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Lutando a Luta Certa

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Espere Resistência
CrimethInc


POR QUE NÓS ESTAMOS CERTOS E VOCÊ ERRADO


Por uma revolução Não-D(en)ominacional


"Assim como todo empolgado liberal de classe média, ele vai correr de volta pra casa quando as coisas ficarem difíceis." "Esse pessoal que vive assim só se importa com o seu próprio nariz. Eles não se dão conta de que se todo mundo vivesse como eles, não haveria um sistema para eles parasitarem?" "Se eles não vão obedecer as decisões do conselho, eles não deveriam estar aqui. Eu preferia que eles estivessem em casa sem fazer nada do que estragando o nosso protesto deste jeito!" "Como você quer ___________ sem ___________? Se você realmente se importasse com __________, você ____________! [como eu]" "Eu não quero ser um ativista ou um anarquista ou uma parte disso se isto significa que eu tenho que..."


Por que Não Podemos Todos Nos Dar Bem


Podemos nos dar bem? Mesmo para aqueles que prefeririam ser eremitas, não há questão hoje mais importante que esta ― o destino de nossa espécie e do planeta será decidido pela resposta.


Não há atalho que contorne este dilema. Qualquer tipo de Revolução com R maiúsculo, qualquer redistribuição de riquezas e de poder, será comprometido e irrelevante sem uma mudança fundamental nas nossas relações ― pois a estrutura social é uma manifestação destas relações, não um fator externo a elas. Revolução não é uma simples transformação, mas um modo de vida: anarquia e hierarquia sempre coexistem em proporções diferentes. e o que importa é qual você cultiva.


Nós não estamos qualificados para reconstruir as relações humanas se não podemos nem mesmo nos dar bem uns com os outros na tentativa ― e nada parece criar mais divergências e divisões do que as nossas tentativas. Freqüentemente parece que as pessoas que menos sabem como se relacionar com os outros são os auto-professados ativistas que se propõem a salvá-los. Mas estes conflitos não são uma conseqüência inescapável da natureza humana, mas um padrão de causa e efeito que pode e deve ser alterado.


A Economia da Escassez do Ser


No mundo onde é difícil se safar com a ação livre e criativa, todos nos sentimos empobrecidos, roubados das experiências e sensações que sabemos que deveriam ser nossas. Nós compensamos o melhor que podemos, e freqüentemente esta compensação serve apenas para preservar nossas destituição. Buscamos status na riqueza, no poder, na beleza, na reputação, qualquer coisa para reduzir o impacto das pancadas dos dias perdidos. Nós também compensamos buscando outra forma de status: sentimentos de superioridade, status na nossas próprias cabeças.


Vivemos em uma sociedade que ensina que não há suficiente recursos para todos, inclusive identidade. Pessoas na televisão ou nos livros são mostradas como mais importantes, mais atraentes, mais heróicas que o resto de nós. Crescemos em casas onde nossos pais não têm tempo para nós; somos enviados a escolas que empregam um sistema de avaliação que só permite que uns poucos tenham boas notas, e somos despejados em um mercado que enriquece uns poucos enquanto explora ou descarta o resto. Nós internalizamos os valores deste sistema. Nos acostumamos a julgar o nosso valor por aquilo que somos "melhores que".


Com um pouco de trabalho duro, você pode se fazer sentir alienado por qualquer coisa.


Nos apressamos em desprezar os outros, seus planos, idéias, hábitos e crenças, de forma a nos reafirmarmos que temos nosso próprio valor. Quando deveríamos ver o que há de positivo em tudo, nós denunciamos e criticamos ― apenas para nos reafirmarmos! Aqueles mais inseguros não são nem capazes de apreciar filmes e música, porque é tão importante para eles que tenham gostos "refinados"; eles não se dão conta quando fracassam em ter prazer em algo, ninguém perde mais que eles. Se você vai tirar algo de uma música, filme ou interação ― para não ter simplesmente perdido seu tempo! ― você deve assumir a responsabilidade por encontrar modos de se divertir e se beneficiar com eles.


