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Dias de Guerra, Noites de Amor
CrimethInc


(Original em Inglês)


por NietzsChe Guevara e os Camaradinhas do Gulag

NormalidadeEditar

As pessoas nos Estados Unidos e na Europa que desfilam por shoppings centers e passarelas possuem um peculiar prazer de se considerarem 'normais', 'moderadas', 'corretas' e 'bonitas' quando se comparam aos transgressores, dissidentes, libertários e ativistas sociais radicais. Elas pensam que sua 'normalidade' é um indício de saúde mental e rigor moral, se referindo aos que não são como elas em tons que vão da 'raiva' à 'reprovação', do 'deboche' à 'repulsa'.

Mas se por acaso resolvermos olhar para a história ou para outras sociedades humanas, coisas que estes 'normais' ignoram, podemos perceber que não existe nada 'normal' no sentido de 'natural' para os padrões de vida e comportamento humanos, tudo o que encaramos com naturalidade é socialmente construído, formas de viver socialmente aprendidas e adaptadas através das gerações.

Com relação aos estilos de vida que uma jovem no ocidente pode hoje escolher... nenhuma das possibilidades é sequer parecida com aquelas que exibiam seus ancestrais há séculos e milênios atrás. Assemelha-se muito pouco ou quase nada ao estilo de vida de sociedades não-ocidentais de seu próprio tempo, e não precisamos recorrer a qualquer clichê de seleção natural ou evolução social para entender essas diferenças.

É mais provável que a 'normalidade' que aquelas pessoas tanto vêem em si mesmas seja mais um sentimento de normalidade que resulta da conformidade a um padrão. É confortável ficar rodeado de pessoas que acreditam nas mesmas coisas, que são condicionadas às mesmas rotinas e expectativas, é reconfortante porque reforça a idéia de que o caminho que escolhemos é o mais correto: se a grande maioria das pessoas toma as mesmas decisões e vive de acordo com os mesmos padrões, então essas decisões e padrões devem ser os certos.

Mas o simples fato de um número de pessoas viver e agir de uma certa forma não faz desta a maneira de se viver capaz de proporcionar maior felicidade. Os estilos de vida associados com o que está estabelecido (se é que isso existe) não foram exatamente escolhidos conscientemente como a melhor opção possível por aqueles que o reproduzem; pelo contrário, eles surgiram repentinamente, como resultado de avanços tecnológicos e culturais. Caso as pessoas da Europa, dos Estados Unidos, e do resto do mundo venham a perceber que não há nada necessariamente 'normal' em suas 'vidas normais', elas podem começar a se perguntar a primeira e mais importante questão do próximo século: Existem maneiras de pensar, agir, e viver que possam ser mais satisfatórias e emocionantes do que as formas como pensamos, agimos e vivemos atualmente?

TransformaçãoEditar

Se o conhecimento acumulado da civilização ocidental tem algo de valor a nos oferecer hoje, é uma consciência das diversas possibilidades quando pensamos a vida humana. Os estudiosos de história, sociologia e antropologia, de outra forma inúteis, podem pelo menos nos mostrar uma coisa: que os seres humanos viveram em milhares de tipos diferentes de tipos de sociedade, com dezenas de milhares de códigos de valores diferentes, dezenas de milhares relações entre pessoas e com o mundo que as cerca, dezenas de milhares de conceitos de ser. Viajando um pouco você pode chegar às mesmas conclusões, isso se você não chegar lá depois da Coca-Cola e não passar sua viagem trancado em uma porcaria de albergue num clima de pseudo-reality-show.

