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O Despejo

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Espere Resistência
CrimethInc


Nós sabíamos que não podíamos resistir à polícia, então decidimos dar um passo além: se a reitoria iria despejar nosso acampamento, nós despejaríamos a universidade antes. Éramos algumas dúzias de pessoas, divididas em grupos de dois ou três; nós dividimos o campus em nove zonas, definimos um horário e nos dividimos.


Eu fiquei com o refeitório principal devido ao meu bom relacionamento com os funcionários. Eu queria ir lá uma última vez de qualquer jeito, pois seria provavelmente a última vez que eles me veriam no campus.


Depois de duas cuidadosas rondas ao redor do prédio, eu esperei pela porta dos fundos até que saíssem alguns estudantes. Um outro grupo de estudantes descia as escadas logo no seu encalço; depois que eles passaram eu esperei no térreo até que a porta fechasse, tirei minha lata de tinta e pixei SEM MAQUILADORAS SEM DESPEJO SEM ALOJAMENTO na parede. Eu subi as escadas correndo, três degraus de cada vez, antes que alguém aparecesse.


Durante as semanas que passei na universidade, eu nunca superei o choque que eu senti quando eu entrei no refeitório pela primeira vez. A enorme quantidade de comida que não era vigiada era de tirar o fôlego para alguém acostumado a ter que roubar um docinho de cada vez, mas também era enfurecedor vê-la toda aqui, sem receber o devido valor e uso. Em uma hora, voltava mais comida intocada para a cozinha do que a minha mãe conseguia levar para a casa em um mês ― e do outro lado da parede, invisíveis aos estudantes com seus temas de história da arte e semiótica, caras como eu desviavam de jatos de água fervente para processar todo aquele desperdício.


Eu caminhei até a prateleira das frutas, dando uma piscada para Walter enquanto ele reabastecia uma das máquinas de cereais. Eu havia subestimado: minha mochila era grande, mas não havia jeito de enfiar todas aquelas maçãs, laranjas e bananas nela, muito menos os pãezinhos que atraíam os meus olhos.


Haviam bolsas de grife descuidadas nas mesas atrás de mim, mas por mais privilegiados e ignorantes que fossem seus donos, eles eram apenas civis inocentes na guerra que eu estava travando agora. Eu tinha que bolar algo mais. O relógio que eu havia pego emprestado dizia 11:59.


Eu entrei no banheiro e levantei o saco de lixo sob dispensador de papel-toalha; com certeza, lá estavam vários sacos novos, dobrados cuidadosamente no fundo da lata. Quando eu tirava o lixo no restaurante há dois empregos atrás, eu sempre fazia o mesmo para que eu não tivesse que ir buscar um novo saco de lixo no ármario toda vez, Eu abri um dos sacos e enfiei-o no bolso da frente do meu casaco. Na saída, eu peguei um papel-toalha e segurei-o dobrado entre o meu polegar e os outros dedos.


Coloquei o meu capuz e saindo do banheiro dobrei à esquerda. Ninguém olhava para mim; trezentos estudantes fofoqueavam, enfiando comida nas suas bocas e gritando para os seus amigos lhe guardarem assentos sem a menor idéia do que estava por vir. Eu não olhei mais para cima. Dez passos e eu cheguei no alarme de incêndio. Eu segurei a alavanca com o papel toalha e a puxei para baixo.


Até aquele instante, eu estava tenso da cabeça aos pés, tremendo de medo do que eu iria fazer. Eu acordei duas vezes durante as três horas que tentei dormir; até o momento que o alarme tocou e todos levantaram em choque, havia uma parte de mim que ainda não podia acreditar que aquilo realmente iria acontecer. Inesperadamente, logo depois de tê-lo feito, eu estava tranqüilo. Agora não havia tempo para se preocupar com as conseqüências e complicações; eu habitava o meu corpo como um animal, com tarefas para cumprir e predadores para escapar.


Eu caminhei para a prateleira das frutas. Sem ao menos olhar para o pandemônio à minha volta, eu inclinei as prateleiras uma a uma direto no saco de lixo, depois joguei todos os pãezinhos direto da sua caixa na minha mochila e peguei uma lata de três litros de manteiga de amendoim. Walter havia deixado um saco cheio de cereais ao lado das máquinas; eu o joguei junto com as frutas enquanto virava para me juntar com o fluxo de estudantes em direção à saída. O saco de lixo batia na minha perna quando eu corria. Eu lutei para deixá-lo um pouco mais distante, mas estava pesado.


