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Kenneth Rexroth/Comunalismo/Hutteritas Novamente

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Hutteritas Novamente


Deixamos os huteritas em 1770, quando foram convidados a se instalar na Ucrânia e na região do Volga por Catarina, a Grande. Em 1763 o governo russo emitiu um manifesto oferecendo terra de graça aos colonos estrangeiros — como de fato aconteceu, uma das terras mais férteis do mundo — completa liberdade de religião, escolas próprias, instrução em sua própria língua, isenção do serviço militar, uma considerável isenção tributária, desde que não convertessem os russos de fé ortodoxa. Vinte e três mil alemães, principalmente pietistas ou anabatistas, responderam ao chamado. Muitos vieram nos anos seguintes. Até que o acordo foi quebrado durante a Segunda Guerra Mundial quando eles foram exilados na Sibéria ou exterminados por Stalin. O "Volga Alemão" representava uma parcela diminuta mas significante da população russa européia.


Foi na Romênia e na Transilvânia que os huteritas se encontraram, como pacifistas absolutos, a mercê de tropas pilhando de ambos os lados. Eles apelaram ao chefe das forças russas, Count Rumiantsev, que lhes ofereceu suas próprias terras perto de Kiev, sob condições mais favoráveis que as do manifesto de Catarina. Eles chegaram no outono de 1770, e antes do inverno já haviam estabelecido as bases essenciais da colônia. Trouxeram consigo seus artesãos; e em poucos anos sua aldeia, conhecida como Vishenky, tornou-se modelo, com uma fábrica têxtil, cerâmica, uma loja de ferramentas e distilaria. Durante o tempo que permaneceram no Império Austríaco, sua cerâmica tornou-se famosa, alguns exemplares ainda hoje podem ser encontrados nos museus da Europa Central.


Em 1796 Rumiantsev morreu e seus filhos tentaram cancelar o velho acordo assinado com a comunidade. Os huteritas apelaram para o novo imperador, Paulo I, que apoiou o acordo original, garantindo todos os privilégios concedidos aos menonitas que migraram aos milhares vindos da Prússia para a Rússia. Trinta e dois anos depois eles se deslocaram de Vishenky para Radichev, numa distancia de oito milhas, para ocupar terras cedidas pelo governo. Naquele tempo sua população era composta por pouco mais de duzentos adultos.


Logo os huteritas ampliaram seus empreendimentos industriais, passando a produzir linho fino e seda. Provavelmente foram os primeiros a lançar a seda com sucesso na Rússia. Naqueles anos, a vida da comunidade diferia muito pouco daquela que podemos ver hoje nas comunidades huteritas dos Estados Unidos e Canadá — com a exceção de que havia mais indústrias. A terra foi dividida com dois acres e meio por família, apenas o suficiente para manter seus membros. Havia um completo comunismo de consumo. Eles almoçavam e jantavam em um refeitório comunitário, homens e mulheres em mesas separadas. As roupas que usavam eram distribuídas em igualdade de condições. Apenas um mínimo de posses pessoais era permitido. As crianças eram criadas em berçários. O dia começava e terminava com serviços religiosos, e passavam quase todo o dia de domingo dentro da capela.


Seu comunismo de produção, praticado desde o princípio, curiosamente, fez com que eles se tornassem os pioneiros do sistema fabril. Produtos como potes, panelas eram fabricados por etapas numa série de operações separadas, cada qual executada por indivíduos diferentes, ou seja, uma linha de produção. Contudo, as pessoas se revezavam nas tarefas, e até mesmo em sua ocupação, para evitar a monotonia. Os relatórios dos funcionários russos visitantes eram entusiásticos, tanto quanto podiam ser. Ao redor dos estabelecimentos huteritas haviam aldeias de camponeses russos, ineficientes, desordenadas, e imundas, virtualmente inalteradas desde os tempos neolíticos.


