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Kenneth Rexroth/Comunalismo/Étienne Cabet

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Étienne Cabet


Étienne Cabet nasceu em 1788, um ano antes da queda da Bastilha. Durante os primeiros quarenta anos de sua vida ele foi um típico jacobino radical da geração pós-revolucionária, intocado pela desilusão do velho homem cuja infância e mocidade foram vividos sob o Terror, o Diretório, e o Império Napoleônico. Em 1820 em Dijon, passando por cima da lei tornou-se diretor de uma organização revolucionária conspiratória francesa, a Carbonari. Na Revolução de 1830 ele era membro do Comitê de Insurreição. Louis Philippe designou-o como Advogado Geral de Córsega, mas foi demitido por seus ataques ao governo em seu livro Histoire de la révolution de 1830, e em seu jornal Le Populaire. Ele retornou a Dijon e foi eleito deputado, quando foi acusado de lèse-majesté sendo condenado a dois anos de prisão e cinco anos de exílio. Ele foi para Bruxelas, foi expulso, e emigrou para a Inglaterra onde se tornou discípulo de Robert Owen.


Na anistia de 1839, Cabet volta à França e no ano seguinte publica uma história da Revolução Francesa, e Voyage en Icarie, uma semi-ficção que descreve uma sociedade comunista, considerada por ele como uma versão moderna da Utopia de Thomas More, aperfeiçoada pelas teorias econômicas de Robert Owen. Não há nada particularmente original ou excitante nos planos de Cabet em torno de uma nova sociedade, mas da mesma forma que na Utopia de More, Voyage en Icarie dispara uma crítica devastadora à ordem social contemporânea — que provavelmente representava, para Cabet, a parte mais importante. Seu sucesso deve tê-lo pasmado. Tornou-se um best-seller, lido ou pelo menos comentado por quase que todos os radicais trabalhadores e intelectuais. Durante os próximos sete anos com o Le Populaire e o novo jornal, L’Almanach Icarienne, ele constituiu uma gama de leitores que, segundo ele, chegava a meio milhão. No princípio, como Edward Bellamy, autor de Looking Backward no final do século, não lhe ocorreu que as pessoas desejariam pôr suas idéias utópicas em prática, mas o grande sucesso de seu movimento finalmente o persuadiu. Seus seguidores pediram que ele os conduzisse em direção à comunidade do futuro, e ele já havia começado algumas experiências de alguns Icários na França que foram mal concebidos ou que abortaram.


Em 1847 Cabet emitiu um manifesto, “Rumo ao Icário”. A França estava carregada, estropiada por um governo despótico, e nunca permitiria o estabelecimento de comunidades modernas, que logo iriam, pelo seu exemplo, revolucionar a sociedade. Na América seria possível construir uma colônia comunista de dez ou vinte mil pessoas na fronteira, e em alguns anos haveriam milhões de adeptos. A resposta foi tremenda. Ele foi coberto de presentes, penhores, e recrutas.


Cabet não havia escolhido um local e nem mesmo desenhado um plano definido para uma base de acordo, ele deve ter ficado um pouco amedrontado, e foi para Londres para consultar Robert Owen. Naquela época Owen estava entusiasmado com o Texas, que acabava se ser anexado à União e estava ansioso por colonos. Pouco tempo depois, um corretor de terras em Londres persuadiu Cabet de adquirir um milhão de acres em Red River, “facilmente acessível através de barco”.


Em 3 de fevereiro de 1848, um grupo de observação viajou para o Texas. Em New Orleans eles descobriram que haviam comprado apenas cem mil acres, não um milhão, de selva, a duzentos e cinqüenta milhas do rio, loteados como um tabuleiro de dama, com os quadrados alternativos ainda em posse do estado; e pelos termos do contrato, eles eram obrigados a construir uma casa de troncos em cada uma das seções antes de Julho. Além disso, Red River não era navegável além de Shreveport, Louisiana, onde foi bloqueado por um imenso e permanente dique.


