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Objecções

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Os princípios da nova estrutura da sociedade revelam-se tão naturais e evidentes que, em princípio, não pareceria possível que se levantassem quaisquer dúvidas ou objecções. As dúvidas originam-se nas velhas tradições, que continuarão a encher o espirito de teias de aranha até ao momento em que o vento salubre das tempestades sociais as vier varrer. Mas são sobretudo as outras classes - aquelas que, ainda hoje, estão à frente da sociedade - que levantam objecções. É por isso que temos de examinar os argumentos da burguesia da classe dominante, dos capitalistas.

Poderia pensar-se não ter interesse determo-nos na consideração das objecções dos que formam esta classe capitalista. Não se põe o problema de os convencer, e de resto não é necessário. As suas ideias e convicções são ideias de classe, determinadas, tal como as nossas, por condições de classe. Diferem das nossas porque são diferentes as condições de vida e as funções sociais. Não temos de convencer essas pessoas pelo raciocínio, temos é que as vencer pela força.

Não devemos contudo esquecer que, em grande medida, o poder do Capital é um poder espiritual, um poder sobre o espirito, sobre o cérebro dos trabalhadores. As ideias da classe dominante reinam na sociedade e impregnam o espirito das classes exploradas. Fundamentalmente, essas ideias são implantadas pela força e pelas necessidades internas do sistema de produção; na prática, são implantadas pela educação, pela propaganda emitida pela escola, pela igreja, pela imprensa, pela literatura, pela rádio, pelo cinema. Enquanto assim for, a classe operária, não tendo consciência da sua posição de classe e aceitando a exploração como uma condição normal da vida, não pensará em revoltar-se e será incapaz de lutar. Espíritos doutrinados e submetidos a quem os domina não podem esperar encontrar a liberdade. Têm de começar por vencer o domínio espiritual que o capitalismo exerce sobre o seu próprio pensamento antes de poderem realmente sacudir o jugo. O capitalismo tem de ser vencido teoricamente antes de o ser materialmente. Só nesse momento é que a absoluta certeza da verdade das suas ideias, bem como a razão que preside ao seu objectivo, poderá dar aos trabalhadores a confiança de que necessitam para vencer. Porque só nesse momento é que a hesitação e a dúvida irão paralisar as forças do inimigo. Só nesse momento é que as classes médias, sempre hesitantes, em vez de se baterem pelo capitalismo, poderão compreender, ate certo ponto, a necessidade de uma transformação social e as vantagens que poderão obter com a criação de um mundo novo.

Somos portanto obrigados a considerar as objecções que a classe capitalista levanta, objecções que decorrem directamente da sua concepção do mundo. Para a burguesia, o capitalismo e o único sistema social possível e natural (trata-se do capitalismo na sua forma final, a mais elaborada, já que foi precedida por outras formas mais primitivas). É por isso que, segundo a burguesia, as características do sistema capitalista não são temporárias e sim fenómenos naturais, expressão da eterna natureza humana. A classe capitalista vê bem a profunda aversão que os operários experimentam face ao seu trabalho quotidiano. Constata que eles só se resignam a trabalhar sob a coacção de uma necessidade implacável. Conclui dai que é da própria natureza da maior parte dos homens sentir uma repulsa espontânea por todo e qualquer trabalho regular. Daí deduz que o ser humano está condenado a permanecer pobre, exceptuando todavia essa minoria de homens dinâmicos, obstinados, capazes, essa minoria que gosta do trabalho e que fornece naturalmente os chefes, os quadros superiores, os capitalistas. Por conseguinte, se os trabalhadores passassem colectivamente a ser os donos da produção, sem serem estimulados e lançados em competição uns contra os outros, por meio de recompensas pessoais que pagam os esforços de cada um, ver-se-ia uma maioria de preguiçosos fazer o menos possível e viver à custa duma minoria, a dos mais laboriosos, que faria todo o trabalho. Dai resultaria inevitavelmente uma pobreza universal. Todos os progressos maravilhosos, toda esta abundância trazida pelo capitalismo durante este século se perderiam, e isso por se haver suprimido esse estimulante, que é o interesse pessoal. A humanidade regressaria ao estado de barbárie.

