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Kenneth Rexroth/Comunalismo/Fazenda Brook

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Fazenda Brook


Durante os anos 1840, o movimento comunal alcançou um desenvolvimento que não atingiria novamente até depois da Segunda Guerra Mundial. Aventuras que davam a si mesmas o nome de comunal foram iniciadas a uma taxa de pelo menos cinco a dez a cada ano. A maioria delas tiveram uma vida extremamente curta, e muitas, por exemplo, Amos Bronson Alcott, realmente não eram comunas coisa alguma, mas uma espécie de comunidade empobrecida ocupada por um punhado de excêntricos.


Foi uma década de fermento revolucionário ao longo do mundo Ocidental, um tempo descrito por Marx e Engels como mais um terrível capítulo da primitiva acumulação de capital. Quando as fábricas satânicas chegaram com sua força total, os seres humanos civilizados recuaram em todos os lugares com ira e horror diante das conseqüências da primitiva industrialização, a resposta dada pelos economistas e filósofos foi de que a liberdade individual desenfreada garantiria que a miséria de cada um resultaria no bem de todos. Em 1848 a revolução varreu a Europa. Mas as classes governantes se amedrontaram; e permitiram que os movimentos de reforma conquistassem alguns de seus objetivos lentamente, um a um.


Nos Estados Unidos, pareceu durante algum tempo que o sonho americano de uma sociedade cooperativa livre poderia prevalecer. Essa esperança foi encarnada claramente no trabalho de Walt Whitman. Entre os transcendentalistas da Nova Inglaterra e nas franjas do movimento abolicionista as demandas para mudanças que se espalhavam na sociedade pelas roupas, relações sexuais, governo, economia, educação, e a total reversão de valores foram universal e trivialmente aceitas pela primeira intelligentsia radical da América. (Os pais fundadores eram cavalheiros intelectuais radicais).


A partir do pânico de 1837, uma série de crises econômicas desencadearam um ciclo de crescimentos e colapsos que duraram até a Guerra Civil. A instabilidade econômica e a luta crescente em cima da escravidão intensificou o senso da crise e alienação, não apenas entre os intelectuais, mas espalhou-se por toda a população. O Segundo Império de Louis Napoleon, com seus gestos primitivos por um Estado corporativo, abortou o movimento revolucionário na França. Na América a Guerra Civil encerrou o tempo de esperança revolucionária, mas também freqüentemente se esquece em nossos dias que os intelectuais, os radicais, e os abolicionistas não apenas entraram na Guerra Civil pensando que se tratava de revolução, como saíram dela pensando que tinham ganho. Whitman não foi a única pessoa que teve que aprender lenta e dolorosamente que o sonho americano não ia se realizar em sua vida e nem possivelmente na vida de ninguém. A América não lutou duas ou três grandes guerras, cada uma delas das mais sangrentas da história, para salvaguardar o mundo democrático. É importante compreender que a radicalização de grandes seções da população educada e do proletariado qualificado foi pelo menos intensa e disseminada proporcionalmente de forma similar ao movimento dos anos 1960. A maioria das idéias tão populares no período posterior parte da ideologia aceita no período anterior.


Fazenda Brook deve sua importância histórica ao fato de que não foi uma experiência de excêntricos obscuros, ou de que a maioria das pessoas chamaria de fanáticos religiosos. A Fazenda Brook foi uma tentativa cuidadosamente desenvolvida para escapar do controle da sociedade dominante, por membros representativos da elite intelectual.


No verão de 1841, o Reverendo George Ripley, que era então editor do The Dial, e membro do Clube Transcendental, e um recente apóstata da Igreja Unitária (ele achou seu dogmatismo vestigial muito estreito), propôs no círculo dos Transcendentalistas de Boston a fundação de uma sociedade comunal. O projeto seria financiado pela venda de ações a cem dólares cada unidade. Cada acionista se tornaria membro. Ripley visitara os shakers e outras comunidades religiosas e tinha entrevistado particularmente os membros de Nova Harmonia e outras comunas seculares. Ele esperava evitar os enganos que tinham conduzido ao fracasso e incorporar em uma base secular aqueles métodos que tinham produzido sucesso. Os colonos combinariam em cada membro tanto o trabalho mental como o trabalho físico. Inicialmente todo mundo trabalharia na fazenda, na loja de ofícios e na pequena fábrica, onde se esperava que se desenvolvessem, compartilhando tudo no trabalho doméstico da cozinha, limpeza, e cuidado das crianças. Uma das ostentações mais orgulhosas de Ripley era a de que eles tinham “abolido a servidão doméstica. . . fazemos tudo livremente por amor aos deveres que são normalmente descarregados nas empregadas domésticas”, uma declaração cuja ingenuidade indicava a composição de classe de seus membros. Todo trabalho (físico ou mental) seria pago a uma taxa de um dólar por dia tanto para homens como para mulheres. Moradia, combustível, roupa, e comida, tudo era produzido na fazenda ou comprado cooperativamente para racionalizar os custos.


