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Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 11 ao 20

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Manual prático de Delinquencia Juvenil

Ari Almeida


A Arte de Sacanear Bancos para as Novas Gerações - (ato onze) Editar

Sacanear bancos é melzinho na chupeta. É apoio popular garantido. Por mais que você escroteie, não será mais safado e anti-ético que eles. Eles sempre serão piores que você. Você pode cagar no prato que eles estão comendo e mesmo assim não vingará dez por cento das vigarices que eles aprontam.

Uma onda de revolta contra esses filhos da puta surgiu depois de irmos a uma festa onde o Fábio pagaria as entradas. Na hora fomos sacar a grana num banco 24 horas perto da festa e a porra do cartão não funcionou. Puta que o pariu! Tínhamos pego dois ônibus pra chegar na quiçaça onde seria a festa e não tínhamos grana nem pra entrada.

Não teve jeito, tiver que voltar pra casa com o rabo entre as pernas. Na kit dos piás naquela noite o assunto foi só revolta.

- Temos que fazer uma ação contra os bancos de novo. – Fabio estava profundamente indignado.

- Mas fazer o quê?

- Ah, cara, imaginação minha situação, sabendo que tenho saldo e não poder fazer nada pra transformar aqueles números em dinheiro.

- É que você não é alquimista.

- Pode crer, Vini. É bem isso mesmo. – Jean, o místico, curtiu a comparação. – É quase como uma transmutação. Chutando o pau do barraco dá pra dizer que o teu cartão é como uma pedra filosofal.

- Um toque de Midas e a porra da máquina vomita o dinheiro.

- Se souber a senha

- Decifra-me ou devoro-te.

Ficamos nessa viagem praticamente a noite inteira. Um verdadeiro bando de paranóicos obcecados. No meio dessa nóia acabei lembrando do Antonio Silvino de São Paulo, que tinha comentado comigo sobre a possibilidade de fazermos uns sacrifícios de animais nos caixas eletrônicos.

Comentei isso distraidamente, mas o Fabio imediatamente saltou de onde estava.

- Caralho! É isso aí, cara, é bem isso daí!

- O que, veio?

- Lembra do nosso catecismo do dia em que o Vinicius abençoou o banco? Aquela parada do dinheiro virtual, espiritual mas com poderes sobre o mundo material. Um demônio! Lembra?

- Só!

- Então! A gente faz um despacho pro Exu Dimdim.

Todos caímos na gargalhada. É incrível o que a delinqüência juvenil faz na cabeça de um desocupado.

- E a gente ainda pode fugir do óbvio.

- Como assim?

- Toda a macumba que se preze tem que ter uma galinha preta morta e a gente pode fazer uma parada em prol dos direitos dos animais.

- Não captei, juro que não captei. Você não vai matar a galinha? Vai deixar a galinha viva, é?

- Não, a galinha será uma suicida, um mártir, a gente pode fazer uma cruz e crucifica-la como um cristo morrendo pra salvar os pecadores.

- Fabio, você está se sentindo bem?

- Olha galera, pode ser engraçado. A gente pode deixar uma carta de despedida toda invocada, vai ser massa.

Falei que o Antonio tinha comentado comigo sobre isso também e tinha também sugerido de colocarmos um “carimbo” com a pata da galinha como se fosse uma assinatura.

- Então? Perfeito! O que vocês acham?

Mais uma vez não tínhamos muito o que discutir, era uma proposta tentadora. Acabamos, depois de todas as nossas ações, nos tornando uns fracos diante desse tipo de proposta. Óbvio que topamos.

Durante a semana tratamos de conseguir o material. Dessa vez não teve como economizar um troco, pra fazer um trabalho de profissional tivemos que investir uma grana numa loja de artigos de umbanda pra comprar o material necessário.

Fabio estava engajado no negócio, era como se fosse sua “causa pessoal” por excelência. Pagou tudo sem pestanejar.

- Essa grana a gente ia gastar naquela festa mesmo. Acho cabalístico usarmos essa grana pra vingar o ocorrido.

- E o pior é que é...

No outro dia mandei um e-mail pro Antonio Silvino contando os planos e ele entusiasmou com a idéia e acabamos por combinar de fazer um ataque sincronizado, ele e os amigos dele em São Paulo e nós em Curitiba. Combinamos pra quinta-feira de madrugada e tratamos de fazer uma “carta de despedida” igual para os dois ataques. A galera se entusiasmou com essa parada de ataque sincronizado.

- Massa, as coisas estão começando a ficarem grandes.

Compramos três galinhas. Tivemos que ir até o mercado municipal pra conseguir galinhas vivas, com penas. E pretas. Não foi tão fácil como possa parecer. Uma vez conseguidas as galinhas vivas o empenho foi mata-las.

- Eu quero! Eu quero! – Vinicius é um escroto, completamente alheio a esse papo de direitos dos animais. Participou da ação da churrascaria mais por delinqüência mesmo. Aliás, todos nós, não se pode negar.

Por fim teve um tio que nos indicou um açougue de um conhecido que matou as penosas pra gente na faixa. Não sem perguntar:

- O que é que vocês vão fazer com essas galinhas?

- Macumba mesmo.

- Ta certo... – falou com um ar pouco convincente.

Depois fomos atrás das cruzes, iríamos crucificar as coitadas mesmo. Sergio pintou as cruzes e fez até aquela inscrição INRI. Escolhemos três caixas eletrônicos da Rede 24 Horas, aqueles vermelhos que aceitam cartões de vários bancos. Combinamos com os caras de São Paulo de fazermos a parada na mesma hora pra ficar mais “místico”: duas horas da madruga.

Logo depois da meia noite saímos a pé carregando os despachos dentro de mochilas. As galinhas mortas que tínhamos deixado dentro da geladeira tinha endurecido e tivemso que dar uma cozinhadinha na água quente pra amolecer. As penas e tudo mais deixar a kitnete dos guris fedendo pra caralho. Tudo bem, ossos do ofício. Escolhemos um caixa perto da Praça Japão, que eu curto pra cacete, um no Batel e outro perto do CEFET. Não eram nada perto um do outro, o que nos obrigou a fazermos um verdadeiro caminho de Santiago.

No primeiro entro o Sergio e o Jean enquanto eu e os outros ficamos cuidando pra ver se ninguém interromperia a cerimônia. Colaram três cópias da carta de despedida, crucificaram a galinha, acenderam as velas e com o sangue escreveram a frase: “O dinheiro é o mal”

Ficou massa, esteticamente apavorante como deveria ser. Seguimos pro segundo alvo muito animados pela facilidade que tinha sido fazer o primeiro despacho.

No caixa do Batel as coisas não foram tão simples. Entrou eu e o Fabio, crucificamos a penosa (tivemos que usar pregos grandes e o martelo de bater bife do Jean) e na hora em que íamos acender as velas os guris soaram o alarme. Um carro estava estacionando ao lado pra sacar grana. Não queríamos ser vistos e recolhemos tudo imediatamente. A mochila do Fabio ficou cheia de sangue. Na hora em que saímos deveríamos estar com uma cara muito estranha pois o sujeito desistiu do saque e foi embora, provavelmente imaginando tratar-se de um assalto. Fiquei cabreiro.

- O cara pode chamar a polícia.

- Então vamos logo!

Tiramos a galinha da mochila e acendemos as velas. Enquanto Fabio colava as cartas de despedida molhei os dedos no sangue e escrevi nas paredes a frase: “Livre-se do mal, vandalise os bancos”.

Estava tão cabreiro com a possibilidade da policia chegar e tão orgulhoso da tarefa que desisti de acompanhar os guris no terceiro alvo e decidi me esconder numa árvore pra esperar alguém chegar e ver a cena.

Aparentemente aquele caixa era movimentado e eu estava curioso.

O resto do pessoal sumiu pra dar continuidade na operação e eu fiquei esperando. Demorou pra caralho pra vir alguém. Já estava quase pegando no sono quando estacionou um carro. Era um casal de velhos. O marido ficou no carro e a mulher entrou no caixa. De onde eu estava deu pra ouvir o berro. A mulher saiu desesperada gritando histérica.

- Ai meu Deus do céu! Ai meu Deus do céu!

Deviam ser um casal de evangélicos ou coisa que o valha pois ela usava uma saia longa. O carro saiu cantando pneus, deviam estar indignados. Eufórico, saí correndo em direção ao CEFET pra encontrar o resto do pessoal. Cheguei lá e os viados tinham colocado o despacho do lado de fora do caixa e não estavam mais lá. De longe já dava pra ver as velas.

Cheguei perto e tinha um guardinha de rua e casal de namorados rindo e olhando a cena.

- Quem será que fez isso?

- Não sei, vi uns garotos saindo daqui correndo e quando cheguei vi isso. Coisa de louco.

- Foda, muito foda.

Quase não consegui conter o riso. Quando cheguei na kit estavam todos acordados, inclusive os visinhos. Os caras chegaram tão animados que arregaçaram o som pra comemorar e gerado a maior confusão no prédio por causa do som alto.

Estava cansado. Dormi feliz sem saber o desfecho da confusão com os vizinhos e me mordendo de curiosidade de saber se os colegas de São Paulo também tinham sido bem sucedidos. Naquela noite os anjinhos devem ter velado por mim, pois mais uma vez tínhamos sacaneado aqueles lugares do mal que são os bancos.

Deus deve ser um vândalo.


Os Pobre Que Me Desculpem, Mas Beleza Custa Caro - (ato doze) Editar

Semana passada fomos a uma festa burguesa. Cada vez que vou num troço desses mais me convenço que burgues não sabe se divertir. Era uma festa de aniversário de uma colega de aula da Marília e os delinquentes foram em peso entrar de peru e comer e berber às custas dos ricos miseráveis.

Tinha gata pra caralho. Como diz o Eduf, às vezes dá vontade de desistir de destruir a burguesia, afinal elas rendem boas filhas. Tudo muito bonito. Tudo muito fashion, mas no final das contas ninguém dançou à vontade e mais uma vez: ninguém comeu ninguém. Fabio foi quem saiu mais revoltado.

- Rapaz, se nós tivéssemos ido num aniversário em Colombo, lá perto de casa, duvido que teríamos ficado sem agarrar ninguém.

- Mas eram gatas, ah isso eram.

- Gatas porque tem grana. Ser bonito custa caro, mano véio.

- É, acho que todas aquelas minas passaram a tarde toda no salão.

- E não repetem roupas nunca, jamais. Estávamos voltando a pé, em seis pessoas se economiza dez reais na grana do latão, quando cruzamos com uma catadora de papelão pra lá de retardatária eu tive a inspiração.

- Galera, já sei de um troço massa pra gente fazer.

- Óia! Ari saindo ta tumba, o que é?

- Lembra dos meninos no Shopping? Lembra que o povo da internet caiu de pau em cima, dizendo que usamos a gurizada?

- Tá e daí?

- Daí que levamos um adulto – e apontei pra catadora de papelão que já ia longe.

Ficaram pensando, em silêncio...

- E fazer o quê? Pagar um Mac Shit?

- Vocês são burros mesmo, ainda não se ligaram, baseado no que o Fabio falou, que beleza custa caro, poderemos dar uma de Xuxa, o antes e o depois, estão ligados agora?

Toparam. Toparam no ato. Levar uma catadora num salão de beleza fresco, todo metido. Foi massa porque pareceu que todo mundo se ligou na idéia ao mesmo, sem ninguém falar nada. Vinicius saiu correndo atrás da catadora, demorou uns minutos e voltou correndo, quase sem fôlego.

- Marquei com ela. Perguntei como fazia. Pra achar ela. Pode ser ela. Né?

Ficou então combinado. Só que andando depois nos ligamos num detalhe: e a grana? Aquelas bostas daquelea salões frescos cobram uma fortuna. Foi um autêntico balde de água fria nos nossos planos, voltamos cabisbaixos o resto do percurso. Foi Jean quem salvou a pátria com um telefone no outro dia à tarde.

- Cara! Descobri um jeito de conseguirmos a grana.

- Que jeito?

- Surpresa, vou passar aí de moto pra pegar vocês.

Jean trabalha com entregas de moto e usou a moto do trampo pra nos buscar. Largou todos nós, um por um, na frente da PUC sem ninguém entender bosta nenhuma do que estava acontecendo.

- Olhem os calouros da facul cobrando pedágio.

Então esse era seu plano, fingir de calouro pra cobrar pedágio. Realmente, deu pra notar que em cinco minutos eles devem ter levantado uns cinco reais. Um negócio altamente rentável.

- É, só que precisamos de umas minas. – Falou Vinicius, já tomando a iniciativa de ligar pra Marilia convocando as amigas mais caradura que ela tinha. Mais ou menos uma hora depois já estavamos todos a postos, camuflados e embarrados no cruzamento da Guabirotuba com a Av. Das Torres, nem muito longe, nem muito perto da PUC, perfeito.