Pata refutar tais objecções, é suficiente fazer notar que elas constituem o ponto de vista normal dos que estão do lado de lá da barreira, do lado da classe dos exploradores. Durante toda a história, nunca os que dominavam foram capazes de compreender aquilo de que uma nova classe era capaz; estavam convencidos de que essa classe fracassaria inevitavelmente quando tentasse dirigir os assuntos públicos, sociais e políticos. A nova classe, embora consciente da sua força, só podia mostrar aquilo de que era capaz conquistando o poder, e na prática só depois de o ter conquistado. O mesmo se aplica aos trabalhadores. Pouco a pouco, tomam consciência da forma da sua própria classe, adquirem esse conhecimento superior da estrutura social e do carácter do trabalho produtivo que Ihes mostra a futilidade dos argumentos dos capitalistas. Sem dúvida que terão de demonstrar as suas capacidades. Mas não se trata de vencer as provas de um teste prévio. Serão na realidade a sua luta e a sua vitória que constituirão as provas a vencer.

Não temos que discutir com a classe capitalista. Temos sim que fornecer argumentos aos nossos camaradas trabalhadores. As ideias pequeno-burguesas impregnam ainda grande parte deles: fazem subsistir neles a dúvida e a falta de confiança na sua própria força. Enquanto uma classe não acredita nela própria, não pode esperar que outros grupos sociais acreditem. A falta de confiança em si própria, principal ponto fraco da classe operária dos nossos dias, não pode desaparecer totalmente no seio deste regime, o capitalismo, que segrega factores de degradação e de esgotamento. Mas em caso de urgência, a crise mundial e a ruína iminente coagem a classe operaria à revolta e ao combate, e coagi-la-ão igualmente, logo que obtiver a vitória, a tomar em mãos o controle da produção. Nesse momento os imperativos de uma inexorável necessidade varrerão todo o temor, toda a falta de confiança em si própria, e as tarefas que daí resultarem revelarão energias insuspeitadas. Há outra coisa de que os trabalhadores têm a certeza, por muitas dúvidas e hesitações que tenham: é que, melhor que os ociosos detentores do direito de propriedade, eles sabem o que é o trabalho; sabem que são capazes de trabalhar, sabem que terão de trabalhar. As vãs objecções da classe capitalista desmoronar-se-ão com esta classe.

Objecções mais sérias provêm de outro lado. São levantadas pelos que se consideram amigos, aliados e mesmo porta-vozes da classe operária. Nas formas mais recentes de capitalismo encontramos, entre os intelectuais e os reformadores sociais, entre os dirigentes sindicais e os social-democratas, a seguinte opinião, largamente espalhada: a produção capitalista com vista ao lucro é má, deve desaparecer e ser substituída por um sistema de produção socialista. Segundo estas pessoas, a organização da produção deve servir para produzir em abundância para todos. A anarquia capitalista da produção deve ser abolida e substituída por uma organização idêntica à que existe dentro da fábrica. Tal como, numa empresa bem gerida, a marcha perfeita do conjunto, até ao mais ínfimo pormenor, e a sua eficácia são asseguradas graças à autoridade centralizadora do director e do seu estado-maior, também, numa estrutura social ainda mais complexa, as ligações e a interacção entre todas as partes do conjunto só podem ser correctamente asseguradas por um poder dirigente central.

São estes mesmos que pretendem que a ausência de tal poder centralizador e regulador é a objecção fundamental que se pode levantar ao sistema de organização em conselhos operários. O principal argumento afirma que, nos nossos dias, a produção já não consiste no manejar de utensílios simples que cada um podia facilmente dominar, como nos tempos idos dos nossos antepassados, mas sim na aplicação das ciências mais abstractas, acessíveis unicamente a cérebros capazes e bem instruídos. Pretendem que uma concepção, uma compreensão clara e precisa de estruturas complexas e a respectiva organização eficiente exigem qualidades que só se encontram numa minoria de pessoas, particularmente dotadas. Pretendem que o sistema dos conselhos se recusa a ver que as pessoas, na sua maioria, são dominadas por um egoísmo mesquinho e que não têm nem as aptidões, nem sequer o interesse, necessários para assumirem tão grandes responsabilidades. E se os trabalhadores, por presunção estúpida, rejeitassem esta direcção pelos mais capazes e tentassem dirigir eles próprios a produção e a sociedade, contando unicamente com o seu número, o fracasso seria inevitável, por maior que fosse o seu zelo e a sua dedicação. Cada fábrica conheceria em breve o caos e a produção começaria a declinar. Os trabalhadores falhariam porque não teriam sabido utilizar um poder dirigente, dotado de uma autoridade suficiente para impôr a obediência e assegurar o andamento sem sobressaltos desta organização complexa.

Mas onde encontrar esse poder central? Segundo eles, já existe: é simplesmente o governo, o Estado. Até agora, este limitava as suas atribuições aos assuntos políticos, seria suficiente estendê-las aos assuntos económicos - como é já o caso em certos campos de importância limitada - ou seja, confiar-lhe a organização geral da produção e da distribuição. Não será a guerra contra a fome e a miséria tão importante, e mesmo mais importante, que a guerra contra o inimigo externo?

