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Espere Resistência
CrimethInc


Diego ainda estava tentando o número do advogado. "...e depois de três minutos sendo sempre atendido pela secretária eletrônica, eu pensei 'Ok, fodam-se essas pessoas, elas podem muito bem serem policiais!' Eu não tinha idéia se vocês estavam presos, mortos, ou o que! Não tão dificil assim, sabia? Você diz que vai fazer algo, você faz. Se você não vai fazer" ― ele batia com a mão no volante a cada sílaba ― "não diga que você vai fazer!"


"Diego, estes são praticamente os últimos estudantes que ainda estão envolvidos." Kate estava tentando apaziguar os ânimos. "Os outros, com quem comecei, já estão todos de volta aos seus dormitórios, estudando para as provas finais. Concordo, eles não batem muito bem, mas eles são tudo que temos. Se não podemos fazer as coisas darem certo com eles, vamos trabalhar com quem? Pelo menos sabemos o que esperar deles. Podemos falar disso no próximo..."


Ele interrompeu com desdém. "Não importa, eu nunca vou fazer mais nada com eles. Bando de menininhos mimados brincando de revolução! Eu prefiro fazer as coisas com pessoas que sei que vão levar adiante, como..."


"Ei," eu abri o celular de Samia e levantei-o para que Diego pudesse ver o seu visor brilhando no retrovisor, "podemos falar sobre isto mais tarde?" Samia olhava pela janela para o bosque do lado da estrada; estávamos fora da cidade e o mundo era um borrão preto contra o céu. Deviam ser quase cinco horas da madrugada. Eu pensava então que Diego tinha razão, mas eu não queria que Samia nos visse discutindo desse jeito ― ela ou qualquer outra pessoa.


Todos se animaram novamente quando dobramos para a estrada de chão batido. Quando eu vou para o campo é como se um músculo que está sempre tenso entrasse em relaxamento. A última vez que saí da cidade foi antes do acampamento, quando eu ainda tinha meu apartamento; desde o despejo eu carrego minha escova de dentes no bolso do meu casaco, pulando de sofá em sofá para acompanhar a ação. Hoje à noite, parecia uma má idéia voltar para qualquer uma das movimentas e bem-conhecidas casas que tínhamos para escolher, e Kate se ofereceu para nos levar até a casa de seu pai.


O carro se arrastava pelo longo caminho; às vezes parecia que corríamos o risco de pararmos completamente. Pisando na escuridão, nossas vozes e portas do carro batendo ecoavam na noite de inverno, de repente nos sentimos muito menores. Estava realmente escuro lá fora; só algumas estrelas nos espiavam através de pequenos espaços entre as nuvens, e a casa à frente era uma silhueta negra. Todos nós carregávamos lanternas, canivetes, kits de costura e garrafas d'água, e caminhamos silenciosamente em fila até os degraus, cada um seguia um pequeno foco de luz entre as folhas caídas.


A porta estava destrancada. "Meu pai não tem eletricidade", Kate explicou em um sussurro enquanto riscava um fósforo e levantava a cúpula de vidro de uma lamparina a óleo. Acesa, ela iluminava paredes de madeira áspera, ferramentas de jardinagem sujas de lama e um fogão a lenha negro. "Deixem suas bolsas no chão. O banheiro é por aqui ― tem serragem do lado da privada, é só colocar um pouco depois de usar." Ela colocou a lamparina na mesa, projetando sombras que dançavam sobre meus amigos sonolentos, e colocou sua mão no meu braço. "Você quer dormir lá fora comigo?"


Lá fora, eu briguei com a barraca enquanto o vento empurrava e pequenas gotas de chuva começavam a cair. Eu tinha medo que fizesse frio, mas quando finalmente entramos em nossos sacos de dormir, desconfortavelmente mexendo cotovelos e joelhos, pressionando contra a lona esticada, estávamos quentes o suficiente.


Kate virou para me olhar e levou seus lábios ao meu ouvido. "Eu vou dar uma olhada no meu colo do útero para ver se estou grávida. Você me ajuda com a lanterna?"


