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O novo Movimento

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Henri Simon


Rb-star.png   Este texto foi originalmente publicado por Biblioteca Virtual Revolucionária.


A luta contra o domínio capitalista, que em suas várias e modernas formas ocorre em todos os países do mundo, exibe novas tendências. Essas tendências estão em total contraste com o que acontecia antes do início do século vinte.

A característica essencial e comum a todas essas tendências é a maneira pela qual aqueles que lutam assumem diretamente a gestão da totalidade de seus interesses, em todas as circunstâncias de sua vida, no campo da ação e do pensamento.

Os sinais do que pode ser uma radical transformação das relações sociais são visíveis no afundamento do capitalismo, em suas crises e tentativas de se adaptação. Estes sinais podem irromper em explosões isoladas, rapidamente destruídas pelos interesses dominantes, ou se enfraquecer e ser absorvidos mediante lentos progressos e reformas.

Os efeitos do que acima ficou estabelecido podem ser mais ou menos encontrados em todas as esferas da atividade humana, em todos os países, nos indivíduos e nas organizações em que estejam envolvidos. A luta no clássico lugar de exploração humana pelo capital - a empresa industrial ou comercial - continua essencial, mas as expressões da nova tendência podem ser encontradas em todas as áreas da vida e adotar formas semelhantes. Os conflitos se expandem por todos os setores da vida social, mostrando que a autonomia não pode ser limitada e conquistará todas as coisas.

A abolição do trabalho alienado e, conseqüentemente, a abolição de todo domínio do homem sobre o homem transformarão o conjunto das relações sociais. Esta transformação começa no momento mesmo em que a luta está acontecendo.

As tendências à autonomia e os modos originais de convivência em todas as áreas da sociedade colidem com as estruturas do mundo capitalista: estado, partidos políticos, sindicatos, grupos da esquerda tradicional, todo um sistema de idéias e valores da sociedade exploradora. O resultado é um conflito permanente que envolve indivíduos e grupos sociais. Desse conflito, concluímos que as várias expressões do Novo Movimento se opõem a todas as formas de elitismo e vanguardismo. Refletem a tendência a destruir todas as hierarquias, a estabelecer novas relações entre os indivíduos e as organizações de luta e entre essas mesmas organizações.

As novas lutas e tendências são ligadas a certas lutas e tendências do passado. Por exemplo: temos visto surgir conselhos operários ou análogas instituições em todos os períodos nos quais os conflitos sociais ameaçaram os fundamentos do sistema. Conhecer, estudar e refletir sobre esses acontecimentos é o modo pelo qual se exprime hoje nossa atividade intelectual. Mas devemos estar atento e não pensar como o movimento tradicional: colecionar informações sobre as lutas precedentes, analisar e teorizar sobre essas informações não fornece, em si e por si, projetos para atividade futura. Aquilo que nasce de uma luta adapta-se às necessidades dessa luta, portanto não pode servir como objetivo para outras lutas ou como critério para julgar o que nascerá de outras lutas.

Os elementos de um novo mundo tendem a se revelar continuamente no funcionamento do sistema capitalista. Estes elementos são produtos do funcionamento do sistema e, ao mesmo tempo, necessários ao seu funcionamento. Por exemplo: a moderna sociedade capitalista necessita da iniciativa individual e coletiva desde os mais baixos níveis para funcionar. Mas as formas pelas quais o Novo Movimento se revela podem ser apenas transitórias, efêmeras e rigidamente adaptadas à sociedade na qual se desenvolveram. Exemplos de tais formas são os bloqueios de vastas unidades produtivas produzidos por movimentos espontâneos num setor industrial, greves não passivas, resistência ao trabalho, movimento de mulheres, ações de comunidades locais, etc. É importante ressaltar a existência desses movimentos, analisar suas formas e desenvolvimentos, mas é fútil glorificar cada manifestação de atividade autônoma como sinal do iminente advento da revolução. Em contrapartida, também é fútil criticar sistematicamente tais manifestações, sob o pretexto de que seu isolamento faz com que terminem contribuindo para reforçar o sistema. A esquerda tradicional, que vê em cada greve a revolução ou denuncia toda greve como reformista, foi substituída por grupos mais sutis, que propõem táticas de luta supostamente mais radicais.

