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Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 1 ao 10

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Manual prático de Delinquencia Juvenil
Ari Almeida


O Macarrão da mamãe é mais gostoso - (ato um) Editar

Foi logo depois de começar a falar em Vandalismo & Barbárie mais seriamente que um amigo apareceu com a idéia dos pique-niques em supermercados. A princípio achei pouco prática: os seguranças logo nos colocariam para fora com chutes e pontapés. Eu estava equivocado, é preciso ser esperto para subverter a ordem cotidiana. Quando se fala em pique-nique logo vem à memória aquela imagem da toalha estendida ao chão, cheia de frutas, doces e salgados.

Quem disse que pique-niques tem de ser assim? Essa foi a primeira pergunta que me ocorreu. Depois foi o seguinte: o que, realmente é um lugar público? Supermercados são lugares públicos? É proibido comer dentro de uma supermercado? Pra mim, estas são perguntas inspiradoras. Por exemplo, é perfeitamente normal sentar em banco de praça, tirar da bolsa um sanduíche e comê-lo em paz. Mas fazer o mesmo em uma loja de departamentos pode ser diferente.

De repente lá estava eu imaginando estas coisas acontecerem. De repente lá estava eu entrando em contado com amigos Delinquentes & Doentes e pronto: uma inconsequente ação dos Novos Bárbaros estava sendo arquitetada, descobrimos que sim, podámos criar situações que subvertessem a rotina cotidiana e turbinasse a realidade banal com um pouco mais de arte. O material utilizado foi o mais básico e prosaico possível: marmitas de alumínio e a sobra da comida do fim de semana. O mundo moderno e seu tabus ocultos permite ótimas diversões pra quem curte criar situações.

Domingo à tarde já estávamos com tudo pronto: quarto marmitas cheias macarronada. O alvo: a C&A na segunda à tardinha, assim que todos tivessem abandonado seus trabalhos forçados. Faríamos uma operação sicronizada. Cada um levaria uma marmita e estaria com um relógio marcando a hora corretamente. Cada um abriria sua marmita em um setor diferente da loja com uma diferença estratégica de cinco minutos, o suficiente pra deixar os funcionários doidos em sua correria.

Seis e meia eu sento no setor de calçados, logo depois de dizer à atendente que estava apenas olhando os modelos e puxo minha marmita de macarrão. A funcionária fica visivelmente constrangida sem saber se fala algo ou não. De canto de olho vejo que ela se dirige ao segurança e pergunta algo. O segurança fala ao walktalk e cochixa ao ouvido. Foi mais rápido do que eu esperava.

- Moço, eu sinto muito, mas aqui não é o lugar adequado pra fazer uma refeição.

- Porquê?

- Sabe como é, tem os outros clientes e pode ser que alguém não se sinta muito à vontade.

- Sentir-se muito à vontade? Quem não está se sentindo muito à vontade aqui sou eu.

- Senhor, procure entender...

- Moça, preste bem atenção, se o filho daquela mulher de vestido vermelho que está experimentando as sandalhas, quiser comer as batatinhas fritas que a mãe dele tem na bolsa, não vai poder?

- Mas senhor, é diferente...

- O que é diferente? Pelo que me consta aquelas batinhas tem muito mais cancerígenos que esse belo macarrão feito com todo amor e carinho por minha mãe.

A discussão estava se prolongando por mais tempo que a pobre funcionária planejara e o segurança logo se deu por conta disso e veio em seu auxílio.

- Algum problema?

Nem deixei a moça responder.

- Claro que estamos com um problema, um problemão! Parece que o filho daquela mulher ali de vermelho não está podendo comer seus salgadinhos.

- Não é isso, o problema não é com o menino... (a funcionaria começou a ficar realmente nervosa)... esse senhor aqui não quer entender que isso aqui é uma loja de departamentos e não um restaurante!

- É claro que isso não é um restaurante, não comprei essa macarronada aqui, não roubei ela de lugar algum e não vejo porque não comê-la.

O segurança era um daqueles típicos grandalhões seguros de si e sem medo algum que as discussões descambem pra violência.

- É o seguinte seu panaca, acho bom você levantar daí meio logo antes que as coisas se compliquem de verdade pro teu lado.

- As coisas não podem se complicar muito, comer macarronada é uma tarefa extremamente simples.

- Rapaz, eu não tô aqui pra conversa fiada não, tenho mais o que fazer.

Nisso começou a me puxar violentamente pelo cangote; pelos meus cálculos o Jean já estaria abrindo sua marmita no setor das calçinhas e sutiãs. Hora de chamar pelo gerente, sem esquecer da salutar dose de escândalos, para que não só o gerente deixe de vir e ainda leve umas porradas na saída de serviço ou no depósito.

- Ô seu macacão, eu quero falar com o gerente!

- Cala a boca rapaz!

- Calo a boca o cacete!! (eu já estava começando a gritar) Compro nessa loja à anos, nunca atrasei um pagamento e exijo a presença do gerente!!!

Nisso alguém chamou ele pelo rádio e me tranquilizei sabendo que o Jean tinha se manifestado. O grandalhão me soltou pra falar no rádio e pude me recompôr. O gerente já estava vindo. Finalmente eu veria como se saem os gerentes quando os problemas saem da rotina.

- Com licença, posso saber o que está acontecendo aqui?

Nessas horas um bom arruaçeiro deve saber se comportar dignamente e utilizar aquela cartinha bem educada que estava guardada na manga.

- Senhor, está ocorrendo um grande equívoco.

Nisso uma pequena multidão de curiosos já começava a se formar ao nosso redor.

- Essa funcionária, que me atendeu muito bem, diga-se de passagem, confundiu tudo e não permitiu que eu desse uma leve enganada no estômago antes que escolhesse um par de tênis, estava realmente me interressando por aquele Nike de 349 Reais.

- Mas senhor, tudo bem que você esteja um pouco faminto, nesse caso era só comunicar algum de nossos funcionários que prontamente conseguiríamos um lugar mais resevado para fazer sua refeição, o senhor concorda?

- Não! Não concordo não! Quer dizer que o menino vai ter de sair da loja pra comer seu salgadinho?

- Creio que o senhor não está entendendo.

- Do meu lado eu creio que alguma coisa muito errada está acontecendo aqui, este não é um ambiente em que eu, como cliente em potencial, não deveria estar me sentindo em casa?

- Mas senhor...

E aí começou toda uma ladainha gerencial cheia de palavras bem colocadas & chavões de bom atendimento & aquele velho papo furado de que "o direito de um acaba onde começa o direito de outro". O Jean devia estar se saindo bem, pois uma funcionária veio falar ao ouvido do gerente e os seguranças (agora eram três) desciam apressadamente as escadas em direção ao setor de moda masculina. Era o Vinicius e olha que o Vinicius é muito mais sarcástico e panfletário que eu.

O gerente gaguejou pela primeira vez, pediu pra funcionária que tinha me atendido que ficasse um pouco comigo e pediu licença prometendo voltar em poucos minutos. A menina ficou comigo sem dizer uma palavra, totalmente indignada pela situação. E eu contendo a vontade de rir; bem que alguém podia chamar a polícia para as coisas começarem a realmente ficarem grandes. Grande dia! Grande dia!

O combinado era que assim que a quarta marmita fosse aberta pelo Fábio no térreo, quinze pra sete, todos fossem para lá e daríamos abraços e beijos em todos. Foi um plano perfeito, diga-se de passagem, devíamos ter filmado a coisa toda, mas tudo bem, essas coisas vão ficar fotograficamente registradas em nossas memórias para o resto de nossas vidas.

O gerente estava demorando e a funcionária estava muito inquieta.

- Querida, pode dar uma volta pra relaxar que não tem perigo de eu voltar a comer, quer um pouco?

- Não, obrigada, respondeu ela, com a melhor cara de nojo que conseguira.

- De nada, baby.

Nisso bateu as sete e quinze e levantei-me de onde estava sentado. A funcionária deu um salto assustada de onde estava e logo voltou a sentar-se, reconhecendo o ridículo da situação. Triunfantemente dirigo-me ao térreo onde o Fábio estaria sem enxergar um segurança sequer, deviam estar todos ocupados.

Encontrei a galera toda reunida com o Vinicius ainda discutindo com o gerente sobre o conceito de lugar públicos e privados e uma considerável multidão em volta. Eu tinha panfletos no bolso. Gosto de carregar certos panfletos no bolso. Jamais esquecerei a cara de tacho que o gerente fez quando o Vinícius fez uma cara de bravo, falou que não discutiria mais e catou nossas marmitas e jogou no lixo mais próximo.

- Realmente vocês tem razão! Este é um sagrado lugar de comprar onde não se deve nunca, jamais, cometer a heresia de não gastar. Senhor gerente! Estes três delinquetes juvenis são meus irmãos e o senhor pode ter ser certeza que contarei tudo, tim-tim por tim-tim para nossa mãe e esses três marginaizinhos ficarão pelo menos um mês sem comer macarrão.

Então começamos a nos dirigir para a saída da dando tchaus e beijinhos em todos os curiosos que estavam com algum sorriso no rosto. Disturbios Cotidianos são aquilo que eu considero mais divertido ultimamente. Antes de sair, virei-me para trás e joguei todos os panfletos com a frase "Seja realista, exija o impossível" que tinha no bolso, falando em alto e bom tom:

- Um forte abraço para todos vocês!!!!


O Crime Não Compensa - (ato dois) Editar

Ainda não tínhamos analizado a arte sob a ótica do Distúrbio Cotidiano até que Sergio Augusto, nosso amigo das antigas, metido a artista plástico, chegasse do interior com dezenas de colagens, frutos de seus trabalhos mais recentes. Digo que ele é metido a artista por considerar que chamar alguém de artista plástico hoje em dia equivale a xingar os parentes do sujeito até a oitava geração ascendente. Me chame de filho da puta, mas não me chame de artista. A arte escontra-se mercantilizada, afetada, eletizada, enfim, totalmente corrompida de sua original função transgressora.

Os trabalhos do Sergio estavam bons demais para serem vendidos a um advogado ou a algum empresário do ramo das seguradoras. Todos nós éramos unânimes quanto a isso, mas o consenso sumia quando pensávamos em qual destino adequado a uma autêntica obra de arte. O Vinicius queria queimá-los em praça pública por considerar que a arte autêntica deveria soar como uma heresia. E o destino dos hereges é a fogueira.

O Fábio considerava que o ideal era solenemente esquece-los no Terminal de Ônibus do Boqueirão. Eu cogitava a hipótese de enviá-los pelo correio a destinatários escolhidos ao acaso na lista telefônica. Após horas e horas de papo intelectual besta foi o Jean quem veio com a idéia definitiva: o crime, a ilegalidade, o impacto de um Terrorismo Poético ou de uma Arte-Sabotagem.

Invadir uma casa e pregar os quadros na parede, substituindo os eventuais quadros que já estejam lá.

Ótimo. Perfeito. Explêndido. Só tinha um problema, uma questão crucial: nenhum de nós jamais tinham invadido uma casa e a possibilidade de sermos pegos ou dispararmos o alarme era altíssima.

- Seria se eu não tivesse uma carta na manga, não teria tido essa idéia se já não pensasse numa solução.

- E qual é? Você conhece algum ladrão?

- Não! Mas você lembra da Juliane, que eu agarrei a uns tempos atrás?

- Aquela patricinha que fazia direito na PUC?

- Exato! Faz uns quatro meses que a gente não se vê, mas... Bingo! Tenho cópias das chaves da casa dos pais delas!

- Não acredito!

- Não boto fé!!

- De onde vocês acham que eu tirei aquele candelabro de prata que a gente vendeu pra poder acampar na Serra dos Órgãos?

Genial. Um plano perfeito (e sempre fomos viciados em planos perfeitos). Analisando friamente, não era um plano difícil de levar a cabo. Era só escolher o dia e a hora certa e ter muita cara-de-pau, o que, modéstia à parte, nunca nos faltou.

O mais difícil foi convencer o cagão do Sergio a ir junto, já que consideráva-mos sua presença fundamental. Deveria ser ele o Maravilhoso Vândalo a pregar o primeiro prego na "parede da burguesia". Alguma pesquisa e alguns telefonemas depois e pronto: domingo à noite a família inteira da Jú estaria num jantar no Clube Sírio-Libanês de Curitiba.

O pior é que o sergio demorou mesmo a se convencer, ainda tava naquelas de sonhar com vernissages e resenhas em cadernos culturais.

- Sergio, isso é só um brinquedo, um exercício para depois sonhar mais alto. Se nada der certo, valeu a diversão e a sensação de fazer algo.

Ontem, domingo, lá pelas nove e meia da noite estávamos todos prontos. Mais ou menos prontos, pois nossas mãos suavam de cagaço. Podíamos muito bem ser presos. Minha mãe diria que DEVERÍAMOS ser presos. O Jean já conhecia bem o bairro e a casa, tinha namorado a Ju por uns três meses. Isso me tranquilizava um pouco. Mas não tranquilizava o Fábio. O Cara tava cagado de medo.

