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Por que amo roubar

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Dias de Guerra, Noites de Amor
CrimethInc


"Em um mundo virado de pernas para o ar, você tem que ser um ladrão se quiser ser um homem honesto." ― Mike Fromage, autor de Gehenna: One Man's Quest for Vengeance


Por que adoro roubar
de grandes corporações
por, hmmm, anônimo


Nada se compara ao sentimento de júbilo, de fardos sendo levantados e amarras sendo soltas, que eu sinto quando eu saio de uma loja corporativa com seus produtos em meus bolsos. Num mundo onde tudo já pertence a alguém, onde esperam que eu venda minha vida trabalhando para conseguir dinheiro para pagar pelo básico que preciso para sobreviver, onde estou cercado de forças além do meu controle ou compreensão que obviamente não se preocupam com minhas necessidades e bem-estar, esta é uma forma de cunhar um pedaço do mundo para mim ― reagir a um mundo que age tanto sobre mim.


É uma sensação completamente diferente daquele que sinto quando compro algo. Quando eu pago por algo, estou fazendo uma troca; estou oferecendo o dinheiro que comprei com meu trabalho, meu tempo, e minha criatividade por um produto ou serviço que a corporação não deixaria eu ter de nenhum outro jeito. De certa forma, nós temos uma relação baseada na violência: nós negociamos uma troca não por respeito ou preocupação um com o outro, mas de acordo com as forças que exercemos um sobre o outro. Supermercados sabem que eles podem me cobrar um real pelo pão porque vou morrer de fome se não comprá-lo; eles sabem que eles não podem me cobrar quatro reais, porque vou comprar em outro lugar. Então nossa interação gira em torno de ameaças implícitas, em vez de amor, e sou forçado a dar algo meu para conseguir algo deles*.


Tudo muda quando eu roubo. Não estou mais negociando com entidades não humanas, sem rosto, que não se preocupam com meu bem-estar; em vez disso, estou pegando o que preciso sem me desfazer de nada. Eu não sinto mais que estou sendo forçado a uma troca, e eu não sinto mais que não tenho controle sobre a forma como o mundo dita a minha vida. Eu não tenho mais que me preocupar em se o prazer que eu recebo pelo livro que comprei compensa as duas horas de trabalho que me custou para comprá-lo. Desta e de outras centenas de formas, roubar faz eu me sentir libertado e poderoso. Vamos examinar o que o roubo tem a oferecer como método alternativo de consumo.


O ladrão ganha seus prêmios quando corre riscos, e não quando dá um pedaço de sua vida em troca. A vida para ele não é uma coisa que deva ser vendida por sete ou oito reais a hora em troca de sobrevivência; ela é algo que lhe pertence porque ele a toma para si, porque ele a reclama. Em nítido contraste com o consumidor que acata as leis, o modo como os bens são adquiridos é tão empolgante quanto os próprios bens; e isto significa, de muitas formas, que é mais digno de louvor.


Roubar é uma recusa a participar na economia de trocas. É uma negação de que as pessoas mereçam comer, viver e morrer baseado no quão efecientes eles são em trocar seu trabalho e capital com os outros. É uma negação que possa se atribuir um valor monetário a tudo, que ter um pedaço delicioso de chocolate na sua boca vale exatamente cinqüenta centavos ou que uma hora da vida de uma pessoa possa realmente valer dez reais mais que a de outra. É uma recusa a aceitar o sistema capitalista, no qual trabalhadores têm que comprar os produtos do seu próprio trabalho dando o lucro para os donos do capital, que os fazem ir e vir.


