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Nunca finja estar em apuros

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Killing King Abacus


A natureza da solidariedade revolucionária reside em reconhecer a nossa própria luta na luta de outros, nas ações que eles escolhem tomar, nos riscos que enfrentam na sua batalha contra a ordem social. Assim, ela não significa apoio acrítico, mas antes inclui uma análise inteligente de cada ação em termos de objetivos, táticas e repercussões. Cada ato de revolta, cada ataque contra a norma do estado e do capital, é parte da luta pela liberdade e pela vida, e toda a resposta que condena estes atos é uma rejeição da solidariedade que é parte necessária da nossa luta. A prática da solidariedade deve, necessariamente, rejeitar a lógica binária, na qual temos ou de aceitar acriticamente uma ação ou de a condenar.


A 31 de Março de 2001 desconhecidos incendiaram 36 jipes no stand de automóveis Romania, em Eugene, Oregon (E.U.). Uns dias mais tarde foi publicado um comunicado explicando a ação. O comunicado referia-se a duas pessoas acusadas pelas autoridades de fazerem ações semelhantes: “… Romania Chevrolet é o mesmo local que foi atingido em Junho passado, pelo que dois guerreiros pela terra, Free e Critter, estão sendo processados. O estado tecno-industrial pensa que pode parar a crescente resistência encarcerando alguns de nós, mas eles não podem encarcerar o espírito daqueles que sabem que outro mundo é possível. O fogo que arde em Free e em Critter arde dentro de todos nós, e não pode ser extinguido fechando-os lá dentro…”


Após ouvir falar sobre esta ação, a minha resposta imediata foi de solidariedade – isto era uma expressão também da minha luta. Simultaneamente, reconheci a falta de timing da ação, especialmente à luz das palavras no comunicado. O julgamento de Jeffrey “Free” Luers estava previsto para começar dentro de uma semana, e as palavras do comunicado podiam facilmente induzir que ele tinha estado envolvido no incêndio de Junho passado, ainda que ele não tenha assumido responsabilidade por este ato (Craig “Critter” Marshall tinha já começado a cumprir uma pena de cinco anos e meio pelo primeiro fogo posto no stand Romania). Com toda a certeza, esta ação iria ter algum efeito no julgamento. Ainda assim, é crucial relembrar que, independentemente do quão importantes as considerações estratégicas possam ser, elas não podem ser nunca as primeiras coisas a ter em conta em atos de revolta. A necessidade de nos revoltarmos e atacarmos a ordem que nos domina e oprime é sempre a primeira coisa a ter em conta.


Infelizmente, no momento em que o advogado do Free adiava o seu julgamento, os gemidos de condenação contra este ato mais recente começaram. Enquanto alguns meramente condenaram o ataque como estúpido e culparam aqueles que o levaram a cabo por aumentar a repressão do estado, outros foram ao ponto de dizer que esta ação tinha sido levada a cabo pela polícia ou pelo FBI. Aqueles que fizeram estas últimas alegações não tinham nenhumas provas; estavam simplesmente descontentes com o timing da ação e as suas possíveis consequências.


Aqueles que levam a cabo ataques contra a atual ordem social não devem nunca ser culpabilizados pelos atos repressivos do estado. O estado, como é óbvio, irá usar estas táticas para justificar a sua atividade repressiva, mas quando anarquistas começam a usar uma imagem espelhada desta lógica estatal para condenar esses atos de revolta que não se encaixam no seu ideal, então trata-se de um repugnante caso de covardia. O estado, e somente o estado, é culpável pela repressão estatal. Ele tem o poder da violência monopolizada e pode usá-la quando bem entender – por vezes, tão depressa face a uma palavra como face a um ato. O ato de rebelião é sempre um jogo de sorte. Como é óbvio, podemos analisar a situação, estimar as probabilidades e, depois, decidir se aceitamos o risco ou não. Mas não podemos nunca saber qual o resultado com toda a certeza, em particular visto que as circunstâncias em que agimos estão maioritariamente nas mãos do inimigo. A esta luz, toda a condenação de um ato de revolta baseado nas respostas repressivas do estado, sejam elas reais ou potenciais, é absurda, do ponto de vista dos inimigos do estado.


A atribuição de atos de revolta a agências policiais – particularmente sem provas – é potencialmente bastante perigosa. Aqueles que atearam o fogo a 31 de Março podem, um dia, ir a julgamento por causa desta ação – esta é uma das muitas possíveis consequências da sua aposta. Os fala-barato que espalham estes boatos sem fundamento estão criando uma atmosfera que funciona contra a solidariedade crítica, numa situação em que esta pode vir a ser essencial. É uma história demasiado comum, fazendo lembrar um dos anarquistas que papaguearam a conversa dos midia de que o Unabomber era um louco e, portanto, empurraram a discussão das suas ações e idéias para a lógica binária da condenação e da dissociação, por um lado, e da veneração acrítica (por vezes chegando ao ponto de uma perturbante quase-canonização, como retratado nos flyers “ele tentou salvar-nos”). Lembramo-nos também do caso de Marinus Van der Lubbe, que passou de insurgente comunista do conselho a um ingenuo, ou mesmo a um agente dos nazis, através de um golpe da caneta estalinista e social-democrata, apesar do fato de que, mesmo face à tortura nazi e à sua pendente execução, ele recusou mentir e dizer que o seu ataque fora uma conspiração comunista. Os anarquistas fariam bem em evitar rumores, seja qual for a circunstância, mas rumores que poderão minar as fundações da solidariedade revolucionária são verdadeiramente perigosos. Numa situação em que as probabilidades estão já contra nós, aqueles que espalham tais rumores estão a criar ainda mais uma situação que favorece o estado.


A 11 de Junho de 2001 Free foi condenado a 23 anos de prisão pela sua alegada participação no primeiro ataque contra o stand de automóveis Romania e numa tentativa de fogo posto na Tyree Oil Inc. No decorrer do seu julgamento, ele reivindicou a responsabilidade pelo incêndio dos três carros no Romania Chevrolet mas negou ter alguma coisa a ver com a tentativa contra a Tyree Oil. Obviamente, o juiz, digno servo do estado como é, considerou o Free culpado de todas as acusações. Que saibamos, nem o Free nem o Critter comentaram o mais recente ataque ao stand Romania. Mas aos nossos olhos, o Free, o Critter e os aventureiros noturnos de 31 de Março são, todos, nossos companheiros em luta. As ações reivindicadas pelo Free e por estes mais recentes iluminadores da noite refletem o nosso próprio ódio por esta sociedade e pelos seus nocivos efeitos. Não sabemos quem ateou o fogo dia 31 de Março, mas sabemos que, face a atos de revolta nós, que somos inimigos do estado, faríamos bem em relembrar este conselho: nunca finjas que estás em apuros.


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