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Relato de AltDelCtrl do Encontro no Okupa La Grietta

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Por motivos subversivos um amigo e eu nos dirigimos a cidade argentina de Buenos Aires e entre outras coisas visitamos livrarias libertárias e um dos Okupas da cidade. Por um simples golpe de sorte nossa visita acabou acontecendo no mesmo dia de uma atividade anti-carcerária em que um grupo de libertários vindos do Chile faria um relato de sua guerra social contra o Estado da República Fascista do Chile. O ponto alto de nossa viagem foi sem dúvida esse encontro que relato abaixo. É um relato de cabeça, não tomei nota alguma então as coisas da forma que lembro aconteceram mais ou menos assim...

Caminhando por LezamaEditar

Ficamos sabendo dessa atividade que iria acontecer no okupa La Grietta por indicação de alguém que não chegamos nem sequer a conhecer pessoalmente, mas que fora nos indicado por um possível contato por uma amiga. Mas não soubemos exatamente onde ficava o okupa além de umas poucas indicações "nos arredores do parque Lezama, entre os bairros de San Telmo e Boca".

Estávamos na região central e quem quer que venha a conhecer essa região da cidade, poderá constatar o quão patética é a intensão capitalista voltada para o consumo na conformação do espaço: o centro é uma espécie de shopping center vitoriano a céu aberto destinado aos turistas, lá o estado argentino ergueu muitas estátuas para homenagear seus genocidas, notórios matadores de índios. Outro símbolo de seu poder é um grande falo branco erguido em meio a uma importante avenida, chamam-no obelisco, quiçá simbolize a capacidade deste mesmo estado de foder amplamente com os índios, pobres e dissidentes que vivem nas suas fronteiras. Nessa mesma região estão a casa rosada, o parlamento e outros enormes prédios públicos: é nesses lugares que se escondem em tempo de crise burocratas, estadistas e otros gusanos.

No centro tomamos um ônibus em direção ao parque, mas o ônibus não nos levou até lá e nos deixou na metade do caminho, em frente a uma grande estação de trem chamada Constitución. Em suas escadarias um bando de meninos de rua estava para ser revistado por policiais quando passamos. A alguns metros das escadarias decidimos pegar um taxi, havia uma fila de taxis parados. Tentamos o último da fila, a reação do taxista foi curiosa. O covarde pogonofobo[1] nos encarou como que nos medindo, estava evidentemente com medo de nós, de que o assaltássemos, se recusou a nos levar dizendo que estávamos muito perto e que caminhando por poucas quadras chegaríamos lá. Pensei comigo "e eu que nunca me achei um tipo assustador, há uma primeira vez pra tudo".

Mural Buenos Aires.jpg

Um Mural da UMHT muito semelhante ao mural da estação.

Decidimos caminhar mais um pouco e um pouco depois da estação passamos por um grande mural pintado por um grupo chamado Unidad Muralista Hermanos Tello[2] em tons de vermelho e negro com mulheres e homens erguendo bandeiras rubro-negras ao fundo grandes chaminés e silhuetas de fábricas, enfrentando policiais armados e tropas de choque.

Após duas tentativas conseguimos pegar um taxi que nos levou a uma das avenidas periféricas do parque Lezama. Estávamos numa região sem a pompa deprimente do centro, prédios antigos, casas, famílias que mesmo com o dia nublado e com as eventuais pancadas de chuva saíram de suas casas para aproveitar o sábado para passear no parque.

Inicialmente pensamos que poderíamos achar o okupa pela aparência, talvez no prédio ocupado tivessem pintado grafites e pichações que o diferenciassem, mas não seria tão fácil. Demos meia volta no parque nos deparamos com um prédio do outro lado da avenida onde havia, numa haste junto à porta o que parecia ser uma bandeira negra "Deve ser lá". Mais alguns passos e ficou claro que o negro da bandeira não era intencional: vinha da fuligem e da poluição da cidade que havia escurecido a bandeira que há muito tempo havia sido a da república argentina. Não pude deixar de pensar que no final todas as bandeiras acabarão negras, até finalmente não serem mais nada.

Perguntamos mais a frente para um tipo barbudo que passou por nós[3] por "direciones de una ocupación que haberia nesto barrio". Ele nos respondeu dizendo que muitos dos prédios que estavam ao redor do parque naquela avenida eram ocupações, mas que não conhecia nenhum lugar chamado La Grietta. O barbudo também nos sugeriu que perguntássemos na feira que havia mais a diante. Na feira tivemos mais sorte, perguntamos a um rapaz, talvez um carregador de carga da feira sobre um okupa ou centro social. Inicialmente pareceu não saber do que falávamos mas logo se lembrou de um lugar de "jovenes" onde tocavam de vez em quando umas bandas. Nos indicou a rua certa e para lá seguimos.

