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Marxismo como Reforma

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Janos Biro


Estamos acostumados a imaginar o marxismo como uma resposta revolucionária à ordem estabelecida. Mas não podemos deixar de questionar: e se o marxismo estiver equivocado? E se ele falha em analisar as causas reais dos problemas? E se nosso problema não se resume ao capitalismo, e supera-lo não for suficiente? Então não haveria saída? O marxismo seria a única forma de nos revoltar contra a atual situação? Acredito que não. De fato, sob certa perspectiva, o marxismo não passa de uma reforma. Facilitar a compreensão deste ponto de vista é o objetivo deste texto.


Marx considerava que o capitalismo era inevitável no desenvolvimento da sociedade. Em que se baseia esta teleologia da sociedade humana? Há duas maneiras de analisar o desenvolvimento da sociedade:


A primeira é de acordo com o paradigma das ciências naturais, analisando a progressão de valores quantitativos, proporções e relações inversamente ou diretamente proporcionais. Marx usa esses termos com bastante freqüência em seus textos, fazendo analogias entre sociedade e fenômenos físicos. Ele obviamente não reduz a sociedade a um sistema físico, mas usa parâmetros das ciências naturais para lidar com a sociedade. É como se o sistema sendo proposto, apesar de não ser o físico, funciona como o físico, apenas num patamar mais elevado.


Outra forma de encarar o desenvolvimento da sociedade é pelo viés orgânico. Marx não usa precisamente termos evolutivos em sua obra, pois seu conceito de dialética contradiz a visão evolutiva. Ainda assim, uma visão biológica da sociedade não se reduz à comparação entre sociedade e organismo, pois o organismo não é o único sistema estudado pela biologia. Ainda desconhecida na época de Marx, a ecologia é uma parte da biologia que estuda as relações entre organismos e o meio. Como a sociedade humana é um fenômeno que envolve a relação não apenas de indivíduos, mas de indivíduos e seu meio social, o estudo do desenvolvimento dela estaria bem mais próximo da ecologia do que da biologia que Marx conhecia. O desenvolvimento ontogenético de um organismo apresenta certa teleologia no desenvolvimento de suas características físicas e comportamentais porque elas estão inscritas no código genético. Mas o desenvolvimento de uma espécie não tem teleologia alguma, pois isso dependeria de informação inscrita em algum lugar. Mas ela não está inscrita no corpo do organismo, nem no meio. Está nas relações e nas propriedades qualitativas, que não podem ser analisadas dialeticamente.


Marx x Marx.jpg
Para que o desenvolvimento de uma sociedade se desse de forma teleológica, deveria haver uma forma ideal precedendo a realização material. Mas se a forma de nossa futura sociedade depende de nossa adaptação ao meio, que segue a mutação e a seleção natural, essa forma só pode ser derivada da atual realização material da espécie. Para que uma forma futura pudesse ser vislumbrada no presente, seria preciso ter acesso a alguma forma de informação que não está presente no mundo material. O que uma sociedade irá se tornar não pode ser previsto com base em seu estado atual. Mas segundo a dialética materialista de Marx, a causa da mudança é interna, porque a forma futura está contida nas propriedades internas. Essas propriedades se distinguem por serem contraditórias às características que são consideradas essenciais. A base para tal distinção é um dualismo arbitrário entre essência e não-essência, como se a distinção entre ambas fosse objetiva, e não resultado de uma interpretação.


Marx também considerava que o desenvolvimento da sociedade se divide em certos estágios determinados. Como sabemos hoje, não existem estados intermediários na evolução das espécies, porque não existem metas de longo prazo, apenas adaptação ao estado presente. Por exemplo, os estágios de desenvolvimento de uma borboleta (larva, lagarta, casulo, estágio adulto) estão inscritos do seu código genético, e só nesse sentido podem ser previstos. Já mudanças genéticas entre uma espécie e outra não estão inscritos em lugar algum, e por isso não podem ser determinados. Ao falar de sociedades humanas, a analogia correta seria tratar cada modo de vida como uma espécie, e não como um organismo, pois um modo de vida é a repetição de um código de conduta entre diversos membros, assim como uma espécie, e bem diferente de um organismo. Isto quer dizer que é incorreto usar uma analogia biológica para dizer que o desenvolvimento de uma sociedade possa ser previsto.


Ao criticar a abordagem pessimista de Thomas Malthus, Engels diz o seguinte: “As forças produtivas à disposição da humanidade são ilimitadas; o rendimento da terra pode aumentar indefinidamente através da aplicação de capital, trabalho e ciência” (Vaillancourt, 1993 / 196: 52). O limite de capacidade é hoje um conceito indispensável para a ecologia de populações. Todas as populações têm um limite de capacidade num certo ambiente, e este limite depende de um equilíbrio entre as populações de outras espécies e a capacidade de regeneração dos recursos. Marx sabia que havia trabalho excessivo no modo de produção capitalista, portanto reconhecia o desperdício de recursos. No entanto, o modo de produção sugerido pela teoria marxista não resolve o problema da insustentabilidade, porque isso não era considerado um problema até então. Marx ainda considerava o trabalho industrial, e não a natureza, como principal fonte da produção. Essa concepção nos leva a adotar uma solução falsa, julgando que será suficiente substituir recursos não-renováveis por recursos renováveis, reutilizar, reciclar e evitar desperdício sem que a sociedade deixe de se basear na produção industrial.


Marx concorda plenamente com Adam Smith quando a questão é a produção da riqueza, ele apenas discorda com a maneira que ela é distribuída. Mas os recursos, em última instância, não são produzidos pelo homem. Quem produz é a natureza, o homem apenas os extrai. A comida é ofertada pela natureza, uma dádiva concedida a todos os animais. Nossa extração não pode aumentar sem diminuir o acesso de outros seres aos seus próprios recursos. A produção da natureza não pode ser aumentada, ela já está otimizada para o equilíbrio correto. A visão de que a natureza é simplesmente uma fonte inesgotável de recursos ainda era comum no século XIX, assim como a visão de animais domesticados existem para servir ao homem, podendo assim ser afastados do seu habitat natural. Para a concepção centrada na produção, as coisas têm valor na medida em que são feitas pelo homem e para o homem.


Não significa que o capitalismo seja mais sustentável. O homem viveu sustentavelmente durante a maior parte de sua história na Terra sem nenhum desses sistemas. Mas a crença no desenvolvimento progressivo da sociedade durante a história impede que se leve em consideração que nossa sociedade não é mais avançada do que qualquer outra. O diferencial de nossa sociedade é demasiadamente superficial quando se trata de formas de organização humanas. É neste sentido que a teoria de Marx não redireciona a sociedade para uma mudança real, mas sim mostra um caminho para se continuar o desenvolvimento supostamente progressivo e inevitável da civilização, uma vez que ele também via a civilização como um estágio distinto e avançado na história da humanidade. Essa visão tão prejudicial permeia as idéias de Marx, e se torna um pressuposto inquestionável daqueles que o defendem, eliminando qualquer possibilidade de diálogo com propostas da antropologia evolutiva e da ecologia humana.


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