E se o Estado dirige as actividades económicas actua, de facto, como organismo central da colectividade. Os produtores são os donos da produção, não em pequenos grupos separados, mas todos em conjunto, enquanto classe, enquanto população. Para a maior parte destes «socialistas», propriedade pública dos meios de produção significa propriedade do Estado, sendo o conjunto da população segundo as concepções deles, representado pelo Estado. Estado democrático, evidentemente, no qual o povo escolhe os dirigentes. E uma organização social e política na qual as massas escolhem os seus chefes a todos os níveis, tanto na fábrica como nos sindicatos e na chefia do Estado, eis o que é uma democracia universal! Evidentemente que, uma vez eleitos, estes chefes devem ser obedecidos sem hesitação e sem um murmúrio. Porque só através da obediência às ordens de dirigentes competentes, que reinam sobre o aparelho de produção, é que a organizarão poderá funcionar sem choques e de forma satisfatória.

É este o ponto de vista dos defensores do socialismo de Estado. É evidente que este projecto de organização social é totalmente diferente do de uma organização na qual os produtores detenham eles próprios o domínio real da produção. No socialismo de Estado, os trabalhadores são senhores do trabalho apenas de uma maneira formal, dessa mesma maneira formal que assegura o domínio da população sobre o Estado. Nestas pretensas «democracias» (assim denominadas porque as assembleias parlamentares são eleitas por sufrágio universal), os governos não são de modo nenhum compostos por delegados designados pela população para executarem, as vontades desta. É sabido que, em todos os países, o governo está nas mãos de pequenos grupos de aristocratas, de políticos e de altos funcionários, em número limitado e com funções muitas vezes hereditárias, e que os parlamentares formam o corpo social que os apoia, mas não são eleitos pelos mandantes para executar a sua vontade. A quem vota só resta, praticamente, a escolha entre duas equipas de políticos seleccionados, apresentados e lançados pelos dois principais partidos políticos cujos chefes, segundo os resultados, ou formam o gabinete ministerial ou então esperam a sua vez praticando uma «oposição leal». Os funcionámos do Estado que dirigem os assuntos públicos também não são escolhidos pelo povo: são nomeados de cima, pelo governo. Mesmo que uma propaganda hábil os apresente como servidores do povo, são na realidade os dirigentes deste, os seus senhores. No socialismo de Estado, esta burocracia de funcionários, consideravelmente mais numerosa dirige a produção. Dispõe dos meios de produção e portanto exerce o comando supremo sobe o trabalho. Tem que velar por que tudo funcione bem, tem de dirigir o processo de produção e fixar a repartição dos produtos. Assim, os trabalhadores têm novos patrões que Ihes distribuem um salário e que conservam para si o resto da produção. Por outras palavras, os trabalhadores continuam a ser explorados. O socialismo de Estado pode também ser apelidado de capitalismo de Estado. Tudo depende do aspecto sobre o qual se põe a tónica e da importância que a influência dos trabalhadores assume no sistema.

O socialismo de Estado é um projecto de reconstrução da sociedade que tem na sua base uma classe operária tal como a classe média a vê e a conhece no sistema capitalista. Naquilo a que chamam sistema socialista de produção, a estrutura fundamental do capitalismo é mantida: os operários põem as máquinas a funcionar sob as ordens de chefes. Mas este facto brutal é acompanhado por novas promessas vás. Os capitalistas, sedentos de lucros, foram substituídos por uma classe dirigente de reformadores que, arvorados em verdadeiros benfeitores da humanidade, consagram as suas capacidades ao seu ideal: libertar as massas laboriosas da miséria e da indigência.

É facilmente compreensível que, no século XIX, quando os trabalhadores estavam a começar a resistir e a lutar, mas não estavam ainda aptos para tomar o poder na sociedade, este ideal socialista tenha encontrado numerosos adeptos. E isto não só entre a pequena burguesia socializante que simpatizava com as massas oprimidas, mas também entre os próprios trabalhadores. Estes viam a libertação da sua servidão concretizar-se pela simples expressão da sua opinião no voto, pela utilização do poder político representado pelas eleições, meio para pôr no governo os seus salvadores em vez das seus opressores. E é evidente que, se se tratasse unicamente de uma discussão calma e de livre escolha entre capitalismo e socialismo, este último teria então boas probabilidades de se realizar.

