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LIBERTAR-SE: pelo trabalho ou do trabalho? Alguns Apontamentos acerca do Trabalho no Mundo Capitalista Contemporâneo

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«“Em sociedades como as ocidentais, nas quais o emprego desempenha um papel central não somente no que se refere à obtenção de renda como na integração social do indivíduo e na própria formação de sua identidade pessoal, a mudança desse padrão tem causado perplexidade”.»
(Gilberto Dupas, Economia Global e Exclusão Social.)


“Comerás o pão com o suor do teu rosto”, Pobre CriaturaEditar

Símbolo da virtude, elo dignificante do gênero humano, o trabalho, sacralizado ora por tradições de direita (e a posteriori pela esquerda) enquanto “arte” transformadora do universo fabril, esteve antes de sua idade de ouro e das ascendentes energias positivas, lançadas por John Locke e Adam Smith – arautos de uma burguesia Vitoriana e vitoriosa -, ao fosso da repulsa e da penúria, atuando como elemento torturante de um inferno real em que os suplícios do tripalium[1] impunham o limiar social, assim como, o ônus-labor[2] de uma ponos[3] condição.

Como pontuou Hannah Arendt em sua análise sobre a antiguidade clássica, “laborar significava ser escravizado pela necessidade, escravidão esta inerente às condições da vida humana. Pelo fato de serem sujeitos às necessidades da vida, os homens só podiam conquistar a liberdade subjugando outros que eles, à força, submetiam à necessidade”. (ARENDT, 2004, p. 94).

Valores atrelados ao labor, que somente a partir do século XVIII, abandonariam parte de suas mazelas despontando sob novas significâncias de cariz positivo[4] e progressista, seduzindo alas revolucionárias, quer anarquistas, quer marxistas, que veriam no trabalho a expressão da própria humanidade do homem, assim como a ferramenta de libertação da esfera capitalista. Mas dispersos os encantos de que “o homem só se emancipa da pressão tirânica, que sobre todos exerce a natureza exterior, pelo trabalho coletivo [...]” (BAKUNIN, 1989, p. 61), nas veredas principalmente do novo milênio fortes opositores, lançariam (o trabalho) mais uma vez na negatividade dos tempos socráticos.

Nesta perspectiva o documentário Attention: danger travail (Atenção: perigo trabalho), produzido na França por Pierre Carles, Stéphane Goxe e Christophe Coello em 2003, apimenta novas discussões sobre o papel do trabalho no Ocidente capitalista globalizado, levantando a bandeira do antitrabalho em prol dos “desertores do mercado de trabalho” enquanto arma revolucionária que instiga análises um tanto cara a uma parcela das esquerdas atreladas ao homem-trabalhador e sobre as quais buscamos lançar mais brasas nesta forja de situações.

Mundo Mecânico, Mundo EletrônicoEditar

Partindo da indagação: o trabalho ainda se mantém enquanto fator central de transformação social ou teria com o advento do capitalismo contemporâneo encontrado o fim de sua centralidade?, é que me reporto ao vídeo Futuro Sombrio[5], o qual logo de início afirmava: “a era industrial acabou com o trabalho escravo, e a era da tecnologia dará fim ao emprego, você só vai compreender que a máquina tirou o seu emprego, quando tiver sido demitido, pois você não é insubstituível”. Sombrio futuro inaugurado nos anos 80, mediante um novo circuito de técnicas atreladas à automação, a robótica e a microeletrônica que invadiriam o universo fabril, lhe dando um novo perfil no condizente ao desenvolvimento das relações de trabalho e do modo de produção de capital, assim como das lutas que circundam o mundo do trabalho.

Não precisamos de muito esforço para ver o que este admirável “novo” mundo nos oferece: quem não se lembra do robô Wakamaru, - criado pela empresa japonesa Mitsubish Heavy Industries – desenvolvido para atuar como recepcionista em escritórios, hospitais e eventos de lazer, cumprimentando e acompanhando as pessoas até as salas.

E é neste ambiente de desqualificação enquanto natureza capitalista, entre possuidores e não-possuidores; consumidores e consumidos; engendrador do sub-proletariado, que em Berlim surge, o grupo “Desempregados Felizes”, que através de um manifesto de nome análogo, desenvolvem uma crítica mordaz e bem humorada ao trabalho e aos alicerces que o fundamentam.

