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Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 21 ao 30

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Manual prático de Delinquencia Juvenil

Ari Almeida



Fé Cega, Pé Atrás & Um Monte De Gente Batendo À Porta - (ataque vinte e um) Editar

Futebol, política & religião não se discute, certo? Errado. Se discute e se discute muito, por isso a razão da existência desse ditado. Intermináveis argumentações e não raros chiliques nervosos e agressões físicas. São assuntos maravilhosamente polêmicos e o problema não está na polêmica. O problema está na intolerância.

O arranca-rabo começou na kit dos delinqüentes quando Marilia contou que tinha sido professora de catequese e Vinícius, seu próprio namorado, começou a esculhambar.

- É ridículo, a igreja católica é muito ridícula, como podem batizar uma criança que não tem ainda a mínima capacidade para escolher.

- É costume, tradição, cultura.

- Cultura o cacete!

Jean, Sérgio e eu começamos a dar uns pitacos e a discussão pegou fogo. Só pra azarar e colocar ainda mais pimenta no molho resolvi defender as posições de Marilia.

- A parte ritual da missa católica eu acho massa.

Vinícius, o niilista, dava pulos de dois metros de altura.

- Massa? O que é massa? Os caras comungam e depois vão pra casa beber e bater nos filhos.

- Isso é geral, não atinge só os religiosos.

- Mas um religioso fazer isso é muita cara de pau, você não acha?

O debate foi interrompido com a chegada do Fábio, careca, com a cabeça completamente raspada.

- Caralho! O que foi isso, véio?

- Raspei ué, não posso?

- Mas pra quê?

- Tava de saco cheio de me olhando mesmo jeito no espelho, precisava dar uma mudada no look.

- Ficou ridículo.

- Parece uma bexiga.

- Vão tudo se fuder!

Imediatamente já mudou de assunto perguntando o que estávamos discutindo.

- Dava pra ouvir gritos de exaltação lá do outro lado da rua.

- Religião, discutiamos religião.

-Não boto fé, esse tipo de coisa não se discute.

Mas não teve jeito, o assunto avançou madrugada a dentro. Vinícius estava inconformado com Marilia. Todos estranharam, porra, logo ele que não se importava com nada. Acabou com ele intimando todos a executarmos mais um ataque, envolvendo religião,

- Mas o que?

- Uma ação para demostrar com todas as religiões estão certas e erradas ao mesmo tempo.

- Mas como isso?

- Sei lá, acordem seus neurônios.

Então contei de um e-mail que recebi de um cara que assina com o nickname de Sabotage, em que ele sugeria que escolhêssemos uma casa e que de tempos em tempos enviássemos cartas de diferentes religiões convidando para algum evento. Todos custando alguma grana.

- Rapaz! Não é uma má idéia. - Vini se empolgou no ato.

- Só que mandar coisas pelo correio é muito palha.

- Podemos ir pessoalmente.

- Como assim? Juro que não entendi.

- Pois não, olhem para o Fábio.

Todos olharam. Entenderam menos ainda.

- Veja só não parece um hare-krishna? Falta só aquele vestidão.

A gargalhada foi geral. Com uma roupa adequada ele poderia muito bem passar por um monge tibetano. Mais alguns detalhes acertados e o plano foi definido e aceito. Seria uma peça de teatro invisível, nos moldes daquela em que discutimos propriedade privada no boteco. Cada um tratou de escolher seu papel. Vinícius tomou a frente.

- Serei católico!

Fábio, seria budista. Jean que sempre sonhou em ter barba, optou por ser um rabino. Sérgio que é negão seria do candomblé. Sobrou pra mim ser evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus. Marilia quis ficar de fora.

Quanto ao local do ataque desta vez nossa decisão foi definitiva: esquecer a burguesia. Chega de querer destruir a burguesia. Destrui-la implicaria em colocar alguém no lugar e isso só significaria trocar os nomes dos bois. A burguesia já cumpriu seu papel na história, a questão agora é supera-la . Mais uma vez então, escolhemos um bairro da periferia para nossas atividades.

Sérgio falou com um conhecido que pratica capoeira e conseguiu umas roupas parecidíssimas com as de um pai de santo, um sarro. Até um cachimbo de pau pra da um toque final. Pra mim ficou fácil, uma simples calça social, um sapato careta e uma Bíblia em baixo do braço já fazem de você um evangélico.

Vinícius também não precisou de muitas indumentárias pra travestir-se de católico.

Fábio e Jean que se fuderam. Fábio penou pra encontrar um tecido adequado e convencer sua mãe a costura-lo. Com aquela cara e o seu currículo de vida, a coroa estava desconfiadíssima de que ele queria realmente virar um hare-krishna. Jean só conseguiu trajes de rabino depois de trocentas ligações e depois de fazer contato com uma ex-namorada que participa de um grupo de teatro.

Marcamos a parada pra quinta-feira à tarde, eu passando o migué no trampo de que tive uma recaída da gripe e Jean, que trabalha a maior parte do tempo na rua, matando serviço mesmo. Nos encontramos todos na praça Tiradentes e pegamos um buzum pras quebradas da cidade

Não tínhamos uma casa/alvo definida. Iríamos na tentativa até encontrarmos alguém que nos desse trela. Não foi tão fácil quanto imaginávamos, muita gente não dá trela pra missionários e crentes em geral. O ceticismo avança e só não sei dizer se isso é bom ou ruim.

Lá pelas duas da tarde alguém finalmente nos atendeu com atenção. Era um cara de uns trinta anos, desempregado, que estava em casa cuidando das crianças enquanto a esposa trabalhava no Pollo Shop numa perfumaria, Vinícius, o católico, foi a primeira visita.

- Bom dia senhor!

- Bom dia.

- Faço parte dos carismáticos.

Assim começamos. Vini convidou para um mocotó na sua paróquia e comentou que estavam clamando por os novos fiéis.

- Vinte reais o mocotó pra família toda e depois, se virar devoto, é só pagar o dízimo.

Vinícius despediu-se depois fui eu. Levei sorte , pois o cara era evangélico e até comentou que se tivesse dinheiro em casa contribuiria com minha causa de assistência social aos pobres. Sérgio, o pai de santo macumbeiro não teve a mesma sorte. Chegou de cara convidando o indivíduo para uma enorme matança de galinhas pretas.

- Uma cerimônia a Ogum, organizado pelo babalorixá Barbozinha de Oxalá.

- O senhor ponha-se daqui pra fora! Em minha casa não entra um adorador do diabo da sua marca!!

- Mas senhor...

- Eu já falei! Não me tira do sério!

Não teve jeito, Sérgio teve que enfiar seu rabinho “satânico” entre as pernas e tirar seu time de campo. Depois foi o budista Fábio, vendendo incensos e exemplares do Bagavad Gita.

- O quê? Eu não acredito! O senhor já é o quarto a bater em minha porta hoje.

- Isso é um sinal de que você deve lutar pra atingir sua harmonia interior, superar a dor.

- Harmonia interior? Superar a dor? Do que está falando?

Os três filhos do homem estavam espiando Fábio por detrás do pai, estavam se torcendo de rir. De certo nunca tinham visto uma criatura tão esquisita.

- Gostaria também de lhe convidar pra participar de um jantar vegetariano no nosso templo.

- Jantar vegetariano? – O cara já parecia nervoso e impaciente.

- Sim, por apenas trinta e cinco reais.

- Trinta e cinco? Não, o senhor me desculpa, mas não tenho condições. Dá licença por favor.

E bateu a porta na cara de Fábio, que se comoveu e enfiou um envelope de incenso por debaixo da porta. O rabino Jean não demorou mais de cinco minutos pra aparecer. Quando olhou para os trajes de judeu começou a demonstrar explicitamente sua impaciência, colocando a mão na testa. - Eu não acredito! Eu não acredito! Posso saber o que o senhor deseja?

- Quero convidar o senhor para ir em nossa sinagoga participar de um jantar para angariar fundos de ajuda para os israelenses vítimas dos terroristas palestinos.

- Vítimas do terrorismo palestino? Eu? – O cara coçava o cabelo, já tava ficando com raiva.

- Apenas cinqüenta reais.

- Cinqüenta reais? Isso é um absurdo! Ponha-se daqui pra fora seu turco ganancioso!

Então damos inicio a nosso ato final. Enquanto o rabino discutia com o morador, o macumbeiro Sérgio voltou, com uma sacola que parecia conter uma galinha preta. O judeu indignou-se com aquela presença e os dois começaram a brigar. O rabino chamando o macumbeiro de satânico e o macumbeiro ameaçando soltar a galinha preta.

Os ânimos estavam alterados quando chegou o budista Fábio.

- Paz! Paz! A paz é mais importante que a discórdia! – Então agachou-se e acendeu um incenso fedorento.O ambiente estava caótico, o morador inquieto sem saber o que fazer, os meninos rindo que mijavam, quando chegou o católico carismático Vinícius que começou a rezar um padre nosso e jogar água benta nos três.

Quando aproximei-me da casa o morador logo me reconheceu e me chamou, parecia confiar nos evangélicos. Cheguei perto estavam todos em frenesi, discutindo quem explorava mais os pobres, quem eram os. Uma zona, quase impossível não rir, Vinícius quase não se agüentava.

Mas foi só descobrirem que eu era evangélico que começaram todos a me criticar e me apontarem o dedo, até o pacífico hare-krishna. O morador saltou em minha defesa e a discussão pegou fogo. O pessoal gritava tanto que alguns vizinhos até foram à janela ver o que estava acontecendo e outros chegaram e se encostaram no muro da casa do cara apreciar a baixaria. Tinha um certo público, posso te garantir, palavra de delinqüente. Por fim me indignei e tomei uma atitude inesperada.

- Quer saber? Exploramos sim! Mas o dinheiro é muitíssimo bem aplicado na construção de novas igrejas.

- O quê?

Foi a gota d’água, o rapaz se indignou e correu a todos com ameaças de chamar a polícia. Nos dispersamos rapidamente, um pra cada lado com expressões furiosas nos rostos. Nos encontramos de ônibus rindo feito uns dementes. Foi muito engraçado. Com certeza aquela pessoa lembraria da cena para o resto de sua vida e para sempre alimentaria uma desconfiança contra esses pregadores. Pensaria sempre duas vezes.

Missão cumprida. Se existem deuses lá em cima ou no além, devem Ter nos agradecido por termos livrados sua barra suja por esses representantes mortais de araque.

Fnord.


De Todos os Fogos o Fogo - (ataque vinte e dois) Editar

O crime contra a Imaginação Pública cometido pela Prefeitura Municipal de Curitiba voltou nessa semana a ser assunto entre os delinqüentes. Começaram a instalar as malditas propagandas luminosas no ponto de ônibus da kitnete. Os filhos da puta privatizaram os pontos de ônibus.

Agora você chega na janela e o negócio ta lá, impondo-se no escuro da noite. A Sabotagem Publicitária acabou voltando à nossa pauta de negociações. Fábio demonstrou ser o mais obstinado de todos.

- Aquela viagem de cimentar a calçada foi Intervenção Urbana, não Sabotagem Publicitária.

- Ah, mas foi massa.

- Eu sei, mas nós temos que atacar é esses abusos como o ali de fora.

Jean e Vinícius não estavam nem ai pra conversa, só davam risadas e azaravam.

- Tem que tacar pedras nessas porras!

- Fuder com tudo! Meter fogo.

Sérgio está concluindo mais uma série de trabalhos artísticos, os primeiros de sua fase na delinqüência. Dá pra ver que mudou muito o estilo. Ultimamente ele anda completamente envolvido com o processo criativo. Entusiasmado mesmo.

- E não tá nada pronto, só estará pronto quando tudo estiver no seu lugar.

- Que lugar?

- O mundo. A vida. As pessoas.

- Não viaja...

Por fim Jean e Vinícius acabaram se interessando pelo assunto e começaram a tramar seriamente alguma coisa. Quer dizer, o mais sério possível tratando-se de nós. Jean anda lendo o Clube da Luta do [[Chuck Palahniuk]] e tendo uns planos incendiários.

- Queria experimentar aquelas misturas caseiras, tipo gasolina com coca ligth.

- E será que funciona?

- Pois é! Eu queria testar a parada.

Conversa vai e conversa vem e dos pontos de ônibus privatizados acabou-se chegando ao velho e bom plano de botar fogo em algum out-door. Antigamente o cagaço sempre vencia, só que agora estamos irremediavelmente viciados em cagaços.

As idéias logo começaram a brotar.

- Agente joga gasolina. Chegamos por trás do out-door. Com toda a calma do mundo. Escalamos e vamos derramando gasolina, até encharcar.

Fábio parecia confiante e metódico, era dele principalmente o sonho de queimar um out-door.

- Pode crê! Litros e litros de gasolina.

- Só! Na frente e atrás.

- Nossa o negócio vai queimar pra caraaaaalho!

Quem acabou dando o toque de mestre no plano acabou sendo o Sérgio. Efeitos pirotécnicos ilegais. Uma coisa de louco, um absurdo.

- A gente arma uma fileira de fogos de artificio por trás do out-door, na hora que a parada tiver pegando fogo, soltamos os fogos.

Uma idéia fantástica. Fantasticamente arriscada.

- Não dá véio, bem na hora de fugir vai ter uma zoada do inferno?

- Culhones, meu filho! Culhones – Sérgio Augusto com uma machíçe surpreendente.

- Não viaja, o negócio é arriscado.