Não foi tão fácil quanto imaginávamos. Muita gente nem olhava na nossa cara. É a crise. Levamos mais de três horas pra levantarmos os 120 Reais necessários. Voltamos pra casa cansados e torramos dez reais em chopes pra comemorarmos. Uma vez conseguina a grana tratamos de definir um dia massa pro “ataque”.

Tinha que ser num sábado, salão lotado, galera se enfeitando pra night... Foi Marilia quem deu o toque.

- Se é no sábado, acho melhor ligar antes pra marcar hora, até os salões mais fuleiros lotam no sábado.

Foi ela quem ligou. Marilia é uma verdadeira atriz, um dos grandes talentos esqueçidos nas periferias.

Falou com um tom de voz absolutamente de madame. Quase nos rachamos de rir e ela tapando o bocal do telefone e nos xingando.

- Calem a boca seus bostinhas!

Depois foi Vinicius quem teve que se mexer. Era ele quem tinha o contato com a catadora de papelão.

Saiu atrás dela no outro dia à tarde e quando anoiteceu apareceu com ela no prédio das kitinetes. Fabio pirou quando viu pela janela.

- Não boto fé que o Vini trouxe a mulher aqui!

Pirou tanto que viajou de bancar o estacinamento da corrocinha numa garagem a uma quadra dali. Foi cômico ver o funcionário da garagem sem saber o que dizer e acabar deixando estacionar ao lado de uma Mercedez preta. A mlher chamava-se Denise, era gente boa pra cacete e acabamos firmando uma baita amizade.

Tinha cinco filhos e a menina mais velha cuidava da pirralhadazinha enquanto ela trabalhava.

- Rafael, o mais caçulinha, andou comigo na charrete dos três mês até um ano e meio, tá ficando em casa agora por causa daquela gripe que não cura, sabe? No inverno fica mais difícil.

Tomamos um lanche todos juntos e Jean acabou se emocionando e dando cinco motos de brinquedo de sua coleção pra ela dar de brinde pros pequenos. Nos despedimos com tudo combinado pro sábado. Sergio estava meio descrente.

- Eles podem não deixar entrar, vocês tão ligados que ela cheira mal pra cacete.

- Se não deixarem a gente se vinga.

- É, e dizer pra ela tomar banho antes é ridículo.

- Sim, só tô dizendo pra ficarem ligados, pode ser que os caras não deixem entrar.

Sábado à tarde estávamos todos ansiosos. Tínhamos dito pra Denise que ela não precisava passar em casa antes. Trabalharia demanhã, do jeito como sempre fazia, deixava a carroçinha estacionada perto das kits e pronto. Não precisava de frescura, tínhamos conversado sobre a razão daquilo tudo e ela concordava com a gente.

- Aquelas dondocas tem que me aceitar.

Fomos ao Shopping Curitiba a pé e animados, Jean ficou de nos encontrar lá. Denise estava feliz, orgulhosa de si & contava uma piada besta atrás da outra. Ela é uma grande figura, mas é fã do Ratinho e votou no filho dele nas últimas eleições.

Mal entramos no shopping e o povo já começou a olhar atravessado. Eu reparei, quando a gente cruzava pelas pessoas ninguém olhava na nossa cara, mas depois que passavam era só olhar pra trás e ver como ficcavam olhando, fazendo gestos e comentários maldosos com quem estava ao lado.

Sentamos tomar um café antes, pois estávamos quinze minutos adiantados e o Jean estav por chegar. É indignante ver que até a funcionária do café, ralé fudida como nós, nos esnobou. Trouxe o café e esqueceu o açúcar de propósito. O povo se ilude fácil com esse status podre. Fábio jurou vingança.

- Cara, a gente ainda tem que voltar aqui e aprontar uma feia com esses merdas.

- Calma, relaxa que agora estamos aqui pra outra coisa.

Estávamos terminando o café quando chegou o Jean com uma sacolinha se desculpando pelo atraso.

- O que é isso aí?

- Nada não, uma surpresinha pra depois do ataque.

Então fomos ao maldito salão. Marilia entrou antes, deu o nome Denise a funcionária falou que estava tudo pronto e que era só deitar no negócio de lavar o cabelo. Marilia então chamou Denise e ficamos olhando do lado de fora e posso te garantir: foi uma cena muito muito engraçada.

Todas, sem exceção, olharam pra nossa amiga de cara feia e torçendo o nariz. A funcionária de lavaria o cabelo ficou atônita, perdidaça, sem saber pra que lado ou pra quem olhar. Esqueci de dizer mas o cabelo de Denise era crespão e alto e duro e devia se erguer a uns vinte centímetros acima da cabeça.

Denise deitou-se a mulher começou a lavar o cabelo lentamente, parecia nervosa, parecia na verdade uma funcionária inexperiente em seu primeiro dia de trabalho. A outra que parecia ser a gerente aproximou-se de Marilia com uma prancheta com os horários marcados e perguntou com um ar de desdém:

- É pra fazer as mãos e os pés também?

- Sim, é pra fazer tudo, hoje será uma noite muito especial pra ela.

Afinal, estávamos com a grana, estávamos pagando aquela porra. Marilia ficou controlando e fiscalizando tudo, uma verdadeira pentelha, queria o trabalho bem feito.

Quando Denise sentou-se pra escovar o cabelo e a manicure e a pedicure e tudo mais, entramos todos no salão pra curtir mais de perto. Antes que alguém viesse nos perguntar algo Marilia adiantou-se.

- São nossos amigos, estão nos esperando.

Aceitaram a contragosto. O clima no salão era horrível, ninguém conversava nada e tinha três minas que ficavam se abanando pra demonstrar que não estavam gostando nem um pouco do mau cheiro da nova cliente. Não se preocuparem nem em disfarçar o preconceito.

A obra de arte no visual de Denise demorou pra caralho pra ficar pronta. O escovamento do cabelo foi uma coisa interminável. Os pés as funcionárias tiveram que lavar e escovar por completo e várias vezes, Marilia o tempo todo em cima, controlando. Nesse meio tempo entrou uma senhora esperando a vez, esperou cinco minutos e saiu resmungando que iria a outro salão mais bem frequentado. Que se foda ela.

Quando ficou pronto olhamos todos pra Denise. Apesar de 28 anos de sofrimento, dá pra dizer que ficou bonitos. Todos nós a elogiamos e ficou toda boba, rindo à toa. Pagamos a conta e saímos sorridentes, deixando pra trás uma multidão de aliviados com nossa ausência.

Já estávamos na rua quando nos damos por conta da caixa do Jean com a surpresa pra depois do ataque. Ele tinha esqueçido no salão.

- Porra, deixa eu ligar lá pra ver se elas encontram.

Foi num orelhão e voltou se cagando de rir. Se torçia todo de tanto rir, não conseguia nem falar.

- O que foi cara?

- A caixa véio, tinha umas duzentas baratas dentro e um fundo falso, era só levantar que as baratas caíam. Caralho! Eu pedi pra mulher que atendeu o telefone pra guardar a caixa pra mim e foi foda, deu ouvir a gritaria do outro lado da linha!

Jean se superou. Caímos todos na gargalhada e se tem uma intervenção que pro resto de meus dias vou lembrar como bem sucedida, foi essa.

- Longa vida à delinquencia juvenil!!!!


As Andorinhas tem Duas Casas (e não alugam a que está vaga) - (ato treze) Editar

Morar em kitnete é foda. A maioria só tem um cômodo e se bobear até o banheiro é conjugado. Jean e Vinicius já repartiam apertadamente aquele cubículo e desde que Sergio veio do interior está morando junto e olha que o cara é metido a artista plástico e faz uma bagunça do caralho com sua criatividade.

Estávamos todos discutindo a possibilidade de alugarmos algo maior quando o neo-revoltadocontraosistema Fabio, começou a discursar.

- Aluguel é o fim do mundo! Já não concordo com propriedade privada, aluguel então, é muito porco.

- Realmente... é uma grana que só sai, que morre.

- E veja bem, é um negócio que não produz, só suga.

- Me diz uma coisa, a maioria das pessoas mora de aluguel, né?

- Em cidade grande pelo menos acho que é assim.

- Tínhamos que fazer alguma intervenção cutucando nessa ferida.

- É, mas o quê?

- Não sei...

É interessante como as inspirações às vezes brotam das coisas mais bestas. Desta vez foi Vinicius que saiu pra ir na Lanchonete da esquina pra comprar refri pra nossa tuba e voltou com um sorriso de orelha a orelha.

- Olha o cara!

- Parece aquele gato rosa e rocho do Alice no País das Maravilhas.

- Tive uma idéia pra fuder com esses caras que alugam casas.

- Ó o cara! Ó o cara!

- Eu tava voltando. Viajando. Olhando pra cima e vi um placa “aluga-se” na janela de um apê vazio.

Todo escuro, absolutamente vazio, completamente limpo pra gente entrar.

- Invadir apartamento?

- E aí a gente pinta as paredes e faz altas obras de terrorismo poético.

- Não é um má idéia. – comentou Fábio coçando sua barbinha rala.

- É, só que não podia ser um apartamento, esqueceram as dificuldades de se entrar num prédio do dia em que jogamos a TV? O que dirá então de entrar num apartamento...

Todos concordaram que apê era a princípio inviável, mas que era preciso fazer algo nesse sentido.

Fábio sugeriu uma casa num desses bairros mais burgueses.

- Se der uma banda nos bairros vai ver uma porrada de casa grande, massa, pra alugar.

- E o alarme?

- Já andei pensando nessas paradas noutro dia e me liguei num negócio. Tem uma casas que tem cachorro cuidando. Nessas casas não deve ter alarme, se não, pra que cachorro?

- Tá, mas e os cachorros?

- A gente consegue um negócio pra eles dormirem. Tipo alguma coisa pra misturar num naco de carne.

- É Fabio, parece que você não é tão tongo quanto aparenta.

- E voce não é tão ligado quanto aparenta.

A operação aos poucos acabou sendo definida. Eu e Fabio saímos dar um rolê de buzum lá pelas bandas do Bacacheri numa tediosa tarde de domingo pra definir o alvo. Fabio é mestre nesse tipo de coisa, foi ele que escolheu o prédio pro Jean jogar a TV naquela vez. Marilia se encarregou de conseguir calmantes com sua tia hipocondríaca pros cães dormirem. Acabamos por encontrar uma casa limpeza, bala, no Bairro do Tingüi, com dois São Bernardo e um Pastor Alemão, próxima de uns terrenos baldios. A casa era grande, um sobrado com um quintal arregado. Era o alvo perfeito.

Tratamos então de conseguir o material pro ataque. Sergio batalhou e conseguiu vender umas agendas e uns cartões que ele faz e com a grana comprou uns quantos tubos de tinta a óleo. Jean comprou uns sprays. Eu giz de cera das Casas China, afinal ando duro pra caralho. Fabio imprimiu uma porrada de poemas e comprou umas fitinhas coloridas pra amarrá-los não se sabe onde e Vinicius comprou fósforos e álcool.

- Que merda você vai fazer com isso?

- Só o Jean que pode fazer surpresas agora? Na hora vocês vão ver.

- Tá bom, só não vai fazer merda, não vai foder com tudo.

Perto da meia noite de quinta-feira pegamos um latão até o Terminal do Cabral e o resto do trecho seguimos a pé. Caminhar é bom pra pensar e precisávamos de uns momentos de concentração. A uns quinhentos metros do alvo nos dividimos, Fabio, Vinicius e Jean foram na frente pra sedar as feras e eu fiquei com o Sergio, estava um pouco nervoso com essa coisa de invadir casa com cachorro.

Demoraram pra caraaaalho, mas demoraram mesmo. Umas três horas ou mais, já estávamos preocupados que tivesse acontecido alguma coisa e já estávamos pensando em “operação resgate”, quando chegaram.

- Porra cara, onde é que vocês estavam?

- Os filhos da putas dos cachorros não quiseram comera a carne de jeito nenhum, tivemos que achar outra casa com um Pitbull mané que topou comer. A casa é massa também só que temos que apurar antes que aquele monstro acorde.

Fomos correndo e chegando lá pulamos uma grade alta do lado esquerdo da casa, os piás já estavam ligados das manhas. Difícil mesmo foi entrar dentro da casa. O curso de “chaveiros” que o Jean tinha conseguido pra gente foi altamente mandrake, não aprendemos a arrombar portas bosta nenhuma. As janelas do térreo tinham grades e a única janela alta disponível, que era o plano de invasão do Fabio, revelou-se de difícil escalada. Pra completar não tinha nenhuma escada ou algo semelhante no quintal.

Acabou que tivemos que arrombar uma porta. Foi um cagaço dos diabos o barulho que aquela porra fez. O cachorro se mecheu onde estava deitado e todos nós prendemos a respiração. Quando entramos na casa estávamos todos tensos.

- Galera, vamos sentar aqui no escuro, relaxar um pouco e ouvir os ruídos. – eu estava tenso, muito tenso.

