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O demiurgico século XIX

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CAPÍTULO II
Manual de Contra-História na Antimodernidade
Eduardo Antonio Bonzatto
«Em face da divisão das atividades do espírito humano em diferentes domínios, estritamente mantida desde o século XVII, imagino um objetivo que seria a conciliação dos contrários, uma síntese que abarcasse a inteligência racional e a experiência mística da unidade. Este fim é o único que se adapta ao mito, expresso ou não, da nossa época.»
(Wolfgang Pauli, 1955)


Dizem as más línguas que a estrada que leva ao inferno está pavimentada de boas intenções. Este é um ensaio sobre elas, as boas intenções.

Hobsbawm nos lembra que o início do século dezenove foi protagonista da invenção da maioria das palavras que caracterizam nosso presente: “palavras como ‘indústria’, ‘industrial’, ‘fábrica’, ‘classe média’, ‘classe trabalhadora’, ‘capitalismo’ e ‘socialismo’. Ou ainda ‘aristocracia’ e ‘ferrovia’, ‘liberal’ e ‘conservador’ como termos políticos, ‘nacionalidade’, ‘cientista’ e ‘engenheiro’, ‘proletariado’ e ‘crise’ (econômica). ‘Utilitário’ e ‘estatística’, ‘sociologia’ e vários outros nomes das ciências modernas, ‘jornalismo’ e ‘ideologia’, ‘greve’ e ‘pauperismo’, todas elas cunhagens ou adaptações (...)” do período que vai dos anos 1789 a 1848.

O responsável por tantos neologismos foi, ele próprio, um neologismo: o liberalismo.

Só que para se entender o liberalismo precisamos compreender toda a ambigüidade contida no termo “primavera dos povos”. A princípio poderíamos crer num estado de liberdade e desabrochamento dos povos. A designação foi concebida pelos liberais em 1848 e se refere tanto à emergência do nacionalismo, daí o termo povo, que extravasa, portanto, a idéia de pequenos grupos substituídos pelas macro solidariedades quanto pelas necessárias diferenças que limitam o povo a uma nação. E há a euforia da primavera, esse desabrochar.

Conceitualmente, o termo liberalismo parece ser o equivalente protestante do conceito católico de modernismo. Em ambos existe um julgamento do individualismo, embora no catolicismo esse julgamento seja negativo, denúncia da ganância e do egoísmo, enquanto no protestantismo ele é positivo, pois que traduzido por liberdade individual. Num, é fonte de sofrimento; noutro, é fonte de júbilo.

Tomando seu lado positivo, existem dois movimentos aparentemente convergentes: um econômico e outro político. Pensar na questão econômica referente ao liberalismo seria o mesmo que pensar seus pensadores: Adam Smith (1723-1790), Malthus (1766-1834), Ricardo (1722-1823), John Stuart Mill (1806-1873) na Inglaterra; Jean-Baptiste Say (1767-1832), F. Bastiat (1801-1850), na França.

Em todos os casos, fica claro que o pensamento econômico há de prevalecer no século XIX e é incorreto arremessá-lo ao século XVIII, cujos critérios eram bem outros.

Os fundamentos do liberalismo econômico se encontram na afirmação da existência, no domínio econômico, de uma ordem natural, que tende a se estabelecer espontaneamente. O papel dos indivíduos deve limitar-se a descobrir as leis econômicas que, seguindo o exemplo das leis mecânicas ou físicas, conduzem naturalmente o sistema econômico para o equilíbrio. O Homo Aeconomicus é um ser racional que aspira a conseguir o máximo de lucro com o mínimo de esforço. Agindo assim livremente, permite a realização da ordem econômica natural; os interesses individuais e o interesse geral da sociedade coincidem e se harmonizam. O indivíduo é então o agente econômico ao qual convém conceder o máximo de liberdade de ações; o Estado e os grupos privados não devem nunca, pela intervenção, perturbar o livro jogo da concorrência e a não0intervenção do Estado são indispensáveis para o bom funcionamento dos mecanismos automáticos regidos pelas leis econômicas.

Note como o termo “natural” repete-se na descrição do conceito. Para impor-se, contudo, será preciso inventar o trabalho e torná-lo uma prática de muitos, já que aqui estamos falando de uma parcela ínfima da população, que na Inglaterra do século XVIII não representava nem um por cento da população estimada, ou algo em torno de 30 mil pessoas. Daí a importância do seu correspondente político:

Doutrina que pretende estabelecer a liberdade dos indivíduos em relação ao Estado, ao qual só cabe a tarefa de policiar a comunidade; o liberalismo também preconiza oportunidades iguais para todos, independente do nascimento em determinada classe. O berço desse liberalismo político é a Inglaterra, onde a revolução de 1688 garantiu direitos individuais. Na França, a partir da revolução de 1789, o liberalismo conseguiu a igualdade das oportunidades, abolindo os privilégios da aristocracia. O mesmo liberalismo também venceu na Bélgica (1830) e Itália (1861). Mas não conseguiu vencer na Alemanha, Espanha, Rússia. Na segunda metade do século XIX, o liberalismo político confundiu-se com o liberalismo econômico. No século XX, enfim, o liberalismo tem sido freado por sua encampação nominal por partidos de direita .

Não nos equivoquemos. A questão da liberdade aqui referida remete-se a um pequeno grupo que gritava em torno do rei absolutista. Sobretudo podemos indicar que as promessas liberais constituíram-se num repertório necessário para o esgotamento do poder do Um. Seria uma reconfiguração do poder diante dos limites encontrados pelo absolutismo.

Nesse sentido, entender por liberdade, seja política, seja econômica, quando a grande maioria das pessoas ainda habita o mundo exterior das regras sociais e que são, a rigor, por isso mesmo livres, é um contra censo que não posso furtar-me de expor.

Como ainda veremos em ensaios posteriores, a destruição dos “pequenos mundos” foi uma necessidade de arrebanhamento de parcela significativa de pessoas que viviam realidades muito distintas daquilo que conhecemos como sociedade ou mesmo civilização.

A esse enorme contingente pareceu exatamente o contrário: o mundo que lhes apresentavam nas cidades, nas fábricas, era exatamente o oposto do que remotamente poderiam conhecer como liberdade.

Talvez por isso mesmo ainda hoje o termo liberalismo é visto como algo elitista e enganador.

Portanto, o liberalismo será o ponto fundamental a inaugurar o século XIX seja em sua formatação hegemonicamente econômica, seja nas reações e ambigüidades que enfrentará.

O século XIX começou com um estrondoso ideal forjado pelos desterrados: Igualdade, Liberdade e Fraternidade foi o primeiro movimento da ideologia, o primeiro movimento que distanciará a crença dos fortes da dos fracos e um caminho para se entender isso consiste no aparecimento do formidável exército napoleônico, que foi o primeiro exército a se mover em nome de um ideal.

Ouçamos uma voz que referenda esta afirmação:

As guerras da Revolução Francesa, perpetuadas por Napoleão Bonaparte depois que se tornou chefe do governo como primeiro cônsul em 1799, duraram até 1815; travadas de início defensivamente pelos franceses, que renunciaram às guerras de conquista em maio de 1790, elas transformaram-se rapidamente na ofensiva mais sustentada e ampla até então conhecida pela história européia. Motivados inicialmente pelo desejo de levar as liberdades revolucionárias aos súditos dos reinos vizinhos, os franceses acabaram se comprometendo com um programa militar permanente de engrandecimento nacional. Em 1812, Napoleão tinha mais de 1 milhão de homens em armas, distribuídos da Espanha à Rússia, e comandava uma economia e uma administração imperial cujo único objetivo era manter seus exércitos em campo. As principais potências da Europa continental, exceto a Rússia, tinham sido derrotadas em seus próprios territórios, os soldados dos estados menores tinham sido incorporados diretamente ao exército francês e os homens aptos de todos os lugares viviam sob disciplina militar, ou com medo do sargento recrutador. No espaço de vinte anos, uma sociedade européia em que somente os homens vivendo à margem da economia corriam o risco de serem incorporados às fileiras militares, tinha se militarizado de alto a baixo e a grandeza e servidão da vida do soldado, até então conhecidas apenas por uma minoria voluntária ou, com mais freqüência, involuntária, tornaram-se a experiência comum de muitos de uma geração inteira .