É por isso que não consigo deixar de rir quando alguém diz algo a respeito da "natureza humana" se referindo a alguma fatal e imutável característica humana ou suposto destino. Já pararam para pensar que temos um ancestral em comum com os ouriços-do-mar?! Que a regra é a mudança e adaptação para onde quer que se olhe?! Se ambientes diferentes podem tornar esses primos distantes tão diferentes de nós, o que se pode dizer do que podemos nos tornar se mudarmos nossas intenções, se permitirmos a nós mesmos viver um ambiente libertário, diferente desse pesadelo de competição e consumo capitalista?! Se existe algo faltando (e muita gente admite que falta muita coisa) em nossas vidas, se há algo tão desnecessariamente trágico e sem sentido em nossas trajetórias, existem também lugares e meios onde a felicidade ainda não foi buscada, que permanecem inexplorados. Então o que é preciso ser feito talvez seja modificar estes espaços e ambientes para melhor. "Se você quer mudar o mundo, precisa antes mudar a si mesmo", é isso que diz o ditado. Pois bem, aprendemos que o contrário também é verdade e que nós estamos no mundo tanto quanto ele está em nós.

Há ainda outra descoberta valiosa alcançada por nossa espécie, ainda que tenhamos aprendido isto por um caminho bem doloroso: somos capazes de transformar completamente os ambientes. O lugar onde você se deita, senta ou fica de pé lendo este livro provavelmente era completamente diferente há menos de uma centena de anos, para não dizer há dois mil anos; e praticamente todas essas mudanças foram feitas por seres humanos. Nós refizemos completamente o nosso mundo nos últimos séculos, transformando as condições de vida de quase todo tipo de planta ou animal, acima de tudo de nós mesmos. Só nos resta experimentar (ou não) essas mudanças intencionalmente, de acordo com nossas necessidades ao invés de realizá-las segundo forças irracionais, desumanas, como competição, superstição, rotina.

Depois que nos dermos conta disso, poderemos lutar por um novo destino para nós mesmos, tanto individualmente como coletivamente. Não seremos mais jogados de um lado para o outro por forças que supostamente estão fora do nosso controle; ao invés disso, nesta viagem de auto-conhecimento através da criação de novos ambientes, descobriremos tudo aquilo que podemos ser. Este caminho vai nos levar para fora do mundo que conhecemos, muito além dos horizontes mais distantes que podemos ver de onde estamos. Nos tornaremos os maiores artistas, pintando com o desejo, criando e recriando a nós mesmos deliberadamente ― nos tornaremos a nossa maior obra.


Para conseguir isto, vamos precisar aprender coisas difíceis, porém gratificantes, coexistir com a diferença sempre que ela não seja hierarquizante, colaborar com outras pessoas na busca do êxito: só assim perceberemos o quão interligadas estão todas nossas vidas, só essa percepção pode nos permitir ter outro horizonte de transformação em mente. Até que a mudança se torne possível e cotidiana, não nos estará negado apenas o potencial de nossos companheiros, mas também o nosso próprio potencial pessoal; pois o mundo que nos faz e no qual temos que viver é construído pela vontade e pelo esforço de todos.


A outra coisa que geralmente nos falta é o conhecimento de nossos próprios desejos. Desejos são coisas escorregadias, mutáveis e difíceis de se colocar o dedo e muito mais de acompanhar. Se vamos ter como objetivo a busca e transformação de nossos desejos e vontades, devemos antes de tudo encontrar maneiras de descobri-los e libertá-los. Nesse sentido, nenhuma experiência ou aventura jamais será suficiente, todas elas serão complementares. Portanto os criadores deste novo mundo deverão ser mais generosos e mais gananciosos que todos os que os antecederam: mais generosos uns com os outros, e mais gananciosos pela vida!

UtopiaEditar

Mesmo daqui, consigo perceber uma pergunta se formando na ponta da sua língua: mas isso não é utópico?

Sim, é claro que é. Você sabe qual é o maior medo de todo mundo? É que todos os sonhos que temos, todas idéias e aspirações malucas, todas as impossíveis vontades românticas e visões utópicas possam se tornar realidade, que o mundo pode realizar nossos desejos. Que o futuro possa provar que as sociedades que desejamos criar, nas quais desejamos viver, são tão ou mais possíveis quanto esta forma social da qual somos reféns, por vontade e para o benefício deles. Que todos os sonhos que temos, todas idéias e aspirações de mudança sejam tão palpáveis e acessíveis quanto a mesmice segura à qual tão desesperadamente se agarram.


