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Por & Contra a Interpretação

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Millennium
Hakim Bey


(Original em Inglês)


"Anjos estão batendo na porta da taverna." - Hafez de Shiraz
"...para os lunáticos da Irlanda..." - Dean Swift (em seu último desejo e testamento escrito em uma nota de dez libras)


Prime Real Estate.jpg
Kildare¹ é plana - então não importa onde você vá, é possível enxergar as linhas elétricas cruzando a paisagem como Marcianos Hollywoodianos. Patrick está na "Corte do Bispo" que, apesar do nome, é quase um cabana úmida de três quartos e um velho estábulo cheio de trabalhos de arte feito entre outros por Hilarius², incluindo várias ferramentas rústicas de fazenda e placas de turfa retiradas da turfeira local. Depois do chá no curral lamacento onde a brisa é constante, nós saímos para encontrar a Igreja de São Patrick e a Fonte, não muito longe em outro curral perto de um estábulo de metal cercado por vacas e bosta de vaca – do século XIII ou mais antiga, Romanesca com um toque de Gótico (ou Egípcio?) no arco fechado das janelas – restaurados na década de 1950, mas esquecido e novamente recoberto por heras e trepadeiras – a arquitetura estimula a humildade uma vez que para que se possa entrar é necessário se dobrar como em uma casa de chá Zen. Nossos amigos James e Sean decidiram colocá-la de pé, construir um altar e pendurar um sino no campanário, e então ver quanto tempo demora até que alguém se dê conta. Andamos pela beira da estrada, as vezes caminhando pelas flores silvestres, para evitar os carros velozes dos grandes fazendeiros, ao lado de uma amoreira carregada de flores tardias e frutas ainda verdes. a Fonte não aparece listada em nenhum registro nacional – talvez ninguém mais a visite. Como outras fontes que vi na Irlanda, ela parece com uma safira em uma esmeralda em uma jade, na mão de um druida – demos três voltas à "magia do sol"³ e então bebemos – os carros passavam zunindo a não mais que 20 passos atrás de nós –, Sean viu recentemente um espírito aqui e deixou seu porta-retrato em algo como uma máscara-viva feita com um emplastro junto a fonte em uma placa de pedra.


Ibn Arabi um Sufi Andaluzino do século XIII afirmava que existem "tenuidades delicadas" que se colocam entre o céu e a terra como as escadas de Jacó⁴, dizia também que os "significados" que derivam dessas tenuidades se assemelham a anjos. Se ele pudesse nos falar com expressões da contemporaneidade acredito que ele teria dito que as tenuidades são algo semelhantes a feixes de luz quase transparentes, tons da aurora boreal pulsando como nodos luminosos, como estrelas caindo através de cortinas de gás. Não existe necessidade de auto-limitar essa percepção através de explicações psicológicas ou teológicas – para os naïves⁵ qualquer experiência possui muito a priori uma autenticidade com qualquer outra experiência –, um espírito é visto ou um significado desaba da mesma forma que a chuva fina é vista e desaba. Mas o quão naïve podemos ser? Não importa, o maior avanço científico ou a mais intrincada teologia nos levará a um atordoante retorno a mesma crua proposta existencialista: desde que apareceu, ela parece um tanto quanto real. Então se o significado que aparece na tenuidade é real, pode ser traçado de volta para sua fonte que é real – ou real o suficiente para seus objetivos presentes – e este caminho de volta é chamado (pelos gnósticos Ismaelitas) ta'wil, ou "Interpretação". O psicólogo diria que o conhecimento que surge desta operação vem do interior, o teólogo diria que ele provem de fora, mas para nós ambas as explicações perderam seu poder de sedução. Como num processo alquímico, a interpretação transpira num espaço ao mesmo tempo interior exterior e em nenhum deles simultaneamente; como "exegese hermenêutica"⁶ (na expressão de Henry Corbin⁷) pertence num entremeio ou istmo chamado Mundus Imaginalis, onde as imagens surgem como autônomas ou onde os sonhos podem prognosticar o real. Nesse sentido nem o real ou o irreral, em outro sentido, perfeitamente capaz de aparecer para nós como espírito, o mundo da imaginação atua como se esta fosse a fonte de todas as significâncias, lugar da persona, o fôlego do mundo. A ciência e a religião pode ter se unido para buscar esta desilusão – mas para nós isto só indica um desespero que compartilham. As dimensionalidade dual das fontes epistemológicas, dicotômicas, armadilhas semânticas, fés ruins – que se fodam a ciência e a religião – deveríamos exigir um racionalismo do maravilhoso – um fim para a violência da explicação. Nesse contexto, indivíduos e grupos compartilham a responsabilidade de fazer contato com seus próprios anjos – mesmo os gurus místicos deixaram com que nos perdêssemos aqui, desde que eles se colocaram entre nós e nossa própria consciência e fingiram uma autoridade que nos reduz a subalternos – ou mesmo a objetos – objetos da interpretação de alguém. Parece que não podemos escapar da instauração de uma velha heresia aqui – baseada na presunção de que todo mundo em todos os momentos sabem precisamente o que está acontecendo e o que deve ser feito – se somente eles conseguem separar a liberdade da necessidade, opressão, e a sufocação da falsa consciência – e escapar da escassez da qual a autoridade avalia (mede) sua força e seu poder contra nós. Acima de tudo, a escassez de interpretação.