«Todos sabemos que já não se pode abolir o desemprego. Se a empresa funciona mal, despedem-se os trabalhadores. Se vai bem, investe-se na automação e despede-se da mesma forma. Antes, era preciso mão-de-obra, porque havia trabalho. Agora necessita-se, desesperadamente, de trabalho porque sobra mão-de-obra e ninguém sabe o que fazer com ela, já que as máquinas trabalham mais depressa,melhor e mais barato.

A automação sempre foi um sonho da humanidade.Há 2.300 anos, o Desempregado Feliz, Aristóteles, já dizia: “se cada ferramenta pudesse cumprir, por si só, a sua função; se, por exemplo, a agulha do tear pudesse trabalhar sozinha, o mestre não necessitaria de nenhum ajudante e o amo de nenhum escravo.”

Hoje, já se realizou este sonho, mas em forma de pesadelo para todos, porque as relações sociais não mudaram tão depressa como a tecnologia. (LETRA LIVRE, nº 33, 2002, p. 23/24).»


Mas a era dos extremos tem se tornado cada vez mais sólida diante de uma realidade “de 3 bilhões de reféns (pessoas) que (sub)vivem como dois dólares diários” (MCLAREN; FARAHMADPUR, 2002, p. 20), reflexos da agônica colisão entre trabalho e capital. E indo além, tem-se:

«O desenvolvimento da tecnologia não está servindo para multiplicar o tempo de ócio e os espaços de liberdade, mas está multiplicando a falta de emprego e semeando o medo. É universal o pânico ante a possibilidade de receber a carta que lamenta comunicar-lhe que estamos obrigados a prescindir de seus serviços em razão da nova política de gastos, ou devido à inadiável reestruturação da empresa, ou apenas porque sim, já que nenhum eufemismo abranda o fuzilamento. Qualquer um pode cair, a qualquer hora e em qualquer lugar. Qualquer um pode se transformar, de um dia para outro, num velho de quarenta anos. (GALEANO, 1999, p. 170)»


E nesta esteira de dilemas novos processos de trabalho emergem, substituindo o antigo padrão fordista/taylorista por técnicas de produção mais flexíveis, seguindo uma nova adequação da produção à lógica do mercado. Desta forma:

«Ensaiam-se modalidades de desconcentração industrial, buscam-se novos padrões de gestão da força de trabalho, dos quais os Círculos de Controle de Qualidade (CCQs), a “gestão participativa”, a busca da “qualidade total” são expressões visíveis não só no mundo japonês, mas em vários países de capitalismo avançado e do Terceiro Mundo industrializado. O toyotismo penetra, mescla-se ou mesmo substitui o padrão fordista dominante, em várias partes do capitalismo globalizado. Vivem-se formas transitórias de produção, cujos desdobramentos são também agudos, no que diz respeito aos direitos do trabalho. Estes são desregulamentados, são flexibilizados, de modo a dotar o capital do instrumental necessário para adequar-se a sua nova fase. (ANTUNES, 2000, p. 24).»


E entre o perigo que ronda os direitos trabalhistas e das políticas repressivas que agem em sintonia com a lógica neoliberal, enfraquecendo o Welfare State da social-democracia, a chave mestra de tais imperativos tem se dado com o forte desenvolvimento e a implantação nas relações de trabalho ocidentais, do toyotismo[6] enquanto decisiva aquisição do capital contra o trabalho.

Como advento do toyotismo pode-se destacar: trabalhadores multifuncionais[7], aumento de produção[8] com um número reduzido de trabalhadores[9], o método kanban[10], incluindo a expansão deste método para as empresas subcontratadas e fornecedoras.

Sendo assim, um fantasma ronda o “novo” mundo: o fantasma da inquietação diante de modelos travestidos de social-democracia, que se direcionam pelo ideário neoliberal e pelo desfalecimento das lutas no que diz respeito à emancipação do gênero humano, diante de uma aceitação acrítica de grande porte da ordem do capital e do mercado consumidor, em que:

«O consumidor massificado e passivo que a produção capitalista, para poder subordinar-se ao consumo, exige; ela não o cria completamente, como se afirma freqüentemente, através da publicidade, da moda e das “relações humanas”; pelo contrário, já o gerou no estágio das relações de produção e das relações de trabalho, desligando o produtor de seu produto, voltando esse trabalho contra ele como uma certa quantidade predeterminada e alheia de tempo e de esforço que aguarda o trabalhador em função e exige sua passividade ativa. (GORZ, 1968, p. 79).»