Em seus estágios avançados, a busca hipercrítica por status gera uma mentalidade de espectador: à distância, o crítico vota passivamente a favor ou contra os esforços dos outros, incapaz de perceber que coisas tais como a arte, ativismo e comunidade são exatamente aquilo que eles faz com elas ― e que ele deve fazer algo com elas para conseguir tirar algo delas. Esse papel de espectador reforça o sentimento de que tudo que todo mundo está fazendo não é interessante nem inteligente, e assim o espectador consegue aquele sentimento de superioridade que ele precisa desesperadamente Você raramente encontra uma pessoa genuinamente ativa e engajada que sinta a necessidade de alegar que suas ações são superiores às dos outros; mas na economia de escassez do espectador, qualquer expressão de identidade, mesmo as mais generosas e positivas, podem ser interpretadas como um invasão, um ataque.* Todo feito é algo para se rebelar contra, para atacar, para ridicularizar ― como se já não nos sentíssemos todos inúteis, abusados e caçados!


Aqueles que se opõem as este sistema de escassez ainda têm o desafio adicional de se livrar do seu condicionamento. Muitos de nós nesta resistência vieram de uma vida de conflitos e lutas, cujos efeitos ainda exercem uma grande influência sobre nós. Abusados, negligenciados, assediados e intimidados, tivemos que lutar contra amigos, pais, professores, chefes e a polícia para nos estabelecermos, procuramos identidade como algo que é obtida através da luta. Chegamos a pensar que ser radical é uma guerra ― e portanto quanto mais guerras nos lutamos, mais radicais devemos ser. Nós alegamos ter a intenção de criar a paz, mas as únicas ferramentas de que dispomos são armas.** Não é de se surpreender que acabemos lutando entre nós.

  • - Outra expressão do mesmo mal é a adoração de heróis, na qual uma pessoa projeta todas as qualidades que ela admira nos outros. E é tão ruim quanto, é claro, e inevitavelmente leva à mesma hostilidade e desprezo, pois a única coisa que ela pode fazer com aqueles que ela colocou em um pedestal é derrubá-los.


    • - Ironicamente, esta combatividade é especialmente desenvolvida em alguns círculos pacifistas, nos quais as pessoas evitam a violência física mas impõem esta contradição sobre os outros com um senso de retidão e uma beligerância incríveis.


Justiça e Julgamento


O pensamento de escassez e a insegurança destrutiva que ele cultiva tiveram um papel importante na formação das nossas noções de justiça.* Passar julgamentos pode ser a maior compensação para as nossas deficiências. É fácil se sentir do lado da justiça quando se tratam dos erros, falhas e inconsistências dos outros, pois quanto mais nos focamos nos defeitos dos outros menos temos que pensar sobre os nossos. Caçadores de bruxas que acreditam que realmente encontraram um criminoso (ou racista, traidor de classe, excêntrico, etc.) exatamente como os dos filmes podem se confortar que isolaram o contaminante e não precisa fazer mais buscas ― e quanto mais repetitivas forem as suas denúncias do inimigo, mais medo todo mundo tem de admitir as coisas que eles têm em comum com o acusado.


Novamente, vivemos em um mundo violento e opressivo. É tão sensato culpar qualquer pessoa por estar colonizada por esta violência e dominação como seria culpar os oceanos por estarem poluídos. A questão não deve ser se um indivíduo é culpado ― todos somos, pelo menos de cumplicidade ― mas sim como tornar os indivíduos capazes de confrontar e transformar a violência e ignorância dentro deles. Muitas vezes nada é capaz de ajudar mais uma pessoa a fazer isso do que dar-lhe o benefício da dúvida, confiar que ele está interessado em coexistir com os outros; isso faz com que seja mais fácil para ele baixar a sua guarda, se comunicar e se questionar. Isso não quer dizer que não devemos nos defender, da forma que for necessária ― mas vamos fazer isso por razões práticas, não por uma vontade de vingança ou superioridade.


  • - O senso de justiça do ativista têm as mesmas origens que o "sistema judiciário" que alimenta o complexo prisional-industrial de hoje: um Cristianismo que enfatiza a responsabilidade individual acima da causa e efeito das condições sociais a fim de inventar, propagandear e vender o maior dos escassos: a salvação. Num estado de relações sociais de verdadeiro benefício mútuo, ameaças como encarceramento e o fogo do inferno não seriam necessárias para fazer as pessoas se comportarem.


