terrorismo. Essa é a razão pela qual todos os países, pelo que sei, chamam qualquer ato terrível que estejam promulgando "anti-terrorismo". Nós chamamos Anti-Insurreição, ou Conflito de Baixa Intensidade. Então esse é um problema sério. Você não pode usar as definições atuais. É preciso cuidadosamente achar uma definição que não acarrete em todas as possíveis conseqüências erradas.

Há outros problemas. Alguns deles vieram à tona em dezembro de 1987, no cume da primeira guerra contra o terrorismo, isto é, quando o furor contra a praga estava em seu apogeu. A Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução bastante vigorosa contra o terrorismo, condenando a praga nos termos mais vigorosos possíveis, pedindo a todos os países para lutarem contra ela de todas as formas possíveis. Tal resolução foi aprovada unanimamente. Um país se absteve: Honduras. Por que os EUA e Israel votariam contra uma resolução contra o terrorismo em seus termos mais vigorosos, na verdade nos mesmos termos usados na administração Reagan? Bem, há uma razão. Há um parágrafo nessa longa resolução que diz que nada nessa resolução infringe nos direitos das pessoas lutando contra regimes racistas e colonialistas ou contra ocupações militares estrangeiras que queiram continuar com sua resistência com o apoio de outros, outros estados, estados estrangeiros em favor de suas causas justas. Bem, os EUA e Israel não podiam aceitar isso. A razão principal pela qual não podiam aceitar isso naquela época era a África do Sul. A Áfricado Sul era um aliado, oficialmente. Havia uma força terrorista na África do Sul. Era chamada o Congresso Africano Nacional. Ela era uma força terrorista oficial. A África do Sul era um aliado e nós certamente não podíamos dar apoio a ações de um grupo terrorista contra um regime racista. Isso seria impossível.

E obviamente há outra questão. Os territórios ocupados de Israel, indo já para o seu 35 ano. Apoiados principalmente pelos EUA, que já há 30 anos tentam se opor a um acordo diplomático - e ainda o fazem. Há outro exemplo naquela mesma época. Israel estavao cupando o sul do Líbano e estava enfrentando o combate do que os EUA chamam uma força terrorista, Hizbullah, que de fato foram bem sucedidos em tirar Israel do Líbano. E não podemos permitir que ninguém lute contra uma ocupação militar quando ela é uma das que damos apoio, desse modo, os EUA e Israel tiveram de votar contra a resolução da ONU contra o terrorismo. E eu já mencionei antes que um voto dos EUA contra alguma coisa... significa necessariamente um veto. O que é apenas metade da história. Os EUA também vetam fatosda história. Assim, nada disso foi relatado, e nenhum desses incidentes jamais apareceram nos anais sobre o terrorismo. Se vocês derem uma olhada nos trabalhos acadêmicos sobre o terrorismo, observarão que nada do que acabei de dizer aparece aí. A razão para isso é que as pessoas erradasestão segurando as armas. Precisamos levar mais a sério as definições e os trabalhos acadêmicos de forma a chegarmos a conclusões mais acertadas; de outro modo, não teremos pesquisar nem jornalismo honoráveis. Bem, esses são alguns problemas que estão impedindo o esforço de se desenvolver um tratado compreensivo contra o terrorismo. Talvez devessemos ter uma conferência acadêmica ou algo assim para tentarmos ver a possibilidade de se propor um caminho de definirmos o terrorismo de forma que os resultados sejam corretos, e não errados. Isso não será fácil.

Bom, vamos agora voltar à quarta questão: "quais são as origens dos crimes de 11 de setembro?" Aqui precisamos fazer uma distinção entre duas categorias que não devem ser consideradas em conjunto. Uma delas é no que respeita aos verdadeiros agentes do crime, a outra tem a ver com um tipo de reseva de ao menos simpatia, e algumas vezes apoio que eles recebem até mesmo entre as pessoas que se opoem aos criminosos e seus atos. E essas duas coisas são coisas bastante diferentes.