Elogiadas ou caluniadas, as lutas autônomas raramente são vistas como o primeiro sintoma de um novo movimento, cuja organização nasce e se desenvolve a partir das próprias lutas. Na prática, as tentativas de analisar essas ações autônomas se reduzem a explicar seu fracasso pela insuficiência de organização, inexistência de um partido revolucionário, falta de consciência, atraso ideológico, etc. De fato, todas essas críticas se referem a velhos esquemas da esquerda tradicional, que julga o que acontece segundo critérios definidos pela elite revolucionária. Esta supõe que, quando chegar a hora de desempenhar um papel central na revolução, usará vários meios. Na revolução proletária, tal elite deveria anunciar a crise e traçar o caminho da libertação, assim como fez a burguesia no seu tempo. A revolução é, portanto, concebida como um único evento, no qual o revolucionário possui um mágico poder que lhe permite transformar brutal e repentinamente todas as relações sociais. Naquele momento, uma força suficientemente violenta, gerada pela elite, destruiria um elo da cadeia de dominação capitalista mundial e fundaria a sociedade comunista.

O Novo Movimento opõe-se ao que chamamos de velho movimento. Este último se refere aos projetos e às situações do período histórico aberto no início do século 19 e que continua até a eclosão da primeira guerra mundial. Antes dessa guerra, os valores e idéias daquele período podiam ter alguma validade. O que então parecia revolucionário nos partidos (social-democrata e bolchevique) ou nos sindicatos era apenas uma revolução na forma do capitalismo - isto é: capitalismo burocrático planificado em substituição ao capitalismo liberal. De fato, a dominação capitalista e a exploração do trabalhado permaneciam intactas.

Desde a primeira guerra mundial, o velho movimento se tornou cada vez mais inadequado às situações decorrentes da reestruturação do capitalismo. Assim que surgiu, o Novo Movimento teve de enfrentar não somente as velhas formas de dominação capitalista, mas as diversas formas do velho movimento, mesmo as que ainda podiam conter ilusões revolucionárias. Citamos o antagonismo entre bolcheviques e conselhos de fábrica, na Rússia de 1917, e o seu epílogo em Kronstadt: é o clássico exemplo de colisão entre velho e Novo Movimento. O Novo Movimento questiona não só a existência do que se define como vanguarda (grupos, partidos, etc...), mas sua concepção da revolução. Na medida em que é atual ou potencial detentor do poder capitalista, o velho movimento deve combater à morte todas as manifestações do Novo Movimento, até sua destruição violenta ou total absorção.

Uma característica essencial do Novo Movimento é, nos dias de hoje, a atitude de quem luta, recusando-se a pedir ou esperar qualquer coisa de quem seja exterior à luta: os pais, na família; ao marido, no casamento; o professor, na escola e na universidade; os patrões, nos locais de trabalho; os sindicatos, nas greves; os partidos e grupos políticos, na organização das ações ou na discussão teórica; as instituições de todo e qualquer tipo. A forma de luta tende, muito freqüentemente, a ser o fazer ou o tomar as coisas necessárias. A nova tendência é fazer o que se quer para si mesmo e por si mesmo, tomar e fazer, em vez de pedir e esperar.

A mais visível demonstração dessa tendência são as novas formas de luta de classes, a difusão e a transformação dos conflitos em enfrentamentos abertos entre oprimidos e opressores, em todas as estruturas da sociedade. Esses conflitos ilustram a cisão entre os que pretendem agir em favor dos trabalhadores, seja qual for a motivação ou as ações dos explorados. As tentativas de rejeitar os sindicatos, a organização subterrânea dos conflitos, os esforços para criar ligações horizontais entre os que lutam, as novas atitudes dos estudantes, mulheres, homossexuais, etc., as atitudes dos trabalhadores com relação ao trabalho refletem o desejo de gerir a luta por si mesmos e para si mesmos.