Destemidos, sessenta e nove franceses entusiasmados, sem qualquer experiência de vida na selva, juntaram a maior parte de seus bens e partiram por terra em uma diligência puxada por bois. Eles não sabiam nem mesmo manejar a diligência e os bois. A diligência quebrou e acabaram presos em um pântano. As pessoas começaram a pegar malária. A comida começou a faltar, até que finalmente chegaram ao local da Icária, onde encontraram os corretores da Peters Land Company, que lhes informou que qualquer terra que não fosse ocupada por uma cabana habitada em cada meia milha quadrada reverteria para a companhia que ficaria satisfeita em revendê-la a um dólar por acre. Não havia qualquer possibilidade de cumprir o contrato, mas os sessenta e nove pioneiros escreveram uma carta desesperada para Cabet e se fixaram para trabalhar. Embora muitos deles fossem mecânicos qualificados, quase nenhum era fazendeiro e nem mesmo, curiosamente, construtor. Eles não sabiam arar a terra, e as trinta e duas cabanas que conseguiram construir não passavam de choupanas. Cada vez mais pessoas ficaram doentes, provavelmente com malária. O médico do grupo dizia que era febre amarela, mas todos seus diagnósticos apontavam para doenças fatais, e em pouco tempo ficou provado que ele era um demente. A maioria dos membros adoeceu — a água não era potável, mas poucos morreram. Pela primavera, chegaram mais dez colonos, um número bem distante dos quinhentos que Cabet havia prometido.


Enquanto isso, voltando à França, a Revolução de 1848 derrubara Louis Philippe, e nos próximos meses líderes revolucionários como o poeta Lamartine, Cabet, seu amigo Louis Blanc, e outros da esquerda acabaram desacreditados, em parte pelos seus próprios erros, mas muito mais pela oposição organizada da direita e dos bonapartistas. Em 15 de dezembro, Cabet viajou para a América com quase quinhentos novos colonos, ao chegar encontrou os remanescentes do estabelecimento pioneiro completamente falidos em New Orleans. Cabet desejou retornar ao Texas, mas os remanescentes do grupo pioneiro se rebelaram. Passaram todo inverno envolvidos em um amargo conflito, e eventualmente quase duzentos, a maioria membros do grupo que tinha vindo com Cabet, retornaram à França, enquanto que os demais encontraram emprego temporário em New Orleans enquanto Cabet comprava um novo local. Na primavera ele comprou todas as propriedades disponíveis da cidade de Nauvoo no Illinois em virtude dos Mormons terem recentemente migrado para Utah. Através de um sinal e de uma grande hipoteca ele adquiriu uma variedade de fábricas e lojas, uma destilaria, um grande conjunto habitacional, numerosas casas de família, as ruínas de um templo de sacrifícios rituais, e mil e quinhentos acres de terra. Duzentos e oitenta fiéis icarianos subiram o rio com Cabet para seu novo lar. Perseguidos pelo destino que os caçava, vinte deles morreram de cólera no caminho.


Nauvoo parece ter sido ideal. Como Owen em Nova Harmonia, Cabet assumiu uma aldeia completamente equipada, ou bem equipada, uma pequena cidade que a Igreja Mormom tinha administrado, com sucesso, até que se tornasse motivo de perseguição, mas a prosperidade foi tal que despertou inveja de toda vizinhança. Durante algum tempo, os icarianos pareciam também prosperar. Cabet como membro experimentado — testado, se não pelo fogo, pelo menos pela lama, mosquitos, doença, e fome. A maioria das pessoas era composta por artesãos experientes, e em pouco tempo as fábricas e oficinas voltaram a operar. Por incrível que pareça, havia muito poucos fazendeiros, boa parte dos mil e quinhentos acres permaneceram incultos. Durante o ano, novas levas vindas da França dobraram o tamanho da colônia. Mas o desequilíbrio entre artesãos e fazendeiros aumentou.


Com toda a imensa propaganda que Cabet espalhou pela França, aparentemente ele nunca fez qualquer esforço para recrutar tipos específicos de trabalhadores para satisfazer as necessidades da colônia. Com mil e quinhentos acres de uma das melhores terras do Vale do Mississipi, a Icária Nauvoo não conseguiu, como colônias desequilibradas semelhantes haviam feito anteriormente, adquirir trabalhadores rurais. Em vez disso, eles compravam a maior parte de seu alimento no mercado. O trabalho nas oficinas continuava indiferente ao crescente déficit, que era coberto por contribuições em dinheiro que a Senhora Cabet enviava da França. Não parece ter ocorrido a Cabet que havia qualquer coisa errada com isso. Suas cartas e relatórios daquele tempo são uniformemente otimistas, na realidade, eufóricos.