Bem, no que diz respeito aos responsáveis, de certo modo ainda não estamos muito certos. Os EUA não estão conseguindo - ou não estão querendo - oferecer qualquer evidência, qualquer evidência que faça sentido. Houve um tipo de jogo há algumas semanas atrás quando Tony Blair foi instruído a apresentar uma evidência. Eu não sei exatamente qual foi o propósito disso. Talvez para fazer parecer que os EUA estavam guardando algum tipo de evidência secreta que não podiam revelar ou para fazer com que Tony Blair pudesse justificar atos Churchillianos, ou algo assim. Qualquer que tenham sido as intenções das relações públicas, ele ofereceu uma documentação que foi considerada em círculos sérios tão absurda que ela chegou sequer a ser menconada. Desse modo, o Wall Street Journal, por exemplo, um dos jornais mais sérios que temos, publicou um artigo bastante pequeno, creio que na página 12, em que observam que não existem muitas evidências e então citam um alto oficial dos EUA dizendo que não importava se existissem evidências ou não, pois eles o fariam o que tivessem de fazer com ou sem elas. Então para que se importar com evidências? As imprensas mais ideológicas, como o New York Times e outros jornais, trouxeram manchetes enormes em primeira página. Mas a reação do Wall Street Journal foi razoável, e se vocês derem uma olhadinha na chamada "evidência", vocês saberão porquê. Mas consideremos que seja verdade. É realmente impressionante para mim como foram fracas as evidências. Eu cheguei mesmo a pensar que se podia fazer um melhor trabalho sem um serviço de inteligência [platéia ri]. Na verdade, considerem que elas apareceram depois de semanas da mais intensiva investigação na história de todo serviço de inteligência do mundo ocidental na tentativa de se juntar evidências. E foi um caso prima-facie. Foi um caso fortíssimo, mesmo antes de se ter algo em mãos. E acabou exatamente como tinha começado, um caso prima-facie. Então consideremos que seja verdade. Então consideremos que - pareceu óbvio desde o primeiro dia, e ainda parece - os verdadeiros responsáveis são originários do islamismo radical, aqui chamado, redes fundamentalistas das quais a rede de bin Laden é sem dúvida parte significante. Se eles estavam envolvidos ou não ninguém sabe. Isso realmente não vem ao caso.

São essas redes que estão por trás de tudo. Bem, de onde vieram elas? Todos sabemos a resposta. Ninguém sabe melhor sobre isso que a CIA, porque foi essa organização que as organizou e as financiou por bastante tempo. Elas vieram à tona na década de 80, apoiadas pela CIA e por seus aliados: o Paquistão, a Grã-Bretanha, a França, a Arábia Saudita, o Egito e a China estavam todos envolvidos. Eles podiam até estar envolvidos um pouco antes, talvez por volta de 1978. A idéia foi tentar atormentar os russos, o inimigo em comum. De acordo com o Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, Zbigniew Brzezinski, os EUA se envolveram nisso em meados de 1979. Vocês se lembram, apenas para colocar as datas nos eixos, que os russos invadiram o Afeganistão em dezembro de 1979? Ok. De acordo com Zbigniew Brzezinski, o apoio dos EUA pela guerra mojahedin contra o governo começou seis meses antes. Ele é bastante orgulhoso desse fato. Ele diz que nós levamos os Russos para, em suas próprias palavras, uma armadilha afegã, ao apoiarmos o mojahedin, fazendo-os invadirem, fazendo-os caírem na armadilha. De modo que pudéssemos então desenvolver tar exército mercenário. Não um pequeno exército, talvez 100.000 homens ou algo assim, juntando os maiores assassinos que podiam achar, que eram islamistas radicais fanáticos pelos aredores da África do Norte, Arábia Saudita, onde quer que pudessem encontrá-los. Eles eram freqüentemente chamados os "afeganos", mas muitos deles, como bin Laden, não eram afegãos. Eles foram unidos pela CIA e seus comparsas de vários lugares. Se Zbigniew Brzezinski está dizendo a verdade ou não, não sei. Ele pode ter querido somente se auto-engrandecer, ele é, aparentemente, bastante orgulhoso dessa feita, sabendo incidentalmente quais seriam as conseqüências. Mas talvez seja verdade. Saberemos um dia se os documentos forem liberados. De qualquer maneira, essa é a percepção dele. Por volta de janeiro de 1980, não era sequer questionado o fato de estarem os EUA organizando os afeganos, essa força militar massiva, para tentar fazer o maior estrago com os russos. Foi algo legítimo para os afegãos lutar contra a invasão russa. Mas a intervenção dos EUA não estavam ajudando os afegãos. Na verdade, apenas ajudaram a destruir o país, e muito mais. Os afeganos forçaram por fim a derrota dos russos.