- Não tem alarme lá não, cara?

- Tem, só que fazia um ano que o vô da Ju não trocava a senha, o velho é meio supersticioso, se trocou agora é muito azar, tá ligado?

- Puta que o pariu!

- Não dá nada, cara, não dá nada.

O cara que falou que o crime não compensa é um puta de um mentiroso. Compensa pela adrenalina. A Juliane morava no bairro do batel e fomos de ônibus. Não conversamos nada a viagem toda, tamanho era o clima de tensão no Interbairros I. Grandes invasores! Grandes Terroristas Artíticos. Um bando de cagões, isso sim.

Descemos e contornamos a quadra até a rua paralela que daria nos fundos da casa. Escalamos um muro que dava em um estacionamento para funcionários de uma loja de sapatos que estava fechada.

- Não tem vigilante aqui?

- Cala a boca!

Escalamos a "Churrasqueira de Confraternizações" da loja de sapatos e encaramos a parte mais difícil do plano do Jean, que era a cerca eletrônica da casa da Ju.

- Esse troço dá um choque de uns 100 volts.

Um de cada vez, nos agarramos num galho de uma mangueira e pulamos, quase nos estoporando no chão do pátio. Salto mortal mesmo. Eu pulei na boa. Pulou o Fábio numa boa também. Depois o o Vinícius eo Jean. Mas o cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto caiu todo errado e torçeu o tornozelo.

- Aaaaaaiiii!!!!!!!

- Cala a boca seu paunocuú!!!! - susurramos todos.

- Quer foder com tudo?

- Mas tá doendo, porra!!

- Te fode cara, aguenta as pontas!

O Jean estava realmente com pressa e nem nos deixou discutir.

- Vamos correndo por esse corredor que tem um trinco maneiro na janela do banheiro do quarto da Ju.

- E as chaves?

- As chaves são pra nós saírmos, é muito bandeira um bando de malucos entrar numa mansão dessas pela porta da frente.

Realmente era muito fácil. Com um simples pauzinho o Jean empurrou alguma coisa e a jenelinha do banheiro se abriu.

- Agora vocês ficam aqui que eu tenho quinze segundos pra desligar o alarme!

Ficamos. E olha que o cara demorou pra caralho. a cada segundo parecia que o alarme ia disparara.

Todo mundo se olhava nervosamente. O Fábio estava prestes a sofrer um ataque cardáco. O Sérgio só gemia com seu tornozelo torçido.

- Ou torçeu o tornozelo ou quebrou mesmo.

- Cala a boca, sua bixa!

Devem ter passado uns trocentos minutos até que o Jean apareceu na janelinha do banheiro com a cara mais safada do lado de cá da Galáxia.

- Beleza galeraaa!!!! O alarme tá desligado.

- Urrúúúú!!!!!

- Calem a boca seus paunocús!!!!

A casa era de burguês mesmo. A Juliane tinha mais dois irmãos e cada um lá, com seu quarto individual, com banheiro e tudo em cima, som, TV, micro. Filhos da puta. tinha tudo: sala de leitura, sala de home teatcher. Bem que podiam fazer uma sala para peidar, uma sala para se masturbar. Deu vontade de quebrar tudo ou pelo menos roubar um monte de coisas, mas o objetivo não era esse.

Trocar os quadros que já estavam na parede era fácil: o Fábio e o Vinícius já estavam fazendo isso.

Pregar novos pregos e modificar o lay out de tudo é que era o desafio. Pra isso dar certo só faltava o último ítem do plno do Jean: a empregada. O quarto da Rosicleide ficava lá nos fundos, as chances dela ouvir nossos cochichos eram baixas, mas pregar coisas nas paredes era bem mais foda.

A esperança do Jean era que, conhecendo ela do jeito que ele conhecia, ela tivesse dormindo ouvindo seu sonzinho. Ela quase sempre fazia isso. Fim de semana sozinha em casa então: era batata. Jean voltou correndo feliz:

- Massa! Ela tá ouvindo Bruno & Marroni!!

Foi então que o Sergio solenemente, com todo o senso de gradiloquêcia que a situação exigia, pregou o primeiro prego. No lado esquerdo da lareira. No lugar exato que ele cuidadosamente escolheu. Ali, no seu ponto escolhido, pregou sua obra preferida. Nós pregamos todos os outros pregos enquanto ele ficou ali, vivendo seu momento único com a obra que mais admirava.

Não demoramos muito. O sucesso do trabalho dependia da velocidade, mas posso te garantir que o Sergio viveu seus três minutos de perfeição. Por três minutos viveu sua própria arte e a arte, exaltada em sua essência, viveria ali por ele, quando todos nós fugíssemos do lugar.

O que não demorou. era o Jean quem dava as ordens.

- Toque de recolher, povooooo!!!!!

Começamos todos instintivamente correr pra janelinha do quarto da Ju quando o Jean nos lembrou: "O alarme tá desligado e eu tô com as chaves seus manés". Saída triunfal pela porta da frente. Tomando o cuidado para deixar tudo fechado, é claro. Saímos todos em silêncio com os respectivos peitos estufados.

Foi só chegar na rua que o cagaço bateu de novo, saímos correndo feito uns loucos. Corremos umas trÊs quadras e começamos a correr e rir feito uns loucos. Foi só um começar a rir que ninguém mais conseguiu parar. O Sergio até curou o tornozelo e garagalhava demencialmente. A adrenalina e o cagaço eram tantos que corremos por umas duas horas. Foi massa.

Hoje é segunda feira e estou aqui no trampo com as pernas todas doídas da correria. Ninguém consegui dormir à noite. Sono do caraaaalho e ainda não sei explicar direito o significado do que fizemos, mas me sinto feliz. Muito feliz. O cara que falou que o crime não compensa é um puta de um mentiroso.


O Foto do Tijolo na Vidraça Todo Mundo Acha Bonito (mas o tijolo na virdraça mesmo...) - (ato três) Editar

Uma vez li em algum lugar, acho que no site da Fraude: "sempre se envergonhe daquilo que você escreve". É assim que funciona comigo quanto à poesia. Passa um ano, um ano e meio e são raros os poemas que eu leie e não me envergonhe. Já faz um tempão que não escrevo poesia e o primeiro sujeito que me aparece dizendo que a poesia está morta já vou aplaudindo.

Outro dia eu estava andando no calçadão da Quinze e apareceu um cabeludo ofereçendo livrinhos de poesias por dois reais. Soltei meu chavão preferido:

- A poesia está morta! E só curto necrofilia quanto tô bêbado.

O que anda me desanimando na poesia é justamente isso: a gaiola onde ela anda aprisionada. Você escreve lindos versos e, ou os deixa na gaveta, dando-lhes vida apenas nos momentos em que lhes dá atenção, ou então você os explora feito o cabeludo do calçadão, imitando aquelas senhoras pobres que levam seus filhos pra esmolarem no centro da cidade e ficam cuidando escondidas na esquina, recolhendo as moedas dos filhos a cada meia hora.

Andei pensando muito nisso porque depois da invasão da casa da Ju, o Fábio ficou meio traumatizado devido ao estresse e à overdose de adrenalina e andava escrevendo feito um aluscinado. O poeta oficial da turma sempre foi o Sergio, com seus arroubos de paixão, só que ultimamente andava se ocupando demais com as telas.

- Ari, a gente podia fazer alguma coisa com as poesias...

- Fazer o quê, Fábio?

- Sei lá, tipo alguma coisa parecida com o que a gente fez com as telas do Sergio.

- Que tal a gente xerocar uma porrada de poemas e colocar cada um dentro de um livro na Biblioteca pública, O Tiba trabalha lá e dá pra gente fazer.

-Não, nada a ver, isso é idéia de gerico.

- O quê então?

- Sei lá... Vamos pensando, porra.

O Sergio torçeu o tornozelo de verdade naquela noite. Na hora da correria não sentiu nada, mas no outro dia o negócio amanheceu inchado, teve até que ir no postinho de saúde enfaixar. A semana passou então com todos meio que recolocando as idéias no lugar. A invasão porém, foi um sucesso e ninguém estava a fim de parar. Foi na quinta-feira, quando o Sergio tirou as faixas do pé que saimos pra beber e comemorar que o Fábio veio com mais uma Fantástica Idéia & um Plano Perfeito.

- Galera! Já sei o que fazer com as poesias!

O Jean deu sua coçadinha de barba típica:

- Ih! Já tá viajando de novo!

O Vinicius sempre foi mais ácido:

- O Fábio tendo idéias? Dessa vez a gente cai com os hôme!

- Vão se fuder! O Plano é perfeito. Ouçam crianças: a gente escreve cada poema, no caso eu escrevo, à mão, em papeizinhos pequenos. Depois a gente amarra os poemas com linha de costura em bolinhas de gude e, com um estilingue e... (fez uma pausa para o suspense)... fizemos a distribuição nas vidraças da classe média.

Perfeito! O terrorismo poético que o Hakim Bey falou.

- Olha a do cara, meu! Tava todo cagado de medo por ter arriscado o pescoço domingo e agora já quer sair quebrando vidraças por aí!

- Se é pra fuder, vamos fuder com tudo de uma vez, porra!

Curti a idéia pra caralho. O Fábio é o tipo do cara que fica na dele a maior parte do tempo e de repente surpreende a gente.

- Eu consigo façinho umas cinco bicicletas lá em Colombo, depois a gente compra aquelas tocas pretas que os Zapatistas usam, vamos todos vestidos de preto e com luvas pra dificultar a identificação e pronto!

Gostei da idéia mesmo e nos dias seguintes ficamos tratando de conseguir o material, algumas roupas pretas emprestadas e tocas e luvas a cinco reais nos camelôs da Praça Osório.

Vinicius escolheu o bairro: Jardim Social e fez um mapinha esquematizado com rotas & fugas. Eu e o Sergio iríamos pela BR 116 com três poemas e pixaríamos cada um deles em algum ponto do trajeto. O Jean e o Vinicius iriam pela Av. Nossa Senhora da Luz com outros três poemas e a mesma tarefa com o spray. Idéia de quebrar o orçamento do Sergio: cada poema pixado com uma cor diferente, idéia besta de artista plástico besta, azar o dele, teve que pagar os sprays.

Fabio ficou com o último poema pra fechar o número sete, pois anda pirando com o Calendário Maia e umas paradas de numerologia. O cara tem umas piras com o número 23 que ninguém bota fé. Ele iria sozinho, à deriva, sem rota planejada e iria nos esperar às quatro da manhã na Praça Villa Lobos, de onde fujiríamos feito uns loucos novamente.

Logo depois da meia-noite eu e o Sergio partimos com nosso material terrorista. As bicicletas que o Fabio conseguiu pra nós eram umas belas bostas. A minha escapava a correia a cada duas quadras e a do Sergio era cor-de-rosa, altamente gay. Mas tudo bem, lá fomos nós BR à fora escolhendo lugares pra pixar os poemas.

Não posso dizer que fizemos um trabalho bem feito. Nossas bikes eram uma merda e meu colega, basicamente um inexperiente em vandalismos & delinquências. O primeiro poema ficou num muro de um terreno baldio meio nada a ver. O segundo foi melhor, foi numa daquelas passarelas pra pedestres que atravessam as rodovias. Foda foi escrever de cabeça pra baixo.

O terçeiro foi mais massa. Pulamos um muro e pixamos do lado de dentro. Vandalismo exclusivo. Não é pra qualquer um. E o poema era bom, pixado de vermelho vivo. Muito louco.

Fiz uma gambiarra pra correia parar de escapar e tivemos que pedalar às ganhas pra chegar no Jardim Social às três da matina. O Sergio carregava os "Cartuchinhos Líricos" como eu chamava os poemas amarrados em bolinhas de gude e o estilingue. Eu iria atirar, já que ele nunca tinha caçado passarinho na vida. Se o Sergio fosse atirar acho que precisaria de uns 49 poemas pra acertar uma vidraça de 10 metros de largura a quatro passos de distância.

A primeira casa foi fácil: a vidraça era grande e o muro era perto. Um facilidade traiçoeira, pois fizemos a coisa rápido demais, sem pensar na fuga e a filha da puta da rua tinha uns duzentos metros até a próxima esquina. Correria dos diabos. Foi ouvir o som da vidraça quebrando e parece que o peso da realidade se abateu sobre nós, sobre mim principalmente.

Corremos umas cinco ou seis quadras, aí parei e joguei o segundo poema de qualquer jeito, quase de olhos fechados e quase sem pensar. Eu parecia o Fábio na casa da Ju, cego & paranóico de cagaço. Nem lembro da casa direito, ouvimos os estilhaços e saímos correndo alucinados de novo.

Dessa vez corremos bem mais até eu achar um muro que desse num terreno baldio.

- Rápido cara, joga a bike pro outro lado!!

- O que foi? - Sergio parecia irritantemente calmo.

-Joga, cara! Joga!!!

