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O Homem Mono-Dimensional em um Mundo Tri-Dimensional

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Espere Resistência
CrimethInc


Porque abstrações e absolutos são um ataque à humanidade e a própria existência


"...Mas isso é uma falsa dicotomia, como toda dicotomia! Evidência circunstancial, como qualquer evidência!"
"Uma generalização grosseira, como toda generalização!"


"Uma mulher nunca será rica ou magra demais."


A anoréxica e o fisioculturista perseguem ideais que recuam à sua frente. Uma vez que você começa a se medir por um padrão mono-dimensional como força ou magreza, você nunca terá o suficiente: a meta está sempre à sua frente, por mais rápido que você a persiga. Estes ideais não podem ser alcançados neste mundo; se você seguí-los longe demais, eles te levam para fora dele, no abismo que é o seu verdadeiro lar ― como atestam os problemas cardíacos dos fisioculturistas e os suicídios dos astros de rock e dos sex symbols.


É verdade, Arnold Schwarzenegger, atrizes de Hollywood e outros como eles foram praticamente criados em granjas industriais pela nossa sociedade hiper-competitiva, mas o resto de nós está contaminado com os valores que os produziram ― só que somos a versão caipira do mesmo frango. Todas nossas formas de julgar e conceitualizar são comparativas: Sara é bonita, mas não tão bonita quanto Diana, que não é tão bonita quanto a garota da capa da revista; Jane é esperta, mas não tão esperta quanto o garoto que passou no vestibular da USP, que não é tão inteligente quanto Albert Einstein foi; servir comida de graça é revolucionário, mas não tão revolucionário quanto colocar fogo em delegacias de polícia. Nós somos pensadores mono-dimensionais, incapazes de vermos cada qualidade ou ação individual pelo que ela é, somente capazes de percebê-las pelo que elas são em comparação a outras ― a implicação disto é que há uma tabela de preços universal através da qual tudo pode ser comparado. Esta é uma forma de se conceber o mundo, sim, mas não é a única ― e normalmente não é a melhor também.


Este modo de pensar torna a vida um concurso no qual todos devemos lutar para nos distinguirmos ao achar pessoas inferiores; ele nos faz desconsiderar as qualidades únicas de cada evento e entidade para achar um lugar para elas numa medida universal de valores. Outro modo de enxergar revela que todo ser humano tem qualidades que nenhum outro tem, todo momento é único e não se repete, toda ação radical é importante para "a" revolução de formas insubstituíveis. Mas não temos uma linguagem que possa articular isto, nenhum meio de expressão que celebra através da descrição ao invés de pela comparação. Mesmo quando tentamos valorizar as coisas pelo que elas são, somos atraiçoados pelas suposições implícitas na nossa fala:


"Eu te amo," sussurra a garota.
"Você me ama acima de todos, acima de tudo?" pergunta o rapaz. "Eu te amo... de uma forma diferente, pelo que você é. Nem mais, nem menos ― não há comparação no amor, pois o amor valoriza o que é. Amor não é julgamento, não tem medidas, não tem comparação..." ela responde ― mas ele já foi embora.


De onde vem esta obsessão por padrões mono-dimensionais? Talvez tenha surgido da própria linguagem: quando uma palavra serve para representar muitas experiências individuais diferentes, já há abstração.* Quando nós dizemos "luz solar", estamos nos referindo a algo uniforme e imutável ― mas tudo que podemos dizer com certeza é que o termo se refere a uma grande variedade de dados sensoriais diversos e dados sensoriais potenciais.


Podemos argumentar que o que há de mais precioso na vida não são os menores denominadores comuns, mas aquelas coisas que só acontecem uma vez na vida, e que as palavras não estão equipadas para expressar. Qual é a utilidade de uma palavra que se refere a apenas um instante da experência de um indivíduo? Palavras servem como moeda exatamente porque são vagas e simplistas; nenhuma palavra ou conceito jamais conseguirá capturar a profundidade e a complexidade infinitas de um único instante da vida.


