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Liberdade

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Dias de Guerra, Noites de Amor
CrimethInc


Eu andei de bicicleta ontem, pela primeira vez em meses. Ela me ajudou a ultrapassar todos obstáculos que encontramos no caminho. Nós aceleramos juntos sobre lombadas e curvas acentuadas, descemos ruas estreitas e atravessamos praças largas calçadas com pedras. Eu senti o vento, e eu era mais um pássaro que uma pessoa, abençoada com o dom de voar. Eu era leve e poderosa; eu havia me permitido entrar no mundo repentinamente, a abrir-me para essas altas torres e becos imundos, e mesmo assim eu era mais eu mesmo do que eu vinha sendo há muito tempo, como se eu estivesse passando por um grande deserto. Eu me sinto forte, meu amor, e não só por causa da bicicleta. Às vezes eu me sinto como se eu estivesse fazendo a coisa certa.


Liberdade é apenas uma sensação. Nós temos apenas "escolha".

É quase engraçado pensar quantos homens e mulheres morreram pela idéia Americana de liberdade: um homem numa cabine eleitoral com um lápis, escolhendo qual opção marcar. A verdadeira liberdade, o tipo de liberdade pelo qual lutamos, é algo muito maior ― significa criar as opções que iremos escolher, só para começar. Uma melhor representação é um músico tocando com seus companheiros: em cooperação expontânea e alegre, criando ativamente o ambiente sônico e emocional no qual eles existem, participando então na transformação do mundo que irá depois transformá-los. Pegue este modelo e o extenda a todos os momentos de nossa vida ― isso seria a verdadeira liberdade.


Nada é verdade, tudo é permitido.

No verão de 1999, o agente especial do CrimethInc., Tristran Tzarathustra, que estava comendo somente lixo todo ano como conseqüência de um juramento de não participar, alimentar, ou encorajar de qualquer forma a economia do capitalismo mundial, foi persuadido por uma de suas amantes a deixá-la lhe pagar um jantar num caro restaurante italiano. Nos meses que antecederam essa noite, ele havia quase morrido de fome; e morando numa cidade com comida sedutoramente embalada espiando de toda vitrine comercial, ele havia conseguido permanecer fiel ao seu voto somente por constantemente se lembrar que qualquer exceção seria uma vitória do sistema que estava matando milhões de outras pessoas de fome.
A experiência de terminar esse exílio o assustou pois ele não estava preparado para o enorme sentimento de libertação que passou por ele no momento em que ele levantou seu garfo. Ele sentiu que o mundo iria acabar, mas não acabou; ou melhor ainda, todo o mundo acabou, silenciosamente, e um novo começou, impensável, insuportável em sua perfeita semelhança com o antigo; mas agora ele estava comendo comida cara ao lado de seus inimigos, como se não fosse nada.
As aterradoras possibilidades desse mundo se abriram perante ele, como na sua juventude ― a idéia de que qualquer coisa pode acontecer, que ele poderia fazer qualquer coisa, matar pessoas, pular de edifícios, desafiar qualquer auto-regulação ou expectativa ― e, com horror, ele se deu conta que a sua alma estava se divertindo dentro dele, desprezando a desaprovação da sua consciência. Ele pulou de sua cadeira e mergulhou nas ruas, e caminhou nelas durante horas, agonizando sobre sua desavença consigo mesmo. Exatamente dois minutos depois da meia-noite ele teve uma epifania, e correu para casa e escreveu essas anotações:
"A liberdade só é encontrada no sensação de agir, de criar a si mesmo (e conseqüentemente, ao mundo), de realizar através da prática o velho dito "nada é verdade, tudo é permitido". [Exemplo: o revolucionário encontra a liberdade na experiência de transformar completamente a sociedade, e portanto se transformando ― não simplesmente pela remoção de forças restritivas.] Para vivenciar isso, devemos ser capazes de fazer qualquer coisa a qualquer hora ― lembre-se da história de Aquiles e da tartaruga:

A tartaruga pergunta a Aquiles: 'Você é livre, Aquiles?' e Aquiles responde: 'É claro que sou livre! Eu sou Aquiles, deus entre os homens, entre homens livres. Eu posso fazer tudo o que quiser!'
'Então', indaga a tartaruga, 'você pode me matar?'
'Facilmente! Eu sou Aquiles, o invulnerável' [não tão invulnerável como ficou claro mais tarde] 'herói de lendas e mitos gregos, e você é... uma tartaruga.'
'Então... me mate', desafia a tartaruga, casualmente.
'Mas você é minha grande amiga, companheira e camarada! Eu jamais poderia matá-la!' protesta Aquiles.
'Exatamente', murmura a tartaruga sugestivamente, e Aquiles dá de ombros.
A moral é que numa situação onde todo significado já foi atribuído, a liberdade é irrelevante, pois todas suas possíveis opções já estão determinadas. Só encontramos liberdade em espaços novos, em momentos totalmente novos, quando elementos novos entram em jogo e você tem que se recriar do zero.
Devemos estar sempre praticando se queremos ser revolucionários: devemos constantemente destruir e recriar o nosso ser, devemos ultrapassar limites e quebrar todas regras e limitações (daí a de outra forma inexplicável afeição que muitos amantes da liberdade têm pelo Marquês de Sade) ― exatamente como Jane E. escreveu em seu panfleto sobre hipocrisia.
O problema com tudo isso é que o exercício da total liberdade inevitavelmente vai entrar em conflito com os seus desejos. Além de ter a sensação de liberdade de todas restrições e ter comida saudável na minha barriga, eu também não tenho o menor desejo de entrar em acordo com todos esses filhos-da-puta, nunca tratar animais ou laticínios como se fossem comida, nunca dar-lhes meu dinheiro ou o de qualquer outra pessoa...
A resposta a tudo isso, é claro, é simplesmente que devemos criar um mundo onde tudo que seja possível seja também desejável ― de forma que uma coisa como "pecado" não seja nem mesmo concebível, e não haverá razão para sentir culpa, sem possibilidade de hipocrisia ou conflitos entre desejos. Na utopia, que nossa revolução (agora falando miticamente) criará, tudo será possível ― isso é bom, pois nossos corações não desejam nada a menos que a liberdade total. Eu não deveria ter que resistir a nada, nenhuma tentação, logo eu tenho que fazer um mundo de tentações sem vergonha ― um mundo livre de carnes e laticínios e de restaurantes elitistas finos, por exemplo!"

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