As pessoas passam as suas vidas fazendo tudo possível para impedir que essas possibilidades aconteçam: elas se torturam consciente ou inconscientemente com todo tipo de insegurança, sabotam seus próprios esforços, minam seus casos amorosos e choram antes mesmo de o mundo ter tido uma chance de derrotá-los... porque nenhum fardo é mais pesado de se carregar do que a possibilidade de que tudo que queremos é possível. Se isto for verdade, então realmente existem coisas em jogo nesta vida, batalhas que podem ser realmente vencidas ou perdidas. Nada machuca tanto quanto o fracasso quando o sucesso realmente é possível, é por isso que fazemos tudo o que está ao nosso alcance para evitar até mesmo imaginar o que poderia ser mas não é, para não termos que tentar.


Pois se há mesmo a menor possibilidade que os desejos de nossos corações possam ser realizados, então é claro que a única coisa que faz sentido é nos lançarmos de corpo e alma em sua busca e arriscarmos a derrota. O desespero e o niilismo parecem mais seguros, projetamos nosso desespero no cosmos como uma desculpa para nem ao menos tentarmos. Assim é que ficamos, agarrados à resignação, como cadáveres bem seguros em seus caixões (seguros e livres de arrependimento)... mas nada disso consegue afastar aquela terrível possibilidade. Em nossa fuga desesperada da verdadeira tragédia do mundo, nós apenas nos afundamos em tragédias falsas e desnecessárias.


Talvez este mundo nunca se conforme perfeitamente às nossas necessidades ― as pessoas sempre vão morrer antes de estarem prontas, relacionamentos perfeitos acabarão destroçados, aventuras terminarão em catástrofes e belos momentos serão esquecidos. Mas o que parte o meu coração é a forma como fugimos destes fatos inevitáveis e caímos nos braços de coisas ainda mais terríveis que não precisariam sequer existir.

Pode ser verdade que todos os homens estão perdidos em um universo que é fundamentalmente indiferente a eles, trancados para sempre numa solidão assustadora ― mas não precisa ser verdade que algumas pessoas passam fome enquanto outras jogam comida fora ou deixam terras férteis ociosas. Não precisa ser verdade que homens e mulheres joguem fora suas vidas trabalhando para servir à ganância de uns poucos homens ricos, apenas para sobreviver. Não precisa ser verdade que nós nunca ousamos contar uns aos outros o que realmente queremos, nunca nos compartilhamos honestamente, nunca usamos nossos talentos e capacidades para tornar a nossa vida e a vida dos outros mais suportável, para não dizer mais agradável e mais bela. Esta é a tragédia de tudo aquilo que é desnecessário, estúpido, patético e sem sentido. Não é nem mesmo utópico exigir desde já o fim de farsas como estas.

Se nós pudéssemos nos fazer acreditar, sentir de fato a possibilidade de que somos invencíveis e que podemos conseguir tudo que queremos neste mundo, nada pareceria estar para além do nosso alcance, em nosso esforço em corrigir estes absurdos. O que estou pedindo não é para que você tenha fé no impossível, mas que tenha a coragem para encarar a terrível possibilidade de que nossas vidas realmente estão em nossas próprias mãos, e agir de acordo: não aceitar qualquer angústia que o destino e a humanidade jogaram nas suas costas, mas empurrar de volta, e tentar ver de quais destas angústias nós podemos nos livrar. Nada poderia ser mais trágico, e mais ridículo, do que viver uma vida toda ao alcance de um mundo melhor sem jamais esticar os braços.

Dias de Guerra, Noites de Amor
Prefácio: O que é 'CrimethInc'? Palavras iniciais I. Uma pequena história sobre o Coletivo Crimidéia

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