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O Mistério da Fábrica

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Simone Weil


Rb-star.png   Este texto foi originalmente publicado por Biblioteca Virtual Revolucionária.


I - O mistério da máquina.

Guihéneuf: como o operário não estudou matemática, a máquina é um mistério para ele. Só vê nela um equilíbrio de forças. Então se sente inseguro na frente dela. Ex.: o torneador que, tateando, encontrou uma ferramenta que permitia cilindrar, ao mesmo tempo, o aço e o níquel, em vez de trocar de ferramenta para passar de um metal a outro. Para Guihéneuf trata-se simplesmente de um corte; entra nessa em cheio. O outro vai com um respeito supersticioso. O mesmo acontece com uma máquina que não dá certo. O operário vai ver que é preciso introduzir nela uma ou outra coisa... mas muitas vezes ele faz um conserto que, fazendo-a andar, condena-a a um gasto mais rápido ou a um novo enguiço. O engenheiro? - Nunca. Mesmo se ele não se serve nunca do cálculo diferencial, as fórmulas diferenciais aplicadas ao estudo da resistência dos materiais lhe dão uma idéia precisa de uma máquina enquanto jogo determinado de forças.

A prensa que não funcionava e Jacquot. É claro que para Jacquot essa prensa era um mistério, bem como a causa que a impedia de funcionar. Não tanto como fator desconhecido, mas em si mesma, de alguma forma. Ela não anda... Como se fosse uma recusa da máquina.

O que não entendo nas prensas: Jacquot e a prensa que dava 10 golpes seguidos.


II - O mistério da fabricação.

É claro, o operário ignora o uso de cada peça: 1) a maneira como se ajusta às outras; 2) a sucessão das operações por que passa.; 3) o uso final do conjunto.

Mas, tem mais: a relação de causas e efeitos no interior do próprio trabalho não é apreendida.

Não há nada de menos instrutivo que uma máquina...


III - O mistério do "jeito de mão".

Circuitos dos quais tive de tirar os cartões. No princípio não sabia separá-los com macetadas. Nessa altura fiz raciocínios sobre o princípio da alavanca, o que não me adiantou nada... Depois aprendi muito bem, mas sem nunca ter percebido nem como aprendi, nem como estou fazendo.

Principio essencial da habilidade manual do trabalho na máquina (e fora dela?) mal expresso. Que cada mão faça apenas uma operação simples. Ex. O trabalho sobre faixas metálicas: uma das mãos empurra, a outra apoiada na trave. Placas de metal: não segurar com a mão; deixar pousar sobre a mão, apoiar em direção à trave com o polegar. Fita de polimento: apoiar com uma das mãos, puxar com a outra, deixar a fita rodar a peça, etc.


Transformaçôes desejáveis.

Máquinas-ferramentas diversas lado a lado numa mesma seção. A montagem ao lado. A disposição da fábrica de forma que dê a cada trabalhador uma visão de conjunto (isso, evidentemente, supõe a supressão do sistema dos reguladores).

Especializações degradantes:

Do operário - da máquina - das partes de fábricas (dos engenheiros?)


Organização da fábrica.

Falta de tamboretes, de caixas, de latas de óleo.

Cronometragem fantasista. E são as tarefas miseravelmente pagas pelas quais a gente mais se cansa, porque todas as forças ficam tensas, até o extremo limite, para não pegar o "cartão amarelo". (Exemplo, convivência com Mimi, na terça da 7ª semana). A gente se esgota, se mata por 2 F. por hora. E não por estar realizando uma tarefa que requeira esse esgotamento; não, apenas por causa do capricho e da negligência do cronometrista. A gente se mata sem nenhum resultado, nem subjetivo (salário), nem objetivo (obra realizada), que corresponda ao sofrimento. Aí é que a gente se sente realmente escravo, humilhado até o mais íntimo de si mesmo.

Para cada tarefa há uma quantidade limitada - e fraca - de possíveis erros, suscetíveis, uns, de quebrar a ferramenta, outros, de matar a peça. No que diz respeito à ferramenta, só há mesmo alguns erros possíveis por categoria de tarefas. Seria fácil para os reguladores assinalar essas possibilidades às operárias para que elas tivessem alguma segurança.


(De La condition ouvrière)


Extraído da coletânea de textos de Simone Weil intitulada 'A Condição Operária e Outros Estudos sobre a Opressão', publicada pela editora Paz e Terra.

Tradução de Therezinha Langlada.



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