-Temos que pensar num jeito...

Como somos um bando de inconseqüentes, fomos logo providenciando material sem ter bolado um plano de fulga decente. Tivemos que investir um troco legal que mesmo repartido em cinco, ainda vai fazer com que fiquemos duros por uns quantos dias. O mais caro foram os fogos de artifício.

O out-door vítima foi escolhido pelos especialistas em alvos Jean e Fábio. Por motivos óbvios não posso dizer onde, mas era um lugar manero. Não digo que tinha muita visibilidade e que seria visto por milhares de pessoas, mas era limpeza pra executar e pelo menos aparentemente, limpeza pra fugir.

Quinta-feira em Curitiba fez um dia esplendoroso, céu azul, coisa rara, interpretamos isso como um sinal. Passamos o dia ligando uns para os outros e dizendo: É hoje! Tem que ser hoje!

Nos encontramos todos na kitnete e aguardamos com uma paciência dos diabos o tempo passar pra chegar uma hora adequada pra ação. Chegou a meia- noite vazamos. Jean, Vinícius & Fábio com as mochilas contendo o material.

Levamos gasolina pura e um pouco de mistura que o Jean fez com coca ligth. No ônibus ele ia explicando como que o negócio funcionava.

- A gasolina queima fácil, só que pra ser um explosivo ela tem que queimar rápido, de uma vez só, aí sim vira um explosivo.

O viado falava alto, o povo do ônibus todo ouvindo.

- Pra queimar rápido precisa de oxigênio. Os refrigerantes dietéticos possuem uma substância que quando esquenta libera oxigênio. Sacaram?

Então encarou todo mundo que tava olhando pra ele, fez uma careta e gritou:

- Buuuum!

Descemos do ônibus nos partindo de dar risadas. Descemos um pouco longe do local pra ir desbaratinando. Foi no caminho que bolamos o plano de fuga.

- Vamos todos juntos montar a parafernália toda e depois saem todos e fica só um pra botar fogo. – Fábio foi quem tomou a voz.

- É! É uma boa.

- Um só é bem mais fácil de fugir. Os outros esperam num lugar seguro.

- Tá mas e quem fica?

- Eu é claro! Ô pessoal, é uma causa antiga, quase um sonho pessoal.

- Tá certo...

Pulamos o muro e andamos todos no escuro em meio a vegetação. Nada de Lanternas & nada de Pressa. Foda-se que a madrugada fosse alta & que talvez Ninguém visse. Um espetáculo destes, pra nós mesmos, já estaria louco de bom.

Logo chegamos na parte de trás do out-door. Eu e Jean escalamos a estrutura enquanto os outros montaram sentinela e ficaram alcançando o combustível. Sérgio ficou montando o esquema dos fogos de artifício, apesar de ter sido idéia sua, estava completamente cagado de medo.

- Vamos apurar logo com essa merda.

- Cala a boca e trabalha.

A porra da estrutura do out-door tava podre. Um pedaço de madeira quebrou e Jean quase caiu. Vini e Fábio alcançavam a gasolina obstinadamente.

- Ponha mais! Ponha mais!

Então levei o maior susto dos últimos duzentos mil anos. Do nada, surgiram duas crianças gritando. O susto foi tão grande que pisei em falso, um pedaço de madeira quebrou e despenquei de uma altura de uns quatro metros. Foi um negocio do caralho, o chão parecia que nunca chegava.

Quem diabos eram aqueles meninos? Que caralho eles estavam fazendo ali? Vinícius conversou com eles e saquem o grau da coinscidência:

Tinha uma casinha abandonada, minúscula, tipo a única peça de alvenaria de uma casa que muito antigamente existia por ali, no meio do mato, e eles, que eram meninos de rua, dormiam dentro. Mal estava coberta e eles dormiam ali. Puta que o pariu! Definitivamente, o mapa não é o território.

Sem sombra de dúvidas, nossa ação ferraria com o dormitório dos meninos. No calor dos acontecimentos Vini os convidou para dormirem na kitnete.

- Beleza!

- É, a gente dorme lá então.

Os meninos acabaram saindo-se ótimos ajudantes e em poucos minutos encharcamos o painel publicitário de gasolina. Só tivemos que esperar o lezera do Sérgio terminar seu serviço.

Sair fora e deixar somente Fábio acionar as bombas foi de partir o coração. Sérgio terminou, mostrou & saiu correndo com os meninos. Queria fugir dali mesmo. Eu e Vinícius saímos de cabeça baixa, nos esgueirando por entre os arbustos. Lentamente, pois estava com a adrena a mil por causa do susto dos meninos. Jean ficou discutindo com Fábio, queria ficar de qualquer jeito. Sérgio sumiu enquanto eu e Vini nos escoramos na sombra de um muro pra esperar Jean. Passou um tempão com eles discutindo e a gente vendo e não ouvindo nada até que fizeram sinal pra gente se mandar. Foi quando nos ligamos que eles acabaram resolvendo mandar o plano de fuga à merda e tacaram fogo na bagaça.

Assistimos tudo colados no muro num ponto perdido entre Aterrorizados & Maravilhados.

Fábio ateou fogo no out-door e na hora em que as chamas subiram as ganhas Jean acendeu os fogos. No momento senti como se já pudesse morrer, como se já tivesse vendo tudo que bastasse. Nossa fogueira queimou mesmo, queimou pra cacete, o clarão iluminou todo o matagal que até então estava nas trevas. O show pirotécnico dos fogos de artifícios deu o charme supremo, a sofisticação necessária para o momento.

Dez segundos de perfeição. Dez eternos segundos que quando acabaram cobraram seu preço através daquela situação fulminante de queda-livre.

- Sujou! Sujou!

- Fuja locôôoooo!!!!

Sem nenhum plano de fuga corremos feito uns desesperados. Passamos no ponto combinado e Sergio estava lá com meninos e com um sorriso congelado no rosto.

- Foi massa, foi de matar a pau.

- Bora, véio! Boraaa! Sujou!

- Sujou o que?

- Fugimos todos juntos!

- Foda-se.

- Bora, cara, bora!

Não teve jeito, por mais que ele tivesse razão nosso pânico era maior, corremos todos, até os meninos, coitados. No caminho Fábio teve um acesso de loucura e quebrou um daqueles painéis de propaganda dos pontos de ônibus. Corremos ainda mais, os meninos riam que se mijavam, quase não conseguiam correr, tínhamos muitas vezes que puxá-los pelo braço. Não sei quanto, mas corremos acho que uns três quilômetros. Quando paramos num posto de gasolina pra descançar, tomar uma bera e apresentar um rango pros piazinhos nào converdamos nada, apenas ríamos.

Dez segundos pra marcar uma vida inteira e na madrugada:

Uma fogueira.


O Ritual Do Mais Tongo ou Como Eu Celebrei a Deusa & O Que Eu Fiz Para Ela Quando A Celebrei - (ataque vinte e três) Editar

O humor salvará o mundo. Uma das regras básicas do nosso grupo é nunca nos levarmos a sério demais. Isso já confirma a nossa contribuição com pelo menos um pouquinho do humor que salvará o mundo. A gente, pelo menos, se diverte.

Quando apresentei a Religião dos Discordianos pra galera a identificação foi imediata. O Discordianismo é uma religião freak criada nos EUA, no início dos anos 60. É uma mistureba doida de nonsense com mitologia grega, religiões orientais e anarquismo, onde "todo homem, toda mulher e toda criança são um Papa". Um negócio palhaço o suficiente pra conquistar seus corações. Vinícius devorou o Principia Discórdia e desde então encasquetou que teríamos que fazer um ataque envolvendo esse assunto.

- Tipo uma cerimônia absolutamente sem sentido aparente, uma cerimônia de uma autêntica Religião Livre que o Ari tanto fala.

A idéia ficou pendente. Estávamos aguardando o ataque 23, que é o número sagrado dos Discordianos.

No Domingo passado, dia 21 de setembro, foi o dia da árvore e o dia em que colocamos em prática nossa idéia mais besta dos últimos tempos para angariarmos fundos para nossos ataques. Nessa data aqui em Curitiba alguns estudantes de Biologia ou então Engenharia Florestal ou Ambiental costumam vender mudas de árvores nos semáforos. Resolvemos usar essa técnicas, só que ao invés de vendermos mudas de árvores sacanearíamos às ganhas vendendo mudas de maconha. Isso mesmo, mudas de maconha.

- A gente inventa um nome científico bem estrambólico e ninguém contestará.

- Cara, que massa! Imagina depois de umas semanas... O sujeito olha meio invocado pra planta e pensa: “cacete, que porra de planta é essa?”

- Uma tremenda sacanagem.

A idéia foi do Fábio e ele mesmo se encarregou de conseguir sementinhas com uns amigos do mal lá de Colombo. Isso foi no início de agosto, desde lá plantamos num viveiro improvisado na kitnete e conseguimos latinhas pra depois vender as mudas. Foi então que o universo nos presenteou com mais essa Magnífica Coincidência, o ataque vinte e três no dia vinte e três, dois dias depois do dia da árvore e a possibilidade de usarmos a grana pra bancar a cerimônia. Fnord, sem dúvida. Fnord.

No Domingo 21 acordamos cedo, alguns, pois Jean & Fabio saíram pra night e simplesmente viraram a noite sem dormir. Fomos vender nossos produtos no cruzamento da Silva Jardim com a Brigadeiro Franco, umas nove da manhã. É incrível como no domingo pela manhã o povo está mais Amável & Propenso a Caridades, como se nessa hora os corações ficassem moles. Pelo menos para pais de família. Conseguimos vender quarenta e sete pés de maconha a um real. Um espetáculo, sucesso absoluto. Voltamos a pé pra casa dando risadas e planejando nossa Cerimônia a Éris, a Mais Bela, a Deusa da Discórdia. Passamos num sacolão e compramos cinco quilos de maçã.

- Na segunda a gente compra tinta e pinta elas de dourado. – A Maçã Dourada, símbolo do Discordianismo.

Uma das coisas mais massa no Discordianismo é a liberdade de culto e de métodos. Fizemos um bom uso dessa passagem do Principia: “Se por acaso você achar que as suas próprias revelações d’A Deusa se tornaram substancialmente diferentes das revelações de Mal-2, então talvez A Deusa tenha planos para você como um Epíscopo, e você deve considerar a criação de seu próprio secto a partir do rascunho, sem impedimentos.” Consideramos o fato de termos conseguido a grana um sinal da deusa.

Isso significa que contrariaríamos a recomendação de comermos cachorro-quente na sexta-feira, comeríamos na terça e de também outras bobagens inventadas do nada. Quanto ao local da cerimônia a discussão foi longa. Basicamente dois planos estavam em debate. Um era fazermos uma celebração para os ônibus bi-articulados vermelhos em algum terminal tubo.

- Cara! Seria massa, rituais para a Grande Serpente Vermelha & Para os Espectros Dos Trocadores.

Outra idéia era nossa tendência de nos dirigirmos para a periferia. Vinícius era quem queria os terminais tubo. Jean tinha outra idéia.

- Vamos celebrar junto aos catadores de papelão.

- Catadores de papelão? Como? De que jeito?

- Lembra o dia em que damos uma de calouros na avenida das torres perto da PUC?

- Tá, mas e daí?

- Ali na Vila Pinto, vindo embora depois, me liguei que tem uma dessas paradas que compra latinha e papelão. Aquilo ali de tardezinha enche de carrinhos de catadores de papel negociando a coleta do dia.

- E tu quer fazer o negócio lá?

- Com certeza eles serão mais receptivos.

- Não sei, talvez, mas a idéia é boa.

Batemos o martelo e tratamos de providenciar o material. Cachorro-quentes, um garrafão de vinho, maçã douradas, garrafas de pinga com rótulo com uma maçã dourada, copos com desenhos de maçãs douradas e mais uns panfletos com os mandamentos. Fábio ainda preparou mas misteriosas tábuas que pintou e que só revelaria no local. Coisas de Fábio Samwise. Sérgio foi quem se fudeu preparando todos aqueles cachorroquentes, fizemos uma porrada, não contei mas eram mais de cinqüenta. Colocamos tudo numa caixa de isopor pra não esfriar muito, juntamos o material e partimos em Missão Sagrada. Vinícius & Sérgio foram na frente com os cachorro-quentes, Vinicius seria o Diácono Legionário e Sergio seu assistente. Nós chegaríamos depois tendo Fábio como candidato a Discípulos Legionários. Quando chegaram lá o dono do estabelecimento demonstrarou-se meio cabreiro com aquele papo de tratarem-se de religiosos daquela seita que nunca tinha ouvido falar. Mas como a proposta de pregação incluía a distribuição de cachorro-quente grátis pra galera, acabou topando. Quando começaram a comer a gente chegou.

- Boa noite Diácono Vinicius O Mais Tongo.

- Boa noite Humanos Quem Sabe Numa Dessas Repolhos.

Os caras abriram uns olhões desse tamanho! Mas depois logo desencanaram, devem conhecer loucos de toda espécie. Mal chegamos e já começamos a distribuir as oferendas da Deusa A Mais Bela pro pessoal. Era pinga pra cacete, compramos uns dez litros. A galera curtiu, começaram as risadas e as batidas nas costas.

- Os meninos são gente boa!

- Desses crentes que eu gosto!