Jogamos as bicletas e sentei ofegante no meio de um mato de ervas daninhas. Estava exausto e apavorado. Na casa da Ju era um lugar fechado que o Jean conhecia bem. Agora era diferenre, estávamos na rua, onde qualquer insone podia enchergar da janela do quarto e não conhecíamos o bairro direito. Acendi um cigarro. Minhas mãos tremiam.

- Temos que apurar, Ari, senão a gente se atrasa.

- Calma!

- Já são dez pras quatro e você acha que a polícia vai demorar muito mais de cinco minutos pra aparecer?

Aí parece que a realidade desabou novamente sobre mim. Era verdade, a mais pura verdade. Então parece que um raríssimo senso de heroísmo se abateu sobre mim. Corri uns cinquenta metro pelo matagal e pulei um muro altíssimo (sinceramente, não sei como consegui) que dava numa casa nos fundos do terreno. Caí no pátio e fiz tudo automaticamente sem raciocinar, o tipo de coisa que se você pensa, você não faz. Na janela que dava naquilo que eu achava ser o quarto dos donos da casa estiquei o estilingue e, a menos de dois metros de distância, soltei o projétil. Deu pra sentir os cacos de vidro no rosto. E deu pra ouvir gritos dentro da casa. Parei o mundo deles, rêrêrê.

Juro que nunca corri tanto na vida. Tinha uns espinhos no matagal e me arranhei todo sem nada sentir na hora. Magicamente o Sergio já estava esperando com as bicicletas do outro lado do muro. Mirei o olhar numa placa de trânsito no fim da rua e pedalei com todas as minhas forças. Nem olhei pra onde o Sergio estava e nem olhei pra nada. Foi então que a porra da correia escapou de novo e no pau que eu estava me estoporei no chão.

Mesmo com a tocas de lâ meu rosto arrastou no asfalto e ralei o nariz e machuquei o cotovelo.

- Você tá bem cara? Se machucou?

- Foi nada, bora, bora, bora!!!!

- Tem certeza?

A adrenalina era tanta que eu não estava sentindo nada. Chegamos na praça já estavam todos esperando impacientes.

- Porra cara, vocês demoraram pra caralho!

- Pensamos que vocês tinha sido pegos.

- Que diabos vocês estavam fazendo?

- O Fabio ainda tem que jogar o dele!

- Que foi isso no teu nariz, Ari?

Nisso ouvimos as sirenes da polícia. Puta que o pariu, a hora do Amargedom. O Fábio saiu correndo em direção a uma mansão do outro lado da praça. O meu coração parecia que ia sair pela boca. O Jean olhava para os lados nervosamente. O Fabio correu, subiu num muro alto, esticou o estilingue, fechou um olho, deitou a cabeça pro lado acertando a pontaria e gritou:

- Bota pra fudêêeeeer!!!!!

Ouvimos o som da vidraça partindo e já saímos no pau. O som das sirenes já estavam bem alto e o alarme da mansão disparou, apoclíptica a cena. O Fábio tava ficando pra trás, mas ainda deu pra ouvir ele gritando:

- Fujam que eu dou um jeito!!

Se a gente tivesse um cronômetro na hora acho que teríamos batido altos recordes de velocidade.

- Iaba daba dúúúú, me alcançem seus paunocúúúú! - Gritou o Vinicius se cagando de dar risada.

- Corra, Forrest, corra! - Respondeu o Jean.

Em menos de dez mintuos estávamos todos sentados no escuro, ofegantes, na frente do Jardim botânico. Quer dizer, todos menos o dono da bicicleta da correia podre, eu, que levei outros dez minutos pra chegar. Dessa vez não ríamos tanto quanto na semana passado porque o Fábio tinha ficado pra trás. Quase ninguém falava nada, até que o Jean foi num posto de gasolina próximo buscar umas cervejas e voltou com o Fabio no bagajeiro. O desgraçado escapou!

- Seus boiolas! Eu tava brincando quando falei pra fujirem sem mim.

- E a bicicleta?

O cara, emocionado com sua aventura, disse que tava tão feliz que deixou ela num viaduto de presente pro primeiro que a encontrasse, com uma sacolinha plástica cheia de panfletinhos com a frase: "Seja realista: exija o impossível" e veio andando até que o Jean o encontrou.

O Fabio realmente ficou em êxtase. Fomos andando a pé até a kitinete do Jean e do Vinicius bebendo uma cerveja de cada boteco que encontramos pelo caminho. Chegamos em casa oito e meia da manhã, selvagemente bêbados & feliz. Êita mundinho estranho, sô!


Quarenta e Dois Decibéis de Exorcismo - (ato quatro) Editar

Assaltantes de banco são o tipo de bandidos mais respeitados pelos colegas de cadeia. Ao contrário dos estupradores, que, dizem, tem seus cuzinhos comidos lá dentro, assaltantes de banco tem uma puta moral nos presídios. Isso porque todos sabem que banqueiro & ladrão são a mesma coisa. Sempre se soube de histórias de pessoas que deviam os tubos a bancos e cometeram suicídio. Crise financeira sempre foi a maior causa dos suicídios. Eu diria que bancos são contra a vida: definitivamente são lugares do mal.

Depois da aventura das vidraças quem ficou com sequelas físicas fui eu. O nariz todo vermelho de ralar no asfalto & o cotovelo direito doendo e inchado. Queria agora alguma coisa com menos riscos de tombos. O Fábio não cabe em si, de tanto orgulho do nobre destino que seus poemas tiveram. Está Feliz & definitivamente convertido aos Distúrbios Cotidianos.

- Me sinto um rei, um monarca dos meus atos loucos.

- Viajão!

- Você não tem espelho, não?

- Meu espelho são meus atos, neles eu me reconheço, rárárá!

Fábio já é um típico chato contador de vantagens, depois de sábado então, ninguém atura mais suas explosões de lirismo de boteco.

- Pessoal, eu tava afim de uma coisa mais light durante a semana.

- Que foi, Ari, tá com medo?

- Mais ou menos, sábado foi muito foda.

- O quê então?

- Tava afim de abençoar um banco de novo.

Vinicius, que tinha achado engraçada a história do dia em que eu tinha me vestido de padre e entrado num banco, concordou no ato.

- Claro, véio! Tô doido pra participar de um negócio desses!

- Quero ser o coroinha, falou o Jean.

- Eu faço um catecismo, com uma capa louca!!- Gritou o Sergio da cozinha, onde estava fazendo uma de suas indefectíveis tortas de maçã.

O Fábio mora em Colombo e sua mãe é costureira, entreguei meu vestidão preto de 27 Reais que ainda estou devendo na firma, pra mãe dele dar um jeito pra que fique o mais parecido possível com uma batina. Ele diria a mãe que era pra uma apresentação de teatro. Não deixa de ser. O Sergio ia fazer umas hóstias, dessa vez ia ter que ter hóstias. Superprodução, com participação do time completo.

O alvo seria o Banco Santander da Av. Floriano, durante a semana na hora do almoço, quando todos estivessem livres de seus Trabalhos Forçados ou Aulas Alienantes.

A batina ficou espetacular, tinha até uma cruz prateada bordada no peito. Jean conseguiu outro candelabro de prata que tinha roubado da casa da Juliane, um vidrinho vazio de óleo de oliva importado para a água-benta e uma roupa para atuar de coroinha. Quando tentei exorcizar um banco, fui logo expulso do local porque minha roupa era altamente mandrake e minha água-benta estava numa garrafa de Coca-cola, tava na cara que eu não era um padre.

Agora seria diferente, nossa indumentária era decente. Vinicius queria ser o padre, ficou dois dias decorando umas passagens do Apocalipse e rabiscando sermões.

O sermão do caixa-eletrônico. O sermão da fila organizada. O sermão do saldo zero e por aí vai. Eu,o Fábio & o Sergio seríamos os fiéis penitentes, inadimplentes do Imposto de Renda.

- Não pagamos impostos, mas amamos Jesus Cristo Nosso Senhor.

Nos encontramos em frente ao banco cinco para o meio dia. Logo na entrada: o saguão dos caixaseletrônicos.

O Vini/Padre andava lentamente e com uma expressão grave inacreditável. Usava uma barba postiça e uns óculos redondinhos pra lá de cômicos. Quase caímos na garagalhada quando o vimos. O Jean de cabeça baixa, com a humildade conveniente a um coroinha iniciante, hilário. Aproximaram-se do primeiro caixa.

- Que Deus abençoe e livre a alma de quem se aproxima desta máquina criada para o mal.

Uma menina que estava no caixa ao lado deu uma risadinha, mas logo tapou com a palma da mão. Um senhor idoso, que estava mais longe e que não estava conseguindo digitar seus dados direito pergundou surpreso:

- O quê?!

- Que Deus perdoe a pobre criatura, cientista ou engenheiro não sei do quê, que projetou esta máquina satânica.

Todo mundo no saguão já estava olhando. O padre entoava umas orações com a voz baixa, quase sussurrando enquanto o coroinha abeçoava as máquinas com sua água-benta. Uma das meninas que auxiliam os clientes chegou perto, toda educada & com um sorriso magnífico.

- Posso lhe ajudar em alguma coisa senhor?

- Deus lhe abençoe minha filha, como entro na agência?

- Pela porta rotatória, senhor, se tiver carregando alguma coisa metálica, como um molho de chaves por exemplo ou telefone celular, deixe na janelinha ao lado está bem?

- Obrigado.

Deixaram os apetrechos de metal na janelinha e entraram sob o olhar desconfiadíssimo do guarda de segurança. Eu e os outros olhamos de longe e entramos logo depois. O Padre & Seu Coroinha distribuiram os catecismos aos clientes que estavam na fila. O catecismo trava-se de um cartão dobrado ao meio, com um desenho colorido do Sergio na capa e com o seguinte texto dentro:

"A maior parte do dinheiro no mundo não existe, não tem ligação alguma com nada material. No entanto, tem uma influência decisiva nas coisas materiais. Inclusive em nossas vidas. Essa é a mais perfeita descrição de uma entidade espiritual. Uma entidade do bem certamente não é, dadas as desgraças que o dinheiro causa ao mundo. Com certeza essa entidade não está do lado de Deus. É um demônio, trazendo a miséria & a injustiça ao mundo. A fome, as guerras & o sofrimento. O dinheiro é o mal"

Um catecismo simples, mas eficiente. Todo mundo na fila comentava algo com o vizinho, uns rindo e outros com sinais de desprovação. Alguém deve ter dado a ordem, pois uma atendendente veio imediatamente acompanhar o Reverendo Vinicius & Seu Coroinha.

- Não esqueçam, irmãos! Deus reserva o perdão às almas arrependidas. A entrada do céu é estreita, porém não se cobra ingresso, não há consumação & o Paraíso é infinito.

- Amém, esclamamos eu, o Fábio e o Sérgio, cada um em um ponto estratégico da agência, formando um triângulo.

A questão é que se a princípio a gerência deixou nosso teatrinho rolar solto, era porque não sabia se tratava-se de um padre mesmo ou não. Jamais um gerente de banco iria faltar com educação com um padre na frente de seus clientes. Só que depois que o "padre" começou com aquele sermão estranhíssimo ficou claro que alguma coisa estava errada.

- Você está com oitocentos e não sei quantos reais negativos na conta? Não se preocupe, Deus não consulta o SPC.

O Jean estava distribuindo as hóstias aos sorridentes clientes que visivelmente estavam adorando o sermão do simpático pároco anti-capitalista, quando o gerênte aproximou-se. Mas o Universo de repente conspirou a nosso favor e na hora que o gerente falaria, uma senhora baixinha com uns 70 anos o interrompeu.

- Padre, Deus que me perdoe, mas acabei brigando com meu neto por não lhe dar o dinheiro que ele queria.

- Acalme-se minha senhora, sem saber, a senhora o ajudou.

- Mas senhor... (o gerente parecia atônito, muito mais que o gerente da C&A do dia das macarronadas)... vamos conversar um pouco?

- Conversar o quê, irmão?

Então um dos guardas de segurança passou pra ele um exemplar de nossos catecismos. Ele pôs os óculos e leu em silêncio, compenetrado. O negócio durou uns segundinhos apenas e o gerente olhou pro lado em direção a três seguranças que, no fundo da agência, já estavam doidinhos pra serem chamados. O maior deles veio correndo.

- Estes rapazes resolveram “brincar” de padre no lugar errado, chame por favor um policial que está de plantão do outro lado da rua.

Sujeitinho esperto & decidido, se ligou mesmo que era sacanagem nossa. Tirei o chapéu pra ele, mas de nossa parte resolvemos tirar o time de campo e zarpamos pela porta rotatória. O Jean mandou sua função de coroinha à merda e tentou sair pela tangente rapidinho também. Na hora em que estava saindo da agência o segurança grandão o agarrou pela roupa de coroinha.

- Onde pensa que vai?

- Tenho que voltar ao trabalho...

- Não sem ouvir umas verdades antes.

Então, na maior das intolerâncias, deu um tapa na cara do Jean, tão forte que o coitado chegou cair de costas no chão. Fábio viu o que estava acontecendo e voltamos correndo pro banco.