Situação a qual pode ser traduzida pela seguinte máxima: “diz-me quanto consomes, dir-te-ei quanto vales” (GALEANO, 1999, p. 258).

Metamorfoses no mundo do trabalho ou crise da sociedade do trabalho?Editar

“Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho”, partindo desta premissa o Grupo neomarxista Krisis elaborava seu Manifesto Contra o Trabalho, um libelo de escrita provocativa que mesmo partindo do contexto alemão esboça uma crítica social para além das fronteiras germânicas, polemizando de forma mordaz com o pensamento ocidental e suas emasculações acerca do papel do trabalho na nossa sociedade.

«É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto a sociedade-trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela claramente seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. (GRUPO KRISIS, 2003, p. 16).»


Inquietações similares seriam lançadas no semblante do século XIX via o panfleto O Direito à Preguiça[11] de Paul Lafargue, que apontava preocupações que romperiam décadas e séculos. E para tanto se tem:

«Uma estranha loucura se apossou das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua progenitora. Em vez de reagir contra esta aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho. (LAFARGUE, 1977, p. 15)»


Percepção lafargueriana que em tom de ironia instigava:

«Trabalhem, trabalhem, proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem, para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista. (LAFARGUE, 1977, p. 26).»


Escritos estes, que mesmo forjados no calor da hora de um outro contexto - o do capitalismo industrial expansionista, enquanto segundo estágio da Revolução Industrial - apresenta-se como um importante elemento de análise acerca das relações dos homens com o trabalho, frente continuidades inerentes ao universo contemporâneo e imbricações, tais como, trabalhar para viver ou viver para trabalhar.

O trabalho liberta.jpg

Figura 1: A Ética do Trabalho... Quantos se libertaram pelo trabalho ou seria do trabalho, no campo de concentração de Auschwitz, que trazia em seu proeminente portão de entrada inscrito: “O Trabalho Liberta”!?

Todavia na senda do presente, o manifesto do Grupo Krisis com onze ataques contra o trabalho se opõe a visão daqueles que o concebem como lei natural, pois para o grupo alemão, o trabalho remete a um destino social infeliz, sustentado por aqueles que perderam sua liberdade. E neste sentido o grupo Krisis realça que trabalho não seria o mesmo que atividade, pois enquanto o indivíduo não se reconhece por via de uma (o trabalho), se auto-realiza no desenvolver da outra, ou seja, a atividade.

«O trabalho não é, de modo algum, idêntico ao fato de que os homens transformam a natureza e se relacionam através de suas atividades. Enquanto houver homens, eles construirão casas, produzirão vestimentas, alimentos, tanto quanto outras coisas, criarão filhos, escreverão livros, discutirão, cultivarão hortas, farão música etc. Isso é banal e se entende por si mesmo. O que não é obvio é que a atividade humana em si, o puro “dispêndio de força de trabalho”, sem levar em consideração qualquer conteúdo e independentemente das necessidades e da vontade dos envolvidos, torne-se um principio abstrato que domina as relações sociais. (GRUPO KRISIS, 2003, p. 33).»


Maguila.jpg

Figura 2: “O Trabalho... danifica o homem” (Maguila) – Frase extraída de camiseta.

Percepções estas, defendidas também pelo advogado e anarquista estadunidense Robert Charles Black Jr. (mais conhecido por Bob Black) que através de um texto – embebido de Paul Lafargue e Charles Fourier – intitulado A abolição do trabalho, afirma:

«O trabalho é a fonte de quase todos os sofrimentos no mundo. Praticamente qualquer mal que se possa mencionar vem do trabalho ou de se viver num mundo projetado para o trabalho. Para parar de sofrer, precisamos parar de trabalhar. Isso não significa que precisamos parar de fazer coisas. Significa criar um novo estilo de vida [...]. (BLACK, 2006, p. 19).»