Como sempre, os colonos inauguraram uma escola progressiva, com instrução ministrada tanto em francês como em inglês para suas crianças, com classes de inglês para adultos. Eles imprimiram um jornal e vários panfletos. Montaram uma orquestra, uma banda, uma companhia de teatro, conferências para residentes e visitantes, e grupos de discussão e estudo. Cabet, porém, não estava contente. Ele ainda esperava fundar uma cidade utópica, não uma aldeia, na qual as habitações seriam palácios, e o trabalho das pessoas um mero passatempo, e onde todos vivessem sonhos agradáveis.


Em 1852 os colonos que se separaram dele em New Orleans o processaram por desfalque e ele retornou para se defender. Os tribunais franceses o absolveram e em seu retorno foi recebido com um banquete de boas vindas em New York, uma viagem triunfante pelo país, e outra celebração em Nauvoo. Nessa época, a colônia teve um modesto sucesso. Até mesmo o problema da agricultura estava a caminho de ser resolvido, o déficit estava continuamente recuando. Para Cabet esse era apenas o começo. Ele foi até Iowa e com uma hipoteca comprou três mil acres de terra, o lugar da cidade de seus sonhos, o Jardim do Éden comunista.


O governo da colônia tinha sido vagamente concebido no aspecto econômico. Na França Cabet tinha sido aceito como ditador por dez anos, este arranjo foi renovado em New Orleans e novamente em Nauvoo. Mas em 1850, convencido do sucesso da colônia e de sua prontidão para um puro governo comunista, Cabet instalou sua ditadura. Em 1850 adotou uma constituição com uma junta de seis governadores, e uma variedade de comitês administrativos para cuidar dos detalhes do funcionamento da vida comunitária. Cabet foi eleito presidente ano após ano até 1855. Em dezembro ele propôs que a constituição fosse reescrita provendo a eleição de um presidente com poderes ditatoriais para escolher os membros do conselho de administração e de todos os comitês.


A constituição previa uma revisão anual em março, assim a comunidade se rebelou e, na eleição de fevereiro de 1856, J. B. Gerard foi eleito presidente. Isso resultou em um conflito tão trave que Gerard renunciou e Cabet foi reeleito sob a velha constituição por mais um ano. Durante seis meses a maioria dos diretores o apoiou, mas a maioria da assembléia geral de toda comunidade se opôs a ele. A principal razão desta oposição parece ter sido uma crescente excentricidade na pessoa de Cabet. Ele proibiu bebidas alcoólicas na comunidade e insistiu que toda produção da destilaria fosse vendida fora. Ele propôs proibir completamente o uso de tabaco, passando em seguida a tentar impor suas próprias noções de dieta e sua excêntrica mas puritana moralidade sexual. A verdade é que Cabet estava se tornando um homem velho, adepto de esquemas visionários sem nenhuma praticidade, rígido em suas tentativas para sua aplicação, e de temperamento desequilibrado — um produto típico de toda uma vida exaurida na orla do radicalismo. Na eleição do verão ele perdeu sua maioria no conselho de administração e a colônia desabou no caos.


Em nenhuma outra comunidade comunista temos registros de conflitos tão violentos. No princípio as facções pararam de falar umas com as outras, agrupando-se separadamente no refeitório, e engajando-se em atividades sociais separadas. O trabalho cessou nas fábricas e nos campos. As crianças brigavam umas com as outras na escola, e logo os sócios estavam literalmente lutando nas ruas. Neste momento o conselho de administração anti-Cabet decidiu que aqueles que não trabalhassem não deveriam comer, e cortou as rações dos grevistas em 13 de agosto. Cabet e a minoria responderam com uma petição ao governo do estado para que revogasse a escritura da comunidade. A maioria reagiu a esta atitude votando por unanimidade pela expulsão de Cabet e de seus seguidores, que boicotaram o encontro. Quatro semanas depois, Cabet e cento e setenta fiéis seguidores, muitos dos quais tinham estado desde o princípio com ele no Texas, chegaram em St. Louis e, da mesma forma que haviam feito há muito tempo atrás em New Orleans, passaram a trabalhar individualmente como mecânicos. Uma semana depois, Cabet estava morto.


