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(da resposta de Jeanette Winterson a uma carta de seu amigo William Gibson:)

QUANDO USAMOS FERRAMENTAS...

Atualmente, as inovações tecnológicas exigem demais da nossa atenção. Nós gastamos uma quantidade desproporcional de nossa criatividade coletiva inventando novas tecnologias para dominar o mundo, ao invés de descobrir novas formas de aproveitá-lo. Isso é um reflexo da temática implícita da nossa civilização: os nossos valores são mais relacionados ao controle do que ao prazer. Nós dirigimos todas nossas capacidades em ajustar o "como" da vida, sem pararmos para pensar no "por que".
Alguns alegam que o desenvolvimento tecnológico rápido e irresponsável é inerente a qualquer sociedade industrial. Parece igualmente provável que isso é um resultado da pressão que a economia capitalista exerce sobre as empresas e inventores para continuamente apresentar novos produtos para tornar os velhos supérfluos. Uma verdadeira sociedade não-capitalista, na qual a competição para vender e sobreviver não existe, pode ser capaz de fazer o melhor uso das tecnologias que ela tem ao seu dispor ao invés de continuamente buscar por mais complexidade. A tecnologia também seria utilizada de forma diferente nessas condições (ex. mais transporte público, menos carros, autoestradas e poluição), fazendo dela uma ameaça menor à liberdade e felicidade humana.

Quando a ação parece impossível "comunicação" é um consolo".

Mas ainda há questões importantes a serem consideradas. Antes de tudo, quanto da tecnologia de hoje ainda seria possível numa sociedade não-capitalista e não-hierárquica? Hoje em dia, o poder fica concentrado nas mãos de tecnocratas que dirigem redes globais incrivelmente complexas. São esses sistemas que produzem as tecnologias incrivelmente complexas a que estamos acostumados. A democracia direta e as decisões em grupo são mesmo possíveis em uma escala tão grande? Provavelmente não. A questão, então, é quanto de nossa tecnologia complexa podemos levar conosco no processo de descentralização de nossa sociedade.
E ainda temos que considerar os prós e os contras de cada tecnologia. Sob circunstâncias radicalmente diferentes, podem os automóveis, e-mail, televisão, luzes de neon ser usados para tornar nossas vidas mais emocionantes e recompensadoras? Para alguns deles, a resposta é provavelmente sim, enquanto que para outros, não. Quando avaliamos o valor de alguma tecnologia em particular, devemos sempre lembrar que as nossas atividades e o nosso ambiente são moldados tanto pelas ferramentas que usamos quanto pelo uso que damos a essas ferramentas. Por exemplo, usar a internet exige que fiquemos sentados imóveis por minutos ou horas, olhando uma tela luminosa, isolados do mundo dos sentidos, cercados e mesmo assim separados dos outros, como alguém em um congestionamento (justamente por isso pessoas que se comunicam de forma anônima na internet freqüentemente tratam uns aos outros com a mesma cortesia que se tratam na hora do rush); ela também substitui formas de comunicação que são menos mediadas. Em um paraíso, isso seria parte do nosso dia-a-dia?
Você fala em usar as ferramentas do sistema para destruir o sistema - mas se algumas dessas ferramentas criam alienação ao serem usadas, elas só podem modificar e no final das contas reforçar o sistema de alienação. Ao invés de aceitarmos a posição oficial de que "mais tecnologia é melhor," e aceitarmos a concepção linear da história nos ensinada pela ideologia do "progresso" (ex.: a humanidade vai de um estado menos tecnológico para um mais tecnológico, nunca o oposto), nós devemos estar dispostos a fazer qualquer alteração que for necessária nas tecnologias usadas por nossa espécie para conseguirmos tirar o máximo possível de nossas vidas.
E sim, devemos usar toda tecnologia que colabore nesta luta, mas apenas aquelas que realmente funcionam. Vamos ser cuidadosos com toda tecnologia, e ousar acreditar que realmente podemos abandonar aquelas que não nos têm utilidade.
Para tornar essas generalizações concretas, eu tenho realmente muito medo da imagem antiquada de uma utopia baseada em tecnologia que você materializa com seus carros guiados por computador. Atualmente eu mal consigo consertar um carro; você se dá conta que se tudo fosse guiado por computadores, a capacidade de consertar e controlar tudo estaria confinada nas mãos de uma minúscula minoria, aqueles que tivessem as proeficiências necessárias? A pessoa comum se sentiria pouco entendida ou com controle do mundo no qual ela viva. Todos os aspectos práticos da vida seriam deixados para os "experts". Nós estamos quase lá, e isso torna do mundo um lugar estranho e confuso para a maioria de nós, não é? O "progresso" é realmente tão necessário que eu não deveria ousar pedir que isso fosse diferente?
Com todas nossas novas capacidades de comunicação e mobilidade, estamos paralizados correndo sem sair do lugar. Num mundo onde informação é igual a poder, os mais poderosos são os que estão dispostos a ser imobilizados em todos os sentidos reais epara funcionar melhor como processadores de informação. Desconecte-se do circuito! Mobilize-se!