Por volta de 1840, a terra não estava mais dando conta de suportar o aumento da população, e em 1842 os huteritas foram forçados pelo governo a aceitar as mesmas regras impostas aos menonitas na Criméia, a concessão da terra enquanto fazendeiros individuais; e um esforço foi feito, tanto pelo governo como pela administração das comunidades menonitas, para quebrar seu modo comunista de vida. Alguns menonitas aceitaram, mas depois de alguns anos, a maioria retornou aos velhos padrões comunais, que se tornaram mais uma vez prósperos. Embora, muitos de seus empreendimentos industriais de pequena escala tenham continuado, esses anos foram caracterizados por uma ênfase maior na agricultura.


Em 1864 foi baixada uma lei colocando todas as escolas de todo império sob a supervisão do Estado, tornando o idioma russo exclusivo e compulsório como meio de instrução. O governo também anunciou que o serviço militar passaria a ser obrigatório dentro de dez anos. Os huteritas, por unanimidade, e a maioria dos menonitas, decidira emigrar. Membros de ambos os grupos foram para os Estados Unidos, Canadá, e América do Sul em busca de terra adequada e governos que lhes permitisse preservar seu modo de vida. Na última hora, o governo russo, ansioso por reter aqueles valiosos cidadãos, concedeu a maioria das condições originais de permanência, mas apenas uma pequena parcela de huteritas, embora um número considerável de menonitas, ficou para trás. Aqueles que persistiram na prática comunista foram exterminados pelos bolcheviques durande a Guerra Civil e durante a Segunda Guerra Mundial.


O primeiro grupo de huteritas, cento e nove pessoas, chegou ao Nebraska em 1874, partindo em direção ao Vale do Rio James no sudoeste de Dakota do Sul. Nos próximos três anos essa mesma trilha foi percorrida pelos migrantes que chegaram depois deles. Naquele tempo as terras disponíveis no Território de Dakota eram escassas. As Guerras Índias ainda eram constantes. A derrota de Custer em 1876 e a corrida do ouro em Black Hill ocorreram ao mesmo tempo. Em 1872 havia apenas doze mil habitantes no local que mais tarde receberia o nome de Dakota (Norte e Sul). Cada colônia que se estabelecia passava seu primeiro inverno em cabanas nas estepes, mas com a chegada da primavera começavam imediatamente a construir casas de pedra e celeiros, e antes do segundo inverno chegar já estavam morando em casas decentes. Essas colônias ficavam em locais bem distantes. O mundo as ignorava e elas ignoravam o mundo. Finalmente eles podiam voltar à ortodoxia rígida, à disciplina, e ao compromisso da vida comunal; devido a esse isolamento, eles ficaram necessariamente quase que completamente auto-suficientes. Eles teciam e produziam sua própria roupa, faziam seus próprios sapatos, criavam suas próprias ferragens e ferramentas, e criavam sua própria maquinaria agrícola. Porém, tirando aqueles ofícios absolutamente necessários, os huteritas se tornaram colônias puramente agrícolas na América. Eles nunca voltariam aos ofícios e empreendimentos industriais praticados durante seus primeiros cem anos.


O líder da primeira colônia, Michael Waldner, era ferreiro, ou Schmiedenleute, o Povo do Ferreiro. O líder do Dariusleute (ou o Povo de Darius) foi Darius Walther. O líder do último grupo que chegou foi Jacob Wipf, um professor, ou Lehrerleute, o Povo do Professor.


Por si próprias, as colônias floresceram. Por volta de 1915 havia mais de mil e setecentos membros nas dezessete colônias, quinze em Dakota do Sul e duas em Montana. O crescimento era quase completamente natural. Eles praticamente não fizeram nenhum convertido. Mas eles tinham, e ainda tem, uma das taxas de natalidade mais altas do que qualquer grupo na América. Por volta de 1917 eles ainda estavam isolados. Depois que Montana e Dakota se transformaram em estados, as colônias foram rodeadas por grandes fazendas, e cidades próximas.