- Solta o cara, seu otário, ele não fez mal algum!

- Não se meta!!

- Me meto sim, não gosto de injustiças.

Enquanto o Fábio discutia com o segurança, eu e o Sergio juntamos nosso colega e o arrastamos pra fora, finjindo que ele estava mal, muito mal. Os clientes que assistiram a cena ainda nos olharam atravessar a rua e sumir de vista, logo depois veio o Fábio.

- Sujeitinho babaca, você tá bem Jean?

- Tranquilo, não foi nada, só um susto.

O Vinicius ficou sozinho e deu um monte de explicações ao gerente, na tentativa dele não chamar a polícia. Falou que era um seminarista novato e que acreditava em cada vírgula do que tinha dito e que curtia a Teologia da Libertação e que por favor, pelo amor de Deus, não fizesse nada que seus superiores pudessem descobrir e que jurava que estava fazendo a coisa certa e que Deus abençoa as almas sinceras e mais uma porrada de coisas. Encheu tanto o saco do coitado do gerente com sua ladainha que acabou se safando.

Acabou ficando por isso mesmo, o policial chegou a entrar no banco, mas o gerente pediu para deixar quieto, que a situação estava sobre controle e que o jovenzinho estava apenas um pouco nervoso. Quer dizer, mais ou menos por isso mesmo, a velhinha que tinha negado dinheiro ao neto virou sua devota, ficou dando tchauzinhos e jogando beijinhos enquanto ele saía do banco. Acreditou mesmo na parada. E a mina da risadinha do caixa-eletrônico, se engraçou no Vini e curtiu a cena toda do início ao fim.

Nos encontramos todos no termômetro da Praça Rui Barbosa. Foi divertido pra caralho, o tipo de história que fica melhor conforme se lembra & conforme se conta. O termômetro da Rui Barbosa tem uma parada que marca os decibéis pra medir o nível de ruído da praça. Berramos de felicidade e fizemos um duelo de gritos feito uns retardados.

Jean, trinta e cinco decibéis acima do que estava marcando. Sergio e Fabio empataram, trinta e oito decibéis cada um. Eu, tomei no cú, trinta e três decibéis, estava rouco.

O grande vencedor: o Padre Louco, São Vinicius, padroeiro dos cara de pau, quarenta e dois decibéis.


Umas Surpresinhas Para Uns CD-Players - (ato cinco) Editar

Um dia uma amiga me ligou contando que tinha recebido um estranho postal. Não tinha remetente, apenas uma frase escrita com letras recortadas de revista, no estilo dos bilhetes que os sequestradores enviam. A frase era: "O mundo está estranho ou sou eu que não presto?"

Lembrei disso porque no dia em que fizemos a "missa" no banco, Vinicius pegou o telefone e o endereço da mina que tinha se engraçado nele e estávamos discutindo como ele entraria em contato. Vinicius queria usar o "Método Sérgio Augusto de Abordagem."

O método usado por nosso amigo artista plástico consiste em presentear a pessoa com estranhos fetiches pelo correio. Um CD, um cartão, um verso, uma flor, tanto faz o presente, a questão é a distância e a aura de mistério. Sérgio sempre fez isso com as mulheres, se mantendo anônimo até onde era possível. Só que com o Vini teria de ser diferente, pois não era anônimo.

- Eu posso chegar perto da casa dela e mandar um moleque entregar um bilhete num tom dramático: "Socorro, ajude-me, salve um gato na frente casa tal, endereço tal". Aí espero ela em cima de uma árvore na frente da casa.

- Ih, cara! Não sei, acho que não, ela não vai levar a sério o bilhete. - Respondeu o Jean.

O Fabio ainda tava naquela viagem dos estilingues.

- Convida ela pra sair num bilhete e manda ver na vidraça da casa dela.

- Tá viajando, cara? Ele tem uma mãe e um pai que certamente não vão gostardo teu romantismo e é provável que nem ela vai levar a coisa na boa.

No fim acabou usando a maneira mais prosaica: ligar para sair. No entanto seguimos conversando sobre mandar coisas pelo correio e o assunto acabou chegando no postal de minha amiga e em Fraude Postal.

- Taí cara! Uma coisa massa pra gente fazer fim de semana! – Gritou o Jean do canto da sala.

- Fraude postal?

- Pode crêr!!

- Não dá, veio. O correio não funciona fim de semana.

- Correio o caralho! Nós seremos os carteiros!

- Que coisa mais brega...

- Seria se não fizéssemos as coisas um pouco diferentes.

- Diferentes?

- Claro! Aos invés de deixarmos as coisas nas caixas de correio, podemos invadir o pátio ou talvez as casas e deixar em lugares estratégicos.

Grande Jeanzinho! A galera toda tava se coçando de vontade de fazer umas invasões de novo, invadir a casa da Ju tinha sido muito tesão. Só que dessa vez não teríamos manha nenhuma pra invadir nenhuma casa, seria território altamente desconhecido. O Fábio foi quem teve a idéia macabra da vez: gravar uns Cds com uns sermões do "padre" Vinicius e tentar deixar o disquinho dentro do CD-player das casas. Arriscadamente genial. O tipo de idéia perigosamente sedutora. Optamos por atacar um bairro mais da periferia com menos chances de terem alarmes.

Não deu outra passando a madrugada de sexta inteira fazendo planos e capinhas pros CDs. Vinicius foi que investiu grana no negócio, comprou dez Cds virgens e foi com o Fábio gravá-los na casa do Tharsis, que tinha o gravador. Gravou uns discursos verdadeiramente emocionados, no fim do discurço gravou aquele som brega do Evaldo Braga, “Sorria sorria” só pra avacalhar e não se levar a sério demais. Quase nos cagamos rindo ouvindo o resultado depois, ficou muito muito engaçado.

Sábado à noite pegamos o Interbairros V e fomos até o Terminal Fazendinha, desta vez com presença feminina, a mina do Vinícius, Marília é seu nome, topou ir junto. Levamos um garrafão de vinho pra beber depois e o mocamos numa árvore no parque que tem perto do terminal.

Decidimos não nos dividir e enquanto eu o Vinícius agíamos, os outros ficaram de campana pra avisar se qualquer coisa desse errado. Marília não quis ir junto de jeito nenhum. Afinal, sábado de madrugada é uma hora meio suja pra vandalismos. Muito movimento, muito gente acordada vendo TV até tarde...

Na primeira casa tudo indicava que seria moleza, todas as luzes estavam apagadas e as casas vizinhas estavam em silêncio, tudo indicava que daria pra arrombar e cada um dos outros ficou escondido atrás de uma árvore na rua. As aparências enganam, pulamos o muro e fomos em direção à janela da cozinha, que com apenas um vidro quebrado daria pra entrar. Quando chegamos perto, eis que surge um enoooorme cachorro de não sei que raça babando de raiva. Meu coração quase parou, gritei pro Vini e saímos correndo desesperados. O filho de uma cadela ainda acordou todos os outros cachorros da vizinhança. Corremos todos e abandonamos a rua.

Tentativa frustrada.

Andamos um monte até acharmos uma outra casa em condições. Tinha um puta de um jardim na frente e era bem tranquila, entenda-se: sem cachorros. Forçamos todas as janelas até que uma cedeu, quer dizer, mais ou menos cedeu, foi só puxar um pouco e o trinco na verdade quebrou.

- Deus deve ser um vândalo - Disse o Vinicius sorridente.

Entramos com relativa facilidade, o mais difícil foi achar o som no escuro munidos apenas de um isqueiro. Encontramos o aparelho no que aparentava ser o quarto do casal. Enquanto o Vinícius colocava o disquinho, escrevi a frase padrão no guarda-roupa: "Seja realista, exija o impossível". Saímos rapidinho e sem desepertar nenhum cão alerta. Sucesso total.

No fim da rua encontramos outra casa vazia. Desta vez tivemos que quebrar o vidro da janela da cozinha e o cachorro da casa ao lado latiu. Íncrível como tem cachorro nessa porra dessa cidade. Os caras ouviram os latidos e começaram a assobiar indicando perigo.

- Não dá nada, vamos nessa!!! - O Vinícius tava ficando ousado.

Entramos na cozinha e me cortei um pouco a mão com os estilhaços. O som estava na sala e desta vez não escrevi nada, o cachorro do vizinho e os assobios da galera estavam me deixando nervoso. O ousado Vinícius teve então a idéia mais imprudente da noite, talvez até da sua vida, pular o muro da casa ao lado que tinha o cachorro latindo.

- É um cachorrinho pequeno e barulhento, deve latir pra qualquer coisa e ninguém deve dar bola e além do mais parece que não tem ninguém em casa.

Não consegui convencê-lo do contrário, o povo da campana parou de assobiar e ele pulou o muro. Só que dessa vez o lazarento quebrou uma enorme de uma vidraça que fez um barulho assombroso. O cachorrinho quase se esganiçava de tanto latir. Bateu um cagaço incontrolável e fuji do local. Admito, fui covarde e abandonei um colega em pleno campo de batalha. Os outros, principalmente Marília, já estavam desesperados.

- Cadê o Vini?

- O cara fez um barulhão!! Vamos andando depois ele nos alcança!

- Nada! Vamos esperar senão vai ser foda achar ele de novo.

Uns três minutos depois ele surge com sua carinha deslavada dizendo que deu tudo certo. Ninguém quis saber de detalhes e saímos correndo todos. Corremos mais umas oito quadras até chegarmos a uma rua bem mais deserta mesmo, dessas esquecidas pela prefeitura, com os postes cheios de lâmpadas queimadas.

Sergio, sempre o mais cagão da turma, logo se manifestou:

- Nessa rua acho que entraria numa casa com voçês pra pintar umas paradas nas paredes.

- Cara de pau, fica aí!

Era uma rua bem tranquila mesmo, bem escura e com um terrenão baldio no fundo. Limpeza total. Só que a Marília começou a ter uns chiliques de nervosa e o Vinícius teve que ficar com ela, o Jean que foi comigo dessa vez. Entramos numa que estava com as janelas abertas e as luzes apagadas. Arriscado pra caralho e minhas mãos suavam. Meus colegas estavam ousando demais pro meu gosto, acho que alguém vai ter que cair pra galera se ligar.

- Jean, voçê tá ficando louco?

- Esse não é um trabalho pra mariquinhas.

Espiamos pela janela da sala, tinha um sujeito deitado num sofá dormindo embaixo de um cobertor com a televisão ligada. Pulamos a janela bem devagarinho desejando loucamente sapatos de veludo. Pé por pé analisamos a sala na penumbra e localizamos o som. Jean trabalhava enquanto olhei rapidamente os outros cômodos da casa, ainda bem, o sujeito estava sozinho e eu fiquei cuidando. O cara deitado no sofá roncava & dava um peido a cada trinta segundos. A sala tava fedendo pra cacete, tive que tapar o nariz.

- Cara, tá me revoltando o estômago. – Cochichei.

- Se você vomitar aqui eu te mato!

Quando o eject do aparelho foi pressionado, fez um barulhinho que regelou minha alma, começei a tremer incontrolavelmente, pensei que ia ter um troço.

Jean colocou o Cd bem devagarzinho e na hora que o negoçinho fechou, deu uma estaladinha que fez nosso mundo desabar. De baixo do cobertor do morador saiu um cachorrinho, acho que um filhote, latindo pra cacete, levantei de onde estava pra fujir e escorreguei no tapete. O Jean desapareceu pela janela da sala. A hora que levantei e dei uma olhada pra trás deu tempo do cara levantar o rosto e me encarar. Foda, foda, foda! Nem lembro o que se passou na minha cabeça, tá tudo meio confuso até agora, lembro apenas que pulei a janela num Cagaço Animal e cheguei na rua gritando feito um louco:

- Vamos embora! Embora! Embora!

- Cala a boca idiota!!!

O dono da casa saiu muito indignado, só de bermudão e camiseta regata com Uma Careca & Um Barrigão enormes & uma chave de carro na mão. Pulamos um muro a uns 50 metros de distância e ficamos todos em silêncio, acuados. O cara então entrou Caravan marrom podre de velha e saiu rondando o bairro atrás de nós. O cara ficou brabo mesmo, ele e seu cãozinho que não parava de latir na janela do carro.

Ficamos agachados atrás do muro um tempão. Eu estava nervoso, toda vez que alguém falava em saltar fora eu pedia pra esperar um pouco mais.

- O homem viu meu rosto, foi foda, a gente chegou a se encarar.

O Jean dava risada da minha cara e me tirava onda até me deixar louco.

- Ri baixo, cara, ri baixo!

Foi então que Vini e Marilia vieram animados dos fundo do terreno baldio.

- Gente! Dá pra siar por aqui!