Objetividade versus Subjetividade


Nossa civilização autoritária orientada para a escassez está baseada na idéia de que só há uma verdade; acesso privilegiado a essa verdade é chamado de objetividade, e muitos competem por este prêmio. De acordo com esta escola de pensamento, aqueles que querem explicar o comportamento humano ou derrubar o capitalismo devem fazer propostas diferentes de qual seria o melhor jeito de fazer isso e debatê-las até que a proposta correta seja reconhecida. E é assim que em torres de marfim e porões esquálidos, intelectuais e revolucionários de poltrona discutem sem parar, nunca chegando nem perto de um consenso, desenvolvendo cada vez mais um palavreado exclusivo enquanto outros no campo trabalham para forjar os acordos necessários para realizar qualquer coisa.


Priorizar a subjetividade é aceitar que não existe "a" realidade; por inferência, qualquer realidade "objetiva" deve ser simplesmente uma realidade subjetiva institucionalizada como Verdade por aqueles no poder. Pensar deste modo significa reconhecer que as pessoas chegaram às suas crenças e comportamentos particulares como resultado de suas experiências de vida individuais. Isso tem um peso importante no modo como interagimos uns com os outros, especialmente nos nossos esforços para mudar o mundo.


Pessoas diferentes estão destinadas a ter crenças, táticas e objetivos diferentes. Elas não necessariamente pensam diferente de você porque são menos inteligentes, vividas, perceptivas ou compassivas ― eles podem ser iguais a nós em todos esses aspectos, mas chegaram a conclusões diferentes baseadas em evidências diferentes de suas próprias vidas. Ao ouvir a posição de uma pessoa sobre determinado assunto, você não precisa começar a debater imediatamente sobre qual de vocês está certo. Pode valer mais a pena decidir se existe algum projeto que possa beneficiar o interesse de ambos,* ou pelo menos formas de vocês coexistirem. Qualquer assunto ideológico que precise ser trabalhado podem ser trabalhados na prática, se puderem ser trabalhados ― eles certamente não se resolverão com mais um conflito de egos disfarçado como um debate sobre teoria.**


Obviamente, é impossível para qualquer pessoa legislar por todos outros, uma vez que cada experiência de vida é única; mesmo assim, você pode oferecer as suas próprias experiências e conclusões aos outros para que façam com elas o que bem entenderem ― e se você se expressar honestamente, você vai descobrir que está falando pelos outros também. Isso pode parecer legislativo para aquele que acreditam que só há um jeito certo de fazer as coisas, mas aqueles que lhe atacam você por oferecer sua própria perspectiva ou análise dizendo que isso não se aplica a eles (ou não é relevante para todas pessoas, como mães famintas na Somália, republicanos transsexuais, etc.) ainda estão trabalhando dentro do modelo da escassez.


Lembre-se, todo valor com o qual você se casa, toda decisão que você toma, você faz isso só por você. Quando as pessoas lhe atacam como se você estivesse decidindo por todos, não caia na armadilha de defender os seus próprios métodos e idéias como universais. Simplesmente lhes diga que você age de acordo com sua própria consciência, e espera integrar o seu ponto-de-vista com o dos outros ― assim como os outros devem fazer.


  • - É claro, quando interesses entram verdadeiramente em conflito, algumas vezes não há nada a fazer além de lutar. Os comunistas que tentaram coexistir com os fascistas de Hitler, no final da década de 1930, selaram seu próprio destino e o de muitas outras pessoas.


    • - Ao tomar uma posição contra outros, você pode esquecer que as posições de todos são fluidas ― e forçar os outros a agirem como partidários de um lado oposto pode acabar enganando eles a se identificarem somente com aquele lado. Muitas vezes uma pessoa adota uma posição impulsivamente, mas ao ser atacada ela entrincheira-se e defende-se até o final de sua vida.


O Capitalismo das Idéias


Aqueles que ainda se abraçam na idéia de que existe algo como uma verdade objetiva geralmente sentem uma compulsão a persuadir os outros de suas verdades. Isto é o ciclo vicioso resultante das lutas por poder que acontecem no mercado das idéias; como em qualquer economia baseada em escassez, esse mercado é caracterizado pela competição entre capitalistas que lutam para preservar e aumentar o seu poder sobre outros.


