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P.M./Bolo'Bolo/Tudo ou nada

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Tudo ou nada


A Máquina Planetária do Trabalho é onipresente; não pode ser desativada por políticos. Pronto. Será a Máquina nosso destino, até morrermos de câncer ou de doença cardíaca aos 65 ou 71? Terá sido esta a Nossa Vida? A gente imaginou ela assim? Será a resignação irônica nossa única saída, escondendo de nós mesmos nossa decepção pelos poucos anos de correria que nos deixaram? Talvez esteja tudo bem, e nós é que estamos dramatizando demais?


Não vamos nos iludir. Mesmo mobilizando todo o nosso espírito de sacrifício, toda a nossa coragem, não vamos conseguir nada. A Máquina é perfeitamente equipada contra kamikazes políticos, como a Facção Exército Vermelho, as Brigadas Vermelhas, os Montoneros e outros já demonstraram. Ela pode coexistir com a resistência armada e até transformar essa energia num motor para sua própria perfeição. Nossa atitude não é um problema moral, nem para nós e muito menos para a Máquina.

Raisedfist.jpg

Quer a gente se mate, quer a gente se venda aos nossos negócios especiais, encontre uma abertura ou um refúgio, ganhe na loteria ou jogue coquetéis Molotov, junte-se aos Sparts ou ao Bhagwan, cutuque os ouvidos, tenha acessos de raiva ou ataques de delírio: estamos acabados. Esta realidade não nos oferece nada. Oportunismo não compensa. Carreiras são maus riscos; causam câncer, úlceras, psicoses, casamentos. Saltar fora significa auto-explorar-se nos guetos, mendigar nas esquinas de ruas imundas, esmagar piolhos entre as pedras do jardim da comunidade. A lucidez se tornou cansativa. A estupidez chateia.


Seria lógico perguntar a nós mesmos coisas assim: Como eu realmente gostaria de viver? Em que tipo de sociedade (ou não-sociedade) eu me sentiria mais confortável? O que realmente quero fazer comigo? Sem pensar no aspecto prático, quais são meus verdadeiros desejos e expectativas? E vamos tentar imaginar tudo isso não num futuro remoto (os reformistas sempre gostam de falar sobre a próxima geração), mas durante as nossas vidas, quando ainda estamos em boa forma, vamos dizer durante os próximos cinco anos...


Sonhos, visões ideais, utopias, aspirações, alternativas: não serão somente novas ilusões a nos seduzir novamente para participarmos do esquema do "progresso"? Não as conhecemos desde o neolítico, ou do século 17, da ficção científica e da fantasia literária de hoje? Vamos sucumbir de novo ao charme da História? Não é o Futuro o primeiro pensamento da Máquina? Será que a única saída é escolher entre o sonho da própria Máquina e a recusa de qualquer atividade?


Tem um tipo de desejo que, onde quer que surja, é censurado científica moral e politicamente. A realidade dominante tenta aniquilá-lo. Esse desejo é o sonho de uma segunda realidade.


Os reformistas nos dizem que é mesquinho e egoísta seguir apenas os próprios desejos. Precisamos lutar pelo futuro das nossas crianças. Precisamos renunciar ao prazer (aquele carro, férias, ar condicionado, TV) e trabalhar duro para que as crianças tenham uma vida melhor. Essa é uma lógica muito curiosa. Não foram exatamente a renúncia e o sacrifício da geração dos nossos pais, e seu trabalho duro nos anos 50 e 60, que trouxeram essa bagunça em que a gente está hoje? Nós já somos essas crianças, aquelas para quem houve tanto trabalho e sofrimento. Por nós, nossos pais fizeram (ou morreram em) duas guerras mundiais, incontáveis outras "menores", inumeráveis crises e falências grandes ou pequenas. Nossos pais construíram bombas nucleares para nós. Dificilmente foram egoístas: fizeram o que lhes disseram para fazer. Construíram com renúncia e sacrifício, e tudo isso apenas resultou em mais renúncia, mais sacrifício. Nossos pais, em seu tempo, superaram seu próprio egoísmo, e acham problemático respeitar o nosso.