Vida baseada num novo estilo que para Bob Black, teria sua espinha dorsal na criatividade de atividades lúdicas, ou como ele prefere chamar, na “brincadeira”. Esta revolução lúdica que em nome do Homo Ludens ataca tanto o trabalho na sua forma quantitativa e qualitativa, já que para o autor a grande maioria do trabalho desenvolvido na nossa sociedade é inútil e que para tanto, “[...] precisamos pegar o trabalho que permanece útil e transforma-lo em uma agradável variedade de passatempos lúdicos e artesanais, indistinguíveis de outros passatempos prazerosos exceto pelo fato de que resultam em produtos finais úteis”. (BLACK, 2006, p. 39). Ainda para Black a tecnologia tem o papel não somente de automatizar o trabalho fazendo com que desapareça, mas o poder de abrir novos campos de recriação ao Homo Ludens.

E nesta “esteira de produção” investigativa referente ao mundo do trabalho, Robert Kurz, membro do Grupo Krisis, em O Colapso da modernização delineia os caminhos mundiais pavimentados pela política do neoliberalismo sedimentado por um sistema regido pela lei da troca de mercadorias enquanto bem social maior. E sobre tais diretrizes reitera Ivan Illich (1979, p. 23): “a busca insistente de criar um âmbito de liberdade se eclipsou ante o direito de consumir”.

Robert Kurz ao partir da análise dos elementos da derrocada do socialismo do Leste europeu traça por sua vez os ingredientes de uma crise sistemática que não teve seus primeiros sintomas no Leste como muitos queriam fazer crer, mas sim no Terceiro Mundo, lançando desta forma o fio condutor de crítica da sociedade burguesa e principalmente do sistema capitalista. Sendo assim, “o capitalismo entrou num fosso sem saídas, onde produz menos valor e mais-valia”. (SOTELO, 2006, p. 37). E para tanto:

«A maioria da população mundial já consiste hoje, portanto, em sujeitos-dinheiro sem dinheiro, em pessoas que não se encaixam em nenhuma forma de organização social, nem na pré-capitalista nem na capitalista, e muito menos na pós-capitalista, sendo forçadas a viver num leprosário social que já compreende a maior parte do planeta. Não fala a favor da compreensibilidade do mundo que ele fique observando esse espetáculo há mais de duas décadas e continue praticando impassivelmente e sem crítica precisamente aqueles negócios cujo andamento apenas acelera cada vez mais o desastre, que por fim não poupará ninguém. (KURZ, 1992, p. 195).»


Tomando rumos similares aos do sociólogo alemão Robert Kurz, o filósofo austríaco André Gorz, em Adeus ao Proletariado: para além do socialismo, defende a abolição do trabalho e do assalariamento, afirmando: “o trabalho não é a liberdade porque, para o assalariado como para o patrão, o trabalho é apenas um meio de ganhar dinheiro e não uma atividade com fim em si mesma”. (GORZ, 1982, p. 10). E prosseguindo o filósofo acrescenta:

«A razão mais imediatamente perceptível é que a abolição do trabalho é um processo em curso e que parece chamado a ir se acelerando. Institutos independentes de previsão econômica estimaram para cada um dos três países industriais da Europa Ocidental que a automatização suprimirá, no espaço de dez anos, quatro ou cinco milhões de empregos, a menos que se realize uma profunda revisão da duração do trabalho, dos fins da atividade e de sua natureza. (GORZ, 1982, p. 11).»


Mesmo tendo se passado os proféticos 10 anos após tal afirmação de André Gorz, e o trabalho não tendo sido abolido, suas colocações continuam um tanto quanto pertinentes aos debates que circundam, as remodelações nos meios e fins que sustentam a sociedade do trabalho. Questões que seriam remetidas a público via uma segunda obra de Gorz, intitulada Sair da sociedade do trabalho.

Mas se por um lado há intelectuais que se lançam como arautos da crise da sociedade do trabalho, mesmo sem apresentarem os caminhos para tal superação, possivelmente pelo fato de tais caminhos ou soluções serem frutos de criações coletivas e não de divagações individuais, tem-se do outro lado desta fronteira, vozes que ainda decretam a centralidade do mundo do trabalho enquanto instrumental de combate às relações capitalistas.