Como na maioria das comunas seculares, havia uma forte ênfase na reforma radical da educação, com “perfeita liberdade de relacionamento entre os estudantes e o corpo pedagógico”. Não havia nenhum momento de estudos rígidos e o tempo das crianças era dividido entre escola, trabalho nos campos ou em casa. No curso dos eventos, a colônia atraiu fazendeiros experientes, carpinteiros, sapateiros, impressores, como também vários professores. Inicialmente os diretores agrícolas foram Charles A. Dana e Nathaniel Hawthorne, nenhum dos quais sabia nada sobre cultivo e para os quais o trabalho físico era tão exaustivo que tornava o esforço intelectual impossível.


No princípio havia apenas vinte membros. A maioria deles principalmente transcendentalistas, exceto John S. Dwight, Minot Pratt, George Partridge; Bradford e Warren Burton que estavam entre os acionistas originais, eram cépticos; Ralph Waldo Emerson permaneceu antagônico até o fim, ele se referia à Fazenda Brook como “um perpétuo piquenique, uma miniatura de Revolução Francesa, uma Idade da Razão em uma panela de empanada”, uma declaração completamente injusta. A maioria das pessoas se conhecia mutuamente antes de vir para a fazenda, e embora o evangelho do transcendentalismo — uma combinação de secessão radical de unitarianismo e universalismo misturados com evolucionismo, monismo, pragmatismo, humanismo, e um interesse no recém descoberto misticismo da Índia — pudesse nos parecer amorfo demais para inspirar um compromisso de fé, não parecia assim para eles.


Para o fazendeiro puritano da vizinhança, a Fazenda Brook era uma iniquidade secreta, uma Babilônia plantada em seu meio. Para os colonos que vieram das bases congregacionalistas, os membros de sua própria categoria pareciam totalmente irreligiosos. Eles jogavam croque ou iam a piqueniques no sabbath, e as sócias femininas mais soltas igualmente tricotavam e cozinhavam. O próprio Ripley era um homem intensamente religioso com bastante sabedoria conquistada pela sua experiência pastoral. Ele era imperturbavelmente bem humorado diante de contenções e frustrações entre seus seguidores. Seu modo tranqüilo parecia emanar um poderoso e forte carisma suficiente para unir a colônia e mantê-la em um curso seguro.


No princípio havia apenas vinte sócios e nunca mais do que oitenta, mas aqueles que ficavam trabalharam juntos com entusiasmo e um mínimo surpreendente de pugnacidade. A Fazenda Brook poderia dizer que não era comunista, mas um empreendimento cooperativo, contudo os aspectos cooperativos eram largamente administrativos, e a pequenez, coesão, e entusiasmo fizeram dela, na realidade, uma comuna. Economicamente Fazenda Brook nunca se tornou auto-sustentada — mesmo na agricultura — muito menos lucrativa; mas a diferença estava na escola, que alojou estudantes de fora, e que tornou-se não apenas bem sucedida e lucrativa como também produziu uma quantidade considerável de pessoas famosas, como George William Curtis, Father Isaac Hecker, o fundador dos Paulist Fathers e um dos primeiros Católicos Modernistas, General Francis C. Barlow, e um grande número de adultos sensatos, que consideraram os dias escolares passados na Fazenda Brook como os dias mais felizes de suas vidas.


Embora Fazenda Brook estivesse no limite entre uma colônia religiosa e uma colônia secular, e embora seus sofisticados sócios estivessem longe de ser supersticiosos, "primitivos", ou dogmáticos em suas convicções, a filosofia administrativa era certamente milenária. Em suas primeiras conversações com Channing, Ripley falou de seu fracasso como ministro porque sua congregação vivia uma vida nos domingos e outra, manifestamente em desafio aos princípios cristãos, nos dias da semana. Ele queria, como dizia um velho hino, uma sociedade de perpétuos Sabbaths. Com os planos para a colônia amadurecidos, Ripley, Elizabeth P. Peabody, e Margaret Fuller começaram a falar no The Dial sobre a Fazenda Brook em termos tipicamente milenares como uma comunidade apostólica modelada na vida de Jesus e de seus discípulos. Mais adiante, sairia das cidades condenadas e estabeleceria uma comunidade de amor para fixar um exemplo para o mundo — em resumo, um remanescente salvo.