Todos sentaram enquanto eu fumei dois cigarros pra me acalmar. Jean foi o primeiro a se levantar e começar a trabalhar com seu spray. Primeiro fez a pichação delinqüente número um: cú. Depois foi escrevendo outras frases. “Toda propriedade é um roubo”. “Estamos em território inimigo e o inimigo está em nós”. “Na natureza não existem leis, apenas hábitos”. Relaxei, pedi o spray emprestado e mandei ver: “Em mim também dói.”

Então todos assumiram suas tarefas e damos início ao circo de horrores. Engraçado foi ver Vinicius, o homem da surpresa, só sentado nos olhando na penumbra com seu sorrisinho de Monalisa. Sergio acendeu uma vela pra iluminar e começou a jogar umas tintas na parede pra fazer uns fundos coloridos. Fabio saiu com seus poemas e fitinha coloridas pro quintal e eu comecei a desenhar umas charges toscas na parede com meu estojo de giz de cera de um e noventa e nove.

Jean esvaziou seu spray e ficou sentado com Vini curtindo o trabalho do Sergio que estava realmente ficando muito louco. Todos nós criticamos o meio artístico e suas afetação mas admiramos o trabalho do Sergio, o cara é bom. Ele já estava quase no fim quando ouvimos alguém bater palmas na frente da casa.

- Puta que o pariu! Quem será que é?

- Olha lá, rápido.

Vinicius rastejou teatralmente até a janela da frente e deu uma espiada discreta.

- É um carinha de moto, desses que fazem ronda nos bairros.

- Merda deve ter visto a vela, apaga essa porra Sergio!

Apagamos e nos escondemos todos na área de serviço perto da saída. Vini ficou de butica no cara da moto. Ele deçeu da moto, olhou no escuro primeiro, depois açendeu uma lanterna, iluminou e viu o cachorro dormindo. Apitou pra acordá-lo e todos nós quase tivemos ataques cardíacos simultâneos. Ufa, o viado não acordou, só que o ronda ficou desconfiadíssimo, sentou na moto e esperou um tempão pra ver se ouvia algo.

Tava na cara que era hora de saírmos fora antes que as coisas se complicassem ainda mais.

- Vamos embora povo! – chamei.

- Espera o cara sair.

Só que ele não saiu. Quer dizer, saiu e estacionou a moto na esquina próxima e montou campana no escurinho da sombra duma árvore.

- É... o cara não vai em bora tão cedo.

- Vamos embora! – eu estava muito nervoso.

Sergio foi pé por pé e terminou sua genial obra no escuro mesmo enquanto fomos conferir o que Fabio estava aprontando no quintal. Fez um troço até que bem massa. Tinha umas árvores pequenas e ele fez uma autêntica decoração de natal com seus poemas em todas as árvores, de dia deve ter ficado esteticamente alucinante. Sergio voltou e fomos todos até o muro dos fundos pra saltar fora quando nos demos por conta que o Vini tinha sumido.

- Onde aquele viado se socou?

Sergio já estava saindo em sua procura quando o lazarento revelou sua tão misteriosa surpresa: um enorme clarão saindo de dentro da casa, o paunocu tinha tacado fogo em alguma coisa.

- Você incendiou a merda da casa seu bostinha!!!!

- Nada, só açendi a lareira com uma Revista Veja que encontrei no canto sala, essas revistas mereçeem, vamos embora.

- Seu mané, porque você fez isso?

- Bora! Não discute! Depois a gente conversa.

O guardião do bairro apitou, acelerou sua moto e veio rapidinho quando se ligou do fogo. Dessa vez o cachorro acordou com o barulho e avançou em nossa direção. O cara mais sem jeito do mundo chamado Sergio Augusto se amarrou pra conseguir pular o muro e levou uma senhora duma dentada na barriga da perna. Ainda bem que a calça jeans que estava usando era bem grossa e os dentes do cão não chegaram a furar a perna, mas deixou umas doloridas marcas de dentes. Quando pulamos o muro descobrimos que tínhamos dado um azar fudido, o terreno era um lamaçal infernal.

Chafurdamos feito uns fugitivos desesperados. Foi um verdadeiro recorde dos cem metros chafurdados.

- Que porra! Que zica do caralho!

Vinicius estava em êxtase por causa de sua fogueira idiota e ria feito um demente. Sentamos no outro lado quarteirão pra descansar e desbaratinar o cara da moto que iluminava o lamaçal com sua lanterna tentando nos localizar. Altos momentos de tensão, o décimo terceiro ataque não podia terminar mesmo bem. Se o treze fosse mesmo o número da sorte como o Zagalo diz tínhamos ganhado a copa da França. Cabalístico isso.

O dia já estava clareando quando saímos cabreiros nos esgueirando pelos cantos das ruas pra fugirmos do local. Enquanto esperávamos ouvimos sirenes da polícia, mas felizmente não fomos pegos, a manha foi esperar uma cara até a poeira baixar. Quando já estávamos relativamente longe corremos. Corremos muito até chegarmos numa lanchonete pra comer e beber pra poder voltar pra nossas bestas rotinas de criaturas sociais.

Estávamos Exaustos, Sedentos & Famintos, apesar da descarga de adrenalina.

O tio da lanchonete estava desconfiadíssimo com nossa imundície e falamos a ele que estávamos saindo de uma festa.

- Passamos em Medicina na Federal, tio. O senhor não bota fé o quanto é difícil e o quanto estamos felizes.

Não gargalhávamos desta vez devido a estarmos podre, mas sorríamos em silêncio enquanto o lanche não chegava e no íntimo todos pensavam.

- Foi massa!!!


A radioatividade do ar leva até vocês: mais um programa da série Delinqüência - (ato quatorze) Editar

Tem dias que a vida parece coca-cola sem gás. Nenhuma música agrada, nenhuma conversa progride e a apatia vence o jogo. Estávamos neste estado deplorável, assistindo São Paulo e Cruzeiro na televisão sem volume, quando a Ana Paula Padrão interrompeu nosso tédio com aquela cara de peito contido que faz na hora de noticiar algo grave. Era a morte do filho da puta dono da Globo.

Foi show a gritaria da galera, urros selvagens e gritos primais celebraram o momento. Sergio Augusto então se emociona e toma a atitude mais inesperada pela qual já passei. Arrancou da tomada o fio da televisãozinha dos piás e jogou a lazarenta pela janela.

- Enfim livres! – berrou para todo vizinho que quisesse ouvir. Foi um choque. Ficamos todos paralisados. Absolutamente não esperávamos aquilo. Tínhamos jogado uma TV do sétimo andar outro dia, mas, porra, era a TV dos piás. Pequena, preto e branca, mas era a TV que eles tinham. Não falei nada, não sabia o que dizer. Fábio ria que se cagava e Jean, um dos donos do aparelho, ficou atônito. Mas Vinicius explodiu em fúria.

- Puta que o pariu! O que tu fez seu viado?

-Ué? E a campanha “Jogue Sua TV Pela Janela”?

Ele estava coberto de razão. Vinicius resmungou e começou a ficar vermelho de raiva. Sergio tinha em seu favor falácias passadas, é um desses caras que nunca perdem a calma.

- Jogar uma TV que não funciona de um edifício invadido e manter uma funcionando em casa é ridículo.

Vinicius respirou fundo e deve ter contado até mil até que a realidade começasse a bater. Aliás, bater não, socar violentamente o rosto, dele e de todos nós que estávamos lá. O paunocu do Sergio conseguiu fazer com a gente o que provavelmente não conseguimos fazer com ninguém.

O tão aclamado choque na percepção das coisas, na rotina bestial enraizada em nossa psique. Num segundo o Galvão Bueno estava lá, queimando um filme puxando o saco de seu patrão e noutro segundo a televisão estava na calçada. Não era muito alto, só rachou o tubo de imagem, mas o suficiente pro fantasma do Galvão sair pelas rachaduras.

Levamos um tempão pra começar a conversar novamente. Foi Jean quem quebrou o gelo.

- É seu monstro, você tem razão, veio.

- Com certeza! – ria o Fábio.

- Você fala porque mora com os véio em Colombo e não era tua.

- Relaxa, mano! A TV era podre e merecia um descanso, com uns poucos reais você compra outra igual.

Não! Não vou mais comprar televisão. Nunca mais!

Por fim acabaram se abraçando com desculpas e obrigados que mais pareciam duas bichas locas.

Acabamos ficando acordados até altas horas falando merda e profanando a alma do pobre milionário que acabara de morrer. Lá pelas tantas já estávamos normais, viajando em inventar delinqüências. Fabio estava hilário, foi ele quem deu o toque.

- Ari! Lembra daquela tua viagem de montarmos uns transmissorzinhos de FM para interferirmos nas televisões?

- Lembro.

- Pois então, a gente pode aproveitar essa deixa pra fazer a parada.

- Tens razão...

- Pois então, vamos mexer nossas bundas gordas. Depois daquela baia invadida em que quase ninguém viu nossa ação eu tava afim dum esparro.

No outro dia Vinicius tratou de encontrar Marcelo, aquele primo da Marilia que é técnico e que quebrou nosso galho no ataque da churrascaria. Naquela vez ele participou junto, pirou e se dispôs de quebrar outros galhos.

E este era um novo galho.

- Porra gurizada, esse é fácil! Com um transistorzinho besta e vocês montam um transmissor com mais de duzentos metros de alcance.

- Mas é fácil mesmo?

- Claro, numa tarde a gente monta e é baratinho, arrumamos quase tudo que precisa na minha sucata de novo.

Passamos então a considerar os aspectos práticos da operação. Com alcance 300 metros de raio resultaria numa área de abrangência de um circulo de 600 metros de diâmetro, isso sem nenhum prédio ou montanha no meio. Uma barreira de edifícios, por exemplo, atenuaria o sinal. Escolhemos então um bairro residencial. Jean estava interessado em atingir a maior quantidade de casas possível.

- Não tem como aumentar a potência do sinal pra atingir mais casas?

- Até tem, mas vai encarecer e complicar um pouco mais.

- Muito?

-Passa de cem reais. Mas escuta o seguinte, vocês podem montar vários transmissores e se esparramarem, desse jeito dá pra cobrir uma área grande.

- E dá pra transmitir sons ou já é viajar na maionese?

- Dá sim, imagem é mais complicado porque o sinal de vídeo em AM e gerar imagens são um negócio mais foda, mas som dá, um microfonezinho de eletreto e tá feita a cagada.

Perfeito. Passamos o domingo inteiro confeccionando os transmissores, queríamos interromper a transmissão do Fantástico, queríamos ibope. Todos trabalharam juntos, cada um no seu, menos o Sergio.

- Dessa vez quero ficar de camarote, vamos escolher o bairro do Água Verde e eu fico na casa da Marilia assistindo a TV com ela e a família dela fazendo de conta que não sabemos de nada. Quero conferir se a parada vai funcionar mesmo ou não.

Sergio, Vinicius e Marilia foram até a casa dela antes com os transmissores. Eu, Jean e Fábio fomos definir os pontos onde iríamos transmitir de modo a atingir a maior quantidade de lares possível. Fomos criteriosos pra cacete. Escolhemos quatro árvores das quais era possível enchergar as TVs pelas janelas das casas. Uma vez definidos os locais fomos buscar os aparelhos com Sérgio. Porém um teste rápido na casa da Marília revelou o pior, o viado tinha carregado eles na mochila sem o menor cuidado, amassou as bobinas e ferrou com o ajuste de freqüência.

Mas tem males que vem pra bem e enquanto passei a segunda-feira inteira me desviando de minhas funções no trampo reajustando tudo me dei por conta de que poderíamos fazer uma grande palhaçada: esperar pelo dia da missa de sétimo dia e interrompermos o Jornal Nacional. Liguei pros piás imediatamente.

- E aí Jean, o que você acha?

- Acho a idéia boa, mas dá pra melhorar.

- Como assim?

- Lembra do Tiba e do Ribamar, que rachavam o apê com a gente nas antigas?

- Sim, mas e daí?

- Eles são feras em imitar a voz de pessoas famosas. Ele podiam imitar a voz de figuras conhecidas e aí poderíamos tirar onda verdade.

Perfeito. Vini se encarregou de falar com os caras e explicar os detalhes de toda a nossa viagem, pois eles estavam absolutamente por fora de nossas ações. O etílico Tiba pirou com a idéia, mas fez uma exigência.

- Tá certo, a gente faz, mas tá um frio do caralho e eu queria fazer a cabeça antes com uns quentões.Sabe? Aquecer os neurônios.

- Eu falo com minha namorada e a mãe dela faz o quentão.

Terça à noite então tomamos um belo trago e saímos aquecido e levemente chapados de quentão pra nossas atividades. Eu e os outros delinqüentes de sempre ficaríamos cada um em sua árvore ciceroneando a transmissão e Tiba e Riba (bela dupla, não é verdade?) ficariam se revezando nas imitações, teriam que correr de um lado pra outro.