Em nossa sociedade, idéias funcionam como capital quase da mesma forma como funciona o dinheiro.* Indivíduos que conseguem fazer com que outros comprem suas idéias obtém um controle desproporcional sobre as suas cercanias; grandes conglomerados como a Igreja Católica e o Partido Comunista chegaram a governar grandes partes do mundo desta forma, e realmente ninguém consegue manter poder político ou financeiro por muito tempo se não tiver capital ideológica para sustentá-lo. Pequenas empresas iniciantes desafiam estes monopólios com novas visões, e às vezes uma dela destrona a crença governante para se tornar o novo paradigma dominante; mas como em qualquer sistema capitalista, o poder tem a tendência de fluir para o topo da hierarquia. Numa situação destas, qualquer pessoas com um valor ou ponto-de-vista tem que correr para vendê-lo aos outros antes de ser levado à falência.


Fica difícil para nós, de dentro deste sistema, imaginar como seria um mundo sem esta guerra de ideologias. Obviamente, teria que ser livre também de guerras análogas por dinheiro, poder e personalidade, pois é tolice insistir que uma pessoa é livre para pensar quando algumas maneiras de enxergar o cosmos são punidas por exclusão ou embargo. Aqueles que lutam para sermos livres de deuses e mestres devem combater as ditaduras de ideologia que sempre os acompanham e apoiam.**


  • - Idéias, como outras formas de capital, são consideradas propriedade privada e protegidas por lei do plágio, da violação de direitos autorais e de outros métodos de redistribuição de riquezas.


    • - Paradoxalmente, esta afirmação é baseada em suas próprias suposições ideológicas ― mas talvez este tipo de auto-contradição seja o primeiro passo necessário para o desarmamento da ideologia.


Por Que as Pessoas Não Querem "Se Juntar ao Movimento"


Considerando o número de agentes de relações públicas, televangélicos, gurus da auto-ajuda e outros fanáticos sortidos e vendedores competindo para os convertê-las, a hesitação das massas a se envolver em qualquer tipo de movimento social é na verdade um mecanismo saudável de auto-defesa. Conseqüentemente, o maior desafio para aqueles que buscam uma causa em comum com outros para fazer mudanças revolucionárias é evitar deixá-los na defensiva.


A tendência da política radical de fazer as pessoas ficarem na defensiva pode atualmente ser um maior obstáculo à transformação social do que qualquer controle corporativo ou repressão governamental. E ela é causada em parte pelas atitudes dos próprios ativistas: muitos ativistas investiram em suas identidades de ativista como um ato de compensação quase tanto como de desejo de realmente fazer as coisas acontecerem ― para eles, o ativismo tem a mesma função que o machismo, a moda e a popularidade têm para outras pessoas. Ativistas que ainda obedecem aos imperativos da insegurança costumam alienar os outros; eles podem até mesmo inconscientemente desejar alienar os outros para que possam ser os únicos a fazer parte da virtuosa vanguarda. Ao ver tais ativistas em ação, as pessoas que atendem as suas inseguranças de outras formas com freqüência concluem que a luta revolucionária não tem nada a ver com as suas vidas.


Sempre que consideramos um projeto revolucionário, devemos nos perguntar: Estamos certos de nossas motivações? Irão as nossas palavras e ações mobilizar e libertar, ou imobilizar e desencorajar? Estamos tentando tornar nossa liberdade, compaixão ou erudição num espetáculo, estabelecer nosso status como revolucionários, líderes ou intelectuais, alegar estarmos do lado da moral, vencer na competição infantil de quem é o mais radical ou oprimido (como se sofrimento fosse quantificável!) ― ainda estamos buscando poder e vingança sob o disfarçados de libertação? As pessoas sabem quando você está se impondo sobre elas ou representando um papel, da mesma forma que elas conseguem sentir quando você está agindo honestamente, baseado em desejo e boa fé. E eles estão muito mais inclinados a responder positivamente a isto, pois eles já têm muita rivalidade e representação de papéis em sua vida.