O Diácono Vinicius O Mais Tongo aproveitou o clímax e começou seu Sermão da Origem da Discórdia:

- A muito tempo atrás., um filho da puta chamado Caracinza, encasquetou que o mundo era tão sem humor quanto ele, e embestou que Diversão era pecado porque ia contra a Ordem Séria. Esse corno convenceu todo mundo que a sacanagem era coisa do mal.

Por incrível que pareça os caras estavam prestando atenção.

- Hoje em dia não dá pra acreditar como tanta gente se deixou levar por essa idéia. Mas deixaram levar e muita de gente se fode se for contra isso. O resultado é essa merda que o mundo tem se transformado. Chamamos isso de Maldição do Caracinza.

Os futuros Discordianos caíram na gargalhada.

- Escutem, mentiram pra vocês! Vocês já estão livres! Tudo é permitido! Um brinde a Éris, A Mais Bela, A Deusa da Discórdia.

Então fizemos o nosso pentagrama de iniciação, afinal eu, Jean & Fábio éramos meros discípulos legionários. Ficamos os cinco na formação e Vinícius falou:

- Agora todos se agacham e se levantam. Todos, incluindo os que estão só olhando.

Não teve muito sucesso, só três neguinhos fizeram isso. Mas tudo bem, continuou o ritual de iniciação. Fábio ficou na posiçào destinada aos candidatos a Discípulos Legionários. Vinicius O Mais Tongo aproximouse.

- Eu, Vinicius O Mais Tongo, iniciado nas Ordens Nem Tão Secretas Das Saideiras Das Festas Podres,

Sacerdote Ordenado da Putakyuparyu, com a Autoridade investida em mim pelo Alto Sacerdote da Mesma, Escritório do Polipadre, pela Casa do Caralho de Asas e pelo Templo do Caos; pergunto agora pra ti: tu és um homem ou um repolho?

- Um homem!

Os caras nessa hora começaram a se partir de dar risada, Vinícius O Mais Tongo teve que erguer a voz para continuar.

- Isso é mal! Isso é muito mal! Queres mudar de vida?

Aí uns poucos riram, teve gente que não entendeu.

- Sim! Quero mudar! – Exclamou Fábio.

- Que besta, que coisa mais imbecil! Onde você quer chegar aceitando qualquer proposta idiota como essa? Aceita mesmo?

- Sim!

Parecia um circo. Parecíamos os palhaços ou pior, os macacos do circo. Não sei se estávamos sendo bons ou a pinga estava sendo boa, a gargalhada era geral.

- Quer então se tornar um Discordiano?

- Acho que sim.

- Então faça o juramento!

- Eu acho que juroooo!!!!! – Berrou Fábio.

- Eu te proclamo como o Discípulo Legionário Fábio O Mais Mala, Legionário da Legião de Discórdia Dinâmica. Salve Éris! Salve Salve!

Então todos nós começamos a gritar e incentivar os outros a gritarem também e como a maioria já estava bêbada mesmo não foi difícil. O dono do estabelecimento já começava a dar sinais de impaciência. Sérgio foi quem se ligou e avisou Vinicius O Mais Tongo, que tratou de puxar o garrafão de vinho e distribuir pra platéia junto com as maçãs douradas e os panfletos com os mandamentos. Quando pegaram o papel ele logo avisou.

- Peguem essa porra desse papel e limpem a bunda com o que está escrito e riam como um idiota do que está escrito. Tomem o vinho no Nada por trás de Tudo, enquanto a merda não aumenta. Nessa hora fizemos uma espécie de confraternização e paramos de agir como Religiosos Loucos & Fanáticos. Muitos caras vieram apertar a nossa mão e bater nas costas e perguntar que merda era aquilo que tínhamos feito e que porra era aquela de maçã dourada. Os cachorro-quentes acabaram todos e posso te garantir que estavam todos felizes.

Fábio pegou seus painéis e foi conversar com uns catadores de papelão no lado de fora. Ficamos um pouco mais e quando saímos encontramos Fábio com os caras. As tábuas que ele tina feito continha frases e Fábio deu dez reais pra cada um deles, e eram três, para colocarem as tábuas no carrinho. Ficou massa. Altas idéias. Chupada da lista de discussão dos delinqüentes. As frases eram: “O Seu Lixo É O Meu Sustento”, “Obrigado Por Tudo Isso” e “Até Aqui Sua Misericórdia Tem Me Acompanhado”.

- Salve a Discórdia, pessoal! Salve a Discórdia! – Fábio estava satisfeito com o resultado. Voltamos etílicos pra casa bebendo a Pinga Sagrada da Discórdia e rindo na medida do incontrolável, pois está escrito em algum lugar e se não tiver escrito a gente escreverá:

“O humor salvará o mundo.”


Merda & Ouro (ataque vinte e quatro) Editar

Nesta semana ouvimos o disco novo do mundo livre S/A onde o Fred Zeroquatro canta numa música “não existe guerra alguma, apesar de todo esse barulho é só o capital cruzando o mar” . A letra é pequena, mas deixou todos impressionados. Manda-se um pais como o Brasil à merda com um simples telefonema .

Capital Especulativo é uma coisa do diabo. Na boa, Eu queria que o cú dos especuladores pegasse fogo e o caminhão dos bombeiros tivesse cheio de gasolina . O problema é que eles estão longe, são invisíveis, são meros números numa conta corrente de um banco multinacional. As sombras desses invisíveis do mal são os bancos como os conhecemos.

Nos cabe então vandalizar os ícones dessa pouca-vergonha toda que estão ao nosso alcance, ou seja, as Agencias Bancarias de Curitiba.

- Tínhamos que fazer alguma coisa nos bancos que tivesse merda no meio. – Vínicius sempre se anima quando o assunto é vandalizar bancos.

- Merda? O que você quer dizer com isso ? - A pergunta foi meio que geral, ninguém entendeu .

- Tínhamos que deixar uma grande quantidade de merda em um banco .

- É, dá pra meter merda naqueles envelopinhos do auto-atendimento .

- Dá também pra deixar sacos de merda nos lixos

Aí a galera começou a viajar, o Bukowskiano Degenerado Fábio Samwise soltou essa:

- Podíamos comer feijoada com chucrute por uns três dias e fazer um atentados de peidos. Imagine nós todos peidando ao mesmo tempo.

Por fim concordamos que o ideal seria largar merda nas calçadas e acessos, bloqueando a entrada das pessoas. O plano ficou marcado, só que parecia que faltava um toque final que desse brilho a coisa toda. Um fator de diferenciação de um simples ato de vandalismo.

Passou-se uma era até que da lista de discussão dos Delinqüentes nasceu uma estrela dançarina.

Alguém chamado Gustavo e com o nikname Anarki3a postou uma idéia maravilhosa que imediatamente apresentei pro pessoal .

- Lembram o que estávamos discutindo outro dia? Que os bancos são os ícones do mal ?

- Só...

- Pois é, já repararam que todos eles ostentam hipocritamente um belo jardim.

- Flores do mal.

- Imagina agora largar sal grosso ou óleo queimado naqueles jardins.

Fez-se então o tradicional silêncio após uma sacada de mestre. Aquelas caras pensativas e aqueles risos contidos.

- Era o que faltava.

- Temos que fazer isso.

Começamos então a aperfeiçoar a estratégia. Esquecemos o óleo queimado e optamos pelo sal grosso. Poderíamos atacar em uma noite de chuva, a água dissolveria o sal e os banqueiros teriam uma curiosa surpresa alguns dias depois.

Convencer o Rafael, amigo do Jean, a empenhar a picapezinha dele pra carregar bosta já foi difícil, agora carregar a tal bosta revelou-se uma encarnação do inferno.

E a merda optamos por de vaca , já que merda de gente é complicado de conseguir em grandes quantidades. Mais uns enfeites vandalìsticos. Um placa pra colocar na escada de acesso com o aviso:

“passagem, somente se pisar na merda”.

Uma faixa pra esticar entre uma árvore e outra escrito com letras garrafais:

“Este é um lugar do mal ”.

Os especialistas em alvos Fábio & Jean escolheram uma agência na Erasto Gaertner, no bairro do Bacacheri. Perfeitinha, jardim, escadas de acesso fácil de obstruir e lugar pra esticar a faixa.

A faixa e a placa doeram em nossos bolsos. Essa série de ataques minaram nossas finanças. Isso, convém lembrar, se passou dias antes da Imobiliária nos infernizar com a ameaça de despejo de nossa Sagrada Kitnete. Só tínhamos que esperar por uma noite chuvosa. Eu no cagaço de que minha gripe assassina voltasse. Não precisamos esperar muito. Na Esquizofrenia Climática de Curitiba, noites chuvosas são normais. Jean conseguiu umas capas de chuva pretas no trampo e com o Rafa, o veículo para transportar a carga fedida. Achamos um sitio na Fazenda Rio Grande e convençemos seu dono a ceder o material. Tivemos que carregar a merda na entrada da cachoeira das vacas, de noite e na chuva. Foi muito empenho, o esterco ia até o meio da canela e o esquema era o seguinte: você escolhia um lugar, se posicionava e então afundava nos escrementos e então fazia uma força do caralho com a pá pra jogar até onde outro recolhia. Uma merda, literalmente. Dez mil banhos depois ainda fedíamos.

Carregamos tudo, cobrimos com uma lona e voltamos pra sagrada kitnete.Logo antes da meia noite a chuva apertou e decidimos que era a hora. Jean foi de carro com o Rafael e eu e os guris fomos na frente, de ônibus.

A Erasto é movimentada, mesmo na madrugada. Era uma operação complicada, o banco ainda por cima era muitíssimo bem iluminado. A vantagem era que com a chuva forte ninguém andava na rua, ainda mais numa hora daquelas. E os carros, quem estava dentro estava mais preocupado prestando atenção na pista. Mesmo assim tivemos que ficar eu & Sérgio de campana, cuidando o movimento e emitindo sinais quando necessário.

Maldita hora que topei essa tarefa. Era diferente de ficar alerta na periferia como nos outros ataques, num bairro escuro, silencioso e sossegado. Ali passavam carros, um a cada minuto e o trabalho era demorado. Somente ver os outros se mexerem me deixava ainda mais agoniado. Chovia tanto que parecia que não ia parar nunca. A impressão que se tinha era que a qualquer momento iria aparecer Noé, de arca, acenando pra gente, “e aí gurizada, não tem ninguém da espécie de vocês aqui dentro!”

Fábio &Jean carregaram sacos com uma porrada de merda até perto de uns tonéis de lixo. Vinícius sumiu no meio do jardim analisando as possibilidades pra realizar suas sabotagens. Assim que descarregaram o material, Rafael sumiu com sua picape, não queria ter nada a ver com aquilo.

Quando os guris começaram a esparramar a merda eu já tava prestes a ter um ataque cardíaco. Minha vista já estava embaçada com a água da chuva e cada farol que brilhava na frente eu pensava que era de um carro que ia estacionar pra sacar um troco no caixa-eletrônico.

Jean & Fábio ainda se alugaram em aplainar com uma tabuazinha, queriam cimentar de fezes a entrada do Templo Monetário. Eu ali, no cagaço do perigo iminente e os dois, Viajando & Enrolando. Não agüentei e fui correndo dar esporro.

- Seus pau no cú! Um desses carros podem parar e ferrar com tudo.

- Relaxa, Ari.

- O caralho que vou relaxar!!! Vamos trocar de função, vai lá cuidar o movimento Jean! Fiquei no lugar do Jean e comecei a jogar merda feito um psicótico. Fábio ficou só rindo da minha paranóia, Vini que surgiu do nada pra me acalmar.

- Relaxa véio, tá limpeza, agente tem pra onde fugir no aperto. Tá vendo aqueles latões de lixo onde deixamos os sacos? É só correr pra lá e desaparecer na noite

Desencanei e tratei de concluir a obra. Vinícius ficou só escondido atrás das moitas. Completamente invisível. Só dava pra ver o sal grosso voando em meio a chuva que ele jogava da moita onde estava escondido. Dessa vez admito, Vini foi o mais seguro de si dentre nós. A chuva era tanta que tive que colocar uma camada grossa de estrume pra água não levar tudo para o esgoto. Enquanto fiquei ali, Fábio & Jean trataram de colocar a faixa. Ela seria armada num poste e numa palmeira.

O poste foi tranquilo de escalar, a palmeira foi bem mais foda. O aguaceiro fazia com que o tronco ficasse escorregadio feito sabão. Somos especialistas em escalar palmeiras, mas não daquele jeito. A solução foi chamarmos o Sérgio para que eu, que sou o mais magro e leve, subisse nas costas dele pra amarrar a corda da faixa.

Bem na hora que dei o último nó, uma luz de lanterna, vindo de dentro do banco, fez com que nosso mundo parasse. Tinha um vigilante lá dentro que provavelmente estava dormindo ou fazendo outra coisa o tempo inteiro e que agora estava fazendo sua ronda. Correr, correr & correr. Essa é mesmo a nossa sina.

Sérgio O Mais Cagão simplesmente desatou-se a correr me jogando violentamente na grama salinizada. Quando consegui me levantar só vi os piás desaparecendo na esquina. Nem olhei pro vigilante e já tratei de correr pra salvar minha pele.

Minha fuga desesperada foi interrompida pelo pior tombo dos últimos tempos. Estava descendo a escada quando escorreguei e cai deitado, de corpo inteiro, em cima daquela merda toda. Não ficou uma partezinha sequer do meu corpo sem estar cagada.

Puta que o pariu!

