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Pego nas redes da decepção: os anarquistas e a mídia

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Killing King Abacus


Uma vez que a presente ordem social existe, será impossível evitar a interação com as várias facetas da estrutura de poder Aqueles(as) de nós que se autodenominam anarquistas e conflitantes, refletindo nosso desejo de destruir completamente a estrutura de poder. Tal escolha requer conhecimento do inimigo. Quase tod@s @s anarquistas reconhecem que o estado e o capital são facetas da estrutura de poder e possuem algum entendimento mínimo de como estas funcionam como tais. Cada vez mais anarquistas estão reconhecendo que a tecnologia e a ideologia são também parte de uma rede de poder. Se pensaria que por isso eles(as) tirariam a devida conclusão de que o sistema tecnológico para a disseminação da ideologia, a mídia (eu uso a palavra mídia para me referir especificamente a este sistema na sua totalidade, não para me referir a específicas ferramentas com as quais ele costuma desempenhar sua função, uma vez que algumas destas ferramentas podem ser usadas de maneira diferente, mesmo contra esta função). É uma parte inerente da estrutura de poder e , portanto, um inimigo de toda rebelião e de toda tentativa de criar uma vida livre. Mesmo em face da intensa concentração da mídia nas mãos de pouquíssimas mega-corporações (um fato que deveria revelar algo da sua natureza), existem ainda alguns anarquistas que desejam diretamente, e de uma forma não conflitual, interagir com ela numa tentativa de comunicar idéias anarquistas no terreno da mesma. Isto mostra uma falta de entendimento de como a mídia funciona.


A mídia desempenha um papel específico na estrutura de poder, um papel que, em um estado democrático, se torna não somente essencial, mas também central ao funcionamento do poder. Mas antes de continuar, é necessário confrontar as ilusões que muitos têm sobre a democracia. Enquanto é verdade que a democracia pode somente significar um processo decisório que oferece a todos os envolvidos uma palavra ou um voto em cada decisão (o porquê disto ser incompatível com a anarquia é um assunto a ser melhor tratado em outro momento por questões de brevidade), na era presente, a democracia é também e principalmente um sistema de estado e poder social que mantém a paz social através da permissão do mais largo espectro possível de opiniões. O estado democrático é capaz de permitir tal grande espectro de opinião exatamente porque opiniões são basicamente sem substância. Opiniões são idéias que foram esvaziadas de toda vitalidade. Separadas da vida, e de qualquer base projetual, elas se tornam falação inofensiva que por fim fortalece o estado democrático por fazê_lo parecer tolerante e aberto se comparado aos estados feudais ou ditatoriais.


A partir disso, a função política da mídia deveria ser óbvia. Ela e o mediador e processador da opinião democrática. Ela devora as complexidades da vida e da interação social, das relações internacionais e da insurgência, do colapso cultural e da necessidade econômica... a totalidade da realidade no presente, e as mistura formando uma pasta entre seus dentes, então as digere e as caga... bosta. Todas as complexidades, toda a vitalidade, toda ligação com a vida real foi secada, e somos deixados a decidir se essa massa de informação marrom é boa ou não. A realidade de onde esta bosta foi produzida está tão distante que nós “sabemos” que não podemos influenciá-la diretamente, discute no bar sobre a merda da bosta e vota naqueles políticos em que a besteira exala o aroma mais doce. Ser a favor ou contra esta guerra, aquela lei, qualquer que seja o candidato, a política ou programa, não é ameaça alguma ao poder. O propósito da mídia é justamente promover o pensamento pré-dirigido que nos mantém passivos em face de uma realidade distante, sempre prontos para escolher entre as opções oferecidas pelo estado democrático, opções que terminam todas sujeitando ao poder do estado e do capital aquele que escolhe.


A mídia possui uma outra função essencial. Ela é a criadora de imagens para consumo. Ela cria celebridades e personalidades para as pessoas procurarem e viverem através delas de modo vicário. Ela cria imagens de papéis para as pessoas imitarem de modo a inventarem sua “indenidade”. Ela cria imagens de eventos separados da vida e recolocados acima dela. É através dessas imagens, ingeridas acriticamente, que as pessoas vêem e interpretam o mundo, formulando suas opiniões desta sua irrealidade virtual. Na medida que a mídia é bem sucedida, o resultado é uma população passiva, previsível, consumindo o lixo servido pela ordem social.