Seria melhor que abandonássemos a cruzada para converter as massas, com suas implicações patronais de que os outros são preguiçosos, fracos, vitimizados, ou precisam de liderança. Em vez disso, podemos começar indo atrás daqueles com os quais temos mais coisas em comum, a quem nossas perspectivas podem ser mais úteis e com quem a cooperação surgirá mais naturalmente.* Da mesma forma, podemos trabalhar com aqueles que já são ativos em outras comunidades, na medida em que compartilhamos valores e objetivos ― isso é muito preferível a entrar nas comunidades dos outros e tentar reorganizá-las de acordo com as doutrinas de estranhos.** Podemos ajudar os outros a se defender dos redutos do poder e da ideologia, oferecendo a eles as ferramentas que nós desenvolvemos em nossas próprias lutas para que as utilizem como bem entenderem.*** E por último, podemos encontrar causas comuns com pessoas baseado em todas as coisas sociais e "anti-sociais" que eles fazem e sentem: roubo, vandalismo, grafite, "preguiça", rebeldia, aparente niilismo, sem mencionar compaixão e cooperação onde quer que elas apareçam.


Este é o real propósito da glorificação de furtar de lojas, da vagabundagem, e assim por diante, feita pela propaganda radical: não é dizer que o ato de furtar de lojas é revolucionário (ou que devemos roubar para ser radicais, como se revolução fosse um produto na economia da escassez!), mas sim estabelecer conexões com o cotidiano e com a resistência de indivíduos que não necessariamente articularam um desejo por revolução mas já estão agindo, de uma forma talvez impetuosa, fora da lógica da ordem dominante.


Os anseios e frustrações privados que as pessoas sentem, seu ódio pelo trabalho, o prazer na transgressão que compartilham com adolescentes e anarquistas, a suspeita intuitiva com a qual eles enxergam todos sistemas totalitários, fornece um ponto de partida para uma resistência que procede de motivações individuais e posições de todos que a compõem ao invés de proceder das exigências de dogmas e de partidos políticos.**** Este é o único tipo de resistência que pode nos salvar tanto do poder quando da ideologia autoritária.


  • - Eu cresci um rebelde de classe média, mas eu achava que eu tinha que deixar isso para trás para trabalhar por mudanças sociais. Quando eu desisti de tentar passar reformas pela burocracia e comecei a praticar a ação direta com outras pessoas com os mesmos antecedentes, eu me dei conta o quão vasta é a força que meu nicho demográfico tem a oferecer.


    • - E no final das contas em apenas um dos bairros havia um grupo na comunidade de imigrantes mexicanos trabalhando de acordo com os mesmo princípios, usando palavras diferentes para as mesmas idéias. Quando eu assisti uma de suas reuniões, ficou claro para mim como poderíamos estar fazendo muito mais.


      • - Quando as pessoas do local começaram a se juntar à luta, nós lhe mostramos como transformar suas camisas em máscaras para que a polícia não pudesse identificá-los e como usar suco de limão para tratar os efeitos do gás lacrimogênio ― isso é "liderança" anarquista, ou o que temos no lugar dela: compartilhar nossas habilidades com os outros, distribuir o poder ao invés de concentrá-lo.


        • - Quando se trata de perspectivas pouco representadas ― se elas não são as nossas, não tente representá-las, do jeito que os político nos "representam". É melhor representar você mesmo e encorajar os outros a fazer o mesmo... por exemplo, se esforçando para ouvir aqueles que já o fazem. Algumas pessoas podem descartar a sua perspectiva (como sendo de "classe média", "reformista", "extremista", etc.), mas não há tal coisa como uma perspectiva ilegítima ― só é ilegítimo agir como se a perspectiva de outra pessoa não fosse legítima. Acontece muito disso, algumas vezes perpetrado em nome dos pouco representados por aqueles que não são pouco representados. Não se intimide ― você pode ter certeza que se você sente algo, outra pessoa também o sente e precisa saber que não está sozinha.


Unidade não, Harmonia


Qualquer movimento de resistência vai desenvolver conflitos sobre a estratégia (violência vs. pacifismo, coordenação vs. autonomia) no momento em que indivíduos diferentes constroem e testam na prática suas próprias análises. Desafiar essa diversidade ao invés de procurar se beneficiar dela ― arrancar a derrota das garras da vitória transformando chances de discutir assuntos importantes em bate-bocas, como os liberais fazem sempre que os radicais usam a ação direta para dar dentes às suas petições ― é desnecessariamente contra-produtivo; mais que isso, é equivalente a desejar que todos tivessem a mesma história de vida e perspectiva. Adolescentes encrenqueiros não achar libertadoras as mesmas coisas que bibliotecários de meia-idade ― mas ambos têm interesse na libertação, e devem fazer parte de qualquer luta por ela. Aqueles que ditam as regras para os indomáveis e regulações para os irregulares negam a complexidade não apenas dos seres humanos mas também da luta que será necessária para conquistar nossa liberdade.