Seria na hora do Jornal Nacional e quando o programa começou Sergio, que novamente estava de plantão na casa da Marilia soltou um rojão quando William Boner deu seu formal boa noite em rede nacional. Liguei meu transmissor e comecei:

- Senhoras e senhores, interrompemos a transmissão da Globo pra homenagearmos esse grande filho da puta chamado Roberto Marinho e sua nefasta Rede Globo de televisão. Transmitiremos uma série de depoimentos emocionados de personalidades conhecidas.

Nesse meio tempo chegou o Tiba.

- Com vocês: Leonel Brizola.

Soltei o microfone que tinha sido previamente adaptado a um fio longo pro Tiba e ele caprichou no seu sotaque de gaúcho.

- O povo brasileiro tem que entender o motivo de minha angústia com essa morte. Minha vida perdeu o sentido, foi-se meu inimigo predileto.

- E agora: George W. Bush, presidente dos Estados Unidos da américa:

Tiba então mandou ver num sotaque de gringo em praias tropicais:

- Lamentamos com profundo pesar a morte desta importantíssimo jornalista argentino.

De repente mais um rojão, era Sergio sinalizando que a bagaça estava funcionando. Tiba correu pra árvore do Fabio e enquanto esperava pelo Riba segui discursando sobre os males que a Globo infligiu na história recente de nosso país. Jean fez uma bela pesquisa na internet sobre as filhadaputiçes globais. Discursei abençoado por Marte, que brilhava majestoso no céu logo abaixo da lua. O céu das frias noites curitibanas é simplesmente sensacional. Ribamar chegou logo e a palhaçada continuou com Dercy Gonçalves.

- É, seu filhos de uma puta! Vou enterrar vocês todos!

Silvio Santos veio com a nova última piada nacional:

- Hahaê! Ele me ganhou! Ele me ganhou! Ameacei morrer pra melhorar meu ibope, mas ele me ganhou, morreu de verdade! Hahaêê, Lombardi!!

- É patrão! Ele saiu na frente!!

Então Anthony Garotinho se mete na conversa:

- Graças a Deus não foi nenhuma bala perdida!

- E atenção pessoal! Temos aqui a importante presença de um membro da ONG Greenpeace! “Primeiro acabaram com o Leão Marinho, depois foi a extinção do Cavalo Marinho, e agora, o Roberto Marinho. Enfim, uma grande perda pra biodiversidade.”

Ribamar saiu correndo e fiquei esperando pelo Tiba novamente, sem parar a transmissão. Quando Tiba chegou perto e pegou o microfone eis que acontece a tragédia, ou a comédia, o futuro dirá. Um gordão saiu correndo de uma casa no meio da quadra totalmente indignado, se ligou na fita.

- Seus vagabundos! Vocês não tem mais nada o que fazer seus merdas do caralho!!!

Trazia um porrete na mão e me viu em cima da árvore segurando o fio do microfone. Imediatamente gritei:

- Fuja locôôooo!!!!!

Saímos correndo nos mijando de rir do jeito desajeitado que o gordão corria com o porrete batendo no ar e do vastíssimo repertório de palavrões com os quais nos esculhambava. Tivemos que nos esconder e esperar o resto da turma terminar a ação.

Apesar desse percalço foi um sucesso. Sergio nos contou que a mãe da Marilia se torcia rindo no sofá e não deixou o marido trocar de canal. Curtiram a transmissão até o final e isso nos dá uma noção do efeito de nosso ataque nos lares do bairro. Aos poucos fomos nos reunindo de volta na casa e é óbvio que a velha se ligou.

- Foram vocês, né seus desocupados?

Mostramos a ela os aparelhinhos e demos belas gargalhadas. Jantamos todos lá e depois fomos comemorar o sucesso da ação no Pacatatucutianão, um bar muito louco que fica ali no Água Verde mesmo. Os deuses nos premiaram com uma louquíssima noite de festa e Jean tirou a sorte grande: agarrou uma gata fenomenal chamada Alana.

Provavelmente o capeta deve ter dado umas quantas espetadas no jornalista morto em nossa homenagem.

- Obrigado Capetãããoo!!!!


Uma Missa para o Lado Selvagem - (ato quinze) Editar

Nos últimos tempos o movimento pelos direitos dos homossexuais tem crescido no mundo todo. De um lado gays, de outro homofóbicos e as discussões muitas vezes saem da argumentação pra caírem na violência física pura e simples. Esse é um assunto polêmico em que os preconceitos ocultos mais se manifestam.

Na kitnete dos Delinqüentes o assunto veio à tona quando Jean ligou pra mina que conheceu no Pacatatucutianão depois de nosso ataque dos transmissores. Quem atendeu foi o irmão dela, com um alô totalmente boiola.. Jean ficou de cara.

- Porra, o irmão da mina é viado!

- Que é que tem, cara? Você tá agarrando ela ou o irmão dela?

- E ainda falou que o nome dela não é Alana merda nenhuma, é Alice, a mina viajou.

Logo depois entramos num longo bate-boca sobre os gays quando comentei aquelas paradas do Vaticano insistir em condenar o casamento dos homossexuais. Jean e Fabio vieram com um discurso escrotamente homofóbico.

- Tem que matar essas bixas todas!

- Já sapatão eu curto. - Escroteou Jean.

Os dois são mesmo uns palhaços safados, Bukowskis degenerados. Vinícius é o mais cabeça aberta, pra ele que se foda.

- Cara, o que cada um faz com seu rabo não me interessa. O cú é teu, mano, faz dele o que quiseres, estou pouco me fodendo.

Sérgio que me surpreendeu; porra, parece que o cara tá sempre querendo me surpreender.

- Olha, eu penso o seguinte: não tenho nada contra a relação de homem com homem ou mulher com mulher. Não vejo nada de errado nisso, a imagem é que choca.

- Como assim?

- Ah... por exemplo, você olha a foto de um casal heterossexual se beijando e enxerga amor, mas se o casal for do mesmo sexo não se vê o amor, apenas o beijo.

- Deixa de ser ridículo!

- Só porque você não vê o amor, não significa que ele não exista e que mais ninguém vê. À merda você com esse seu raciocínio.

O bate-boca foi longe, com momentos até de agressividade, aquela kitnete acabou transformando-se num microcosmo da questão homossexual. Várias bandeiras foram erguidas, várias foram baixadas e no final das contas, como de costume, chegou-se numa espécie de consenso.

Só que infelizmente o consenso não veio porque ninguém convenceu ninguém. O consenso veio porque Vinícius teve uma idéia genial pra um ataque. Só assim pra chegarmos a um consenso mesmo nesse assunto, o que nos une é a delinqüência, é o desrespeito total às instituições. E a idéia do Vini era atacar a Igreja, instituição que a tempos estávamos afim de sacanear.

- Prestem atenção no que eu estava pensando.

- Lá vem bomba...

- O Papa não quer que eles casem, lançou uma campanha mundial e a homofobia só fez crescer no meio católico. Podíamos fazer um belo protesto contra essa atitude conservadora.

- Sim, mas que ataque?

- Compramos um monte de revistas pornográficas de gays, colamos a cara do Papa em cima de cada um que tiver trepando e colamos os papéis numa igreja.

Ficamos em silêncio, pensando, até que Jean caiu na gargalhada.

- Cara! É muita palhaçada! Que plano do caralho, meu!!!

Sérgio também riu, curtiu a viagem.

- E a gente podia avacalhar ainda mais, nos vestindo de travecos e indo assistir a uma missa. Aí a galera emudeceu mesmo. De verdade. Opa, peraí caceta. Apoiar o movimento é uma coisa, dar uma de traveco já é outra bem diferente. Fábio logo já tomou a frente.

- Tô fora!

Fiquei indiferente, até que Vini começou a se mijar de rir pensando na puta cena que seria fazermos isso.

- Imaginem galera, o constrangimento causado pela presença espalhafatosa de bixas locas numa missa. Cara, isso pode realmente ser hilário!!

Acabou que bolamos um plano altamente constrangedor pra nossas masculinidades. Uma verdadeira prova de fogo em que nossos preconceitos mais íntimos seriam postos em cheque. Vinícius ligou pra sua namorada Marília pra conseguir as roupas e as maquiagens. Ela simplesmente não botou fé na nossa piração. Não conseguia nem falar direito ao telefone de tanto que ria.

- Você pára de palhaçada, sua tonga! - Vini ria junto.

Chegou na kit com um sacolão de roupas e uma cara de debochada.

- Essa eu quero ver, se cobrarem vinte reais de ingresso nessa missa eu pago mesmo assim, vale, pode ter certeza que vale.

Fábio e Jean se encarregaram das pornografias. Compraram umas revistinhas e foram na casa do Társis, amigo nosso que tem micro com scanner. Társis também achou a idéia engraçada pra cecete e eles acabaram entrando numas e fazendo altas viagens no Photoshop. A carinha do papa em cima dos gays ficou perfeita. Acompanhando cada panfleto colaram um texto dizendo: "O Ministério do Caos adverte, o mais importante é o amor". Procuraram na net outras imagens sadomasôs e avacalharam ainda mais com o Papa e colocaram cada colagem dentro de um envelope branco pra plantarmos na igreja.

Escolhemos a Igreja Padre Agostinho na missa do domingo de manhã. Não era uma igreja nem muito grande, nem pequena e ficava num bairro, mais sossegado. Passamos a madrugada de sábado dando um trato em nossos visuais. Éramos todos cabaços nesse tipo de coisa e Marília foi nossa diretora artística, dando os toques principais na hora das maquiagens.

Sérgio ficou horrível, seria uma bixa assustadora se o negócio fosse sério. A ironia é que os homofóbicos Jean e Fabio foram os mais perfeitos. Se fossem bixas, seriam bixas de sucesso. Claro que tirei onda deles.

- Hummmm!! Vocês tem é medo! Cabreirisse, rárárá!

- Olha a bundinha delas, hummmm!!! - Vini também não desperdiçou a bola na marca do pênalti.

- Vai te fuder Ari!!!

Eu e Vini ficamos meia boca, com uns vestidões compridos até o tornozelo e uns colares breguíssimos.

Combinamos que entraríamos todos separados na igreja, pois entrar junto seria muito chamativo e queríamos apenas dar umas alfinetadinhas nos católicos, não porradas. Tolerância religiosa é importante e acreditamos que não estávamos sendo muito intolerantes, apenas estávamos sendo uns palhaços delinqüentes.

Domingo cedo pegamos o Água Verde-Abranches e descemos perto do Bosque do Papa, só pra dar um grau cerimonial a nosso ataque. Estava um frio desumano e a grama ainda tinha uma camada de geada por cima. No meio do bosque tem uma estátua de um papa com uma expressão pra lá de macabra no rosto. Maquiamos o papa e fomos pra Igreja.

Vini foi "a primeira" a entrar e ficou bem na frente, na primeira fileira de bancos. Depois entrei eu e fiquei lá pelo meio, do lado esquerdo. Carregávamos todos nossas colagens nos envelopes na mão. Marília e Társis foram vestidos normalmente pra serem platéia e não perderem o show. Jean e Fábio, as duas "bixas gostosas e enrustidas" entraram quase juntos e ficaram próximos uma do outro, no meio,do lado direito. Sérgio que demorou pra caralho.

A missa já tinha começado e já pensávamos que ele não entraria quando chegou e se mocou no fundão.

Ele é o tipo do cara que gosta de dar idéias pra que os outros ponham em prática, fazer ele participar de nossos ataques tem sido nossa maior vitória.

Foi incrível como ninguém nos olhava diretamente nos olhos. Era como se fôssemos invisíveis. E também parecia que estávamos fedendo, ninguém ficava perto. No mínimo um metro e meio de separação física. O padre foi quem se fudeu bem mais pra disfarçar que não estava enxergando nada. Vinícius estava bem na sua frente, bancando uma autêntica bixa loca. Na hora do sermão ficou descaradamente dando em cima do padre e nos cânticos era totalmente "desafinada e estérica".

Só tinha mulheres na primeira fileira e algumas começaram a se invocar, principalmente quando Vini meio que se emocionava e insinuava que iria dançar no embalo dos hinos. Eu tava olhando pra ele na hora em que levou uma cotovelada de uma delas.

Começou então a dar açenadinhas pro padre, que teve uma hora que chegou até a gaguejar. Nesse momento foi difícil conter o riso. Estávamos sendo o mais escrotos possíveis, cantávamos desafinados, fazíamos comentários bestas sobre trechos do sermão para os vizinhos, que ignoravam solenemente, até que as coisas começaram a se complicar. O padre emendou um sermão contra o casamento homossexual, primeiro insinuando e depois descaradamente. Foi ele quem chutou o pau do barraco primeiro.

A princípio colocaríamos nossas colagens pelos bancos discretamente, mas o sermão improvisado exigiu de nós também um improviso. Era a hora de agirmos diante do inesperado. Um dia isso teria de acontecer, pelo menos foi sob o teto de um deus.

Vinícius tomou uma atitude drástica e interrompeu o sermão.

- Isso é um preconceito absurdo!! Isso contraria completamente a frase de Cristo que diz que o mais importante é o amor.