Ao mesmo tempo, as forças terroristas que a CIA estava organizando, armando e treinando estavam organizando seus próprios atos. Não era nenhum segredo. Um dos primeiros atos foi em 1981 quando eles assassinaram o pesidente do Egito, que foi um de seus criadores mais entusiasticos. Em 1983, uma bomba humana suicida - que podia ou não estar relacionado, é bastante nebuloso, inguém sabe - fez com que o exército militar dos EUA desertassem o Líbano. E os atos continuaram. Eles tinham seus próprios planos. Os EUA estavam felizes em poder mobilizá-los a favor de suas causas, mas ao mesmo tempo eles estavam organizando seus próprios planos. Eles foram bem claros acerca disso. Depois de 1980, quando os russos desistiram da invasão, eles simplesmente voltaram suas atenções para outros alvos. Desde então, têm lutado na Chechênia, no Oeste da China, na Bósnia, na Kashmira, no sudoeste da Ásia, na África do Norte, em toda a parte.

Estão nós dizendo apenas o que pensam. Os EUA querem silenciar o único canal de TV livre no mundo Árabe porque eles estão televisionando uma quantidade enorme de coisas, que vão dese Powell até Osama bin Laden. Desse modo, os EUA estão agora se juntando aos regimes repressivos do mundo árabe no sentido de calarem os que falam. Mas se você derem ouvido ao que bin Laden diz, verão que vale a pna. Há bastante entrevistas. E há muitas entrevistas lideradas por reporteres do ocidente, se você preferem não ouvir a voz dele, como as feitas por Robert Fisk e outros. E o que ele vem dizendo é bastante consistente por já há bastante tempo. Ele não é o único, mas talvez o mais eloqüente. Não é consistente apenas em relação ao tempo, mas sobretudo em relação às ações. Então há muitas razões para levá-lo a sério. O principal inimigo deles é o que chamam os regimes autoritários, brutais e opressivos do mundo árabe, e quando dizem isso, a resonância é sentida em muitas partes da região. Eles também querem defender substituí-los por governos islámicos. Aí é que perdem apoio do povo da região. Mas até então, as pessoas estão a seu favor. Pelo ponto de vista deles, até da Arábia Saudita - o estado fundamentalista mais extremo -, até o Talibão não é islâmico o suficiente para eles. Ok, naquele ponto, eles receberam muito pouco apoio, mas até aquele ponto, ele receberam bastante apoio. Eles também queriam defender os muçulmanos em outras regiões. Eles odeiam os russos enormemente, mas assim que os russos abandonaram o Afeganistão, eles pararam de cometer atos terroristas na Rússia, como vinham fazendo antes disso, com o apoio da CIA. Eles mudaram-se para a Chechênia. Mas ali estão, defendendo os muçulmanos contra a invasão russa. A mesma coisa que ocorre em todos os outros lugares que já mencionei. Do ponto de vista deles, estão defendendo os muçulmanos contra os inféis. E eles falam a respeito disso bastante claramente e isso é exatamente o que vêm fazendo.