Escolhendo o caminho de passar idéias através da mídia se está escolhendo alimentar o monstro mastigador com essas idéias, para oferecer a alguém esta coisa vazia de vida. Para anarquistas isto não faz sentido. É impossível para a mídia retratar o anarquismo como uma praxis em vida ou a anarquistas como indivíduos complexos e multi-dimensionais. Não é portanto possível expressar idéias anarquistas de uma forma conveniente, que valha a pena, através deste fórum. As idéias serão mastigadas e defecadas como uma opinião entre muitas, uma bosta a mais da qual o odor o público pode discutir. Os indivíduos que vivem são mastigados e defecados na forma de imagens – de esquisitos, de pensadores intelectuais, de desordeiros de rua – mas essencialmente como imagens e não seres que agem e vivem. A mídia é parte da estrutura de poder, e, como tal, é nossa inimiga. Não há como jogarmos o jogo dela e ganharmos.


Um notório exemplo de como esse processo funciona pode ser visto na matéria sobre anarquistas que apareceu no 60 Minutes* logo após as manifestações contra a OMC em Seattle. Esta colagem de doze minutos de entrevistas e imagens foi provavelmente o melhor que os anarquistas poderiam esperar da cooperação com a mídia. E do início ao fim a mídia levou a cabo sua tarefa. De mais de duas horas de entrevistas e várias horas de gravações dos eventos de Seattle, o editor do programa selecionou o que eles (ou seus patrões) queriam usar para compor esta breve matéria. Usando o título “Os Novos Anarquistas”, estes experts em mediação já fizeram uma separação entre os espectadores e estas novas “celebridades”, esta “nova” subcultura. Os especialistas em construção de imagens entrevistaram um ao qual eles chamaram de “guia filosófico” separadamente dos outros anarquistas; o entrevistador e este o qual a mídia atribuiu o papel de guia sentaram cara-a-cara como iguais. Os outros anarquistas foram entrevistados como um grupo, alguns deles sentados no chão, o ângulo da câmera dando a impressão que todos estavam sentados mais abaixo que o entrevistador. Um espectador que não tivesse muito conhecimento ficaria com a impressão que estes “novos anarquistas” são seguidores de um líder, mesmo se este é apenas chamado de “guia filosófico”. Muito claramente o entrevistador direcionava o que era dito com suas perguntas – afinal de contas esta é sua especialidade. Por permitir a entrevista transcorrer de modo normal, estes anarquistas jogaram exatamente o jogo nas mãos da mídia. Por responder as perguntas, eles enfraqueceram seus argumentos, caíram em clichês tis como a velha e obtusa visão sobre a destruição de propriedade não ser violência e ajudaram a futuramente marginalizar e espectacularizar eles mesmos. Eu não vi ainda um retrato da mídia destes “novos anarquistas”, dos “anarquistas de Eugene” (um termo que os anarquistas de Eugene fariam bem em destruir o quanto antes), ou qualquer termo que um determinado jornalista, entrevistador ou apresentador escolhe para usar que não fosse manipulativo – porque é assim que a mídia funciona.


Na esteira das manifestações em Seattle, tem sido dada muita atenção aos anarquistas na mídia, particularmente enfocando a questão da destruição de propriedade. Muita coisa perturbadora mas que não surpreende tem aparecido disto. Alguns anarquistas têm começado a se preocupar com a sua imagem na mídia. Deste modo existem aqueles(as) anarquistas que condenam a destruição de propriedade porque ela dará aos anarquistas uma imagem publica ruim. Mas estes(as) são tão ridículo@s que me perturbam menos do que aqueles(as) que publicamente insistem que “destruição de propriedade não é violência”. Usando este argumento que aparece freqüentemente na mídia, @s anarquistas estão deixando-se levar pelos valores desta sociedade; eles estão medindo suas palavras para encaixá-las no ponto de vista do diálogo democrático. Este ponto de vista procura forçar a ação revolucionária a se enquadrar na equação moral de violência/não-violência. Para anarquistas que determinam suas ações por eles mesmos, em seus próprios termos, tais equações são inúteis; elas não possuem significado. Central para a ação anarquista no presente é a necessidade de destruir o estado, o capital e todas as instituições de poder e autoridade de modo a criar a possibilidade para cada indivíduo se realizar completamente como quiser. Tal destruição completa – destruição de um mundo – abarcando a civilização – será violenta. Não há sentido em a negar ou fazer apologia a ela por isso. O que cada indivíduo em termos de seus desejos, sonhos, capacidades e circunstâncias – em termos da vida que eles está buscando criar para si próprio. Ela não possui relação com nenhum tipo de moralidade. Portanto, como anarquistas, não há porque lidar com questões tais como:”A destruição de propriedade é violência ou não?”, “É isto um ato de autodefesa ou um ataque ofensivo?”. Não temos motivos para ligarmos para isso. Nosso desejo é atacar e destruir todas estruturas de poder e isto determina nossas ações. Estas outras questões são baseadas nas normas morais hipócritas do poder que não serve a outro intento além de colocar pesadas correntes em nossa capacidade de agir. Então para que nos serve falar à mídia sobre estas questões nos seus termos, usando sua linha de como falar destes problemas e seguindo seu protocolo? De fato, para que serve falar à mídia de qualquer forma?