Os Estados Unidos entraram na guerra e as leis estabelecidas não fizeram qualquer concessão aos objetores de consciência, nem mesmo para aquela parcela de membros de igrejas pacifistas históricas, ou coisa que o valha, como foi o caso dos huteritas. O governo tinha originalmente prometido aos colonos, na ânsia de atraí-los, que sempre seriam isentos de servir ao exército. Newton D. Baker, Secretário da Guerra, e autor do projeto de lei, aconselhou todos os homens jovens membros das igrejas pacifistas históricas a se alistarem no exército, irem para os acampamentos militares, e pedirem ao oficial comandante uma função de não combatente. Como é fácil imaginar, seguir este conselho implicou em prisão, tortura, perseguição, e violência.


Os huteritas foram categóricos recusando-se a lutar, alegando que não tinham nada a ver com projetos de leis, serviço militar, ou guerras. Além do mais poucos deles falavam qualquer coisa que não fosse em alemão. Eles foram presos, e na prisão foram submetidos a uma perseguição inexorável. Dois rapazes huteritas morreram sob tortura de guardas de prisão. Mais uma vez os huteritas foram forçados a migrar. Os jovens não foram apenas presos como desertores, mas também sofreram a violência da turba, o incêndio premeditado e o roubo de seu gado pelos fazendeiros vizinhos tornou-se mais e mais crescente. O estado de Dakota do Sul reafirmou sua incorporação, com o anúncio objetivo de “exterminar absolutamente os huteritas de Dakota do Sul”. Foram enviadas delegações ao governo canadense em Ottawa, e aos governos provincianos de Alberta e Manitoba, também foram feitos arranjos com a Canadian Pacific Railway. O Estado concordou em respeitar seu pacifismo, sua recusa em votar, ou ser funcionário público. Na realidade, o governo canadense estava tentando atrair os huteritas desde 1898. No outono de 1918 na medida em que os grupos chegavam iam se acomodando em seus novos territórios, os Schmiedenleute em Manitoba, os Darius e Lehrer em Alberta. Dez anos depois eles receberam de volta suas antigas terras de Dakota do Sul, estabelecendo novas colônias em Washington, Montana, Dakota do Norte, e Saskatchewan.


O governo canadense nunca provocara deliberadamente o sentimento anti-alemão em seus próprios cidadãos, como fizera a máquina de propaganda de Wilson, dirigida pelo intelectual liberal George Creel. A guerra terminou logo após a chegada dos colonos no Canadá, e durante vários anos eles foram mais do que bem vindos, e mais uma vez prosperaram. Porém, sua alta taxa de natalidade continuou, e novas colônias estavam brotando continuamente em novas terras, que eles cultivavam com bem mais eficácia do que seus vizinhos pagãos. Eles pararam de produzir seus próprios tecidos, embora a maioria dos colonos ainda produzissem seus próprios sapatos, e toda sua roupa de malha. O ferramenteiro é largamente confinado às carroças e consertos de maquinaria. O velho arado de mão, foice, ancinho, são coisas do passado. Ao contrário do Amish mais rígido, os huteritas sempre se esforçaram em adotar o que havia de mais recente em maquinaria em suas fazendas. Na realidade, eles freqüentemente eram muito criticados por supercapitalizar suas fazendas. Até hoje eles ainda vivem dentro de padrões severos e rígidos, sem gastar nenhum dinheiro em entretenimento ou utilidades domésticas, com exceção de refrigeradores que eles normalmente adquirem da Colônia de Amana, quanto a rádios, televisores, instrumentos musicais, e tudo o mais, inclusive a roupa que deve ser simples, é completamente proibido. Assim, suas fazendas são uniformemente bem sucedidas, eles não gastam seu dinheiro em outra coisa que não seja na maquinaria da fazenda.


Apenas nos anos recentes os huteritas permitiram a alguns poucos sócios cuidadosamente selecionados continuar sua educação além do mínimo legal, embora haja um sentimento crescente agora de que eles deveriam produzir seus próprios médicos e professores. No passado, um membro raramente se afastava da comunidade, obtinha uma educação de faculdade, retornava, se reintegrava, e servia a comunidade como um profissional residente. Considerando que eles não acreditam em cortes, eles ainda não pensam em produzir seus próprios advogados. Eles sempre treinaram suas próprias parteiras e enfermeiras.