Para o sociólogo Ricardo Antunes, em sua obra Adeus ao trabalho? Em que se coloca como um dos grandes defensores do trabalho enquanto força motriz de transformação social, ele ataca seus opositores afirmando, que nunca houve a eliminação do trabalho frente à modernização instaurada ao processo de produção, mas sim um processo de intelectualização de uma parcela da classe trabalhadora. Classe esta, transformada em supervisora do processo fabril robotizado.

E neste sentido Antunes lança a seguinte interrogação: de que crise da sociedade do trabalho se está falando, trata-se do trabalho abstrato ou concreto? E para tanto escreve:

«Sabe-se que, no universo da sociabilidade produtora de mercadorias, cuja finalidade básica é a criação de valores de troca, o valor de uso das coisas é minimizado, reduzido e submetido ao seu valor de troca. Mantém-se somente enquanto condição necessária para a integração do processo de valorização do capital, do sistema produtor de mercadorias. Do que resulta que a dimensão concreta do trabalho é também inteiramente subordinada à sua dimensão abstrata. Portanto, quando se fala da crise da sociedade do trabalho, é absolutamente necessário qualificar de que dimensão se está tratando: se é uma crise da sociedade do trabalho abstrato (como sugere Robert Kurz) ou se trata da crise do trabalho também em sua dimensão concreta, enquanto elemento estruturante do intercâmbio social entre os homens e a natureza (como sugerem Offe; Gorz; Habermas, e tantos outros). (ANTUNES, 2000, p. 22).»


Visualizar o fim da sociedade do trabalho abstrato para Antunes tem sua viabilidade, agora conceber o fim do trabalho como atividade útil, vital e como elemento fundante da atividade humana é um tanto quimérico e inconcebível. Pois para o autor é a categoria trabalho em sua inter-relação homem (sociedade) e natureza que o distingue de um ser meramente biológico, tornando-o social.

O autor afirma ainda que o ponto de partida para uma nova sociedade encontra-se na esfera do trabalho concreto. Outrossim, que “a chamada revolução tecnológica tem um evidente significado emancipador, desde que não seja regida pela lógica destrutiva do sistema produtor de mercadorias, mas sim pela sociedade do tempo disponível e da produção de bens socialmente úteis e necessários”. (ANTUNES, 2000, p. 93).

Amparado pela esperança revolucionária depositada sob a classe-que-vive-do-trabalho, Antunes defende: “embora heterogeneizado, complexificado e fragmentado as possibilidades de uma efetiva emancipação humana ainda podem encontrar concretude e viabilidade social a partir das revoltas e rebeliões que se originam centralmente no mundo do trabalho”. (ANTUNES, 2000, p. 94).

E ao eco de “proletários do mundo libertai-vos!” o autor ainda acrescenta: “em síntese, a luta da classe-que-vive-do-trabalho é central quando se trata de transformações que caminham em sentido contrário à lógica da acumulação de capital e do sistema produtor de mercadorias”. (ANTUNES, 2000, p. 94).

Quanto vale ou é por quilo?Editar

Mediante a intensificação do processo de internacionalização das economias capitalistas, a partir da década de 1980, tem se produzido um novo paradigma de emprego, marcadamente flexível, precário e desprovido de garantias. Assim como o processo de produção, que se torna cada vez mais disperso englobando vários países na constituição de um único produto. E calcado em tais imperativos tem-se: “o preço de uma camiseta com a imagem da princesa Pocahontas, vendida pela Disney, equivale ao salário de toda uma semana do operário que costurou tal camiseta no Haiti, num ritmo de 375 camisetas por hora”, (GALEANO, 1999, p. 179/180) seguindo a mesma perspectiva “A cadeia McDonald´s dá brinquedos de presente aos seus clientes infantis. Esses brinquedos são fabricados no Vietnã, onde as operárias trabalham dez horas seguidas, em galpões hermeticamente fechados, em troco de oitenta centavos”; (GALEANO, 1999, p. 180) ou ainda:

«Como pode a Nike Corporation, com seu exército de 500 mil trabalhadores/as, ter sido capaz de chegar um recorde lucrativo de US$ 6,4 bilhões em 1998? A resposta é clara: mercados de trabalho não-regulados e trabalhadores/as desorganizados nos países do Terceiro Mundo são fonte principal do trabalho barato. Em países pobres, tais como o Haiti, os salários-hora são de 12 centavos, enquanto em Honduras os salários-hora são excepcionalmente grandes em comparação, chegando a apenas 31 centavos. O custo de produzir tênis Nike, que é vendido por quase US$ 128 nos Estados Unidos, é de 70 a 80 centavos nas fábricas úmidas da Indonésia. (MCLAREN; FARAHMADPUR, 2002, p. 28).»