Mas a realidade é totalmente diferente. O Capital detém o poder e defende-o. Quem poderá ter a ilusão de que a classe capitalista irá abandonar o seu império o seu domínio, os seus lucros, que são as próprias bases do seu poder, o que significa renunciar finalmente à sua própria existência, perante o simples resultado de um voto? Ou mesmo, quem pode crer que a classe capitalista irá passar os poderes depois de uma campanha de persuasão da opinião publica através de meetings e de manifestações de rua? É bem evidente que esta classe se irá bater, convencida dos seus direitos. Sabemos já que é necessário batermo-nos, mesmo por reformas, e que a menor reformazinha, em sistema capitalista, é sempre resultado de uma luta; é evidente que não é uma luta até as últimas consequências, até à guerra civil ou à efusão de sangue, ou pelo menos é-o muito raramente. E isto muito simplesmente porque a opinião pública, ou seja, a da burguesia no seu conjunto, alertada pela resistência decidida dos trabalhadores, se deu conta de que estas reivindicações operárias não põem em causa a própria essência do capitalismo, que o lucro, enquanto tal, não é ameaçado. Pelo contrário. Todos sentem que o capitalismo sairá reforçado, uma vez que as reformas apaziguam os trabalhadores e os ligam mais estreitamente ao sistema existente.

Se e a própria existência da classe capitalista enquanto classe dominante e exploradora que está em jogo, toda a classe burguesa alinhará atrás dela. Se o seu poder, a sua exploração, os seus lucros forem ameaçados, não por uma revolução ilusória formal, mas por uma revolução real que atinja as próprias bases da sociedade, podemos ter a certeza de que a classe burguesa irá resistir com todas as suas forças. Onde está o poder capaz de a vencer? Os argumentos irrefutáveis e as boas intenções dos reformadores generosos não podem travar, e muito menos destruir, uma força tão solidamente estabelecida. Um único poder no mundo é capaz de vencer o Capital, é a classe operária. A classe operária não pode ser libertada por outros; só pode ser libertada por ela própria.

Mas a luta será longa e difícil, porque o poder da classe capitalista é enorme. Firmemente entrincheirada no aparelho de Estado e no governo, ela tem à sua disposição todas as instituições e todos os recursos daqueles, toda a sua autoridade moral e todos os meios físicos de repressão. Dispõe de todos os tesouros da terra e pode despender somas ilimitadas para recrutar, pagar, organizar exércitos de defensores, para orientar a opinião pública. As suas ideias, as suas concepções, impregnam toda a sociedade, enchem livros e jornais, subjugam a própria consciência dos trabalhadores. É esta a principal fraqueza das massas. É verdade que a classe operária Ihe pode opôr o número. Nos países capitalistas, constitui já a maior parte da população. Ela tem uma função económica capital; tem o controle directo sobre as máquinas, a capacidade de as pôr a funcionar ou de as parar. Mas estes recursos não têm qualquer utilidade enquanto os espíritos se encontrarem sob a dependência dos senhores da sociedade, se alimentarem das ideias destes, enquanto os trabalhadores continuarem a ser indivíduos isolados, egoístas, limitados, rivalizando entre si. O seu número e importância económica, considerados isoladamente, são como as forças de um gigante adormecido. A luta prática deve começar por os acordar, pondo-os em plena acção. O conhecimento, a unidade devem transforma-los em poderes activos. A luta pela existência, contra a miséria, contra a exploração, contra o poder da classe capitalista e do Estado, o combate pelo domínio dos meios de produção devem permitir que os trabalhadores atinjam a consciência da sua posição social, a independência das suas ideias, o conhecimento da sociedade, a solidariedade e a dedicação à comunidade, a firme unidade de classe que Ihes permitirá vencer o poder do Capital.

Não podemos prever quais as tempestades da política mundial que irão acordar essas forças. Mas de uma coisa podemos estar certos, é de que isto não será produto de alguns anos, nem de um breve combate revolucionário. É um processo histórico que abrangerá todo um período, com altos e baixos, com batalhas e acalmias, mas seguindo sempre uma progressão constante. Será uma transformação da sociedade na sua própria essência, não só porque as relações de força entre as classes terão sido invertidas, não só porque as relações de propriedade terão sido mudadas, não só, ainda, porque a população terá sido reorganizada sobre novas bases, mas essencialmente (e é o elemento capital em todo este processo) porque a classe operaria se terá transformado, no mais profundo de si mesma. Os trabalhadores transformar-se-ão, de indivíduos submetidos, em donos do seu destino, confiantes em si próprios e na sua liberdade, capazes de construir e de organizar o mundo novo.