Mais uma vez, as abordagens e objetivos dos outros sempre irão ser diferentes dos seus; o desafio não é convertê-los à sua estratégia (pois quem sabe ― eles podem até saber melhor que você o que é bom para eles!), mas ao invés disso encontrar formas de integrar métodos divergentes num todo que beneficie a todos. Da mesma forma, se você compartilha o objetivo com outras pessoas mas sente que as táticas deles são ineficientes ou contra-produtivas, cabe a você encontrar e adicionar os ingredientes que faltam para torná-las eficientes ― se você não o fizer, você só pode culpar a si mesmo por toda energia que sente que eles estão desperdiçando.


Qualquer pessoa que não esteja dos dois lados do assunto está obviamente contra mim em alguma direção.


Abordagens que falam claramente a algumas pessoas podem alienar outras, inclusive auto-proclamados ativistas. Nestes casos, é importante não se sentir muito ameaçado, pois você pode não estar ― e manter em mente que com a grande diversidade de vidas neste planeta iremos precisar de um arsenal de estratégias pelo menos tão diverso quanto. Em alguns casos, abordagens que parecem contradizer umas às outras podem na verdade formar uma simbiose perfeita, como no relacionamento entre manifestantes mascarados e os bem-comportados, bem relacionados defensores das mudanças sociais. Ninguém no poder prestaria atenção nos últimos sem os primeiros por trás deles ― imaginem a não-violência de Martin Luther King sem a ameaça implícita da posição confrontante de Malcolm X ― e sem apoio "respeitável", os insurgentes podem ser facilmente marginalizados e destruídos. Nestas situações, todas os grupos devem se lembrar que os outros podem até mesmo ter que desaprovar publicamente as ações dos outros grupos para fazer a sua parte de forma eficiente,* não devem haver ressentimentos quando isto acontece.


Certamente pode ser difícil trabalhar ao lado de pessoas que professam crenças completamente diferentes das suas ― e você não deve nunca trabalhar com aqueles que você teme que irão trair você ou os seus esforços para servir os seus próprios fins. Mas, novamente, pergunte a si mesmo: as suas posições são importantes para você como posições ― ou seja, como símbolos de status, distintivos de identidade, distinções que o separam dos outros ― ou como um meio para alcançar uma vida mais plena? É senso comum integrar as táticas diferentes daqueles que compartilham um objetivo comum; é mais desafiador, mas não menos construtivo, deixar de lado a compulsão de persuadir todos os outros das suas opiniões e trabalhar para criar harmonia entre indivíduos que vivem em mundos completamente distintos. Tal harmonia jamais será completa, mas é um mais nobre do que qualquer unidade que exija conversão à força.


  • - Como o manifestante mascarado que quebra janelas gritou para o manifestante liberal cumpridor das leis que tentou a segurar: "Não é o seu trabalho tentar evitar que eu 'suje a imagem da sua causa', você deve sim distanciar-se de minhas ações o máximo que for necessário para manter o respeito do grupo demográfico que você está tentando sensibilizar! É meu trabalho fazer algo acontecer aqui para que eles tenham que ouvir o que você tem a dizer!"


Trabalhando em Coletivos


Assim como uma banda precisa de músicos que toquem diferentes instrumentos, associações saudáveis não restringem os participantes com acordos que os limitem às coisas que têm em comum, mas em vez disso integram suas diferenças em um todo maior que a soma de suas partes. Trabalhar e viver em tais associações, nas quais toda pessoa está consciente de ser responsável por fazer os projetos e relacionamentos funcionarem, nos ajuda a aprender a enxergarmos nós mesmos como parte de uma teia de relações humanas ao invés de como um indivíduo isolado. Para coexistir, devemos levar os desejos dos outros tão seriamente quantos os nossos ― reconhecer isto faz com que indivíduos possam ser pessoas mais completas, já que seus companheiros podem representar partes deles que ele de outra forma não expressaria. Todo mundo é, no final das contas, produto do mesmo mundo ― estamos todos conectados, cada um manifestando diferentes aspectos do mesmo jogo de forças. Sem este entendimento, a cooperação e a comunidade só serão incidentais e casuais.