La GriettaEditar

Santa das barricadas.jpg

Nossa Senhora das Barricadas, uma das imagens reproduzidas nos pets que estavam sendo vendidos no okupa.

Já estávamos quase perdidos de novo no meio da já referida rua quando uma menina índia de visual anarcopunk atravessou a rua carregando sua filhinha com roupinha cor-de-rosa e um A no círculo bordado em vermelho. Perguntamos pelo La Grietta e ela nos disse que ia para lá para que fossemos juntos. No caminho nos apresentamos, ela perguntou de que cidade éramos, e lhes dissemos. Disse-nos que era chamada de "Bruja" e não só havia estado na nossa cidade como também era amiga de uns amigos nossos. É sempre divertido quando quando pontos da rede se fecham. Perguntou como tínhamos sabido da atividade, dissemos que estávamos lá por indicação de um amigo de uma amiga e que talvez o encontrássemos por lá. Uma quadra adiante chegamos no La Grietta: um antigo sobrado de esquina com a aparência de um ocupa. De uma porta saíram quatro meninos com dois grandes bandejões quadrados com pizzas recém-preparadas. Nos apresentamos, os cumprimentamos, um deles fez algumas perguntas, obviamente era uma questão de segurança, que respondemos de pronto. Nos oferecemos para ajudar com a pizza, peguei uma bandeja, deram a volta na esquina e encontraram com um grupo de quase dez pessoas que esperavam o início das atividades.

A casa estava lotada de libertários de todos os tipos e fenótipos, meninas, barbudos, anarcopunks, poetas, acadêmicos, artistas, trabalhadores, desempregados e até duas menininhas que estavam aprendendo a caminhar no meio de toda aquela confusão. Ficamos de canto tentando não atrapalhar o que parecia ser a dinâmica do lugar, mesas estavam sendo carregadas e outras coisas eram ajeitadas para a atividade. No primeiro andar havia uma sala grande onde estava a biblioteca popular do squat, ali havia sido montada uma mesa para servir de banca de venda de livros, panfletos e pets e pela sala se espalhava uma parte das pessoas. Outra parte conversava animada na calçada em frente a porta e tinha ainda um pessoal já no andar de cima, no salão em que a atividade aconteceria.

Na sexta feira uma tempestade havia caído sobre Buenos Aires e a cidade quase toda ela coberta de concreto e asfalto teve muitos danos e pontos de alagamento. O bairro em que o Grietta encontra-se estava sem energia elétrica, a reunião aconteceria a luz de velas. Nos juntamos todos no salão, gente sentada no chão, pelas escadas e encostadas nas paredes, não era um salão muito grande mas no início da atividade todos tinham seu lugar.

Cena ChilenaEditar

Um rapaz chileno, parte de um coletivo que estava presente, começou seu relato emocionado sobre seus amigos presos e mortos na "guerra social do Chile". Falou sobretudo do grau de absurdo em que se encontrava a repressão por lá com as autoridades assumindo uma política de tolerância zero, na qual qualquer um poderia ser preso da mesma forma, fosse por atirar em um policial, fosse por colar cartazes nas paredes.

O grupo do qual fazia parte o orador era um desses muitos grupos (como a Frente Anarquista Revolucionária e o coletivo Severino Di Giovanni) de orientação abertamente insurrecional. Deste coletivo fazia parte também Maurício Morales, ativista que morreu em maio de 2009 quando uma bomba que levava para explodir uma escola de treinamento da polícia, explodiu acidentalmente.[4] A morte de Maurício serviu de pretexto para que o aparato repressor chileno passasse a atacar paulatinamente muitas organizações libertárias fechando dois grandes okupas e atentando contra outros tantos, ao todo nove libertários acabaram na prisão.

350px|rightDesde então bombas explodem com certa regularidade no chile, partidos políticos e delegacias pegam fogo e libertários desaparecem. Segundo o orador, a mídia chilena trabalha como órgão de provocação do aparato repressor cobrando deste uma atitude ainda mais severa com relação àqueles que chama de terroristas anti-sistêmicos. A política de repressão estatal e a contra política de guerra social declarada por esses grupos de libertários chilenos havia feito com que estes últimos se afastassem dos projetos que descreviam como assistencialistas, e havia também entre eles uma forte (auto)crítica contra a espetacularização das ações diretas que consideravam nociva.