Hawthorne achou o trabalho muito duro e foi embora. Ele tinha ido para lá na esperança de encontrar um local sossegado para poder escrever. Outros se ofenderam com aquilo que consideravam irreligião ou paganismo. Os colonos que realmente ficaram parecem ter encontrado um perpétuo sabbath. Eles trabalharam duramente durante o dia e o resto do tempo era gasto em brincadeiras e auto-instrução. Pela noite havia entretenimento musical, discussões, e danças, ou pessoas caminhando nove milhas da Fazenda Brook até Boston para participar de concertos e conferências. Em parte talvez por causa da permanente doçura do temperamento, tão distante da maioria dos maiores líderes carismáticos, que emanava de George Ripley, os fazendeiros de Brook estava mergulhada em um contínuo bom tempo.


A colônia tinha uma base familiar e a maior parte das relações pessoais já tinha sido estabelecida anteriormente. Parece que houve uma certa dose de amor livre, como depois viria a ser chamado, mas não tanto quanto seus críticos hostis imaginaram. Os problemas sexuais aparentemente nunca tiveram um papel de muito destaque. Os membros também modificaram os hábitos dos vegetarianos. Verdadeiros bostonianos, eles se recusaram deixar de colocar um pedaço de carne de porco para cozinhar junto com o feijão, e matavam e comiam os coelhos que invadiam suas colheitas. Os homens usavam um pequeno boné, uma espécie de blusa, e calças compridas, e as mulheres saias curtas e pantalonas.


Comparado com Nova Harmonia de Owen, a Fazenda Brook parece ter se livrado dos excêntricos e dos chatos mais ultrajantes. O Blithedale Romance de Hawthorne dá uma falsa impressão. É óbvio que ele ficou enfurecido diante do feminismo das principais sócias, especialmente Margaret Fuller, sua peculiar "Zenobia". Igualdade sexual provavelmente perturbava mais os intelectuais masculinos, visitantes, noviços, ou postulantes, do que cozinhar no sabbath perturbava as mulheres.


Até mesmo na escola, a colônia sempre operou com uma leve perda, resolvida por contribuições e pela compra de partes adicionais pelos seus sócios e seus amigos. Houve um excesso comerciável de produtos da fazenda, mas não era o bastante, e as "fábricas" projetadas realmente nunca saiam do chão.


Em 1844 Ripley converteu-se ao fourierismo; e depois de prolongada discussão, a colônia se transformou em um falanstério fourierista com o rígido e burocratizado departamentalismo planejado por Fourier para uma colônia de duas mil pessoas, mas totalmente inadequado para os fazendeiros de Brook de setenta. A sociedade se abriu para qualquer um que se considerasse fourierista. A sociedade original lentamente recusou o importúnio dos chatos e vadios que, felizmente, raramente ficavam muito tempo. Mas durante dois anos a maior parte do excedente do trabalho e do tempo foi dedicado à construção do edifício central de um falanstério planejado com dormitórios e apartamentos, auditórios, salas de aula, local de reunião, espaço de recreação comunitária e refeitórios. Em 2 de março de 1846, foi completado, e a colônia juntamente com todos seus amigos se reuniram em uma celebração. Naquela noite o edifício foi completamente destruído por um incêndio.


A Fazenda Brook nunca se recuperou. O desastre parece ter destruído tanto a moral dos colonos como os arruinaram financeiramente. A Fazenda Brook lutou por algum tempo, mas "o empreendimento enfraqueceu, chamejou, diminuiu, e expirou", a terra e os edifícios foram vendidos em leilão no dia 13 de abril de 1849, contemporaneamente com a consolidação do poder de Louis Napoleon na França e a agonia das últimas brasas da Revolução de 1848 na Europa.


Emerson transpirava desdém e Hawthorne amargura, mas registros indicam que quase todos os fazendeiros de Brook que participaram da colônia tinham uma visão diferente. Eles formaram uma associação para ex-membros e compraram um acampamento ao pé do Monte Hurricane em Adirondacks, que deram o nome de Fazenda Summer Brook, e a cada ano eles se encontravam para viver novamente a vida na Fazenda Brook. Sessenta anos depois os velhos sócios sobreviventes ainda freqüentavam o acampamento.

Comunalismo
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