Era isso que Clausewitz chamava de “guerra como continuação da política”, característica básica do século XVIII. O ideal de um soldado francês contra mercenários ou exércitos de servos explica sua impressionante seqüência de vitórias. A incorporação dos desistentes no confronto, por outro lado, explica seu número assustador. No entanto, e contrariando o que aponta Keegan, não era um exército com motivações nacionais. Era um exército europeu de cidadãos (não de um país, mas do mundo, ou pelo menos da Europa) em armas, cujo súbito colapso só pode ser entendido pela atitude de Napoleão em instalar nos reinos conquistados sua própria parentada. Esse continuísmo foi sua ruína. Mas no coração desses infindáveis homens e mulheres, no coração de uma geração inteira não se apagou o ideal.

A reação termidoriana (que gerara o exército napoleônico para conter a fúria revolucionária e aqui estará, possivelmente, e como hipótese, a primeira manifestação da ideologia), a reação bourbônica e a Santa Aliança não serão suficientes para demover esta montanha em movimento. Será preciso três novos elementos para incorporá-lo sem tantos danos: a pobreza, as utopias (anarquismo, socialismo, comunismo, positivismo, liberalismo, marxismo) e o nacionalismo. E tudo isso só pode ser concebido com a imposição e a difusão do trabalho, o tripalium inquisitorial.

Ainda assim, serão necessárias três doses cavalares de megamortes e uma forjada aliança para que todo esse conflito cesse: imperialismo, primeira guerra mundial e segunda guerra mundial. Apenas depois disso poderemos ter, com a invenção do consumo de massa, a democracia e o aparecimento do “colaborador”, essa categoria que aponta a aliança entre proprietários e não proprietários, tornando todos dominadores e dominados, cada um de nós...o poder na mão do povo, democracia.

Esse, portanto, o momento chave daquilo que Foucault chamou da passagem do “velho direito de causar a morte ou deixar viver (...) substituído por um poder de causar a vida ou devolver à morte” .

Tal processo pode ser melhor entendido no seguinte trecho:

Concretamente, esse poder sobre a vida desenvolveu-se a partir do século XVII, em duas formas principais; que não são antitéticas e constituem, ao contrário, dois pólos de desenvolvimento interligados por todo um feixe intermediário de relações. Um dos pólos, o primeiro a ser formado, ao que parece, centrou-se no corpo como máquina: no seu adestramento, na ampliação de suas aptidões, na extorsão de suas forças, no crescimento paralelo de sua utilidade e docilidade, na sua integração em sistemas de controle eficazes e econômicos – tudo isso assegurado por procedimentos de poder que caracterizam as disciplinas: anatomo-política do corpo humano. O segundo, que se formou um pouco mais tarde, por volta da metade do século XVIII, centrou-se no corpo-espécie, no corpo transpassado pela mecânica do ser vivo e como suporte dos processos biológicos: a proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevidade, com todas as condições que podem fazê-los variar; tais processos são assumidos mediante toda uma série de intervenções e controles reguladores: uma bio-política da população. As disciplinas do corpo e as regulações da população constituem os dois pólos em torno dos quais se desenvolveu a organização do poder sobre a vida. A instalação – durante a época clássica, desta grande tecnologia de duas faces – anatômica e biológica, individualizante e especificante, voltada para os desempenhos do corpo e encarando os processos da vida – caracteriza um poder cuja função mais elevada já não é mais matar, mas investir sobre a vida, de cima a baixo .

Portanto, se antes desse período competia ao rei fazer morrer quando necessário e deixar viver do jeito que cada um quisesse ou pudesse, os eventos de 1789 aceleraram a máxima “deixar morrer e fazer viver”. Este o fenômeno mais específico da ideologia. Categoricamente, o conceito de ideologia deve ser entendido por mim como um conjunto de regras, valores e crenças de um determinado grupo social que por intermédio de instituições pluralizam e pontilhizam tais valores (pensemos no trabalho como sua melhor manifestação) para toda a sociedade.


Há um momento em que ele se internaliza em todos. Aí temos esse desdobramento:

(...) o exercício da dominação/resistência não se encontra localizado em nenhum ponto específico (Estado, instituições, partidos, associações, etc.); não se manifesta em momentos diferenciados (o tempo da dominação, o tempo da resistência); não é exercido de forma exclusiva por grupos determinados (grupos dominantes, grupos dominados); não mantém uma relação causal (a uma dominação surgem reações de resistência); não têm existência concreta, nem carrega necessariamente noções de positividade e negatividade. O exercício da dominação e da resistência se dissemina por toda a estrutura social, é inerente às lutas cotidianamente travadas, adquirindo expressão em práticas e estratégias, simultaneamente presentes na multiplicidade das experiências historicamente vivenciadas.

Essa mudança operou muito lentamente, à custa de confrontos dramáticos e aparentemente dialéticos.

Marx (1818-1883) congrega o primeiro grande fundamento desse rizoma que fez nascer o contemporâneo naquele que sem dúvida é o século em que nasceu praticamente tudo o que conhecemos como o conhecemos.

Opondo-se ao liberalismo, Marx convergiu uma enorme gama de teorias disponíveis. Do anarquismo ao comunismo, do socialismo ao fourierismo.

Aspecto peculiar do livro reside na defesa de Proudhon, com o qual Marx mantinha amiúde encontros pessoais em Paris. Naquele momento, o texto de A Sagrada Família fazia apreciação positiva da crítica da sociedade burguesa pelo já famoso autor de Que é a Propriedade, então o de maior evidência na corrente que Marx e Engels mais tarde chamariam de socialismo utópico e da qual consideravam Owen, Saint-Simon e Fourier os expoentes clássicos. No processo de absorção e superação de idéias, Marx e Engels haviam alcançado um estágio em que julgaram necessário passar a limpo suas próprias idéias .

O que de mais importante podemos encontrar em Marx é o reconhecimento de que a filosofia havia encontrado várias maneiras de interpretar o mundo; chegara a hora de mudá-lo. Nisso ele parecer conter todas as correntes opostas ao liberalismo em sua mais fundamental expressão de luta: a luta de classes.

Assim, às pregações do liberalismo individualista, Marx propõe o coletivismo que é a força do proletariado. A luta parece inevitável e tinge o século de pura desagregação e de coesão também. Mal podiam perceber que a revolução era uma solução, não um problema, como ainda veremos a seguir .

Parece ser impossível, sobretudo, deslocar o conceito de liberalismo do aparecimento da raça como conceito e como prática principalmente. Esse conceito será fundamental no deslocamento do centro de gravidade da luta de classes para um outro eixo, qual seja, aquele que estabelece divergência entre o próprio proletariado.

Para tanto, Darwin (1809-1882) parece ter oferecido as ferramentas mais adequadas.

Recentemente, um importante cientista americano afirmou que onde quer que haja vida, a teoria de Darwin prevalecerá, em qualquer parte do universo .

Darwin será nosso segundo demiurgo. A seu lado, antes e depois, um círculo de ferro entretecido com outros dois demiurgos fundou o futuro.

Os grandes representantes da ciência do século XIX, refletindo o espírito da época, postularam determinismos variados, centrados na competitividade. Darwin apontou para o determinismo biológico e competição entre as espécies; Marx, para o determinismo econômico e competição entre as classes; Freud, para o determinismo psíquico e competição entre as potências psicológicas. Ninguém falou de cooperação, solidariedade, fraternidade e sinergia .

O primeiro contemplou o nascimento do racismo, o segundo das utopias românticas (comunismo, socialismo e anarquismo) e o terceiro o medo, essa doença que implicou na educação laica para todos, partindo de uma invenção fundamental: a criança, aquele que cria, que é dotado de criatividade, esse ser de potência que precisamos controlar .