Um dos traços característicos do velho movimento era que seus aderentes se consideravam como o próprio movimento operário e faziam da história de suas organizações a história do movimento operário. Ao contrário, o Novo Movimento considera e desenvolve sua própria história como nada mais do que atividade dos próprios trabalhadores, até então ignorada pelos que escreveram e fizeram "história" a partir de sua "revolucionária" atividade.

O velho movimento reconhecerá as diversas manifestações do Novo Movimento somente para submetê-lo aos seus objetivos políticos. Em geral, condena sem apelação tais manifestações, etiquetando-as como "reformistas", "pouco conscientes","hippy", etc. Mas o Novo Movimento é tão forte que obriga os aderentes do velho movimento a dar saltos acrobáticos para se manter, se possível, nos limites do papel que se atribuíram ou que lhes foi atribuído. Por este motivo, mudanças ou conflitos entre partidos e sindicatos, as cisões em diversos partidos e grupos podem ser explicadas pela tentativa de adaptar posições fundamentais ao novo caráter dos movimentos de luta. O que pretendem com isso é utilizá-los para servir seus interesses.

Há quem, incansavelmente, repita os mesmos velhos slogans ou idéias, como se o sistema capitalista não tivesse mudado profundamente durante os últimos 150 anos. E há quem tente se adaptar. Existem, portanto, duas correntes de opinião: A) Que atribui um valor absoluto a certas lutas particulares. Surgem então as teorias que privilegiam a revolta juvenil, a libertação da mulher, o poder dos estudantes, etc... E consideram a recusa do trabalho e a destruição física do local de trabalho como sinais que anunciam a destruição do capitalismo. E restringem a noção de proletariado aos trabalhadores de fábrica. Por fim, negam a existência da luta classes, vendo unicamente vítimas individuais da alienação universal. B) Que rejeita os particularismos e prioriza as explicações totais. Assim fazendo, modernizam a linguagem e a teoria, integrando em maior ou menor grau a luta de classes na evolução capitalista. E rejeitam as características essenciais do Novo Movimento, sem exceções, isto é: a autonomia em todos os campos de atividade e de luta.

Semelhantes tentativas não são sempre insignificantes, freqüentemente ajudam a esclarecer o sentido de novas manifestações de autonomia, sublinhando a ambigüidade e os limites da autonomia na sociedade capitalista. Mas a importância das teorias, idéias ou atividade dos grupos supracitados é amiúde exagerada, através de debates passionais, limitados ao gueto da extrema esquerda. Ou então esses debates e idéias são recuperados, como tudo que se desenvolve na sociedade capitalista, pela classe dominante, não importa o que possa pensar quem lhes deu origem. As próprias vanguardas funcionam como misturadoras de ideologias, que acabam sendo apropriadas pelas estruturas do velho movimento.

Nos conflitos, a intervenção dessa moderna vanguarda conduz à situação acima descrita. A vanguarda proclama sua grande contribuição à luta, em todas as áreas. Mas a realidade é bem diferente do que pensam. Muitas vezes, aqueles que ela gostaria de converter em instrumentos para os seus fins políticos, voltam-se contra ela e seus objetivos, apossando-se dos instrumentos de luta. Ainda mais freqüentemente, a intervenção da vanguarda somente consegue obstruir o desenvolvimento autônomo da luta. A moderna vanguarda diz que superou ou partidos e sindicatos, mas, na realidade, estes se servem dela para canalizar e suprimir a autonomia, a mesma autonomia para a qual a moderna vanguarda tentava contribuir com sua intervenção.