A civilização Ocidental é fundada sobre o pensamento mono-dimensional, monocultura, monogamia, monopólio, monotonia. Nossa visão ciclópica do cosmos pode ser traçada até a antiga Grécia, quando Platão levou a abstração inerente na linguagem um passo além. Ele declarou que nossas abstrações se referem a um "plano mais elevado" no qual abstrações como "justiça" existem na sua forma pura; ao fazer isso, ele virou tudo de cabeça para baixo, colocando nossas amplas generalizações acima das experiências que elas resumem e alegando que elas são mais verdadeiras que os materiais brutos que elas se propõem a representar. Logo ele colocou o ponto de referência dos nossos conceitos completamente fora do mundo, sugerindo que nossas experiências reais nele são menos importantes que nossas idéias a respeito. Paulo, o fundados do Cristianismo, expandiu essa filosofia e transformou-a em uma doutrina religiosa: o ideal existe no paraíso e a terra é apenas uma imitação falha e má.


Só as doutrinas não foram o suficiente para fazer as pessoas enxergarem tudo em termos de absolutos, é claro. Contra a sabedoria das experiências corpóreas, na qual as qualidades únicas de cada entidade e evento são vistas de perto, elas ficavam impotentes. Mas lentamente, se tornou possível até mesmo forçar o mundo das percepções sensoriais nos padrões arbitrários da abstração e do julgamento.


Isso começou com o desenvolvimento das finanças e do tempo subdividido. De repente, tudo tinha um valor de troca que podia ser determinado de acordo com um padrão externo, e da mesma forma o dia foi dividido em segmentos quantificados. Tempo e valor não podem ser verdadeiramente medidos ― a mulher que viveu de verdade sabe que nenhum cronômetro pode registrar o modo como tempo acelera quando ela está na cama com seu amante e como ele desacelera quando ela está trabalhando, ela sabe que as piores e as melhores coisas na vida não podem ser "merecidas", muito menos avaliadas ― mas o trabalho assalariado e a economia do comércio forçaram as pessoas a medi-las mesmo assim, e o habito se fez.


Logo tudo estava medido e calibrado: os tamanhos de roupas femininas, por exemplo. Até o fim do século dezenove, a roupa feminina era feita à mão para mulheres individuais, e uma mulher era vista como tendo qualidades pessoais distintas, não um "tamanho 36" ou "extra grande". Isto quer dizer que nas últimas décadas, a mulher ideal tem sido descrita numericamente ― "90-60-90" ― e qualquer uma que fuja desta forma platônica é considerada menos bonita. Toda manhã as mulheres se pesam e experimentam como qualquer balança é inadequada para medir a variada beleza dos seres humanos.


Só faltou o branding corporativo padronizar o mundo real de acordo com nossas abstrações. Em outros tempos, a maioria dos seres humanos retirava comida de jardins, ou da natureza; nesses dias toda fruta e vegetal aparentava e era único. Agora nossa comida é modificada geneticamente à uniformidade total, e cada item vem com um nome de marca identificando qual absoluto ele representa: a marca genérica dos supermercados é a forma Platônica das bananas inferiores, a banana com nome de marca é a perfeita encarnação da banana como abstração, e a banana arquétipo dos consumidores ricos, eco-elitistas vem rotulada "orgânica".


Aqueles que resistem a estas tentativas de achatar o mundo real no mundo conceitual freqüentemente caem nas mesmas práticas. O mundo da teoria política está cheio de abstrações e pensamento mono-dimensional ― as palavras que você está lendo neste instante, por exemplo.*** Muitos conseguem passar pela infância sem perder a habilidade de apreciar os detalhes insubstituíveis da vida, somente para sucumbir às doenças da generalização e da idealização quando eles começam a ler teorias e tentar formar uma análise do cosmos: suas impressões e emoções são convertidas em uma ideologia, e onde eles tinham suas lutas e objetivos que antes se referiam a pessoas reais, eles agora vêem pessoas apenas como peças de tabuleiro em um jogo de símbolos.