Lhe dando com a mídia no seu terreno, se escolhe abandonar suas próprias ações nos seus próprios termos. Como o episódio do 60 Minutes tornou tão claro, tratar com a mídia no seu terreno é aceitar a delegação. Se modifica suas próprias idéias aos mestres da “comunicação” para que sejam mastigadas em mais opiniões no mercado ideológico. Se entrega a realidade de sua vida a estes experts separadamente para serem transformadas em imagens de 60 segundos de eventos isolados. Se modifica a atividade de comunicação para aqueles cuja especialidade é a “comunicação” de mão única de não-eventos e não-idéias desvitalizados, pré-digeridos que criam consenso social. E então se reclama de como se foi mal representado na mídia. Por que se escolheu ser representado afinal de contas? A escolha de aceitar a representação da mídia não é menos uma aceitação da delegação do que o voto ou a direção. A refeição da delegação, tão central a um(a) anarquista e a uma perspectiva insurrecional, inclui a recusa de lhe dar com a mídia nos termos dela.


Se considerarmos a autodeterminação e auto-atividade como base fundamentais para a prática anarquistas, o caminho para comunicarmos nossas idéias é claramente criar nossos próprios meios de comunicação. Grafiti, posters, comunicados, jornais, revistas, rádios piratas podem todos serem usados para expressar idéias anarquistas sem pô-las através dos mecanismos de mastigação da mídia. Estes meios de comunicação autodeterminados podem ser distinguidos da mídia por não serem tentativas de mediar opiniões e imagens enquanto clamam objetividade e servem um pasto pré-digerido para uma audiência passiva; eles são verdadeiras tentativas por parte dos anarquistas de expressarem suas idéias não somente em palavras mas também no método através do qual se expressam. É claro que esses métodos, os quais podemos tomar em nossas próprias mãos, não alcançarão nem proximamente o número de pessoas que um grande jornal, revista ou programa de TV atingem. Mas tias considerações poderiam apenas serem significantes para aqueles(as) que querem evangelizar, para aqueles(as) que vêem a anarquia como um sistema de crença para o qual devemos converter as pessoas se houver um dia de revolução. Para parafrasear alguns camaradas italianos: se alguém não tem mercadorias para vender, para que serve os sinais de néon? E na era do reinado do capital, evangelização – mesmo a evangelização anarquista- é marketing ideológico. Para aqueles(as) cujo interesse é criar suas vidas da sua maneira e destruir a sociedade que impede isso, tal marketing é inútil.


Infelizmente, desde as ações anti-OMC em Seattle, a mídia tem chacoteado o pedaço anarquista, e tem havido anarquistas dispostos a dá-los o que eles querem. Indubitavelmente, a mídia continuará a caçar anarquistas por tanto tempo quanto a anarquia seja um item mercantilizável. É portanto necessário que nós anarquistas reconheçamos que a mídia é parte da estrutura de poder do mesmo modo que o estado, o capital, a religião, a lei... Em outras palavras, a mídia é nosso inimigo e nós devemos tratá-la como tal. Neste sentido, a ação de três italianos anarquistas – Arturo, Luca e Drew – tornam-se exemplares. Quando um jornalista invadiu o funeral de um companheiro deles à procura de um suculento bocado de notícias, eles bateram nele.


Ervadaninha.png   Este texto foi originalmente publicado por Erva Daninha.

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