A propaganda de caráter doutrinário, algo que compararam com comportamento de igreja, também foi duramente criticada pelos chilenos, que afirmavam expor suas idéias e aceitar dialogar com todos os não-autoritários que de bom grado quisessem ter contato com eles. Criticaram também o assistencialismo de certas iniciativas que em nada gera uma condição de libertação, apenas é capaz de criar falsas esperanças, dependência e comodismo.

Anoiteceu e então só a luz das quatro velas colocadas no chão no meio da grande sala retangular enchia de sombras o ambiente. Para além do barulho da rua e dos sons que faziam as duas crianças o silêncio dentro do prédio era quase que total. A fala do rapaz estava ficando cada vez mais densa na medida em que ele lembrava de seus amigos mortos e presos e de seus medos de serem esquecidos por todos, enterrados nas prisões, nas mãos carcereiros e policiais sádicos que os odiavam e faziam de tudo para piorarem sua sentença.

A impressão que tive é de que essas pessoas que eram chamadas de terroristas pelos jornais sedentos de sangue de seu próprio país, eram os mais aterrorizados. Aterrorizados mas não menos endurecidos pelo terrorismo do estado chileno - "diga-me contra quem te levantas que te direi quem és" - como se o ponto do caminho em que estavam e seus mortos exigissem que continuassem por aquela via da "guerra social aberta" deflagrada contra um estado nacional cuja capacidade prévia de desaparecer com gerações inteiras de ativistas políticos, causa arrepios em não poucos.

Parece haver uma tradição no anarquismo, uma daquelas que brota vigorosa da memória compartilhada de massacres e torturas dos que vieram antes: onde quer que haja anarquistas e o estado nacional se mostre mais e mais coercitivo e interveniente, boa parte dos anarquistas assumirão cada vez mais posições e métodos insurrecionais.

Estratégias, fins e meiosEditar

Quando o orador terminou sua fala convidou a quem quisesse falar para que o fizesse, fosse para comentar ou fazer perguntas. E aos poucos todos foram saindo do silêncio e alguém começou a comentar. Um rapaz barbudo sentado num dos cantos de óculos onde estavam refletidas a luz das velas, lembrou que o movimento anarquista sempre foi diverso e que aí estava sua riqueza de posições e estratégias possíveis para contextos diferentes. Depois comentou sobre a existência de posições que seriam mais sociais em contraposição a outras de caráter anti-social. Concordando plenamente com a primeira parte da sua fala, a dicotomia trazida na segunda me causou um pouco de incômodo, mas me resignei em ouvir, um pouco por ser um estrangeiro sem domínio razoável do espanhol.

Outra pessoa pediu para falar, não conseguia enxergá-la do ponto no chão onde eu estava sentado, expôs sua preocupação com relação a esta estratégia acabar jogando estes grupos num isolamento, preocupação que seria levantada mais uma vez antes do fim da atividade. Um rapaz ao meu lado com um rosto índio também tomou a palavra. Disse algo como "ouço vocês falarem em guerra social e penso que falam mais do meio do que do fim que é o anarquismo. Temos que tomar cuidado com as palavras, porque elas falam mais de nós do que nós mesmos gostaríamos". A bateria de comentários e colocações continuou e eu ali sentado pensava que talvez pudesse contribuir com a discussão se conseguisse expressar bem o suficiente minha própria preocupação.

O tempo todo pensava numa fala que ouvi de Guilherme Correa num colóquio de educação libertária. A fala dele havia começado com a negação da substancialidade e personificação do anarquismo na figura do anarquista. Com outras palavras ele disse: "Quando alguém me diz que é um anarquista isso não quer dizer nada pra mim, pois estou preocupado não com títulos e rótulos, já conheci muita gente que se diz anarquistas e só sabe gerar autoritarismos por aí a fora. Estou interessado sobretudo nos efeitos das ações e o que elas podem desencadear no âmbito do social. Estou preocupado se as pessoas agem no sentido de desencadearem efeitos anarquizantes."

Fiquei pensando em que efeitos aquela estratégia insurrecionária estaria de fato desencadeando... não tenho uma resposta formada, só uma dúvida baseada na falta de possibilidades de observação. Efeitos anarquizantes poderiam ser conseguidos através de bombas? Através do medo e do martírio? Talvez conseguíssemos acertar uma ou outra pessoa com bombas, destruirmos alguns prédios mas nem de longe acabaríamos com cargos e instituições. Talvez estas posições saíssem mesmo mais fortalecidas frente a esses ataques. Talvez, talvez, talvez.