Antes de tudo seria preciso apontar a rede de alternativas que então se abriam para o futuro, pois algumas vozes se pronunciaram, mas foram silenciadas pela história: Goethe estudava algo como uma relação holística com a natureza; Agassiz, o catastrofista, encontrava base científica para o criacionismo; Kropotikin, o biólogo, apontaria, um pouco mais tarde, as relações colaborativas em sua obra maior, Apoio mútuo. Este um cenário bastante modesto das tensões que apenas esta área, que seria fundamental para o século seguinte, propunha.

Do lado hegemônico, aquele que prevaleceu, Matrix (sic) que gera Mendel e Lamarck (esses dois caras vão subsidiar, cinqüenta anos depois, o discurso eugênico: o primeiro afirmando que os aprimoramentos genéticos são inerentes à herança e o segundo que as experiências são incorporadas na transmissão evolutiva), Darwin consolida o mais importante dispositivo para um projeto de dominação das almas e dos buchos: a legitimação do mais apto, que depois há de convergir para outra teoria fundamental desse período, o marxismo, sem que Marx o queira.

Ouçamos as afinidades das duas teorias fundadoras do tempo futuro:

A diferença entre a atitude histórica de Marx e a atitude naturalista de Darwin já foi apontada muitas vezes, quase sempre com justiça, a favor de Marx. Isso nos leva a esquecer o profundo e positivo interesse de Marx pelas teorias de Darwin; Para Engels, o maior cumprimento à obra erudita de Marx era chamá-lo de “Darwin da história” (Na oração fúnebre a Marx, Engels disse: “Tal como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da vida orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana”. Comentário semelhante encontra-se na introdução que Engels escreveu para a edição de 1890 do Manifesto Comunista; e na introdução a Ursprung der Familie, ele menciona, outra vez, lado a lado, “a teoria da evolução de Darwin” e a “teoria de Marx da mais-valia”). Se considerarmos não a obra propriamente dita, mas as filosofias básicas de ambos verificaremos que, afinal, o movimento da história e o movimento da natureza, sua insistência em que, pelo menos no terreno da biologia, o movimento natural não é circular, mas unilinear, numa direção que progride infinitamente, significa de fato que a natureza está, por assim dizer, sendo assimilada à história, que a vida natural deve ser vista como histórica. A lei “natural” da sobrevivência dos mais aptos é a lei tão histórica – e pode ser usada como tal pelo racismo – quanto a lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista. Por outro lado, a luta de classes de Marx como força motriz da história é apenas a expressão externa do desenvolvimento de forças produtivas que, por sua vez, emanam da “energia-trabalho” dos homens. O trabalho, segundo Marx, não é uma força histórica, mas natural-biológica – produzida pelo “metabolismo [do homem] com a natureza”, através do qual ele conserva a sua vida individual e reproduz a espécie. Engels viu com muita clareza a afinidade entre as convicções básicas dos dois homens porque compreendia o papel decisivo que o conceito de evolução desempenhava nas duas teorias. A tremenda mudança intelectual que ocorreu em meados do século XIX consistiu na recusa de encarar qualquer coisa “como é” e na tentativa de interpretar tudo como simples estágio de algum desenvolvimento ulterior. Que a força motriz dessa evolução fosse chamada de natureza ou de história tinha importância relativamente secundária. Nessas ideologias, o próprio termo “lei” mudou de sentido: deixa de expressar a estrutura de estabilidade dentro da qual podem ocorrer os atos e os movimentos humanos, para ser a expressão do próprio movimento. (Arendt, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo, Cia das Letras, 1997, p.515-6)

Essa forma de perceber o surgimento e seu ulterior desdobramento de um conjunto sincrônico de teorias deve nortear nossa análise.

Retomemos Darwin. Quando passou pelo Brasil a bordo do navio inglês HMS Beagle , em 06 de abril de 1832, afirmou Charles Robert Darwin (1809-1882) a respeito dos brasileiros:

Nunca é muito desagradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e aligátores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos pés de um brasileiro .

Podemos partir desse pouco elogioso referente aos homens de má vontade que por certo os há em todo canto como um alento à sua própria historicidade.

O mesmo jornal apresenta a trajetória, bastante sucinta, que carrega consigo o poder dessa teoria:

O então estudante de 22 anos de Cambridge embarcou no navio da Marinha britânica em 1831, acompanhando uma expedição cujo objetivo era dar uma volta ao mundo e identificar rotas de navegação. Darwin estudava para ser clérigo e teve de convencer o pai a deixá-lo embarcar no Beagle e ficar quatro anos e nove meses fora de casa. Durante a viagem, escreveu um diário e um caderno de campo em que descrevia o ambiente que via. As observações culminaram na teoria da seleção natural como mecanismo da evolução. O diário, publicado depois no livro “A viagem do Beagle”, serviria ainda de inspiração a outro jovem naturalista, o galês Alfred Russel Wallace. Ele acabou descobrindo a seleção natural de forma independente. Os trabalhos de ambos foram apresentados à Sociedade Lineana de Londres em 1858. No ano seguinte, Darwin publicou “A origem das espécies”, um dos livros mais importantes da história da ciência .

Note como o jornalista refere-se à teoria como uma descoberta. É como se um novo território do real tivesse aparecido diante de todos. É sobre esse poder de verdade que pretendo refletir.

Que foi extraordinária e dilatada a sua repercussão, não há como negar. Ainda hoje consciente ou inconscientemente dela nos achamos impregnados. Abramos qualquer tratado de Zoologia ou de Botânica. A distribuição dos assuntos, a seqüência dos capítulos, tudo segue, de certo modo a teoria da descendência. Tal fato entre muitos outros patenteia claramente quão grande e profunda foi a repercussão da doutrina darwinista. E não se limitou ela a influir no campo da História Natural dos seres organizados. Ultrapassou suas fronteiras. A filologia e a psicologia comparativas, o estudo comparativo das regiões, a etnografia e a etnologia igualmente receberam enorme influência das idéias de Darwin. Teve a magia até de alterar fundamente o sentido de certos vocábulos. Quem se sentiu na contingência de ensinar a História Natural deve ter tropeçado com os termos rudimentar, atávico, adaptação e tantos outros que exigem não pequeno esforço para serem esclarecidos. Darwin empregou-os dando-lhes um cunho especialíssimo. Enquadrou-os na moldura da sua teoria. Seus sucessores encarregaram-se de reforçar o quadro, alargando ou restringindo sua significação. O termo adaptação, por exemplo, sofreu as mais variadas cambiantes em seu significado. Empregando-o no sentido de arranjo especial que o animal ou planta, de acordo com a teoria darwinista dá ao seu organismo para manter-se no ambiente em que vive, representa uma tentativa de explicação de fenômenos. Pode-se afirmar que o ser vivo faz deste ou daquele modo, mas na realidade falta ainda explicar como e por que o faz. E assim adveio o exagero da teoria. Criou-se logo o que se chamaria a “mística do transformismo”. Os adeptos de Darwin foram mais darwinistas que ele próprio. É de ver-se, quando se relê A Origem das Espécies ou A Descendência do Homem o cuidado, a meticulosidade de Darwin na expressão de seu pensamento e no tirar as conclusões. São livros que devem ser meditados. A clareza aparente da doutrina, à primeira vista induziu à forte convicção, mas desaparecia quando se examinavam com mais cuidado as suas premissas. Por isso, talvez, maior voga tiveram os resumos dos livros de Darwin que os próprios trabalhos originais .

Claro, o que explica que sua teoria sobrepujou todas as outras, dentre as quais a de Kropotikin, é exatamente sua sincronicidade com o momento em que nasceu. Naquele momento, falar sobre a lei do mais forte, ainda que esse não tenha sido o ponto fundamental da teoria darwinista, mas que efetivamente proporcionava uma leitura rasa e superficial, era uma justificativa científica para os problemas morais que emergiram com a dominação, a exploração e a produção de riquezas pelas mãos de muitos e satisfação de poucos.

Essa teoria reforçava os discursos raciais que estavam emergindo também naquele momento. O racismo, por sua vez, foi uma ideologia fundamental para o século seguinte, pois justificava cientificamente o extermínio de parte de indivíduos que não compartilhavam com o projeto de dominação encetado, ou que não lhe eram requerido.

