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Sociobiologia ou Ecologia Social?

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A superfície de contato entre sociedade e natureza, a sua relação e interação, foi desde sempre um dos problemas mais fascinantes da filosofia, da ética e da cultura. Ele chegou mesmo a ser, na Antiguidade, a textura das mitologias e das crenças morais populares. Tal fato é-nos por demais evidente, para que o possamos assim esquecer, mesmo que, de início, se tratem de culturas ditas primitivas ou, como é o caso da Antiguidade Clássica, de proroculturas. No fundo, as religiões e filosofias da antiguidade não foram senão simples e complexos sistemas que pretendiam harmonizar o homem com a natureza e a sociedade com o cosmos. Assim, boa parte da formulação cultural humana, racional ou não, que se exprime desde a Antiguidade, não faz senão mostrar que o problema do lugar da sociedade humana na natureza esteve sempre no centro mais agudo de todas as problemáticas. Ele foi um tema, um motivo central de todo o pensamento e toda a sensibilidade humana. Desde tempos imemoraveis que a procura de um fundamento objetivo para a razão e para a ética - um fundamento que seja capaz de superar a simples utilidade grosseira ou o relativismo subjetivo - alimenta também, com intensa perplexidade e fascinação, o pensamento humano.

Foi apenas com o advento do cristianismo, e depois com o Renascimento, seu filho tardio, que esta superfície de contato foi pouco a pouco marginalizada e progressivamente excluída do domínio do pensamento humano. O cristianismo, e talvez mais do que estre o catolicísmo, com o seu poderoso e enraizado preconceito antinaturalista e antipagão, substituiu de modo quase absoluto a riqueza e a complexidade da visão greco-romana por um incolor traço divino, um sobrenatural único e, por isso, empobrecido. De certa forma este empobrecimento corresponde aquilo que os filosofos e os investigadores do Renascimento, particularmente com Descartes e com Galileu, vão ajudar a consolidar. Ou seja, as estratégias organicas do conhecimento vão ser substituídas por processos mecanicos e intermediários de saber. É aí, justamente, que existe o cordão umbilical possível entre a catedral e o laboratório que Francis Bacon consagrou na sua utópica Casa de Salomão. Mas, o efeito, as consequências desses efeitos mentais e ideologicos vão ser ainda mais vastas do que seus proprios autores. O pensamento humano afasta-se de uma procura racional, no melhor sentido da palavra, e desprovidos dos velhos e pacientes arcaísmos religiosos e filosoficos, que o tinham ajudado na relação do homem com a natureza, vai agora empenhar-se num racionalismo estreito e rigidamente subordinado aos seus próprios fins. Em nome desta nova abordagem científica foi instituido um "credo", um credo com preconceitos rígidos e formais que, no fundo, não eram menos metafísicos do que aqueles que constituíam a velha ontologia grega. Imaginava-se, por exemplo, que a natureza era cega, muda, indiferente e insensível, e que apenas era dado ao homem percebê-la através de equeções e enunciados matemáticos. No fundo, a natureza era encarada como uma história acidental, acontecida por azar, e, fato ainda mais importante e decisivo, como uma estratégia fundada não sobre a objetividade e a procura de elementos autônomos, mas sobre a eficácia, sobre o cálculo de rendimento e sobre o sucesso. Paradoxalmente, a concepção de contato entre sociedade e natureza, introduzida pelo Renascimento, não afastava a moral enquanto tal. Ela apenas substituía uma visão empenhada, integrada, por uma visão fundalmentalmente indiferente e neutra. Esta abordagem, vazia de qualquer valor, forneceu de fato os elementos necessários ao nascinento de um racionalismo estritamente preocupado em conseguir os seus fins, e que pode justificar, com a mesma facilidade e até com os mesmos argumentos, o fascismo ou o socialismo, para falarmos em termos de atualidade.

Mas esta mesma concepção da sociedade e da natureza pode, ainda, justificar não só o fascismo ou o socialismo, mas também uma certa idéia de anarquismo, que ainda hoje tem seus adeptos[1]. Se é necessário reconhecer que a teologia medieval, rígidamente subordinada a uma causa final, deu ao pensamento especulativo, através do tomismo, a idéia de um destino rigoroso preestabelecido é, por outro lado, necessário reconhecer que a ciêndcia mecânica descoberta pelo Renascimeto não fez mas do que substituir essa causa final da teologia tomista por uma outra mitologia, não menos inelutável, a que podemos chamar de causa eficiente.Este novo sistema, com todo o seu determinismo implacável, a sua redução simplista da complexidade natural, não serviu de modo algum uma idéia de liberdade nem tão pouco afastou o perigo de uma hierarquização. No fundo, ele nada contribuiu para um melhor aproveitamento da sociedade humana e da cooperação e apoio entre os homens. Ele mantém esquemas rígidos, hierarquias de funções não-interdependentes e um determinismo implacável que, na sua mecanicidade, tende a fazer esquecer qualquer concepção mais orgânica e dinâmica da vida, uma concepção capaz de contribuir a esta um sentido finalista, sem contudo necessitar de submeterm como o fez a escolástica, a uma presença absoluta e superior.

Continua...


Referências

  1. Veja-se, por exemplo, um artigo de um número recente do North American Anarchist, rebatizado strike, que defende a sociobiologia e descreve a natureza desprovida de sentido ou de significação, retomando à sua maneira todos os lugares comum do materialismo mecanicista de um La Mettrie ou de um Moleschot. Cito de memória o que disse, mas temo verdadeiramente ver este tipo de primatismo intelectual ganhar terreno entre as idéias anarquistas de esquerda, por cauda do seu aparente "materialismo" e do seu "antiteologismo". Estas formas de cientificismo e de behaviorismo, sem falar já da sociobiologia, são tão suspeitas como a própria teologia e o próprio misticismo


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