Embora os huteritas adotem freqüentemente a política de comprar terras pouco atraentes para seus vizinhos, eles acabam ganhando bastante dinheiro com isso, pois logo transformam a terra ao ponto de torná-la o que há de melhor na região. Suas roupas são estranhas, embora de forma alguma tão estranha como as roupas do Amish mais rígido. Eles falam entre si um dialeto alemão antigo, embora todos eles falem o inglês. Como os quakers, eles nunca pechincham em cima dos preços. Eles compram quase todos os bens externos no atacado, e até mesmo a maquinaria mais pesada é freqüentemente comprada simultaneamente para várias colônias. Eles não dirigem automóveis por prazer -- as mulheres, incidentalmente, são proibidas de dirigi-los. Eles são um "povo peculiar", e todo contato com a sociedade pagã conspira contra a prática das virtudes apostólicas. Consequentemente eles são odiados e invejados. O preconceito canadense contra os huteritas vem aumentando continuamente. Tal preconceito nunca atingiu o fantástico grau de perseguição sofrida pelos doukhobors, pelo simples fato dos huteritas sempre responderem oferecendo a outra face. Ao contrário dos doukhobors, eles não acreditam em confrontos nem em manifestações não-violentas. Eles não incendeiam seus edifícios nem tiram suas roupas desfilando nus pelas cidades, nem cercam as prisões onde seus homens estão presos, com multidões cantando hinos e com mulheres nuas. O preconceito e a pressão canadense tem funcionado sob o disfarce da legalidade. Futricas abusivas e insinuações maliciosas são muito comuns entre os fazendeiros competidores nos bares das cidades vizinhas. O mais surpreendente é o preconceito que chega ao ponto de uma forte recusa em ver qualquer coisa boa nos huteritas, um tipo de desprezo que permeia silenciosamente no meio de profissionais educados, incluindo professores nas universidades canadenses, e inclusive estudantes de sociologia da religião.


Por outro lado, os pagãos de Dakota parecem ter aprendido sua lição; embora os huteritas possam ser invejados, eles são bastante admirados. O fato brutal do assunto é que, conforme profetizado por seu fundador, um cristianismo estritamente vivido inspira ódio e temor "no mundo". O Estado Romano perseguiu os cristãos primitivos porque eles recusaram queimar incenso a César. O populacho em geral os odiou porque eles eram exclusivos, vestiam diferente, apoiavam uns aos outros economicamente, eram honestos e corretos em seus procedimentos, não assistiam aos combates de gladiadores no circo, exceto como participantes forçados.


Os huteritas sem dúvida compõem a sociedade comunista mais antiga do mundo — ou na história, excetuando as tribos pre-alfabetizadas que mais ou menos ainda vivem na condição de "comunismo primitivo". Já faz quatrocentos e cinqüenta anos desde que Jacob Hutter em 1533 uniu as comunidades anabatistas desde a Suíça, Boêmia, Morávia, até o Tirol austríaco, persuadindo-os a adotar uma vida completamente comunal. Na idade dourada das fundações na Morávia, havia mais de vinte mil membros em mais de noventa aldeias. Hoje no Canadá e nos Estados Unidos, há mais de cento e cinqüenta colônias, contudo o número de sobrenomes é incrivelmente pequeno. Todos os huteritas existentes descendem das poucas famílias que sobreviveram séculos de migração, perseguição, e deserção.