E diante de uma realidade travestida de pesadelo, nos deparamos cada vez mais de fronte a um penhasco que a vários já tragou. Onde na “América Latina, a nova realidade do mundo se traduz num vertical crescimento do chamado setor informal da economia. O setor informal, que traduzido significa trabalho à margem da lei, oferece oitenta e cinco de cada cem novos empregos”. (GALEANO, 1999, p. 182).

Mas os problemas da sociedade capitalista contemporânea vão mais fundo ao projetar a centralidade do consumo enquanto diferenciador da realização pessoal e social, instaurando a possibilidade de consumo como sucesso individual. Percurso este que revela interessantes artimanhas daqueles que buscam fazer parte deste universo de mercadorias expostas aos olhos do dinheiro, pois como observou o jornalista norte-americano Mac Cooper, existem muitos impostores no “paraíso” do consumo:

«Chilenos que fecham os vidros do automóvel para mentir que têm ar condicionado, (...) usam cartão de crédito para comprar batatas ou uma calça em doze prestações. O jornalista também foi testemunha da irritação de empregados dos supermercados Jumbo: há pessoas que enchem o carrinho com os artigos mais caros, passeiam um bom tempo entre as gôndolas, exibindo-se, depois abandonam o carrinho num canto e vão embora sem comprar nem um chiclete. (GALEANO, 1999, p. 258).»


Estar à margem de um mundo de cores, formas e valores, frustração que se traduz no fato de “estar excluído não de necessidades consideradas básicas, mas daquilo que outras pessoas têm”. (DUPAS, 2000, p. 17).

Sindicato Nosso de Cada Dia, Nos Dai Hoje mais Trabalho Editar

Frente aos interesses defensivos dos direitos da classe trabalhadora, direito ao trabalho e ao emprego, incorporada pelos sindicatos, assim, se afastando de uma outrora identidade combativa e anticapitalista, é que se fala numa crise do sindicalismo no que se refere a sua identidade de um passado de lutas.

Tomando como referencial o Primeiro Congresso Operário no Brasil, realizado em 1906 no Rio de Janeiro e que ocasionaria na criação da Confederação Operária Brasileira (COB) visando a união e a defesa dos trabalhadores, assim como, no surgimento do jornal A Voz do Trabalhador enquanto porta-voz do movimento. Tem-se entre os vários tópicos de discussões acordados durante o Congresso, um sob o qual nos teremos, o qual pontua:

«No meio da organização sindical poderão admitir-se funcionários remunerados? No caso afirmativo, sob que condições? Considerando que a remuneração dos cargos nos sindicatos é susceptível de produzir rivalidades e intrigas, ambições nocivas à organização e interesses contrários à sua ação e liberdade de movimento; que essa remuneração pode chamar às funções administrativas, indivíduos unicamente desejosos de se emancipar individualmente, trabalhando com o exclusivo fim de receber o ordenado, e não com o amor que provém de um forte espírito de iniciativa e duma larga compreensão dos interesses solidários do operariado, e da necessidade da luta; o 1º Congresso Operário aconselha vivamente às organizações operárias a repelirem as remunerações dos cargos, salvo nos casos em que a grande acumulação de serviços exija peremptoriamente que um operário se consagre inteiramente a ele não devendo, porém, receber ordenado superior ao salário normal da profissão a que pertence. (...). (RODRIGUES, 1969, p. 124-125).»


Mas passadas algumas décadas, o que vemos? Sindicatos convertidos em “cabides de empregos”, alimentando vaidades econômicas individuais, levantando bandeiras que falam mais em nome de partidos políticos (embalados pelo frenesi dos show-mícios) do que por interesses em comuns de grupos a mercê da sua própria sorte que sustentam este processo com seu “dízimo-sindical”.