Mas por que agora voltaram-se contra os EUA? Bom, isso tem a ver com o que chamam a invasão dos EUA na Arábia Saudita. Em 1990, os EUA estabeleceram bases militares permanentes na Arábia Saudita, o que, do ponto de vista deles, era algo comparável à invasão russa ao Afeganistão, sendo que a Arábia Saudita é um lugar ainda mais importante. É a terra dos pontos mais sagrados do mundo islâmico. E foi exatamente aí quando as atividades deles se voltaram contra os EUA. Se vocês lembram, em 1993 eles tentaram explodir o World Trade Center. Conseguiram apenas um pouco, mas não tudo, e isso era apenas um exemplo do que podia vir. Os planos eram explodir o prédio da ONU, a Holanda, o túnel Lincoln, o prédio do FBI. Eu acho que tinham outros alvos na lista. Bem, eles somente conseguiram realizar parte dos projetos, não ele por inteiro. Uma dos prisioneiros, finalmente, entre vários, era um clérigo egípcio que tinha entrado nos EUA - apesar da oposição do Serviço de Imigração - graças à CIA, que queria ajudar um de seus amigos. Umas semanas depois, ele estaria bombardeando o World Trade Center. E isso tem acontecido sempre. Não vou entrar em detalhes, mas isso, se querem entender melhor o quador, é algo consistente. É um quadro consistente.

E sobre a tal reserva de apoio? Bem, não é tão difícil entender o que isso seja. Uma das coisas boas que tem acontecido desde 11 de setembro é que alguns membros da imprensa e algumas discussões têm começado a se abrir para algumas dessas coisas. O melhor deles ao meu entender é o Wall Street Journal, que imediatamente começou a publicar, em poucos dias, reportagens sérias, buscando reportagens sérias sobre as razões pelas quais as pessoas da região, apesar de odiarem bin Laden e desprezarem o que quer que ele faça, apoiam-no de muitas maneiras e até consideram-no a consciência do Islã, como já se disse. Agora o Wall Street Journal e outros jornais não estão fazendo pesquisas de opinião pública. Eles estão pesquisando a opinião de seus amigos: banqueiros, profissionais, advogados internacionais, homens de negócio ligados aos EUA, pessoasque entrevistam em restaurantes McDonalds, que são restauranteselegantes lá, vestindo roupas americanas da hora. Essas são as pessoas que eles estão entrevistando, porque querem entender quais são as atitudes delas. E as atitudes delas são bem explícitas, bem claras de muitas maneiras no que concerne à mensagem de bin Laden e de outros. Eles estão bastante zangados com os EUA por conta do apoio que dão a regimes autoritários e brutais; a intervenção que fazem para impedir qualquer tipo de movimentação a favor da democracia; a intervenção que realizam para impedir o desenvolvimento economico; as medidas que acabam por devastar sociedades civis do Iraque e fortalecer Saddam Hussein; e eles lembram-se, mesmo que prefiramos não fazê-lo, que os EUA e a Grã-Bretanha ajudaram Saddam Hussein em suas piores atrocidades, o que inclui o ataque aos curdos; bin Laden sempre menciona isso. E eles sabem disso mesmo que não queiramos. E claro o apoio que dão à ocupação militar israelita que é severa e brutal. Ela estáagora completando 35 anos. Os EUA têm dado a maior parte doi apoio econômico, militar e diplomático para essa ocupação, e ainda o faz. E sabemos que eles não gostam disso. Particularmente quando esse fato é emparelhado com as medidas dos EUA contra o Iraque, contra as sociedades civis do Iraque, que estão sendo destruídas. Ok, essas são, no geral, as razões. E quando bin Laden dá essas razões, as pessoas a reconhecem como válidas e o apoiam.