Fazia muito mais que isso.

Há uma discussão, quando se trata de Darwin, que não posso me furtar. Se sua teoria refere-se ao mais apto ou ao mais forte. É relevante, pois se o caso for o primeiro, estamos envolvidos numa questão relativa à ciência, à sua objetividade e ao distanciamento requerido do cientista. Se for o segundo, trata-se mesmo de política.

Há poucos anos (anos 60), numa tarde imprecisa, um desconhecido aproximou-se das margens do Lago Vitória, na Tanzânia com um balde nas mãos. Dentro havia um peixe, que ele logo depositou nas águas verdes da nascente do Nilo. Hoje se sabe que se tratava de um experimento de cientistas europeus.

Em poucos anos, o peixe, que ninguém sabe de onde veio, devorou todas as espécies que viviam no Vitória, o maior lago de água doce do mundo.

O impacto ecológico, que, aliás, demonstra para além de toda a dúvida que não é o mais apto que prevalece, mas o mais forte, já que todas as outras espécies de peixes endêmicas do Vitória haviam cumprido todos os protocolos da adaptabilidade que um único predador fez ir pelos ares em menos de vinte anos, como dizia, o impacto foi muito maior e extravasou as águas do Vitória.

O tal peixe, que ficou conhecido como Perca do Nilo, além de enorme e voraz, sua carne branca passou a ser apreciada por toda a Europa. Uma fábrica, então, foi instalada nas margens do lago para processar os filés da Perca do Nilo e, com isso, toda a lógica dos povos ribeirinhos foi alterada profundamente.

Passavam a ser empregados da fábrica e, seja pela técnica ou pela vigilância, eram proibidos de pescar o peixe e, devido ao alto valor, proibidos de comprá-lo. Restava a essas populações o trabalho na fábrica e na pesca e, com o dinheiro, a aquisição de comida.

Em poucos anos, um fluxo de aeronaves, principalmente russas, começou a pousar em Kwansa, em busca de cada vez maiores quantidades dos filés embalados da Perca do Nilo.

Enquanto isso, a população passou a enfrentar um ciclo de fome, já que seu meio de sobrevivência e seu modo tradicional de vida haviam sido erradicados. Para que os aviões não retornassem da Europa vazios, começaram a trazer armas, que eram vendidas ao Congo, a Ruanda, ao Burundi e aonde quer que hajam africanos interessados em matar outros africanos.

Numa frase assustadoramente cruel, o ex-professor Mkono, que agora é chefe de um acampamento de pescadores numa das ilhas-colônias de trabalho do Vitória que abriga prostitutas e aidéticos, ele conclui, com uma sabedoria misturada, diante de um lençol preso a uma das cabanas com a inscrição “ser pobre é ser velho”:

A pobreza é um círculo vicioso. Se você nascer de pais pobres, seu filho e filha serão pobres. A maioria das mulheres que vivem aqui são prostitutas, mas a culpa não é delas. São obrigadas. A situação as leva a isso. Deus, infelizmente, criou o mundo com recursos naturais limitados. Os homens brigam por esses recursos naturais. Antes, se lutava pela terra da África. Agora, a luta é pelos recursos naturais do mundo. Quem ganha e quem perde? É a lei da selva. Animais fortes e resistentes têm mais chances de sobreviver. Quando dizemos “o mais forte”, acho que primeiro vemos os europeus como os mais fortes que os outros. Porque o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Comércio Mundial são deles .

A perversa relação da Perca do Nilo em sua ação predadora no lago e a fábrica que o processa e que reduz à miséria e à morte pela fome ou por armas a população de parte da Tanzânia é um grito mais que eloqüente que Darwin, queiram ou não, inspirou a mais perversa metodologia da dominação eurocêntrica.

O terceiro demiurgo aparece já ao final do século. Sigmund Freud propõe uma revolução: o indivíduo agora capacitado a compreender suas forças internas emerge como um dragão das sombrias moradas da alma. Sobre Darwin, afirmou Freud: “ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua auto-estima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal” .

Sigmund Freud nasceu em Freiberg, Moravia, Áustria, hoje Pribor, Tchecoslováquia, em 1856 e morreu em Londres em 1939. Foi o criador (ou o pai, como se quer) da psicanálise e se notabilizou primeiramente pelo estudo da histeria, lecionando em Viena em 1883 e clinicando na mesma cidade pela mesma época.

Seu livro A Interpretação dos Sonhos será obra fundamental para entendermos o trânsito epocal por que passou a sociedade européia no curto espaço que representou o século XIX.

A luta intensa que travou acabaria por autenticar as fases infantis, necessárias à intromissão da criança no cenário do domínio e, por outro, a buscar no interior da mente o território extraditado que fez do homem um animal de terror. A educação será elemento angular sobre o qual se assenta o determinismo psíquico.

O ponto que acredito o mais importante na obra de Freud e que aqui será evidenciado refere-se à compreensão do pisquismo humano em sua relação muito próxima com a religião, que ele considerava desnecessária ao homem mentalmente sadio, não passando de uma “neurose obsessiva e universal da humanidade”.

Obras como Futuro de uma Ilusão, de 1928 ou Totem e Tabu de 1912 ou Mais além do princípio do prazer, de 1920, ou Moises e o Monoteísmo, de 1939 são um referendo crítico entre as doutrinas cristãs e as práticas mágicas, o que reforça uma evocação e uma permanência muito mais antiga do que podemos supor:

Houve épocas, entre os séculos XVI e XVII, em que a Alquimia teve uma maior difusão. Isto foi devido, principalmente, ao advento da imprensa. Numerosas obras, sobretudo coleções de antigos tratados alquímicos, foram postas à disposição daqueles que quisessem e pudessem lê-las, em lugares onde o braço da Igreja não tivesse muita força ou não conseguisse alcançá-las. Livros, como os editados por Janus Lacinius, Pretiosa Margarita Novella, utilizando o título do trabalho de Petro Bônus (um alquimista de inícios do século XIV), que forma parte desta coleção de obras alquímicas, foi publicado, em 1546, numa Veneza liberada de há muito pela força de seu comércio com o exterior. Existem coleções de trabalhos alquímicos como Teatrum Chemicum Britannicum, publicado por Elias Ashmole, em 1652, numa Inglaterra fervorosamente anticatólica .

É dessa alma inflada de saber que Freud é porta voz, aí reside sua verdadeira revolução: na cobiça de resgatar do interior misterioso do homem aquilo que o poder lhe havia materialmente roubado. Embora todo esse referencial possa ter sido arrazoado muito mais de modo inconsciente do que pela intervenção pura e simples da razão.

Nesse sentido, a própria etimologia da palavra psicologia é uma pista incomum:

Psicologia é um termo grego misto forjado muito depois da antiguidade, sugerido pelo alemão Melanchthon (1497-1560) e depois difundido nos meios escolásticos por bom pedaço do século 16. É composto, de cara, por psyché (“alma”, diz Antenor Nascente; “alento”, “sopro de vida”, completa Antonio Geraldo da Cunha, em seus respectivos dicionários etimológicos). E contém logos (tratado) e o sufixo ia. Quando os acadêmicos medievais pensavam em “psicologia”, tinham em mente um tipo de ênfase “espiritual” do termo. Muito diferente da palavra “psicologia” ressuscitada em 1844, desta vez com o sentido de “ciência da natureza, funções e fenômenos da alma ou da mente humanas”, para usar as palavras de Antonio Geraldo da Cunha. A reciclagem nomeou todo um campo de estudo, que só aos poucos amadureceu como ramo de atividade intelectual e mercado autônomo (“psicológico” só surgiria meio século depois, em 1899). Dali em diante, as palavras compostas com psyché estabeleceram suas raízes no comportamento humano. “Psicanálise” já nasceu sob a forma psychoanalyse (1920) e psychanalyse (1932), por via alemã, psychoanalyse. Afinal, nomeou o método de Sigmund Freud para o tratamento de dissonâncias mentais e emocionais. .

