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No Campo de Batalha

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Espere Resistência
CrimethInc


No campo de batalha, os carrancudos anarquistas abaixam suas máscaras sobre sobrancelhas tensas e dentes cerrados. Quando o sol aparece entre o gás lacrimogênio, agradecemos nossas estrelas da sorte por ainda termos um inimigo em comum para que possamos deixar de lado nossas disputas e rivalidades por pelo menos um dia. Conosco, nós levamos as nossas decepções com nós mesmos, com os outros e com os nossos sonhos ― e também a nossa vergonha, nossa arrogância e o nosso medo, nossos complexos de mártir, nosso desespero. Nós não esperamos conseguir a vitória: depois desta luta, depois de toda revolução, haverá sempre outro conflito, outra linha para demarcar. Mesmo se todos os governos e quadros de diretores renunciassem e ninguém se dispusesse a substituí-los, nós simplesmente começaríamos a lutar uns com os outros. É isso que nós fazemos, é o que aprendemos, é tudo que podemos fazer com nossa amargura.


Naquele dia nós marchamos até o muro e o derrubamos no chão. A marcha era notável por ser totalmente silenciosa ― sem hinos, canções, apenas uma austera massa de pessoas indo a algum lugar para fazer algo. Quando a imprensa apareceu, nós quebramos as suas câmeras e pisoteamos os parabrisas de suas vans. A polícia recuou frente ao nosso avanço ― eles não esperávamos que fossemos tão numerosos e corajosos. Naquele dia eles finalmente reconheceram a ameaça que somos; em todas as demonstrações subseqüentes, eles mobilizaram todo mercenário num raio de mil quilômetros para nos interceptar antes que pudéssemos nos juntar. Era nossa única chance de penetrar nas suas defesas, e nós conseguimos ― cortamos as barras com grandes alicates, arrancamos as barras de metal das suas bases de concreto e balançamos toda estrutura até que ela se espatifasse no asfalto.


À minha frente, através da primeira nuvem de gás lacrimogênio que iria saturar o ar pelos próximos dois dias, eu podia ver o arranha-céus no qual estava ocorrendo a conferência. Lá, homens se reuniam para se assegurar que os lavadores de pratos continuassem na cozinha; africanos, asiáticos e latino-americanos continuassem em minas e maquiladoras, e que as necessidades da vida continuassem reféns em vitrines de lojas; eles assinaram seus nomes com nosso sangue em documentos feitos de nossas florestas, eles colocavam garfadas de nossa carne em suas bocas insaciáveis e chamavam a isto de liberdade. O poder deles não foi mais responsável por nos manter de joelhos que a nossa disposição para nos submeter a ele; mas aqui estávamos finalmente, prontos para contestá-lo, quase prontos para testar o nosso próprio poder.


E ali nós paramos. Foi incrível; nunca imaginamos que chegaríamos tão longe, gastamos tanto tempo discutindo de quem era a culpa por não podermos, e agora que havíamos chegado aqui estávamos despreparados para fazer qualquer coisa. Aquele silêncio era de arrepiar até os ossos. Aquele era o nosso momento, nossa única chance na vida, e nos a desperdiçamos congelados por descrença.


Então, finalmente, o lento aparato do estado se levantou e se pôs em movimento. Ninguém jamais passou pelas brechas que havíamos aberto no muro; em vez disso, uma hora depois, estávamos três quarteirões atrás, fugindo de uma investida da polícia calculada para no mandar para os braços de um exército como nunca havíamos visto antes. Paramos de novo, com nossas rotas de fuga bloqueadas por um novo muro verde e bege.


Parado lá de pé, encarando o poder da polícia do estado, tanques blindados, canhões d'água e granadas de concussão, pensávamos que era o fim, pensávamos ter subestimado enormemente a força do nosso inimigo e iríamos ser esmagados sem nem mesmo deixar um borrão na história. Nós não nos demos conta de que já tínhamos lutado 90% da batalha, e que as últimas linhas de defesa estavam vindo para nos cercar porque já havíamos triunfado sobre todas forças repressivas dentro de nós, toda inércia e impotência auto imposta ― havíamos vencido tudo menos os nossos conflitos internos, que eram nosso verdadeiro erro. Se somente tivéssemos compreendido que as frentes de batalha não estavam à nossa frente, mas dentro de nós, em nossas reuniões e conversas de planejamento, em nossos bairros e quartos! Se tivéssemos chegado no muro, com nossos relacionamentos e confiança entre nós intactos, a única maneira que poderíamos perder seria dar a meia volta naquele momento, desistindo da nossa luta e implorando para sermos perdoados por nossas heresias.


Foi preciso fazer muita coisa, mas com muito esforço, conseguimos perder. Levamos anos para realizar isto; era um empreendimento muito grande para terminá-lo no momento em que nos ficamos cercados. Tivemos que cancelar a cruzada pela qual demos nossas vidas, desconectar grandes redes internacionais, persuadir nossos amigos que os compromissos que havíamos jurado cumprir eram inalcançáveis; e o mais difícil, tínhamos que voltar para o lado dos policiais, patrões e outdoors contra nós mesmos e os desejos que havíamos alimentado além do limite.


Éramos tolos. Nós não acreditamos em nós mesmos o suficiente, nem uns nos outros; se soubéssemos a lógica da guerra que estávamos travando, o quanto dependia de nós, teríamos posto nosso orgulho de lado e superado nossas pequenas disputas. Mesmo atirando coquetéis molotov em furgões blindados, nós ainda não estávamos convencidos da realidade do que estávamos fazendo ― nós ainda estávamos representando papéis, testando dubiamente o que era possível no mundo ao invés de assumir a tarefa de mudá-lo.


Depois disso, nós não merecíamos outra chance. Mas a história sempre se repete, experimentando as mesmas coisas infinitamente até que produzam um resultado diferente.


Dá próxima vez não hesitaremos quando derrubarmos o muro, nem quando tivermos que pedir desculpas aos outros e falar sobre nossas desavenças. Quando a tropa de choque fica entre nós e nossa liberdade ― somente armas e escudos, nada mais ― nós podemos vencer, pois a disputa entre desejo e poder militar não obedece às regras militares.


Ironicamente, todas nossas acusações contra o capitalismo e a hierarquia foi levado além dos nossos piores pesadelos pelo que se seguiu. Nós desistimos tão facilmente em parte porque não estávamos preparados para as apavorantes implicações de nossas próprias conclusões, porque não estávamos prontos para lidar com a responsabilidade de sermos a primeira linha de defesa contra a destruição em massa da vida na terra. Nós achávamos que ainda tínhamos tempo para discussões e reflexões.



Nós mal sabiamos


quanto problema


viria em breve.

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