Qualquer que seja o desacordo, teórico ou prático, entre eles, os grupos de vanguarda têm uma característica essencial em comum: recusam-se a permitir que os interessados numa luta assumam sua direção. Semelhantes situações implicam ações, organizações, objetivos, táticas, reflexões e projetos. Quando são questionados pelos que lutam, a vanguarda reconhece que eles podem decidir quanto às suas ações e organização; mas negam-lhes a consciência de sua luta e, sobretudo, que esta se baseie numa teoria que seja válida e tenha alguma perspectiva. Assim fazendo, priorizam certos modos de pensar concernentes à ação. Desse modo, esses especialistas da teorização política se consideram superiores a quem afirma que ação e pensamento são inseparáveis. Uma tal inseparabilidade é natural para todos os envolvidos na luta contra a opressão, que é o núcleo vital da sociedade capitalista. Em muitos grupos, a autonomia de ações é aceitável somente na medida em que conduz a um tipo de eventos antecipadamente definido pelos especialistas como "socialistas" ou "revolucionários".

O Novo Movimento não é algo relativamente numeroso, organizado, estruturado ou coerente, que possa ser pensado ou construído para libertar outras pessoas. O Novo Movimento é algo que todos criamos na luta, pela luta, e em nosso próprio interesse. A superação dos particularismos, a unificação das reivindicações e seu transcrescimento no sentido de objetivos mais gerais e fundamentais, as perspectivas, todas essas coisas são o produto de uma luta que atingiu um certo grau de seu desenvolvimento, num dado momento. Os sindicatos costumam falar de unidade, a esquerda tradicional fala de frentes populares, de comitês, etc. Mas, quando uma greve expressa uma ação autônoma, nenhum sindicato ou partido fala dela, porque a luta fugiu do seu controle e é a expressão de todos os proletários em luta.

O aparecimento do movimento autônomo conduziu à evolução do conceito de partido. Antes, o partido como liderança se via no papel de vanguarda revolucionária e se identificava com o proletariado. Considerava-se uma fração consciente do proletariado que devia assumir um papel determinante na conscientização da classe operária. Os modernos herdeiros do partido estão conscientes da dificuldade de manter tal posição. Então, delegam ao partido ou ao grupo uma precisa missão: a de suprimir as deficiências da classe operária. Isto faz surgir grupos especializados na intervenção, nos contatos, em ações exemplares, explicações teóricas, etc. Mas também esses grupos não podem mais exercer a função hierárquica de especialistas no movimento de luta, em geral. O Novo Movimento, auto-organização dos trabalhadores e outros sujeitos em luta, avalia todos esses elementos, os grupos velhos e novos, tão importantes quanto suas ações. Assimila o que têm de bom e rejeitam o que é inútil. Teoria e praxis emergem agora como um único e indivisível elemento do processo revolucionário, no qual um não pode preceder ou dominar o outro. Consequentemente, nenhum grupo político desempenha um papel essencial.

A revolução é um processo. Poderíamos indicar as primeiras manifestações desse processo em todos os campos da atividade social. Ninguém pode dizer quanto tempo durará esse processo, seu ritmo e as formas que assumirá. Suas manifestações serão necessariamente violentas, porque nenhuma classe dominante aceita ser expropriada sem reagir com todas as forças de que dispõe. Mas não será uma batalha campal que destruirá o capitalismo e implantará uma estrutura revolucionária na sociedade. Uma série de eventos, dos quais não podemos antecipar o lugar, a extensão e a forma, subverterá todas as estruturas sociais no mundo inteiro. Surpreenderá todos pelo fato de ocorrer inesperadamente. Nenhum evento em si mesmo constituirá a ruptura brutal e geral que se espera. Ninguém diria hoje que os irrupções russa e espanhola, as sublevações nos países do leste europeu (Hungria, Polônia, etc.) ou maio de 1968, na França, foram revoluções. Contudo, nenhum desses eventos deixou de influenciar profundamente a evolução do capitalismo e o processo revolucionário. Se olharmos o mundo atual, diremos que a revolução, no sentido jacobino da palavra, está se tornando ultrapassada. Mas, de fato, o processo revolucionário tem se tornado sempre mais vigoroso.