Tinham achado uma trilha no meio do mato que dava num campinho de futebol. Daí foi fácil, corremos e rapidinho estávamos de volta no Mocó do Garrafão de Vinho. Bebemos & Rimos até enchermos a cara. Fábio subiu numa árvore do parque e uivou de bêbado feito um lobo. Eu bebi demais e acabei chamando o Hugo, vomitando cada vez que lembrava dos Peidos do Gordão. O Sergio que não bebe e é devoto de Nossa Senhora Dona Preguiça, dormiu. Vinicius & Marília sumiram, acho que transando em alguma Moita Anônima e o Jean ficou tocando sua mini gaitinha de boca que carrega sempre no chaveiro.

Uma melodia dormindo com a noite, pra embalar uns poucos sonhos.


O Discreto Charme de uma Briga de Boteco - (ato seis) Editar

Durante a semana que passou começamos a discutir mais seriamente os métodos e efeitos reais de nossa Panfletagem Subliminar. Em nossos últimos ataques ao cotidiano corremos riscos demais, cagaços realmente assustadores. Não esquecerei jamais o olhar daquele gordo peidorrento que me flagrou em sua sala.

Ainda por cima no domingo, durante minha infernal ressaca do vinho que tomamos na comemoração no Parque da Fazendinha, um temporal diluviano desabou sobre Curitiba com direito a toneladas de granizo. Um sinal, interpretei como um sinal.

Sem contar que a imprudência de meus colegas, em especial do Jean, Vinicius e Fabio, certamente nos colocará em sérias enrascadas se mudarmos de atitude.

- É o seguinte galera, precisamos baixar a bola.

- Com certeza! - que o Sergio fosse concordar eu já sabia.

Sergio sempre foi um cara calmo e tranquilo. Foi muito foda convençê-lo a fazer aquelas paradas com os quadros na noite da invasão. Depois disso ele ficou mais decidido, passou a ir com a gente nos ataques, por exemplo. Mas enfim, dá pra se dizer que agora ele tá funcionando como uma âncora pra gente.

O problema é o Vinícius, que na hora do pega pra capar chuta o pau do barraco e se arrisca à toa; O Jean que anda numas de se misturar e puxar assunto com chaveiros e o Fabio, que tá pirando em comprar uma arma. O Fabio até que dá pra descontar porque é só papo, tipo aqueles cachorros pequenos que latem pra caralho e não mordem.

Pra resumir a questão eu tava afim de um negócio sem riscos pra dar uma relaxada e uma acalmada nos ânimos. O Sergio, aproveitando a oportunidade, foi o que mais insistiu nos conceitos de Panfletagem Subliminar.

- É legal, fazer um discurso sem que as pessoas se liguem na parada.

- Mas o que estamos fazendo não deixa de ser isso. - Retrucou o Fabio.

- Sim, mas eu tava pensando numa coisa mais ao pé da letra, tipo TFO, Terrorismo de Formação de Opinião.

Aí a galera foi à loucura com as viagens do sujeito.

- Agora eu vi que você pirou!

- Porquê que todo artista gosta de vir sempre com essa banca de surreal?

Mas o Sergio teve uma idéia, dessas tipo eclipse, a cada noventa anos.

- Pra fazer um TSO a gente bola tipo uma peça, tem que ser um troço que choque as pessoas, que toque a pessoa fundo e que clame por discussão, tipo construir uma opinião apartir do alicerçe.

- Não tô entendendo porra nenhuma!

- A gente faz num bar, tá ligado? Num bar. Vamos todo mundo combinado e começamos a discutir e levantar certas lebres.

Taí, Sergio demorou mas chutou a gol. Armar o maior rebuliço num boteco, como se fossemos todos estranhos e começar a discutir assuntos estratégicos.

Eu chamaria esse tipo de operação de TPAO, Terrorismo de Pulga Atrás da Orelha, mas tudo bem, a idéia foi dele, tenho que aceitar.

Por fim escolhemos um boteco perto do Terminal de Ônibus do Guadalupe, no centro. Escolhemos a Lanchonete Tropical porque tava frio e chovendo e achamos o nome palhaço. O assunto seria o "arrastão" que uns assaltantes fizeram num condomínio da alta burguesia aqui em Curitiba: dicutiríamos o direito à propriedade privada. Sutilmente é claro.

Jean entrou no boteco com a Tribuna do Paraná da semana passada, pediu uma cerveja e ficou lendo a matéria do assalto. Uns minutinhos depois entrou a Marília, namorada do Vinícius, comprou uma carteira de cigarro e quando viu a reportagem que ele tava lendo comentou:

- Esses assaltantes se deram bem, hein? Devem estar na praia agora, só curtindo. Né tio? O tio dono do bar deu uma risadinha meio sem graça.

- É! ... pelo menos roubaram gente rica, né?

- É isso aí! - Pegou seu cigarro e saiu fora

Então, quando a Marília sai do bar, Jean se manifesta:

- Quer saber de uma coisa? Aqueles caras fizeram uma baita dum trabalho bem feito, nenhum daqueles riquinhos sentirá muita falta das coisas que os assaltantes levaram.

- É isso aí, s-sangue bom! - Resmungou um mendigo com seu martelinho de pinga na mão.

Então o Vinícius se encostou no balcão e pediu um pastel e um pingado, ele seria O reacionário.

- Esses filho da p-puta p-precisam se fu-fuder um pouco. - O carinha tinha que se escorar no balcão pra não cair de bêbado.

- Se eu pudesse pagaria uma cerveja pros caras.

- Só!

Vinícius então olhou com uma cara de indignado pros dois. Eu o Fábio permanecemos quietos, cada um em uma mesinha, ele com uma cerveja e eu com uma Tubaína de framboesa de 600ml e 80 centavos.

- Escutem aqui vocês dois, estão elogiando pessoas que roubaram cidadões honestos que ralaram pra comprar o que tem. Ladrão agora é gente?

- Ninguém fica rico trabalhando, tem roubar pra chegar lá, se o sujeito tem muito, pode ter certeza que é às custas de muita gente terem pouco.

- Ah, cala a boca, como você pode falar uma merda dessas? - Falou o Vinícius, já levantando a voz.

Jean baixou os olhos no jornal e ficou quieto. Então o Fábio gritou da mesinha onde estava.

- Caralho, não acredito nisso! Cidadão! Chegue aqui mais perto! - Estava fazendo uma cara de invocado e Vinicius se aproximou com uma expressão cautelosa.

- Na natureza não existem posses, todos os bichos vivem em harmonia porque nenhuma onça é dona de nenhum mato, nenhum peixe é dono de nenhum açude e nenhum pessarinho tem pagar aluguel pra fazer ninho.

O bebum deu uma sonora gargalhada e eu me meti na conversa.

- Os cachorros mijam e aquele mijado passa a ser dele, tipo fica dono.

Todos me olharam, até o dono do bar e os outros fregueses que começaram a prestar atenção na discussão. Nesse meio tempo entrou o Sergio e um engraxate que estava na porta e que começou a engraxar seus sapatos.

- Peraí rapaz, o cachorro não demarca o território como se fosse SEU, só faz isso pra fazer tipo uma residência e sentir um tipo de conforto, a natureza é harmônica. Se tudo fosse de todos não existiria roubo.

Aí o povo que estava no bar começou a se manifestar também, cada um com sua opinião, Vinícius que parecia o mais exaltado.

- Se um filho da puta ousar invadir minha casa pra pegar um pedaço de pão sequer eu encho o lazarento de bala.

O mendigo pediu mais um copo de pinga, desta vez dos grandes e começou a prestar atenção.

- Você fala isso porque deve ter tudo de bom em casa e não deve te faltar nada.

- Tenho! Tenho sim e foi às custas de muito trabalho.

- E se teu pai perder o emprego, como tá acontecendo com muita gente?

- Roubar é que eu não vou.

O mendigo tomou o resto da pinga de um gole só e soltou essa pérola:

- Quem n-nunca p-passou fome não sabe mesmo p-porque se rouba.

Todos olharam pra ele e dessa vez foi o engraxate quem deu risada.

- Você sabia que se pegarmos todo o dinheiro do mundo e repartissemos entre todos ficaríamos todos ricos e a economia ia pra cucuias? Sabe porquê? Porque essa merda de mundo do jeito que está precisa de pobres para que aquilo que os ricos possuem, tenha algum valor! A única vantagem de você ter um carrão importado é que os outros não tenha e assim poder esnobar.

O Jean fechou o jornal, não era mais necessário e deu sua opinião:

- Concordo com isso. - Só pra deixar o Vini mais puto ainda.

-Não acredito! Isso é papo de vagabundo que tem medo de trabalho. Você pensa que o desemprego é tão alto assim? Alta é a vagabundagem. Todo mundo tem direito de ter tudo aquilo que puder comprar.

- É, mas tem gente que tem demais. - Comentou o dono do bar.

- É verdade, falei.

Fabio tava começando a se entusiasmar:

- Se ninguém tivesse direito de possuir nada como se fosse seu, só seu, praticamente não existira crime, pois ninguém pode roubar nada se pertence a todos. Nem a polícia precisaria existir.

Dessa vez foi um frequentador do boteco quem se manifestou.

- E os assassinatos?

- Assassinatos? A maioria dos crimes é por causa ou de ganância ou pobreza mesmo, os poucos crimes que sobram tipo os devido a dor de corno poderiam ser decidido na base da justiça pelas próprias mãos.

- Aí já seria barbárie.

- Barbárie? Barbárie é o que está acontecendo hoje em dia. Do jeito que as coisas estão, com quem tem tendo cada vez mais e quem não tem tendo cada vez menos, você vai ver o que vai acontecer com os teus filhos. Tinha um tio gordão mandando ver nos pastéis com café preto que fez um comentário debaixo de seu enorme bigodão.

- Uma coisa esse rapaz tem razão, tem muita gente com dinheiro demais, acho que tinha que ter alguma lei que regulasse a quantidade de dinheiro que a pessoa pode ter.

Dessa vez fui eu a acrescentar.

- Leis? Mais leis? Você já viu o tamanho dos livros que os advogados carregam? O senhor acha que lei resolve? Enquanto existir lei vai existir neguinho desobedecendo a lei.

- É verdade, e polícia não resolve nada, já reparou que quanto mais polícia se bota nas ruas, mais as coisas descambam.

De repente todo mundo no bar tava questinando polícia, escola e até a igreja, teve um que falou.

- Essas Igrejas Universais são a maior prova de que nem a religião resolve mais, os pastores mantém seu rebanho mais ou menos comportado, roubam seu dinheiro e cada fiel que abandona a igreja se revolta com o mundo, conheço um monte de gente lá no bairro que foi assim, menino saiu da igreja virou maloqueiro, menina saiu da igreja virou puta. O negócio vai complicar cada vez mais desse jeito.

Vinicius estava interpretando um reacionário com perfeição.

- Só sei dizer uma coisa meus filhos terão educação, roubar ou mendigar é que não vão.

Foi a gota dágua, o mendigo já tava bêbado e indignado com o Vinícius fazia uma cara, pegou a garrafa de cerveja do Jean, quebrou no balcão e foi pra cima. Imediatamente tivemos que esquecer nosso teatrinho e defender nosso amigo. O Sergio segurou o cara e o Vinícius saíu do bar chingando todo mundo. O engraxate se cagava de dar risada e o dono do bar chamou um PM que fazia ronda no Terminal Guadalupe.

Pela primeira vez tivemos um contato com a polícia, mas sem grandes estresses, o dono do boteco explicou tudo ao guarda e ele queria levar o mendigo em cana. Pagamos a conta e a garrafa quebrada e convencemos o policial a deixar tudo quieto, que o coitado não teve culpa e que foi tudo provocação de um mala que já tinha ido embora. Saímos do bar junto com o mendigo, quase que carregando-o.

Este foi nosso primeiro ato de Panfletagem Subliminar Teatral, teve suas falhas de funcionalidade mas até que foi divertido. Eu e o sergio participamos pouco, mas já deu pra mais ou menos ver como as coisas funcionam, é só dar corda que a galera se enforca. Tenho certeza que todo mundo que estava lá saíu comentando a história e pensando um pouco mais na razão da existência da propriedade privada.

Nos encontramos todos no terminal depois e tomamos quentões com o mendigo até passar o frio e a chuva, comentando a história e rindo. Foi legal quando o Vinicius chegou, devagarinho, cagado de medo do mendigo. Tentomos explicá-lo que era uma farsa que tínhamos criado, mas ele tava tão bêbado que não entendeu bosta nenhuma, apenas abraçou o Vini, missão cumprida.


Os Don Juans do interbairros I - (ato sete) Editar

Domingo à noite fomos conferir a performance de Oneide, vocalista do Pelebrói Não Sei, lá no Empório São Francisco. Punk rock na veia & muita diversão. Teria sido uma noite comum de maloqueiragens diversas não fosse o Fabio ter bebido demais e agarrado a mulher mais feia do lado de cá da Galáxia. Saímos do bar logo depois da meia noite e assim que o Fabio se despediu da mina já caímos logo na arriação.

- Caralho! De que planeta era aquele monstro?

- Vão à merda vocês todos!

- Fabio, de fé que se o meu cachorro tivesse aquela cara, te juro que eu raspava o rabo dele e ensinava andar de costas!