Falou isso balançando os braços e deixando cair os envelopes com nossas colagens. Caíram vários, próximos ao altar. Sem querer viajar e já viajando, o silêncio dos fiéis chegava a fazer eco. Vini terminou de falar e dirigiu-se à saída a passos largos e resmungando palavrões. Vi muitas almas se benzerem.

Em solidariedade à sua atitude saímos todos juntos, indignados também.

- Isso é uma falta de respeito para com o ser humano!

Fomos pedindo licença pras pessoas e deixando propositadamente os envelopes caírem no chão. Sérgio tava tão escondido que nem vi ele sair. Jean foi o último a sair e quando estava na porta virou-se e falou pra todos:

- Êita coração de pedra!

Saímos da igreja todos correndo e rindo. Não sei porque corremos tanto, mas corremos. Chegamos no Bosque do Papa e nos jogamos no chão extasiados pelas gargalhadas e imaginando como a missa poderia ter prosseguido depois daquela cena. Foi muito engraçado. A geada já tinha desaparecido e a maquiagem da estátua também, algum guarda municipal deve ter se ferrado e lavado tudo, efeitos colaterais de nossa guerra, seu guarda, foi mal. Trocamos nossas roupas enquanto esperávamos Marília e Társis.

- Gurizada! Muita cara de pau a deles, seguiram a missa como se nada tivesse acontecido!

- E os envelopes?

- Fizeram de conta que não estavam lá, mas deixe quieto que depois tenho certeza que irão conferir o que tem dentro, aí sim levarão o verdadeiro susto.

Ainda era de manhã e fomos a um bar na Mateus Leme tomar umas cervejas escuras pra comemorarmos. Não tínhamos dormido à noite nem comido nada antes de sair de casa, de modo que o jejum fez com que as beras pegassem valendo.

Voltamos pra kit meio bêbados e dormimos o resto do dia cada um com um sorriso no rosto imaginando a abertura dos envelopes.

Foi muita palhaçada.


Eu Não Pedi Pra Nascer, Nem Vou Nascer Pra Perder - (ato dezesseis) Editar

Dinheiro é como droga e estamos quase todos viciados. As crises de abstinência são terríveis. Cada vez mais se faz cada vez menos sem ele. Sérgio está desempregado e tá foda de arrumar alguma coisa. Se dar bem hoje em dia é como tirar a sorte grande, ser uma criatura iluminada pelo Deus Mercado. Até os que tem trampo fixo, como eu e Jean, estão pela bola oito, com sérios riscos de perdê-los.

Somos uma autêntica geração de Fudidos & Mal Pagos. Na segunda-feira à noite estávamos chorando as mágoas e brincando de rotular nossa geração.

- Desistam, vocês só vão conseguir isso quando ficarem velhos e a geração da vez já for outra. - Vinícius é um pessimista apocalíptico incurável.

Sérgio é enfático, esse seu chavão até que já é meio antigo, mas ele sempre solta essa.

- Somos os Palestinos do cotidiano, expulsos dos nossos sonhos e das nossas aspirações e refugiados numa realidade que nos exclui.

- Pô, que foda isso...

Eu e Fábio somos do palpite de que somos múltiplos em rótulos, dá pra chamar de uma porrada de maneiras, a Geração Queda-livre, a Geração "O Atrasado Que Paga a Conta" ou então mais perfeito: somos a Geração "O Que é Um Peido pra Quem Tá Todo Cagado?".

- Vocês estão viajando. - Falou Jean calmamente, fumando um Charuto que arrumou não sei onde. - Na verdade somos mesmo a "Geração Espermatozóide".

- É...

- O prêmio é bom, se você fecundar, fica nove meses curtindo e desenvolvendo o corpinho, depois nasce pros prazeres da vida. Mas o vestiba é fudido, são bilhões de candidatos por vaga. Mas tem gente que consegue...

Ficamos naquela, pensando na viagem dele, até que ele deu uma baforada em seu charuto e quebrou o silêncio.

- Inclusive eu tenho um plano de uma ação nesse sentido, não curti a dos travecos, queria fazer algo diferente.

- Que ação?

- Um autêntico ataque.

- Ataque?

- Uma grande palhaçada, pra dizer a verdade.

- Fala logo, porraaa!

O cara falou só isso e ficamos todos nos olhando e pensando: "Olha a do cara!". Nem falamos nada, simplesmente ficamos esperando por maiores explicações.

- Fácil! A gente consegue um feto falso, um feto de uns três meses, um pouco de sangue de animal e deixa no banheiro de algum shopping.

- Rapaz, não boto fé nessa tua mente macabra!

- Mas calma aí, não é só, não pode ser só.

- O quê?

- A gente deixa um manifesto, como se o bebê mesmo não quisesse nascer. Tipo um feto suicida. - Feto suicida?

- Eu não quero nascer nesse mundo de merda!

Pronto. A idéia estava lá. Uma daquelas típicas idéias monstruosas que se agigantam e te dominam.

Operacionalizar a idéia já foi mais difícil, pois precisávamos de uma mina, Jean não se encontrou com Alana Alice e essa mina teria de ser a Marilia.

Foi foda convencê-la. Nós somos uns malacos, mas ela tá apenas iniciando nos caminhos da delinqüência. Somente depois de bolar um bom disfarce que ela acabou topando.

- Vou sair loira, com uns óculos grandes e um casacão de frio.

- É limpo, no banheiro tem várias portinhas, vão demorar pra entrar na que você usou, dá tempo de sumir. - Jean foi o arquiteto da ação.

Fez um mistério lazarento, disse que comprou curtiça e que ele mesmo daria um jeito de esculpir o feto.

O manifesto seria com ele também. Aceitamos o mistério porque desde a surpresa do ataque ao salão de beleza do shopping ele, digamos assim, ganhou uma certa moral no grupo.

Eu e os guris cuidamos então do resto.

E o resto era o sangue e os outros apetrechos realísticos. Fábio veio com uma de que víçeras de porco são muito parecidas com as humanas e acabou usando seu humor negro pra dar uns toques aterrorizantes ao resultado. Conseguimos umas paradas parecidas com cérebro, muito horrível. Fomos até Campo Comprido pra conseguir o material na casa de um tio, amigo do pai dele.

Vinícius ficou com Marilia e seus disfarces e o Sérgio participou do mistério do Jean. Jean queria dar um acabamento artístico no ataque e convocou o monstro.

O sangue colocamos numa garrafa de Tubaína vazia de dois litros e as víceras numa sacola de lixo preta. Antes de sairmos de casa Jean nos chamou num canto e mostrou seu "precioso". Era um feto com dois braçinhos recém formados, sendo que o lado esquerdo estava pra baixo e o braço direito inclinado em direção à cabeça.

- Tá, mas todo esse segredo pra isso? É um feto comum.

Então tirou do bolso uma seringa e colocou na mão do feto.

- Com vocês, o feto suicida!!

Ficou perfeito, hilário, o feto apontava a seringa na têmpora direita, igualzinho a um suicida com uma arma apontada pra cabeça. Depois mostrou o manifesto: O Movimento dos Fetos Conscientes, apresentando quinhentos mil motivos pra não nascer nesse mundo de bosta. Jeanzinho acabou fazendo um manifesto altamente hard-core. Revoltado mesmo.

Marcamos a ação pra quarta-feira no início da noite, lá pelas sete horas. O desafortunado alvo da vez foi o Shopping Müller, que ainda não tinha sido vítima de nossas sacanagens delinqüentes. Vinícius entrou com Marília e rapidamente se dirigiram ao banheiro. Marília entrou e ele ficou esperando. Logo chegamos nós, que ficamos nas proximidades observando o desenrolar dos fatos.

Marilia demorou, demorou e demorou. Deve ter ficado uns vinte minutos lá dentro.

- Será que ela não vai mijar pra trás?

- Relaxa, a mina é das nossas.

Até que por fim ela saiu, apressada, nervosa, a passos largos. Vinícius foi atrás pra saber se ela tinha feito tudo conforme o combinado e também para tranquilizá-la um pouco. Ficamos esperando, torcendo pra que rolasse o maior escândalo possível. Nosso real objetivo ao atacar os shopping é que essas igrejas do consumismo deixem de ser a ilha da fantasia que proclamam ser. Lutamos, digamos assim, contra o apartheid social que é fortíssimo em Curitiba.

Vinicius voltou e contou que saiu tudo conforme o planejado. O bebê ficou com o braço desocupado virado pra cima e somente quando fosse erguido que a palhaçada seria revelada. Marília, mesmo contra a vontade e morrendo de nojo, molhou os dedos no sangue já quase coagulado e escreveu na porta do toalete a frase: Movimento dos Fetos Conscientes.

O tempo foi passando e entrou uma pessoa, depois outra e outra e nada. Já estávamos pensando que o shopping fecharia sem ninguém se ligar quando ouvimos o tão esperado grito. Um autêntico grito de quem leva um cagaço.

- Ai meu deus! Tem sangue lá dentro! Tem sangue lá dentro!

Era uma velhinha, quase morremos de pena da coitada, se mijou de susto, ou se cagou, pois caminhava lentamente com as pernas meio abertas, parecia cagada mesmo. A coitadinha tremia toda e não conseguia pronunciar uma frase inteira, só gaguejava.

- O que foi, minha senhora? – Perguntei disfarçadamente.

- Eu, eu, eu, eu não s-sei! T-tem muito sangue lá d-dentro. Eu não sei! Deus que me perdoe, mas parece que abortaram!

- Abortaram? Lá dentro?

- Eu não sei! Eu não sei!

Fiquei com o coração partido, a apavorada senhora começou a chorar. Não demorou até que um segurança do shopping chegasse junto.

- O que está acontecendo aqui?

- Seu moço! Seu moço! Tem muito sangue lá dentro, eu não sei, eu não sei, mas deve ter acontecido alguma coisa horrível lá dentro!

O rapaz pediu licença, falou alguma coisa no rádio e entrou no mictório. Naquela hora eu desejei ter nascido mulher, só pra ver a cena. Sérgio não desperdiçou a chance e tirou onda.

- Se tivéssemos vindo travestidos que nem fomos à missa, poderíamos ver nossa magnífica obra de arte.

- Cala boca, seu animal!

Vinícius saiu com Fábio falando aos quatro ventos que tinha ocorrido um aborto dentro do banheiro. Todos que ouviam levavam a mão à boca e murmuravam deusmelivres e coisas do gênero.

Quando as pessoas começaram a se aglomerar pra ver o que estava acontecendo chegaram mais três seguranças e fecharam o banheiro.

- O que está acontecendo?

- Estamos verificando, mas a princípio não é nada de mais Vinícius não cansava de repetir:

- Foi um aborto, a senhora que viu me garantiu que foi um aborto.

O segurança parecia seguro de si.

- Calma, parece que não é nada de mais.

De repente, o circuito interno de som do Müller anuncia.

- Informamos nossos clientes que houve um vazamento de água num de nossos mictórios, mas nossos técnicos já estão resolvendo o problema e em breve ele já estará funcional novamente.

Filhos de uma puta! Lacraram a entrada do toalete em questão e não deixaram ninguém mais entrar no banheiro enquanto o “problema” estava sendo resolvido. Vimos várias faxineiras entrarem com baldes e panos. Bom, pelo menos elas e alguns funcionários viram, melhor que nada.

Marilia voltou sem seu disfarce e ria toda vez que via a cara de deboche das faxineiras que saíam do banheiro. Desta vez foi Marilia quem mais riu, merecidamente, foi o primeiro ataque com ela como protagonista principal. Várias pessoas acompanhavam o entra e sai do banheiro e todos, sem exceção desconfiavam que alguma coisa estava acontecendo.

Mas a direção do shopping no mínimo empatou com a gente, conseguiu, na medida do possível, abafar o caso.

No manifesto do Jean estava escrito mais ou menos assim: “Já foi uma concorrência dos diabos pra mim, como espermatozóide, conseguir fecundar o óvulo. Não quero nascer pra ter que concorrer de novo, com outros bilhões, por uma vaga bem sucedida nessa sociedade porca.”

Voltamos a pé pra casa rindo muito deste e de outros argumentos engraçadíssimos que Jean usou em seu manifesto. Realmente, se houvesse uma opção de escolha, será que todos iriam querer nascer nesse mundo doente?

“O Mundo tá muito doente. Tem gente que mata. Tem gente que mente.”


Salte Fora e Puxe a Descarga - (ato dezessete) Editar

Nesse século que se inicia estamos vivendo uma época de profunda confusão. Quem não está confuso ou está mal informado ou está sendo desonesto consigo mesmo. Ninguém sabe o que está acontecendo e ninguém sabe pra onde estamos indo.

Ficamos muito impressionados com o manifesto que Jean escreveu sobre o bebê que não queria nascer. Ficou um enorme sentimento de desesperança no ar. Não dá vontade de correr atrás das coisas quando se sabe que é impossível alcançá-las.

Era esse o clima na kitnete dos Delinqüentes na sexta-feira à noite, depois do aborto no shopping center. Cada um acabou fazendo um breve perfil de sua condição neste mundo de bosta.