Quando encontrei o resto da turma era uma gargalhada só. Se jogavam no chão e riam batendo pés e as mãos na calçada. De longe pareciam um bando de epilépticos tendo um ataque simultâneo.

- Para Ari! Minha barriga tá doendo.

Mandei todos tomar no cú e saí atrás de calhas pra me lavar. Fedíamos tanto que voltamos a pé pra casa, de modo que salvamos os ônibus de toda aquela fedentina.

Uma semana depois, passamos por lá pra dar uma olhada no efeito do sal e constatamos que acabamos por ajudar na geração de emprego. Dois jardineiros estavam trabalhando lá e a grama tinha sido toda substituída. Mais uma batalha vencida, mais um banco vandalizado.

Uma merda tudo isso.

Não é mesmo?


Nossa Vingança Sará Maligrina ou Fazer Feitiçaria É Brincar Com O Universo - (ataque vinte e cinco) Editar

Uma estranha espécie de vudú abateu-se sobre mim nos últimos dias. A má fase no campeonato começou no dia em que Vinícius telefonou dizendo que estavam com três meses de aluguel atrasado e que se não pagassem em cinco dias seriam despejados. E os guris ainda tinham como agravante as constantes reclamações dos vizinhos por causa do som e das zuadas. Não somos aquilo que pode se chamar de sociáveis. Era a oportunidade de ouro para a imobiliária. Se não fizéssemos algo MESMO, estaríamos fudidos. Quer dizer, quem estava fudido eram os piás, pois não moro com eles, mas mesmo assim me senti meio culpado. Más companhia, tá ligado? Doeu na alma. Tivemos que colocar nossos respectivos rabinhos entre nossas respectivas pernas e correr atrás de dinheiro. Salvem o capitalismo! Deixem ele se manter até sexta-feira que precisamos de dinheiro! Desnecessário dizer que foi foda. Não temos o dom natural para ganhar dinheiro. Eu & Jean, que temos trampo, fornecemos momentos de glória a nossos chefes, que a muito sonhavam com uma chance de nos esnobar. Saímos de mãos abanando, mas rindo da babaquiçe daqueles malas. Sérgio quebrou a cara tentando vender em vão suas telas na Rua XV. Fábio tornou-se um VASP (Vagabundo Anônimo Sustentado pelos Pais) sem a mínima chance de conseguir troco com seus velhos.

A luz no fim do túnel, por incrível que pareça, acabou vindo do Vinícius. Ele toca violão e teclado e volta e meia faz uns bicos nuns barzinhos. Depois de tentar arrumar alguma coisa de última hora e não conseguir, resolveu acionar sua cara-de-pau. Tocar na rua e nos terminais de ônibus feito um pedinte. Aí começaram a aparecer os primeiros reais e a gurizada começou a verdadeiramente se espertar. Cada um tratou de descolar coisas que pudessem vender. Resolvi fazer um sacrifício à causa, vender vários de meus já poucos livros, discos & revistas. Meu esforço foi recompensado por um e-mail. O Papa Fong da Cabala Discordiana dos Eremitas Onanistas Românticos nos daria uma força.

Genial! Fantástico! Conseguimos negociar, tínhamos grana e conseguimos nos safar por uns dias. Eles perderam e o sinal ficou aberto pra nós, que somos Delinquentes. Eles feriram Corações Delinqüentes, o que significa que isso não ficaria por isso mesmo, jamais.

Desde então nossa sede de vingança só aumentou. Na época em que estávamos negociando mesmo, fui junto com os piás e fiquei de butuca, analisando o ambiente. Notei que não tinha sensor de presença, me liguei nas janelas e anotei o nome de sete funcionários. Quem mandou usarem crachás?

O foda é que entre conseguir a grana que faltava e se recobrar do susto o tempo foi passando, e os ânimos se acalmando. Não tem como evitar, cada um à sua maneira, interpretou aquilo como uma lição, como um sinal. Acabou que foi sendo eu o que mais entrou numas. Me ilhei do resto do mundo e teci meu casulo, ser uma Metamorfose Ambulante requer esse tipo de trampo de vez em quando.

Até que no Sábado, um dia horroroso com Chuva Fina, Frio & Vento, os piás vieram me abduzir.

- Bora, véio! Vamos caçar os sapos pra lançar um feitiçocontra a imobiliária!

A aventura que estavam me propondo era ridícula. Caçar sapos nos esgotos mais fedidos da cidade. Saímos com sacos de supermercados na mão e andamos o sábado inteiro, nos molhamos inteiros e não encontramos um único sapo. Não que não tenhamos conseguido caçar, não vimos nenhum mesmo. Eu babava de indignação.

- Seus viados, vocês acham que vai ter algum sapo nesse esgoto fedido?

- As vezes tem...

- As vezes tem o caralho!

A idéia dos piás, pelo menos a princípio, era uma idéia de gerico. Desenrolar sapos e o diabo a quatro sem ter ao menos a mínima idéia do que fazer com aquilo tudo. Qual feitiço? Como? De que jeito? Mas aquela palhaçada pelo menos me sacudiu um pouco. O toque final foi no fim de semana, dia da criança, que fomos visitar Denise, a catadora de papelão que levamos ao salão de beleza do shopping. Montamos uns bonecos e carrinhos de papelão e fomos fazer a festa com os filhos dela.

Fomos todos. Eu, Sérgio, Jean, Fábio, Vini & Marília. E posso dizer aprendemos mais com eles do que eles conosco. Aprendemos por exemplo a resolvermos o problema dos sapos. Eles moram em Pinhais e sacam de altos Açudes & Banhados para esse fim, caçar sapos.

Como se não bastasse nos ensinaram a técnica da lanterninha. Fizeram agente esperar a noite chegar pra caçar. Parecia que estávamos sendo iniciados num conhecimento secreto. A técnica consistia em mirar a luz nos olhos dos sapos, eles ficam hipnotizados e aí é só catá-los. E funciona que é um espetáculo, catamos treze. Eles ficaram numa bacia com água dentro de uma caixa de papelão na litnete por três dias.

O problema é que por mais que eu tivesse reparado que eles não tinham sensor de presença não fazíamos idéia de como invadir a maldita imobiliária. Jean de cara manifestou-se como o mais pé no chão.

- Invadir é foda, temos que torcer pra que tenha uma entrada pelos fundos. A porta da frente é que não dá pra arrombar.

- E tem mais, vai saber se o Ari não viajou e não se ligou dos alarmes – Sérgio visivelmente não estava muito a fim da empreitada.

- Eu acho que não tem.

Na madrugada de quinta pra sexta saímos em missão impossível, carregando os sapos, um bonequinho vudú que Sérgio confeccionou, sete envelopes nominais para os funcionários, treze folhas de papel com a maldição escrita, mais umas velas & outros apetrechos.

Chegamos lá e apesar de ser no centro, a rua estava um deserto só. Damos a volta na quadra e o único jeito de entrar nas “entranhas” do quarteirão era pulando um muro, de três metros de altura. Não teve jeito, tinha que ser ele. Tive que subir nas costas do Sérgio e depois ajudar o Jean a subir, então em dois, puxamos o resto da turma.

A escuridão ali dentro era total, depois de acostumar a vista reparamos: Tratava-se de um corredor minúsculo de uma oficina de alfaiate, não levava a lugar algum. Pra seguir a jornada teríamos que pular um muro com aqueles cacos de vidro cimentados.

- Não dá nada, agente quebra tudo.

Jean nem vacilou e com uma pedra começou a bater nos vidros freneticamente. Fez picadinho deles. Fábio tirou a camisa, colocou por cima e pulamos todos. Chegamos na segunda fase da jornada e era pior ainda, o quintal de uma oficina de fogões ou coisa parecida. Cheia de tralhas. Sérgio, o cara mais desajeitado do Universo mais uma vez torceu o tornozelo.

- Aaaaaaaaaaaaai!

- Cala a boca seu merda.

- Pô, que foda!!

Nos esgueiramos por entre aquela montoeira de ferro velho e o terceiro muro pelo menos era mais fácil. Fácil em termos de altura, por que dava numa área de serviço de umas kitnetes estranhas. E tinha gente acordada nelas, gente brigando.

Aparentemente era a kit de um casal e a mina berrava:

- Não me interessa! Não tinha que ter falado bosta nenhuma!

Não tínhamos mais nenhum muro pra pular, a janela da imobiliária estava ali e tínhamos que fazer todo o serviço ali mesmo. A janela era daquelas tipo de banheiro e era impossível entrar por ela, teríamos que jogar tudo por ali. Na hora em que o cara começou a berrar de volta pra mina, Vinícius quebrou o vidro e abriu a janelinha. Tínhamos 20 centímetros pra enfiar tudo. A primeira coisa que fizemos foi enfiar os sapos. Coitados, a janela era alta e se estribuxaram no chão.

Imaginávamos que seria mais fácil. Então me liguei de que daquele jeito não faríamos nada decente.

- Cara! Vamos voltar pro outro lado do muro e dar um tempo pra analisar a situação.

Sentamos todos em cima das tralhas do ferro velho e ficamos meditando em silêncio. Ficamos um tempão todo mundo quieto. Matutando. Tentando esfriar a cabeça. Nossos pensamentos eram volta e meia interrompidos pelos berros do casal, que dava pra ouvir dali. Jean quebrou a inércia e começou a juntar uns ferrinhos e fios.

- Quê que cê tá fazendo, véio?

- Relaxa!

Remendou as paradas e fez uma vareta de uns três ou quatro metros de comprimento. Ficamos encantados com sua maestria e como que num passe de mágica acordamos o MacGyver da série Profissão Perigo que cada um trazia dentro de si.

Um troço fantástico. Cada um tratou de fazer uma gambiarra para aperfeiçoar a vareta. Vinícius começou a montar uma segunda enquanto eu, Sérgio & Fábio fizemos “ponteiras multitarefas”. Chapinhas flexíveis presas com borrachas, coisa de mestre.

Pulamos o muro de volta e o lazarento do casal continuava brigando. Acabou facilitando as coisas, apesar de não termos mais podido contar com o Sérgio, que quis ficar acompanhando a discussão. Foi massa.

Deu pra colocar o giz nas ponteiras, desenhar um pentagrama no chão. Com as duas varetas conseguimos acender as velas em torno do pentagrama. O boneco vudú mocamos num lugar difícil de achar, para aparecer só uns dias depois, pra deixar os caras mais cabreiros ainda.

Jean ajeitou um pincel com tinta vermelha e desenhou uns símbolos nada a ver apavorantes na parede. Era uma briga pra ver quem espiava pela janela, todos queria ver como estava ficando, estava um espetáculo a cena.

Sergio acabou sendo útil com sua curiosidade, garantindo nossa tranqüilidade.

- Ih, cara! Podem continuar tranqüilos, eles não estão nem aí pros sons de fora. O mundo pra eles não existe. E os outros vizinhos vão pensar que o barulho são eles que estão fazendo.

Por último largamos os envelopes pros funcionários e as treze folhas de papel esparramadas pelo chão com a seguinte mensagem chupada do Hakim Bey:

Esta empresa foi amaldiçoada por magia negra. A maldição foi realizada de acordo com rituais corretos. Esta empresa foi amaldiçoada porque tem oprimido a Imaginção e profanado o Sagrado Ócio & a Santa Vagabundagem, degradado as artes devido a estupidificação da vida cotidiana com o único objetivo de pagar suas Tachas de Aluguel Abusivas & seus Lucros Obscenos, além das mentiras pregadas através do Direito de Propriedade & o Arruinamento Estético promovido pelo pouco caso que dão a algo sagrado que é um lar...

Os funcionários desta empresa agora correm perigo. Nenhum indivíduo foi amaldiçoado, mas o local foi infectado com Má Sorte & Malignidade. Aqueles que não se ligareme não passarem a tratar os outrso com mais humanidade, irão gradualmente sofrer os efeitos desta feitiçaria. Desrtuir ou dar um fim em todos esses instrumentos de magia que foram deixados aqui não fará nenhum efeito. Eles já estiveram aqui e este lugar foi amaldiçoado. Recupere sua humanidade e revolte-se em nome da imaginação – ou será considerado (sob o ponto vista deste feitiço) um inimigo das pessoas do bem.

Ainda ficamos uma cara sentados ali, Fumando & Bebendo & Cochichando & Acompanhando o desenrolar da briga do casal. E não é que eles se acertaram? O amor venceu. Altos sinais, sem sombra de dúvidas, o Universo está disposto a brincar com a gente quando se dá a devida atenção a ele. Fábio se folgou e escalou uma parede para ficar voyerizando os dois pra ver se rolava sexo. Quando foram pra cama fomos embora.

Fomos embora Cansados & Felizes, pois sendo do mal fomos do bem e, na boa, acho que fomos além do bem e do mal.


A Madame, Os Poodles, A Cegueira & O Castigo - (ataque vinte e seis) Editar

O problema da burguesia não é o fedor. O problema da burguesia nem é a ânsia de riqueza. O que irrita na burguesia é a ostentação. O que me trinca o saco é que mesmo com a miséria que é suas vidas, iludem-se que são superiores e o pior, não desperdiçam uma única oportunidade de exercitar essa ilusão de superioridade. Essa semana a dança do acaso me colocou diante duma situação dessas. Estava trabalhando, numas carreiras pra entregar uns documentos, almoçar e voltar pro trampo, pelas bandas do Batel. Então cruzei com uma mendiga. Odeio rótulos, chama-la de mendiga é matar a descrição. Era uma senhora com três crianças, todas com menos de cinco anos, uma no colo, uma que recém aprendeu a falar que alcançava as coisas e a maiorzinha espertinha, que ajudava a mãe a catar lixo.

