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Espere Resistência
CrimethInc


Em Calcutá, as pessoas estavam recém começando a acordar do lado de fora da estação de trem. Os seus corpos enfileirados nas calçadas por várias quadras, amontoados sobre as pedras imundas. Alguns eram viajantes esperando para partir, outros eram famílias sem um tostão que viviam ali há meses. Dois séculos atrás, carrinhos de mão atravessavam essas ruas carregando o ópio com o qual a Companhia das Índias Britânicas Orientais costumava viciar toda China; naqueles dias, Calcutá era dividida em Cidade Branca e Cidade Negra.


A algumas quadras de distância, guardas uniformizados ficavam à frente dos portões fechados de um hotel caro. Dentro dos seus muros, uma vasta e vazia área de grama irrigada se estendia em grande contraste com as ruas marrons da cidade, garantindo a homens de negócios estrangeiros que era seguro investir na Índia oriental. Calcutá estava se tornando um centro de serviços de tecnologia da informação; os jornais falavam de renascimentos econômicos e mercados emergentes.


Do lado de fora dos muros brancos do hotel, a primeira luz da manhã caía sobre os outdoors onipresentes, iluminando belos modelos de pele tão pálida e de aparência tão caucasiana que um estrangeiro jamais diria que eles são bengali. Seus rostos brancos olhavam para baixo, emitindo um julgamento silencioso sobre as pessoas sem ambição, fracassadas e anacrônicas.


Do outro lado do mundo, perto de outdoors que anunciavam os mesmos cosméticos, refrigerantes e telefones celulares com aparentemente as mesmas faces brancas, um organizador trabalhista em Bogotá ficava até tarde em seu escritório para conversar com um estudante de jornalismo que visitava. Ele estava se esforçando para expressar como a guerra fria da competição e da luta de classes que aconteciam invisivelmente no país do estudante eram uma guerra quente ali: florestas estavam sendo dizimadas, sindicalistas militantes eram abduzidos e assassinados, vilas inteiras eram exterminadas por paramilitares. Ele falava de uma classe cúmplice supervisionando a pilhagem por atacado de sua terra natal e a redução de seus compatriotas a mercenários, escravos assalariados e prisioneiros. O estudante assentia, tomando notas para o seu trabalho escolar.


Em um assento da primeira classe de um avião de passageiros moderno alguns milhares de quilômetros a noroeste, um executivo mudava sua atenção entre uma planilha eletrônica e um arquivo de texto no seu computador portátil. Do outro lado da cortina da sua janela o pôr-do-sol iluminava nuvens prateadas e projetava sombras com quilômetros de comprimento através da paisagem que se escurecia; mas o mundo real não era composto de tarefas, dados, proporções e negócios, não as nuvens ou as florestas tropicais. Haviam oportunidades para negócios em Calcutá, ou seja lá como fosse que eles chamassem aquele lugar agora, e na Colômbia também, apesar de toda maldita agitação.


Quilômetros abaixo, Samia e eu observávamos o horizonte de nosso posto em cima do arranha-céus. Parados lá em trêmula expectativa, já tontos de vertigem e suspense, eu vivenciei o pôr-do-sol como um movimento físico através do espaço, um salto para trás a dezenas-de-milhares-de-quilômetros-por-hora. Eu tive que me arrancar à força de tudo que eu conhecia e romper todos meus velhos compromissos para chegar lá ― mas finalmente, como os pioneiros antes de mim, eu estava voando.


Nós estávamos com a faixa esticada ao longo da beirada do telhado, pronto para jogá-la e desdobrá-la assim que a marcha chegasse ali; eles já estavam atrasados mais de meia hora. Se alguém aparecesse aqui em cima, pareceríamos terrivelmente suspeitos com 13 metros de tecido e correntes esticados. Eu andava em círculos, brincando com o cadeado que eu trouxera para trancar o alçapão depois que saíssemos. Finalmente, reverberando no prédio atrás de nós de forma que parecia que eles estavam vindo do lado oposto, nós os ouvimos. Primeiro era apenas um distante ritmo grave, sutil o suficiente para eu achar ser a minha imaginação; e então aquele pulso se transformou num rugido, até que nos parecia inacreditável estarmos ouvindo um som tão alto e ainda estarmos olhando para uma rua vazia.


Ele recém estava na metade do seu trabalho, mas o vôo estava chegando ao fim. As aeromoças mecanicamente recitavam instruções no sistema de som: "Por favor desliguem todos aparelhos eletrônicos e retornem os seus assentos à posição vertical." Ele já tinha ouvido essas palavras tantas vezes que ele podia praticamente recitá-las junto como um católico devoto numa missa.


Irritado, ele fechou seu computador e impulsivamente abriu sua cortina como ele fez há muitos anos atrás, durante sua infância. Na crescente escuridão, não se podia mais enxergar as árvores ou rios restantes abaixo ― somente as ruas iluminadas, os carros na rodovia, a rede elétrica. A cidade se espalhava à sua frente como um circuito integrado de um computador, pura arquitetura de poder e transmissão. Toda aquela magnífica ordem era reconfortante, como os intermináveis campos de milho no Iowa, as ondas de rádio vendidas e divididas, os rígidos cronogramas do Guia de TV. Aqueles pobres coitados, invisíveis e substituíveis abaixo dele ― eles não tinham a menor idéia do grande contexto no qual existiam. Somente homens como ele, com habilidades especializadas que ele levou décadas para reunir e o que a corporação Rand chamava de "visão geral", poderia assumir tudo e agir decisivamente. Era um trabalho estressante ― longos turnos, a separação entre ele e os outros que não compreendiam ― mas alguém tinha que fazê-lo.


De repente ele estava olhando para uma escuridão impenetrável ― tudo que ele podia ver era o seu próprio reflexo fantasmagórico na janela do avião. As luzes da cidade haviam se apagado.


Do nosso telhado, sem fôlego de tão ansiosos, nós observávamos a passeata entrar no nosso campo de visão, dobrando a esquina. O cruzamento se inundava de pessoas, se enchia, e continuava rua abaixo enquanto mais e mais pessoas apareciam na esquina atrás delas. Eu não via tamanha multidão desde o nosso apogeu. Isso dava àquele momento um ar irreal.


O momento havia chegado. Nós verificamos novamente os grampões que prendiam a faixa a um cano que percorria o telhado, então Samia assumiu sua posição de um lado e eu fui para o outro. Cada um de nós levantou o que conseguia do material e, juntos, o arremessamos no ar. O tecido que permanecia sobre o telhado entre nós foi arrastado, então a corrente se esticou e a nossa faixa se desenrolou quatorze metros abaixo do prédio para todos verem, nela lia-se




















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