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Os Situacionistas e as novas formas de ação na política e na arte

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Internacional Situacionista


Até agora, nos unimos principalmente à subversão, utilizando formas, categorias, herdadas das lutas revolucionárias, fundamentalmente do último século. Proponho que completemos a expressão de nossa constatação por meios que dispensam toda referência ao passado. Não se trata de abandonar estas formas no interior das quais temos livrado o combate no terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte, e da abolição da política; trata-se de concluir o trabalho da revista, ali onde ainda não é operante.

Uma boa parte dos proletários se dá conta de que não têm nenhum poder sobre a utilização de sua vida, sabem, mas não expressão segundo a linguagem do socialismo e das revoluções precedentes.

Cuspimos ao mesmo tempo sobre esses estudantes convertidos em militantes de grupinhos com vocação de partido de massa, que ousam às vezes desejar que a I.S. seja ilegível para os trabalhadores, que seu papel seja demasiado brilhante para que seja posto nas carteiras e que seu preço não leva em conta o S.M.I.G.[1]Os mais conseqüentes contigo mesmo difundem, pois, a múltiplas cópias, a imagem que se fazem da consciência de classe em que buscam febrilmente seu Trabalhador Albert. Esquecem, entre outras coisas, que quando os trabalhadores lêem literatura revolucionária, chegam até a pagá-la cara, relativamente mais cara que o preço de uma entrada para o T.N.P., e que quando tem vontade de fazê-lo, não deixarão de gastar duas ou três vezes o preço da revista Plenète. Mas os que sobre tudo não levam em conta esses detratores da tipografia, é que os raros indivíduos que escolhem suas publicações são precisamente os que têm algumas referências para compreender-nos de primeira, e que o que escrevem é totalmente ilegível para os outros. Alguns que ignoram a densidade de um leitura dos grafites em sanitários (W.C.), os dos cafés em particular, têm pensado exatamente que com uma escritura que parodiasse a da escola comunal, em papeis pregados sobre as pias à maneira dos anúncios de aluguel de apartamentos, seria possível fazer coincidir o significante e o significado de seus slogans. Temos aqui a mostra do que não há que fazer.

Para nós se trata de unir a crítica teórica da sociedade moderna à crítica prática desta mesma sociedade. Na prática, desviando as proposições do espetáculo, daremos as razões das revoltas de hoje e de amanhã. Proponho que nos dediquemos:

  1. À experimentação da do desvio dos quadrinhos (H.Q.), das fotografias chamadas pornográficas, e que inflijamos sem rodeio sua verdade estabelecendo verdadeiros diálogos. Esta operação fará estourar na superfície as ostentações subversivas que espontaneamente, mais ou menos conscientemente, se formam para dissolverem-se em seguida entre quem as miram. Com a mesma intenção, é igualmente possível desviar, por meio de bricolagem, todos os cartazes publicitários; e em particular os dos corredores do metrô, que constituem seqüências excelentes.
  2. À promoção da guerrilha na grande mídia, forma importante da contestação, não só no estado de guerrilha urbana, e sim ainda antes. A via está aberta para os argentinos que se apoderaram do quartel general de um periódico luminoso e lançaram assim seus próprios slogans e comunicados. É possível aproveitar ainda algum tempo pelo fato de que os estúdios de rádios e televisão não estão guardados pelas tropas militares. Mais modestamente, é um fato conhecido que todo apaixonado pelo rádio, pode sem grandes gastos, inferir, se não emitir, ao nível de bairro, que o porte reduzido dos utensílios necessários permite uma mobilidade muito grande e, de maneira, iludir a localização trigonométrica. Na Dinamarca, um grupo dissidente do P.C. pôde, faz alguns anos, possuir sua própria radio pirata. Falsas edições de tal periódico podem contribuir ao desconcerto do inimigo. Esta lista de exemplos é vaga e limitada por razões evidentes.

A ilegalidade de tais ações inabilita toda organização que não tenha escolhido à clandestinidade, um programa contínuo neste campo, porque necessitaria a constituição em seu seio de uma organização específica; o que se pode conceber (e ser eficaz) sem separação, por tanto sem hierarquia, etc. É uma palavra sem encontrar de novo o escorregadio pendente do terrorismo. Convém referir-se aqui melhor à propaganda pelo fato de que é um modo muito diferente. Nossas idéias estão em todas as mentes, é um fato muito conhecido, e qualquer grupo sem relação conosco, alguns indivíduos que se reúnam para esta ocasião, podem improvisar, melhorar as fórmulas experimentadas por outros. Este tipo de ação não ajustada não pode aspirar a moldes definitivos, o destino que tão só pode acentuar a tomada de consciência que saldará a luz do fia. Mas o temor de tais ações levará aos diretores dos periódicos a desconfiar de seus tipógrafos, os das rádios, de seus técnicos, etc, esperando fixação a ponto de texto repressivos específicos.

