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Os Senhores do Karma

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Lamed


Amydala.jpg

Amígdala quer dizer "semente" em latim. É um nome perfeitamente apto, uma vez que as amígdalas são as sementes do que as religiões orientais denominam karma. Não estou falando, naturalmente, das amígdalas que temos na garganta, mas de duas estruturas cerebrais que correspondem ao coração do nosso sistema límbico, a parte do cérebro onde nossas emoções são produzidas e processadas. Temos duas amígdalas, uma em cada hemisfério. A amígdala do hemisfério esquerdo gera nossas reações emocionais positivas - alegria, satisfação, contentamento. A amígdala do hemisfério direito, ao contrário, produz as emoções negativas, como o medo e a raiva. Estou simplificando, claro. Muitos dos nossos sentimentos são compostos de reações emocionais complexas, que nascem da interação entre ambas as amígdalas. Mas, em linhas gerais, é isso.

Hippocampus.jpg

O Bom, o Mau e o Feio. - Agora, somos instintivamente programados para buscar a ativação da amígdala esquerda e evitar a da amígdala direita, ou seja, procuramos experiências que nos tragam satisfação emocional e tentamos eliminar os estímulos que despertam reações negativas, seja nos afastando deles, seja suprimindo-os. A cada vez que temos uma experiência emocional positiva ou negativa, nossas reações, associadas ao estímulo que as produziu, são armazenadas na memória por meio dos hipocampos (sim, também temos dois, um de cada lado do cérebro, e não, apesar do nome, eles não se parecem com um cavalo marinho). Assim, podemos repetir os estímulos que produziram respostas satisfatórias e evitar os estímulos negativos.

Tamir.jpg

Com o tempo, graças ao armazenamento de nossas reações na memória, acabamos desenvolvendo todo um conjunto de padrões de comportamento que obedecem a esse duplo imperativo: buscar a satisfação e evitar a insatisfação. Esses padrões colorem todas as nossas ações e reações. Nossas percepções são filtradas por uma grade cujo principal objetivo é comparar cada objeto com que nossos sentidos entram em contato ao repertório de estímulos registrados pelo aprendizado anterior.

Pois bem, esses padrões de comportamento engramados são nada mais, nada menos do que o karma. É isso que a palavra quer dizer.

Karma gods.jpg

Esqueça as fantasias teosóficas sobre os Senhores do Karma, que mantêm registros akáshicos de nossos atos. Karma quer dizer simplesmente "ação", e mais nada. São as ações que aprendemos a executar de modo mais ou menos automático e que internalizamos sob a forma de condicionamentos comportamentais tão rígidos que simplesmente não nos permitem agir de outra forma. Alguns desses condicionamentos são positivos - é o chamado "bom karma". Outros são negativos - é o "mau karma". Mas tanto o bom quanto o mau karma, positivo ou negativo, o karma é sempre condicionamento.

Nossas emoções evoluíram como guias cuja finalidade é orientar o organismo sobre como lidar com as circunstâncias externas e internas. Quando ele se depara com um objeto, este é analisado pelos córtices sensoriais e comparado com o banco de representações armazenado no cérebro. A comparação ativa a resposta da amígdala (esquerda ou direita, conforme o caso), que se comunica com o hipotálamo e com o córtex motor. O hipotálamo rege a liberação de hormônios como a adrenalina na corrente sanguínea e o córtex motor comanda as ações musculares que se traduzem em movimentos: fugir do objeto, abraçá-lo, devorar o objeto ou cair de pau em cima dele. Não estamos no mundo. - Existem, porém, dois catchs-22 nesse mecanismo. O primeiro é que as representações armazenadas na memória influenciam ativamente o próprio ato da percepção.

Cat subjection.jpg

Uma das descobertas mais notáveis dos neurocientistas que estudam nosso sistema sensorial é a de que a percepção não é uma fotografia fiel do objeto, mas uma imagem construída pelo cérebro a partir de uma combinação entre os traços emitidos pelos órgãos de percepção e as representações dispositivas previamente gravadas. As conexões que ligam os córtices sensoriais aos córtices cognitivos são uma via de mão dupla. Para ficar com o exemplo da visão, o córtex visual decompõe o objeto em um feixe de características básicas - formas, cores, movimentos. Esses sinais funcionam como entradas no banco de memória, que busca em seus registros qualquer coisa que pareça corresponder aos sinais. Quando ele acha que encontrou uma identificação positiva, a representação correspondente é enviada de volta para o córtex visual, junto com as associações emocionais correspondentes, e o córtex visual utiliza esses dados para refinar e corrigir a percepção, como se fosse um Photoshop cerebral, a fim de torná-la mais parecida com o modelo. Dessa forma, nunca vemos o objeto tal como é, mas uma imagem condicionada por nossas predisposições - nossas predisposições kármicas, diria um budista.

A segunda armadilha é que padrões de ativação muscular frequentemente utilizados são ativados com mais facilidade

Fightorflitght.gif

do que aqueles que o organismo emprega mais raramente. Com isso, cria-se uma predisposição para determinado conjunto de ações, em detrimento de outras. Por exemplo, numa pessoa que prefere fugir a confrontar o objeto, será muito mais fácil ativar o padrão de fuga diante de qualquer situação. Mas isso cria um círculo vicioso, porque cada ativação reforça o padrão de fuga, aumentando ainda mais a sua probabilidade de ser ativado.

Com o tempo, criamos uma malha de esquemas sensório-motores que determinam todas as nossas percepções e ações, e que corresponde tanto ao que Reich denominava de couraça muscular do caráter quanto à sístase dos gnósticos valentinianos. Os gnósticos diziam que é a sístase que produz a realidade, da mesma forma que os budistas ensinam que o mundo dos sentidos é criado pelo conjunto de nossas predisposições kármicas. E isso é literalmente verdadeiro: não temos acesso aos objetos reais, mas apenas às imagens construidas pelo cérebro a partir dos estímulos sensoriais. E, como vimos, essas imagens são condicionadas pelos nossos esquemas sensório-motores. Podemos dizer, com Rimbaud, que não estamos no mundo: vivemos no interior de uma rede de esquemas sensório-motores dos quais, é ainda Rimbaud, a verdadeira vida está ausente.



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