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Tribo do mar e do ar Sagrado

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José Agripino de Paula

Afrofuturismo



Nesta pérola de sua “fase africana”, o genial autor de Panamérica mostra seu talento visionário num texto delirante, de ressonâncias míticas, e antecipador das atuais incursões da ficção afrofuturista.


Depois de entrar na floresta, era muito tarde e os pavões já estavam empoleirados e quietos. Quando chegaram todos, o Exu maravilha estava morto. Quem esperava o renascimento estava ali; e quem não poderia ver tinha ficado na cidade. Era muito importante ter a boca e falar tudo o que Deus tinha dito. Eram as panteras rodando em círculo em torno do morto.

Africa.jpg

Transportavam o Espírito do Planeta Terra, que era um bebê numa almofada. No centro da almofada colorida, ia o bebê, dormindo de bruços. Era pra iluminar e desfazer os ódios. Muitos tinham ido ao mercado, e o bebê foi mostrado no centro do mercado entre os tomates, bananas e melancias. A energia que emanava do bebê dormindo era tão forte que as frutas do mercado amadureceram e tornaram-se mais doces. Muitas abelhas que estavam fora do gigantesco mercado entraram para pousar nos figos maduros. Depois, todos os negros e negras sorriam e olhavam um pro outro e falavam baixo pra não acordar o bebê. O Espírito do Planeta Terra dormindo tinha a pálpebra rosada fechando os olhos, a mão minúscula, semifechada, descansando perto da boca. Os figos do mercado se transformaram em passas, e a água dos potes se transformou em mel. As abelhas continuavam zumbindo e eantrando no mercado entre a multidão de negros coloridos. E as abelhas já rodeavam o poço central do mercado onde a água tinha virado mel.

Foi no fim da festa que chegaram as mangas. Era um grande carregamento de mangas amarelas e grandes, e vinho de manga. Muita festa e todos dançando à noite e depois da noite. Era uma cerimônia de mangas sagradas. Uma fruta ali na frente, misturada nas ervas; e depois, foram aumentando de tamanho, as mangas. Era uma acumulação da energia do sol nas mangas. E depois vieram os negros, arrastando os cabritos pintados. Era um tempo que ainda não tinham chegado os ancestrais que precisavam vir urgentemente resolver tudo.

Foi num continente que não encontraram os ancestrais. Estavam faltando os ancestrais e depois o que fazer. Não tinham mais flechas e era muito tempo sem fazer nada. Que poderia ser aquela de virar o tempo? E depois era muito verdadeiro e quem poderia? Era muita gente falando no parque e discursando contra ou a favor, e quem poderia sentir um calor e depois ir ver se realmente era verdadeiro voltar, mas quem poderia encontrar o verdadeiro ancestral? Eram muitos ossos humanos debaixo da terra e aqueles espíritos vagando soltos na terra. Quem seria o ancestral? Poderia ser aquele muito distante. Que machado ele poderia usar e depois eram muitos aparelhos eletrônicos buscando os ancestrais. Era uma pesquisa que não poderia agradar aos velhos, e os velhos ficavam ali sentados debaixo da sombra do baobá, e o chefe velho estava encostadono tronco grosso da árvore. Todos os velhos de cajado e espantando as moscas com o rabo de cabrito. Eles levavam presas na orelha umas folhas: era para indicar que eles tinham vindo das folhas. Porque os ancestrais do cisne eram os dinossauros de pescoço longo que viviam nos lagos. O ancestral depois varou as nuvens e veio descendo. Atravessava um faixo de luz e descia imóvel. Era muito grande e não se via a cabeça; só a luz forte na nuca atravessando os cabelos. E brilhava muito e atravessava as nuvens.

O ancestral era incandescente e tinha a cor da brasa. Era muito forte, e quem olhava, via o fluxo e a direção da energia circulando em todo o corpo incandescente do ancestral.

Potes de mel foram servidos, e depois chegou aquela multidão perguntando pelo Exu maravilha. Estavam há muito tempo, ali debaixo das árvores, discutindo Deus. Com as suas guitarras e atabaques conversavam animados e o sol vermelho descia atrás das árvores. Eram muitos argumentos falando de Cristo e depois da morte de Cristo e naquele instante ninguém aceitava Deus. Muito difícil e veio um que queria jogar a semente de uma uva e disse que seria uma árvore. Nínguém poderia ter fé que seria uma árvore tão minúscula. Era vento, chuva e depois sol brilhando que adoçavam os frutos, e todos comiam tãmaras e não se movimentavam rápidos para não espantar as abelhas. Quando veio outro Exu principal é porque trazia alguma resposta, mas só tinha vindo comer as frutas. Mas já sabiam que precisava um lugar sagrado, depois todos os corpos deveriam ser sagrados, os espíritos sagrados, o instante da descarga da divindade sagrada e depois o tronco de ligação do mundo com o sagrado.

Era um caos em que todos os habitantes tinham que ser muito atentos; no fim, tinham que ser muito atentos no céu escuro que depois era gigantesco e quem poderia ouvir aquela quinta-essência do silêncio? porque precisava uma quantidade infinita de silêncio para gerar um átomo de hidrogênio...Foram chegando sábios nas caravanas. Enquanto os sábios chegavam de caravana, havia muitos animais na cidade: gatos, cachorros e cabritos, e o frio fazia com que os animais se aproximassem uns dos outros se encolhiam para receber melhor o calor do corpo, e depois se ajustavam aos pés e aos corpos quentes e incandescentes dos Exus. Os Exus naquele tempo de frio ficavam incandescentes. Era um vento que trazia e ia empurrando os sábios nos camelos. Os sábios balançavam enrolados nas corcundas dos camelos. Os Exus da noite deitavam nas ruas e ficavam iluminando e rindo dos que passavam e viam aqueles corpos vermelhos como brasa faiscando.

Foi adorar o céu. Era muito fantástico o azul e poucas nuvens brancas passando. Gigantescas, lentas, brilhantes e brancas passavam as nuvens. Era muito superior, e só adorando aquele céu. Os bois na praia passeavam e depois a adoração do céu começou tudo de novo. E iam abrindo as nuvens e apareceia a luz do sol. Eram feixes de luz muito fortes saindo entre as nuvens. A adoração do céu continuou e depois veio a adoração do céu da noite. Foi quando as mulheres dos Exus acenderam as fogueiras e trouxeram as tigelas de mangas. Deixaram as tigelas e continuaram na adoração do céu, de noite.



Fonte: Revista Planeta nº 24, Agosto 1974.






Rizoma.png   Este texto foi originalmente publicado por Rizoma.net.


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