E nesta senda, em substituição ao sindicalismo de classe se desenvolveu o que se denominou de sindicalismo de participação, ou seja, “Participar de tudo..., desde que não se questione o mercado, a legitimidade do lucro, o que e para quem se produz, a lógica da produtividade, a sacra propriedade privada, enfim, os elementos básicos do complexo movente do capital”. (ANTUNES, 2000, p. 150). Sendo as perspectivas de emancipação humana, trocadas pelos “valores da acomodação social-democrática”.

Dilemas que tornam o futuro do sindicalismo algo suscetível de exaustão, pois quando analisamos as relações de trabalho produzidas pela nova ordem mundial, temos a “coexistência em uma mesma fábrica de trabalhadores da empresa central e das terceirizadas, frequentemente com salários e condições de trabalho diferentes, quebrando – por exemplo – a isonomia de sua situação de classe do período anterior”. (DUPAS, 2000, p. 54).

Desta forma, diante da diversificação de diferentes visões emanadas pelos trabalhadores, em especial entre setores formais e os informais, a ação sindical encontra fortes barreiras para levantar bandeiras classistas, assim como, enfraquecido em seu poder de barganha em prol de uma categoria, de aspirações tão dicotômicas. Imperativos que lançam fagulhas incendiárias, “estariam os sindicatos, como certos espécimes animais, condenados a desaparecer pela destruição do seu habitat?”. (DUPAS, 2000, p. 57). E entre o reboliço de metamorfoses que constituem o capitalismo contemporâneo, alguns economistas ruborizam, a sorte esta lançada, “o sindicalismo só não desaparecerá se, por evolução natural, souber transformar-se num novo ente adaptado ao trabalho flexível e à exclusão social”. (DUPAS, 2000, p. 58). Mas indo mais longe, afirmaria que se faz mais do que necessário pensar em outras formas de ação e combate às relações capitalistas, em prol da emancipação humana.

Diante do emanar de novos caminhos, a organização em rede surge como uma eficaz alternativa autônoma de associação, “(...) na qual as ´partes` (que podem ser indivíduos, organizações ou mesmo outras redes) se unem para perseguir objetivos específicos respeitando apenas princípios gerais acordados. Dessa forma, as redes permitem a convivência e o trabalho comum de grupos e indivíduos bastante diferentes, que não precisam sacrificar suas posições particulares para atuarem em conjunto”. (RYOKI; ORTELLADO, 2004, p. 17).

O sindicato teve seu tempo, por vezes enquanto importante instrumento de luta, cabendo agora a desenvoltura de outras formas de mobilização com uma envergadura que vá além de negociatas sindicais, assim como do próprio mundo do trabalho, o limiar de estratégias de afronta ao sistema capitalista e a doutrinas políticas autoritárias.

Antes do adeus!Editar

Estaria o trabalho com os seus dias contados (por mais ad absurdum que tal prerrogativa possa soar a alguns intelectuais) ou simplesmente passando por mutações? Perguntas estas, que não querem calar. Pois “(...) sem trabalho não haveria trabalhadores, e, sem trabalhadores, quem restaria para a esquerda organizar?”. (BLACK, 2006, p. 48). E por entre redemoinhos da modernização que solapam as relações sociais, especialmente, as de natureza trabalhista, têm-se inquietações que não se acomodam em algumas poucas poltronas de veludo, ora postas em Seattle, Genova ou Praga[12]. Inconformismos e estranhamentos de valores e sentidos, sobre os quais Nicolau Sevcenko escreve:

«Não há emblema mais revelador sobre o estado atual da democracia mundial do que essa fuga sistemática dos poderosos em relação aos cidadãos, à fiscalização e à crítica. Mas se eles estão na defensiva, recuando para as sombras, é porque o batalhão de voluntários de A Guerrilha Surreal expôs a falácia de seus discursos, a má-fé de suas intenções e as conseqüências atrozes de suas políticas para a natureza, os países subdesenvolvidos e as comunidades vulneráveis de todo o mundo. Dezenas de milhares de jovens fantasiados de arlequins, apontando para o núcleo de poder e gritando em uníssono que o rei está nu. Só não vê quem não quer ou quem aposta nos lucros da mentira. (SEVCENKO, 2002, p. 12).»