Não deixa de ser significativo, portanto, que num texto de Freud publicado em 1913 ele tenha afirmado o papel da linguagem como uma mediação de múltiplas temporalidades:

Estarei sem dúvida infringindo o uso lingüístico comum ao postular um interesse na psicanálise por parte dos filólogos, isto é, dos peritos na fala, porque, no que se segue, a expressão ‘fala’ deve ser entendida não apenas como significando a expressão do pensamente por palavras, mas incluindo a linguagem dos gestos e todos os outros métodos, como por exemplo a escrita, através dos quais a atividade mental pode ser expressa. Assim sendo, pode-se salientar que as interpretações feitas por psicanalistas são, antes de tudo, traduções de um método estranho de expressão para outro que nos é familiar. Quando interpretamos um sonho, estamos apenas traduzindo um determinado conteúdo de pensamentos (os pensamentos oníricos latentes) da ‘linguagem dos sonhos’ para a nossa fala da vigília. À medida que fazemos isso, aprendemos as peculiaridades dessa linguagem onírica e nos convencemos de que ela faz parte de um sistema altamente arcaico de expressão. Assim, para dar um exemplo, não existe uma indicação especial para o negativo na linguagem dos sonhos. Os contrários podem se representar uns aos outros no conteúdo do sonho e serem representados pelo mesmo elemento. Ou, noutras palavras: na linguagem onírica, os conceitos são ainda ambivalentes e unem dentro de si significados contrários – como é o caso, de acordo com as hipóteses dos filólogos, das mais antigas raízes das línguas históricas. Outra característica notável de nossa linguagem onírica é seu emprego extremamente freqüente de símbolos, o que nos possibilita, até certo ponto, traduzir o conteúdo dos sonhos sem referência às associações de quem sonhou. Nossas pesquisas ainda não elucidaram suficientemente a natureza essencial desses símbolos. São em parte analogias e sucedâneos baseados em semelhanças óbvias; mas, em alguns deles, o tertium comparationis presumivelmente presente foge ao nosso entendimento consciente. É precisamente essa ultima classe de símbolos que deve provavelmente originar-se das primeiras fases de evolução lingüística e construção conceitual. Nos sonhos, são acima de tudo os órgãos e as atividades sexuais que são apresentados simbolicamente, em vez de sê-lo de modo direto. Um filólogo de Upsala, Hans Sperber, apenas recentemente (1912) tentou provar que as palavras que originalmente representavam atividades sexuais sofreram, com base em analogias dessa espécie, uma modificação de grandes e extraordinárias conseqüências em seu significado. Se pensarmos que os meios de representação nos sonhos são principalmente imagens visuais e não palavras, veremos que é mais apropriado comparar os sonhos a um sistema de escrita do que a uma linguagem. Na realidade, a interpretação dos sonhos é totalmente análoga ao deciframento de uma antiga escrita pictográfica, como os hieróglifos egípcios. Em ambos os casos, há certos elementos que não se destinam a ser interpretados (ou lidos, segundo for o caso), mas têm por intenção servir de ‘determinativos’, ou seja, estabelecer o significado de algum outro elemento. A ambigüidade dos diversos elementos dos sonhos encontra paralelo nesses antigos sistemas de escrita, bem como a omissão de várias relações, que em ambos os casos tem de ser suprida pelo contexto. Se essa percepção do método de representação nos sonhos ainda não foi levada avante, isso, como facilmente se compreenderá, deve ser atribuído ao fato de os psicanalistas ignorarem completamente a atitude e o conhecimento com que um filólogo abordaria um problema como o apresentado pelos sonhos. A linguagem dos sonhos pode ser encarada como um método pelo qual a atividade mental inconscientemente se expressa. Mas o inconsciente fala mais de um dialeto. De acordo com as diferentes condições psicológicas que orientam e distinguem as diversas formas de neurose, encontramos codificações regulares na maneira pela qual os impulsos mentais inconscientes se expressam. Enquanto a linguagem de gestos da histeria concorda, em geral, com a representação pictórica dos sonhos e das visões, a linguagem do pensamento das neuroses obsessivas e das parafrenias (demência precoce e paranóia) apresenta peculiaridades idiomáticas especiais, que, num certo número de casos, fomos capazes de compreender e inter-relacionar. Por exemplo, o que um histérico expressa através de vômitos, um obsessivo expressará por meio de penosas medidas de proteção contra infecções, enquanto um parafrênico será levado a queixas ou suspeitas de estar sendo envenenado. Todas essas são representações diferentes do desejo de engravidar do paciente que foi reprimido para o inconsciente, ou de sua reação defensiva contra esse desejo .

Esse verdadeiro tubo epocal que o sonho encerra liga o homem à sua irrecusável ancestralidade rompendo, ou violando, a montanha em que se transformara o século XIX.

Num conto popular conhecido, era ignorante quem não conseguisse enxergar a roupa nova do rei: o pensamento é, também ele, um território. Sobretudo, esse território é um intermezzo, pois com Freud estamos bem diante da mágica e da física quântica: quem afirmará a diferença?

A racionalidade imperativa que ordena o contingente, o necessário e o possível depende de uma convicção ontológica cuja energia tem sido suficiente para mover a realidade. O sonho, contudo, é sua recusa de arrasto, seu postulado de equilíbrio.

Serão os homens, irrequietos, a tramarem caminhos ou volições, com suas consciências ou, como no caso do acaso despertado por uma nova ação, inconsciências?

Falando sobre Jung, um dos amigos/inimigos de Freud, Jolande Jacobi, psicoterapeuta, pedagoga e escritora húngara declara:

Em uma teoria cujo fundamento é a experiência, não pode haver término nem interrupção. Assim na psicologia de Jung tudo se acha em movimento e é modificável; somente são dados os pontos de vista e rasgos mais importantes. Somente os rasgos fundamentais são fixos e imodificáveis. O restante, sem dúvida, não é mais que a própria psique, ligada e subordinada ao princípio de Heráclito do “tudo passa”. Inovações, modificações, desenvolvimento, complementos, mudanças, explicações, inclusive transtornos, correspondem, como é lógico e essencial, ao seu séqüito, porque a psique pode produzir constantemente novas flores, oferece uma e outra vez novos e inesperados aspectos, obriga o nosso entendimento a tomar posições exatas e impõe a nosso espírito a admiração. O não dogmático da ideologia de Jung impede que a teoria se converta em um sistema cerrado e permite um constante e decisivo desenvolvimento e uma diferenciação progressiva. A psicologia de Jung ensina o indivíduo a descer conscientemente às profundidades da própria alma, a reconhecer os conteúdos dela e integrá-los na consciência. No campo das manifestações parapsicológicas demonstrou um especial interesse, com originais investigações que lhe permitiram o estabelecimento de pontos de vista e princípios explicativos, totalmente novos. Os trabalhos de Jung despertam um interesse cada vez maior, inclusive em esferas científicas que em princípio, parecem achar-se muito afastadas da psicologia .

Opõe-se sobretudo àquela espécie de racionalidade que recusa o mistério dinâmico de phaestos, tanto quanto recusa as entidades tão pouco inerciais da “natureza”. Pois o medo anula a razão.

Outro de seus comentadores reconhece:

O pensamento de Jung coloriu o mundo da psicologia moderna muito mais intensamente do que percebem aqueles que possuem apenas conhecimentos superficiais da matéria. Termos como, por exemplo, ‘extrovertido’, ‘introvertido’ e ‘arquétipo’ são todos conceitos seus que outros tomam de empréstimo e muitas vezes empregam mal. Mas a sua mais notável contribuição ao conhecimento psicológico é o conceito de inconsciente – não (à maneira de Freud) como uma espécie de ‘quarto de despejos’ dos desejos reprimidos, mas como um mundo que é parte tão vital e real da vida de um indivíduo quanto o é o mundo consciente e ‘meditador’ do ego. E infinitamente mais amplo e mais rico. A linguagem e as ‘pessoas’ do inconsciente são os símbolos, e os meios de comunicação com este mundo são os sonhos .

Penso que estamos diante do incomensurável destino que forçosamente nos remete novamente à nossa ancestralidade comum, nessa espécie de sala de estar fora do tempo, cujos amigos são druidas, xamãs e pitonisas cor de abacate.