Enchemos o saco do cara, mas enchemos mesmo. Ele nem tentar se defender muito. Mandava todo mundo se fuder e seguia andando de cabeça baixa e cara amarrada. Na segunda ficou mais calmo e começamos a discutir.

- Pessoal, vocês precisam se ligar que beleza hoje é uma obrigação.

- Como assim São Jorge?

Todo mundo soltou aquela risadinha espremida.

- Hoje em dia todo mundo tem que interpretar um personagem que já vem pronto. Pronto mesmo, todos os acessórios se encontram à venda, roupas, discos, livros e maneiras de se informar.

- Tá, mas e daí?

- E entre todos os personagens desse teatrinho besta a questão da beleza é quase unânime. nem sei se dá pra dizer que é unanimidade, é tirania mesmo.

- Acho que tu tá falando, falando e não tá chegando em ponto nenhum.

-Aí que tem todo um mercado faturando em cima desses padrões de beleza que andam por aí. Ao contrário dos outros personagens, quedá pra escolher entre uma porrada de estilos e opções, o personagem bonito não, são poucas as opções para se "ser bonito."

- É... Você não deixar de ter um pouco de razão...

- Olha só galera, o que um cara não faz pra se defender por ter agarrado um dragão!

- Rárárá!!!!

- Vão tomar no cú e prestem atenção: existem Mais & Melhores Formas de Beleza.

- O filósofo das Raimundas!

- Hoje só se valoriza o externo e mesmo assim só o mais óbvio. Aquelas sutilezas, aqueles detalhinhos, não aparecem na fita.

- E onde você quer chegar?

- Quero chegar numa nova idéia para nossos ataques.

- Lá vem bomba!

- Pegamos um ônibus circular, sentamos todos espalhados, cada um sozinho num lugar diferente e começamos a encarar, mas encarar mesmo, usando todas as tecnicas de sedução aprendidas na Longa Estrada da Vida, encarar aquelas minas excluídas pelo Mercado da Beleza.

- Pronto! O cara enrolou, enrolou e encontrou a explicação perfeita pra ter agarrado uma mocréia ontem à noite: estava fazendo Ativismo de Inclusão social.

Caímos na gargalhada, mas por fim admitimos que a idéia era boa. Sérgio, o apaixonado de plantão foi o que mais pirou com a idéia e implorou para escrever bilhetinos para entregarmos pras minas quando elas descessem do latão.

Jean tem umas teorias de que pela manhã as pessoas estão mais sensíveis e inspiradas, então escolheu um horário meio maluco pra operação: Seis da manhã, interbairros I. Pelo menos estariamos todos livres de nossos trabalhos forçados.

Dormimos todos na kit dele e do vini e o sergio passou a madrugada inteira escrevendo os "bilhetes".

Quando acordamos estava pronto. Ficou mais ou menos assim, inspirado em Tyler Durden, mas tudo bem:

"Este é um mundo oprimido pela Ditadura da Cintura Fina, dos Peitos Siliconados & das Bundas Empinadas.

O Fascismo da Beleza Comercial.

Só que existem as seguintes verdades ocultas:

Você não é a sua cintura.

Você não é seus peitos.

Você não é sua bunda.

Você é especial, única no Universo e não cabe em nenhum rótulo dessa sociedade tirana.

Você é linda!"

Apedar da galera achar brega, eu particularmente gostei. Existe charme também na chinelagem.

Pegamos o buzum no Centro Cívico dez pras seis da manhã e tava um frio do caraaaaaaaalho. quando sentei no banco do ônibus parecia que tava sentando numa barra de gelo. Isso que eu tava com duas calças: tradição particular pra sobreviver ao desumano frio curitibano.

Mal sentamos e já começamos a escolher nossos alvos. No banco do outro lado do corredor tinha uma moreninha de óculos & cheia de espinhas. Começei a olhá-la e quando ela percebeu começou a olhar para a janela. Continuei. Quando elea se virou e viu que eu continuava olhando levantou-se e sentou bem longe.

Pensei: "É Arizinho, você deve se rum dos excluídos da Teoria do Fábio!". Olhei para o Jean e quase soltei uma risada, tava com uma cara de tarado que era um sarro. Sempre foi o conquistador da turma, o Brad Pitt e tava se dando bem. Agordinha da ferente dele sorria envergonhada e olhava pros lados pra ver ninguém estava se ligando na paquera.

A onda do Vinicius era o sorrisinho monalisa que aprefeiçoou com o passar dos anos. Escolheu uma coroa, pinta de solteirona e parecia que ela tava meio inquieta. Tipo surpresa com o flerte mesmo. Lia um daqueles romances Julia que se vende nas bancas e não conseguia se concentrar.

Sergio, com sua timidez crônica, nunca tinha intimado uma mulher na cara dura na vida sem antes cercá-la com presentes & cartas anônimas, acabou que ficou dormindo no fundo do ônibus mesmo.

Agora em termos de Cara de Safado Fabio era quem bate os recordes. Escolheu criminosamente uma menininha novinha, uns 16 anos, sequinha de magra e com um óculos fundo de garrafa que de tão grosso o rosto dela aparecia pequenino por tras das lentes.

Uma japonezinha desajeitada entrou e ficou de pé ao meu lado e resolvi investir no negócio. Dessa vez não fui tão mal, ela não deu bola mas de vez em quando espiava curiosa para ver se eu continuava encarando. só que desceu logo, na hora que deu o sinal e foi em diração à porta de desembarque entreguei-lhe o bilhete.

- Pra você!

- Hã?

- Pra você, leve!

Desceu e ficou olhando intrigada pra mim conforme o ônibus saiu andando. Olhei para o Jean e o lazarento já tava sentado no lado da gordinha. Não dava pra ouvir o que falavam, mas estavam rindo animados. A magrinha do Fabio sentou num banco que vagou e ele pulou logo no lado. Ficava olhando de canto de olho e dando sorrisos, mas ela virava o rosto pra janela.

Vinicius era quem estava mais empenhado. A mulher guardou a Julia, conferiu alguma coisa no celular, olhou -se num espelhinho, pegou a Julia de novo, guardou, enfim, estava nervosa.

Então a mina do Jean levantou-se, despediram-se com beijinhos e desceu como o bilhete na mão, toda orgulhosa. Quando o ônibus saiu ela ainda ficou acenando da calçada. Jean sentou do meu lado e ficamos curtindo os olhares do Fabio pra magricela. Era engraçado, a mina virava o rosto completamente, ficando quase de costas pra evitar os ataques. Fabio perguntou-lhe as horas e ela respondeu ja se levantando. ficou de pé ao lado da porta o resto da viagem. Na hora que ia descer Fabio entregou-lhe o bilhete.

Deu pra ver que ela saiu andando na rua a passos largos, invocada, sem nem ousar a olhar pro ônibus ou pro papel que levou na mão. Quando Fabio chegou perto da gente já começamos a tirar sarro:

- Cadê o São Jorge?

- É Fábio, ela era gata demais, tuas táticas só funcionam com as feias.

- Vão se fuder, pelo menos ela levou o papel. E ainda coloquei um poeminha massa junto

- E ela vai ler?

- Claro, senão nem tinha pego, braba do jeito que tava.

Nosso papo foi interrompido por um bate-boca lá na frente. Todo mundo no ônibus estava olhando. Era a coroa do vinicius.

- Você não tem vergonha na cara seu moleque? Só porque não uso aliança não significa que não seja casada!! Não acha melhor se informar antes de soltar uma cantada besta?

- Mas senhora...

- Você trata de calar essa sua boca!! Não ouse falar mais uma palavrinha. eu já vou descer mas ouve o que vou te dizer seu moleque! Preste atenção no que faz, muita atenção, ou ainda pode se dar muito mal!!

Vini entregou o papelzinho pra ela com as mãos tremendo.

- O que é isso?

- Um pedido de desculpas, acredite!

- É bom que seja, seu moleque descarado!

Desceu furiosa e Vinicius olhou pra nós com uma cara de perdido que era o fim do mundo de tão engraçada. Todo mundo no ônibus riu da cara dele. Sentamos juntos tirando onda uns dos outros até chegarmos no ponto perto da rodoviária onde desceríamos. Sergio era o que mais ria.

- Grandes Conquistadores de Araque!

- Eu me arreguei! - Cantou de galo o Jean.

- É, mas só você!

Saímos andando na calçada quando o Universo, Deus, Jeová, Alá ou sei lá o quê conspirou por nós. Na calçada, perto do meio fio eis um milagre: uma nota de cinquenta reais dobradinha. Fabio pulou pra pegar e quando desdobrou abrou um sorrisão de orelha a orelha: eram três notas iguais. Os Ativistas da Inclusão social foram recompensados pelo acaso.

Enchemos a cara de Capuccinos numa lanchonete da rodoviária, vestimos nossas máscaras e fomos para nossos trabalhos forçados com o coração leve e as almas lavadas.


A Gurizada Big Mac Feliz - (ato oito) Editar

Achar cento e cinquenta reais na rua não é para qualquer um. Quinhentos mil tipos de eventos devem ser sicronizados, acasos dos mais absurdos, para que a grana venha parar no seu bolso. Nós fomos os sorteados da vez neste Fantástico Evento Cósmico. Um Gigantesco Globo cheio de bolinhas numeradas e saiu justamente o nosso número. Coisa de louco. Tivemos discussões monstruosas pra decidir o que fazer com a grana. Todos concordavam que a grana era de todos, ia ter que sair um consenso de um jeito ou de outro.

Nem estávamos falando sobre isso quando surgiu a idéia. Jean estava contando do dia em que sua moto estragou perto da Vila zumbi e ele saiu em busca de ajuda e se sentiu cabreiro no meio de uma ambiente estranho. Foi na cabeça do vinicius que açendeu a lâmpada.

- A gente pode usar a grana pra gerar uma situação inversa a essa do Jean.

- Situação inversa.

- Lembra aquela que os caras do MST foram num shoping e os lojistas fechavam as portas de medo?

Não lembro nem se isso aconteceu mesmo ou eu sonhei. Pois é, a gente pode fazer parecido. Façam as contas: com cento e cinquenta reais dá comprar vinte McLanche Feliz!

- McLanche Feliz? Vai dar a grana pro Império agora, é?

- Ativista de butique é foda!

- Calma, rapaziada estressada! É só a gente fazer as coisas de um jeito que pagariam o triplo para que não gastássemos a grana lá.

- Conclua o plano, por favor, conclua. - Falou o Fabio coçando a barba rala.

- Convidamos vinte piás de rua pra fazer um lanche numa praça de alimentação de algum shopping.

- Rapaz...

- O que vocês acham?

Não tínhamos muito o que falar: era um plano simpático. Todos ficaram quietos e cada um, mergulhado em seus pensamentos, foi sendo seduzido aos poucos pela idéia.

Não seria difícil encontrar a gurizada ideal. Sempre vagabundeamos muito pelas ruas da cidade e conhecíamos muitas figuraças da delinquência infantil. Eu mesmo conheço uns quantos e quanto mais pensava nas possibilidades mais ficava animado com a ação.

A ação foi marcada para um sábado à tarde, momento mais ou menos tradicional para compras.

Famílias inteiras passeando pelo Paraíso do Consumismo. Iríamos relembrá-los do custo social daquele conforto e daquele ar-condicionado central em meio ao frio do inverno curitibano.

Começamos nosso recrutamento perto das onze da manhã na Boca Maldita. Eu conheçia um polaquinho que dava beijos no rosto das pessoas antes de pedir moedas, mais duas menininhas, entre 4 e 5 anos que vendiam chicletes.

Meio dia já estávamos com o time completo. Um autêntica turminha do capeta. A aparência de nossa multidãozinha era tal que ninguém ficava no mesmo lado da quadra que nós. Fábio e Jean arrumaram uns cheiradores de cola e Vinicius ficava tentando explicá-los que se eles cheirassem antes do lanche não iam sentir fome.

- Sério tio? Se tú não fala nóis não sabe.

- Fica sossegado aí!

tinha uns que ficaram amigos mesmo e enquanto íamos ao Shopping Müller começaram a contar histórias de como eles se viravam e como roubavam as paradas e que fome não passavam. Eram uns autênticos caçadorzinhos.

- E como é que vocês se escondem?

- É! Onde é que vocês dormem, pra onde é que vocês fojem quando o bicho pega?

Então nos mostraram uns lugares incríveis. Autênticos pontos que o mapa não cobre. O mapa não é o território. Lugares nos miolos dos quarteirões. Banheiros de fundos abandonados, depósitos esquecidos e pasme, até uma capelinha nos fundos de um troço que um dia foi uma mansão.

Fora os esgotos e os tuneis secretos. Em resumo: os guris eram feras. Chegando no Müller logo quebramos a cara. Um moreno muito bem engravatado, logo na entrada, cortou nossos embalos. Na hora que ele viu aquela maloqueiragezinha reunida disse não. Nem discutímos, apesar dos protestos do Panfletário Vinicius, afinal tínhamos ainda o Curitiba e o Plaza pela frente. É, curitiba tem três opções de shopping pra você viver seu consumismo e escolher quem te enraba.