Eram três menininhas e as três choravam. A iniciante na linguagem não tinha como esconder a sinceridade!

- Eu tô com fome!

Tive que reduzir o passo com aquilo tudo e então acabei vendo o que preferiria não ter visto. Vi sair pelo portão a dona da casa, madame padrão, a descrição dela deve ser o que aparece no Aurélio quando se procura por isso, com dois quilos de cosméticos e não-sei-que-lás no rosto e dois poodles. Odeio poodles. Nada contra animais. Admiro todos que defendem os direitos dos animais e todo mais, mas odeio poodles. Com as crianças chorando e meio que sem saber o que fazer a senhora perguntou se a madame tinha alguma moeda.

- A senhora tem alguma prata pra me ajudar minha senhora?

Então a madame faz o infazível, ignora a mãe de três filhos e segue com seus poodles. Ignorou por completo. A mamãe olhou pra mim e sei lá se foi o fato de eu ter parado quando vi aquilo ou não, o que sei dizer é que ela teve um acesso de indignação, correu até a frente da madame e perguntou:

- Ôu! Eu estou aqui?! Não está me vendo não?

E não é que filha da puta continuou com sua cegueira? Nem os poodles deram bola. Aquilo me emputeçeu de uma maneira que nem que eu contasse até mil conseguiria me conformar. Intimei ela.

- A senhor está precisando de alguma coisa?

- Olha moço, o que o senhor puder ajudar...

Só tinha um ticket-refeição pra almoçar no centro, um vale-transporte e uns centavinhos que não fariam a menor diferença. Foda-se o almoço, apresentei o ticket. Foi massa. Deu pra ver o brilho nos olhos dela.

- Muito obrigado, seu moço! Deus te abençoe! O senhor não sabe como é difícil. Tá vendo essa rua toda? Os lixos tão tudo cadeados.

Na mão ela tinha uma sacolinha de supermercado com alguns restos de comida.

- O que a senhora tem aí?

- Frango assado. Tava tudo aí no lixo da casa dessa senhora dos cachorros. O resto dos lixos tavam todos chaveados.

Peguei aqueles restos de frango e depois de esperar a senhora ir embora almoçar com suas crianças olhei pra casa da madame dos poodles. Tinha uma janela aberta do lado esquerdo. Analisei a distância e concluí que era possível. Peguei cocha por cocha, osso por osso dos restos de frango e mandei ver na janela. Já estava terminando quando ouvi alguém gritar no outro lado da rua e tive que saír correndo.

Não consegui engolir essa história direito. À noite contei pros piás na kitnete e não teve um que não ficasse revoltado. Vinicius se exaltava em sua fúria.

- Cara, precisamos matar essa velha!

- Uma morte lenta e dolorosa...

- É! Fazer picadinho de seus cachorros e fazê-la comer tudo, matar a lazarenta de overdose de poodles. Jean foi o único a ficar quieto, com um estranho brilho no olhar.

- Já sei o que fazer.

- O quê, seu monstro?

- Vamos invadir a casa daquela filha de uma puta.

- Invadir? Mas é uma mansão brô, deve ter quinhentos tipos de alarmes e proteções.

- Calma! Nós não precisamos fazer as coisas na louca, de qualquer jeito.

- E o que Vossa Delinqüência sugere?

- A gente pega nossos uniformes de gari e finge estar trabalhando no quarteirão da casa pra analisar com calma todas as possibilidades de entrar lá.

Uma excelente idéia. Cada vez mais me convenço de que aqueles uniformes com logotipo da Prefeitura Municipal de Curitiba foram uma grande sacada. Os desempregados Fábio, Vinícius & Sérgio foram convocados para a missão, durante a semana à tarde. Quarta-feira eu estava nas masmorras de meu trabalho quando Fábio me liga entusiasmado.

- Ari do céu! Você não bota fé!!

- O que sua bixa?

- A velha tem uma empregada muito gostosa.

- Tá, mas e daí?

- Daí que Sérgio escreveu uns hai-kais apaixonados, entreguei a ela quando estava indo na padaria buscar o café da tarde pra patroa e ganhei a gata.

- Ganhou a gata??

- Só! Vamos sair tomar umas beras hoje à noite.

Não podia ser mais perfeito. Fábio descolou informações importantíssimas. A velha é viuva, tomas uma boletas pra dormir e desmaia na cama e nenhuma empregada agüentou trabalhar lá por mais de seis meses, tamanha a Mesquinhez & Arrogância da patroa. Saí do trampo na quarta crente que faríamos a invasão de noite. Fabro porém, pediu mais um dia para os preparativos & as investigações.

- Milene me falou que amanhã à tarde a patroa vai sair e me convidou para ir até lá.

- Dentro da casa? Sério?

- Bem isso mesmo, se pedíssemos a deus e fossemos atendidos não seria tão perfeito.

Traçamos então o mais perfeito plano de invasão de nossas carreira. Pelo menos era o que achávamos. Não que tivéssemos grandes facilidades, afinal todas as janelas e portas tinham grades, mas pelo menos tínhamos um “mapa” do território, sabíamos que não tinha alarme e ainda contaríamos com as instruções de Fábio, o especialista mor em definição de alvos.

Esperamos a meia noite e saímos a pé e em silêncio: Momentos de Concentração. Jogamos todo o material que utilizaríamos na mochila que Vini levava nas costas e seguimos Firmes & Confiantes. Sabíamos que a tarefa não seria nada fácil. O muro que tínhamos que pular ficava numa avenida movimentadíssima, mesmo de madrugada, e tivemos que nos separar uma quadra antes. Foi um por vez pular o muro, uma coisa estressante pra quem fica por último, como foi o meu caso. Saber que as possibilidades de alguém se ligar na parada depois de quatro neguinhos pularem o mesmo muro são altas é foda. Quando saltei vi que se tratava do quintal do único estabelecimento comercial do quarteirão. E era pequeno e era apenas o interlúdio entre dois grandes problemas.

O primeiro grande problema era atravessar o quintal da casa vizinha. Tudo iluminado, não tinha cachorros, mas a luz era muito forte mesmo. Sujo pra cacete. Colocamos nossas “tocas zapatistas” que guardamos desde a noite dos poemas nas vidraças e fomos um por vez de novo. Dessa vez fui o primeiro. Fui também o primeiro a encarar o jardim da megera.

Era bonitinho. Mas certamente ordinário. Eu sei que é foda, mas a culpa foi dela e naquele momento a velha era a encarnação do mal. Tínhamos que sacaneá-la. Os piás chegaram logo e Fábio foi logo dando os toques.

- Tão vendo aquele pé de manga ali? Temos que subir nele e saltar em cima do telhado.

Era o grande problema número dois. O único modo de entrar na casa era pelo telhado. Segundo Fábio tinha uma banheiro nos fundo, próximo do quarto da velha que tinha um alçapão que dava acesso ao sótão. Subir a árvore e saltar no telhado foi fácil, emprenho foi soltar as telhas pra entrar. Elas estavam muito bem presas e Jean, depois de demorar a chegar devido a uma misteriosa frase que escreveu com óleo queimado na grama, teve que arrancar um galho da árvore para alavancá-as. Como era de se esperar o sótão tava escuro pra cacete.

Quando acendemos a lanterna notamos que o finado marido era fã do Reader´s Digest, caixas e mais caixas da revista, mofadas e em estado de decomposição. O tampão de madeira foi fácil de abrir. Fábio então nos olhou com uma expressão grave.

- Piazada, agora é o momento mais importante. Vocês ficam aqui, eu vou primeiro e checo se as portas dos quartos delas estão fechadas. Se não tiverem tenho que fechar. Depois eu fecho a porta que tem na entrada do corredor dos quartos, se conseguir isso nenhuma das duas vai ouvir os barulhos, se fizermos algum. Aí eu volto e dou o toque pra vocês descerem e lembrem-se: tem dois cachorros no quarto da bruxa, nada de barulho!

Desceu e ficamos no aguardo. Não sei se o tempo se dilata nestas circunstâncias, mas a verdade é que passaram dois séculos até que ele voltasse.

- Foi foda, a porta rangia e levei dez minutos pra fechar cada uma, agora desçam

Com todo o cuidado do Universo descemos e cada um tratou de pegar seu material de ataque. Jean estava morrendo de curiosidade de conhecer a despensa, geladeira e descobrir se tinha alguma adega. Vinícius foi no armário onde estavam as comidas dos poodles e encheu as sacolas de bilhetes com frases chupadas dos comentários de Rogério Coacho no blog dos Delinquentes: “Seus cachorros comem enquanto irmãos passam fome”. "Esta comida foi desenvolvida para cachorros de todas as raças mas os donos que pensam como Hitler podem consumir sem contra-indicações". "Se não souber ler pergunte a sua arrogante dona". "Coma tudo crianças. Para não sobrar nada aos mendigos que reviram a lixeira". "Esta ração deixa o pêlo macio e o latido mais forte contra os pobres de sua rua."

Fábio ficou de butuca na porta do corredor pra ver se alguma das duas acordava e emitindo constantes pssssius. Eu e Sérgio nos encarregamos do resto. Sérgio colou bigodes e chifres adesivos nos retratos da parede. As paredes era de um azul de tonalidade forte e me desatamos a escrever frases com giz. “Os Mendigos Invisíveis Estiveram Aqui”. “A senhora foi selecionada pra pagar os pecados da burguesia”. “Tome cuidado com os Mendigos Invisíveis”. “Dinheiro não pode comprar felicidade, mas pobreza não pode comprar nada”. Vinícius acabou primeiro, se juntou a nós e ficamos esperando Jean. Depois de alguns minutos ele apareceu carregando sacolas.

- Vinho, muitos vinhos e queijos, muitos queijos. Teremos festa na saída.

- Maaaassa!

- Calem a boca seus merdas! – Fábio era o mais visivelmente estressado.

Pediu pra darmos um tempo, abriu a porta do corredor e foi escrever com giz na parede diante da porta do quarto da velha: “Não abra seus olhos Dona Jassira, a senhora não ira gostar do que vai ver”. Imediatamente tratamos de sair fora, foi bem mais difícil subir de volta no sótão. Encaixamos as telhas de Mal & Porcamente saímos em fuga desesperada. Não sei porque, mas na hora de fugir a adrenalina sempre dispara. Nessas hora mal se consegue pensar, atravessamos todos juntos o quintal vizinho iluminado e em segundo estávamos na rua, gargalhando de nervosismo.

Corremos até uma praça próxima e quando nos jogamos na grama desatamos a rir.

- Cara! Imagina a cara da bruxa quando ver aquilo...

- Foda! Muito foda!!!

Abrimos os vinhos provavelmente caríssimos e devoramos os queijos. Já estava bêbado quando me liguei que nem tínhamos visto o que Jean escreveu com óleo queimado na grama.

- Fala cara, o que era?

- “A senhora não entendeu, mas isso é maravilhoso”.

Quem passasse na rua ao longe provavelmente veria umas das mais loucas cenas desta metrópole, cinco malucos fazendo um pique-nique etílico nos confins da noite.

Realmente, isso é maravilhoso.


Os Anjos Delinquentes do Bem & Seus Poemas Proibidos - (ataque vinte e sete) Editar

Dizem que no Oriente os caras misturam poesia com música e que o efeito é uma verdadeira catarse coletiva. Aqui no Maravilhoso & Moderno & Civilizado Mundo Ocidental a poesia não tem essas regalias. Salvo gloriosas exceções tipo o hip-hop, o pancadão carioca, e os repentistas do sertão, poesia aqui nestes pagos é considerada um troco chato pra caralho. Coisa de acadêmico afetado, na maioria das vezes. Desde o dia em que distribuímos poemas com estilingues que esquentamos nossas cabeças a procura de novas soluções. Sábado fui obrigado a trabalhar o dia inteiro, e em meio ao tédio e o marasmo recebi a ligação de um Sérgio Augusto animado, quase eufórico.

- Ari! pintei uns cartões e escrevi uns poemas que ficaram tão legais não podemos deixar parados aqui na kitnete.

- Não da pra distribuir cartões com estilingue.

- Tô ligado, tava pensando em outra coisa.

- Que coisa seu Monstro?

- Invadir casas, meu velho Ari, invadir casas.

- Você? O Rei dos Cagões falando isso? De onde saiu essa sua macheza toda?

- Vai te fuder! O que eu queria era que esses cartões se transformasse em Misteriosas & Enigmáticas surpresas.

- Explica melhor.

- Não, vem aqui na kit que eu te explico melhor.

O cara tava animado mesmo, cheguei lá e o cara tava numas de fazer as invasões naquela mesma noite. Jean & Fábio de mau, só colocavam defeitos em tudo.

- Tá, mas fala de uma vez do que se trata, o que tu quer fazer com esses cartões.

- Agente entra nas casas e abandona os cartões em lugares estratégicos tipo no meio de um livro, no bolso de uma roupa ou numa gaveta.

- A gente entra nas casas... olha a do cara, até parece que e façinho assim, melzinho na chupeta, a gente entra, deixa lá e pronto. Se, liga veio!

- Não vai ser a primeira vez...

- Tá, mas a gente tinha um método, tínhamos uma engenharia toda por trás.