Cliffs of Moher.jpg
O mais pernicioso poder de interpretação pertence agora ao próprio Capital, que exige ser livre de todas as dualidades, todas as alteridades - em um "obsceno êxtase" terminal de consciência una e aplainada.- uma universalização do dinheiro no espaço conceitual, largamente removido e transcendido, acima de toda produção vulgar, um tipo de numisfera⁸ ou tempo paradisíaco de dinheiro puro - e em débito global, o débito de tudo à nada, como um buraco negro no horizonte de eventos, sugando até a última partícula de luz em um vazio para além da história. De acordo com a "lei natural" da liberação total do dinheiro, nada - nem mesmo ar, agua, ou sujeira - pode ser experenciado diretamente autonomamente por si ou por um grupo, tudo precisa ser mediado pelo próprio dinheiro, que pretende permanecer entre a consciência e a produção como um filtro absoluto, coando e eliminando até o último traço de autenticidade - taxando a própria realidade - como um poder final para além da autoridade ou da lei. Acima de tudo, o Capital intenta adquirir um monopólio da interpretação.


Walter Benjamin elucidou como o processo pelo qual a mercadoria é imbuída com um "traço utópico" - que é, através da imagem de uma promessa: que esse objeto-para-a-venha contém um tipo de 'futuridade' ou um lugar do não-lugar onde sua consciência será válida uma vez mais, sua experiência real. Se o produto não fosse tão propagandeado, você poderia não comprá-lo - mas se o produto cumprisse as promessas que leva consigo, você deixaria de comprar outros produtos - por que gastar mais dinheiro se a realização já foi alcançada? - se assim fosse o Capitalismo entraria em colapso. O dinheiro só pode circular livremente em um reino de desapontamento contínuo - a reprodução da escassez é a produção da riqueza. Só posso ser rico se os outros são pobres - mas o próprio dinheiro não possui outro fim ou objetivo que a miséria total de tudo que não é "o Mercado". Há muito tempo atrás toda a vida material foi capitalizada, o poder da escassez não teve escolha a não ser produtificar tanto a imagem quanto a imaginação - supondo ser este um mercado capaz de se expandir eternamente. A consciência precisa ser privatizada - o pensamento deve ser apropriado, adulterado, alienado, empacotado, rotulado, propagandeado e vendido novamente como consciência. Toda criatividade precisa ser monetariamente valorada, e até mesmo o processo de resistência contra esta expropriação precisa ser ele próprio transformado em lucro ("Seja um rebelde - compre um Toyota" - ou "Imagem não é nada, sede é tudo" como slogan de algum refresco nojento). Toda a mídia informacional da educação é dedicada à propaganda e ao rompimento da imagem de qualquer amarras com relação a vida experenciada, ela ira flutuar livre, e se rematerializar em produtificação. Trabalhe, consuma, morra.


