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Uma breve teoria da (inspir)ação em termos de dádiva

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Ao saber que Garibaldi havia deposto a coroa de Nápoles em sua campanha militar, na fria Sibéria Ocidental Bakunin e outros conspiradores vibravam o fim das distâncias e das fronteiras. Eram administradores, nobres e trabalhadores que junto com ele conspiravam contra a Rússia czarista que delegava àquela fria paisagem o carma de servir de prisão, exílio e campos de trabalhos forçados.

Diante das notícias vindas do continente americano, os siberianos sonhavam com a independência e fundação de um Estados Unidos da Sibéria, se inspirando com o que sabiam dos acontecimentos do outro lado do Pacífico, sem saber muito bem de que liberdade falavam seus propagandistas.

Pouco importa se Garibaldi derrubou muitas coroas para entregar muitos reinos nas mãos de uma única, naquele momento para Bakunin, Garibaldi era um inspiração, um leque de possibilidades, suas ações resvalando no imaginário revolucionário de Bakunin exigiam novas ações, e não mais novos discursos.

Mais tarde Bakunin daria a volta no mundo (literalmente) buscando participar de levantes e revoltas onde quer que elas acontecessem. O russo inquieto e incendiante nobre destituído iria a Itália buscar o afã revolucionário entre os conterrâneos de Garibaldi, era então o século XIX, inspirações e conspirações eram idéias que andavam juntas.

Também naquele mesmo século o garrote vil, a forca, o fuzilamento e a guilhotina não seriam capazes de deter a ação e a inspiração anarquista dos ilegalistas do fim do século. Pelo contrário, serviu apenas para revigorá-las. Engajados em eliminar o estado através da eliminação física de reis, presidentes e militares, os ilegalistas utilizavam também a repressão que culminava em suas próprias mortes para (co)mover novas ações. O martírio resultante após cada assassinato servia de inspiração para novas execuções e martírios.

A coisa toda deu tão certo durante um tempo que os poderosos da Europa ficaram aterrorizados. Temerosos a ponto de patrocinarem congressos para discutir o problema do "terrorismo"; Colocaram cientistas a pesquisar indícios anatômicos que revelassem de antemão alguma possível periculosidade entre seus súditos e governados; especulavam (junto a mídia burguesa a qual muito influenciavam) sobre uma certa organização secreta internacional onde anarquistas estavam conspirando a morte de todos os nobres da Europa. Era bom demais para ser verdade, a Internacional Negra não passava de paranóia instituída pela efetividade de uma seqüencia de ações que inspiravam ações.

Não gostaria de entrar no mérito de se esta direção seria estrategicamente a mais acertada. Seria fácil e não menos injusto, nós do alto do século XXI, nos colocarmos a julgar essa gente toda que, em um contexto de autoritarismo e miséria extrema, considerou essa opção a mais acertada e, talvez, a única ao seu alcance. Da mesma forma, não possuem melhores estratégias a maior parte dos críticos dos ilegalistas, porque se isso não fosse fato, por uma ou por outra via, já estaríamos bem mais avançados em termos de alcance da anarquia.

O que estou dizendo é que parece existir algo como um circuito de dádiva na ação direta, onde a ação que se faz conhecer inspira novas ações potenciais. A propaganda pela ação bem poderia ser chamada de inspiração pela ação e perderíamos pouco ou nada com essa mudança de termo.

Um feito maior e mais inspirador (co)move o outro a agir, e assim uma pilha de ações mais ou menos (co)moventes age como fileiras de peças de dominó. Ainda nessa metáfora uma ação só é (co)movente se efetivamente é uma peça afilada capaz de empurrar outras peças, ou seja, capaz de inspirar novas ações, como as de Garibaldi impactaram em Bakunin.

Talvez a melhor forma para pensarmos essa relação de inspiração entre ações seja o circuito. Mas antes de entrarmos neste assunto se faz necessário aprofundar-me em alguns aspectos para evitar possíveis equívocos.

Alguém poderia talvez pensar que esta linha de raciocínio não passa de alguma espécie de "foquismo" revisitada - de um "neo-blanquismo pós-alguma coisa", ou mesmo que o que estou defendendo é o "retorno à ação direta violenta" e que acho "atos isolados" poderiam levar a uma transformação social de fato.

Seria obrigado a dizer a esse alguém que o que estou dizendo é que nenhuma ação - seja ela a fundação de um sindicato, a constituição de uma federação, a execução de um assassinato político ou um ataque oculto a uma instituição - está de fato isolada, e que estas ações estão sim inscritas em um circuito de outras: ações passadas nas quais se inspiraram e, talvez, em ações futuras as quais podem (ou não) inspirar.

Nesse sentido voluntariamente abdico da posição do juiz que julga qual é a forma mais efetiva de ação, ou se esta é mais ou menos efetiva que aquela porque segue este ou aquele modelo organizacional. Se um formato faz sentido para outros grupos políticos a ponto de servir-lhes de inspiração em outro momento histórico, a ponto de se engajarem tendo ele por referência, é porque, seja ele qual for, contém em si alguma efetividade enquanto parte um circuito de inspiração.[1]

Pois bem, voltemos a idéia de circuito. Como poderíamos repensar a propaganda pela ação (seja ela qual for) dentro desta outra lógica? Dos falanstérios de Fourier às comunas de Tolstoi... Talvez... (continua)

Referências

  1. Veja bem, não estou aqui discutindo qual estratégia é mais eficaz na propagação da Anarquia. Mesmo que isso seja algo que eu gostaria muito de fazer (e se possível até suas últimas consequências) certamente não o farei neste artigo. O que estou propondo é uma reflexão sobre algo que todas as estratégias que se perpetuaram por determinado período de tempo obrigatoriamente tiveram em comum: elas foram capazes de inspirar e (co)mover mais pessoas a adotá-las em detrimento de tantas outras.

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