Roubar é dizer NÃO a todas características ofensivas que caracterizam a corporação moderna. É uma expressão de descontentamento com os baixos salários e falta de benefícios que tanta corporações exploradoras forçam os seus empregados a sofrer em nome do lucro da empresa. É uma recusa a pagar por produtos de baixa qualidade que foram projetados para estragar ou se desgastar logo para forçar os consumidores a comprar mais. É se recusar a financiar a destruição ambiental causada impiedosamente por tantas corporações durante a fabricação de seus produtos e construção de novas lojas, uma recusa a apoiar as corporações que levam empresas locais à falência, uma recusa a aceitar o assassinato de animais nas indústrias de carne e laticínios e a exploração de imigrantes nas indústrias de frutas e vegetais. Roubar é uma declaração contra a alienação do consumidor moderno. O ato de roubar declara: "Se não somos capazes de encontrar ou comprar nenhum produto além destes, que foram feitos a milhares de quilômetros de nós e sobre os quais não podemos saber nada, então nos recusamos a pagar por eles".


O ladrão ataca as céticas táticas de controle mental da publicidade moderna. Os comerciais, outdoors, até mesmo o piso e as estantes dos produtos nas lojas de hoje são projetados por psicólogos para manipular consumidores em potencial a comprar tais produtos. As corporações bancam caras campanhas publicitárias para instigar pensamentos de consumo em todas as cabeças, e até se esforçam para tornarem seus produtos símbolos de status que as pessoas de algumas camadas sociais devem possuir para conseguirem receber algum respeito. Quando se depara com este tipo de manipulação, o cidadão respeitador das leis tem duas escolhas: ou conseguir o dinheiro para comprar esses produtos vendendo a sua vida como um trabalhador assalariado, ou ficar sem e possivelmente ser humilhado publicamente ou ficar frustrado. O ladrão cria uma terceira opção: ele pega o produto que ele foi condicionado a desejar sem pagar por ele, de forma que as próprias corporações tenham que pagar por toda sua propaganda e tática de controle mental.


Roubar é a forma mais eficiente de protestar contra essas características detestáveis das corporações modernas porque não é apenas teórica ― é prática e envolve ação. Protestos verbais podem ser dirigidos a empresas irresponsáveis sem jamais ter algum efeito concreto, mas roubar é intrinsicamente danoso a estas corporações ao mesmo tempo que ele (mesmo que disfarçadamente) demonstra insatisfação. É melhor do que o boicote, porque ele não apenas custa à corporação, ao invés de apenas negar o lucro, mas também significa que o ladrão ainda é capaz de obter os produtos, que ele pode precisar para sobreviver. E nestes dias, quando tantas corporações estão interligadas, e tantas multinacionais estão envolvidas em atividades inaceitáveis, roubar é um protesto generalizado: é uma recusa a colocar qualquer dinheiro na economia, então o ladrão pode ter certeza que nenhum do seu dinheiro jamais irá parar nas mãos das corporações que ele desaprova. E soma-se a isto, ele também terá que trabalhar menos!


Mas e as pessoas nas corporações? E o seu bem-estar? Antes de tudo, corporações são diferentes das empresas privadas tradicionais pelo fato de existirem como entidades financeiras separadas de seus proprietários. Então o ladrão está roubando de uma entidade não-humana e não diretamente do bolso de outro ser humano. Em segundo lugar, uma vez que a maioria dos trabalhadores recebem salários fixos (como o salário mínimo, por exemplo) que dependem mais do mínimo que a corporação pode pagar e se sair bem do que com quanto lucro ela está fazendo, o ladrão não está prejudicando a maior parte da força de trabalho de qualquer corporação que seja. Os acionistas, que são quase sempre mais ricos que o ladrão comum, são os que podem perder um pouco caso a corporação sofra perdas significativas; mas realisticamente, nenhuma campanha de roubo poderia ser tão intensa a ponto de levar à pobreza qualquer um dos indivíduos ricos que lucram com essas companhias. Além disso, as corporações modernas já têm um dinheiro reservado para perdas com roubos, porque eles as antecipam. É isso mesmo ― essas corporações estão conscientes de que há insatisfação com elas e sua economia capitalista, que as pessoas irão roubá-las sem remorso. Por esse lado, os ladrões estão apenas fazendo o seu papel na sociedade, assim como os diretores das empresas. Mais significativamente, essas corporações são cínicas o suficiente para continuar fazendo negócios como se nada estivesse acontecendo, apesar de saberem que isto deixa muitos de seus clientes (e empregados!) prontos para roubar tudo que eles possam. Se elas estão dispostas e continuar fazendo negócios desta forma mesmo quando têm consciência de quantas pessoas são marginalizadas por isso, eles não deveriam se surpreender que as pessoas continuem roubando deles.