Não existem mais exemplos predominantes ou óbvios de arqúetipos vampirescos do que a masculinidade e a brancura. A sociedade patriarcal e da supremacia branca ainda recompensa certas características superficiais e modos de se comportar de algumas pessoas mais do que todos outros, apesar do fato de que as divisões de raça e gênero que supostamente compõem a justificativa para isto são cada vez mais vistos como construções arbitrárias ― o fato de serem construções simplesmente as torna ainda mais úteis para dividir e conquistar. Brancura não é apenas uma qualidade que alguns possuem e outros não, mas uma forma de comparar pessoas; a prova disto pode ser encontrada em nações onde ninguém é "branco" pelos padrões europeus, mas alguns grupos ainda assim se beneficiam do privilégio dos brancos em relação aos outros. Da mesma forma, o fato de que são todos homens não impede os jogadores de futebol de competirem uns contra os outros para serem os mais másculos ― pelo contrário! ― podemos encontrar pessoas fazendo o papel "do homem" mesmo em grupos exclusivamente femininos. Enquanto as normal culturais mono-dimensionais estiverem limitando e desumanizando, todos ― mesmo o mais branco dos brancos e o mais macho dos homens ― têm interesse em acabar com a supremacia branca e com o patriarcado, embora as pessoas vivenciem isto de formas diferentes de acordo com sua posição na hierarquia.


É só agora que consigo reconhecer a sua beleza e não negar nenhum aspecto da minha.


Basicamente, a busca por ideais que não podem ser alcançados neste mundo constitui uma rejeição do mundo e, logo, da própria vida ― como demonstra o triste estado dos fisioculturistas e das anoréxicas que levam essa busca ao seu extremo lógico, o túmulo. Estamos tão acostumados a denegrir este mundo, dizendo que é um lugar imperfeito, até mesmo intolerável. Assim ele parece, quando o comparamos com ideais que parecem perfeitos exatamente porque não podem existir; e assim ele se torna, quando tentamos navegá-lo de acordo com esses ideais e não de acordo com as coisas reais que estão ao redor e dentro de nós. Uma resolução realmente radical seria aceitar a existência exatamente como ela é, como a única coisa que importa, proclamar que este mundo é o próprio paraíso, feito para nosso completo prazer e realização... e então perguntar: Se este é o caso, como agimos de acordo? O que temos feito de errado todo este tempo?****


Ao fazermos isso, teríamos que finalmente aceitar e abraçar a nós mesmos como somos, em toda nossa diversidade e variedade, e emergir da sombras do falso paraíso de Platão e dos agentes de publicidade onde a real beleza supostamente mora. Libertados dos padrões e padronizações mono-dimensionais, do fantasma do julgamento e condenação do Cristianismo, nós poderemos ver que o que nós somos deve ser a medida e o significado da beleza, de significância e da magnificência, se tais conceitos devem continuar existindo.

  • - Pode-se argumentar que falar uma língua não nos dá um meio para descrever e discutir "o" mundo tanto quanto isso permite que você entre no mundo adicional da descrição e discussão, que está freqüentemente conectado ao mundo das experiências sensoriais apenas pelas abstrações mais tênues. O ambiente urbano, no qual tudo é produzido em massa de acordo com o mesmo sistema ideológico através do qual ele é vivenciado, pode ser considerado uma manifestação física deste mundo de abstrações: conceitualização se impondo sobre a realidade.
    • - "Isso é engraçado," ela diz, "eu tenho uma equação parecida no meu diário, só que com os elementos ao contrário." Ela rabiscou no guardanapo: infinito/x = todo momento

Eu estava perplexo. Nossas equações eram espantosamente semelhantes ― a minha era um chamado a uma tarefa infinita e portanto impossível, enquanto a dela sugeria uma infinidade que não poderia ser nem buscada nem evitada: eternidade dentro dos limites de um momento, espaço sideral dentro do menor dos átomos.