(...e a crítica de Stella Nera à resposta de Jeanette:)
SOMOS USADOS POR ELAS.

Oh, Ciberespaço, que olhos e orelhas grandes você tem!
Uma vez disseram que o mapa não é o terreno. O orador quis indicar os limites da abstração humana em contraste com a realidade plena. Mas agora estamos sendo conduzidos como gado do terreno ao mapa, do real ao virtual - logo não haverá contraste! O espaço eletrônico simulado é o mapa, um mero mapa: o melhor para cimplificar, racionalizar, descrever, monitorar, prever, propagandear, conter e controlar você. O ciberespaço é um chiqueirinho fechado, onde tudo é permitido, mas nada é possível. Usar o ciberespaço para conseguir informação? Quando você usa o ciberespaço você entra em formação.
A comunicação interativa se tornou uma forma de controle invisível. O Ciberespaço nos integra numa rede neural; juntos, nós nos tornamos o cérebro extendido do sistema tecnológico. Quanto mais interconectada estiver a população, mais rápido a propaganda se dispersa. O controle através da comunicação de ontem: políticos questionavam o público, processavam os resultados, e ajustavam a sua retórica para corrigir problemas da sua imagem. O controle através da comunicação de hoje: equipar os empregados com pagers, celulares, contas de e-mail, mensagens de voz... é interessante prestarmos atenção em como o foco atual da propaganda é que os consumidores precisam de mais informação - e portanto eles devem não apenas conectarem-se no sistema, mas também carregar um arsenal de aparelhos de comunicação com eles onde quer que vão.
E o futuro? Os dias de assistir ao Espetáculo estão quase terminando. A audiência invade o palco: agora nós somos o Espetáculo, e a propaganda está obsoleta.
No futuro, a mídia e outras forças não irão mais nos distrair e nos guiar para longe da realidade. Nós mesmos seremos as distrações, interagindo uns com os outros em um meio no qual nenhuma realidade é possível. Nós nos deslocamos da realidade para o Ciberespaço.

Um novo design para as relações,
Relações de distância.
Relações que não exigem encontros,
Relações que exigem o fim dos encontros.