Em nenhum aspecto a morte de Cabet representou o fim dos icarianos. A maioria em Nauvoo reagiu com culpa e arrependimento. Com o passar do tempo, a memória de seus erros, mau humor e do amargo sectarismo dos seus últimos anos foi enfraquecendo. Cabet tornou-se uma espécie de herói cultuado, o fundador de uma nova civilização, como Teseu ou Rômulo nas páginas introdutórias de Plutarco, e citações de seus pensamentos passaram a ser lidos nos encontros, como Evangelhos e epístolas na Igreja.


O grupo de St. Louis se estabeleceu em três grandes casas cooperativas e juntaram todos os seus recursos. Os sócios enviaram suas crianças para escolas públicas, mas organizaram classes para educação de adultos, especialmente de inglês, onde eram ainda deficientes. Eles separaram parte de uma grande livraria comunitária, e montaram uma grande sala de estudo e de recreação. Aos finais de semana, durante a noite, eles continuaram com seus entretenimentos musicais e teatrais, aos domingos eles se encontravam para se instruir nos princípios de Jesus Cristo e Étienne Cabet. Eles também criaram seu próprio jornal, o Revue Icarienne. Fiéis a seus princípios, eles se abstiveram do consumo de toda espécie de bebidas alcoólicas e tabaco.


O movimento na França reconheceu o grupo de St. Louis como a comunidade icariana oficial, recebendo assim uma renda fixa de contribuições e periódicos recrutamentos de novos membros vindos do estrangeiro. Os homens encontraram emprego e bons salários e a comunidade funcionava como uma comuna urbana bastante próspera, uma das primeiras dessa espécie. Mas eles não estavam contentes.


Eles compraram uma fazenda, a propriedade em Cheltenham, um local que agora se situa dentro dos limites da cidade de St. Louis, e retornaram à terra. Muitos membros continuaram em seus empregos em St. Louis, mas seus salários caíram consideravelmente. O local estava empestado — todo o Vale do Mississipi parecia tomado pela malária naqueles dias; e as colônias comunistas sempre pareceram predestinados a achar os locais mais infestados de malária. Ainda não havia fazendeiros suficientes, de forma que a terra não conseguia nem mesmo alimentar a comunidade. Não havia nenhuma oficina ou fábricas, apenas algumas cabanas de tronco e uma casa forte. Dentro de um ano, a mesma facção que dividira Nauvoo se desenvolveu em Cheltenham. A maioria desejou perpetuar a ditadura estabelecida por Cabet. A minoria insistiu na completa democracia. Quarenta e dois dos democratas se retiraram, e a colônia não pode se recuperar de sua secessão, de forma que substituíram a maioria dos artesãos qualificados por mão-de-obra assalariada. Em 1864 apenas oito homens, sete mulheres, e suas crianças compunham a esquerda. O movimento francês desvaneceu-se e nenhum dinheiro ou recrutas vieram mais da França. A hipoteca foi cancelada e tanto Icária como Cheltenham deixaram de existir.


Depois da secessão da minoria, a comunidade dos duzentos e cinquënta de Nauvoo declinou rapidamente. Os lucros das fábricas, lojas, e destilaria acabaram, provavelmente por falta de trabalhadores qualificados, a maioria daqueles que foram para St. Louis. Os Mormons, que ainda detinham uma considerável hipoteca ameaçaram com execução hipotecária. A propriedade era simplesmente muito grande para que seus membros pudessem operá-la. Eles decidiram migrar para o local em Iowa onde Cabet tinha planejado construir a palaciana Cidade de Utopia. Eles se instalaram em uma terra bruta, longe de tudo, embaraçados com uma hipoteca de dez por cento. Em 1863 apenas trinta e cinco, doentes, enfraquecidos, e esfalfados comunistas pertenciam à esquerda.