A idéia da revolução como um evento singular permanece, não só nas velhas teorias marxistas ou anarquistas da conquista ou destruição do estado num confronto direto. Continua também em todos os sucedâneos mais ou menos modernizados dessas teorias. O velho movimento demonstra uma colossal ingenuidade quando se esforça para reconstruir uma organização adequada, nos modos mais diversos: com a ajuda de velhas fórmulas (as diversas do leninismo e as variantes neo-anarquistas), com novas fórmulas (grupos informais, comitês de todo tipo, comunas, etc.) ou, enfim, promovendo uma nova forma de elite em nome de necessidades teóricas e/ou práticas.

Simultaneamente, há organizações que se encarregam de objetivos particulares e evoluem segundo a luta ou as circunstâncias. Essas organizações desaparecem e reaparecem, aqui e lá. Com freqüência, exibem um caráter ambíguo, sendo animadas por membros de grupos que não perderam seus cacoetes vanguardistas e pretendem substituir os que lutam. Mas a existência de tais organizações depende cada vez mais de um conflito particular, tendo que exprimir os interesses de quem luta e permanecer sob o seu controle. Todas as tentativas de manter viva semelhante organização depois de um conflito, de lhe imprimir outra direção ou atrelá-la a uma organização política terminaram com a falência das organizações originárias.

Os indivíduos em luta tendem, cada vez mais, a assumir diretamente as tarefas que a luta exige (coordenação e informação, coligações, etc.). Quando não se sentem suficientemente fortes para incumbir-se dessas tarefas, recorrem às organizações que oferecem seus serviços, como os sindicatos e os inúmeros grupos de esquerda. Em conseqüência, as intervenções e ligações das organizações tradicionais se desenvolvem e logo esmagam a autonomia. Na medida em que as organizações tradicionais se desenvolvem, a autonomia regride. Na medida em que alguns se reservam as tarefas particulares de contato e coordenação, todos os outros são excluídos e subjugados. A delegação das massas a uma minoria, mesmo que esta seja contra as estruturas legais constituídas, acaba produzindo uma estrutura semelhante àquela contra a qual combatiam. Uma luta conduzida por sindicatos e partidos perde toda a autonomia. A ideologia dos sindicatos e partidos se enraíza no passado, bloqueando a imaginação e a capacidade de encaminhar iniciativas autônomas, cujo significado se projeta no futuro.

Um duplo conflito parece, agora, emergir. Os proletários lutam contra o capitalismo e suas estruturas de um lado, e, por outro, contra os que parecem estar em contradição com a ordem estabelecida, mas pretendem impor-se aos trabalhadores, mediante estruturas de poder e conceitos de elite revolucionária. Assim se constrói uma extensa rede de nexos horizontais, que, em várias direções e extremamente móveis, têm muitas formas e, efêmeras ou permanentes, regeneram forças e meios materiais utilizando uma energia coletiva indescritível. Cria-se, assim, uma enorme potência de idéias e teorias que desnuda implacavelmente as debilidades e forças de cada um. Todo um processo de auto-educação e auto-organização, na e pela luta, parece estar começando. Não podemos prever as formas e o objetivo final desse processo.

Há aqueles que vêem, nesse novo deslocamento de forças e idéias, o nascimento de um novo movimento de revolucionários, de um novo partido. Apoiando-se na nova situação, tentam rejuvenescer as velhas teorias da organização e do partido ou teorias concernentes à ação direta de minorias.

O Novo Movimento é a negação radical dessas velhas teorias. As tentativas de monopolizar numa só organização todos os fios do velho movimento remoçado e de abarcar numa só ideologia as numerosas formas de ação e de pensamento dos envolvidos na mesma luta faliram completamente. A ilusão de agrupar os díspares e irrecuperáveis elementos que aparecem nas manifestações de rua ocorre com aqueles que os consideram naturalmente englobáveis e englobados em qualquer organização fixa. Isto demonstra, simultaneamente, a força e a fraqueza da "elite revolucionária". Quando é forte, a "elite revolucionária", sob a forma de partidos tradicionais, desempenha um papel não desprezível em certos conflitos. Mas é frágil pelo fato de ser elite, porque acredita na sua força, permitindo-se todo tipo de manipulação e ilusão. Manipulação, com o objetivo de substituir a auto-atividade dos explorados. Ilusão, quando defendem a idéia de que qualquer um pode fazer a revolução no lugar de outro.