Nostalgia de um futuro imprevisível

Neste sistema, trabalhamos pela organização. E quanto mais organização, mais trabalho. Quanto mais rápida e arduamente nós trabalhamos, mais trabalho há para ser feito. Humanos - originalmente soltos e livres - foram amarrados, primeiro às fazendas, depois às fábricas na cidade, depois aos escritórios, e agora às telas luminosas dos computadores. Trinta anos atrás, escritórios não possuíam PCs ou cubículos. Quantos de nós hoje são forçados a sentar solitários sob lâmpadas fluorescentes em cubículos cinza sem janelas pela maior parte do tempo em que estamos acordados (a maior parte de nossas vidas) na frente de uma tela de computador, olhando para um imenso vazio azul, escutando o zumbido agudo das máquinas, fazendo minúsculos movimentos com nossos dedos para manipular símbolos que não possuem significado vital para nós, enquanto subconscientemente ficamos apavorados com a vigilância contínua? Esqueça todo o dinâmico complexo simultâneo de coerção, persuasão, socialização, prêmios, punições e crédito que nos mantém presos no console. Nós faríamos isso, se pudéssemos apenas viver nossas vidas, catando de uma maneira ou de outra, comendo, socializando, fodendo, fantasiando, dormindo, desenhando, cantando, dançando, apenas sendo humanos, desempregados, sem uso, livres, livres de objetivos fabricados? A subsistência seria um luxo, comparada com os "luxos" que temos.
A mente humana é transformada em processadores de informações. (Pelo menos com trabalho manual a mente fica livre para fantasiar.) Nós somos rebaixados a máquinas servidoras - processando a realidade crua em dado lógicos de computador. Somos usados mais e mais tanto como robôs para trabalho manual ou tradutores, isto é, como interfaces entre sistemas computadorizados. Na indústria de serviços, a turma da cadeia alimentar deve usar uniformes e logotipos, recitar falas, pesar porções de sorvete usando luvas de plástico. As máquinas nos moldaram à sua imagem.
A tecnologia usa as pessoas, as pessoas não usam a tecnologia. Tecnologia não é um único objeto isolado, é um sistema unificado de relações entre elementos e sistemas. Aqueles que alegam que a tecnologia é uma "ferramenta neutra" ou que ela é o acúmulo de "coisas" independentes a serem escolhidas seletivamente para guardar, falham em se dar conta que a tecnologia é um conjunto metafísico, que ela é uma expressão da organização. e portanto só pode apontar para uma organização maior, maior controle centralizado, e a inevitável degradação de seus componentes humanos. O fluxo metabólico deve acelerar para alcançar a produtividade total. Nós sempre podemos ser mais eficientes, mas nunca eficientes o suficiente.
O punho eletrônico vem em plástico moldado bege, bipando. Logo todos nós entendemos Windows, e aquele que não computa não vai comer. E como o nosso trabalho, assim é o nosso brinquedo: ambos são comunicação. Ficar em silêncio ou des-in-formados é ser anti-social. Estaremos preso no eletrônico para sempre, famintos de luz, ar fresco, comida fresca, movimentos espontâneos, amigável companhia cara-a-cara, calor humano, cheiro humano, contato humano, animais nunca mais. Nós lutamos: depressão, síndrome do pânico, vícios, bulimia, obsessão-compulsão, suicídios. E os médicos medicam.
Nossos ancestrais pré-pacificação, a mulher das cavernas, jamais aceitaria isso. Nem nós mesmos aos quatro anos de idade. Mas o ciberespaço dispersa a multidão e limpa as ruas. Estamos vivendo na era pós-protestos e tumultos, dentro de nossos cubículos (blocos de escritórios, condomínios, celas de prisão), olhando para telas, sendo entretidos

(E finalmente! O ataque de F. Markato em todo o negócio:)
EIS A CIÊNCIA POPULAR!

Sim, o problema foi solucionado
Mas eu nunca o vi comprovado.
Outra pessoa, mas não eu,
Aterrissou na lua.
- Sera White, "A Momentary Gain of My Loss; or, Fragments"

Não há nada errado com as ferramentas, com a tecnologia e com a ciência. Como uma espécie, não somos nada senão os inventores e construtores de nosso mundo; mas como indivíduos, temos a capacidade de determinar que mundo nós queremos, e contruí-lo nós mesmos. Quando fazemos isso, nós agarramos a aventura, a invenção... a inventura! que é nosso direito de nascença. Isto é ciência popular.
Ciência popular não é algo novo, é tão velha quanto a humanidade - jalecos de laboratório, o método científico, e a tecnologia centralizada de cima-para-baixo é que são novidades. Enquanto progredimos, nós aprendemos a ver essas coisas como aberrações da criatividade científica inata que é parte de cada pessoa. Como cientistas populares, veremos que a ciência consensual, com suas explicações e soluções universais, nos ensinou a desconfiar de nossa própria engenhosidade, criatividade e intuição.