Foi muitas vezes destacado que um dos principais fatores do fracasso da maioria das comunas do século XIX, particularmente as seculares, foi a ausência de critérios na aceitação de membros. As comunidades huteritas contemporâneas são o produto final da mais rigorosa seleção imaginável. Eles sobreviveram tanto ao martírio quanto à prosperidade, tanto à migração quanto aos ambientes políticos mais incongruentes, por onde passam o ambiente físico permanece notavelmente uniforme, as terras negras ucranianas, a pradaria de grama alta, a bacia do Danúbio. No princípio eles recrutavam os membros deliberadamente de acordo com as habilidades necessárias, desde artesãos até camponeses prósperos. Na Morávia, e durante algum tempo na Rússia, eles se fixaram em grandes propriedades senhoriais onde a auto-suficiência da economia de comunidades feudais tinha sobrevivido, uma auto-suficiência que eles aperfeiçoaram. Até nossos dias eles ainda tiram proveito das lições aprendidas em séculos de modo senhorial de vida. Embora os cristãos liberais modernos possam chamá-los de fundamentalistas, a confissão de fé huterita é na realidade mais flexível, menos rígida e, o que é muito importante, mais capaz de eterealização do que o da maioria das seitas anabatistas do passado ou das seitas milenaristas ou pentecostais das igrejas contemporâneas. Na realidade, o chiliasmo e o milenarismo se extinguiram.


Os huteritas não olham para si próprios como um remanescente colocado aparte para serem salvos do mundo do mal na Segunda Vinda e no Julgamento Final. Eles simplesmente se consideram cristãos, vivendo um tipo de vida que por si só os destaca como seguidores das palavras de Jesus e da vida apostólica conforme narrada nos Evangelhos e em Atos. Tanto os Evangelhos como Atos e as palavras de Cristo, se lidos sem preconceito, são marcados por uma escatologia dramática, pela expectativa da chegada iminente do fogo e do reino, este ajuste é semelhante ao efetuado pelas maiores e mais respeitáveis seitas cristãs. O grupo que mais se assemelha [nesse aspecto] aos cristãos apostólicos provavelmente são os Testemunhas de Jeová.


Mas diferentemente dos Testemunhas de Jeová ou dos muçulmanos negros, os huteritas não são uma sociedade trancada. Se a comunidade constrói um muro suficientemente impenetrável em volta de si mesma, cedo ou tarde ele virá abaixo. Os huteritas são quase tão abertos aos pagãos quanto os quakers. Eles aceitam silenciosamente suas crenças religiosas e o modo de vida que os diferencia do resto do mundo, e são felizes vivendo assim. Eles não usam cosméticos, nem vêem televisão, mas quando os pagãos fazem estas coisas isso não desperta neles nenhuma fúria santa. Eles não apenas aceitam se relacionar com o mundo, como também não aceitam que o mundo se relacione com eles. Isto é muito importante. Se eles tivessem sido combativos e envolvidos em grandes confrontos, enquanto minúscula minoria dentro de um mundo freqüente e amargamente antagônico, e na melhor das hipóteses indiferente, eles teriam há muito tempo sido destruídos. A sociedade huterita é verdadeiramente um reino de paz.


A maioria dos movimentos comunais dependeu do carisma de um líder individual, de um Robert Owen, ou de um John Humphrey Noyes, e teve sucesso na medida em que aquele líder era também um administrador prático e um homem com muitos conhecimentos, como Noyes foi, e como Owen não foi; ou, às vezes, da habilidade da mulher ou do homem carismático para ensinar um líder prático para compartilhar a administração da colônia. Trata-se de uma velha política, a política do pai-rei e do rei-guerreiro na transição da aldeia neolítica para a cidade. A constituição das comunidades huteritas foi cuidadosamente ajustada para permanecer acima do carisma de cada indivíduo da comuna proporcionando a viabilidade e a coesão da comunidade, bem como a eficiência de sua vida econômica. Talvez tenha sido esse cuidadoso controle do carisma que ajudou a sociedade a permanecer. Desde seu começo, a história huterita é marcada pela ausência de personalidades espetaculares — isso se aplica tanto aos fundadores como a seus sucessores imediatos, Jacob Widemann, Hans Hut, Jacob Hutter, Peter Riedemann, e Andreas Ehrenpreis — a influência que cada um exerceu no passado não foi superada pela influência exercida pelos líderes contemporâneos. Seus escritos ainda são lidos na igreja e seus hinos ainda são cantados.