Já ressaltamos que as novas formas de luta, à base da existência do Novo Movimento, são formas transitórias, engendradas pelas circunstâncias da luta num dado momento. Além de tentar desarmar os proletários em luta e superar a crise agravada pela luta, o capitalismo procura tirar lições, aprendendo com a própria luta. Isso acontece inevitavelmente nos mais dinâmicos segmentos das estruturas de poder, estruturas que arregimentam os explorados: empreendimentos progressistas, sindicatos, partidos, etc. Assim, a autogestão decretada pelo poder estatal (de qualquer estado) é apenas uma tentativa, entre outras, de adaptar a estrutura de poder capitalista. Mas a adaptação, seja ela qual for, é uma premissa para novas e superiores formas de luta pela emancipação. Quem confunde a verdadeira autonomia da luta com a sua recuperação (nunca total) pretende negar a dialética do processo de luta. Quer impor sua "teoria" à classe operária, sob o pretexto de defendê-la das armadilhas do inimigo, como a autogestão. Na realidade, os proletários em luta sabem, melhor que qualquer ideólogo dos novos grupos, distinguir entre a autonomia (ditada pelos seus interesses) e as tentativas de integrá-la (ditadas pelo interesse do capital).

O que acontece nos conflitos faz justiça a todos aos lamentos dos grupos de esquerda: uma característica do Novo Movimento, o movimento dos próprios explorados, é minimizar as pretensões das minorias ou "elites revolucionárias" de serem o Novo Movimento e de lhe reduzirem as funções que a luta lhe atribui. A existência e a função de um grupo revolucionário são, assim, radicalmente transformadas. A reivindicação, por parte de um tal grupo, de ser universal é reduzida a um elemento de experiência, entre outros. Todas as teorizações se tornam parte de um todo e são compreendidas como tais. Por outro lado, a transformação das atitudes relativas aos tradicionais valores capitalistas e às instituições a ele ligadas são, no mínimo, tão importantes quanto a própria luta e claramente ligadas à sua evolução. Essa transformação é uma parte importante do processo revolucionário.

Uma crítica baseada nos fatos leva em conta todos os aspectos da teoria, incluindo todos os conceitos de organização. O que afirmamos é, sobretudo, motivado por nossa experiência pessoal das relações sociais capitalistas. Essa experiência, a reflexão sobre suas conseqüências e a conclusão que tiramos são também um aspecto particular da existência num mundo tão vasto, ainda tão desconhecido e no qual há inumeráveis relações, em constante evolução. Ninguém pode pretender a posse de uma verdade válida também para outros, ou mesmo colocada ao nível de todos os outros.

Mesmo quando se projeta ou se atua junto, antes de mais nada, cada um age por si mesmo. A reflexão e a ação de um grupo não têm mais valor do que as de um outro grupo, similar. Seja qual for o objetivo assumido por um grupo ou o nível de generalização de sua ação, e mesmo de seu pensamento, nada o autoriza a se considerar superior a qualquer outro grupo similar ou organização típica do movimento de luta, isto é, o Novo Movimento.

Grupos e organizações sempre existiram, em várias formas, e fizeram inúmeras reivindicações. Sua atual multiplicação é um fator positivo e demonstra precisamente que cada grupo se desenvolve segundo as particulares circunstâncias em que se encontra quem o forma. Este texto tem por objetivo definir a orientação geral para a atuação de nosso grupo, em relação ao Novo Movimento. A concepção do Novo Movimento se transformará com a evolução incessante do processo revolucionário. O Novo Movimento não é um absoluto imutável, mas uma praxis em constante mudança, da qual não podemos prever o futuro.

Henri Simon 1974



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