Agora essa não é a forma como as pessoas aqui gostam de considerar o assunto, pelo menos as pessoas com educação formal, com opiniões liberais. Elas preferem a seguinte linha de raciocínio que tem estado na imprensa, na maior parte de liberais esquerdistas, incidentalmente. Eu não fiz até o momento nenhum estudo sério, mas acredito que a opinião da direita têm sido em geral mais honesta. Mas considerem o New York Times, por exemplo, que publicou um artigo do Ronald Steel, um intelectual liberal de esquerda. Ele se pergunta: "por que eles nos odeiam?". Esse artigo apareceu no mesmo dia em que o Wall Street Journal publicou a pesquisa de opinião que mostrava as razões pelas quais eles nos odeiam. Então ele afirma "eles nos odeiam porque somos os campeões do mundo no que concerne à nova ordem do capitalismo, individualismo, e democracia, o que deveria ser a norma em qualquer parte". Essa seria a razão pela qual eles nos odeiam. No mesmo dia em que o Wall Street Journal publica uma pesquisa com opiniões de banqueiros, profissionais, advogados internacionais que dizem "olhem, nós odiamos vocês porque vocês estão impedindo a democracia, estão impedindo o desenvolvimento econômico, estão dando apoio a regimes brutais e terroristas, e estão fazendo tudo isso nessa região". Alguns dias depois, Anthony Lewis explicou que os terroristas buscam apenas "niilismo apocalíptico", nada mais; e nada do que façamos importa. A única conseqüência de nossos atos, ele afirma, que poderia ser perigosa é que ela dificulta para a unificação dos árabes na coalização contra o terrorismo. Mas além disso, o que quer que fazemos é irrelevante.

Bom, vocês devem saber, pelo menos isso tem a vantagem de ser algo reconfortante. Isso nos faz sentirmo-nos bem: como somos bons. Nos possibilita desconsiderarmos as conseqüências de nossas ações. Tem alguns defeitos. Um é que está em total discordância com tudo o que sabemos. E outro defeito é que isso é uma justificativa perfeita para fazê-lo crer na validade de se iniciar um ciclo de violência. Se vocês querem, podem viver com a cabeça enterrada na areia e fingir que eles nos odeiam porque estão contra a globalização, que essa é a razão pela qual mataram Sadat há 20 anos, e lutaram contra os russos, e tentaram bombardear o World Trade Center em 1993. E essas pessoas estão todas no meio de... globaliação corporativa... mas se preferem acreditar nisso, é algo reconfortante. E isso é uma forma excelente da fazer com que a violência cresça. Isso é violência tribal. Você fez algo comigo, vou fazer algo pior com você. Não me importo quais sejam as razões. Apenas faremos assim. Essa é a maneira que se deve agir. Opinião bem direta, liberal-esquerdista.

Quais são as opções então? Bem, há inúmeras. Uma medida estreita para o início de conversa seria seguir o conselho de radicalistas bastante extremos, como o Papa [platéia ri]. O Vaticano disse imediatamente "olhem, é um crime terrorista terrível". No caso de um crime, você tenta encontrar os responsáveis, os traz à corte, julgam-nos. Não mata cidadões inocentes. Se alguém roubasse minha casa e eu pensasse que o cidadão que fez isso mora provavelmente no bairro do outro lado da rua, eu não pegaria uma arma e mataria todo mundo naquele bairro. Esse não é o meio de lidarmos com um crime, quer ele seja pequeno, como o que acabei de citar, ou realmente massivo, como a guerra terrorista dos EUA contra a Nicarágua, mesmo crimes piories, ou outros intermediários. E há vários precedentes para isso. Na verdade, eu já citei um precedente, a Nicarágua, um estado que abriga a lei. Essa foi provavelmente a razão pela qual a bombardeamos: eles seguiram os princípios corretos. Agora, é claro, não chegaram a lugar nenhum, porque estavam indo contra um poder que não permitiria que procedimentos legais fossem seguidos. Mas se os EUA tentassem atacá-los, ninguém os impediria. Na verdade, todos os aplaudiriam. E há muitos outros precedentes.