E essa contraposição elimina todo um universo de sensibilidades alternativas, até certo ponto epignatio. Afinal, quem separou esses dois supostos universos e impôs a certeza esperta ao mitificar o irracional? Os gregos? Os iluministas?

Nessa cisão se baseia toda prerrogativa da filosofia clássica. Hegel e Goethe haveriam mesmo de tentar restabelecer, ainda que timidamente, os fios xamânicos que caracterizavam a anima, o yin, o yang? Ou teria sido Willian Blake? Ou Leibiniz, com suas mônadas? Ou Espinosa, com sua ética monstruosa?

Raul Seixas dizia que “enquanto Freud explica a coisa, o diabo fica dando uns toques”; nada mais correto de se afirmar.

Desde os mitigadores de almas que o século XX viu emergir da confusão dos tiltes e curtocircuítos convergentes no grande parto do século anterior, os dadaístas, os surrealistas, os outros todos que produziram coisas como essa:

CACHIMBO.jpg

Primeira versão, a de 1926, eu creio: um cachimbo desenhado com cuidado e, em cima (escrita a mão, com uma caligrafia regular, caprichada, artificial, caligrafia de convento, como é possível encontrar servindo de modelo no alto dos cadernos escolares, ou num quadro-negro, depois de uma lição de coisas), esta menção: “Isto não é um cachimbo”. A outra versão – suponho que a última –, pode-se encontrá-la na Alvorada nos antípodas. Mesmo cachimbo, mesmo enunciado, mesma caligrafia. Mas em vez de se encontrarem justapostos num espaço indiferente, sem limite nem especificação, o texto e a figura estão colocados no interior de uma moldura; ela própria está pousada sobre um cavalete, e este, por sua vez, sobre as tábuas bem visíveis do assoalho. Em cima, um cachimbo exatamente igual ao que se encontra desenhado no quadro, mas muito maior .

A metáfora no qual essa junção se realiza pode ser exatamente a linguagem, essa infensa capacidade humana de subverter qualquer lógica, qualquer racionalidade, uroboru que presentifica nossa úmida ancestralidade, nosso reencontro com a matriz/geratriz de nosso medo.

Afinal, somente o medo é mitigador da racionalidade. E o medo é o território de phaestos, que encanta o numen, que faz falar as florestas, que metaboliza a des-ordem e mimetiza o conhecido. Mefistófeles há de lembrar Fausto: “embora igual a Deus, hás de sentir temor!”. As forças devastadoras do medo não serão jamais domadas por qualquer axiologia. São irrupções voláteis que podem consumir os oceanos da prudência.

Ali, em seu território espectral, os homens se ligam como fenômenos elétricos às raízes primais de sua descompostura: encontram-se com os mistérios da sobre-natureza, jamais da metafísica.

O sobrenatural, que se atinge pela linguagem cifrada do medo e do desejo, mas também por algumas drogas, dialoga com o mundo, constantemente. Num fluxo, numa corrente de jato que circula pelo planeta, arrastando sonhos, loucuras e mitos de uma diversidade absurda de sujeitos, embaralhando suas locuções até a entonação de uma língua universal, cuja retribuição serão janelas, reflexos distorcidos, relances da franja, cujos vestígios serão ou não materializáveis pelos sujeitos tocados: depende exclusivamente de sua atenção, de sua conexão à instância dialógica, de seu peculiar canal comunicativo, portanto.

Nesse sentido, não é fortuna nem destino: talvez seja oportunismo ou aceitação dos ecos de nossa ancestralidade comum, algo mediúnica, que anseia pelos registros, pela existência.

O homem, mas o homo faber de nosso tempo, sempre necessitou distanciar-se do homo ludens e, antes deste, do homo sacer, esse metamorfo sobre o qual acordamos encharcados ao encontrá-lo nos sonhos. A sisudez de suas feições seria incompatível com a dança de Shiva, com os Pucks da sobre-natureza, mas Goethe tinha um jeito todo especial de nos lembrar deste espectro: “no ar paira uma poeira dourada”. Esse portal cujo acesso se dá pelos sonhos de uma noite de verão está pautado numa equação ainda preciosa. A magia e o encantamento que transportam os homens a dimensões inimagináveis é ainda a resistência possível de uma escolha, que torna livres os sonhadores pela enorme potencialidade de seus desejos.

O único desejo que se está preparando para a solvência da equação e a posterior erradicação desse portal que será em breve transformado definitivamente em doença, enquanto aos psicólogos está reservado o triste papel de terapeutas, esse desejo, eu dizia, é o desejo de consumo.

Hoje, quando podemos acessar via internet um “movimento pela extinção voluntária da raça humana”, nos vemos na obrigação de resgatar os liames da separação que se operou com esta forma peculiar de racionalidade, na esperança de que juntos novamente, homem e natureza possam salvaguardar as abissais dimensões de nossa consciência.

Foi suficiente ao desenho mais correto uma inscrição como “isto não é um cachimbo”, para que logo a figura esteja obrigada a sair de si própria, longe ou perto de si mesma, não se sabe, semelhante ou diferente de si. No oposto de Isto não é um cachimbo, A arte da conversa: numa paisagem de começo do mundo ou de gigantomaquia, dois personagens minúsculos estão falando: discurso inaudível, murmúrio que é logo retomado no silencia das pedras, no silencia dessa parede em desaprumo que domina, com seus blocos enormes, os dois tagarelas mudos; ora, esses blocos, amontoados em desordem uns sobre os outros, formam, em sua base, um conjunto de letras onde é fácil decifrar a palavra: RÉVE – sonho (que é possível, olhando um pouco melhor, completar com TRÉVE – trégua – ou CRÉVE – morte, ou morra, arrebente), como se todas essas palavras frágeis e sem peso tivessem recebido o poder de organizar o caos das pedras. Ou como se, ao contrário, por trás da tagarelice despertada mas logo perdida dos homens, as coisas pudessem, em seu mutismo e em seu sono, compor uma palavra – uma palavra estável que nada poderá apagar; ora, essa palavra designa a mais fugidia das imagens. Mas não é tudo: pois é no sonho que os homens, enfim reduzidos ao silêncio, comunicam com a significação das coisas, e se deixam impressionar por essas palavras enigmáticas, insistentes, que vêm de outro lugar. Isto não é um cachimbo, era a incisão do discurso na forma das coisas, era seu poder ambíguo de negar e de desdobrar: A arte da conversa é a gravitação autônoma das coisas que formam suas próprias palavras na indiferença dos homens, impondo-a a eles, sem mesmo que eles o saibam, em sua tagarelice cotidiana .

Em parte, esse resgate do silêncio ancestral, ou das palavras e das coisas que, inanimadas, dialogam na vasta temporalidade própria que as caracterizam, pode ser divisado a partir tanto das dimensões inusitadas abertas pela física quântica quanto pelos vastos conceitos transitórios apresentados pelas teorias holísticas.

Termos como “o número quântico de estranheza”, “luz interdita”, “algures absoluto”, embora façam parte do léxico da física quântica, só podem ser entendidos, realmente, a partir da magia .

Wormholes é um desse conceito que a ficção científica apreendeu diretamente das derivações do anacronismo e da magia. “Buraco de vermes” significa que existem vazamentos no tecido espaço-temporal que permitem, em última instância, viagens conectivas com outros tempos, outros espaços. Assim, os homens poderão “ver com seus próprios olhos” como foi o passado .

Elaborados a partir da teoria da relatividade geral de Einstein, sua formulação é somenos importante para as finalidades de nossa argumentação do que os paradoxos que incidem num horizonte de possibilidades de uma máquina que viabilize viagens no espaço-tempo.

As curvas temporais fechadas violam, aparentemente, a causalidade, originando paradoxos associados às viagens no tempo e lançando um véu sobre nossa compreensão da natureza do tempo. (...) A opinião generalizada é a de invocar as conseqüências estranhas dos paradoxos para negar a possibilidade de viajar no tempo, tal como outrora os paradoxos de Zenão foram utilizados para provar a impossibilidade do movimento .