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Outros moralistas políticos poderiam objetar que dificilmente estaríamos autorizados a sonhar com utopias enquanto milhões morrem de fome, outros são torturados, desaparecem, são deportados e massacrados. É difícil fazer valer os direito humanos mais mínimos. Enquanto a criança mimada da sociedade de consumo faz listas de desejos outras nem sabem escrever, ou não tem nem tempo para pensar em desejos. Mais, olhe um pouquinho em volta: conheceu alguém morto por heroína, alguns irmãos ou irmãs em asilos, um suicídio ou dois na família? Qual das misérias é mais grave? Dá para medir? Mesmo se não tivesse miséria, seriam nossos desejos menos reais só porque os outros estão piores, ou porque poderíamos nos imaginar piores? É precisamente quando a gente age só para prevenir o pior, ou porque outros estão pior, que a gente torna essa miséria possível, permite que ela aconteça. Nesse sentido somos sempre forçados a reagir às iniciativas da Máquina. Há sempre um escândalo ultrajante, uma incrível impertinência, uma provocação que não pode ser deixada sem resposta. E assim nossos setenta anos vão-se embora – e os anos dos outros também. A Máquina não se importa de nos manter ocupados com isso. É uma boa maneira de evitar que fiquemos conscientes desses desejos imorais. Se começássemos a agir por conta própria, aí sim haveria problemas. Enquanto apenas (re)agirmos na base das diferenças morais, seremos tão impotentes quanto rodas dentadas, simplesmente moléculas explodindo na usina do desenvolvimento. E como já estamos fracos, a Máquina acaba conseguindo mais poder para nos explorar.


Moralismo é uma arma da Máquina, realismo é outra. A Máquina criou nossa realidade atual, nos treinou para ver segundo ela vê. Desde Descartes e Newton, ela programou nossos pensamentos, assim como a realidade. Estender deu padrão sim/não ao mundo inteiro e ao nosso espírito. Acreditamos nessa realidade, talvez por hábito. Mas enquanto aceitarmos a realidade da Máquina, seremos suas vítimas. A Máquina usa sua cultura digital para pulverizar nossos sonhos, pressentimento e idéias. Sonhos e utopias são esterilizados em novelas, filmes, música comercial. Mas essa realidade está em crise; a cada dia há mais rachas, e a alternativa sim/não é nada menos que a ameaça apocalíptica. A realidade definitiva da Máquina é sua auto destruição.


Nossa realidade, a Segunda realidade, a dos velhos e novos sonhos, não pode ser presa na trama do sim/não. Recusa ao mesmo tempo o apocalipse e o status quo. Apocalipse ou evangelho, fim do mundo ou utopia, tudo ou nada: este é o único tipo de opção que a realidade atual oferece. Podemos escolher facilmente entre esta realidade e a Segunda realidade. Meias atitudes, tipo esperança, confiança ou paciência, são ridículas e enganadoras, pura auto-sedução. Não há esperança. Temos que escolher já.


O Nada se tornou uma realística possibilidade, mais absoluta do que os velhos niilistas ousaram sonhar. Nesse aspecto, os méritos da Máquina precisam ser reconhecidos. Finalmente, chegamos ao Nada! Não temos que sobreviver! O Nada se tornou uma alternativa realística com sua própria filosofia (Cioran, Schopenhauer, Budismo, Glucksmann), sua moda (preta, desconfortável), música, estilo de casa, pintura, etc. Apocalípticos, niilistas, pessimistas e misantropos têm todos bons argumentos para suas atitudes. Afinal, se você transforma a vida, a natureza ou a humanidade em valores, só existem riscos totalitários, biocracia ou ecofascismo. Você sacrifica a liberdade para sobreviver; novas ideologias de renúncia emergem e contaminam todos os sonhos e desejos. Os pessimistas são os únicos realmente libre, felizes e generosos. O mundo nunca será suportável de novo sem a possibilidade de sua autodestruição, assim como a vida do indivíduo é um peso sem a possibilidade do suicídio. O Nada está aí de prova.


Por outro lado, Tudo também é muito sedutor. Claro que é muito menos provável do que o Nada, mal definido, parcamente pensado. É ridículo, megalomaníaco, pretensioso.


NADA


Talvez esteja aí só pra tornar o Nada mais atraente.

Bolo'Bolo (livro)
O fim da Realpolitik Tudo ou nada bolo’bolo (capítulo)

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