Quando estávamos indo para o Shopping Curitiba o passeio começou a ficar mais divertido. A gurizada começou a se soltar mais e os transeuntes realmente se impressionavam e se preocupavam com a cena.

Mulherada protejendo as bolsas, boas pintas escondendo os celulares. foda foi controlar os cheiradorzinhos. Os piás eram muito fodas mesmo, por mais que vinicius cuidasse sempre davam um jeito. Você se distraía e lá vinha um com a boca mole.

- Ôooo tio! Cêeee é gent-te boa, viu?

Mas eram todos grandes personalidades, isso eu garanto. Era só trocar umas idéias com qualquer um deles e suargia uma história de Coragem, Resistência & Luta. Alguns equívocos, talvez muitos, mas eram sem dúvida histórias de Coragem, Resistência & Luta.

No Shopping Curitiba foi as crianças que queimaram o filme. Foi dobrar a esquina na chegada e começaram a gritar feito uns doentes . Quando começamos a subir a escadaria da entrada o segurança já veio em nossa direção fazendo sinal que não. Mandamos à merda e descemos a Sete de Setembro em direção ao Plaza Shoping. Lá foi nosso triunfo, lá conseguimos entrar. Eles estão em obras e foi bem mais fácil depistar os seguranças. Também porque aperfeiçoamos nosso método: dois por vez.

Na praça de alimentação o espetáculo foi grandioso. Foi cômico ver os casaizinhos Mauricio/Patricia trocando de mesa por causa do cheiro das crianças de rua. As mães com filhinhos bem vestidos saíam da fila do McDonald´s e procuravam outra lanchonete. Vinicius ganhou mais uma: realmente a cada um lanche que vendiam pras nossas crianças deixavam de vender outros três por causa das pessoas que saíam fora com medo.

Os funcionários da lanchonete também tiveram seu calvário porque armamos a palhaçada com requintes de crueldade, cada menino tinha sua grana contadinha para o seu McLanche Feliz. E muitos deles nem sabia pedir direito a bagaça.

Foi muito divertido. Acompanhávamos a cena de longe, observando a galerinha e os sete seguranças especialmente designados para garantir a ordem e manter a segurança do resto do shoping inteiro devido à preocupante presença de nossas crianças. E eram crianças menos, posso garantir que todos tinham menos de dez anos.

Já estávamos em clima de comemoração enquanto eles terminavam seus sanduíches quando vimos que ainda teria muito rolo pela frente. "Com a barriga mais cheia começei a pensar, que eu desorganizando posso me organizar." Mais ou menos nesse estilo o negóçio. A gurizada se repartiu numa euforia incontrolável. Uns foram pra uma loja de brinquedos no segundo andar. Outros nem pensaram duas vezes e foram para os jogos eletrônicos. Pra completar tinha os que entravam nas lojas mechendo em tudo. Um caos.

Não podíamos deixá-los ali. Éramos os responsáveis. Nossa paternidade começou quando achamos aquela grana no chão. Não podíamos negar a responsa. Nos dividimos e cada um ficou com um grupinho. Fui atrás dos que foram na loja de brinquedos.

Foi entrar na loja que já vi o tamanho da encrenca. Tinha um pirralhinho que não deveria ter mais que quatro anos que tinha sentado numa moto à pilha ou à sei lá o que fazia uma zoada do caralho. A funcionária só perguntava desesperada quem eram os pais da criaturinha. Tinha ainda os outros três que derrubavam tudo que era bonequinho que tinha nos mostruérios.

Corriam com os bonequinho e se escondiam atrás das prateleiras. Uma cliente da loja nem disfarçou o seu preconceito e saiu com seus filhos da loja, sob seus protestos, pois estavam se divertindo com a bagunça.

Meus meninos estavam felizes. Alheios à discriminação, felizes por serem o que estavam sendo e nada mais.

Uma funcionária se aproximou e perguntou se eu desejava algo. Falei que estávamos olhando pra ver se encontrávamos algo interessante. Na porta da loja dois seguranças babando de vontade de terminar com aquela zona assim que o gerente desse o sinal.

Se contar o resto da gurizada aos cuidados dos outro e os que tinham cheirado cola e tal e deviam estar doidões, acho que a direção do shopping teve que chamar reforços para a segurança. Segurei eles na loja o máximo que pude e quando os ânimos se acalmaram um pouco convoquei a turma pra sair fora.

- Seguinte galera! Temos que sair pra encontrar os outros!

- Aonde?

- Na praçinha lá na frente.

- Ahhh...

Saímos e quando chegamos já tinha um monte de gente esperando. Achei que tinha tido trabalho com os moleques, mas o Jean contou que os deles foram expulsos dos jogos eletrônicos por cheirarem cola. E isso nem foi o pior, jogaram um monte com três cartões roubados que o Jean nem viu como conseguiram. digamos que tratava-se de especialistas mirins, mão de obra qualificada.

Esperamos chegar o resto e quando vimos que ninguém mais viria & o sol estava se pondo & o frio chegando com a noite Fabio puxou de sua mochila uma caixa com seis rojões.

- Façam um fogueira! Será o São João dos excluídos!!

Fizemos uma fogueira meio mandrake e quando as chamas estavam bem altas a ponto de chamar a atenção dos desavisados ou da polícia soltamos os rojões.

Todos gritaram & pularam & dançaram em volta da fogueirinha ou de alegria ou de frio. Vivemos ali, por segundos que tenham sido, uma Zona Libertada.


A Televisão Me Deichou Burro Muito Burro Demais - (ato nove) Editar

Solidão: o espaço entre o carro e a televisão. Essa jóia é do Paulo Leminski, de longe a maior personalidade que Curitiba pariu. A dois fins de semana atrás caiu um Terrível Dilúvio sobre Curitiba, com Ventos, Granizos & Aguaçeiros que fizeram um estrago do caralho na cidade inteira. Naquele domingo à tarde faltou energia em quase tudo que é canto.

É legal quando falta luz. As pessoas se vêem obrigadas a voltarem para si mesmas. A simples falta da Macabra Televisão já obriga todos a conversarem bem mais. Naquela tarde estávamos conversando sobre Leminski e relebrando seus poemas Curtos & Rasteiros, hai kais de efeito imediato. Esse da Solidão, do Carro & da Televisão foi o mais discutido.

Queríamos bolar alguma coisa a respeito disso. Com carros ou televisões, alguma coisa nesse sentido. Viajamos um monte, imaginamos intervenções estrambólicas e não chegamos a ponto algum. Nada realmente prático e eficiente.

Durante a última semana, no entanto, o Acaso Cósmico voltou a nos presentear. Sempre alimentamos tipo que um culto à coinscidência. Quanto mais você valoriza e celebra as coinscidências, mais elas ocorrem em seu dia-a-dia. A última onda de culto foi gerada por aqueles 150 Reais que achamos na calçada. Então parece que certos eventos começaram a se precipitar sobre nós. De um lado Jean conseguiu um chaveiro boa praça para nos dar um curso e por outro lado recebi um e-mail de um doido de Goiás com mais um Plano Perfeito.

- Piazada! Recebi um e-mail que pirou meu cabeção!

- O que foi ari? Alguma gostosa oferecendo seus préstimos?

- Não! Uma idéia pra um ataque!

- Idéia? De quem?

- Um maluco de Anápolis, teve uma noite de insônia e entre ficar pensando em vender a televisão que tinha no quarto e observar a escada no fundo do quintal teve a brilhante idéia de jogar a TV na calçada.

- Jogar a TV na calçada?

- Puta que o pariu ! Quê que eu posso te dizer, cara?

- Que coisa mais ridícula.

- Calma, seus merdas! Pra completar a inspiração o cara imaginou colocar uns bilhetinhos dentro, tipo assim:

"Olha o que a TV faz com seu cérebro."

Aí o povo passa na rua, vê aquela televisão espatifada na calçada, lê o bilhetinho e pensa: "Caralho! que diabos é isso?"

Ficaram calados. Dessa vez fui eu a apresentar um Plano Perfeito.

- Pensem no que podemos fazer com essa idéia.

Foi fácil convencer o povo. Desde o dia em que tinhamos relembrado o Leminski estávamos querendo algo com os televisores. De repente tava todo mundo pensando, raciocinando & bolando a ação. Não era difícil, o aparelho se despedaçaria no chão mesmo, logo não precisava ser novo nem estar funcionando.

Marília, namorada do vinicius tem um primo que conserta essas paradas e conseguiu uma podre de velha, mas perfeita para nossos planos.

- A questão agora é onde a gente vai jogar a bagaça. - Sergio, a nossa âncora.

- Tem que ser no centro.

- Cara, mas no centro é foda, não é bem assim entrar num edifício e jogar uma TV pela janela.

- Eu sei que bronca, mas tem que ser num lugar que um monte de gente veja.

Foram várias as noites de Discussões & Cervejadas para aperfeiçoar o plano. Para levar o negócio a cabo várias etapas tinham de ser consideradas. Enrolar o porteiro pra entrar no prédio, cuidar pra nenhum traseunte se machucar e o plano de fuga. O sempre complicado plano de fuga.

Como nosso lema é nunca viajar na maionese e sempre admitir que somos cabaços optamos por um prédio residencial, num horário que o povo tá saindo pra trabalhar ou estudar e numa calçada perto de um ponto de ônibus movimentado.

Escolhemos o bairro do Juvevê. seis horas manhã (ai, ai, ai, de novo), com uma puta operação teatral pro Jean entrar com a TV no prédio. Escrevemos exatos 57 bilhetinhos pra colocarmos dentro da "bomba". As frases era mais ou menos as seguintes:

"Olhe o que a TV pode fazer com você."

"Olhe o que você pode fazer com a TV."

"Olhe o que a TV pode deixar você fazer."

"Olhe o que você pode deixar a TV fazer."

E por aí vai, dezenas de variações do mesmo tema.

Vinicius & Marilia ficaram com a parte de enrolar o porteiro. Jean entraria com uma caixa de palelão contendo nossa "bomba". Eu, Sergio & Fábio ficaríamos em baixo, cuidando pra que nenhum descuidado levasse uma televisãozada na cabeça.

Examinamos o prédio escolhido com cuidado. Fábio foi antes, pela tarde, dar uma olhada nas condições. tinha de ter uma janela grande na área das escadas e a distância da janela pra rua tinha de ser aceitável. Escolheu um perfeito, bastava subir uns andares, fazer uma forçinha ao lançar e a lazarenta iria para no meio da rua.

"Caiu na contramão atrapalhando o trânsito."

Madrugamos, pegamos o Cabral-Osório no centro e fomos pra nossa "batalha”. Todos, sem excessão, reclamavam do sono, do frio e do maldito horário escolhido. A guarita do porteiro ficava perto da grade e do interfone. Vini & Marília se escoraram perto e começaram a discutir. Estavam brigando e vinicius visivelmente cagava na cabeça dela. Ficaram um tempão brigando desse jeito até que o porteiro começou a prestar atenção na cena, estava com pena da mina, que só chorava.

Então ela começa a passar mal, tipo ataque epilético mesmo, com babas e tudo mais. Vinicius se desespera e começa a olhar para os lados e gritar. O porteiro saltou da cadeira. Vini então se joga sobre os botões do interfone e começa a cordar todo mundo.

O porteiro vem imediatamente perguntar o que está ocorrendo.

- Água, senhor, por favor! Água!!!

- Vem aqui, moço! Traga a menina que eu consigo água, o que ela tem?

- É uns piripaques que dá de vez em quando.

Entraram detro da guarita e começaram a jogar água no rosto dela quando o celular do Vini tocou.

- Puta que o pariu, seu porteiro! É a mãe dela! a coroa não pode ficar sabendo que isso tá acontecendo! Fica aí com ela que eu vou enrolar a a velha ali fora. Abre o portão pra mim, rápido!

Saiu fora e deixou o portão aberto pro Jean entrar. Pra dar cobertura pro Jean, Marília começou a gritar e Vini correu para acudí-la.

- O que foi?

- Não sei, moço! Ela deu uma soluçada e começou a gritar desse jeito.

Jean aproveitou a deixa e entrou rapidinho com a caixa de papelão e correu em direção à escadaria. A "bomba" não era grande, 14 polegadas.

Marília então se acalmou e os dois saíram agradecendo pela ajuda e Vini simulando telefonemas cheios de explicações pra mãe dela. Foram pro "posto de observação" onde eu tava e já chegaram se cagando de rir.

- Ele acreditou, cara! O velhinho viajou!!

- Tava tremendo todo na hora que jogou água no meu rosto!

- Muito massa, doido, muito massa!

Ficamos então no aguardo da ação do Jeanzinho. Ele demorou, demorou & demorou até que vimos sua lanterna brilhar, numa janela do sétimo andar, em meio à neblina que sempre cobre Curitiba nas manhãs de inverno.

- Sétimo andar, mas que viado, porque não subiu mais?

