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Espere Resistência
CrimethInc


Eu cheguei na universidade a trabalho. Meu editor já sabia há tempos que eu havia perdido a fé no esquema; ele estava esperando por um pretexto para me despedir, e enquanto isso me mandava para cobrir as histórias mais indesejadas. Eu tinha sido enviado a concursos de quem comia mais torta, torneis de golfe de cidadão sênior, exposições de mobília vitoriana. Eu não esperava que essa fosse muito diferente.


Quando eu apareci por lá a ocupação já estava a pleno vapor. Parecia um posto avançado de um exército medieval: faixas pintadas com proclamações inescrutáveis, caldeirões de cozido fervendo em fogo aberto, bárbaros de rostos escuros reunidos no ar gelado da manhã. Parecia inconcebível que algo assim existisse no meu próprio século, muito menos no meu CEP.


Entretanto, a jovem bárbara que me mostrou o lugar dava a entender que eu era o anacronismo ali. Ela era agradável o suficiente, mas não se dava nem o trabalho de fingir me levar a sério. Toda pergunta que eu fazia ela virava contra mim:


"Quais 'organizações' financiam vocês?"


"Vamos lá, vocês devem estar conseguindo recursos de algum lugar". Eu gesticulava em direção às barracas à nossa volta enquanto dois tipos suspeitos com olhares cansados passavam por nós com caixotes cheios de comida. "Você não espera que eu acredite que vocês estão fazendo tudo isso sem patrocinadores, espera?"


"É isso que você acha? Não é de se surpreender que você seja um repórter."


Isso era um comportamento terrível para quem espera uma cobertura amigável; nós jornalistas temos uma grande fama de sermos sensíveis e temos nosso instrumento de vingança sempre na ponta dos nossos dedos. Será que esses selvagens não davam a mínima para terem uma boa imagem na mídia?


Isso era algo novo. Onde quer que eu fosse as pessoas me bajulavam, empurrando uns aos outros para terem a chance de me contar suas emocionantes histórias. Eu era o porteiro que guardava os portões do poder e da opinião pública, um personagem saído de um livro de Kafka; em uma sociedade que enxergava o mundo todo através da lente da mídia, eu era, como a fada do Pinóquio, o único que que poderia os tornar reais. Isso era ainda mais verdade com radicais e manifestantes, por mais que alegassem ter dúvidas sobre os meus empregadores.


Minha interlocutora não tinha nenhum interesse em se tornar real ― ela se contentava em ser imaginária, junto com todo acampamento medieval à nossa volta e os objetivos deste protesto, se existia algum. Eu tinha que admitir, dava quase uma sensação de alívio encontrar alguém que não tinha nenhum interesse em mim. Ao invés de acabar com a entrevista e despachá-la com desdém, eu continuava a pressioná-la com perguntas, mas cada vez com menos convicção. Finalmente, eu desisti e me sentei, parcamente resistindo ao impulso de pôr minha cabeça sobre minhas mãos.


"Eu não entendo." A abertura da barraca à esquerda mostrava três jovens dormindo, pelados e andróginos, unificados em um abraço que repudiava dois mil anos de doutrina Cristã. À minha direita, um homem que eu imaginava ser um zelador remexia em uma caixa de ferramentas, para finalmente tirar dela uma serra e um pino de boliche. "Tudo isto é como um sonho, e eu nunca sonho."


Isso acabou soando mais piegas do que eu queria. Ela sentou-se ao meu lado, olhando com compaixão para mim pela primeira vez. "Como o rei que nunca tinha sonhado até que o feiticeiro o fez dormir num chiqueiro."

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