Foi o grande humanista socialista Robert Owen quem nos ensinou que para edificar uma autêntica sociedade socialista seria necessária uma modificação de carácter no homem, e que esse caracter pode ser transformado pelo meio e pela educação. Completando as teorias do seu predecessor, o grande teórico comunista Karl Marx ensina-nos que é a própria humanidade que tem de modificar o seu meio, de se educar combatendo, através da luta de classe, a exploração e a opressão. A doutrina do socialismo de Estado, ou seja, a concepção dum socialismo atingido através de reformas, é uma teoria oca e mecanicista; julga ela que para fazer a revolução social basta mudar as instituições políticas e as condições exteriores da vida, sem necessidade duma transformação do próprio homem que faça do escravo submisso um combatente orgulhoso e audacioso. O socialismo de Estado, programa da social-democracia, é na realidade utópico, já que pretende estabelecer um novo sistema de produção pela simples conversão das pessoas às novas ideias políticas através da propaganda. A social-democracia era incapaz - e de resto não o pretendia a preço nenhum - de conduzir a classe operaria pelo caminho duma luta revolucionária autêntica. O seu declínio começou quando o desenvolvimento moderno do grande capitalismo fez do socialismo eleitoral uma ilusão anacrónica.

Contudo, as ideias socialistas conservam ainda hoje a sua importância, se bem que duma maneira diferente. Disseminaram-se por todas as camadas sociais, tanto entre aquela burgueses sensíveis aos problemas sociais, como no seio da grande massa dos trabalhadores. Exprimem a aspiração a um mundo sem exploração, aspiração essa combinada, nos operários, com uma falta de confiança nas suas próprias forças. Um tal estado de espirito não desaparecerá imediatamente, mesmo após as primeiras vitórias, pois é nessa altura que os trabalhadores se ião aperceber da imensidão da sua tarefa, da força formidável do Capital, e da forma como as tradições e as instituições do velho mundo criarão obstáculos à sua marcha. Nesses momentos de hesitação, o «socialismo» parecer-lhes-á a via mais fácil de seguir, aquela que não inclui dificuldades intransponíveis a vencer, que não exige sacrifícios incessantes. É que aos trabalhadores, exactamente devido aos seus sucessos, virá juntar-se um grande número de reformistas, cheios de preocupações sociais, que se apresentarão como amigos, como aliados de peso que irão pôr as suas capacidades ao serviço da classe ascendente, mas que exigirão, podemos estar certos, lugares importantes, a fim de poderem agir e, finalmente, conduzir o movimento segundo as suas ideias. Se os trabalhadores os levarem ao poder, se instalarem ou apoiarem um governo socialista, então a poderosa máquina do Estado passará a estar disponível para atingir este objective novo; poderá como pretenderão ases reformistas, ser utilizada para abolir a exploração capitalista e instaurar o reino da liberdade, unicamente através da votação de leis apropriadas. Não será este modo de actuação mais atraente que essa luta de classe? Certamente que sim. O único inconveniente é que deste modo acabar-se-á por conhecer o mesmo destino que o movimento revolucionário do século XIX: as massas, que haviam derrubado os antigos regimes através das suas lutas na rua, foram em seguida convidadas a regressar ao trabalho e a confiar nos governos provisórios que se auto-designaram e que, de há muito, estavam preparados para tomar as coisas em mãos.

A propaganda levada a cabo a volta desta doutrina socialista, tem tendência a lançar a dúvida nos espíritos dos trabalhadores, a despertar ou reformar a sua falta de confiança nas suas próprias forças, a obscurecer a consciência que possam ter das suas tarefas e capacidades. É esta a função social do socialismo, hoje como amanhã, na altura de cada vitória operaria nas lutas futuras. Faz cintilar aos olhos dos trabalhadores, como que ofuscados pela apreensão dos duros combates pela liberdade que os esperam, a luz morna duma nova, mas agradável, servidão. E mais, quando o capitalismo vier a receber os rudes golpes que o esperam, todos aqueles que não têm confiança na liberdade completa das massas, os que a temem, os que desejam preservar a distinção entre senhores e servos, entre inferiores e superiores, se reunirão sob esta bandeira. Rapidamente se assistirá ao aparecimento de palavras de ordem apropriadas: a «ordem» e a «autoridade» opostas ao «caos», o «socialismo» e a «organização» contra a «anarquia». Porque um sistema económico no qual os trabalhadores dominem o seu trabalho e possam orientá-lo só pode ser sinónimo de anarquia e de caos para os espíritos pequeno-burgueses. Assim, o único papel que o socialismo poderá vir a desempenhar, no futuro será o de obstáculo no caminho do combate dos trabalhadores pela sua emancipação.