- Vamos rápido! não dá nada, pelo menos ela não se espatifa muito. vê se não vem ninguém desse lado! tomara que ele consiga ver nossas lanternas com essa porra de neblina.

- Aqui tá beleza!

Pisquei minha lanterna cinco vezes. Deu pra ver uma luzinha fraca piscando na outra esquina, era o Fábio. Jean ficou só esperando o sinal do Sergio, que ficaria perto da portaria pra garantir a segurança da operação.

O desgraçado demorou quase um minuto pra dar seu sinal. Piscamos nossas lanternas feito uns doidos pro cara se ligar. Quando ele piscou a sua corremos todos pra perto pra ver a cena sem interferência de neblina nenhuma. Já dava pra ver o Jean com a parada na janela.

Foi um troço muito do caralho. Demorou apenas uns quatro ou cinco segundos pra cair e enquanto a TV descia todos nós demos aquele assobio agudo ficando grave que dá nos desenhos animados quando alguma coisa cai.

Quando a TV estourou no chão todos demos gritos pavorosos. Definitivamente não saiu como o planejado, a porra bateu num poste e em vez de cair no meio da rua acabou na calçada. Pelo menos teve a vantagem de não quebrar muito. O porteiro correndo olhar intrigado o que estava acontecendo. Olhava para os cacos e olhava pra cima sem entender bosta nenhuma. Deve ter pensado: "diazinho estranho esse."

Esperamos uns minutos e fomos ver de perto nossa obra como se fôssemos cidadãos normais. Quando chegamos o dia já estava bem claro e tinha um velhinho de óculos olhando os papeizinhos que tinha se esparramado por perto e um casal de irmãos indo pra escola.

Estéticamente falando, ficou perfeito: o tubo de imagem quebrou ao meio e os estilhaços ficaram cheios de papeizinhos. As pessoas chegavam, olhavam a coisa toda e alguns, nem todos, pegavam os papeizinhos. Tinha uns que saíam reclamando quando liam.

- Cada louco que me aparece nesse mundo...

Outros saíam rindo e tiveram alguns que até guardaram as frases. Sergio fez um trabalho legal com as frases, cada uma continha ums desenho ou um símbolo particular. lá pelas sete e pouco da manhã a síndica do prédio desceu com uma faxineira pra limpar a tralha toda. O negócio ficou na calçada por pouco mais de meia hora, mas posso te garantir que um monte de gente viu.

Fomos então tomar café, comer coxinhas e esperar pelo Jean numa lanchonete próxima. Ele só saiu do prédio quarenta minutos depois de terem limpado tudo e a poeira ter baixado, esperou o momento mais seguro que despertasse as mínimas suspeitas.

Quando chegou na lanchonete já estávamos impacientes. Demos Berros & Urras feito uns selvagens, pegamos ele o jogamos pro alto.

- Jean! Jean! Jean!

Na boa estávamos Histéricos & Orgulhosos. Afinal, fizemos um trabalho de profissional.


Os Dia em Que a Churrascaria Parou - (ato dez) Editar

Uma tendência que tem crescido pra caralho no "meio libertário" é o vegetarianismo radical. Os caras defendem os direitos dos animais até as últimas conseqüências. São completamente diferentes dos vegetarianos aos quais estamos acostumados, não usam nem sapato de couro. Nosso amigo Sergio Augusto, além de vender a alma como artista plástico anda pesquisando sobre o assunto e se misturando com essa gente.

- Tigrada! Hoje teremos uma janta Vegan!

- Blargh!! - Vini e Fabio são doidos por um churrasquinho.

Sergio anda fazendo essas comidas, mas ainda nao foi "convertido". Tá mesmo é praticando e experimentando pra ver se vale a pena. Estávamos todos na peça única que é a kit do Vini e do Jean conversando sobre os argumentos pró e contra o vegetarianismo radical. Eu e Jean éramos os Vegans, apesar de eu ser um onívoro convicto. Nisso nosso cozinheiro virou-se pra nós com um sorriso estampado no rosto.

- Tive uma inspiração pra uma ação!

- Lá vei ele.

- Ai, ai ...

- Do que se trata seu monstro?

- Atacaremos uma churrascaria.

- Atacar churrascaria? Você quer fazer o que? Explodir uma bomba?

- Não, uma coisa mais artística.

- Putz!

- Já sei! Você vai se vestir de alface e vai entrar apavorando.

- Não viajem, o plano é perfeito. a gente vai num matadouro...

- Matadouro?

- E grava numa fita os berros dos bois sendo mortos.

- E?

- E aí entramos numa churrascaria e demos um jeito de tocar a fita.

Sergio e seus fulminantes chutes a gol. A idéia me seduziu de imediato. Só de imaginar neguinho fincando garfo e faca numa suculenta picanha mal passada e ouvindo um berro de boi morrendo já era o suficiente pra mim me cagar de rir.

Difícil foi definir os aspectos práticos e técnicos da operação: como botar a fita pra tocar dentro da churrascaria num volume adequado? Cada um pensava numa coisa diferente. Jean, milagrosamente, estava sendo o mais prático.

- É fácil, a gente arranja alguém que tenha um carro com um som "foderoso", estaciona na frente e arregaça o volume.

- Não, tinha que ser dentro da churrascaria, falou Fabio. O som tem que ser interno pro povo ficar mais puto ainda.

- Mas como?

- Sei lá, tínhamos que dar um jeito de tocar no sistema de som ambiente.

Seria perfeito mas era difícil de executar. Estávamos nos debatendo em estratégias quando tocou a campainha, era Marília com seu primo técnico em eletrônica e a TV 14 polegadas que usamos em nossa última ação. Contamos nossos planos pra eles e riram adoidados da viagem. Marcelo era o nome do cara e motivado pela palhaçada de nossas atitudes deu uma sugestão pra resolver o problema.

- Vocês podem conseguir quatro tocafitinhas baratos do Paraguai e quatro auto falantes. Eu consigo umas plaquinhas amplificadoras à pilha, bem simples mesmo e vocês põe as paradinhas embaixo das mesas.

Ficamos em silêncio, pensando, pensando & pensando.

- E dá pra fazer isso?

- Tipo assim: é fácil?

- Claro! Se fizer as contas, mesmo que comprem todo o material novo vão gastar no máximo 50 Reais, se dividir vai dar uns 10 Reais pra cada um. Mas acho que dá pra conseguir muita coisa na sucata lá da oficina.

Topamos. Topamos e já conseguimos mexer nossas bundas gordas. Vini & Marília, nossos atores oficiais foram pro matadouro gravar os sons. Foram na casa do Tarsis, que tem scanner, e fizeram umas carteirinhas falsas de estudantes de veterinária. Bolaram uma viagem de que estavam trabalhando num projeto de otimização do abate.

- Otimizar é uma palavra que soa bem aos ouvidos dos homens de negócios.

Enquanto os dois picaram a mula pra fazer o teatrinho que tanto curtiam eu e o Fabio fomos ajudar o tal Marcelo a preparar os "aparelhinhos". Jean & Sergio ficaram preparando a TV e os bilhetinhos da ação anterior.

No fim acabamos não gastando quase nada. Marcelo aproveitou um monte de coisas de seu ferro velho particular e só precisamos investir em pilhas alcalinas tamanho grande. Trampamos pra caralho soldando componentes eletrônicos e encaixando pecinhas de mecanismos velhos de toca-fitas. Deu pra montar quatro "bombas sonoras" e, de quebra, pegar uma certa prática em soldagem. Não é difícil.

- Se vocês tocarem as quatro fitas ao mesmo tempo vai dar um efeito estéreo massa que vai confundir os ouvidos e eles vão demorar pra achar de onde está vindo.

Vinicius & Marília voltaram rindo das palhaçadas que fizeram no matadouro. Sergio ficou puto da cara.

- Porra cara! Mas vocês não se sensibilizaram com os bichos morrendo?

- Eu gosto de bife.

- Ah, vai te fuder, meu!!

Gravamos as quatro fitas e marcamos a ação pro sábado, logo depois do meio dia. chegamos numa hora que o negócio tava lotado. Tinha fila pra esperar liberar mesa. Nos dividimos em quatro, cada um com uma bomba e gradativamente entramos.

Foi planejada uma verdadeira orquestra de sinais pra executarmos a operação. Cada um colou com Silver Tape sua bombinha embaixo da mesa. As fitas eram de 90 minutos, o que significava 45 minutos de cada lado. Isso nos dava 40 minutos para desbaratinar e apreciar o resultado.

Inicialmente cada um deu o sinal de que a bomba já estava colada. Depois o segundo sinal, ambos discretíssimos, diga-se de passagem, pro início da contagem regressiva. Cinco, quatro, três, dois, um, play! Pronto.

Saímos um por um, cada um inventando uma desculpa diferente pra um graçon diferente, tipo ter que ligar pra alguém ou a carteira esquecida em casa. Nos encontramos todos na rua, esperamos um tempinho e voltamos pra fila. Desta vez todos juntos e ansiosos, muito ansiosos.

- Cara! Não boto fé que nós estamos fazendo isso! - Jean não conseguia se segurar, ria de doer.

- Relaxa cara! Não dá bandeira, senão vão desconfiar!!

Estávamos conferindo o relógio toda a hora. A fila tinha aumentado e levamos exatos 33 minutos pra sentarmos em uma mesa. Mais do que o planejado, mas tudo bem, a operação ainda estava sob controle. De cara já pedimos três cervejas e Sergio, o Vegan da hora, um suco de manga, sem açúcar.

- Não vou usar açúcar pois provavelmente eles usam animais pra carregar cana no canaviais pra depois fazer o açúcar, melhor não arriscar. A manga já acho que não, as plantações de manga não são tão grandes quanto os canaviais.

- Ó a do cara, meu! Viajão! Não vou nem discutir a besteira que você tá falando.

Rimos todos. Estávamos alegres, ríamos por qualquer bobagem. Nem bem tínhamos começar a dar nossos primeiros goles em nossas beras e começa o Apocalipse Now da churrascaria.

Marcelo tinha falado com um amigo e tinha conseguido um carro com o tal som "foderoso". Foi a idéia do Jean sendo usada pra incrementar o ataque. De repente, um horripilante berro de boi sai de um carro estacionado na frente da churrascaria.

Foi um momento único. Todo aquele barulho de talheres batendo e esfregando pratos e e toda aquela conversa alta e ruídos de fundo diversos e tudo mais, tudo parou. Silenciou. O povo todo ficou meio que se olhando sem entender que diabos era aquilo. O berro durou uns dez segundos e então eles tiraram o time.

Quando o negócio parou e o carro saiu o silêncio era absoluto dentro da churrascaria. O silêncio durou eternos três décimos de segundo, interrompidos por uma criança que mal sabia falar perguntando:

- Pai! que foi isso?

Então quebrou o gelo e muitos riram nervosos com a pergunta do menino que ecoou por todo o ambiente e quase todo mundo ouviu. Foi então que começou a sair os mugidos e berros de nossos aparelhinhos.

Primeiro baixinho, muito baixinho. Quando notamos que os sons começaram a sair já levantamos e pedimos a conta sem comer, apenas as bebidas. Era o nosso plano de fuga, sair assim que o troço fosse executado pra ninguém ligar os pontos e nos acusar.

Olhávamos pro povo almoçando e notávamos que muitos inclinavam a cabeça pro lado como que se tentando ouvir algo. Muito engraçado. começaram a fazer umas expressões intrigadas que iam ficando cada vez mais graves conforme o som ia aumentando.

Vinicius & Jean não conseguiam se segurar.

- Olha que massa, véio! Olha que massa!!! Olha a cara daquele bigodudo!

- Fica quieto seu paunocú!

Falei mas nem eu me continha. Era engraçado pra caralho! Os sons começaram a aumentar e as pessoas começaram a comentar umas com as outras e os garçons começaram a correr feito uns loucos. Foram espertos, já estavam quase encontrando os aparelhinhos, um deles chegou a achar um sob a mesa que estava limpando e inutilizá-lo pois a pilhas caíram no chão. Mas o som dos outro três saiu, no grand finale. Foi um berro de boi arrepiante de uns cinco segundos, que ficou mais macabro ainda devido a não termos sido tão perfeitamente sincronizados na hora do play. No fim uma voz grave, cheia de eco.

- Comer carne é crime! Comer carne é crime! Comer carne é crime! - três vezes mesmo.

Foi uma confusão dos diabos. Muita gente se levantou. Muita gente chamou o garçom. Muita gente chamou o gerente. Um pandemônio do cacete. No meio daquele barulho pudemos rir à vontade. Tinha um velho barrigudo que gritava histérico:

- Isso é uma absurdo, um absurdo!!!!

Abandonamos o local do crime em clima de carnaval. A três quadras de distância Marcelo nos esperava com seu amigo de carro. Entupimos o carro de gente e saímos com o som com o volume no último grau.

- Eu quero é ver o ôcooooo!!!!!!!!!!


Manual prático de Delinquencia Juvenil
Manual prático de Delinquencia Juvenil/Prólogo e outros avisos Atos: 1 ao 10 Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 11 ao 20

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