Tais paradoxos são de duas ordens distintas: os chamados “paradoxos do avô” e os “loops” causais.

O primeiro refere-se a uma limitação peculiar da dinâmica anacrônica, que consiste em delimitar-se no “espelho” geracional que, em última instância, elimina o viajante:

Imagine-se um viajante a regressar ao passado e a encontrar o seu avô. Alimentando tendências homicidas, o viajante no tempo assassina o avô, impedindo o nascimento do pai e, dessa forma, tornando o seu próprio nascimento impossível .

O impacto desse tipo de paradoxo prefigura movimentos cíclicos no tempo, tipo uroboru e que circunda trajetórias para além das configurações randômicas. Já o segundo tipo de paradoxo é menos determinista, embora apresente-se como caprichosamente místico:

Imagine-se um viajante que é lançado para o futuro. Este regressa com um manual que contém os planos de construção de uma máquina avançada. A máquina existe no futuro porque foi construída pelo viajante no passado. A sua construção foi possível no passado porque o viajante regressou com o manual do futuro. Ambas as partes consideradas em si mesmas são consistentes e o paradoxo só surge quando analisado como um todo. Perguntar-se-ia qual é a origem da máquina, pois aparentemente surge do nada. Há um manual incriado e, não obstante, existente no espaço-tempo, embora não se verifiquem violações de causalidade .

A causalidade inerente a esses sistemas convida a uma reflexão importante. Se do ponto de vista técnico ou teórico tais saltos são potencialmente viáveis, os wormholes extrapolam a mera conjectura acadêmica para inserir conceitos relativos tanto à cronologia quanto à curvatura (ou linearidade) dos fluxos de temporalidades que historicamente só podem ser entendidas como um lusco-fusco crepuscular.

Se medimos uma dessas diretrizes, um desses fluxos, lhes damos destaque e visibilidade e, contudo, não podemos ignorar a vasta rede, interconectada ou não, que o tangencia, que o secciona, que o encobre, que o danifica, então resta uma pergunta: qualquer medição será irrisória pois desconsidera toda e qualquer densidade de interconexões que validaria suas características contingentes. O que resta é uma parcialidade insustentável sob quaisquer pontos de vista. Resta a política.

Já que a temporalidade é em si evento, portanto fenomenológica, as disposições analíticas concernentes evocam, para além do paradoxo, ou da dialética, metodologias depurativas que, de um lado, absorvam o observador como se fosse o próprio viajante, despojado tanto das crenças iluministas quanto do niilismo que torna cético o olho do aprendiz.

Daí que, a despeito de tais paradoxos, uma vergência que possibilite a migração do observador, agora vestido com as trágicas couraças dos personagens, para o pátio dos eventos no tempo, é relativamente inútil do ponto de vista da superação e das implicações do anacronismo.

Imerso em outra temporalidade, marcado a ferro por experiências sensoriais distintas, o viajante não vê, obviamente, qualquer coisa, assim como não cheira qualquer coisa, mas aquilo que identifica olfativamente, disparando memórias e reminiscências cuja singularidade remetam a seu próprio tempo. O estranhamento a que é submetido deve impor-se como obstáculo irremovível diante da conexão possível. Possibilidade esta que se dá exclusivamente no plano das vicissitudes ordinárias e de suas próprias idiossincrasias .

Se, porventura, existe relato dessa experiência, será tão comprometido quanto as narrativas costuradas por documentação e imaginação.

De forma menos controversa, as teorias holísticas extrapolam conceituações restritas e abarcam um sem número de pequenas extravagâncias que todos nós podemos empaticamente abraçar.

Mais do que teoria, o pensamento holístico apresenta um receituário tão atrativo quanto complexo para o historiador. De base igualmente quântica e com forte influência de Fritjoi Capra, o pensamento holístico sugere a interconexão como regra para a complexidade.

Multidimensionalidade como potência e interconectividade como rede garantem que a teoria de Gaia estabeleça sua própria geografia planetária. Contudo, a história a que devemos nos ligar exige algumas providências e adequações. Devemos nos afastar da totalidade assombrosa do aleph para uma rede de empatias significantes, mas também de antipatias, de simpatias, de patologias cujo embrião seja não mais o sujeito, limitado por seu egoísmo ou por sua solidariedade, mas para o sujeito ampliado da experiência comunitária, da família extensa e das diversas tribos a que este novo ser possa dever (ou querer) comprometer-se.

Portanto, essa historia holística somente pode ser tramada no plano dialógico das alegorias coletivas, das complexas metáforas de uma outra língua, ou melhor, de uma outra linguagem que, ao contrário do que Barthes aponta em “a aula”, não seja fascista e nem nos obrigue a dizer.

Sua nomenclatura ainda está por fazer-se ou já está bastante avançada nos guetos invisíveis (e imprevisíveis) da pós-modernidade. Sua enunciação prescinde de regras ou fórmulas e se reconfigura a todo instante, mutação prematura e geriátrica, morte e renascimento. Seus registros são tanto os muros hieráticos das megalópoles quanto as redes voláteis dos sistemas informacionais anônimos.

Seu método é a meme. Essa bolha cultural que explode em mil pedaços a todo instante e contamina desde um habitante severo das megacorporações transnacionais quanto um desavisado morador de ponte, sobre quem relampejam suas gotas fragmentárias, seja na forma de uma sonoridade extraditada ou de uma filipeta cujo adereço lhe sirva de cobertor numa noite fria.

A metodologia da meme é a superação da causalidade quântica para o multiverso referente do acaso. Já que é irrelevante o que ela une, resta às tribos súbitas que daí se originam, forçosamente ou não, viver a experiência sem expectativa, sem vontade e sem determinismos, sem certezas e sem previsibilidades.

Essa história, contudo, não se dá a ver. Submetida à ousadia do sujeito, ela ressente-se das materializáveis e nem sempre justas composições privadas, das intertextualidades cujo proselitismo por vezes limita sua vastidão em nome de um edulcorado simulacro, das mesquinhas composturas das autoridades que fazem da autoria autoritarismos.

No fundo, essa história, tanto quanto a generosa contrição de Gaia, não pode opor-se, no registro, às demiúrgicas influências dos senhores da unidimensionalidade: os deuses das devastações transitivas, os tautológicos ferramenteiros do século XIX que instrumentalizaram o futuro com uma carapaça de cristal e obsidiana.

Quanto à questão da história, aqui apenas entrevista, sua vinculação com o nacionalismo, essa junção do liberalismo, do marxismo, do darwinismo e do freudismo (sic), não pode ser negligenciada. Em sua gênese, o nacionalismo foi uma reação a qualquer tipo de sublevação que o espírito da Revolução Francesa detonou. Vejamos alguns exemplos em que as datas são importantes para o desdobramento do conceito e sua materialidade no real.

Todo povo tem sua missão especial que ajudará no cumprimento da missão geral da humanidade. Esta missão constitui a sua nacionalidade. A nacionalidade é sagrada. (Ato de fraternidade da jovem Europa, 1834. In. Hobsbawn, E. A era das revoluções. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981, p.151)

No trecho seguinte fica evidente a intolerância que nos primórdios receberam os “povos”:

Chegará o dia em que a sublime Germânia estará no pedestal de bronze da liberdade e da justiça, segurando em uma das mãos a tocha do esclarecimento, que lançará a luz da civilização aos mais remotos cantos da terra, e na outra a balança da justiça. Os povos lhe pedirão que julgue as suas disputas, estes mesmos povos que agora nos mostram que o poder é o direito e nos chutam com a botina do escárnio e do desprezo. (Discurso de Siebenpfeiffer no Festival de Hambach, 1832. In Hobsbawn. Idem, ibdem).


A história está irremediavelmente atrelada ao propósito político da dominação e essa dominação tem nos nacionalismos entretecidos com o progresso sua ênfase maior.

Historiadores do porte de Hobsbawn não deixam, no fim da vida, de reconhecer o verdadeiro papel do historiador. Ele é, ao mesmo tempo, um servo utilitário do poder e um de seus porta-vozes travestidos com as roupas da ciência.