O turismo é o Capitalismo perfeito: o consumo da imagem do mundo como ele realmente é - a mercadoria mestra a venda incluindo geografia (a inscrição da significância na paisagem) e historiografia (a inscrição do significado na paisagem cultural⁹). A imagem definitiva no entanto, é a "bendita" ou baraka¹⁰ é inerente ao objeto do olhar constante do turista. O momento possível da realização é empacotado, pré-interpretado por especialistas oficiais, transformado em uma série de perspectivas, distanciadas de todos os sentidos diretos (o toque, o gosto, o cheiro); o espaço é subjugado pelo tempo, estratificado, separado, particionado em uma grade de expectativa permissiva; o 'porvir' é processado dentro de digitalizações rígidas de aparelhos de gravação, banidos da memória, e embalsamados dentro de uma falsificação de existência pura. Os chamados "primitivos" poderiam dizer que é assim que suas almas são roubadas, que o significado em si mesmo adentra em um campo de decadência, um tipo de raio que emana do 'Mal Olhado', ou uma atrofia autofágica¹¹ que tem como alvo de sua inveja tudo aquilo que possui significância. O problema não está no conteúdo da experiência turística - alguém pode imaginar programas turísticos baseados em idéias que poderíamos considerar relativamente corretas e até mesmo belas - o problema reside no recipiente¹², no próprio fato da interpretação, na estrutura de um "diálogo" que exclui toda a resposta, ressonância, ou resistência. Certos tipos de viagens - nomadismo, peregrinação - devolvem e restabelecem o significado da paisagem. Enquanto outros tipos - guerra, turismo - se fundamentam essencialmente em seu afastamento. A reciprocidade atinge um ponto de desaparecimento nestas formas de depredação. Mesmo a mais sutil propaganda do Estado nunca se aproximou desta última fronteira - e depois de tudo, ela sempre evocada como sua própria oposição - enquanto o turismo representa o fim de toda a dialética - desde que o único gesto negativo evocado é o terrorismo, que é o seu próprio conteúdo reprimido, é seu "gêmeo malvado". O turista, seduzido pelo traço utópico em seu aspecto mais pungente - a imagem da diferença - se torna uma molécula de poluição, carrega o vírus da mesmice, e a carga do desapontamento, dentro de um mundo que antes era vivido por si mesmo.


Taking it all in......jpg
A função do artista no Capitalismo pode ser comparada com a do guia turístico: - mediador da experiência para o consumo no nível mais elitista, agente de recuperação dos anseios mais refinados e dos ressentimentos mais profundos da sociedade; - mesmo um guia turístico pode ser sincero. Mas a comparação pode se mostrar preconceituosa - na medida em que a intenção do artista for adicionar significado à soma total da experiência e não subtraí-la ou abstraí-la. A postura da arte carrega os pressupostos da postura da reciprocidade, da presença. Esse movimento é interrompido pela essencialmente desumana intervenção do Capital, a mediação exacerbada de um poder que pode apenas crescer através da criação de escassez e segregação. E se todos os artistas, poetas, intelectuais e músicos da Irlanda fossem convidados a transformar os novos centros interpretativos do país em sua própria imagem? Quem se importa se a estética exaltada permanece anunciando o triunfo da interpretação como resultado se este se realiza sempre através da supressão de nossa própria criatividade? Em Java, ouvi que "Todo mundo precisa ser um artista" - e de fato todo mundo já é um artista por extensão de toda experiência vivenciada que é uma co-criação de si e do outro: - a produção é também uma peça - e acima de tudo, uma produção de significado. Nós não precisamos do artista para viver por nós, mas simplesmente para ser nosso facilitador, nosso acompanhante, parte de nosso círculo de reciprocidade - e quanto a arte, se existe qualquer forma de evitar que seja englobada, podemos enxergá-la como a única forma de oposição ao Grande Mundo Único enquanto forma de interpretação unificada. Quando a recusa da arte se torna parte da Grande Teoria Unificada do fim da física ou da história ou do salário mínimo ou de qualquer outra coisa. Não há nada de "virtual" a respeito disso - e este não é o caminho para uma condição do Ocultamento. Que é aquilo é real mas não é visto que tem o poder do Oculto, da imaginação, da eroticidade - Como o espírito-máscara de Sean na Fonte, que devolve significado à paisagem - é algo que permanece não notado até que alguém talvez a pegue para si como um presente livre - pela própria experiência que desafia o mundo da imagem produtificada e muda (de leve talvez) a forma da realidade consensual. Mesmo o mais secreto e escondido, exerce um efeito magnético, carrega sutilmente em si transformações e re-alinhamentos - e ao menos em teoria, uma dádiva passada a frente até mesmo pelas simples palavras sobre o mundo prestes a se transformar. Será este talvez um ato autoritário velado? Não, desde que seja um ato de compartilhamento de significado, uma abertura no campo de "tenuidades delicadas". Mas e se se mostrar completamente invisível? Só então talvez possamos falar da presença de espíritos, de um necessário reencantamento muito tênue para densidade imperativa do olhar - e de uma necessária clandestinidade. E se ela reaparecesse algum dia como uma oposição compartilhada capaz de arrancar o fôlego da virtualidade em prol de um mundo que é permanentemente adiado, sempre está em algum outro lugar, sempre fatal?