Caímos todos na gargalhada e Sérgio acabou ficando meio invocado, disse que ele definiria os alvos e ele mesmo, bolaria todo o roteiro do ataque.

- Cara decidido!

- Olha que isso e raro entre poetas, hein?

Não deu nega, o cara sumiu o domingo inteiro. Voltou com um Mapinha Mandrake em mãos. - Aqui esta! Tenho cartões pra quatro casas e escolhi seis, uma margem de erro de duas casas para o caso de pintar sujeira.

Analisamos cuidadosamente seu plano e chegamos à conclusão que sim, era possível. O monstro Viajão finalmente estava ficando metódico. Apesar de termos criticado sua idéia a principio, estávamos todos doidinhos pra fazer mais invasões. Fora a eficiência e poesia ilegal da ação a adrenalina e altamente recompensadora. Preparei uns papéis adesivos com Mensagens Discordianas copiadas do blog do Fong pra colar nas paredes.

Marcamos a parada pra segunda-feira à noite. O bairro que o monstro escolheu? Alto Boqueirão. "Voarei por toda a periferia". E tava uma noite nojenta: Fria, Nublada & com Vento. Fábio catou a última garrafa de vinho que tinha sobrado do último ataque e fomos bebendo aquela coisa caríssima pra aquecer os ânimos e por que não dizer? Criarmos um pouco mais de coragem.

O bairro era uma escuridão só. Esse tão alardeado urbanismo curitibano é uma tremenda fraude.

Consiste apenas em esconder o que não deve ser visto. Fora o apartheid social violento que ele gera, mas esse é um assunto revoltante demais pra ser falado aqui. A questão é que nesse caso o descaso da Prefeitura Municipal de Curitiba nos foi útil. Sérgio era o maestro da vez.

- Pra termos acesso a primeira casa precisamos ir por aqui.

O cara estava orgulhoso de si, depois de troçentos ataques ele, O Mais Bundão, estava se sentindo um verdadeiro delinqüente: Ousado & Abusado.

Era um matagal do caralho cheio de Pega-pegas e Amores-de-sogra. Nada de lanternas, fomos no escuro mesmo pra minimizar as chances de sermos descobertos.

- Cara! Não tinha um caminho mais fácil?

- Não, tem que ser por aqui mesmo.

O matagal terminava numa cerca de madeira toda podre e dava num quintal cheio de tralhas e ervas daninhas. Pulamos todos e cada um tratou de encontrar um modo de entrar na casa. Alguns minutos depois Vinícius veio animado.

- Vocês não vão botar fé, mas a porta da cozinha está aberta.

É incrível como as pessoas fecham todas as portas da frente e se descuidam com as dos fundos. Como estava sendo perigosamente fácil, pedi aos outros que esperassem e entrei com Sérgio pra depositar os "presentes" nos locais apropriados.

Como eu já imaginava a casa não tinha nenhuma estante com nenhum livro que pudéssemos colocar no meio. Sérgio ficou analisando a sala e a cozinha enquanto fui dar uma geral no resto. Duas crianças dormiam candidamente com a porta do quarto aberta enquanto o que parecia ser o quarto do casal tinha sua porta fechada. Peguei um cartão colorido e depositei dentro da sandália da menininha. Sérgio colocou um cartão estilosamente em meio as flores do vaso da sala e um pregado na geladeira, junto aos imãs bregas que elas costumam ter. Por último colei minha Mensagem Discordiana na parede:

“Seja cauteloso com a bebida, ela pode te levar a atirar em políticos – e ERRAR.”

Em tempo recorde saímos fora com a primeira missão cumprida. A segunda casa foi bem mais foda, não tinha nenhuma porta de cozinha aberta. Mas tinha uma janela com possibilidades de arrombamento. Tudo o que precisávamos era de algo fino e comprido pra soltarmos o trinco.

O gambiarreiro Jean se dispôs a dar um jeito. Voltou até o quintal das tralhas e depois de longos minutos apareceu com uma varetinha de metal, e deu inicio as exaustivas tentativas. Tentou, tentou & tentou e passou a bola pro Fábio. Fábio também fracassou e depois de mais de meia hora tentando passou a missão pro Vini.

Vinicius bancou o ignorante e começou a dar pequenas batidas no trinco até que o pior aconteceu. A janela abriu mas a vareta caiu fazendo barulho. Todo mundo gelou. A macheza do Sérgio evaporou-se.

- Vamos embora galera! Vamos embora!

- Calma! Relaxa! Vamos ficar ouvindo.

Passaram-se longos minutos de tensão. Nenhum ruído. Aparentemente ninguém se ligou. Dessa vez foi Sergio & Vinicius, o homem que abriu a janela. Tinha gente pra caralho dormindo lá e também tinha uma estante com meia dúzia de livros, mas como provavelmente nenhum daqueles livros eram abertos a séculos escolheram outros lugares.

Num quarto tinha uma vovó dormindo e roncando. Ela merece, ganhou um lindo cartão.No meio de uma lista telefônica e outro glamourozamente pendurado numa iluminária. Minha mensagem: “Aquilo que não é proibido é obrigatório”, ficou pregada na parede do banheiro.

Já estávamos impacientes quando os guris voltaram. Estavam estressados pra caralho por causa da lotação da casa.

- Vamos andando, rápido!

As próximas casas ficavam a alguns quarteirões distância e eram todas de madeira, bem simples. Sérgio confessou que estava nervoso demais e passou os cartões pra gente fazer o serviço. E não era fácil, a maioria das csas tinha cães e faziam uma zoada dos diabos. Depois de várias vistorias escolhemos uma verde. A porta era fechada por uma tramela, com um canivete Jean conseguiu abri-la facilmente. Já estávamos dentro quando nos damos por conta que num dos quartos tinha uma televisão ligada. Será que estavam acordados? Será que não? Antes que descobríssemos jogamos um cartão de qualquer jeito mesmo, em cima da mesa. Colei minha mensagem e tratamos de dar o fora dali logo. A Mensagem Discordiana da vez: “Dificuldades são como criança, elas só crescem se você as alimenta”. Na hora de fechar a porta a filha da puta rangeu muito mais alto do que ousávamos imaginar que uma porta pudesse ranger. Um grito assombroso veio do quarto da TV - Quem caralho que ta aí???

Os estrondos de passos pesados vindos do quarto foi a última coisa que ouvimos. Saímos correndo desenfreadamente até onde estava Sergio.

- O que foi? O que foi?

- Sujou! Sujou! Fuja lôcooooooo!!!

A merda é que tinham dois carros passando na rua, seria sujo se ele visse um bando de maloqueiro correndo pela riua em plena madrugada. Olhamos pros lados em total desespero, o dono da casa chegou na porta, acendeu a luz e nos viu. Puta que o pariu! Ele nos viu!! Jean deu um berro:

- Por ali, cara! Por ali!!!

Um córrego fedido era a única opção de fuga. Fui o primeiro a me jogar no esgoto e chafurdar na lama podre. Cara, o desespero foi grande. Estávamos nos achando muito românticos distribuindo poemas daquela maneira e não esperávamos por aquela reação. E não foi só aquilo, não. Eu não tinha dado nem dez passos quando ouvi um tiro. Caralho! O cara estava estava armado e estava correndo atrás, parecia disposto a nos perseguir no córrego mesmo. Na hora que ele deu o segundo tiro nós praticamente voávamos dentro do córrego, eu particularmente não senti a água nem o mau cheiro, era o mais puro instinto de sobrevivência em ação. Nem olhava pra trás, nem sabia se estavam todos bem.

Então todos os deuses do Universo fizeram uma força tarefa pra nos ajudar e construíram um bueiro de esgoto na lateral esquerda do córrego e me enfiei dentro chamando os outros. Mais tiros & mais tiros, o Alto Boqueirão em sua noite Bagdá. Felizmente todos conseguiram se enfiar ali. Rastejamos uns dez metros pra dentro daquele cano contra a correnteza. Eu estava sem fôlego, sou capaz de dizer que ontem devo comido merda, muito provavelmente. Quando o breu era total paramos pra descansar. Ficamos horas ali dentro, perdemos a noção de tempo. Sérgio, o maestro do ataque ficou desconsolado.

- Pô, que foda, que foda, que foda!!!

Quando nossos narizes recuperar a sensibilidade e caímos na real de onde estávamos saímos fora. Cagaço total. Nos embrenhamos por entre os arbustos e só respiramos sossegados quando já estávamos a quilômetros do local do crime.

Foi o maior susto da nossa carreira na Delinqüência, mas tem males que vem pra bem (ou vem de trem, como dizem os pessimistas) e Sérgio fez um belo verso/resenho.

- Toda poesia merece um tiro, nem que seja um dia.

Legal, recuperou nosso humor e até damos umas risadas imaginando que o cara da arma não entendeu bosta nenhuma de nossos objetivos. Mas como ficou escrito com óleo queimado na grama da velha burguesa: “Embora você não tenha entendido nada, isso tudo é maravilhoso.


Não Contavam Com os Delinqüentes - (ataque vinte e oito) Editar

Uma das coisas mais escrotas desse capitalismo agonizante de hoje são as fábricas montadas nos trópicos pra aproveitar a mão-de-obra barata. Não bastasse isso ainda tem a isenção de impostos e mais uma caralhada de benefícios. A podridão impera nas entranhas dessa instituição do mal. Aqui em Curitiba temos a presença maligna da Renault. Fábio conhece um cara lá em Colombo que trampa na Renault e conta historias terríveis de caras que passam o dia inteiro enroscando o mesmo parafuso, e de três ou quatro dedos por semana que abandonam as mãos de seus donos.

Uma autêntica Central de Escravidão Voluntária.

Ao invés dos caras de chicote acoitando os escravos como no século passado, temos os robôs e as centrais automatizadas impondo o ritmo da produção. Chibatadas com relho de veludo, sutilezas de uma civilização doente.

Enquanto estava me recuperando da caganeira alienígena que peguei discutimos muito no hospital sobre a merda que é o trabalho. Com a intoxicação fui automaticamente “obrigado” a não trabalhar. Quando as bactérias alienígenas abandonassem meu corpo seria um fudido, mané, cuzão e otário novamente. O assunto da montadora acabou surgindo e o velho vício de planejar alguma ação também.

- É Ari, da pra aproveitar esse tempo amarrado nessa cama pra bolar coisas. Começamos a pensar em algumas sacanagens que pudéssemos aprontar com aqueles franceses filhos de uma puta, files de le pute ou sei lá como é que é em Francês. Citei a idéia do Anarqu3a da catapulta de merda. Vinícius se entusiasmou no ato.

- Cara, essa idéia é muito massa! Só faltava mesmo um alvo.

- Mas que alvo? A fábrica da Renault? - Fábio estava meio desconfiado.

- Claro! Enchemos aquele estacionamento de merda! Confesso que fiquei meio enjoado com a idéia a principio. É cair na merda na noite do banco, é comer merda na noite dos cartões, é foda mesmo, minha vida anda uma bosta ultimamente. Mas acabei concordando, o plano não era ruim. Sérgio deu uma incrementada.

- A gente manda umas mensagens pelo correio antes, alertando eles para algo, mas sem deixar claro o que é.

- Ah, mas tem que descobrir a lista com o nome dos figurões.

- Fábio! Fala com teu amigo.

- Só! Vou ver o que eu consigo...

Fábio falou com ele, mas o cara demostrou-se meio cabreiro. Tem uma porrada de carros naquele estacionamento, mas também tem uma segurança que não é tonga nem nada. O cidadão acabou nos convencendo a mudar o plano.

Discutimos muito o assunto na seqüência e chegamos à conclusão de que jogar merda diretamente na fábrica poderia ser uma literal cagada. Podiam aparecer os jornalistas e tchauzinho pra nossa invisibilidade. Optamos por um meio termo. A Autovesa de São José dos Pinhais, cidade vizinha a Curitiba. Tem uma parada igual no Barigüi, mas a de Pinhais é bem mais limpeza.

Com a garantia que não cutucaríamos a multinacional com vara curta, o amigo de Fábio acabou desenrolando os nomes pra gente. Sérgio se encarregou das mensagens. Escreveu umas coisas assim:

“Para Fulano De Tal, tendo em vista um alerta dado pelas pessoas, pelos bilhões de pessoas deste planeta esqueçido, mandamos esta mensagem. De tanto cagar fora do penico o quarto pode ficar fedendo. Ass: .........................”

Nada de viajar um monte e mandar um monte de cartas diferentes pra um monte de gente. A mesma mensagem pra todo mundo, pra fixar bem a bagaça. Saca só, uma mensagem dessas na torre de controle e chove merda na pista mais tarde. Terrorismo painho, terrorismo mesmo.

Montar a catapulta foi um buraco muitíssimo mais em baixo. O mestre das gambiarras Jean não conseguiu pensar em nada prático. Só que o universo saca de nossa jornada pelo Reino da Mediocridade e pelo Império da Apatia e nos deu uma forçinha. Essa forçinha manifestou-se com um nome de Josimar, popular Marmita, irmão da Milene namorada do Fábio. Êita descrição comprida, sô.

O cara é uma figura. A família deles veio do interior de Minas e o cara é uma figura e não tem outro jeito de descreve-lo. Baixinho, cheio dos agás e vejam só, muito mais gambiarreiro que o Jean. Trabalha em gráficas consertando maquinas de off-set e vive socado em oficinas de automóveis ou então fazendo bicos de eletricista e outras coisas. Em resumo, um cara desenrolado em trabalhos manuais.