Na realidade, a comunidade huterita deve sua coesão a um carisma difuso do qual cada sócio é portador. A comunidade, como o Israel místico, ou a Igreja como a Noiva de Cristo, é a pessoa pentecostal. Os huteritas estão bem atentos a este fato, mas tal consciência parece marcar os limites da eterealização. Sabemos pouco da vida interior do devoto huterita, mas nesse interior aparentemente nunca ocorreu uma hipostatização mística da comunidade. Não há nenhuma visão do Shekinah como entre os Hassidim. O dia-a-dia do trabalho nos campos e na cozinha, nos berçários e depósitos, e o trabalho congregacional parecem estar carregados com a consciência de uma glória mística que é suficiente às necessidades práticas das mentes huteritas. É possível que haja uma vida contemplativa, especialmente entre as pessoas mais idosas, uma coisa que os pagãos nunca saberão bem como funciona; mas que podem ver do lado de fora, os huteritas se assemelham a uma sociedade dos Irmãos Lawrences.


Ao contrário de muitas, talvez da maioria das sociedades comunais, seculares ou religiosas, os huteritas são governados mais por costumes do que por leis escritas, e eles raramente consideram necessário fazer sérias mudanças constitucionais. A cabeça de cada colônia é um Diener am Wort, um Servo da Palavra. Quando um novo líder é escolhido, são convidados os cabeças de outras colônias para uma reunião e eles, juntamente com todos os membros masculinos da colônia, votam em um elemento de uma lista de candidatos submetidos pela comunidade. Após oração, entre aqueles que recebem mais de cinco votos, um deles é escolhido por sorteio. Após um período probatório de dois anos ou mais, ele é então ordenado por imposição de mãos de dois ou três outros líderes. Ele não come à mesa com a comunidade, e em muitos pequenos detalhes vive uma vida mais individual em sua própria casa.


A maioria dos líderes é comparativamente jovem quando escolhido — entre vinte e cinco e quarenta anos — e permanecem líderes durante toda a vida ou até se tornarem incapacitados por doença ou por velhice. Eles são os líderes espirituais da comunidade, e oficialmente os administradores gerais, embora se torne cada vez mais comum a eleição por maioria simples de um administrador prático para assuntos econômicos, conhecido como Haushälter, o Dono da Casa. Como mordomo da colônia ele vigia o trabalho, indica tarefas, cuida das finanças e da contabilidade, e assume a responsabilidade por vários trabalhos, até mesmo os mais servis. É importante não conceber o Haushälter como “chefe da colônia”. Ele está mais para coordenador. Abaixo dele está um capataz da fazenda, e se a colônia tem outras atividades importantes, é costume haver outros capatazes.


Há uma considerável alternância de tarefas. Um homem pode ser sapateiro durante um ano, apicultor no próximo, e fazendeiro no terceiro ano. Com o passar do tempo, a maioria das pessoas se acomoda em uma ocupação regular, mas freqüentemente troca, até mesmo no fim da vida. Existe uma hierarquia similar entre as mulheres — uma Haushälterin, que supervisiona a cozinha, o quarto de costura, o jardim, e o jardim da infância. Também há mulheres especializadas em obstetrícia, e a maioria das mulheres são competentes e práticas enfermeiras. Embora os documentos constitucionais doutrinais huteritas insistam com bastante ênfase na submissão das mulheres ao governo dos homens, os observadores são unânimes em seus relatórios de que as mulheres huteritas parecem estar extraordinariamente contentes, trabalhando juntas em um estado de alegria que tende à euforia. Naturalmente, devido à natureza do "trabalho feminino", se ele é efetuado cooperativamente por um grande número de mulheres, ele se torna decididamente mais fácil do que as tarefas de uma única dona de casa de fazenda.


