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Kenneth Rexroth/Comunalismo/Epílogo — Comunalismo Pós-Apocaliptico

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Epílogo — Comunalismo Pós-Apocaliptico


Seria possível prosseguir descrevendo indefinidamente as comunas americanas do século XIX, mas tal trabalho seria um pouco melhor do que um dicionário, há uma linha muito tênue diferenciando fazendas realmente cooperativas de agrupamentos ou colônias abortadas que duraram apenas alguns meses. Desde o século XIX até nossos dias existiram cultos religiosos comunais, o que há de mais bizarro nestas doutrinas é que são despoticamente estabelecidas por um líder detentor de revelações especiais. É um erro classificar tais grupos como comunas. Na verdade trata-se de uma extorsão, um jogo onde a confiança coletiva é em larga escala direcionada para proveito dos líderes. A história deles é uma assunto completamente diferente e merece outro livro.


Anteriormente fizemos uma rápida menção ao movimento mais significante da história primitiva do comunalismo, as missões jesuítas no Paraguai. Há incrivelmente muito pouca literatura nesse assunto em língua inglesa. O melhor livro ainda é A Vanished Arcadia de R.B. Cunninghame Graham, publicado em 1924. Quando os jesuítas entraram naquelas terras em 1607 o território ainda era "selvagem", quase completamente intato da influência portuguesa ou espanhola. Com o passar do tempo suas comunidades passaram a controlar uma boa parte da bacia oriental do Rio Paraguai. Na realidade, suas aldeias eram tribos reconstituídas e, na medida do possível, providas por uma tecnologia européia; tais aldeias eram governadas, ou pelo menos dirigidas, por um punhado de padres cujos instrumentos de governo parecem ter sido quase que exclusivamente os sacramentos da penitência e da comunhão. Os índios foram saqueados por escravos vindos de São Paulo e os jesuítas perderam seu poder eclesiástico. Eles sobreviveram até que foram expulsos da ordem em 1767, quando a maioria das aldeias indígenas foram destruídas. Seus campos foram tomados pela selva, os índios se espalharam, voltando ao seu modo selvagem de vida, ou foram escravizados, seus imensos rebanhos de gado vagaram selvagens pelos pampas.


Os jesuítas não estabeleceram suas aldeias deliberadamente enquanto comunas. Eles simplesmente adaptaram uma organização social indígena. As pequenas sociedades eram altamente estruturadas. O estatus derivava tanto do cargo no governo da comunidade como dos papéis avidamente disputados nos vários cerimoniais religiosos. A vida em tais sociedades deve ter sido semelhante a dos povos comunais do Sudoeste Americano — os zunis, por exemplo — mas em um ambiente mais abundante e permissivo com muito mais lazer, em grande parte exercido durante o cerimonial — católico, mas bem modificado por elementos aborígenes. Ao contrário da convicção popular, a bem sucedida atividade missionária no Paraguai foi acompanhada de perto pela Igreja, tanto que foram feitas tentativas de fundar comunidades similares ao longo da América Espanhola, notavelmente pelos jesuítas no Arizona. Se a ordem não tivesse sido extinta no momento em que entravam na Califórnia, a história dos índios da Califórnia teria sido bem diferente. As missões franciscanas estavam bem longe daquilo que se entende por comunas. Os índios valiam menos que os escravos, morriam mais facilmente no contato com os europeus. Depois que os americanos iniciaram a Corrida do Ouro, os índios passaram a ser caçados da mesma forma que coelhos, ursos, coiotes, e condores, até que desaparecessem completamente das regiões férteis do Estado. No Paraguai algumas aldeias fundadas pelos jesuítas sobrevivem até hoje. As relações econômicas e sociais eram ditadas pelo livre empreendimento, mas a memória das comunidades de trezentos anos atrás permanece viva. Em muitos aspectos, do ponto de vista teórico ou prático, as "reduções" jesuítas, conforme eram chamadas no Paraguai, representam uma das melhores organizações da sociedade de todos os tempos. Os índios foram certamente mais felizes do que seriam na República de Platão, ou na Utopia de São Thomas More. A vida era quase que um ritual ininterrupto, uma espécie de contemplação grupal temperada com alegria. A coisa mais extraordinária é que nada disso aconteceu em qualquer outro momento na história, certamente não desde a aldeia neolítica.