Na divertidíssima noite em que Milene o levou na kit apresentamos nosso problema e o cara desenrolou.

- Conheço uns dois ou três caras que tem ferro-velho e esse negócio aí, como é o nome?

- Catapulta.

- Pois então, é fácil de fazer.

Só que de mane ele só tem a cara e o jeitinho de andar.

- Agora me diz uma coisa. Pro que é que vocês querem um troço doido desses?

Não teve jeito, tivemos que contar tudo. Milene é claro que estava junto, mas não contamos que fomos nós que invadimos a casa da madame patroa dela. Deixamos a eles a facílima tarefa de ligar os pontos. A construção de nossa Arma de Cagação em Massa finalmente saiu do papel. Cara, a aparência final do aparelho foi o troço mais Mad Max que já vi em minha vida, e funcionou espetacularmente em todos os testes.

Com tudo em cima tratamos de conseguir as fezes em questão. Na Fazenda Rio Grande de novo, dessa vez sem chuva e com experiência. Delinqüentes Veteranos, tá ligado? Marcamos a palhaçada pra uma quintafeira à noite.

Uma noite antes do ataque fizemos uma coisa escrota. Passamos três os dias sem defecar e combinamos de evacuar coletivamente na frente da concessionária como forma de aviso, tipo jogar limpo, dar uma chance a vitima, não atirar por trás.

Marmita além de gambiarreiro é um cara de pau pragmático. Nos fez desencanar de conseguir alguém de carro pra levar a catapulta e nos convenceu a levar a lazarenta desmontada de ônibus, com tudo mocado em mochilas.O foda foi carregar a merda. Colocamos tudo naqueles sacolões pretos de lixo com cinco camadas. Cinco sacos um dentro do outro. Foram três pacotes e apesar de nossas várias camadas, o cheiro acabou vazando. Por fora das sacolas colocamos umas das Lojas Americanas e todo mundo no latão olhava desconfiado pra gente pensando que diabos tínhamos comprado nas Lojas Americanas que fedia tanto.

Todos fazíamos caras de indiferentes, não lembro de nunca ter sido tão foda conter uma risada antes em minha vida. Era Marmita quem estava com os sacolões ao seu lado, o cara fazia caras muito engraçadas toda vez que alguém o observava de canto de olho ou então abanava o nariz. Quando descemos do ônibus ríamos feito uns doentes a ponto de se jogar no chão, tamanha a dor na barriga. Nenhum gás hilariante seria tão eficiente quanto aquele transporte de cocô num coletivo.

Demos muitas risadas com as palhaçadas do Marmita, mas quando chegamos nas proximidades do alvo o carinha ficou serio. É incrível, mas parece que tem pessoas que nasceram pra delinqüência. Marmita é um desses, se sentiu mais em casa que alguns de nós.

Entretidos com as dificuldades da montagem da catapulta acabamos ignorando por completo a análise anterior do alvo. Um erro de principiante eu sei, mas o que será de nos quando nos sentirmos maduros? Apodreceremos, provavelmente.

Tivemos que parar uma quadra antes e analisar friamente a situação. Acabou que temos mais sorte do que juízo. No outro lado da rua tinha uma casa de madeira desocupada, com muro baixo e tudo. A gurizada ficou montando o equipamento enquanto eu e Sérgio bancamos os sentinelas.

Era de madrugada, a rua estava deserta, mas se alguma alma passasse por ali e olhasse pro terreno da casa desocupada ia pensar que se tratava de alguma geringonça criada pelo Coiote para pegar o Papa Léguas.

Jean & Vinius ficavam abastecendo a catapulta com munição enquanto Marmita caprichava na pontaria, eu e os outro observávamos tudo ao lado da grade da concessionária.

Foi um espetáculo. Mais um daqueles momentos únicos nas nossas vidas, que afinal de contas por serem tantos, já nem sei dizer se são tão únicos assim. Aquela merda toda voando pelo céu e caindo em cima de todos aqueles carros novinhos e inalcansáveis foi um troço de lavar a alma. Isto não é uma metáfora: Aqueles excrementos que choveram sobre os carros é os preços que eles custam.

Milhares de coisas passaram pela minha cabeça enquanto eu assistia aquele bombardeio. As milhares de vidas perdidas em acidentes, os danos ao meio ambiente, o arruinamento estético das grandes cidades, os falsos desejos plantados pela publicidade na Imaginação Coletiva. E mais uma lista interminável de malefícios. Vingamos tudo isso. Pode ser que poucos entendessem nossa mensagem, mas nós e esses poucos já está louco de bom. É o bastante nesta ingrata-mas-nem-tanto guerra no Reina da Mediocridade & da Apatia. Meus devaneios foram interrompidos pelas sirenes do alarme da concessionária. Ou o vigia não era um bom profissional e provavelmente merece cada centavo que ganha ou os filhos de uma égua tem alarme de invasão de pátio adaptado pra detectar fezes. Não sei, o que sei é que a porra do alarme era uma sirene ensurdecedora que deixou tos em pânico

Ignoramos todas as regras de invisibilidade e corremos todos em auxilio a Marmita e sua Maravilhosa Maquina Lançadora de Merda. O cara ainda por cima tava numa calma inexplicável.

- Calma, galera! O vigia não vai atirar e a policia não pode chegar aqui por tele-transporte.

Não damos ouvido. Abandonamos ali a munição que restava, catamos a catapulta montada mesmo em três e saímos correndo de qualquer jeito. Os delinqüentes mais desajeitados da historia da humanidade. Se o bicho-do-corre-feio aparecesse nos prenderia também.

Paramos pra descansar uns quinze quarteirões depois. Estávamos exaustos, mas nos cagávamos rindo. De nós mesmos e do naipe de nossa ação.

As Megacorporacoes Transnacionais, em sua ânsia neoliberal realmente abriram novos mercados e obtiveram alguns lucros fabulosos.

Mas cometeram um erro grave

Não contaram com os Delinqüentes.


O Nonsense, Meu Nego, No Combate Ao Desemprego - (ataque vinte e nove) Editar

Era uma vez num programa de entrevistas... Era da Bruna Lombardi? Não lembro... O Maguila, ao ser questionado sobre o que fazia antes de lutar boxe, respondeu que trabalhava como pedreiro. Pra complementar e salientar que não tinha vergonha do seu passado, nosso herói soltou essa pérola.

- O trabalho danifica o homem.

Desde então esta frase ficou estampada na minha mente como uma Profunda Verdade Universal. O trabalho mata a criatividade humana e cria milhões de esquizofrênicos em todo o planeta. Discutíamos isso no Hospital Evangélico na noite anterior à minha alta e ao meu fatal retorno ao trabalho. Jean discursava sobre a esquizofrenia do homem moderno.

- Saca só, você tem uma montoeira de problemas particulares. De repente você está vivendo um inferno amoroso e no trabalho tem que sorrir a todos os superiores. A gente pode estar numa pior, deprimido e desanimado pra caralho, mas sua produtividade não pode diminuir.

- Se diminuir: pé na bunda!

- Sacaram que somos obrigados a desenvolver duas personalidades?

- Só! As vezes até mais.

- E o que me deixa puto é que essa psicopatia é o padrão normal de conduta. Se um caradura invocar de não dividir sua vida em duas partes será ele o louco e o desajeitado.

Aproveitei a oportunidade pra falar de umas viagens que tive em meio a meus delírios de febre.

- Isso sem contar com falta de sentido cada vez maior nos trampos que restam.

Não sou um grande teórico, nunca freqüentei nenhma academia e a intelectualidade me dá náuseas, mas gosto de arriscar uns palpites e tentar entender, do meu jeito, como as coisas funcionam.

- O capitalismo, pra medir o valor das coisas sempre se baseou no tempo de trabalho gasto na criação das mercadorias.

- Pelas barbas de Karl Marx! A onde que você quer chegar?

- Acontece que hoje o tempo gasto e zero por conta das automatização e o valor das coisas tornou-se abstrato.

- Continue professor.

A gurizada reunida só sabe mesmo é avacalhar. Tiram onda de tudo feito uns retardados. E na hora de trocar idéias, um sempre discorda do outro, unicamente por esporte. Mas continuei, sem nem saber ao certo como expressar minha idéia .

- Só que tem uma contradição gritante nessa parada toda. A tecnologia dispensa os trabalhadores e sem compradores a máquina não roda. É preciso mercados, muitos mercados, daí privatizarem tudo. Não duvido que ainda vão inventar trabalhos sem sentido só pro capital continuar circulando e o sistema se manter.

- Ari, confesso que isso tá confuso pra caralho.

- E, você esta andando em círculos sem chegar em ponto algum, ainda bem que você não é professor de nada.

“Felizes são aqueles que andam em círculos, pois serão conhecidos como rodas.”

Resolvi partir direto pros finalmentes e deixar as teorias mal interpretadas e os conceitos distorcidos de lado.

- Bom galera, durante um delírio de febre vislumbrei um Movimento do Trabalho sem Sentido, alguma coisa do tipo MTS ao invés de MST.

- O que significa isso Ari?

- A gente pode plagiar as cores e a bandeira do MST pro negocio ficar ainda mais palhaço e criar mesmo o movimento.

- Mas que caralho! Que movimento?

- Por alguns trocados, oferecer vagas pra uns trampos totalmente nonsenses.

- Tá vamos virar empresários, empregadores agora...

- É Ari, o Fábio tem razão. E a grana? E o cacife?

- Calma cambada de pessimistas. Não é um mês de trabalho com carteira assinada seus tongos! São bicos. Bicos Nonsenses & Cia Ltda.

- Explica melhor, dischava, desmurruga esse bagulho.

- Por exemplo, por cinco pilas contratamos pra cavar um buraco e depois tapá-lo. E depois um outro cava e tapa mais um buraco mais lado e por ai vai.

- Que coisa mais ridícula e absurda.

Tenho que admitir que os caras não aceitaram a coisa de imediato. Literalmente trata-se de algo saído de uma mente delirante. Por fim a bizarrice da idéia acabou seduzindo o povo. O problema eram os tais cinco pilas pra pagar os “salários.” Passou-se uma semana até que sobre a cabeça de Vinícius que aquela famosa lampadazinha acendeu-se.

- Cara! lembra as idéias daquele doido do Rogério Coaxo do blog dos delinqüentes?

- Só!

- Pois então, aplicamos aquele migue do sobrinho do interfone pra conseguirmos a bufunfa pro MTS do Ari!

O caso foi de um típico meme, pulando de cérebro em cérebro, Mutando-se & Replicando-se sem nenhuma interferência nossa. Jean & Fábio surgiram também num plano B. Circulou pela Internet a historia de um neguinho que dá curso de mendicância pregando que é possível levantar duzentos paus se escolher os lugares certos pra mendigar. Marimita irmão da Milene namorada do Fábio se escalou pra tentar cuidar de carros em estacionamento em dia de jogo no Couto Pereira.

Para a operação Interfones Vinícius voluntariou-se. É uma boa idéia, mas requer toneladas de paciência e muita dedicação. Escolheu um trecho da padre Agostinho com bastante prédios e no horário do Jornal Nacional. Apertava o interfone e falava.

- Tia? Oi tia!

Quando não se tratava de uma mulher com um único sobrinho as pessoas ou perguntavam “o que?,” “como?” ou então desligavam o interfone. É uma idéia que requer paciência, eu falei. Até que lá pelo milionésimo toque a Profecia de Coacho se concretiza.

- Oi ... É você Marcelo?

Com o sinal verde dado, Vinicius soltou essa que estava com o carro estragado cinco quadras a baixo e que precisava de quarenta reais emprestados.

- Eu te avisei que aquele carro ia te dar problemas e prejuízos. Sobe aí que eu te empresto, mas que isso não se repita, hein? Dê um jeito nessa cangalha veia.

- O carro ficou aberto, tenho que correr lá. Vai subir o Vinícius ai pra pegar, ok?

- Tá bom. É ate melhor. Se não eu ia ter que te dizer muitas verdades.

Deu certo. Ela caiu. Fábio & Jean ainda conseguiram vinte e cinco pilas. Marmita quebrou a cara no dia do jogo, já existe um cartel explorando os estacionamentos, não conseguiu um único centavo. No total levantamos 65 Dinheiros para estartarmos nosso MTS. Com o tempo, todos gostaram dessa coisa de brincar de vanguarda.

Nosso movimento é quase artístico. Nosso movimento é quase vanguarda. Se nada disso é verdadeiro, então beleza. Ele no mínimo é QQQ, Quase Qualquer Qoisa.

Fábio conseguiu pás, enxadas, um balde e dois cavaletes na casa de seus coroas em Colombo. A empreitada consistia em cavar um buraco, raso mesmo, pra não dar muito trabalho. Colocar a terra em cima de umas tábuas que colocaríamos sobre os cavaletes. Dar vinte e três voltas em torno do cavalete repetindo o Mantra Sagrado:

“Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer.”

Depois tapar o buraco, meter a mão nos cinco reais e partir para o abraço.

A definição do local da obra gerou discussões monstruosas. Sérgio & Vinícius queriam que fosse no centro, um Mega Evento. Fábio queria que fosse perto do viaduto Capanema, nas redondezas da rodoviária de Curitiba. Jean ficou do meu lado e vencemos o debate.

Continuaremos voando por toda a periferia. Ação de impacto é coisa pra rato de mídia. Estamos fora, não gostamos de aparecer na foto.