Saquem nosso perfil.

Vinícius estuda e batalha pra passar num vestibular enquanto faz bicos como músico. Jean trabalha de moto num serviço de tele-entrega e todo começo de ano volta a estudar e todo meio de ano desiste de estudar. Eu, trampo num escritoriozinho sem futuro. Fábio mora com os velhos, tenta sair de casa e vive fazendo planos de vida mirabolantes sem nunca levar nenhum a sério e Sérgio é uma dessas almas de artista, que nunca se encaixam na normalidade da sociedade.

Enfim, temos tudo pra dar errado, somos um caco de vidro esquecido na areia da praia, esperando alguém pisar em cima.

- Ás vezes dá vontade desaparecer. - Vinícius, o pessimista.

- Esqueça o futuro, te contenta com o teu presente e te consola com o teu passado.

- Besta isso.

Jean foi o único que não ficou pessimista depois do ataque.

- O canal não é se contentar com o presente e sim potencializá-lo, fazê-lo valer a pena.

Sérgio então se inspirou.

- Temos que valorizar os instantes.

A noite prosseguiu com mais uma daquelas nossas longas discussões filosóficas que não muito raro, dão em merda. Merda no sentido de que sempre acabam surgindo inspirações pra delinqüências diversas. Sérgio queria empreender mais uma obra de Terrorismo Poético.

- Queria criar alguma coisa que simbolizasse essa vontade de sumir, esse desejo de desaparecimento. Fábio, ainda com o orgulho abalado pelo ataque dos travecos, queria viver emoções mais fortes.

- Tô com saudade da ilegalidade, de cutucar a cobra com vara curta.

- Você é lóki.

- Podíamos invadir uma casa. - Interrompeu Sérgio.

- Pra fazer o quê?

- Uma performance de desaparecimento.

- Como assim?

- Se liguem na idéia que eu tive. Altos atos de Terrorismo Poético, só não sei como invadir a casa, isso não é comigo, mas a idéia eu tenho.

- Então fala que estamos curiosos.

- Entramos na casa, vamos até o banheiro e no lado do vaso deixamos todas as roupas de alguém.

Como se o cara tivesse se despido ali dentro. Tudo; sapato, meia, cueca, tudo. E no vaso a gente deixa uma meia, simbolizando que o dono das roupas sumiu pela descarga. E com as roupas, talvez no bolso, uma carta de despedida.

- Que louco isso... - Vini curtiu.

- Muito louco mesmo!

Cada um bolou um jeito de aperfeiçoar a idéia. Cada um mexeu na panela acrescentando seu tempero particular. Concordamos todos que podia ser uma casa da periferia, que a burguesia não merece tão poderosa obra de arte. Pelo menos em uma família, plantaríamos uma sementinha.

Jean e Fábio se encarregaram dos planos de invasão. Deram uma banda de moto pela cidade e escolheram um bairro. Deram uma banda, diga-se de passagem, em pleno horário de serviço do Jean. Fizeram aquilo que costumamos chamar de Subversão de Baixa Intensidade, SBI (Vini costuma dizer que andar sujo em ambientes chiques, também é SBI).

Sérgio, Vinícius e eu nos encarregamos da obra de arte em si. Enquanto Sérgio se internou sozinho na kit pra escrever os textos, eu e Fabio fomos até a casa de Társis, que já é quase um delinqüente, scanear imagens e preparar os documentos do desaparecido.

Tive uma idéia do mal. O cara iria se chamar Jesus Cristo e em todos os documentos colocamos uma imagem padrão do "filho do homem" como fotografia. Fizemos tudo direitinho. Data de nascimento: 25 de Dezembro de 0000. Filiação: Maria de Nazaré (não sei se esse é o sobrenome correto, mas ficou esse mesmo) e José/Deus (a parceria com deus dispensa sobrenomes). Órgão Expedidor: SSP-Belém.

As roupas cada um doou alguma coisa e no sábado à tardinha já estávamos com tudo pronto. Os guris escolheram o bairro Cidade industrial e três casas como alvo.

- Pelo menos numa das três a gente tem que conseguir entrar.

- Escolhemos umas que tem moral de a gente entrar pelos fundos.

- E aparentemente não possuem cachorros.

Os dois, principalmente Fábio, estão ficando especialistas em campanar bairros. Sábado à meia noite juntamos nossos apetrechos, pegamos o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso e descemos no terminal Capão Raso, depois pegamos o Rondon. Marília não quis ir, estava se recuperando do estresse do último ataque e ainda não tinha nem aparecido na kit. Já estávamos ficando preocupados que ela fosse desistir do Maravilhoso Mundo da Delinqüência Juvenil.

Descemos e chegamos num boteco pra bebermos algo e nos concentrarmos um pouco.

- O que você acha Ari, é melhor começar pela casa mais fácil ou pela mais difícil?

- A mais fácil, contar com a sorte é o primeiro passo para conquistá-la.

Saímos do boteco e nos embrenhamos numa rua pouco iluminada. Andamos umas seis ou sete quadras até que Jean fez sinal pra que parássemos. Olhou pra todos os lados, prestou bem atenção nos ruídos e pulou o muro em que estávamos ao lado.

- Venham! - Cochichou.

Fábio tinha pulado quase ao mesmo tempo que ele e pulamos todos juntos logo depois. Era um desses terrenos vagos esperando por uma construção, especulação imobiliária. Fábio apontou para o fim do terreno, mostrando qual era a casa.

- Mas fiquem espertos porque a casa da esquerda, não a primeira, mas a segunda, tem cachorro e esses porras tem um fudido de um ouvido sensível!

Fomos até o muro da casa devagar, agachados em silêncio, brincando de hobbits carregando o um anel. Pulamos o muro um por um, menos Sérgio, o desajeitado, que precisou de três ajudando para conseguir. O quintal da casa era grande, tinha até uma horta. O Vegan Sérgio não se segurou e chutou umas verduras, enchendo os bolsos.

- Vamos fazer altos cremes de verdura com suco de couve quando voltarmos!

- Blarghh!!

- Psssiu!!

Atravessamos o quintal pé por pé até uma janela que guris falaram ser a do banheiro-alvo. Era uma janela fácil de abrir, dessas inteiras, que se empurra pra fora. Como sou o mais magro da turma fui o escalado para entrar. Se o vaso ficasse perto da janela era só jogar as coisas, mas também seria muita sorte ter as duas facilidades, janela fácil e vaso perto.

Enquanto entrei, Jean e Fabio ficaram cuidando em baixo da janela enquanto Sérgio e Vinícius montaram sentinela no resto das janelas da casa pra tentar ouvir se alguém acordasse. Coloquei tudo direitinho, as roupas ao lado do vaso, os sapatos, uma meia jogada num canto e a outra dentro do vaso. Quanto estava terminando minha tarefa pensei ter ouvido algo e me assustei. Estava sugestionado.

Com o susto levantei-me rápido, escorreguei no piso molhado e caí sentado. Foi um puta de um pacote. Doeu pra caralho. Fora o som do baque no chão, que assustou os dois que estavam no lado de fora.

- O que foi isso Ari? O que houve?

- Nada...nada.

Mas que estava doendo a bunda, isso estava. Escalei a janela pra voltar todo errado por causa da dor e me esforçando pra não gemer. Os guris me puxaram pelo braço e eu tomando todo o cuidado do mundo. Só que na hora que meu pés puf!, caíram no chão, a porra da janela se fechou de uma vez só, fazendo um tremendo de um barulhão. Sérgio e Vinícius, que não estavam ligados do que estava acontecendo ficaram indignados.

- Caralho! O que foi isso? O que vocês fizeram?

- Merda!

O cachorro que tinham falado começou a latir furiosamente e entramos todos em pânico. Corremos feito uns loucos em direção ao muro dos fundos. Não era a intenção, mas na correria acabamos pisoteando a horta toda. Eu corria que nem um manco por causa da dor no traseiro. Acabou que eu também precisei da ajuda de três pra poder pular o muro. Sérgio, obviamente, tirou sarro de mim.

- Viu com deus castiga?

- Vai te fuder, seu panocú!

Dessa vez atravessamos o terreno baldio correndo. "Os Cavaleiros Negros estão atrás de nós, corram hobbits, corram!" Saímos na rua de trás e corremos as seis ou sete quadras até o boteco em que tínhamos estado antes.

Ainda estava aberto. Era um bar boêmio, de madrugada e de cachaceiros mesmo. Resolvemos curtir a noite ali mesmo e ficamos até quase amanhecer o dia, nos vangloriando pra nós mesmos das virtudes de nossa obra de Terrorismo Poético.

Esse ataque acabou servindo pra recuperar nossos ânimos, pois se somos a ralé dessa sociedade porca, pelo menos temos a arte em nossos corações e o que é melhor: arte não corrompida.


Ali Babá e as Dez Mil Baratas - (ataque dezoito) Editar

Se você odeia shopping center, ir ao cinema tornou-se um programa incômodo. Se você não dispõe de muita grana, ir ao cinema tornou-se um programa caro. Todos os cinemas do centro da cidade fecharam, Curitiba ainda tem alguns, mas em cidades como são Paulo eles simplesmente desapareceram. Restaram apenas os pornôs, que provam seu valor de contestação de tabus sobrevivendo como marginais.

Essa introdução foi pra contar de um ataque que a horas já tínhamos planejado. Desde o dia em que Jean surpreendeu a todos deixando uma caixa de baratas no salão de beleza, queríamos repensar esta idéia.

- Cara! Soltar uma porrada de baratas num shopping center num dia que tiver lotado é do caralho!

- Pode crer!

Jean tinha conseguido todas aquelas baratas naquela vez porque tinha ajudado na faxina do depósito onde trampa. Na hora teve a idéia brilhante e catou todas que conseguiu, respondendo que era comida pra iguana da namorada a todos que perguntavam intrigados porque ele estava juntando tantas baratas.

Conseguir baratas na quantidade suficiente revelou ser o primeiro grande problema. Como soltá-las no shopping sem ser flagrado pelas câmeras de segurança foi o segundo. Jean estava perigosamente otimista.

- A gente pode ir na Shopping Curitiba, que tem aqueles canteiros com flores que o povo fica sentado e soltar as baratinhas no meio das flores.

- É, até dá, mas analisando as imagens das câmeras os caras vão se ligar em quem fez.

- Tens razão...

Fui eu quem teve a idéia do cinema, resolvendo antes o segundo problema.

- Podemos soltar as baratas dentro de um cinema.

- Dentro de um cinema?

- Porra Ari, aí já é terrorismo puro e simples.

- Nada véio, a gente pode deixar umas mensagens pra galera ver quando acenderem as luzes.

- Que mensagens?

- Vocês fecharam os cinemas do centro da cidade! Vocês me obrigam a vir aqui! voces racham comigo o caríssimo aluguel e por aí vai.

- Não é uma má idéia...

A gurizada começou a se empolgar com a idéia. Fábio foi o primeiro a se animar.

- E é limpo, no escuro ninguém vê nada, todos concentrados no filme.

- Rapaz, - Vinícius começou a rir. - Imagine só, quando se ligarem será tarde demais, as baratas já invadiram toda a sala de cinema!

- Genial!

- Mas tem que ter barata pra caralho.

Restou então resolver o primeiro grande problema. Como conseguir baratas pra caralho? Pensamos em mil e uma soluções, cada uma mais estrambólica e furada que a outra.

- Se formos na lanchonete ali da esquina acho que conseguimos umas quinhentas.

- Vai tomar no teu cú, fala sério.

A solução acabou vindo através de um e-mail do Antonio Silvino, do grupo dos cangaceiros de São Paulo que tinham feito um ataque sincronizado com a gente. Contei pros piás.

- Ele falou que existe uma lenda de que se deixarmos umas baratas dentro de uma caixa de papelão lacrada, após alguns dias eleas se multiplicam e enchem a caixa.

- Sério?

- Não sei, a gente tinha que checar.

Vinícius lembrou então de uma mina que faz biologia na federal. Procurou o número na agenda e saiu pra ligar de um orelhão, pois o telefone da kit está cortado de novo.

Voltou em estado de graça.

- A mina falou que dá certo! Olha como ela explicou: se você colocar dez baratas na caixa hoje, ainda hoje elas colocarão ovinhos. No segundo dia estes ovinhos já terão se transformado em dezenas de baratinhas. No terceiro dia essas baratinhas já estarão botando seus próprios ovinhos. Sacaram?

- Que massa, lôco!!!

- Em dez dias já vai ter mais de mil baratas. Se fizermos dez caixas teremos dez mil baratas!

A idéia teve o efeito de uma bomba entre nós. Cada um abraçou com vontade sua tarefa. enquanto Sérgio, Jean e Fábio ficaram montando as cixas, fui com Vinícius e Marilia no lixão catar baratas. foi divertida pra caralho nossa aventura no lixão. Munidos de sacos plásticos e luvas de borracha reviramos tudo em busca das bichinhas.