Em resume, o esquema socialista de reconstrução tal como e proposto pelos reformistas, está votado ao fracasso. Em primeiro lugar, por eles não deterem a possibilidade de criarem as forças capazes de vencerem o Capital, em segundo lugar, porque só os próprios trabalhadores podem consegui-lo. Somente as suas próprias lutas permitirão o desenvolvimento dessas forças irresistíveis, indispensáveis ao cumprimento duma tal tarefa. São estas lutas que o socialismo tem de evitar. Uma vez derrubado pelos trabalhadores o poder capitalista e conquistada a liberdade, por que razão a abandonariam para se submeterem a novos patões?

Existe uma teoria que tenta explicar esta inevitabilidade, e por que razão as coisas se passariam assim: é a teoria da desigualdade entre os homens, essa teoria que acentua o facto da natureza os ter feito diferentes. Uma minoria de homens capazes, dotados, dinâmicos, erguer-se-ia acima da massa inapta, imbecil e apática. A despeito de todos os decretos e de todas as teorias que instituem a igualdade formal e legal, a minoria inteligente e enérgica assumiria a direcção e a maioria incapaz seguí-la-ia e obedecer-lhe-ia.

Não é a primeira vez que uma classe dirigente tenta explicar e portanto perpetuar o seu domínio apresentando-o como a consequência duma diferença inata entre duas espécies de pessoas: umas destinadas pela natureza a funções de comando, as outras a serem comandadas. A aristocracia fundiária do passado fazia já a defesa da sua posição de privilégio vangloriando-se de descender duma raça nobre de conquistadores, que teria subjugado a raça inferior das pessoas vulgares. Os grandes capitalistas explicam a sua posição de domínio afirmando serem inteligentes enquanto que os outros não o são. Hoje em dia podemos ouvir a mesma cantiga na boca dos intelectuais. Consideram-se como os legítimos dirigentes de amanhã e proclamam a sua superioridade espiritual. Integram a classe ascendente de funcionámos e de membros de profissões librais que receberam uma formação universitária, que se especializaram no trabalho intelectual, no estudo dos livros, das ciências; acham-se as pessoas mais dotadas no campo das actividades espirituais. Essa a razão por que estariam destinados a tornar-se os dirigentes da produção, ficando para as massas inaptas as tarefas manuais que não exigem reflexão. Não fazem a defesa do capitalismo; sustentam que é a inteligência e não o Capital que terá que dirigir o trabalho, sobretudo nos nossos dias em que a sociedade assumiu uma estrutura de tal modo complexa, assentando em ciências abstractas e difíceis, que só uma elevada capacidade intelectual pode abarcar, compreender e aplicar. Se a classe operária, por falta de lucidez, não compreendesse a necessidade duma tal direcção intelectual, se tentasse estupidamente dirigir-se a si própria, o caos e a ruína seriam as consequências inevitáveis.

É bom que realcemos aqui que o termo intelectual não designa o indivíduo detentor duma inteligência. Intelectual é uma palavra que caracteriza uma classe com funções definidas na vida económica e social, para cujo cumprimento aquilo que se revela mais necessário e uma formação universitária. A inteligência, a faculdade de compreender, existe em todas as classes, tanto entre os capitalistas e os artesãos, como entre os camponeses e os operários. Os «intelectuais» não são dotados duma inteligência superior, possuem simplesmente uma capacidade especial de manejar abstracções e fórmulas cientificas, muitas vezes, em verdade, de as decorar, capacidade essa que se alia frequentemente a um conhecimento limitado das outras coisas da vida. A sua presunção origina um intelectualismo limitado, que ignora a maior parte das restantes qualidades que desempenham um papel importante nas actividades humanas. No homem podem encontrar-se uma quantidade de disposições ricas e variadas que diferem tanto pela sua natureza como pelo seu grau de desenvolvimento: num determinando indivíduo, poder de abstracção ou habilidade manual; num outro, inteligência viva ou imaginação rica; noutros ainda, compreensão rápida ou imaginação profunda; ou ainda grande perseverança ou espontaneidade impaciente; ou ainda uma coragem indomável na acção e na luta; ou então uma ética amplamente aberta para a compreensão dos homens. Todas estas qualidades são necessárias na vida social; segundo as circunstâncias e de acordo com as exigências da vida e do trabalho, poderá ser uma ou outra a assumir um plano de destaque. É ridículo querer separá-las em superiores e inferiores. São justamente as diferenças existentes entre elas que permitem que as predilecções e disposições de cada um encontrem o seu campo de aplicação nas diversas formas de actividade. Uma destas aptidões, a aptidão para os estudos abstractos e científicos (que frequentemente assumem em regime capitalista a forma abastardada de especializações forçadas) encontra o seu verdadeiro lugar no processo técnico de produção, quer para vigiar, quer para dirigir. Não passa duma aptidão entre muitas outras. Não há na realidade qualquer razão para que os intelectuais dominem do alto da sua superioridade as massas de não intelectuais. Não é certo que, referindo-se ao século XVIII, o historiador Travelyan falava da «riqueza de imaginação, da profundidade emocional, do vigor e variedade da inteligência entre os pobres... uma vez despertos os seus espirito»?