O pólo oposto das "reduções" jesuítas foi a colônia de Topolobampo, fundada em 1872 no Golfo da Califórnia. Resultado de um esquema produzido por um corretor profissional de terras, Albert K. Owen, que aparentemente acreditava que o modo mais lucrativo de valorizar a terra era o estabelecimento de uma colônia cooperativa e de uma companhia de estocagem. A planta inicial era certamente comunalista, mas em um curto espaço de tempo os colonos se dividiriam entre empreendedores privados e facções comunalistas. Separadamente, eles desenvolveram um imenso trabalho desbravando o país, cavando a mão um canal de irrigação ao longo de oito milhas, cem pés de largura e quinze pés de profundidade, e muitas milhas de diques. A colônia estava aberta a qualquer um que comprasse ações, na verdade para qualquer um que conseguisse chegar até lá. O plano de Owen de construir um grande porto e centro comercial deu em nada. O governo mexicano voltou atrás em suas promessas. Os colonos rapidamente declinaram de seiscentos para duzentos sócios, a maioria de empresas privadas. Alguns descendentes desses colonos sobrevivem na área até hoje, casados com famílias mexicanas. Topolobampo pode ter sido o único exemplo de comunismo enquanto forma de empreendimento de negócio capitalista. Considerando a escala em que Topolobampo foi planejado, e o número de pessoas envolvidas, tanto de colonos como de acionistas não residentes na corporação -- conhecida como Credit Foncier -- há uma extraordinária ausência de informações. A Southwestern Utopia de Thomas A. Robertson, que passou sua infância na colônia, foi publicado em 1947, e reeditado em 1963 por Ward Ritchie em Los Angeles. O livro é folclórico e anedótico, infelizmente a família de Robertson participaram como um grupo de empresários privados, de forma que há muito pouco sobre a comuna. O livro não possui nem bibliografia nem índice.


Um dos colonos de Topolobampo foi Burnette G. Haskell, que Robertson menciona em 1887, juntamente com sua esposa e família que, pelas anotações de Robertson, também morreu por lá. A verdade é que naqueles anos Haskell estava editando a revista anarquista Truth em San Francisco, ao mesmo tempo em que se ocupava com a fundação e condução da Kaweah Kooperative Kommonwealth situada ao pé das montanhas, que mais tarde viria se tornar o Sequoia National Park, na cidade de Three Rivers. Haskell parece ter sido uma pessoa instável, brilhante, e altamente emocional; aparentemente tanto ele como James Martin eram defensores do trabalho e da prática socialista, envolvidos desde o começo com o projeto. Haskell e um homem chamado Buchanan, que dirigiu a grande Kansas Railroad Strike, reivindicava pertencer a uma organização que julgava ser a legítima sucessora da Primeira Internacional depois que ela se dividiu entre os seguidores de Marx e Bakunin. Depois de um imenso e, realmente, incrível esforço, os colonos construíram uma estrada de Three Rivers até Giant Forest, onde batizaram a maior das sequóias com o nome de Karl Marx Tree, agora conhecida como General Sherman Tree. O governo federal, pelas pressões das vias férreas e madeireiras, invalidou o título da terra enquanto colônia, mas posteriormente voltou atrás. A área em sua totalidade mais a região circunvizinha foi declarada parque nacional. Haskell deve ter voltado para Topolobampo depois disso.


Outro famoso revolucionário ligado ao comunalismo americano foi Wilhelm Weitling, o teórico e líder operário que na década de 1840 exerceu muito mais influência do que Marx e Engels, que copiaram muita coisa dele em seus primeiros dias. Weitling desenvolveu um sistema rígido, secular mas com uma pesada ênfase milenária e apocalíptica. Seu comunismo envolvia uma real rejeição ao industrialismo e um retorno a um sistema de habilidade manual cooperativa de produção. O apocalipticismo do Manifesto Comunista de Marx e Engels reflete a influência e a competência de Weitling. Depois do fracasso dos movimentos revolucionários de 1848, Weitling migrou para a América, produziu um jornal e fundou uma associação de trabalhadores que provia assistência, ajuda financeira, e pensões para seus membros, que Marx chamou de “caixa do clube”. Em 1851 ele se interessou por Communia, uma das muitas pequenas colônias fundadas na maioria por emigrantes alemães oriundos dos Quarenta e Oito, na qual investiu uma boa parte do dinheiro de sua Arbeiterbund. As querelas e a preguiça fizeram o falência da colônia e a ruína de Weitling. Este fracasso parece tê-lo afetado bem mais do que o fracasso das revoluções de 1848. Ele se tornou excêntrico e desenvolveu um sistema universal de cosmogonia econômica, em seus últimos dias ele estava profundamente envolvido com suas excentricidades. Weitling é muito pouco considerado na história do pensamento revolucionário. Bastante independente de Hegel, e antes de Marx, ele desenvolveu a teoria da auto-alienação humana como o mal primário da produção capitalista, e alguns anos antes de Marx ou Proudhon ele era um comunista declarado. De certo modo, Marx e Engels se juntaram ao seu movimento comunista e o assumiram. Seu único monumento é um grande edifício onde se localizava Communia, que ainda funciona como centro social e espaço de dança.