Acabamos achando e levando pra casa um monte de coisas legais. E acabamos conhecendo um monte de catadores de lixo legais também. Ser a escória e viver de achar coisas faz deles pessoas com uma visão de mundo maravilhosa. O Palestinos do Cotidiano que o Sérgio falou. Voltamos pra casa impressionados e com umas trezentas baratas.

As caixas que os guris montaram ficaram fora de série. Sérgio apresentou o resultado orgulhoso.

- Cada uma delas é uma cidadela.

Montaram só sete.

- São as Sete Cidades .

- Olha o que eu fiz. - Fábio apontou pra uns buracos na lateral das caixas. - Aqui é a entrada de serviço, você puxa esse cordãozinho e tem acesso a um buraco pra jogarmos comida pras nossas procriadoras.

Jean mostrou um papel com a "planta" das cidades, colocaram pranchas de papelão e assim construíram vários ambientes. A maior viagem. distribuímos as baratas nas caixas e nos cobrimos de toda a paciência do mundo pra esperar pelo resultado.

Depois de uma semana já dava pra ver que a parada estava funcionando. Sacudindo as cidadelas dava pra notar que já tinha barata pra cacete lá dentro. Nessa semana chegamos à conclusão que já tinha quantidade suficiente pra montarmos nossas "bombas de baratas", marcamos pra quinta-feira à noite a ação. Escrevemos vários panfletos pra jogar no chão e colar nas poltronas.

Entramos no cinema todos separados carregando mochilas nas costas como se estivéssemos voltando da aula. Só Vini e Marília que entraram juntos como namorados.

Estávamos ansiosos, todos com um sorrisinho no rosto e meio que olhando pros lados e analisando a laje das vítimas. Coitados.

O combinado era que na hora em que apagassem as luzes sincronizássemos nossos relógios. Após meia hora de filme soltaríamos nossas bombas. Acabamos adquirindo uma verdadeira paixão por aqueles bichos, eram como se fossem nossas tão estimadas filhinhas.

Aguardamos impacientes a primeira meia hora, nem conseguimos prestar atenção no filme. Só pensávamos em soltar as bombas, soltar as bombas, soltar as bombas. Quando venceu o prazo abri minha mochila, tirei a bomba (as baratas estavam em sacos plásticos, era só furá-los com o dedo para acionar), coloquei cuidadosamente no chão e abri um salgadinho pra disfarçar. Levantei e pedi licença fingindo estar indo ao banheiro e fui me encontrar com o resto da turma pra aguardarmos o desfecho. Fui ao banheiro e encontrei Vini e Marília, os dois se espremendo de vontade de rir.

Quando todos chegaram confirmando que tinham soltado as bombas voltamos ao cinema. No ambiente escuro o clima era de total expectativa entre nós. Meu coração acelerava cada vez mais a cada minuto que se arrastava pra passar.

Foram dois longos minutos até que ouvíssemos o primeiro gritinho de susto vindo lá da frente.

- Tem barata aqui!

- O que foi? Onde?

- Aqui, aqui, aqui!!

- Pssssiu!!!

Era um casal de namorados. O cara tava tentando disfarçar e acalmar a mina. ficaram murmurando não sei o que baixinho até que deram um outro grito no outro lado da sala.

Assistíamos a tudo extasiados.

- Tem uma barata na minha perna!!

O casal de antes, ao ouvir isso, acho que se ligou que alguma coisa muito estanha estava aconteceu e saiu fora em direção à saída. Mais pessoas começaram a ficar desconfiada. Vinícius se partia de dar risada. Mais gritos.

- Isso é um absurdo!

- Onde está a higiene disso aqui?

Algumas pessoas começaram a sair e se dirigir à bilheteria exigindo seu dinheiro de volta. Liberou umas poltronas e sentamos todos juntos, longe de onde tínhamos deixado as baratas, é claro, pra curtir a cena e dar risadas. O bafafá já era grande dentro da sala e podíamos rir bastante sem despertar suspeitas.

Gritos de "ai que nojo" para todos os lados, pessoas se dirigindo à saída, o bicho estava pegando quando acenderam as luzes. Os que saíram antes não viram nada, mas quem esperou as luzes acenderem viu nossos panfletos, tínhamos deixado um monte esparramado pelos corredores.

A mensagem, afinal de contas, foi passada. A direção do shopping foi rápida no gatinho pra evitar o escândalo. não sei qual foi o genial gerente a ter a idéia, mas devolveram rapidinho dinheiro pro povo e ainda deram mais um ingresso de brinde.

Lutar contra o capitalismo é mesmo foda, os caras são muito ensaboados e o dinheiro compra tudo. De nossa parte recusamos o presente e saímos fora realizados. Orgulhosos de nossas filhinhas. Orgulhosos de nossa prole.

Saímos do Shopping com a adrenalina a mil, foi um de nossos ataques mais arriscado, diferentemente de invadir casas estávamos expostos a uma multidão de pessoas e sem dúvidas seríamos presos se fossemos pegos. Fomos até um botequinho nas proximidades e tomamos A cervejada pra comerar. Menos Sérgio, o Vegan, que não bebe.

O São Gulik da religião dos Discordianos é uma barata. Dedicamos esse nosso ataque a ele.


Tá Vendo Aquela Calçada Ali Seu Moço? Escrevi Meu Poema Lá - (ataque dezenove) Editar

Muitas pessoas afirmam que tentar passar uma mensagem sem se importar com os meios é um crime.

Argumentam isso toda vez que invadimos casas ou qualquer outro espaço privado para fazermos nossos Terrorismos Poéticos. Concordaria com esses argumentos se não existissem tantos out-doors poluindo nosso campo de visão. Se for assim, então socar propaganda goela baixo também é crime. Uma vez definido isso começamos então a nos entender.

Partindo desse ponto de vista, o que a Prefeitura de Curitiba fez, ao privatizar os pontos de ônibus, é crime. Crime contra a Imaginação Pública, entupindo a cidade de propaganda. Os pontos agora possuem um enorme e luminoso painel publicitário, que além da poluição visual, ainda atrapalha a passagem de pedestres.

Não adianta, pedestre sempre se fode. Na kitinete dos Delinqüentes, aquele antro de inconformados, a indignação quanto à isso foi grande.

- É muita sacanagem, ponto de ônibus é um lugar público - Vinícius é o mais indignado.

- Ainda se fossem informações úteis...

- É, um mapa da cidade ou alguma coisa do tipo.

- Mas não, é só telefones celulares, concessionárias de veículos e etc.

Agora uma pergunta, que é mais terrorista, nós que invadimos casas pra expor nossos quadros ou eles que invadem nosso cotidiano pra nos convencer de mentiras, induzir-nos a falsas necessidades?

Óbvio, chegamos à conclusão que são eles, pois ganham dinheiro com isso. Perto deles invadir casas não é nada. Jean começou a contar que as principais técnicas de propaganda usadas hoje em dia foram criadas e testadas pelos nazistas.

- Disso ninguém fala.

Concluímos que nosso próximo ataque deveria ser em relação à isso, retomada do espaço urbano, sabotagem publicitária, enfim, mais uma ação de Terrorismo Poético. Vinicius parecia ser o mais inspirado.

- Se você analizar bem, as cidades estão organizadas de modo a nos condicionar a pensar de um certo modo, a fazermos somente certas coisas e nos comportarmos de uma certa maneira.

- Tudo bem, muito bonito esse discurso, mas e daí?

- Vamos bolar algo, injetar uns vírus nesse sistema condicionante.

Ficamos nessa uma cara, viajando nas possibilidades, porém com mil críticas e nada prático e concreto para fazermos. Jean e Fabio quase fundiram os cérebros pensando em algo. Nessas horas parece que o descaso resolve. Sérgio, que não estava nem aí pra bagaça, foi quem trouxe a solução. Logo ele, que ainda estava curtindo o sucesso de sua idéia concretizada, o cara que sumiu pela privada. Mas não curtiu que o cara se chamasse Jesus Cristo.

- Muito clichê.

Mas tudo bem, agora são águas passadas e nada nos impede de reutilizarmos a idéia outra vez, sem equívocos.

- Quero escrever poemas.

- Ué, escreve, ninguém está te impedindo.

- É, escreve. - A galera não perdoa, é sarcástica mesmo.

- Mas eu queria eternizá-los

- Ih! Lá vem discurso...

Foi uma coisa absurda. O que tipo de idéia demente que, na boa, não existe, só mesmo sainda da cabeça delirante de um artista plástico sem o que fazer. Saca só a do cara:

- A gente cimenta uma calçada, vestidos de funcionários da prefeitura, joga cimento por tudo, eu escrevo os poemas em baixo relevo e depois deixamos tudo coberto por uma lona preta. Local interditado, uma placas, tão ligados?

Todos rimos, rimos não, gargalhamos. É o fim da picada! Onde fomos parar? Claro que uma idéia dessas não podia passar batida. No ato pensamos na mãe do Fábio, que é costureira e já tinha feito os trajes de padre do dia em que abençoamos o banco, pra providenciar os macacões necessários para pôr em prática o plano de Sérgio Augusto.

Roupas de garis da prefeitura, mais cones e aquelas tiras listadas que os caras usam pra isolar a área. Fora cimento, areia, pá, cimento e o escambau.

Um idéia, como diria Nelson Rodrigues: dificilzinha, mas extraordinária. Uma idéia que nos seduziu devagarinho, feito conversa de boteco. Jean e Fabio se encarregaram da parte civil. Massa de cimento, areia, ferramentas e a logística, entenda-se transporte da tralha toda. Eu e o resto do pessoal cuidamos das roupas, placas e demais apetrechos.

Fizemos tudo no fim de semana. E estava fazendo um frio desumano em Curitiba, sem sol e com um vento fudido. Vinícius e Marilia, os românticos da hora, saíram juntos pra escolher as calçadas. Mais uma vez optamos por um bairro classe média, pois a burguesia não merece tal prêmio.

A parte da mãe do Fábio até que foi fácil, afinal trata-se de uma profissional da costura, foda mesmo foi pintar o logotipo da prefeitura nos macacões. Ainda bem que Sergio deu o sábio toque de fazermos dois a mais, para o caso de cagada. Ferramos exatamente com dois, Deus é pai não é padrasto.

Jean e Fábio conseguiram o material de pedreiro e uma pick-up do trampo do Jean.

- Aluguei eles de que precisávamos fazer a mudança da kitinete.

- E precisamos mesmo, essa porra tá pequena.

Marcamos a ação pra Terça-feira à tardinha, afinal os funcionários da prefeitura só trabalham de dia e não queríamos que a obra ficasse um dia inteiro com o cimento fresco dando sopa. Algum curioso poderia meter o bedelho e ferrar com tudo. À noite as chances de isso ocorrer são menores. Pra mim e pra Jean, que trampamos, foi necessário enrolarmos nossos respectivos chefes pra sair mais cedo.

Fomos todos juntos, Agachados & Felizes na carroceria da pick-up, com Jean de motorista paunocuzeando a três por quatro fazendo curvas bruscas pra ferrar com a gente. Na porta do carro: a logomarca da prefeitura improvisada. Só que ela ficou tão horrível que era só dar uma olhadinha com mais atenção e você se ligaria que se tratava de uma palhaçada. Jean então encostou pra que descêssemos com o material e foi estacionar longe do local do crime.

Eu e Vinícius colocamos os cones, as faixas e as placas: “Homens Trabalhando” e “Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para embelezar a sua cidade”. Fábio e Jean abraçaram a função de pedreiros. A argamassa já tínhamos deixado pronta pra facilitar as coisas. Esparramaram pelo chão e fizeram a “planagem”, não sei se esse é o termo correto. Sérgio ficou só olhando, com um ar insuportavelmente superior.

- Trabalhem seus manés, aos artistas só cabe o trabalho estético.

- Cala a boca!!!

Nesse meio tempo passou uma senhora com uns setenta e não sei quantos anos e doze pães numa sacola, estava voltando de uma padaria.

- Ah, vão ajeitar a calçada? Já era em tempo, está toda quebrada.

- A senhora vai gostar, isso podemos garantir. – Vinícius, dando uma de cavalheiro.

- Vão ajeitar a rua inteira?

- Gostaríamos. Gostaríamos muito, mas infelizmente hoje só vai dar pra ajeitar essa.

- É, mas a senhora vai gostar.

Seguiu pra sua casa com um sorriso no rosto e nós ficamos “poetando”, também com sorrisos no rosto.

A parte do cimento até que foi rápida, Sérgio que se amarrou pra escrever o poema, fez uma embromação do caralho. Nào queria dizer o que estava escrevendo e nem deixou ninguém vê-lo escrever.

Por fim ergueu a lona um pouco e nos deixou vislumbrar a obra:

“Os meus sonhos afogavam as minhas tristezas, mas as minhas tristezas aprenderam a nadar.”

Ficou perfeito, o cara ainda jogou umas tintas e o resultado ficou psicodélico em todos os seus aspectos. Recobrimos com a lona e sorrimos satisfeitos. Foi fácil, muito fácil e ainda por cima sobrou um montão de cimento. Quando vimos o quanto tinha sobrado olhamos uns para os outros.