      • - Intelectuais têm uma grande aptidão para o deslocamento ― quando eles sofrem com o tédio da sua existência seca e desencarnada, eles respondem a esse sofrimento não com ação mas com aldo ainda mais árido e desencarnado. Com muita freqüência o seu descontentamento é dirigido à teoria e à análise abstrata, e conseqüentemente na carreira e statuss... e assim, mais status quo. A ideologia se infiltra rapidamente em qualquer linguagem, mesmo nas linguagens que buscam se opor a ela. Se você quer experimentar paixão e liberdade, a última coisa que você deve fazer é criar slogans sobre eles. Este rodapé é, em si mesmo, uma coisinha perniciosa, apenas mais abstrações sobre abstrações ― largue o livro, pare de conceitualizar, saia daqui e viva, o que quer que isto signifique! Chega de explicações, racionalizações, glorificações... desconfie de qualquer palavra ou símbolo cuja intenção seja capturar as coisas que fazem a vida valer a pena, acima de tudo desconfie das pomposidades políticas! Palavras só podem expressar a realidade acidentalmente, e somente por pouco tempo. Encurralados pela inércia de nossa própria retórica, devemos finalmente lutar contra o próprio discurso, e pela expressão, mas somente na ação, o único lugar onde podemos evitar que a expressão fique sobrecarregada pelo peso morto da ideologia. Isso quer dizer ― só é adequado falar quando, ao falar, você está agindo. Então, a menos que você conheça uma maneira de transformar toda esta teoria em vida real, jogue este tratado fora! [O tratado, é claro, continua inabalado, esquecendo suas próprias exigências, como toda ideologia sempre faz e é.]
        • - Ele virou outra página. "Escute isto: 'O homem procura pelo milagre, e para alcançá-lo ele caminhará através de sangue, ele se corromperá com idéias, ele se reduzirá a uma sombra se por apenas um segundo de sua vida ele conseguir fechar os olhos para o horror da realidade. Ele resiste a tudo ― desgraça, humilhação, pobreza, guerra, crime ― na crença de que de um dia para outro algo irá acontecer, um milagre, que vai tornar a vida tolerável.' Soa familiar?"

"Sim ― eu não sei se estou lutando contra essa mentalidade ou se eu estou contaminado por ela ― talvez eu tenha me contagiado ao lutar com ela. Com certeza é utópico pensar que o capitalismo possa durar para sempre sem destruir o planeta inteiro, mas também é otimista acharmos que podemos pará-lo antes que o faça." "É isso que eu não gosto em toda esta retórica anarquista ― ela só oferece uma outra utopia. A maioria das pessoas nesta sociedade já subsiste de visões de outros mundos ― é praticamente banal. Ele argumenta aqui que o mundo existente ― exatamente porque ele existe, uma qualidade sem a qual qualquer mundo é inútil ― é um paraíso mais maravilhoso que qualquer um destes outros, se vivermos nele com atenção." "Sim, é claro, Pablo ― mas é igualmente utópico acharmos que podemos viver com tanta atenção, exceto talvez acidentalmente alguns instantes de cada vez. Talvez faça tanto sentido vacilar radicalmente entre rejeitar a integridade do que é por algo que ainda não é, ainda ― você sabe, ser um Revolucionário com R maiúsculo ― e rejeitar todos os futuros, todas abstrações, todos ideais, para a tarefa impossível de encontrar a perfeição naquilo que existe."





"Fizemos pequenos mapas para representar o grande mundo, mas eles deixaram muito de fora: estávamos sempre nos perdendo com eles. Então nossos cartógrafos experimentaram mapas cada vez maiores, até que eles finalmente projetaram um em uma escala 1:1."


"Isso resolveu o problema?"


"Os fazendeiros fizeram objeções: eles disseram que os mapas iriam cobrir toda a terra, e tapar a luz do sol! Então agora usamos a própria terra como seu próprio mapa, e eu te garanto, funciona pelo menos tão bem quanto."

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