Há uma tentação de ir descrevendo sem parar cada uma dessas colônias. Diferentemente de colônias como Oneida e shakers, a maioria das colônias religiosas foram extremamente bizarras, com seus fundadores e líderes não passando de óbvios religiosos charlatães de olho no dinheiro. Muitas pessoas parecem ter percebido que quanto mais ultrajante era seu evangelho, mais e mais crentes conseguiam atrair. A disposição para acreditar em coisas impossíveis porque elas são impossíveis não esteve confinada a Tertuliano, é um erro que se difundiu por toda raça humana. A maioria destes movimentos praticavam a posse de todas as coisas em comum, mas sempre excetuavam os líderes que conduziam suas vidas na vulgaridade, na luxúria e na ostentação. Tais grupos, portanto, provavelmente nunca deveriam ser chamados de comunas. A finalidade era sempre conquistar membros para que eles dessem tudo que possuíam para dali em diante trabalhar duro sem pagamento.


Quais conclusões podemos tirar dessa longa pesquisa da história do comunalismo? São quase as mesmas conclusões que foram tiradas por líderes inteligentes quando o comunalismo do século XIX atingiu seu ponto mais alto — com John Humphrey Noyes na Oneida e Frederick Evans nos shakers — e com raras exceções as colônias estavam abertas às críticas de Marx e Engels.


Concentrando-se primeiramente na crítica marxista, aquilo que eles chamam de socialismo utópico sempre representou um retorno a uma forma anterior, mais primitiva de produção e de relações sociais. Com poucas exceções, as colônias comunalistas foram revivificações das aldeias neolíticas com um maior ou menor grau de tecnologia moderna. Isto ainda é verdade hoje. O comunalismo sem sido abarcado pelo evangelho do "voltar à terra" e essas muitas experiências falharam porque os membros das colônias teimaram em fundar sua economia quase que exclusivamente na agricultura, embora não soubessem nada sobre cultivo, e muito menos de quão duro era aquele trabalho. Em alguns exemplos, chegaram ao ponto de se limitarem à mais primitiva tecnologia agrícola, embora isso seja mais verdade nas comunidades que proliferaram depois da Segunda Guerra Mundial.


As comunidades seculares quase sempre falharam em um tempo bastante curto. É surpreendente como a Nova Harmonia de Robert Owen pode ocupar tanto espaço na história do comunalismo. Ela não apenas durou pouco como também conseguiu fazer tudo da forma errada. A simples convicção de que todos os homens deveriam viver juntos como irmãos não é suficientemente bem definida a ponto de inspirar um forte compromisso. E onde a comunidade está aberta a qualquer um que deseje vir e se associar como membro, o desastre é certo. O compromisso é um ponto vital, mas tais colônias atraem de forma redundante indivíduos rejeitados pela sociedade dominante — preguiçosos, excêntricos, e aqueles que não conseguem se dar bem com ninguém nem em casa nem no trabalho, mas que, no entanto, se julgam qualificados para se dar bem em uma delicada, extensa e equilibrada família dentro de uma comuna. Uma política de portas abertas também admite sociopatas e criminosos que, na pior das hipóteses, tomam o poder ou endividam a comunidade e, na melhor das hipóteses, fogem com qualquer dinheiro e ativos móveis que podem por em suas mãos.


