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Paganismo

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Caos: Os Panfletos do Anarquismo Ontológico
Hakim Bey


Constelações por onde dirigir o barco da alma.


“Se o muçulmano entendesse o Islã,
ele se tornaria um adorador de ídolos.”
Mahmud Shabestari


Eleguá[1], o porteiro horroroso com um gancho na cabeça e conchas nos lugar dos olhos, charutos negros de macumba e copo de rum – como Ganesh[2], o deus dos Inícios, garoto gordo com cabeça de elefante montando num rato.


O órgão que compreende as atrofias numinosas com os sentidos. Aqueles que não podem sentir o baraka[3] não conhecem as carícias do mundo. Hermes Poimandres[4] ensinou a animação de ídolos, a permanência mágica dos espíritos nos ícones – mas aqueles que não podem realizar esse ritual em si mesmo e em todo o tecido palpável do ser material vão herdar apenas melancolia, dejetos, decadência.


O corpo pagão torna-se como Corte de Anjos que experimenta este lugar – este arvoredo – como o paraíso (“Se existe um paraíso, com certeza é aqui !” – inscrição no pórtico de um jardim mongol[5]).


Mas o anarquismo ontológico é paleolítico demais para a escatologia – as coisas são reais, feitiçaria funciona, os espíritos dos arbustos são unos com a Imaginação , a morte é um vago desconforto – o enredo das Metamorfoses de Ovídio – um épico de mutabilidade.


O cenário mitológico pessoal.


O paganismo ainda não inventou leis – apenas virtudes. Nenhum maneirismo de padres, nenhuma teologia, ou metafísica, ou moral – apenas um xamanismo universal no qual ninguém obtém real humanidade sem uma revelação .


Comida, dinheiro, sexo, sono, sol, areia e sensimilla – amor, verdade, paz, liberdade e justiça. Beleza. Dionísio, o garoto bêbado numa pantera – rançoso suor adolescente – Pã, meio homem, meio cabra, avança pesadamente na terra sólida até a cintura como se fosse o mar, com a pele suja de musgo e líquen – Eros se multiplica em uma dúzia de pastorais rapazes nus de uma fazenda do Iowa, com pés sujos de barro e musgo dos lagos em sua coxas.


Spiritual chants at a Dust Storm.jpg
Raven, o trapaceiro do potlatch[6], às vezes um garoto, às vezes uma velha, um pássaro que roubou a lua, agulhas de pinho flutuando num lago, totens com cabeças da Faísca e Fumaça, coral de corvos com olhos prateados dançando sobre uma pilha de lenha – como Semar, o corcunda albino e hermafrodita, fantoche-sombra patrono da revolução javanesa.


Iemanjá[7], estrela azul deusa-do-mar e padroeira dos homossexuais – como Tara, aspecto azul-acinzentado de Kali[8], colar de crânios, dançando no lingam[9] enrijecido de Shiva[10], lambendo nuvens de monções com sua língua compridíssima – como Loro Kidul, deusa-do-mar verde-jade javanesa que confere o poder da invulnerabilidade aos sultões por meio de intercurso tântrico em torres e cavernas mágicas.


Sob um ponto de vista, o anarquismo ontológico é extremamente nu, despido de todas as qualidades e possessões, podre como o próprio CAOS – mas, sob outro ponto de vista, ele pulula de barroquismos como os templos de foda de Katmandu ou um livro de símbolos alquímicos – ele se derrama de seu divã comendo loukoum[11] e divertidas idéias heréticas, uma mão perdida dentro de suas calças largas.


O casco de seus navios piratas é laqueado de preto, as velas triangulares são vermelhas, as flâmulas são negras, ostentando o emblema de um ampulheta alada.


Um mar do sul da China dentro da mente, próximo a um litoral selvagem coberto por palmeiras, ruínas de templos de ouro construídos para deuses desconhecidos e bestiais, ilha após ilha, a brisa como uma seda amarela é úmida sobre a pele nua, navegação por estrelas panteístas, hierologia sobre hierologia, luz sobre luz contra a escuridão reluzente e caótica.


Referências

  1. Nome que em Cuba se dá a Exu, um dos quatro orixás guerreiros da religião iorubá. (N.T)
  2. Um dos deuses mais cultuados do panteão hinduísta, invocado no início de qualquer atividade como aquele que retira obstáculos. (N.T)
  3. Do islã e línguas de influência árabe, importante os sufistas, refere-se a uma sabedoria espiritual que é também benção, graça e força vital de toda a criação passível de ser transmitida (N.T.)
  4. Ou H. Trismegisto, mitológico fundador do hermetismo, doutrina ligada ao gnosticismo, no Egito, no século I. (N.T)
  5. Império muçulmano na ´India (1526-1857), fortemente influenciado pela estética persa. O mais conhecido imperador mongol foi Akbar (1542-1605). (N.T)
  6. Festival de inverno celebrado pelos índios da costa noroeste dos EUA, com distribuição e troca de presentes, e eventual dissipação dos bens do anfitrião. (N.T)
  7. Iemanjá é um orixá africano presente também nas religiões afro-brasileiras, cujo nome deriva da expressão Iorubá "Yèyé omo ejá" ("Mãe cujos filhos são peixes"), identificada no jogo do merindilogun pelos odu ejibe e ossá.
  8. No hinduísmo, a forma da Mãe Divina em seu aspecto dissoluto e destruidor. (N.T)
  9. O mais importante dos símbolos de Shiva, que tem a forma de um falo, e representa o aspecto impessoal de Deus. (N.T)
  10. Nome da Realidade Suprema para o shaivismo da Caxemira; ou, no hinduísmo, um dos três deuses principais (ao lado de Vishnu e Brahma), representando Deus em sua forma destruidora. (N.T)
  11. Doce turco. (N.T)


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