Quando o IRA bombardeia Londres, o que é algo extremamente sério, a Grã-Bretanha poderia, apesar de ser algo impraticável - vamos desconsiderar isso... Uma possível resposta seria bombardear Boston, que nada mais é que a fonte da maior parte do financiamento para tais ataques. E, claro, tirar do mapa o oeste de Belfast. Bom, vocês sabem, apesar da impraticabilidade, isso seria idiotia criminosa. A forma de lidar com isso foi o que de fato fizeram. Isto é, achar os responsáveis; trazê-los para julgamento; e considerar as razões. Porque tais atos não vêm do nada. Eles são gerados por algo em particular. Quer sejam um crime nas ruas ou um crime terrorista mostruoso ou qualquer outro. Há razões. E geralmente se se consideram as razões, algumas delas são legítimas e merecem ser estudadas, independentemente do crime, elas precisam ser consideradas porque são legítimas. E esse é o modo de lidar com tais coisas. Há muitos exemplos que tais.

Mas há problemas com essa atitude. Um problema é que os EUA não reconhecem a jurisdição de instituições internacionais. De forma que não podem recorrer a elas. Os EUA rejeitaram a jurisdição da Corte Mundial. E também recusaram ratificar a Corte Criminal Internacional. São poderosos o suficiente para organizarem uma nova corte se assim o quiserem, de forma a não serem impedidos de nada. Mas há um problema com qualquer tipo de corte: você precisa de evidências. Se você for para qualquer tipo de corte, você precisa de algum tipo de evidência, e não de um Tony Blair falando na televisão. E isso é algo difícil, quando não impossível de se achar.

Sabem, pode ser que as pessoas que foram responsáveis pelos crimes de 11 de setembro se suicidaram. Ninguém saberia disso melhor que a CIA. Essas redes são descentralizadas, sem hierarquias. Eles seguem um princípio que é chamado Resistência Sem Líder. Esse é um princípio que vem sendo adotado por terroristas cristões da direita nos EUA. É chamado Resistência Sem Líder. Você tem grupos pequenos que fazem coisas. Eles não falam com ninguém. Há um tipo de razão geral para o que fazem, então fazem. Na verdade, as pessoas que estão engajadas em movimentos pacifistas conhecem bem tais grupos. Costumamos chamá-los de grupos de afinidades. Se vocês considerarem que qualquer grupo em que você esteja afiliado está sendo monitorado pelo FBI, quando algo sério está acontecendo, não se faz uma reunião. Você vai fazer com pessoas que você conhece e confia, um grupo de afinidades; desse modo suas ações não serão conhecidas. Essa é uma das razões pelas quais o FBI nunca conseguiu compreender o que está acontecendo em movimentos populares. E outras agências de inteligência funcionam de igual modo. Eles não conseguem. Isso é Resistência Sem Líder, ou grupos de afinidades, e em redes descentralizadas é muito difíceis de se penetrar. E é bem possível que eles simplesmente não saibam. Quando Osama bin Laden diz que não está envolvido, isso é inteiramente possível. Na verdade, é bem difícil de imaginar como um cara numa caverna no Afeganistão, que não tem sequer um radio ou um telefone, poderia ter planejado uma operação tão sofisticada quanto essa. As chances são que isso é apenas parte do que está por trás de tudo. Vocês sabem, como outros grupos terroristas de Resistência Sem Líder. O que significa que vai ser muito difícil achar evidências.

E os EUA não querem apresentar evidências porque querem poder agir sem precisar disso. Essa é uma parte crucial da reação. Você devem ter observado que os EUA sequer pediram autorização ao Conselho de segurança, o que eles provavelmente teriam dessa vez, não por razões honestas, mas porque os outros membros permanentes do Conselho de Segurança são também estados terroristas. Eles estão felizes em puder juntar-se a uma coalisão contra o que chamam de terrorismo, nomeadamente em favor do próprio terrorismo que praticam. Como a Rússia, que não ia vetar: eles adoram a coalisão. Desse modo, os EUA poderiam muito provavelmente receber autorização do Conselho de Segurança, mas não o quiseram. E não o quiseram porque seguem um princípio de longas datas, que não é característica de George Bush, foi algo explícito na administração de Clinton, articulada, e vai muito além, e esse princípio resume-se ao fato de que temos o direito de agir uniliteralmente. Não queremos autorização internacional porque agimos uniliteralmente a desse modo não a queremos. Não damos a mínima para evidências. Não damos a mínima para negociações. Nos lixamos para tratados. Nós somos o cara mais forte do pedaço. Fazemos o que queremos. Autorização é uma coisa má, e devemos evitá-la. Existe até um nome para isso na literatura técnica. É chamado estabelecer credibilidades. Você precisa estabelecer credibilidade. Esse é um fator bastante importante em muitas medidas. Foi a razão oficial dada para a guerra nos Balcãs, e a razão mais plausível.

