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O Último Anjo da História

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Jefrey Skoller‎

Afrofuturismo

(Original em Inglês)
(Outra versão em Inglês)


Evocando a famosa imagem de Walter Benjamim da história como um anjo que está ao mesmo tempo olhando para trás na direção do passado enquanto voa para a frente na direção do futuro, o último ensaio fílmico de John Akomfrah é um vôo similarmente não-linear através de uma história da arte da ficção científica e sua relação com a experiência pan-africana. Como o próprio Akomfrah disse: estas questões não estão simplesmente relacionadas, “a experiência Negra é ficção científica!”

The Last Angel of History (O Último Anjo da História, 1996) contempla tropos do gênero de ficção científica com suas imagens de espaçonaves, viagens no tempo e futurismo high-tech tal como eles aparecem na cultura pan-africana. Em seu filme, Akomfrah reivindica a ficção científica como uma parte integral de alguns dos elementos mais inovadores da cultura diaspórica africana. Ele vê a FC como a expressão de uma metáfora tanto para a “outridade” em relação ao mundo branco, quanto para certos discursos sobre a liberação cultural negra. Estas são pretensões amplas, mas elas são elaboradas não apenas de forma original como bastante convincente no filme.

The Last Angel of History é produzida por Akomfrah como parte do londrino Black Audio Film Collective, um dos seminais grupos de mídia negros que surgiram de dentro do movimento de oficinas de mídia britânicas dos anos 1980. Desde 1983, eles têm produzido uma série de ensaios fílmicos inovadores, incluindo Handsworth Songs (1986) e Seven Songs for Malcolm X (1993), cada um deles proporcionando uma investigação original das políticas de representação e questionando a identidade nacional dentro da diáspora africana.

Last angel.png

Trabalhando sobre a história da música e da literatura negras e a atual teoria cultural pós-colonial e póshumanista, o filme conecta o folclore africano antigo e o “afro-futurismo” contemporâneo na vanguarda negra e nas culturas populares para criar o que Akomfrah chama de “memória racial digitalizada”. Minha própria compreensão do “digital” em relação a “memória racial” vem de modelos digitais em hipermídia que enfatizam a inter-textualidade através do interativo, da linkagem não-linear e da navegação através de diferentes momentos no tempo, espaços geográficos, textos, imagens e pessoas. É a partir do trabalho sobre tais diferentes elementos que se pode começar a definir o que poderia constituir uma narrativa digital da história negra.

The Last Angel of History começa com a figura itinerante do bluesman Robert Johnson, do começo do século vinte que, como diz a lenda, fez um pacto com o diabo de forma que ele pudesse se tornar o maior bluesman do mundo. Esta conexão sobrenatural explica para muitos o poder e a inovação de sua música. Johnson se torna parte de uma linhagem de artistas inovadores incluindo os compositores futuristas Sun Ra e George Clinton. Sun Ra afirma ser de outra galáxia e com sua big band, a Arkestra, entrelaça imagens sônicas de viagens e explorações espaço-temporais com mitologia do Egito antigo. Este tipo de evocação do “futuro-passado” é também uma metáfora para seu original híbrido musical de jazz tradicional e formas de vanguarda da música afro-americana e européia. Clinton, um inventor da música funk eletrônica, também cultiva uma persona de um extraterrestre: ele chega em sua Nave-Mãe (Mothership) para expor a raça humana à cósmica música de expansão da mente/corpo do Funkadelic. Como Sun Ra no jazz, Clinton usa a viagem intergalática como uma metáfora para um tipo de exploração híbrida de formas populares de música do R & B (Rhythm & Blues) ao rock psicodélico, a música puramente eletrônica. Esta linhagem é posta emrelação a formas populares contemporâneas como o tecno, o dub, o jungle e o rap e suas preocupações com a alta tecnologia como uma maneira de criar novos sons nunca escutados antes.

Na forma não-linear do filme, vemos uma série de fotos de arquivo e fragmentos de filmagem destes artistas em apresentação junto com entrevistas com Clinton e diversos músicos e críticos contemporâneos incluindo Greg Tate, Lee Perry, e o DJ Spooky . Esta história é entrecortada por imagens da cultura do antigo Egito e do folclore africano em torno da relação do homem como o cosmo. Os entrevistados falam da interconexão de certas tradições africanas de astronomia e adoração do sol/céu e a imagem contemporânea da nave espacial. Eles vêem esta imagem atual como uma metáfora para noções de liberação através da exploração e da experimentação criativas. Talvez a entrevista mais tocante na obra seja aquela com um dos primeiros astronautas de descendência africana a viajar no espaço. Ele fala sobre levar consigo as bandeiras da África para conectar a antiga tradição da astronomia africana com a atual viagem espacial. Também fala de como os gêneros de ficção científica estimularam seu interesse na viagem espacial, citando a personagem da tenente Uhura na série de TV Jornada nas Estrelas como uma figura fundamental. Entremeado a estas imagens e entrevistas está um personagem chamado o Ladrão de Dados que, desde 200 anos à frente no futuro, usa a “supervia da informação” para explorar o passado, o presente e o futuro da diáspora negra. Encontramos ele em diferentes momentos do filme, hackeando uma estação de computador ou contemplando paisagens americanas pós-apocalípticas. Enquanto ele reflete sobre a história africana, vemos imagens de pinturas, da escultura, da comunidade e do ritual religioso africanos. Em outros momentos, ele está dentro do computador como se os limites entre o corpo humano e o corpo digital tivessem se tornado indistintos.