Quando dei por mim o orador havia retomado a palavra. Disse que reconhecia o risco do isolamento, mas que não era o caso já que muitas pessoas dessas que não se suspeita sobre nada, os conheciam, e que por vezes pessoas como estas é que livraram eles de serem presos ou espancados pelas "forças de órdem". Relembrou uma ocasião em que uma senhora de idade enfrentou um policial equipado ao estilo "tropa de choque robocop" para livrar a pele dele de ser preso.[5]. Uma menina chilena se levantou interrompendo seu amigo, para lembrar também que aquela atividade anti-carcerária estava acontecendo para ampliarem as vias de diálogo entre anarquistas do chile e da argentina. O rapaz voltou a tomar a palavra para dizer que no atual momento no chile uma atividade aberta como aquela seria impossível, e se por acaso fosse tocada seria fechada sob uma série de medidas de segurança.

Nesse meio tempo me perdi nos meus pensamentos e comecei a acompanhar o movimento das crianças pequenas. A filhinha de Bruja sentada em frente a uma das velas batia palmas descontraída, talvez pensando que velas e um monte de gente reunida, só podia significar aniversário...

Niñas e velasEditar

Indiferentes à densidade do momento ou das preocupações dos adultos, as duas menininhas pareciam estar lá por outro motivo. Tudo estava parado menos elas, indo de um lado ao outro sem freios. A maiorzinha das duas caminhava passos miúdos e incertos enquanto a menor, a Brujinha seguia decidida e firme no seu engatinhar. Nenhuma das duas parecia saber o que era uma queimadura e ambas insistiam em passar muito perto ou por cima de onde estavam as velas, como se não houvesse nenhuma vela por lá. De fato as velas desapareciam sempre que passavam por perto, erguidas pela mão do adulto mais próximo que a recolocava em algum outro lugar a uma distância segura.

Todos os que estivessem próximos das duas meninas estavam necessariamente cuidando-as para que não se machucassem. Não importava em que canto da sala estivessem, sempre havia alguém pronto auxiliá-las liberando o caminho para que pudessem passar. Em nenhum momento alguém tentou impedi-las de explorar o lugar, não houve uma pessoa sequer que quis barrar suas andanças e forçá-las a sossegar como muita vezes vemos nas ruas de qualquer cidade ou em qualquer espaço público, mães histéricas, pais ultra-protetores criando crianças frágeis e insuportáveis.

Já não ouvia muita coisa, prestava atenção sobretudo nessa atitude libertária dos adultos e seus benefícios. Não pude deixar de pensar também em quem seríamos nós se crescêssemos tendo como vivências situações como aquelas, cercados de pessoas que não desejam oprimir nem serem oprimidas, cuja ambição maior é o máximo bem-estar, a máxima liberdade e o máximo desenvolvimento possível para todos os seres humanos.[6]

Ainda que indiferente aos montes de palavras que proferiam os adultos, talvez as crianças ali estivessem passando por algum tipo de aprendizado libertário e anti-hobesiano, talvez percebessem que todos ali se preocupavam por elas e queriam seu bem. Uma criança se desenvolvendo num ambiente como esse talvez estranhasse todas atitudes e colocações que estamos tão acostumados assistir e presenciar, daqueles que se enganam pensando que o homem é o lobo do homem por natureza. Que benefícios obscuros podem contar pequenos que têm a sorte de crescer em um mundo de pessoas como estas? Quem saberá?


Referências

  1. Depois refletimos se ele não sofreria de alguma síndrome de pogonofobia, teria sido aquela reação uma fobia em relação a barbas, cavanhaques e barbichas?
  2. Provavelmente um grupo que faz parte da Organização Socialista Libertária da Argentina, e que como tantos outros em outros lugares, como a Muralha Rubro-Negra no Rio Grande do Sul, faz desenhos num estilo arredondado, um padrão de muralismo que talvez tenha surgido no Chile.
  3. Afinal não é agradável causar fobias em outras pessoas nem ser vítimas de preconceitos.
  4. http://raividitanoticias.blogspot.com/2009/06/chile-3-textos-sobre-morte-do.html
  5. Pode ser que haja um apoio em parte da população que tem contato com os okupas e grupos, mas essa é uma parcela mínima da população perto das mentes envenenadas pela mídia de massas
  6. Esta é uma paráfrase de outra escrita por Errico Malatesta.

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