É evidente que alguns se encontram mais bem munidos de certas qualidades do que outros; os homens e mulheres de talento, sobressaem no meio dos seus contemporâneos. Mas em regime capitalista eles são com toda a certeza em muito maior numero do que o que pode parecer, pois uma das características deste regime é o desprezo, a má utilização, a exploração das qualidades humanas. No seio duma humanidade liberta, estes diferentes talentos serão muito melhor aproveitados; a consciência de estarmos a contribuir para a causa comum, pondo em jogo o melhor de nós próprios, trará uma satisfação muito mais completa do que um qualquer privilégio material fornecido pelo mundo da exploração.

Que significa esta pretensão da classe dos intelectuais, esta afirmação duma superioridade do trabalho intelectual sobre o trabalho manual, logo do domínio do primeiro sobre o segundo? Não é o espirito que deve comandar o corpo, as actividades físicas? Sem dúvida que sim. O espírito humano constitui aliás o ponto mais alto do desenvolvimento da natureza. Pelas suas capacidades intelectuais, o homem eleva-se acima do animal. O espírito é o que o homem tem de mais precioso. Foi graças a ele que pôde tornar-se senhor do mundo. Aquilo que distingue o trabalho do homem da actividade do animal, são justamente as bases do pensamento: primeiro conceber, reflectir e elaborar um projecto antes de passar a sua execução. Este predomínio da teoria, do pensamento sobre o trabalho prático não para de se reforçar, à medida que o processo de produção se vai desenvolvendo, se vai complicando cada vez mais, tornando-se progressivamente dependente da ciência.

Isto não permite concluir que os trabalhadores intelectuais estejam autorizados a dominar os trabalhadores manuais. A oposição manual-intelectual não existe na natureza: é um produto da sociedade; constitui uma distinção de classe artificial. Qualquer trabalho, mesmo o mais simples, tem tanto de intelectual como de manual.

Todo o trabalho, até se tornar mecânico à força de repetição, exige a intervenção do espírito. É justamente esta combinação pensamento/acção que faz o encanto da actividade humana. Este atractivo subsiste na divisão natural do trabalho, na que assenta em diferenças de gostos e de aptidões. Mas o capitalismo perverteu estas disposições naturais. Com o fim de aumentar o lucro, levou ao extremo a divisão do trabalho, introduziu uma especialização de sentido único. Há já três séculos que, desde o seu aparecimento pela primeira vez com o sistema da manufactura, a repetição incessante das mesmas manipulações em número limitado fez do trabalho uma retina monótona, em que a utilização abusiva de certos membros ou de certas faculdades mentais, em detrimento das outras, origina uma mutilação perpetua do espirito e do corpo. Hoje o capitalismo, à semelhança disto, para aumentar a produtividade e os lucros, operou a separação do trabalho manual e intelectual, fez de cada um dela o objecto duma educação especializada, em detrimento das restantes capacidades. Criou assim duas especialidades, onde o trabalho natural não via senão uma, originou tarefas distintas, profissões distintas, realizadas por classes sociais distintas. Os trabalhadores manuais, embrutecidos por longas horas passadas em trabalhos sem vida e vazios de qualquer iniciativa, em lugares insalubres, estão impedidos de desenvolverem as suas faculdades intelectuais. Por outro lado, os trabalhadores intelectuais, mantidos, pela sua própria formação teórica, afastados do trabalho físico e da exercitação natural do corpo vêem-se obrigados a recorrer a substitutos artificiais. Num caso como noutro, assistimos a uma verdadeira mutilação da natureza humana. E, ostentando esta degenerescência, imposta pelo sistema capitalista, como um dos traços inerentes a esta natureza humana, uma das classes sociais pretende afirmar a sua superioridade e o seu domínio sobre a outra.

Uma série de outros argumentos vêm reforçar esta pretensão da classe intelectual ao domínio espiritual e à condução social dele decorrente. Eminentes teóricos não se cansam de acentuar que todo o progresso humane se fica a dever a um número limitado de génios. Segundo eles, teria sido um pequeno número de investigadores, de inventores, de pensadores a edificar a ciência, a aperfeiçoar a técnica, a conceber ideias novas, a abrir novos caminhos, enquanto a massa dos seus concidadãos se teria limitado a segui-los e a imitá-los. Toda a civilização assentaria neste punhado de cérebros eminentes. O futuro da humanidade e o progresso da civilização dependeriam pois da educação e selecção de tais elites, e estas ver-se-iam ameaçadas por um nivelamento geral.