Por isso, a história não poderia estar isenta de um movimento coordenado para a forja da nação. Marc Bloch escrevera em A apologia da história:

Ora, do mesmo modo que indivíduos, existiram épocas mitômanas. Tais como, por volta do final do século XVIII e inícios do XIX, as gerações pré-românticas e românticas. Poemas [pseudo celtas] atribuídos a Ossian; [epopéias, baladas que Chatterton imaginou escrever em inglês arcaico]; poesias pretensamente medievais de Clotilde de Surville; cantos bretões imaginados por Villemarqué; cantos supostamente traduzidos do croata por Mérimée; cantos heróicos tchecos de Kravoli-Dvor – e assim por diante: é de uma extremidade a outra da Europa, durante essas décadas, como uma vasta sinfonia de fraudes .

Por isso, talvez, o livro mais adequado para entendermos esse momento seja mesmo O Despertar dos Mágicos , que fez sucesso nos anos 1960 e 1970. Quero lhe fazer a crítica, agora.

Serei breve e, muito possivelmente, incapaz de traduzir assim a mensagem da obra, mas quero apontar minha grande e única objeção ao raciocínio ali impresso:

Se alguns dos profundos conhecimentos sobre a matéria e a energia, sobre as leis que regem o Universo, foram elaborados por civilizações atualmente desaparecidas, e se se conservaram através dos séculos, fragmentos desses conhecimentos (do que aliás não estamos certos), não pode ter sido senão por espíritos superiores e numa linguagem forçosamente incompreensível para o vulgo. Mas, caso não queiramos aceitar esta hipótese, podemos pelo menos imaginar, no decorrer dos tempos, uma sucessão de espíritos fora do comum, comunicando-se entre si. Tais espíritos sabem evidentemente que não têm o menor interesse em fazer alarde do seu poder. Se Cristóvão Colombo fosse um espírito fora do comum, teria mantido secreta a sua descoberta. Obrigados a uma espécie de clandestinidade, esses homens somente com os seus semelhantes podem manter contatos satisfatórios. Basta pensar na conversa dos médicos em redor do leito de um enfermo no hospital, conversa em voz alta e da qual no entanto o paciente nada entende, para compreender o que pretendemos dizer sem baralhar idéias na obscuridade do ocultismo, da iniciação, etc. É bem visível que espíritos desta natureza, empenhados em passar despercebidos simplesmente para não sofrerem entraves, teriam mais que fazer do que brincar entre si de conspiradores. Se eles formam uma sociedade, é pela força das circunstancias. Se têm uma linguagem especial, é porque as noções gerais que essa linguagem exprime são inacessíveis ao espírito humano vulgar. É exclusivamente neste sentido que aceitamos uma idéia de sociedade secreta. As outras sociedades secretas, aquelas que são localizadas, que são inúmeras e mais ou menos poderosas e “pitorescas”, para nós não passam de imitações, de brincadeiras de crianças que pretendem copiar os adultos .

Segundo seu raciocínio, o modelo de cientista do século XIX estaria sendo superado por uma nova espécie, que manuseia o conhecimento para o salto quântico da humanidade, imbuídos de um senso moral que os afastariam das ambiciosas mãos dos militares, responsáveis, estes sim, pela corrupção da ciência degenarada que o século XIX representou.

A linhagem hierárquica que coloca o conhecimento na parte superior do edifício contemporâneo nasceu no século XIX e parece compor a série de argumentos dos autores igualmente para o século seguinte. Daí termos como senso comum, vulgo e outras corruptelas que nenhum argumento sustenta. Esses seres superiores que desejam fazer evoluir a humanidade tem o mapa e sabem a direção que nós, humanos inferiores, desconhecemos. Eis a permanência. O conhecimento é a hierarquia e dele emana o poder. Pouco importa que alguns acreditem que o poder pode ser utilizado para o bem comum.

Importa que no século XIX convergiram para um mesmo ponto um vulcão de delicadezas, um tonel de cachaça e mil peças de ouro cuja trama parece ter obliterado definitivamente nossa compreensão de que antes desse século houvera vida diversa e casual. O recurso do sonho nada mais é do que uma espécie de presépio, cuja passagem não erradica absolutamente os malefícios do poder hierárquico.

Diante da muralha do liberalismo erigiram-se três colossus cuja liga pode muito bem nos levar a equívocos. O primeiro galvanizou a idéia de revolução; o segundo, demarcou o ódio entre as pessoas e o terceiro cauterizou a demência como uma tatuagem no lóbulo frontal.

A herança dessa gênese foi um arcabouço de resiliência. O que dava ao homem a dignidade de um deus degenerara para o racismo; o que conferia ao homem o destino da justiça e da emancipação acabaria no limite da revolução imperfeita e ridícula, transformando o revolucionário num professor autoritário e medíocre; o que dava ao homem o domínio das abissais forças interiores acabaria num melancólico divã vermelho. Essa herança do século XIX pode ser sentida a cada instante de nosso presente: o racismo degenerou para o genoma, para a manipulação genética; a revolução para a democracia e as poliarquias e a psique para a violência das relações interpessoais. Basta lembrar que recentemente James D. Watson que recebeu o prêmio Nobel de medicina em 1962 por ter descrito a estrutura da molécula de DNA, passo fundamental para os estudos do genoma humano que hoje é tido como ponta de lança da ciência, é o mesmo que recentemente afirmou que os negros são mesmo inferiores.

Talvez por isso seu símbolo mais extravagante seja Jack, o Estripador. Segundo boatos nos anos 1970, seu aparecimento forçou as elites londrinas a formularem leis de proteção aos trabalhadores, já que o espetáculo que produziu deu a ver para todos pelos jornais as condições absurdas em que vivia o proletariado inglês. Peculiar também é a natureza de seus crimes: sempre mata dentro de seu grupo étnico, o que equivale a dizer que o nacionalismo estava entre suas preocupações. E por último, abriu as fronteiras para todos os serial killers que caracterizaram o século XX. A psique humana passaria a ser fonte intensificada de investigação, pois parecia que dali saía todo o mal.

Mais recente (1990), BTK, um assassino serial norte americano, cuja sigla significa ATE-OS, TORTURE-OS E MATE-OS, escreveu em seu diário: “eles me procuram, todos os dias, nos lugares mais improváveis, sem perceberem que não me encontram justamente porque sou um deles”. Era um líder comunitário, pai de família e esposo exemplar.

Será que posso divagar que o serial killer nasce com o nacionalismo, em que todas as diferenças passam a se equalizar, teoricamente, já que persistem e se amplificam as diferenças de domínio que, sobretudo em seu avançado estágio, não podem ser facilmente distinguidas. Assim, esse fenômeno ocorre quando matando um suposto igual (dentro de seu próprio grupo étnico, o que equivale a dizer grupo nacional), ele sustenta a diferença ou, melhor, a desigualdade já que para matar é preciso coisificar primeiro a vítima? Assim, ele reafirma não mais a diferença, mas a desigualdade, recusando a farsa da macrosolidariedade.

Em 1946, H.G.Wells desencantava-se: “o homem chegou ao termo das suas possibilidades”, enquanto Jung afirmava, meio vidente, meio delirante: “há coisas que ainda não são verdadeiras, que, talvez, não tenham o direito de ser verdadeiras, mas que o poderão ser amanhã”.

Já René Magritte um dia desabafou, acho que foi em 1961, ou talvez não, sei lá: “O famoso cachimbo...Como fui censurado por isso! E entretanto...Vocês podem encher de fumo, o meu cachimbo? Não, não é mesmo? Ela é apenas uma representação. Portanto, se eu tivesse escrito sob meu quadro: ‘isto é um cachimbo’, eu teria mentido”.

Eis porque afirmo que só existe uma ideologia: aquela que propõe que o conhecimento é a forma superior da percepção e que exprime: quem lê sabe mais, reduzindo o homo sapiens, o homem de saber, a um preconceito.

Manual de Contra-História na Antimodernidade
Apontamentos sobre a tradução iluminista do mito da caverna de Platão O demiurgico século XIX Collingwood e a invenção do anacronismo

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