  1. A fixação a ponto de comics situacionistas. Os comics são a única literatura verdadeiramente popular em nosso século. Cretinos marcados por seus anos de legislação não puderam impedir de discorrer a respeito; mas só com aborrecimento vão ler e colecionar os nossos. Inclusive os comprarão, sem dúvida para queimá-los. Quem não sente imediatamente quão fácil será, para nossa tarefa, “tornar a vergonha ainda mais vergonhosa”, transformando, por exemplo, 13, rue de l’Espoir e 1, bd du Désepoir, integrando em segunda conclusão alguns elementos suplementários, ou simplesmente combinar os trocadilhos. Pode-se ver que este método faz o contrário do Pop art que decompõe em pedaços os comics. Este aspira ao contrário a devolver aos comics sua grandeza e seus conteúdos.
  2. A realização de filmes situacionistas. O cinema que é o meio de expressão mais novo, e sem dúvida mais utilizável de nossa época, tem se estagnado durante ¾ de século. Para resumir, digamos que se havia convertido efetivamente na “7ª arte” estimada aos cinéfilos, aos cineclubes, a associações de pais de alunos. Constatemos para nosso uso que o ciclo terminou (ince, Stroheim, Age d’Or, Citizen Kane e M. Arkadin, os filmes letristas); inclusive ainda permanecem por descobrir nos distribuidores estrangeiros ou nas filmotecas algumas obras mestras, mas de uma execução clássica e recitativa. Apropriemos dos gaguejar desta nova escritura, apropriemos sobre tudo de seus exemplos aí acabados, mais modernos, os que tem escapado à ideologia artística ainda mais que as séries B norte-americanas: as atualidades, as faixas de anúncio, e sobre tudo o cinema publicitário.

Ao serviço da mercadoria e do espetáculo é o mínimo que se pode dizer, mas livre de seus meios, o cinema publicitário tem assentado as bases do que desconfiava Eisenstein quando falava em filmar A crítica da economia política ou A ideologia alemã.

Me comprometo a rodar Lê déclin et la chute de l’economie spetaculaire-marchande de uma maneira perceptível imediatamente aos proletários de Watts[2]que ignoram os conceitos implícitos neste título. E esta nova proposta em andamento contribuirá sem nenhuma dúvida a aprofundar, a exacerbar, a expressão “escrita” dos mesmos problemas; o que poderemos verificar, por exemplo, rodando o filme Incitation ou meurtre et à la débauche antes de redigir seu equivalente na revista, Correctifs à la conscience d’une classe que será la dernière. O cinema se presta particularmente bem, entre outras possibilidades, ao estudo do presente como problema histórico, ao desmantelamento do processo de reificação. Certamente a realidade histórica não pode ser alcançada, conhecida e filmada, mais através de um processo complicado de mediações que permite à consciência reconhecer um momento no outro, seu fim e sua ação no destino, seu destino em seu fim e em sua ação, sua própria essência nesta necessidade. Mediação que será difícil se a existência empírica dos fatos for iguais aos que não estão além de uma existência já mediatizada, que não toma uma aparência imediata mais que na medida em que, e porque, por uma parte da consciência da mediação falta, e por outra parte, os fatos tem sido arrancados do conjunto de suas determinações, situados em um isolamento artificial e mal emendados na montagem do cinema clássico. Esta mediação falta precisamente, e devia faltar necessariamente, no cinema pré-situacionista, que tem se detido nas formas chamadas objetivas, na recuperação dos conceitos político-morais, quando não é no recitativo do tipo escolar com todas suas hipocrisias. Isso é mais complicado de ler que de ver filmado, e estão aí muitas banalidades. Godard, o mais célebre dos produtores suíços, não poderá compreender nunca. Poderá recuperar bem, como tem por costume, que o antecipa, é dizer no que precede recuperar uma palavra, uma idéia como a dos filmes publicitários, não poderá nunca fazer outra coisa que agitar pequenas novidades tomadas em outro sítio, imagens ou palavras voga na época, e que tem de seguro uma repercussão, mas que não pode apreender (Bonnot, trabalhador, Marx, made in U.S.A., Pierrot lê Fou, Debord, poesia, etc.). É efetivamente um filho de Mao e da coca-cola.

O cinema permite expressar tudo, como um livro, um artigo, um livreto ou um cartaz. É pelo que é necessário exigir, de agora e diante, que cada situacionista se invente em um estado de rodar um filme, tão bem como escrever um artigo (chave anti-public relations, #8, pág. 59). Nada é demasiado belo para os negros de Watts.


René Vienet, 1967.


Publicado na revista nº 11 da Internacional Situacionista, 1967. Segunda tradução (espanhol-português) por membros do coletivo Gunh Anopetil.

Referências

  1. Salário mínimo francês. (N.T.)
  2. Referência aos trabalhadores do bairro de Watts em Los Angeles, que em uma insurgência queimaram todas as mercadorias, deixando apenas armas e suprimentos para eles. (N.T.)



Textos

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