Admitamos por um instante que esta asserção é verdadeira. Poder-se-ia responder, não sem ironia, que o resultado conseguido por estes espíritos superiores, esse mundo deplorável que é o nosso, resulta directamente desta concepção mesquinha, e que não há muito motivo para orgulho. Se todos esses grandes precursores pudessem ver o que foi feito das suas descobertas, não teriam por certo grandes motives para satisfação. Se nos damos por incapazes de fazer melhor, então bem que podemos desesperar da humanidade.

Ora esta asserção é falsa. Mesmo o mais simples estudo atento duma descoberta científica, técnica, ou outra qualquer, surpreende pela quantidade de nomes que a ela se encontram associados. Mas nas obras populares, nos manuais de textos históricos, fontes de tantas ideias falsas, apenas alguns grandes nomes são conservados e glorificados, como se essa fosse a única realidade válida. Deste modo foram fabricados, de acordo com as necessidades em questão, alguns génios excepcionais. Na realidade, qualquer progresso importante e engendrado por todo um ambiente social donde brotam, de todos os lados, novas ideias, sugestões, compressões súbitas. Nenhum destes grandes homens, levados aos píncaros pela história oficial, por terem dado um passo decisivo, teriam podido fazê-lo sem o trabalho dum grande número de percursores, no qual as suas descobertas se baseiam. Alem disso, este punhado de homens de talento, louvados séculos mais tarde como iniciadores do progresso mundial, não foram os guias espirituais do seu tempo. Foram frequentemente ignorados pelos seus contemporâneos, trabalharam tranquilamente, isolados do mundo; pertenciam na sua maior parte à classe explorada, tendo sido por vezes mesmo perseguidos pelos dirigentes. Os seus homólogos contemporâneos não são esses irrequietos pretendentes a direcção intelectual, mas sim trabalhadores silenciosos, praticamente desconhecidos, quem Sabe mesmo, ridicularizados e perseguidos. Só uma sociedade de produtores livres, capazes de apreciarem a importância das realizações espirituais, e desejosos de as porem em pratica para o bem-estar comum, poderá reconhecer e apreciar o génio criador na sua real medida.

Como é que se pode então admitir que o trabalho de todos estes homens de génio do passado não tenha conduzido a nada de melhor do que o capitalismo actual? Tudo aquilo de que eles se revelaram capazes foi de estabelecer as bases científicas e técnicas da alta produtividade do trabalho. Por razões que os ultrapassavam, esta produtividade tomou-se a fonte do poderio e das enormes riquezas dessa minoria dirigente que conseguiu monopolizar os resultados de tais progressos. Uma sociedade de abundância e de liberdade para todos não poderá nascer da boa vontade de alguns indivíduos superiores, ainda que distintos. Ela não pode resultar da actividade cerebral de alguns, mas antes da afirmação da personalidade de todos. As ciências e as técnicas, na medida em que têm um papel a desempenhar na criação da abundância, são já suficientes. O que falta são as forças sociais capazes de congregar as massas operárias, de as transformar numa sólida organizaFã4 numa unidade. A base da nova sociedade não é a quantidade de saber que ela possa adquirir, nem as técnicas que possa ir buscar a outras, mas sim esses sentimentos comunitários, essa actividade organizada que os trabalhadores são capazes de desenvolver. Este carácter novo não pode vir do exterior; tão pouco pode ser adquirido por obediência a um qualquer patoá. Apenas poderá brotar da acção autónoma, da luta pela liberdade, da revolta contra os patrões. De nada servirá todo o génio dos indivíduos superiores.

O passo decisivo para o progresso da humanidade, para a transformação da sociedade, de que se apercebem já os primeiros indícios, consistirá essencialmente numa transformação das próprias massas laboriosas. Só poderá concretizar-se pela acção, pela revolta, pelo esforço das próprias massas; a sua natureza essencial é a auto-emancipação da humanidade. Nesta perspectiva, torna-se evidente que a direcção, por uma elite intelectual, é perfeitamente supérflua. Toda e qualquer tentativa para a impor só poderia revelar-se prejudicial, retardando os progressos necessários, agindo portanto como uma força reaccionária. As objecções levantadas pelos intelectuais, assentando nas insuficiências presentes da classe operária, encontrarão a sua refutação prática quando as condições mundiais obrigarem as massas a travar o combate pela revolução mundial.


As Tarefas dos Conselhos Operários!
A Organização Social Objecções Dificuldades


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