Para o indivíduo que tem experiência em viver comunalmente, se torna possível enxergar todo o cosmos como um vasto, ainda que deficiente, coletivo; o problema é simplesmente como fazer com que seu funcionamento sirva mais ao que buscamos. Isto não quer dizer que fascistas, sexistas e outros opressores podem fazer o que bem entenderem e ainda serem "parte do nosso coletivo" ― eles serão os primeiros a negarem isso, e apresentarão provas! Mas o maior argumento do fascismo e do pensamento reacionário sempre foi que cooperação e autonomia são mutuamente exclusivos, que as pessoas devem ser comandadas e controladas ou então serão preguiçosas e/ou matarão uns aos outros. Quanto mais demonstrarmos que isso não é verdade, menos apelo terão as alegações deles.


Guerra ou Revolução?


As pessoas que querem ser revolucionárias freqüentemente enquadram o nosso projeto em termos marciais: nós vamos Combater o Racismo, Esmagar o Fascismo, Destruir o Capitalismo. Isso faz com que possamos nos enxergar como nobres cruzados ― e, mais importante, ter adversários, que nos reafirmam de estarmos fazendo a coisa certa. Essa reafirmação é mais sedutora que o sucesso que ela substitui e previne ― pelo menos é assim enquanto não tivermos sentido o gostinho desse sucesso. Temos que nos lembrar em todas extremidades de que nossos inimigos não são os seres humanos, mas sim as condições que fazem com que seres humanos sejam nossos inimigos.


Um mundo sem inimigos não é possível ― pode nem mesmo ser desejável ― mas lembre-se, a guerra faz parte e alimenta o capitalismo: Exxon vs. Shell, EUA vs Iraque, Comunistas vs. Anarquistas, amante contra amante e pai contra filho. Mesmo se pudéssemos matar todos estupradores, CEOs, políticos, policiais e colegas de quarto que não queira lavar a louça, essa violência irá continuar no mundo como o veneno e fúria daqueles que sobreviveram a ela, sem mencionar os efeitos nos próprios matadores ― isso é karma para você. A revolução acontece quando você cria situações que tornas os antigos conflitos irrelevantes, que dispersa toda aquela inércia de ressentimento, insegurança e antagonismo.


A guerra é necessária às vezes ― temos que nos defender, e às vezes isso requer violência. Mas, como qualquer criança pode lhe dizer, "se é você contra o mundo, aposte no mundo." Muitos de nós nos alienamos dos outros sem necessidade, e no final das contas acabamos confiando em abstrações ("a classe trabalhadora", "a insurreição iminente") como aliadas quando todos companheiros de carne e osso tiverem partido, ou pior, acabamos concluindo que a cooperação é simplesmente impossível ― quando a história mostra que ela é possível, pelo menos para aqueles que são pacientes, considerados, humildes e que perdoam.


Fazer coisas que você gosta lhe ajudará a resistir de descontar suas frustrações nos outros ― assim como trabalhar com pessoas de quem você gosta sempre que possível.* Não há nada de nobre ou revolucionário em sacrificar-se por uma causa, especialmente quando isso torna você insuportável. Ao mesmo tempo, não será, nem deverá ser, sempre possível estar cercado de pessoas que vêem as coisas da mesma maneira que você: esteja pronto para abandonar a sua zona de conforto, e leve um coração generoso sempre que você o fizer.


Quando você perdoa os outros pela sua incoerência, egoísmo e erros, você pode discernir o que eles têm a lhe oferecer. Quando você pratica uma forma de justiça que assume a responsabilidade por fazer as coisas darem certo, você pode curar ao invés de apenas dar vereditos de culpado. Quando você é paciente com a impaciência, quando você evita afirmar que está com a razão mesmo e especialmente com pessoas que afirmam o mesmo, quando você aborda todo conflito como uma oportunidade de aprender com os seus próprios erros, você pode fazer a sua parte para libertar todos nós prisioneiros de guerra.