Quase toda comuna tenta ser auto-sustentada e alcançar tanto o comunismo de consumo como o de produção. Apenas os huteritas conseguiram ser agricultores financeiramente bem sucedidos, e em seus primeiros dias eles eram também e principalmente artesãos. Idealmente, uma comunidade deveria ter terra suficiente para se alimentar, e além disso ter alguma especialização fabril que possa se destacar localmente por causa de sua alta qualidade. Oneida e Amana no século XIX, e Brüderhof no século XX são bons exemplos.


As colônias de extensa duração não sobreviveram apenas por sua coesão, compromissos e sanções sobrenaturais, mas também por serem administradas por indivíduos de um poderoso carisma. Em alguns casos a liderança era dividida exatamente como no final da era neolítica, entre o líder religioso e o líder prático, o rei-pastor e o rei-guerreiro, o apóstolo e o gerente empresarial.


Um certo grau de tensão interpessoal parece consolidar a coesão de uma colônia. O celibato dos shakers, com seus cerimoniais tendendo para a orgia sem relações sexuais, e os matrimônios de grupo e técnicas especiais de relações sexuais e eugenias de Oneida, na realidade são duas formulações diferentes da mesma coisa, as duas faces da moeda da tensão erótica generalizada.


Deve ser enfatizado novamente que do ponto de vista teórico a vida comunal é muito vantajosa para as mulheres. A maior parte do trabalho da dona de casa ou da mãe pode ser dividido e distribuído. As crianças podem ser cuidadas em um berçário por uma ou duas mulheres. Cozinhar, costurar, lavar roupa, limpar a casa, e todas as tarefas consideradas "trabalho de mulher", podem ser distribuídas de forma que cada mulher tenha um considerável tempo de lazer. É por isso, naturalmente, que a poligamia Mormom foi mais popular entre as mulheres do que entre os homens. Milhares de mulheres caminharam de St. Louis até Salt Lake para participar.


Contudo, da mesma maneira que hoje em muitas comunidades hippies o único trabalho realizado parece ser feito por mulheres, assim foi na história de muitas das comunas seculares do século XIX. As mulheres se rebelaram, porque todo trabalho era lançado sobre elas, enquanto os homens sentavam ao redor, bebiam uísque, mascavam tabaco, discutiam comunismo, igualdade dos sexos, e liberdade das mulheres.


O comunismo em si, não parece ter sido um fator no fracasso da maioria das colônias. Muitas, talvez a maioria delas fracassaram por razões econômicas. Geralmente, eles compravam muita terra de sociedades de crédito imobiliário e não conseguiam utiliza-la de uma forma efetiva. Muitos adquiriram uma considerável quantia em dinheiro de membros não residentes. Até mesmo a Kaweah Kooperative Kommonwealth recebeu dinheiro de membros não residentes, tanto dos Estados Unidos como da Europa. A colônia secular Icária, que durou muito tempo, recebeu fundos bastante consideráveis da França até seu cisma final. Eles erraram especialmente em empreender o cultivo de uma quantidade muito extensa de terra, mas é difícil compreender porque durante toda a existência do movimento icariano foi marcada por um trabalho desesperadamente duro e uma pobreza involuntária.


Onde quer que haja forças poderosas em torno do compromisso e da coesão, uma sociedade cuidadosamente escolhida, e líderes inteligentes com larga experiência prática, o comunismo prova ser, economicamente, extremamente bem sucedido. Nesse aspecto o modelo é a colônia huterita. Seu principal problema hoje é a inveja inspirada pelo seu sucesso uniforme e por sua prosperidade.


É difícil relacionar os milhares de grupos que deram a si mesmos o nome de comunas e que se esparramaram pelo mundo inteiro — menos nos países comunistas — desde a Segunda Guerra Mundial. Muitos desses grupos nunca foram comunas, mas pensões cooperativas em cidades universitárias do tipo que sempre existiu. Estes grupos atraem mais atenção dos jornalistas porque são mais acessíveis. O simples fato de seus membros fumarem maconha e dormirem uns com os outros indiscriminadamente não os torna fundamentalmente diferentes das fraternidades gregas. Algumas comunas rurais portas abertas são na realidade uma “esquadrilha da fumaça”. Trezentos alegres caroneiros adolescentes ocupando trezentos acres onde seus membros mais permanentes não se preocupam em cultivar o solo não se constitui numa comuna. Aqui novamente, o jornalismo sensacionalista tem um prato cheio. É verdade que muitos, talvez a maioria, dos grupos contemporâneos chamem a si mesmos de comunas, onde o sexo e a droga toma o lugar do chialismo e do carisma. Mesmo assim, um grande número conseguiu se organizar enquanto uma genuína comuna — de consumo, e algumas poucas, de produção.