E a respeito do mito de que roubar eleva os preços para os consumidores: você não acha que os preços que você paga são realmente determinados apenas pelos custos de produzir e distribuir os produtos, acha? Novamente, estas corporações cobram o máximo que elas acham podem cobrar. É o mercado, e não suas despesas, que determina os preços. Se o dinheiro que eles reservam para perdas com roubos não é usado, é mais provável que a empresa fique com ele como lucro, ou invista na abertura de novas lojas (e portanto, levando ainda mais empresas independentes a fecharem suas portas) do que dividí-lo com seus funcionários mais pobres, muito menos passá-lo de volta ao consumidor com preços mais baixos. Se fossem roubados produtos suficientes para que a empresa tivesse que subir os seus preços, isto faria com que os consumidores parassem de comprar deles e passassem a comprar em lojas locais mais inofensivas ― isso é tão ruim assim?


Roubar é mais do que um modo de sobreviver na competição cruel do "mercado livre" e de protestar contra as injustiças corporativas. Também é uma orientação diferente para enxergar o mundo e a vida em geral.


O ladrão de lojas resiste em um ambiente que foi conquistado pelo capitalismo e pela indústria, onde tudo se tornou propriedade privada e não há mais um mundo natural de onde retirar recursos, sem aceitar isso ou o modo de vida absurdo que o segue. Ele toma sua vida em suas próprias mãos aplicando um velho método ao problema da sobrevivência moderna: ele vive como um catador-coletor urbano. Deste modo, ele é capaz de viver de uma forma parecida com a de seus distantes ancestrais que viviam antes do mundo ser subjugado pela tecnologia, pelo imperialismo e pelas exigênciais irracionais do mercado "livre"; e ele pode encontrar os mesmos desafios e recompensas em seu trabalho, recompensas que hoje são inalcançáveis para o resto de nós. Para ele, o mundo é tão perigoso e empolgante quanto era para a humanidade pré-histórica: todo dia ele se encontra em novas situações, confrontando novos riscos, vivendo pela sua própria astúcia em um ambiente que está sempre mudando. Para o consumidor que respeita as leis, o mais provável é que todo dia de trabalho seja parecido com o anterior, e perigo é tão ausente em sua vida quanto significado e propósito.


Roubar de lojas corporativas é colocar desejos imediatos, corpóreos (como fome) acima de "éticas" abstratas e outras construções etéreas, cuja maioria são resquícios da Cristandade mesmo. Roubar despe os produtos (e o mercado em geral) do poder mítico que eles parecem ter para controlar a vida dos consumidores... quando produtos são pegos à força, ele se mostram pelo que realmente são: meros recursos que foram tomados à força por essas corporações às custas de todo mundo. Roubar nos coloca de volta no mundo físico, onde as coisas são reais, onde as coisas não são nada além de suas características físicas (peso, gosto, facilidade de aquisição) e não possuem qualidades supersticiosas como "valor de mercado" e "margem de lucro". Isso nos força a correr riscos e vivenciar a vida novamente em primeira mão. Talvez o ato de roubar, sozinho, não será capaz de derrubar a sociedade industrial ou o sistema capitalista... mas até que esses momentos cheguem é uma das melhores, e mais práticas, formas de protestar e tomar o poder sobre nossas próprias vidas de volta!

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