Isso é dedicado a todos aqueles que vêm fazendo isso através dos anos, que tomaram como certo que, apesar de toda a sua patetice, as pessoas com outras histórias e defensores de outras táticas realmente quiseram coexistir e cooperar com eles: aos trabalhadores que dedicaram seu tempo a explicar para os ativistas burgueses como eles os estavam alienando, mesmo quando eles a princípio não souberam como ouvir; às mulheres que não apenas exigiram que os homens reconhecessem a existência e os efeitos do seu sexismo, mas também reconheceram os medos e ansiedades que os homens sentem; aos sobreviventes de abuso que foram aconselhar tanto os abusados quanto os abusadores. Sem eles, com certeza já teríamos arrancado os pedaços uns dos outros. É assustador baixar a guarda, é difícil de engolir o seu orgulho mesmo quando se apegar a ele significar trair a si próprio ― mas esta é a única forma de ajudar outros a fazerem o mesmo.


Não se intimide com o desafio colossal de "salvar o mundo"; existem tantos mundos quanto existem pessoas ― salve o seu, aquele constituído da vida que você compartilha com aqueles ao seu redor. Onde brota uma flor, milhões mais irão brotar.


Talvez a coisa mais importante que você possa fazer é estar lá para os outros, ajudá-los a acreditar neles mesmos, oferecer a verdadeira compaixão ― não a condescendência da caridade ― quando é necessária. Mas não existe fórmula para isto; a piedade vêm nas formas mais imprevisíveis e das fonte mais inesperadas. Com freqüência é necessário uma pessoa que sofreu algo similar para ser capaz de oferecer o verdadeiro socorro à alguém em perigo. Esta é outra razão porque é bom que todos escolhamos caminhos diferentes e soframos coisas diferentes, mesmo coisas que pareçam nos isolar ― porque nesta luta há um lugar até para garotos mimados de classe alta, moradores de rua viciados em drogas e amantes que mentiram e traíram: pois quem mais conseguiria uma conexão com pessoas nessas situações difíceis, mostrar-lhes o caminho e dar-lhes esperança? Quando você reconhece como os seus problemas o prepararam para ajudar os outros, é possível encontrar um sentido para situações que pareciam absurdas; ao mesmo tempo, isto pode ajudá-lo a enxergar a importância dos outros que antes pareciam não ter valor algum.


Seguidamente ficamos de mãos cheias ao lidar com nossa própria dor, consumidos demais pela nossa amargura e confusão para ser capazes de oferecer qualquer coisa aos outros, principalmente compaixão. Isto significa que ainda é mais importante não perdermos as oportunidades que temos de ser bons com os outros ― quer ou não eles "mereçam" isso, quer ou não nós os entendamos, quer ou não achemos que isto fará alguma diferença.


Eu adoraria ser alguém com quem ninguém se envergonharia de qualquer parte de si. Eu gostaria de ser capaz de enxergar as ações dos outros sem me sentir ameaçado ou ficar na defensiva, mesmo quando eles ficam na defensiva comigo ― enxergar os outros no contexto de suas vidas, não da minha. Eu gostaria de saber como definir os limites do quanto posso confiar nos outros, para que eu nunca corra o risco de perder o meu respeito por eles ou minha capacidade de confiar. Eu gostaria de ser capaz de olhar esses adversários que deveriam ser aliados nos olhos e dizer Você goste ou não, eu sou assim. Isto é o que o mundo fez eu ser, e devemos todos viver com as conseqüências. Eu não posso mudar as décadas de vida por que passei e que fizeram as coisas serem assim, só posso aceitar a responsabilidade pelo que sou e pelo que faço. Eu não quero competir com você por questões morais ou por qualquer outra coisa. A menos que você esteja preparado para matar todos que não alcançam os seus padrões ou para resistir a este impasse indefinidamente, você terá que me aceitar nos meus próprios termos, como eu espero lhe aceitar. Você é tão responsável quanto eu por tornar as coisas para nós dois positivas ― ou pelo mundo de lutas que teremos que agüentar caso contrário.


  • - Organizar-se de forma autônoma e tentar outra livre associação quando uma não está funcionando pode lhe dar a liberdade que você precisa para não ressentir os outros. A revolução pode exigir que você aprenda a viver e agir cooperativamente, mas não significa que todos têm que ser amigos.

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