Escolhemos o bairro do Cajurú e fomos de ônibus mesmo, com a presença marrrrrcante do figuraço Marmita e com os cavaletes no corredor, dando quinhentas explicações aos curiosos que insistem em existir, graças aos céus, pois são os curiosos que garantem a evolução da espécie.

Chegando no Cajurú escolhemos o lugar mais pop das proximidades, o terreno baldio ao lado do bar do Espedito, tava escrito com”S “ assim mesmo. Montamos os apetrechos e esticamos a enorme faixa que Sérgio preparou.

HÁ VAGAS. SERVICO FÁCIL. DINHEIRO À VISTA.

Três frases com três palavras magicas para para ressoarem nas mentes de Desempregados, Vagabundos & Vadios em geral, essas criaturas lindamente românticas do mundo moderno. Não demorou muito pra chamar a atenção dos pinguços do boteco. Mas não foram falar com a gente, mandaram um moleque.

Explicamos para o pirralho e ele voltou rindo sozinho para o bar. Ouvimos gargalhadas e não demorou muito pra pintar o primeiro voluntário. Bêbado e provavelmente duro.

O cara mais se escorava na pá do que cavava propriamente. Devido ao estado de bebedeira do cidadão, o que era pra ser fácil tornou-se difícil. Era tão cômico que acabou se formando uma multidão de curiosos, sempre eles ao redor. Marmita ria tanto que nem participou da ação, seutou-se um pouco distante e ficou se contorcendo.

Na hora das vinte e três voltas a risada era geral. O povo não botava fé no que estava acontecendo. Não botavam fé mesmo, mas na hora que ele tapou o buraco e pegou as cinco pratas ganhamos respeitabilidade. O negócio era sério além de palhaço.

O segundo funcionário foi o moleque mensageiro que fez tudo rapidinho e saiu feliz da vida pra torrar a grana nos caça-níqueis. Foi uma ação muito divertida e até recompensadora no sentido do reconhecimento pela população local. Não faltaram trabalhadores e todos nos trataram bem.

Os 65 dinheiros acabaram rapidinho, o sucesso da empreitada foi total. Nosso movimento é viável e digo uma coisa, do fundo de meu Coração Delinqüente: o dinheiro da mulher que caiu no Migué do Interfone foi muitíssimo bem aplicado. Bem explicadinho acho ela até sentiria orgulha. Temos outras idéias ainda para por em prática. Descobrir um formigueiro e criar o “Sedex 10 Para Formigas”, pega a carga de uma delas e entrega na porta de casa, cinco pilas pelo transporte. Ou então localizar todas as bitucas de cigarro de um quarteirão e orientá-las a Meca, bitucas Muçulmanas, saca? Dez reais por isso, pois sabemos que é foda, primeiro achar todas as bitucas, depois descobrir que diabo de lado fica Meca.

Enquanto esperávamos o ônibus no ponto tivemos que responder a um batalhão de perguntas a respeito de quem éramos, o que significava aquilo tudo e onde seria nossa próxima performance.

- Somos do MTS, movimento do trabalho sem sentido e infelizmente não sabemos quando haverão novas vagas.


Poluição Visual? Desejos Pré-Fabricados? Só Jesus Salva! - (ataque trinta) Editar

Nosso novo porão é massa. Pela primeira vez desde que existimos nesse planetinha véio ordinário de bosta que só é azul pra quem vê de fora, estando morando todos juntos. Só que nem tudo é perfeito. No outro lado da avenida tem uns quatro ou cinco out-doors emporcalhando a visão.

Uma puta sacanagem. Ainda mais tratando-se de nós, pela primeira vez reunidos, quase que uma provocação. Terminamos de transferir todas as nossas tralhas na sexta-feira à noite e essa porra de publicidade acabou sendo o assunto da vez. Fábio era o mais indignado.

- Esses filhos da puta se acham na moral de dizer quais são nossos verdadeiros desejos.

- Podes crer.

Gargalhadas. Todos caíram na gargalhada com o tom messiânico do sujeito. Um monstro. Um orador em praça pública, seduzindo milhares de almas com sua retórica hipnótica.

- Só que eles não estão sozinhos nessa.

- Óh! Existe uma conspiração por trás.

- Os Iluminatti devem estar envolvidos.

- Calem a boca seus paunocús! Sou eu, é você Vini, somos nós!

Nessa hora a galera baixou a bola. Só que numa pose de respeito tão caricatural que foi incontrolável, as gargalhadas voltaram. Nunca se leve a sério de mais.

- Cara, saca que na maior parte das vezes somos nós mesmos que matamos nossos desejos.

- Assassino! Assassino!

- Acabamos deixando de fazer as coisas por um medo ou uma vergonha que no fundo não sentimos, mas achamos obrigação senti-los.

Palmas. Desta vez não foram gargalhadas, desta vez foram palmas mesmo, Fábio foi ovacionado.

- Claro que tem gente querendo se aproveitar dessa fraqueza. Gente oferecendo desejos prontinhos, custam alguns trocados, mas estão lá, prontos pro consumo.

Jean foi o único que não ficou o tempo todo junto, viajando no discurso de Fábio. Ficou quieto, na dele, olhando os out-doors. Quando sentou com agente estava sorridente .

- Acho já que sei o que fazer pra aliviar nem que seja um pouco essa raiva de Fábio.

- Ih! Lá vem...

- Vamos sacanear esses especialistas em desejo tirando onda deles.

- Como assim?

- Sabe o que eu pensei? A gente bola um personagem. Tipo cartum mesmo. Desenha numa cartolina ou papel grande, recorta e cola nos out-doors. Minha idéia era que esse personagem ficasse o tempo todo expondo o lado ridículo e grotesco dos anúncios.

- Pode crer véio! Não é uma má idéia...

- Em cima dos bonequinhos colocamos balões com frases tirando onda da parada.

Uma tentação e tanto e depois de uma semana parados não conseguimos resistir a ela. Sérgio que tem as manhas pra essas coisas de recortes saiu atrás dos papeis e do resto dos materiais enquanto ficamos ajeitando o resto das coisas. Foi o animal do Vinícius, que não pensa, que teve a idéia de dar o nome de Jesus pro nosso personagem gozador de propagandas.

- Eu sou Jesus e te digo uma coisa: você é mané a ponto de acreditar que isso vale a pena?

Foi massa. Curtimos pra caralho. Bolamos um racunho de nosso Jesus, nada daquela imagem padrão de barba grande, cabelo longo, vestido e sandálias de couro. Nosso Jesus era um baixinho e gordinho escroto, personagem típico de botecos da periferia. Damos altas gargalhadas imaginando as palhaçadas que nosso Jesus aprontaria. Quando Sérgio chegou com o material já estávamos com as idéias plenamente definidas.

Na tardinha de sábado Fábio & Jean saíram pra analisar os alvos e bolar as rotas de fuga pra no caso de dar alguma merda. Demoraram pra caralho e voltaram mudando todos os planos originais.

- Cara, aqui na frente não vai dar. Aqui na frente vai ser muito bandeira.

- E a escada? Como é que vamos carregar a escada num lugar muito movimentado?

Estávamos todos no tesão de fazer a coisa no sábado mesmo, só que não teve jeito. Tentamos localizar o Marmita, mas o cara tava acampado no Marumbi. Fábio teve que ir até Colombo batalhar uma escada dessas que se desmonta enquanto nosostros fomos definir novos alvos, que se adequassem aos nossos desenhos.

Não foi mole. Tivemos que fazer um mapa complicado, teríamos que andar um monte. Só que tudo meticulosamente planejado, com tudo pra dar certo. Nossa auto-confiança se baseava no fato de que estaríamos com tudo pronto, desenho recortado, cola esparramada, e que seria só fixar e pronto. Missão comprida.

Só que na hora a parada não foi tão simples assim. No fim da terde de domingo o tempo fechou e uma enxurrada se abateu sobre Curitiba. E a chuva não tinha pinta de passar tão cedo. Ainda por cima mais uma vez cometemos um erro de principiantes. Até quando seremos cabaços? Analisamos as rotas de fuga e não sei que lás e ignoramos por completo a escada e o plano de abordagem. Durou muito mais do que imaginávamos. Tínhamos calculado uns 30 segundos. 30 segundos o caralho!

Chegar, armar a escada no lugar certo, subir sem dobrar o papel ou rasgar por causa da chuva e ainda colar no lugar adequado sem enrugar nem nada é uma tarefa muito foda. Pra cola pegar tivemos que antes dar uma enxugada meia boca no local da colagem e depois ainda segurar pressionando o papel por um certo tempo. A coisa toda durou quase dez minutos, uma eternidade perto dos 30 segundos que tínhamos imaginado. Foi um negócio agonizante. Vinícius foi o primeiro a fazer a colagem. Eu & Jean ficamos segurando a escada e mandando apurar enquanto Fábio & Sérgio eram os sentinelas.

Era a propaganda de uma oferta de carro por trinta e poucos mil reais. No desenho que colamos Jesus segurava a barriga com uma mão e com a outra apontava sorridente para o carro:

- É fácil comprá-lo! Basta ficar trinta anos sem comer. Alguns mestres iogues dizem que o sol e o ar bastam pra se manter vivos!

Mais abaixo um outro balãozinho.

- E lembre-se! Eu sou Jesus e Jesus saca as coisas!

Quando Vini acabou estávamos com a nossa paciência esgotada e muito nervosos, aquilo era pra ser rápido e fácil. Nossa auto-confiança foi parar na puta que o pariu. Saímos correndo dali, nem conferimos com calma o resultado da colagem.

O segundo alvo ficava um pouco longe e tivemos que andar um monte. Tratava-se de um anúncio de uma nova escola de negócios, famosa na Europa e que agora esta se instalando em Curitiba. Na foto um casal de jovens empresários em pose de bem sucedidos. Ridículos os coitados.

Foi Jean quem subiu pra colar Jesus.

- Nada é tão ruim que não possa ficar pior. Agora os gringos vão ensinar seu chefe a ser um mala, explorador e folho da mãe de uma maneira que você nem sonhava ser possível!

Mais abaixo o mesmo balão de antes

- Jesus saca das coisas, meu filho!

Jean fez tudo certinho em seis minutos e meio. Apesar dos protestos de Fábio, foi eleito automaticamente “O Colador de Jesus Cristos” oficial. O próximo out-door era próximo, hehe, porém visível e perigoso. E também o mais odioso. Aquele da Master Card convidando todos a ficarem ou serem sossegados. De longe o mais falso.

Esse eu aguardei com expectativa pra ver como ficava. Esse eu quis curtir o resultado. E nesse Jean decidiu dispensar a escada. Maldita idéia. Mais segura, mas repito: Maldita idéia! Tivemos que escalar a parte de trás do painel pra segurar suas pernas sem enxergar bosta nem uma do que ele tava fazendo.

- E ai véio tá pronto?

- Relaxa tá quase.

- Apura sua bixa! Cê pensa que é leve?

- Agüentem aí suas putinhas, tá ficando massa.

- Anda logo com isso se não eu solto!

- Solta nada, você me ama.

Tenho certeza que ele demorou de sacanagem. Jean nunca desperdiça uma chance de sacanear alguém. Deve ter demorado uns quinze minutos.

Mas tenho que admitir que ele tinha razão: Ficou massa. Jesus se passou nessa.

- Você tem todos os motivos do mundo pra ficar sossegado, afinal sou Jesus e sua mulher me ama. Sei que é meio óbvio e até chavão, mas colocamos uns chifrinhos no cara da foto da propaganda.

- E todos os hotéis aceitam Master Card! Veja só! Uma chance a mais de você ser sorteado. E não foi só isso.

- E veja bem: Jesus saca das coisas e agora também saca que sua mulher é muito gostosa. Exaustos que estávamos, sentamos na calçada no outro lado da rua, Ensopados & Imprudentes, pra dar risadas do corno sossegado sorteado pelos Delinqüentes.

Tínhamos material pra sacanear mais três anúncios e agora estávamos mais sossegados. Nos sentíamos OS Vândalos Palhaços. Nos sentimos os salvadores da espécie humana.

Só que a chuva aumentou pra caralho e o quarto alvo ficava numa encosta, uma filial do Rio Iguaçu se instalou na frente dele, mais ou menos onde jean botou a escada. E ele estava perigosamente Tranqüilo & Seguro.

Odeio estar certo, massabia que ia dar merda.

Quando Jean esticou o braço pra colar o balão com frase de Jesus o terreno onde a escada estava armada cedeu e Jean desabou desajeitadamente de uma altura de mais de quatro metros.

O cara caiu todo errado e tragédia das tragédias: Quebrou a clavícula. Ele que trabalha de moto fazendo entregas, quebrou a clavícula. Na hora não atinamos o que tinha acontecido com ele, que só gritava, e simplesmente abandonamos a escada ali mesmo e torramos nossos últimos dinheiros pra levarmos o sequelado no posto do SUS vinte e quatro horas do Boqueirão.

Foi um susto dos diabos, o maior que já levamos até agora. Mas como somos uns incuráveis, na madrugada, de volta ao porão, já estávamos rindo do ocorrido.

A TIM celulares safou-se dessa, deixamos sua sacanagem pela metade. No out-door premiado ficou apenas a imagem de nosso Jesus baixinho, barrigudinho & careca, com cara de safado.

- Nunca esqueça! Jesus voltou e Jesus saca as coisas!


Manual prático de Delinquencia Juvenil
Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 11 ao 20 Atos: 21 ao 30 Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 31 ao 38

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