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Teoria da História e Anarquismo

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TEORIA DA HISTÓRIA E ANARQUISMO APRESENTAÇÃO PARA O LIVRO "A HISTÓRIA NA VISÃO DOS ANARQUISTAS", DE ANDERSON ROMÁRIO PEREIRA CORRÊA Felipe Corrêa


O ANARQUISMO CONTEMPORÂNEO

Atualmente, o anarquismo encontra-se em um momento distinto, tanto em termos práticos, como teóricos.

No Brasil, os fins dos anos 1970 e principalmente a década de 1980 foram importantes, pois trouxeram o anarquismo novamente a público. Ainda que os anos de repressão viessem dificultando as atividades, os problemas no anarquismo vinham desde os anos 1930, quando este se afastou dos movimentos populares (fundamentalmente do sindicalismo).

Nesse contexto da “abertura” política, os anarquistas conseguiram articular algumas experiências que teriam relevância para o que viria no futuro. As iniciativas dos fins de 1970 e de 1980 contribuíram com a aproximação de novos interessados e com o reinício das discussões, envolvendo um público mais amplo.

Foi neste momento que os clássicos anarquistas começam a ser traduzidos e publicados com maior freqüência no Brasil. Não que isso não estivesse sendo feito há tempos, mas foi somente a partir dos anos 1980 que houve um esforço intenso e regular para a realização dessas traduções e publicações, que hoje nos permitem conhecer mais sobre Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Malatesta, Rocker, entre outros clássicos do pensamento anarquista.

Os anos 1990 serviram para um aprofundamento das discussões e a evidência de projetos distintos que vinham sendo sustentados no anarquismo. Por influência da Federação Anarquista Uruguaia, e pelos contatos com militantes antigos que defendiam uma reinserção do anarquismo no campo da luta de classes, desenvolveu-se um desses projetos anarquistas, que teve diversos frutos, dentre eles a fundação da Federação Anarquista Gaúcha, em 1995. Um encontro realizado em Florianópolis, em 2000, marcaria o rompimento desse projeto – de defesa de um anarquismo social que pudesse voltar a ter protagonismo nas lutas dos movimentos populares – com outros. Havia, enfim, imensas diferenças teóricas e práticas.

Se por um lado a divisão poderia significar enfraquecimento, por outro, o aumento de unidade em termos práticos e teóricos permitia um aprofundamento sem precedentes. A meu ver, foi essa unidade que permitiu o aprofundamento que vem ocorrendo desde os anos 1990 até os dias de hoje. O projeto dos “anarquistas organizados”, ou dos “especifistas”, como foram chamados, não só conseguiu desenvolver experiências práticas significativas em todo o Brasil, com atuações em movimentos de moradia, comunitários, estudantis, de catadores de material reciclável, entre outros, mas também se envolveu em um aprofundamento teórico que, no estudo e produção de teoria, traria ganhos significativos ao anarquismo.

A dialética entre teoria e prática naturalmente potencializou uma e outra, e pode-se dizer que os anos 2000 continuam oferecendo experiências notáveis, tanto em termos práticos quanto teóricos, aprofundando o que foi realizado anteriormente.


A HISTÓRIA PARA OS ANARQUISTAS

O texto de Anderson Romário Pereira Corrêa reflete, a meu ver, esse desenvolvimento do anarquismo que, junto com a prática, vem aprofundando sua teoria. Muitos dos trabalhos teóricos atuais vêm se baseando nos clássicos – e não poderia ser diferente, já que os clássicos anarquistas oferecem, ainda, imensas possibilidades. E a atualidade no Brasil permite tais trabalhos, muito em razão do processo mencionado que vem desde os anos 1980 e que traz ao português obras da maior importância.

Anderson discute a teoria da história a partir de quatro clássicos do anarquismo: Proudhon, Bakunin, Kropotkin e Rocker. Considerado algumas das principais obras dos autores citados, ele investiga sua concepção de história. Seria a história uma ciência? Seria possível prever a história a partir de leis históricas?

A partir de uma discussão da história e da historiografia com elementos de um século de pensamento que vai de 1840 a 1940, Anderson discute o anarquismo e parte para uma investigação de cada autor e de sua respectiva abordagem da história: Proudhon e o movimento da história, Bakunin e a história como negação do passado, Kropotkin e a história no comportamento do homem, Rocker e a história como vontade de potência. O trabalho contribui, neste sentido, com essa investigação sobre a concepção de história dos quatro anarquistas.


TEORIA DA HISTÓRIA E MÉTODO DE ANÁLISE

Discutir história envolve sempre um método de análise, questão que temos discutido significativamente. Parece-nos da maior importância, hoje, rechaçar o determinismo econômico e aprofundar/utilizar um método de análise que seja capaz de compreender a realidade, e dessa maneira a história, a partir da influência mútua entre as esferas econômica, política e ideológica/cultural. Um método que vem sendo sustentado por anarquistas clássicos e por historiadores contemporâneos.

Por exemplo Rocker, um anarquista clássico, afirma:

“A concepção que pretende ver em todo acontecimento político e social somente um resultado de condições econômicas dadas, das quais dependa, exclusivamente, o seu esclarecimento, não resiste a uma consideração mais demorada. O fato de influírem condições econômicas e formas especiais de produção na história do desenvolvimento das sociedades humanas não é novidade para ninguém que seriamente porfie por chegar ao fundo dos problemas sociais.” (Rudolf Rocker. A Insuficiência do Materialismo Histórico. Rio de Janeiro: Simões, 1956, p. 11).

Rocker dizia que a economia obviamente possui influência sobre as outras esferas, mas isso não significava, para ele, assumir que ela necessariamente as determinava. Uma posição semelhante à de E. P. Thompson, que afirma:

“Categorias [...] como classe, ideologia e modo de produção são difíceis, mas, todavia, são conceitos criativos. Porém, em particular a noção histórica da dialética entre o ser social e a consciência social – ainda que seja uma inter-relação dialética, que às vezes precise ser invertida – é extraordinariamente poderosa e importante. Não obstante, também vejo na tradição pressões para o reducionismo, que dão prioridade à ‘economia’ em relação à ‘cultura’; e uma confusão radical introduzida pela infeliz metáfora de ‘infra e super-estrutura’.” (E. P. Thompson. “Agenda para una história radical”. In: Obra Esencial. Barcelona: Crítica, 2001, p. 564).

Para Thompson, não há uma esfera necessariamente causal e a investigação da história deve levar em conta toda a realidade, sem um método que assuma causas e conseqüências a priori:

“Estou completamente de acordo com todos os que hoje vem falando da necessidade de tratar e ver a história como um quadro completo, como um registro objetivo de atividades relacionadas de maneira causal, e também concordo [...] que o conceito de causa é extraordinariamente difícil, e que em relação a ele sempre temos somente uma compreensão aproximada.” (Ibidem, p. 565)

A questão, dessa maneira, é encontrar um método de análise correto, que dê conta da realidade. O abandono do determinismo econômico e a reivindicação de um método que considere a influência mútua entre as esferas, parece-me uma preocupação de primeira ordem.


  • * *

Para uma posição própria em termos de teoria da história, é necessário ao anarquismo entender as abordagens dos clássicos e o texto de Anderson contribui com essa etapa. O aprofundamento dos estudos permitirá uma compreensão mais ampla e uma avaliação sobre quais dessas posições deverão ser descartadas e quais delas servem, ainda nos dias de hoje, para uma compreensão adequada da realidade.

Afinal de contas, uma teoria anarquista da história é fundamental para uma análise do passado, que tenha também por objetivo oferecer perspectivas ao futuro.


Outubro 2010

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