O moderno movimento comunalista está ligado a uma versão secular do velho milenarismo. Ele começa com o lançamento da bomba atômica. O fogo e o julgamento deixaram de ser uma questão de fé e não se tornaram fatos muito distantes. Um "remanescente salvo" começou a se retirar dos centros densamente povoados, e em muitos casos do hemisfério norte. Nos primeiros anos da Guerra Fria o apocalipse não parecia estar muito distante e pelo menos por duas vezes, uma vez com Dien Bien Phu e depois durante a crise dos mísseis cubanos, o apocalipse parecia eminente. As pessoas já não falam muito sobre a bomba. Passou para segundo plano. Contudo, várias pesquisas de opinião mostraram que uma maioria de estudantes universitários não esperam estar vivos no século XXI. Logo após Nagasaki e Hiroshima, Alex Confort disse que se os americanos não tivessem inventado a bomba atômica, o Estado capitalista moderno a teria segregado como uma espécie de produto natural. Como se não bastasse, a guerra moderna também produziu um imenso número de pessoas totalmente alienadas, que acreditam que a civilização ocidental chegou ao fim em agosto de 1914.


É esta a alienação penetrante e absoluta que ocorre em matéria de religião ou ideologia entre os comunardos contemporâneos; e o movimento comunalista moderno é um ataque direto na auto-alienação humana, descartando as manobras indiretas do socialismo ou do comunismo. “Afinal das contas”, como alguém uma vez disse em uma reunião do Partido Comunista Italiano, “implantamos o socialismo na sexta parte da terra durante cinqüenta anos e sobre uma área adicional com o dobro de pessoas por vinte e cinco anos, e a auto-alienação humana em vez de declinar, só tem crescido. O que estamos fazendo?”.


Marx pensava que o processo industrial daria consciência de classe à classe trabalhadora, que é o significado do marxismo. Isto não é particularmente notável em Detroit ou Gary. Mas o desarranjo da civilização ocidental proporcionou a um imenso número de pessoas, nem todas jovens, uma resposta quase instintiva -- tanto à classe dominante, enquanto inimiga, como aos seus semelhantes, enquanto camaradas -- que grandemente se assemelha ao anarquismo comunista de Bakunin e Berkman, dos quais poucos deles ouviram falar. É notável como isto é persuasivo. Grupos altamente autoritários como os muçulmanos negros, os Panteras Negras, os Testemunhas de Jeová, os Brüderhof, e Jesus People podem desafiar o mundo lá fora e apresentar para ele uma grande estrutura exterior, mas dentro de cada movimento uma ética comunal se desenvolveu. Isto é verdade mesmo para organizações neo-bolsheviques como os trotskistas ou maoistas, que já não podem forçar as velhas e rígidas formas de organização leninista, e constantemente adotam relações interpessoais tão anarco-comunistas quanto Kropotkin pudesse ter desejado, e cujas relações com a classe dominante se assemelha àqueles grupos anarco-terroristas na França ao término do século XIX. Grupos como estes nascem totalmente sem ideologia — exceto aqueles completamente alienados. A secessão moderna é uma torrente contínua que se estende desde a Família Manson, a Simbiose do Exército de Libertação até as comunas religiosas anarco-pacifistas cujos membros gastam pelo menos duas horas por dia em meditação.


Um dos fatores que contribuem para a coesão é o culto. Diante do monasticismo medieval, com seu contínuo círculo de Missa, Divino Ofício — cântico de salmos, hinos, coros e orações ao longo do dia e da noite — e os contínuos e variados ritos durante o ano, envolvendo o monge ou a freira, ambos identificados com a comunidade, era difícil até mesmo pensar em acabar com tudo isso. Na América do século XIX os shakers tiveram indubitavelmente o culto mais desenvolvido. Mas até mesmo as comunidades seculares bem sucedidas desenvolveram uma vida cerimonial, embora sem dúvida seus sócios não pensem nelas como tal.