Ciência Popular Vs. "O" Método Científico

O método científico é uma linguagem e formato universal para a experimentação. Entre outras coisas, o método científico é uma forma de apresentar os resultados da pesquisa de um cientista para que eles sejam acessíveis a outros cientistas. Então o método científico age como uma rede, combinando os esforços de cientistas do mundo todo. Usando essa poderosa ferramenta Babilônica, cientistas cooperam para superar todas nossas necessidades e nos levar à sua modernidade cada vez mais rápido e de forma mais eficiente.
Como um fenômeno criado pelo método científico, a modernidade nos diz que não há utilidade em repetir. Essa visão é a fonte do freqüentemente ouvido comentário "isso já foi feito", uma condenação à morte de um ato científico. Usado desta forma, o método científico se torna um método que encoraja o progresso do grupo acima do progresso do indivíduo.
Então nossa crítica de "O Método Científico" não é à "Ciência" pois ela é uma ferramenta fundamental de nossas espécie, não é ao "Método" pois o método é a aplicação da ciência, mas é o "O" o culpado dos crimes. A tirania do "O" é parte de uma linguagem que tenta unificar a diversidade da curiosidade humana e forçá-la em uma única técnica investigativa e, ao fazê-lo, decepciona tanto a ciência quanto a humanidade.

Ciência Popular e Arte

Em suas raízes, arte e ciência são o mesmo. Ambas as buscas usam a observação e a experiência que são parte de todas a vidas como uma base do pensamento criativo, engenhosidade e e produção. Mas como a ciência se universalizou e se agrupou nas mãos de uma minoria, ela passou a alienar a maioria.
A alienação da ciência consensual também contaminou a arte. Da Pintura Color Field à merda enlatada, a arte se tornou um jogo interminável do isso-já-foi-feito. Esse processo é encorajado quando críticos e historiadores que adoram a lógica, a ordem e seus empregos apoiam a arte que contribui para o progresso linear da história da arte. Isto é arte no modo tecnológico.
Em face a um sistema que se importa somente com o produto final, cientistas populares reclamam os processos de descoberta artística e científica como inerentemente valiosos. Cientistas populares vêem a beleza, aventura e relevância de reinventar a roda. Então uma frase como "isso já foi feito" não significa nada para o cientista popular, que responderá: "não por mim". Vendo a invenção como uma brincadeira, cientistas populares ficam livres da tradição de progresso linear que roubou a criatividade dos não iniciados e fez da ciência e da arte um sacerdócio inalcançável.

A Ciência Popular do Amor

Cientistas profissionais se tornaram intermediários entre nós e o nosso mundo; mas hoje em dia esse intermediários são encontrados por tudo. Esses doutores, designers, evangelistas e psicólogos são uma casta de sacerdotes no ramo de conectar os indivíduos inferiores com o universo, a saúde, deus, felicidade, e até mesmo o amor.
Eu gosto de pensar que, se eu nunca tivesse visto um beijo na televisão, eu teria acabado descobrindo essa interação bizarra, mas não tenho como saber. Estamos tão saturados de ícones de amor na grande mídia, que, como a ciência e a arte, este impulso natural se torna o assunto de experts. Esses atores vaidosos e estrelas pornô nos deixam brincar com nossos corpos estranhos, por linhas tortas e com luz inadequada, e então sobem no palco para nos mostrar como é que se faz. O maior feito dos amantes é transcender o bombardeio de imagens brilhosas e encontrar o seu próprio caminho.

Eis a Ciência Popular...

...onde encontrar nosso próprio caminho é uma prática diária. Aqui, não é tarde demais para inventar o avião, a bicicleta, o beijo. Aqui, há espaço para pesquisas com gravidade, câncer, psicologia e formigueiros. Aqui, incrédulos, nós partimos para descobrir se o mundo é redondo - e descobrir que ele não o é.
Então não use seu dinheiro, que se gasta como sola de sapato. Use a sua ingenuidade, que é viva e fica mais aguçada com o uso - use seu tempo, que, junto com a ingenuidade, parece cada vez mais abundante - use sua vida, o única posse que você pode guardar egoisticamente e doar graciosamente ao mesmo tempo.

Deploy! (Não soube como traduzir isto).

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