Ninguém jamais tinha pedido algo parecido antes. "Hmm, claro, se você me disser o que fazer. Você pode descobrir se está grávida pelo...?"


"Até onde eu sei, ele deve estar azulado se eu estiver ― mas não é certo." Ela tirou um espelho e um espéculo da sua mochila e remexeu-se para fora das suas calças. "Nunca me aconteceu antes. Mas eu estava fértil aquele dia no telhado, e eu sempre tento acompanhar o que acontece com o meu corpo." Ela rasgou com os dentes um pacote de amostra grátis de lubrificante da mochila e colocou o espéculo no lugar. "Tá bom, agora segura a lanterna aqui e mira no espelho." Ela segurou o espelho com uma mão, ajeitando o ângulo cuidadosamente entre suas pernas; levou alguns minutos para que ela conseguisse a visão que queria. Eu olhava para ela timidamente na luz fraca ― eu nunca vi alguém tão confortável consigo mesmo. Eu tinha conseguido acesso a um ritual particular, como um caçador que encontra fadas no meio da floresta. "Deixa pra lá ― não parece nem um pouco azul! Quer dar uma olhada?"


"Tá bom, quero sim." Ela abriu mais o zíper do saco de dormir e eu tateei até o outro lado da minúscula barraca, roçando na lona e batendo no seu joelho, com meu saco de dormir ainda pela minha cintura. "Eu nunca fiz isto antes. Realmente... eu acho que é a maior intimidade que eu já tive com alguém."


"Sério?" Ela me lançou um olhar levemente divertido.


Agora que eu reflito sobre isso, é louco como eu estive envolvido com tantas mulheres sem nunca ver seus corpos desta forma. Eu podia ouvir o vento lá fora varrendo as folhas e assobiando. "Obrigado", murmurei. "Você é muito bonita."


Ela ficou em silêncio por um minuto. "Eu lutei com isto por muito tempo," ela começou enquanto eu me acomodava ao seu lado. "Para me sentir bonita."


"Desculpa ― eu não queria... trazer nenhum assunto difícil. Você quer me contar a respeito?"


"Claro". Ela se ajeitou, cruzando os braços atrás da cabeça. "Na verdade foram as coisas de sempre. Tentei todo tipo de dieta, eu usava maquiagem e arrancava todo pelo e tentava combinar minhas roupas com a cor dos meus olhos; e então eu parei de fazer tudo isso, mas eu só me senti pior. Eu finalmente cheguei à conclusão que eu gastaria tanta energia tentando gostar de mim mesma do jeito que sou do que se eu fosse contar as calorias e arrumar o meu cabelo todas as manhãs ― mas se eu pudesse, estaria tudo sob o meu controle. Eu poderia ir à academia todo o dia e continuar perdendo peso, mas o modo como eu me sentia sobre mim mesma nunca estaria sob o meu controle por mais peso que eu perdesse. Ainda é bem difícil olhar para as minhas coxas e realmente acreditar que elas são perfeitas deste jeito, mas é uma luta que eu quero lutar e a outra não. De qualquer forma, obrigado. Você é bonito também."


Muito tempo depois que a sua respiração diminuiu de velocidade e se tornou mais profunda, eu fiquei acordado sobre as minhas costas, escutando o vendo e sentindo como eu estava longe de tudo que me era familiar. Eu nunca estive aqui antes, pensei comigo mesmo, e eu nunca estarei aqui novamente. Sob este aspecto era o oposto da cozinha onde eu perdi tantos meses. E isso era tão assustador quanto libertador ― e quanto mais eu tentava me segurar neste sentimento, mais assustador ele se tornava. Eu fiquei acordado até que ouvi pássaros arriscando os primeiros cantos da manhã.


Quando eu finalmente fechei meus olhos eu estava de novo num carro em movimento, apertado com pessoas que eu não reconhecia mas eram meus queridos companheiros. O motorista pisou fundo no acelerador e a paisagem se abriu ao nosso redor, um deserto pintado, estranho e sublime.

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