Outro fator que muitas vezes fez parte das cerimônias da comunidade foi a confissão, uma poderosa força de ligação entre os shakers e que sobrevive ainda hoje em muitos grupos comunais, o mais famoso nesse aspecto é o Synanon, onde a crítica mais severa dos sócios e a confissão mais miserável foi elevada a um princípio administrativo na comunidade. Qualquer técnica que sistematicamente ataque o menor sinal de egocentrismo obviamente aumenta a coesão do grupo, exceto, naturalmente, pelo fato de que pode levar o indivíduo ao ponto do rompimento, quando ele sai do grupo.


Apenas as comunidades religiosas, não todas elas, puderam segurar suas crianças. Aparentemente isso nunca foi problema para os huteritas, que agora pode arriscar enviando jovens selecionados com segurança para as universidades. Uma das funções mais importantes dos shakers era o seu cuidado com os órfãos e crianças abandonadas em um tempo em que os orfanatos eram poucos e ruins. As crianças foram criadas na vida shaker, mas nenhuma delas permaneceu na comunidade. Por outro lado, muitas comunidades seculares sobreviveram principalmente como "escolas progressivas". Com todos seus desastres e loucuras, esta foi a principal contribuição da Nova Harmonia de Owen; e da colônia anarquista de Stelton, New Jersey, que logo tornou-se uma cooperativa suburbana de "desenvolvimento", foi a escola que manteve a comunidade viva até que foi subjugada pelo crescimento do subúrbio (hoje em dia é quase que inteiramente um distrito Negro). Algumas comunidades do século XX foram principalmente escolas, o melhor exemplo é o Commonwealth College em Mena, Arkansas. Não tenho certeza se posso chamar o Black Mountain College de comuna. O Antioch College, porém, é a última descendente de vários grupos comunais convergentes, alguns deles advindos de Nova Harmonia.


Em todos dos muitos livros escritos sobre o movimento comunalista na América no século XIX, há pequena discordância sobre os fatores que trazem sucesso. Eles são:


Uma religião, ou pelo menos uma ideologia poderosa que todos os sócios do grupo aceitem, que poderia incluir a crença de que a sociedade dominante falha em prover valores suficientes para uma vida feliz, que a sociedade dominante está doente, ou morrendo, ou, já morta, e que a comuna é um remanescente salvo que escapou da fogueira.


Um líder com um poderoso carisma e, até mesmo mais importante, a habilidade de persuadir as pessoas ao que acredita, e também dotado de uma equanimidade considerável. Noyes, por exemplo, parece ter sido um importante apaziguador de todas as contendas que se desenvolveram em Oneida. Tal personalidade pode ser extremamente autoritária e coerciva. Aproximadamente cinqüenta por cento das pessoas atraídas pela vida comunal parece ser caracterizada por um extremo masoquismo social, e que não se importa muito quando encontra comunidades governadas por pequenos tiranos. A outra metade é fortemente individualista e requer a liderança de um apaziguador altamente qualificado, capaz de persuadi-los de que as idéias vieram deles. Todo carisma do mundo não pode compensar uma gama extensiva de talentos. Noyes, novamente, foi um homem verdadeiramente universal, que aparentemente poderia fazer bem qualquer coisa; e a liderança huterita que geralmente destrinchava a maioria das tarefas de sua vida comunal. Se um líder tiver apenas carisma, ele tem que ter um gerente empresarial, e esta liderança dual não é incomum.


Deve ter um método aceito para indicar e alternar tarefas, com ambos os sexos compartilhando os trabalhos enfadonhos do trabalho doméstico. A roupa suja foi tradicionalmente o foco de descontentamento entre as mulheres. E, naturalmente, os membros devem ser responsáveis -- as tarefas devem ser feitas. Muitas comunidades contemporâneas, urbanas e rurais, são caracterizadas pela desordem, sujeira, e trabalhos inacabados.


Cultivar é um trabalho muito duro. É trabalho duro até mesmo para fazendeiros experientes. Não foi apenas a concentração de capital que criou a agroindústria americana. Por mais de uma geração foi impossível sustentar filhos pequenos em uma pequena fazenda de duzentos acres. Em toda parte do mundo os camponeses tropicais ou semitropicais abandonaram suas pequenas fazendas e se mudaram para as favelas das cidades, onde a maior parte deles padece fome e esqualidez. Cultivar hoje na América em uma pequena marginal ou em uma fazenda geral estropiada é uma tarefa quase impossível, é claro que uma área medida em acres não pode agüentar um investimento de capital em maquinaria. Uma caminhonete, um par de cabras leiteiras e algumas galinhas podem prover uma quantidade considerável de comida para uma comuna de tamanho médio, e proporcionar um tempo livre para desenvolver uma fábrica especializada em artigos de muita procura. Esta é a única solução para uma comuna de cidade grande, embora algumas delas aluguem uma chácara nos arredores da cidade. “Voltar à terra” e “contato com a Mãe Terra” fazem parte da mística das comunas rurais mais contemporâneas, cujos membros acham mais desejável trabalhar duro e ineficientemente por um pequeno retorno do que estabelecer uma base econômica fabril ou industrial.


