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Tempo(s) da(s) história(s): Minha interpretação do filme “Corra Lola, corra” de Tom Tykwer

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O filme “Corra Lola, corra” nos possibilita pensar em diversas possibilidades acerca da perspectiva do entendimento de história a partir da interface fílmica, pois se encararmos que a história – enquanto ciência disciplinar de origem ocidental – é uma concepção de tempo que nos é, muitas vezes, imposta por uma forma de racionalidade onde esconde outras possíveis alternativas de entendimento temporal, a temporalidade que o filme nos mostra ao longo de seu percurso nos faz refletir sobre o passado, o presente e o futuro.

De acordo com a noção de Santos (2002) sobre a indolência da razão ocidental o tempo é apresentado como um fragmento do rastro de cometa que se estende ao infinito do espaço, portanto o futuro é ampliado para poder comportar o crescimento acelerado do mundo civilizado, ao passo que o passado é estático, fixado a uma realidade já posta, definida, assim o presente é a mera repetição desse passado opressor. Os sujeitos da história ficam então a mercê de um futuro determinado pelo passado restando-nos somente olhar para tudo de forma a contemplar as dores de um presente efêmero.thumb|300px|right

A forma pela qual o filme é disposto – enquanto abordagem epistemológica do tempo – nos revela a negação do desperdício das experiências do passado, pois ao passo que as personagens, em seus últimos suspiros, acionam a memória e relembram conversas que já tiveram atualizam seus significados para as dificuldades que enfrentam no presente, assim possibilitando-os retomar seus esforços para uma nova tentativa, mas já precavidos de empecilhos experiênciados. O tempo aqui se mostra então diferenciado a partir do momento em que olhamos para o passado com a perspectiva do presente, pois mergulhados no presente, no qual tudo coexiste simultaneamente, o passado se transfigura[1] criando uma nuvem nebulosa repleta de incertezas, aqui se manifesta a possibilidade de um novo futuro.

Quando realizamos tal empreitada efetuamos três processos dos quais merecem ser ressaltados. A primeira esta na valorização do presente, pois é no presente que podemos observar as experiências que não devem ser desperdiçadas, essas experiências é que nos vão levar à passados. Tal procedimento chamo de rastreamento ou tracking[2].

Para entendermos o que digo sobre rastreamento temos que retomar o momento em que “o ser humano” veio a ser “ser humano”, muito bem expresso por Quinn (2002). Diversos estudos arqueológicos hoje nos dizem que o que nos tornou seres inteligentes foi o reconhecimento de padrões, e que conseguimos alcançar tal efeito através do consumo de carne animal, ou seja, proteína, desenvolvendo assim nosso cérebro frontal, mais especificamente, o córtex cerebral. Porem hoje já se sabe que essa teoria esta ultrapassada, pois como que consumiríamos carne se não conseguíssemos caçá-la? Mesmo se comecemos a principio apenas carniças o número existente de animais carniceiros é muito grande, portanto a disputa por carne também seria. Para podermos nos diferenciar de outros animais inventamos a técnica, ou ferramenta mental, da caça, na qual se baseia em rastrear o “alvo-chave”, para tal ação desenvolvemos dois dispositivos essenciais, o olho e a fala.thumb|300px|right

O olho nos permitiu observarmos o chão e reconhecermos as pegadas, os sinais, sempre em formato de fragmentos, deixados pelos animais que perseguimos. Tais sinais, padrões fragmentados uma vez que relacionados à figura do animal desenvolveu a técnica da caça, portanto partindo do presente o caçador rastreava a trilha fragmentada deixada pelo animal, conseguindo encontrá-lo e abatê-lo. Este reconhecimento de padrões, de pagadas fragmentadas fez com que nosso cérebro mudasse de estrutura, ou seja, alterasse suas redes neurais. Todavia o desenvolvimento do olhar ainda não nos tornou “seres humanos”, pois seria com a inclusão da fala que terminaríamos tal processo.

A fala nos possibilitou passar a informação a nosso vizinho, ou seja, a pessoa que se encontra a nossa volta. É com a fala que tal experiência, na qual foi testada por diversos individuos muitas vezes, se torna visível a toda uma cultura viabilizando a efetuação desta experiência social de rastreamento para outras pessoas e é neste momento que ocorre a passagem do australopithecus ao homo.

Portanto não foi criando modelos teóricos que deixamos de ser australopithecus. Não foi brincando de Deus que viemos a ser hoje aquilo que somos. Não podemos jogar com o tempo, não podemos achatá-lo dando-lhe aspecto linear e homogêneo, esta não é minha proposta.

O segundo processo refere-se ao como olhamos para o passado quando partimos do presente utilizando o rastreamento. O passado dessa forma deixa de ser estático, não mais está dado, pois no momento em que rastreamos o passado, ou trilha, nos emergem acontecimentos que muito corresponde com a forma que interpretamos ou traduzimos os sinais que vemos, os padrões que enxergamos, as pegadas que observamos. Por isso o processo de tradução dos fatos históricos, ou não históricos, esta intrinsecamente ligada à nossa subjetividade. O passado então por ser transfigurativo, disforme, aponta para um futuro mergulhado na incerteza, sendo que este é o terceiro processo necessário para uma nova compreensão de tempo.
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O terceiro processo é, justamente, encarar o futuro como aberto, incerto. Segundo essa perspectiva a retomada das Utopias se mostra possível, mas não com a mesma arrogância que tínhamos antes, mas respeitando as organizações locais autogestionárias, respeitando conhecimentos ditos menores que vem “de baixo para cima” como possibilidade contra hegemônica. Uma nova luta se forma no seio de toda essa fragmentação, uma luta de camponeses, de negros, de homossexuais, de mulheres, de operários, enfim, uma luta por todos os excluídos do sistema capitalista que em sua nova face encontra-se o neoliberalismo, no qual é amparado pela força do Estado. Por isso, antes de tudo, essa luta é uma luta anticapitalista.

O filme “Corra Lola, corra” então nos faz pensar em como nos posicionaremos diante de nossas histórias, portanto de nossos passados, nossos presentes e nossos possíveis futuros. Como dizia o anarquista russo Mikhail Bakunin:

“Foi na busca do impossível que o homem realizou e reconheceu o possível”.

A história não termina por aqui...


Bibliografia:

BENJAMIN, Walter (1940). Sobre o conceito da História in Obras escolhidas I – Magia, Técnica, Arte e Política. Editora Brasiliense.

QUINN, Daniel (1996). História de B, Uma Aventura da Mente e do Espírito. Editora fundação Peirópolis.

SANTOS, Boaventura de Sousa (1996). A queda do Angelus Novus: Para além da equação moderna entre raízes e opções in Revista Crítica de Ciências Sociais, Nº45.

_________(2002). Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências in Revista Crítica de Ciências Sociais, Nº63.



[1] A noção de transfiguração da qual me faço uso é a partir da “transfiguração de Jesus Cristo” que se encontra na bíblia sagrada Mateus 17:1-9, Marcos 9:2-9 e Lucas 9:28-36, sendo esta ultima a que me utilizo.

[2]Retiro a noção do conceito de tracking ou rastreamento das ferramentas da internet para rastrear na rede informações que são pertinentes ao usuário pelas palavra-chave, assim como realizada pelo Google por exemplo.

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