Época de crises para alguns no que condiz ao mundo do trabalho, assim como da própria sociedade burguesa e capitalista e por que não de alguns dogmas da esquerda, que relevam pouco a pouco a ponta deste iceberg que rivaliza com a rotina das relações de trabalho, com o Terceiro Mundo e com lutas classistas de outrora.

Como bem percebeu o historiador Eric Hobsbawm, “o capitalismo global e o mercado livre sem controles chegaram a um ponto crítico. Estamos ao fim de uma era, mas ainda não enxergamos o novo rumo”.[13]

Desta forma, os horizontes estão postos enquanto limiar de uma batalha que ainda se encontra em andamento, tal qual tem se mostrado o emanar de novas táticas de lutas anticapitalistas em nossa atualidade, frente ao olho do furacão da globalização em que o direito à preguiça é reivindicado e reinventado em prol de vidas mais livre, criativas e sadias, embaladas pelo mantra: “trabalhadores do mundo... relaxem!”. (BLACK, 2006, p. 49). Porém, não se trata de mero “ócio criativo” a italiana[14], mas sim, de um ócio combativo que almeja emancipar-se do trabalho quer em sua versão capitalista ou socialista, opondo-se aos bastidores de um espetáculo que interpreta a evolução de nossa espécie, de forma reducionista, taxando-nos como “um ser cujo cérebro e mãos só servem a um fim – o trabalho”.[15]

Referências BibliográficasEditar

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho?: Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 7ª ed. São Paulo: Cortez/Unicamp, 2000.

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

BAKUNIN, Mikhail. O Princípio do Estado & Três Conferências feitas aos Operários do Vale de Saint-Imier. Brasília: Novos Tempos, 1989.

BLACK, Bob. Groucho-Marxismo. São Paulo: Conrad, 2006.

CHRISPINIANO, José. A Guerrilha Surreal. São Paulo: Conrad/Com-Arte, 2002.

DUPAS, Gilberto. Economia Global e Exclusão Social. Pobreza, Emprego, Estado e o Futuro do Capitalismo. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

GALEANO, Eduardo. De Pernas pro Ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM, 1999.

GORZ, André. Estratégia Operária e Neocapitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.

GORZ, André. Adeus ao Proletariado: para além do socialismo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

GRUPO KRISIS. Manifesto Contra o Trabalho. São Paulo: Conrad, 2003.

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Referências

  1. Instrumento de tortura composto por três estacas, utilizado principalmente para castigar escravos durante a antiguidade clássica. Para tanto, atribui-se a origem da palavra trabalho do termo tripalium.
  2. Palavra latina derivada de laborare que significa: cambalear do corpo sob uma carga pesada, mas que com o passar dos tempos seria empregada para designar a atividade de trabalhar
  3. Termo grego, que tem sua raiz etimológica na palavra penia, que significa pobreza.
  4. John Locke via no trabalho a fonte de toda propriedade, enquanto Adam Smith descobria no trabalho a fonte de toda a riqueza.
  5. Este vídeo é uma sátira ao vídeo de auto-ajuda norte-americano (com versão brasileira) Conselhos. Cópia do Futuro Sombrio encontra-se no Youtube.
  6. O Toyotismo é também denominado de Ohnismo, termo que tem suas origens no nome Ohno, engenheiro que projetou o modelo Toyota.
  7. Um operário opera em várias máquinas, em média cinco máquinas.
  8. Mediante a intensidade produtiva é corrente a morte súbita (Karoshi) de trabalhadores, segundo Eduardo Galeano o número chega a dez mil pessoas por ano.
  9. Diante de um quadro mínimo de trabalhadores, a ampliação produtiva utiliza-se em grande escala do sistema de horas extras, trabalhadores temporários ou subcontratados.
  10. O Kanban teve sua origem nas técnicas de gestão dos supermercados dos EUA.
  11. Publicado originalmente em Paris no semanário L´Egalité em 1880.
  12. Sedes dos encontros da OMC, G8 e FMI/ Banco Mundial.
  13. Comentário feito por Hobsbawm numa entrevista ao periódico Clarin em 1998.
  14. Referência ao trabalho O Ócio Criativo do sociólogo italiano Domenico de Masi.
  15. Palavras do intelectual francês Philippe Godard autor da obra Contre le Travail (Contra o Trabalho).

Textos RelacionadosEditar



Textos

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