Naquela noite dirigimos de volta para Dublin na longa luz de verão passando por montes megalíticos, acampamentos de viajantes, e tolas ruínas do século XVIII e zigurates erguidos por loucos senhores - passamos pelo Hospital St. Patrick, onde Dean Swift anunciou seu último desejo "aos lunáticos da Irlanda" - lugares que talvez ainda não tenham sido absorvidos pelo novo mundo do Euro-dinheiro, do golfe, e do Patrimônio Nacional. Logo depois do cair da noite estávamos em Dún Laoghaire¹³ perto da torre Martello¹⁴, olhando para a grandiosidade daquela paisagem nostálgica, a imensidão do oceano sob as nuvens cinzas. Os jardins frontais da vilas surradas da costa vitoriana foram adornados com uma das minhas plantas irlandesas favoritas, misteriosas palmeiras um pouco desgastadas que para mim invocam um passado Mouro secreto, memórias de piratas bárbaros, ou de monges vindos do Egito e da Espanha. Uma cruz Celta certa vez foi descoberta na Irlanda em seu centro estava gravada a frase árabe "Bismillah", aquela que abre o Alcorão. Estas palmeiras provavelmente foram introduzidas por algum horticultor da virada do século com um gosto pelo exótico, mas para mim elas são um indício da "alma oculta da África" na Irlanda. Uma chuva fina escura começa a cair. Ou pelo menos esta é a minha interpretação.


Dublin, 23 de Agosto de 1996


NotasEditar

1. É o nome de uma cidade e de um condado na Irlanda. (N.T.)

2. Hilarius foi um poéta latino do século XII provavelmente nascido na Inglaterra. (N.T.)

3. No folclores escocês 'magia do sol' (no inglês sunwise ou sunward) é considerado um 'percurso prospero', um movimento circular iniciado de leste a oeste tal qual o percurso feito pelo sol. O percurso oposto é conhecido na Escócia como widdershins, scots das terras baixas, ou tuathal (em gaélico escocês, literalmente nortemente'), que pode ser considerado um movimento contrário à este, remetendo talvez a chegada de povos vindos pelos mares do norte à ilha em um período quase imemorial. (N.T.)

4. As escadas de Jacó são escadarias mencionadas no Antigo Testamento (Gênesis 28:11 - 19), pelas quais os anjos ascenderiam e desceriam do céu. Elas teriam sido vistas pelo patriarca Jacó durante um sonho, após ele ter fugido do confronto com seu irmão Esaú. (N.T.)

5. A idéia de Naïve congrega as idéias de simplicidade, sobriedade que abre mão voluntariamente de um requinte desnecessário para manifestar na forma de uma idéia, uma ação ou uma estética – também é geralmente vinculada a uma noção moderna de primitividade ou infantilidade. Na arte se marca por formas desajeitadas que se relacionam a determinadas qualidades formais; um desenho pautado na expontaneidade e no uso da perspectiva que resultam numa beleza desquilibrada, mas, por vezes, bastante sugestiva; uso frequente de padrões, uso de cores primárias, sem grandes nuances. (N.T.)

6. A exegese hermenêutica se ocuparia da compreensão profunda de um texto ou discurso no sentido de desvendar suas intencionalidades e comunicacionalidade. (N.T.)

7. Henry Corbin (nascido em 1903, falecido em 1978), filósofo, teólogo e escritor islâmico, conhecido como o grande revelador do Islã espiritual ante o Ocidente. Dialogou com Étienne Gilson e posteriormente com Louis Massignon, a quem sucederia em diversas estâncias – na Turquia, Síria, Líbano, Egito, e sobretudo no Irã – na cátedra de Islamismo e Religiões Árabes, sendo diretor do Departamento de Ciências Religiosas da École Pratique des Hautes Études de Paris de 1954 a 1974. (N.T.)

8. Numisfera (do latim (numi - espirito sagrado - phere - espaço) Esfera ou patamar da existência em que habitam divindades e/ou espíritos sagrados. (N.T.)

9. No original culturescape. (N.T.)

10. No islã, e em todas as línguas de influência árabe, baraka refere-se a uma sabedoria espiritual passível de ser transmitida. (N.T.)

11. No original withered self eaten, refere-se a algo que se destrói, que diminui seu ser devorando a si mesmo. (N.T.)

12. No original container, carrega também o sentido de recipiente, embalagem e veículo da mediação. (N.T.)

13. É o nome de uma cidade e de um condado na Irlanda, a cidade é considerada o principal porto de comunicação com o resto do Reino Unido. (N.T.)

14. Torres Matello são pequenas fortificações construídas no século XIX, durante as guerras napoleônicas em vários territórios ocupados pelo Império Britânico, entre estes partes da França, na Irlanda, no Canadá. (N.T.)


Millennium (livro)
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