Além disso, há um certo irrealismo naquela velha mansão ou naquele apartamento com doze quartos em Riverside Drive ocupada por advogados, professores, psiquiatras, assistentes sociais que compartilham despesas, fazem concertos de música, e chamam a si mesmos de comuna. Na medida em que uma comunidade se torna potencial ou completamente auto-sustentada, mais se aproxima de seu ideal de remanescente salvo, o núcleo de uma sociedade que sobreviverá quando a sociedade dominante perecer. Há algumas comunidades urbanas que funcionam com um comunismo de produção e também de consumo. Eles parecem ser principalmente religiosos e sob uma liderança extremamente autoritária. Claro que, no apocalipse, as comunidades urbanas perecerão juntamente com as cidades, que são o melhor argumento final pelo estabelecimento de comunidades em partes remotas do país. O único problema é que os belicistas do Estado tem a mesma idéia. As comunas do Novo México estão bem no meio dos centros originais de artefatos de guerra atômicos, e até mesmo as colônias huteritas em Dakota do Norte estão dentro de uma gama de silos para mísseis balísticos intercontinentais. Sunburst Farms é próximo a Santa Barbara, uma das comunidades agrícolas mais bem sucedidas, e está dentro da área dos testes de explosão da Base Aérea de Vandenburg, e a área de San Francisco Bay é pontilhada de instalações voltadas para a guerra atômica e comunas, em uma espécie de compartilhamento.


Um completo “a lei é fazer o que quiser” e total anarquismo individual simplesmente não funciona. Uma boa parte das comunas contemporâneas operam nessa base, mas elas parecem ter uma média de cem por cento de rotação a cada ano. A comuna persiste, essencialmente, apenas como um endereço. A maioria dos grupos desse tipo vem compartilhar drogas e sexo, eles estão unidos, do jeito deles, pela inimizade da sociedade dominante. Todos os métodos contemporâneos que trazem coesão ao grupo existem em uma ou outra comunidade. Sexo em grupo, grupos de encontro, grupos de confissão e crítica — muitas comunidades praticam tudo isso ao mesmo tempo, e cada grupo tem seus antecedentes, não apenas no século XIX, mas também na Reforma Radical.


Finalmente, uma comunidade pode perdurar enquanto uma imensa "esquadrilha da fumaça" com uma plena política de portas abertas, mas não pode perdurar como uma comunidade. Seletividade é a primeira lei do comunalismo. Até mesmo o ambiente mais anárquico, onde ninguém acredita em leis, precisa acreditar pelo menos no anarquismo. As mais bem sucedidas comunas de nossos dias não permitem nem mesmo visitas, ou não lhes permitem ficar mais do que uma noite, e os membros prospectivos estão sujeitos a um minucioso noviciado. Nos primeiros dias do movimento pós Segunda Grande Guerra, quando todo carona era recebido com boas-vindas e com os braços abertos, as comunas não apenas ficaram cheias de vadios e sociopatas, como também enfrentaram sérios problemas com cães abandonados e crianças abandonadas, que eram deixados para trás por comunardos vagabundos. A Ordem de São Benedito tem todo um capítulo dedicado à ameaça de tais pessoas no começo do monasticismo Ocidental. Cães abandonados e crianças abandonadas são problemas sociais, mas há um problema estético e até mesmo um problema ecológico. As cercanias da maioria das comunas hippies rurais estão abarrotadas de carcaças de carros abandonados, que fazem o papel de um grande parque de diversões, ocupado por crianças nuas, constituindo ultimamente um expensivo problema.


Fim do livro Comunalismo de Kenneth Rexroth.

Copyright 1974. Versão inglesa reproduzida com permissão de Kenneth Rexroth Trust.


Comunalismo
Hutteritas Novamente Epílogo — Comunalismo Pós-Apocaliptico

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