Esta relação entre o corpo humano e o corpo ciborgue é explicada pelos escritores negros de ficção científica Octavia Butler e Samuel R. Delany. Através de entrevistas sua noção da experiência negra como ficção científica é explicada em relação a uma história de deslocamento físico e cultural da Diáspora Africana. Butler e Delany falam sobre como a transferência de populações a partes do mundo antes desconhecidas leva a metáforas de FC tais como o “Novo Mundo” como “Outro Mundo”. Eles também comentam sobre a relação entre as imagens pós-apocalípticas e os atuais conceitos pós-coloniais de híbridos “mutantes” sociais e culturais que não podem mais alegar serem puramente europeus ou africanos.

A última e talvez mais desafiadora questão que The Last Angel of History levanta é a relação entre a atual escrita teórica sobre o “ciborgue” e a experiência negra. Com o surgimento das reposições mecânicas e extensões do corpo humano através da robótica, da clonagem genética, da inteligência artificial e da protética, a questão do que exatamente é um ser humano se torna um problema. Enquanto questões como esta podem resultar de desenvolvimentos tecnológicos, The Last Angel of History sugere de maneira convincente que a relação da Diáspora Africana com o mundo branco é uma questão antiga. )Era o escravo um homem ou uma máquina que era “semelhante ao homem”? Foi essa dicotomia homem/máquina que possibilitou que as noções humanistas e iluministas de Lei não se aplicassem ao homem/mulher negro?) Questões relativas aos direitos legais à vida, à liberdade e à busca da felicidade, o direito de votar, à educação e os direitos de um cidadão nacional têm sido todos sujeitos a um debate racista quando se destinam ao africano, basicamente questionando a humanidade negra. Como estas questões são levantadas em relação a novas tecnologias, a experiência negra é colocada na vanguarda de questões éticas atuais de formas interessantes e contraditórias.

Formalmente, o filme de Akomfrah está mais próximo do conceito entrópico de “Harmolodia” de Ornette Coleman – onde múltiplos temas melódicos e harmônicos se tornam intercambiáveis e são expressos simultaneamente – do que da invariável batida de fundo do Funkadelic de Clinton. O estilo visual de The Last Angel of History tem uma afinidade com a “surfada” na web ou em canais em sua mistura de entrevista, filmagens de arquivo, fotografias, dança, apresentação musical, ritual religioso, pintura e animação, bem como seqüências dramatizadas usando efeitos especiais hi-tech. Este formato também pode ser visto em relação com o vídeo de rock em termos de seus cortes rápidos e frenéticos, da forte confiança na importância da produção sofisticada, do uso de processamento digital de imagem e da incessante batida de fundo musical. Para Akomfrah, isto não é pirotecnia vazia, mas antes está usando este formato para mostrar a interconexão de muitas idéias diferentes do ponto de vista de diferentes períodos na história e nos discursos culturais. Akomfrah deliberadamente construiu este filme como uma série fragmentada de idéias, imagens e sons que são temporalmente não-lineares e incompletos a fim de passar um sentido das idéias como pura velocidade e como o ambiente original e problemático que a era da informação digitalizada nos apresenta. Por necessidade, ele quer borrar os limites dos gêneros cinematográficos tradicionais do documentário, do dramático e do jornalístico. A obra contém fragmentos de cada gênero, significando diferentes modos de gerar sentido, enquanto ao mesmo tempo mina tais gêneros. O que Akomfrah está tentando mostrar é que a forma cinematográfica também está em questão, e que criar novas estruturas cinematográficas formais é também seguir as tradições futuristas da cultura e da criação artística africana.

É evidente que 45 minutos dificilmente é tempo suficiente para abordar, em todo seu detalhe ou complexidade, um leque tão amplo de questões. Talvez seja aqui onde se possa fazer a maior crítica ao filme. Enquanto tal crítica pode ser inócua, o divertimento e a virtuosidade intelectual do filme transcende o lustro de sua superfície para se tornar uma caleidoscópica celebração da riqueza da cultura pan-africana.




Tradução de Ricardo Rosas


Rizoma.png   Este texto foi originalmente publicado por Rizoma.net.


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