Chegamos em um gargalo nas escadas. Assim que eu alcancei a porta de saída, eu tirei o meu capuz; não haviam câmeras aqui, os garotos à minha volta não estavam prestando atenção, e se alguém atrás de nós estava interessado em mim, eles teriam que passar por um monte de gente antes. Quando alcançamos as escadas e começamos a descer lentamente, SEM MAQUILADORAS SEM DESPEJO entrou no nosso campo de visão sobre as cabeças da multidão.


O ânimo das pessoas mudou. O que era um treinamento de rotina para alguns e uma situação assustadora para outros de repente assumiu um novo aspecto. As conversas ficaram mais animadas; alguém assobiou.


Quando finalmente saímos, eu podia ouvir alarmes à distância se alternando com aquele imediatamente atrás de nós em um padrão complexo de pergunta e resposta. Já havia uma grande multidão cercando o prédio se misturando com as multidões que saíam de outros prédios: estudantes segurando hambúrgueres comidos pela metade ou cadernos nos quais estavam fazendo anotações, alguns falavam nos seus celulares, outros silenciosamente assimilando o espetáculo ― e espalhados entre eles, professores, zeladores, bibliotecários, gerentes de refeitórios, secretretários, administradores. Normalmente todas estas pessoas estariam do lado de dentro, segregadas de acordo com sua classe e posição, mas aqui estavam todos como se alguém tivesse levantado e sacudido os prédios para mostrar a verdadeira composição da universidade. Era irônico que apenas uma interrupção total podia juntar todas as diferentes pessoas que a formavam e dar-lhes algo em comum.


Todos empregados do refeitório estavam sentados ou apoiados em um muro baixo, inclusive os lavadores de pratos latinos cuja existência era um segredo bem guardado. Eu larguei o pesado saco de lixo atrás de uma lata de lixo e fui até lá. Alguém havia trazido um pequeno rádio, no qual uma canção gospel soava alegremente através de uma voz delicada. Ethel e Velma estavam lá, rindo de algo com Joe; era realmente intolerável que alguém tivesse que estar dentro de quatro paredes em um dia tão bonito.


"Olá a todos, como vão vocês?" "Aproveitando o sol, só isso! Como vai?" "Muito bem! Escutem, eu quero avisar que vocês provavelmente não me verão aqui por uns tempos" ― eu sacudi a cabeça em direção ao refeitório, do qual o terrivel som do alarme ainda vinha ― "mas nós estaremos de volta com muita coisa na quinta-feira." Com surpresa e preocupação, reconheci uma mulher na multidão da ação da noite anterior ― ela estava sentada ao meu lado na platéia. Que diabos ela estava fazendo aqui? "Digam ao Luis que nós iremos aos apartamentos também. Eu tenho que ir, vejo vocês em breve."


"Tudo bem! Cuidado!" Ethel disse, levantando uma sobrancelha.


Uma dupla de seguranças da universidade com olhares azedos estava atravessando a multidão. Eu nunca vi ninguém parecer tão desagradável em toda minha vida. Era o momento de pegar o meu saco e ir embora.


Eu tinha dado vinte passos para fora da multidão quando senti que alguém me seguia. Resistindo à vontade de olhar para trás, eu acelerei e olhei à minha volta para possíveis rotas de fuga.


"Com licença, você pode me dizer como chegar no acampamento?"


Eu parei e olhei sobre o meu ombro. Era minha vizinha da noite anterior.


Eu pensei rápido ― eu e ela nos cruzamos na reunião da Câmara de Vereadores, e só alguns de nós sabiam que haveria aquela ação, então era improvável que ela trabalhasse para a polícia. "É do outro lado do pátio. Eu não estou indo para lá agora."


"Desculpa te incomodar..." Ela estava ofegando um pouco para me acompanhar; eu também, arrastando o meu grande saco e caminhando o mais rápido que podia sem correr. "...eu só queria me envolver, e talvez você pudesse me ajudar a..."


"Tudo bem, escuta, eu preciso de vinte minutos para cuidar de algo, depois eu te encontro aqui. Ok?"


Ela estava comigo e com Kate naquela noite, quando todos nós fomos presos.

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