- Não podemos desperdiçar tudo isso. – Fábio, pensativo.

- Vocês viram que não foi difícil, o povo nem desconfiou de nada.

- Poderíamos sacanear um bairro burguês.

- Bora, então.

Fabio encasquetou que queria cimentar a calçada diante da casa em que tinha mandado seu primeiro poema com estilingue, naquele que foi um de nossos primeiros ataques. A autoconfiança é algo perigoso, mas como era eu quem estava falando ultimamente que contar com a sorte é o primeiro passo para conquistá-la, acabei topando.

Subimos todos em cima da pick-up a partimos pro segundo tempo de nossa intervenção. Jean conduziu a “viatura” até o Jardim Social e mais uma vez estacionou pra que descemos com o material. Colocamos os cones e outros itens e Fábio imediatamente começou a espalhar o cimento. Desta vez não estávamos tão tranqüilos. Sérgio olhava nervoso para os lados.

- Olha galera, acho isso precipitado, sei que vocês já tem uma certa experiência, mas acho que essa porra não vai dar certo. Espero vocês naquela lanchonete.

- Vai seu cagão.

- Ele não deixa de Ter razão, apura aí com essa merda. – Eu e Vinícius também estávamos cabreiros.

Fabio terminou de aplainar o cimento e na hora em que estava escrevendo saiu um senhor de dentro da casa. Pela sua cara, não era muito simpático, parecia invocado. Provavelmente vacinado contra vandalismo desde o dia em que recebeu um poema através de sua vidraça quebrada. Fabio enfiou sua cabeça sob a lona preta e ficou escrevendo enquanto Vinícius ficou dando explicações.

- O que vocês estão fazendo?

- Estamos corrigindo umas imperfeições da calçada.

- Imperfeições? Ninguém aqui reclamou nada pra prefeitura.

Imediatamente sacamos que aquilo não tinha como terminar bem. Pisquei o olho pra Jean e fiz um gesto discreto em direção aonde o carro estava estacionado. Jean saiu fora e ficou dentro do carro enquanto vini seguiu discutindo com o morador.

- Fique tranqüilo senhor.

- Vocês são mesmo funcionários da prefeitura? Tem algum documento de identificação?

Realmente, tiozinho esperto, se ligou que alguma coisa estava errada. Fiz um sinal pra que Jean viesse com o carro. Estacionou e jogamos tudo sobre a carroceria. Fabio tinha terminado sua frase que nem chegamos a ver.

- Estamos indo, concluímos nosso serviço

- Esperem, quero ver os documentos de vocês.

Saímos literalmente correndo, fugindo. Uma vez todos em cima do carro Jean acelerou e saímos cantando pneu. Ainda bem que Jean tinha improvisado uma placa falsa.

- O que você escreveu, Fábio?

- “Toda propriedade é um roubo” - A mesma frase de sempre.

Olhamos pra trás e ainda vimos o morador misturando o cimento, completamente indignado. Não deve Ter gostado da frase. Rimos pra caralho e paramos num boteco pra comemorarmos. Da próxima vez, precisamos tomar mais cuidado.


As Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas Geneticamente Modificadas - (ataque vinte) Editar

No último sábado aconteceu o segundo Flash Mob Curitiba. A fantástica mobilização relâmpago reuniu cerca de uma pessoa na praça de alimentação do Shopping Curitiba. O elemento solitário ficou em torno de dois minutos em pé ao lado de uma mesa portando uma sacola de bananas, logo depois dispersou-se. Um evento espetacular .

Infelizmente era eu o elemento solitário da cômica mobilização. Estava com uma gripe do cassete e foi um parto me arrastar até aquele antro do consumismo. Voltando pra casa eu era todo indignação. Ainda mais que nenhum dos outros delinqüentes é chegado em Flash Mobs e estariam todos me esperando na kitnete, ansiosos para rirem da minha cara até me deixar me deixar puto .

- E ai Ari? Como foi ?

- Um sucesso! Eu e mais ninguém.

Olharam pra minha sacola cheia de bananas e se partiram de dar risadas.

- Porra véio! Quer dizer que não foi ninguém?

- E o que você vai fazer com essas bananas?

- Enfiar no cú de vocês!

- Estressadinha a boneca.

Era inútil tentar me defender, os malas tinham razão em tirar sarro. O que eu fiz não foi pagar um mico no shopping, o que eu paguei foi um gigantesco King Kong com mais de dez metros de altura. Muito foda, até as dores de cabeça e de garganta que tinham dado uma aliviada voltaram. Me deitei num dos colchões no chão da kit e apaguei, tentando esquecer do mico e da gripe.

Sonhei com o personagem do Tony Ramos daquela novela Torre de Babel que vivia noiado em explodir o shopping. E no meu sonho ele explodia o shopping em todos os capítulos. Eterna recorrência.

Não sei dizer se era sonho ou pesadelo. Acordei horas depois com Fábio chacoalhando o meu braço.

- Ari! acorda, Ari!

- Há, o que foi?

- Tá melhor?

- Tenho uma surpresa pra ti. Talvez te anime um pouco.

- Que surpresa?

- Olha só isso.

Ao lado da minha malfadada sacola de bananas tinham outras três, do mesmo tamanho. Juro que não entendi o que significava aquela palhaçada.

- Que merda é isso, seu viado?

- Calma Ari! Trata-se de material para nosso próximo ataque.

- Que ataque? Você tá ficando louco ?

Eu estava mais perdido que filho de puta em dia dos pais e ainda mal humorado por causa da gripe.

- Alguém pode me explicar que merda está acontecendo por aqui ?

Então Fábio fez uma longa e didática explicação. Meu cérebro parecia engarrafado por causa da gripe, a cada dois minutos eu interrompia Fábio com um “como assim”?

Tratava-se de algo que a horas eu queria fazer, mas não me ocorria exatamente o que. Eu queria bolar uma ação que dissesse respeito aos transgênicos e que se possível fosse ambientada num supermercado. Foi invadindo minha privacidade e fuçando nos meus e-mails que recebi, que os guris compilaram o plano. Mostraram-me um estilete, um rolo de durex, algumas tirinhas de papel e mais umas coisinhas.

- Preste atenção velho Ari. Marilia conseguiu uma lista do Greenpeace com os alimentos que utilizam transgenicos. Então a gente vai num supermercado e com o estilete faz um corte na embalagem e enfia mensagens de alerta contra os transgenicos. E depois cola com durex. Fiquei mudo, apenas tossi sem conseguir rir da demência do plano. Vinícius parecia animado com a idéia.

- Ari, pode ser divertido, agente pode enfiar um pedaço de alface numa caixa de sucrilhos. Sucrilhos geneticamente modificados.

Realmente, não era ma idéia , principalmente se não levássemos em consideração o risco de sermos flagrados por câmeras ou vigilantes.

- Nada! É só sermos discretos e caras de pau e isso eu te garanto que somos. Mas ainda faltava um detalhinho.

- E as bananas?

- Enfia no rabo...

Pronto. Caíram todos na gargalhada. Aquelas bixas nunca perdem uma oportunidade para sacanear.

- Tô falando sério, seus merdas.

- Calma Ari, essas bananas são pra Segunda parte do plano, pra sensacional saideira.

- Saideira?

- Sim, vamos no estacionamento e enfiamos elas nos escapamentos dos carros.

- Pra que isso?

- Bom, além de protestarmos contra o excesso de automóveis nas cidades ainda deixamos um papel nos pára-brisas avisando para tomarem cuidado com as bananas transgênicas.

Sensacional! Foi o tiro de misericórdia para acabar com minhas dúvidas. Se precisassem de alguém pra enfiar a banana no rabo de algum carro, poderiam contar comigo.

- Só tem que ser logo.

- É, pra ser massa, tinha que ser hoje.

Sábado à noite é uma hora em que os supermercados estão cheios e marcamos a ação pro Sábado mesmo, no Mercadorama do Bigorrilho.

Chegamos logo depois das oito e Vinícius entrou abraçado com Marilia, eram o casal fazendo as compras do mês, cada um com um carrinho. Eu e os guris ficamos dando bandas dentro supermercado desbaratinando enquanto esperávamos pra agir na fase das bananas. Sérgio não foi, se revoltou com todos por causa da cagada feita no ataque da calçada. Estava gelando a turma.

Vinícius e Marilia trataram logo de encher os carrinhos com as “compras”. E então disfarçadamente faziam os cortes com os estiletes e enfiavam os aditivos. Foi alface nos sucrilhos (e um papelzinho com a frase: cuidado com a terrível alface transgênica assassina). Baratas em geleias (baratas, como outros bichos escrotos, gostam de transgênicos e outras porcarias). Serragem em açúcar (as canas transgênicas assassinas são estranhas). Enfim, uma tremenda sacanagem.

Na verdade ferramos apenas com os donos do supermercado, pois os clientes, assim que vissem as mercadorias alteradas, simplesmente devolveriam ou trocariam. Quem levaria o “prejú” seria mesmo a rede Mercadorama. Depois de colocar as coisas eles davam umas voltas pelas prateleiras e devolviam as mercadorias aos seus lugares. No fim abandoram os carrinhos cheios e deram o sinal pra partirmos pra segunda parte do plano.

Era a fase mais foda, a mais adrena. Tinham três fileiras de carros. Cada um escolheu uma tomando todo o cuidado do universo pra que não fossemos vistos pelo guardião nem disparássemos nenhum alarme.

Deitei no chão e me arrastei por debaixo do primeiro carro. Tava escuro lá embaixo e tive que esperar pra vista acostumar e conseguir enxergar o escapamento. Primeiro usei uma varetinha pra enfiar uma bucha de papel.

Depois entupi a porra do escapamento com bananas. Era Vectra preto. Juntei as coisas e me arrastei até o próximo carro.

Fazia horas que não empreendíamos um ataque tão “cagaçento”, meu coração a mil e minhas mãos suadas. O segundo carro deu pena. Era um fusca e fuscas não merecem. Deixei o fusca intacto. O tereiro carro era um Kadet cinza, mandei ver. Lá pelo quinto carro eu já tinha pego as manhas e estava trabalhando rápido, só não conseguia enxergar os outros guris.

Demorei mais ou menos uns vinte minutos pra terminar minha missão. Quando saí do outro lado do estacionamento os piás já estavam lá.

- Porra, demorasse!

- Tava fazendo o que? Piquenique com as bananas?

- Cara! Juro que pensei que estava sendo rápido!

Quando Vinícius viu que tínhamos acabado tudo atravessou o estacionamento com Marilia colocando nos pára-brisas papéis com a seguinte frase:

“Cuidado com As Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas!!”

Cômico. Hilário. E não precisa dizer mais nada.

Nos reunimos na saída do supermercado e simulamos uma fila no orelhão pra ficarmos aguardando o resultado. E não demorou. Logo saiu um gordão cheio de sacolas com carne. Abriu o porta-malas de seu Palio, jogou as coisas, entrou no carro e tentou dar a partida. Nem se ligou no papel no pára-brisa.

Tiziziziziu! Tiziziziziu! Nada. O carro não pegou. Foi então que ele se ligou no recado das bananas no vidro. Leu, olhou para os lados desconfiado e tentou dar partida de novo, obviamente sem sucesso. Saiu do carro pra tentar descobrir o que estava acontecendo com seu carro e então ouviu outro carro, a uns dez metros dali, também engasgando.

Foi conversar com o dono do outro carro levando o papel com a frase da banana. Conversaram um pouco. Dava pra ver de longe que estavam desconfiadíssimos. Quando o terceiro carro também não pegou os dois foram conferir o escapamento e tiveram a revelação: estavam sendo vítimas das Terríveis Bananas Assassinas Transgênicas

Quase nos cagamos rindo. Não dava pra segurar, a cena toda era muito engraçada. Nenhum carro no estacionamento estava pegando. Logo começaram a se formar grupos de pessoas indo reclamar com a gerência.

Negadinha enfiando pauzinhos pra tentar tirar as bananas, mulheres reclamando, crianças aproveitando a deixa pra fazer festa no estacionamento, show, completamente show de bola. E então o mais engraçadp de tudo, no meio de todos aqueles carros novos engasgados, eis que o fusquinha que eu tinha poupado funciona e sai cheio de moral com uma velhinha simpática na direção. Saiu sorrindo e dando tchauzinhos pro povo.

Demos um tempinho e saímos fora pra não darmos bandeira. Todos riam, menos eu que só tossia por causa da gripe. Não dava pra rir que a tosse vinha. Tossi tanto que quase cuspi os pulmões pra fora. Foi massa.

Acabei melhorando mais da gripe com esse ataque do que com qualquer Benegripe ou chá quente.

Delinqüência Juvenil também é homeopatia.

Podes crer que é.


Manual prático de Delinquencia Juvenil
Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 1 ao 10 Atos: 11 ao 20 Manual prático de Delinquencia Juvenil/Atos: 21 ao 30

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