As famílias huteritas moram em casas ou apartamentos separados de suas crianças, que são ampliados na medida em que a família cresce. No passado as crianças às vezes eram levadas a berçários cooperativos, mas esta prática foi derrubada — exceto os bebês e crianças muito jovens que são cuidadas cooperativamente quando as mães estão trabalhando. As relações familiares são até mais fortes do que aquelas da antiga família patriarcal alemã. Questionários submetidos a crianças que freqüentam escola pública longe da colônia não revelam praticamente nenhum sinal de alienação, choque de gerações, muito menos o "conflito edipal" típico da moderna juventude. A despeito das iscas do mundo moderno, com sua cultura de mercadoria, consumo conspícuo, e super estímulo ao entretenimento, quase todos os jovens huteritas parecem querer ser como seus pais e viver como seus ancestrais quinhentos anos antes deles. Os que partem quando se tornam adolescentes, normalmente fazem isso para se casar com cônjuge não huterita. Eles retornam à colônia nos feriados e finais de semana, freqüentemente ficam por perto, e muitas vezes o cônjuge se converte, é batizado, e o par se integra, para a alegria de todos.


Existe bem menos deserção no modo huterita de vida do que em seitas similares não comunistas como amish, menonitas, mormons, ou comunistas como Amana. Uma razão para isso, provavelmente, é que não há no credo huterita nada semelhante ao esforço de eterealização que é exigido de uma pessoa educada em escolas modernas. Bem poucos huteritas passam por uma faculdade, e quando isso ocorre é por orientação da direção da colônia no sentido de prover serviços profissionais para mais adiante assegurar a auto-suficiência da comunidade. Aqueles que fazem faculdade, quase sem exceção, retornam à colônia.


Além disso, o movimento dos huteritas do século XX imita o huterita original, o Brüderhof, fundado por intelectuais alemães e ingleses, que embora composto por pessoas largamente educadas em escolas de nível superior, nunca entraram em conflito em suas comunidades huteritas recém-nascidas em assuntos de fé e moral. As discordâncias giram basicamente em torno de assuntos como alfândega e costumes de duas classes radicalmente diferentes. Isso provavelmente se constituiu no ponto fraco dos shakers. Com o passar do tempo, ficou muito difícil as pessoas aceitarem as doutrinas shakers, especialmente no que dizia respeito ao celibato. Assim os shakers quase nunca puderam segurar os órfãos que eles recrutavam, e eventualmente foram incapazes de conquistar novos membros adultos.


Concretamente, após quase quinhentos anos de prática, a administração da comunidade huterita é notável pela sua elasticidade. A modesta hierarquia de sua administração sempre pode acudir em uma emergência. Sua flexibilidade a torna imune a um terremoto, e a administração geral do movimento inteiro é igualmente flexível. Tanto a colônia como os conselhos gerais, da mesma forma que os quakers, tentam evitar a ação sem a unanimidade; e como o modo huterita de vida é o produto final de quase toda prova concebível, esta unanimidade normalmente é facilmente alcançada. “Não governar homens, mas administrar coisas” conforme Marx disse.


Um detalhe interessante e possivelmente significante é que as colônias huteritas, como muitas aldeias de povos primitivos, praticam uma limitada exogamia. Os pares se escolhem de colônias próximas mais frequentemente do que de dentro de uma única colônia. Isto, naturalmente, cria uma teia de relações familiares bem coesas, radiando fora das determinações originais, e preserva uma gama hereditária mais extensa, uma "campo de gene" mais amplo. O campo de gene bem pequeno faz com que os do lado de fora sempre digam que “os huteritas são todos parecidos”. Em 1965, havia apenas quinze sobrenomes nos Haushälters em um conjunto de cento e cinqüenta e cinco colônias. Os huteritas podem se parecer uns com os outros, mas eles certamente não chegaram ao ponto daquilo que comumente se denomina “inato”. Coisas como doenças hereditárias e deficiências orgânicas são praticamente desconhecidas entre eles. Eles sofrem menos com tais problemas do que a população em geral.


Comunalismo
Étienne Cabet Hutteritas Novamente Epílogo — Comunalismo Pós-Apocaliptico

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