Se quiserem saber o que siginifica credibilidade, pergunte ao seu favorito Don da máfia. Ele vai te explicar direitinho o que quer dizer credibilidade. E é a mesma coisa em casos internacionais, sendo que na universidade ela é discutida sob outros nomes maiores, e esse tipo de coisa. Mas o princípio é basicamente o mesmo. E faz sentido. E geralmente funciona. O principal historicista que tem escrito acerca disso nos últimos anos é Charles Tilly, em um livro chamado "Coercion, Capital, and European States". Ele observa que a violência tem sido o princípio central da Europa por centenas de anos e a razão é simples: ela funciona. Vocês sabem, é bastante razoável. Ela quase sempre funciona. Quando você tem uma predominância absoluta de violência e uma cultura de violência atrás dela. Desse modo, faz mesmo sentido segui-la. Bem, isso tudo constitui um problema na tentativa de se trilhar um caminho legal. E se vocês tentarem segui-los, vão realmente abrir portas bastante perigosas. Como os EUA ordenando que o Talibã entregue Osama bin Laden. E eles lá estão respondendo de uma forma que é considerada totalmente absurda e fora da realidade no ocidente, isto é, eles estão dizendo ok, mas primeiro nos dê alguma evidência. No ocidente, isso é considerado algo impraticável. É um sinal de criminalidade. Como é que eles podem estar pedindo evidência? Eu quero dizer, se alguém nos pede para entregar alguém, nós o fazemos no dia seguinte. Não pediríamos evidências. [platéia ri].

Na verdade, é muito fácil provar isso. Não precisamos inventar casos. Por exemplo, nos últimos anos o Haiti tem pedido aos EUA para extraditar Emmanuel Constant. Ele é um assassino em grandes proporções. Ele é uma das figuras mais importantes no extermínio de talvez 4000 ou 5000 pessoas nos meados da década de 90, sob a junta militar, que incidentalmente estava sendo, não de maneira tácita, apoiada pelas administrações de Bush e de Clinton. Bem, ele é um criminoso e tanto. Eles têm bastante evidências. Não há nenhum problema quanto a isso. Ele já havia sido julgado e sentenciado no Haiti e eles estão pedindo aos EUA para emtregarem-no. Bem, quero dizer, façam pesquisas. Vejam quanta discussão houve no tocante a isso. Na verdade, o Haiti renovou o pedido há algumas semanas atrás. Isso não foi sequer mencionado. Por que deveríamos entregar um assassino convicto que foi responsabilizado por grande parte do assassínio de 4000 ou 5000 pessoas há alguns anos atrás? Na verdade, se de fato o entregarmos, quem sabe o que ele teria para dizer? Talvez ele diga que foi financiado e ajudado pela CIA, o que é provavelmente verdade. Não queremos abrir essa porta. E ele não é o único.

Quero dizer, nos últimos 15 anos, Costa Rica tem tentado fazer com que os EUA entreguem um tal John Hull, um latifundiário de Costa Rica que possui propriedades nos EUA, a quem acusam de crimes terroristas. Ele esteve usando suas terras - dezem eles, com boas evidências - como base para a guerra dos EUA contra a Nicarágua, que não é uma conclusão controversa, lembrem-se. Há a Corte Mundial e o Conselho de Segurança por trás disso. Então eles têm tentado fazer com que os EUA o entreguem. Que tal? Não.

Eles na verdade confiscaram a terra de um outro latifundiário norte-americano, John




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