Eles foram salvos pela erupção da Guerra Civil. Os colonos inundaram Iowa para salvá-la para a União. A colônia encontrou um mercado pronto para seus produtos a preços bons, eles venderam dois mil acres que não conseguiam cultivar por dez mil dólares. Durante doze anos eles prosperaram, de tal forma que compraram de volta alguma terra. Eles construíram casas decentes, plantaram pomares e vinhedos, e começaram a adotar uma agricultura mais intensiva. Considerando que eles tiveram que aprender a praticar a arte da agricultura, provavelmente o trabalho deles era duro demais para desperdiçar tempo em disputas. Pelo menos, considerando sua história passada, suas relações pessoais eram notavelmente uniformes.


Em 1876 havia setenta e cinco membros. Eles tinham uma dúzia de habitações familiares em três lados de um quarteirão, um grande edifício central com uma cozinha comunitária e um refeitório, que também era utilizado para assembléias e recreação, uma padaria e uma lavanderia, uma leiteria, estábulos, celeiros e um grande depósito de madeira, tudo em um belo local nas escarpas do vale do Rio Nodaway; atrás dele haviam dois mil acres férteis, setecentos cultivados com madeira, prados, e pastos. Possuíam seiscentas ovelhas, cento e quarenta bovinos, a maioria vacas leiteiras, cultivavam trigo, milho, batatas, sorgo, legumes, e pequenas frutas, além de vinhedos e pomares. Todas as refeições eram tomadas em comum, e muitos serviços como lavanderia eram executados para a comunidade como um todo. Durante a noite depois do jantar havia danças, música, e recreação organizada ou espontânea, aos domingos havia um serviço que incluía uma conferência, ao mesmo tempo em que cantavam suas próprias canções, e faziam leituras sobre a obra de Étienne Cabet.


O desastre que se abateu sobre o movimento radical francês pelo Terror que se seguiu à supressão da Comuna de Paris em 1871 trouxe novos recrutas e algumas mudanças, algumas óbvias, algumas sutis mas profundas, na ideologia da comunidade. A própria França nunca se recuperou da Comuna, assim, não é surpreendente que seus efeitos fossem sentidos tão longe de Paris, no seio de uma pequena comunidade de radicais franceses no meio das pradarias de Iowa.


Com o passar dos anos, ocorreram mudanças na economia de produção da colônia. Com exceção dos grãos e outras amplas colheitas, o produto dos trabalhos individuais dentro das habitações familiares prevaleciam no suprimento de alimento, verduras, legumes e leite. Similarmente os pequenos artesãos funcionavam como operadores quase que independentes e geralmente vendiam seus produtos ou trabalhavam fora em jornadas de meio período. A situação não era muito diferente das granjas coletivas russas antes das purgações em massa de Stalin. Foi a geração mais velha de revolucionários que abriu o caminho com Cabet insistindo neste limitado empreendimento privado. Os jovens, especialmente os refugiados da Comuna de Paris, exigiram um completo comunismo de produção. Muitos deles eram discípulos de Proudhon, Bakunin, Weitling (a própria colônia de Weitling, Communia, tinha se estabelecido ao nordeste de Iowa, no município de Clayton aproximadamente quinze milhas de Gutenberg), ou Marx, e os massacres e deportações que se seguiram à supressão da Comuna empurraram todos para a esquerda. O comunismo tinha deixado de ser uma filosofia de vida generalizada, um sentimento ou uma atitude, tornando-se uma ideologia, ou até mesmo um número de sistemas mutuamente antagônicos.


Os membros mais velhos tinham aprendido que ideologia não era suficiente e insistiam em manter os membros estritamente limitados. Os membros mais jovens mostraram que a colônia era pobre e esfalfada, com uma séria carência de pessoal, com apenas oitenta pessoas, e exigiram que tantos membros fossem admitidos na medida que a colônia pudesse suportar.


Durante os anos 1870 o conflito tornou-se irreconciliável, até que finalmente o grupo dos mais jovens foi até os tribunais pedindo a revogação da escritura, tecnicamente a colônia era registrada como uma cooperativa agrícola mas engajada em indústria. O tribunal concedeu o pedido, e os rebeldes incorporaram a colônia sob uma nova escritura em 1879, enquanto que aos membros mais antigos foram concedidos mil acres, várias casas e outros edifícios — e nenhuma dívida. Os débitos foram assumidos pelos rebeldes. O grupo antigo, que ironicamente assumiu o nome de Novos Icarianos, foi modestamente bem sucedido. Os insurgentes aumentaram seu rol de membros, abriram novas indústrias, cultivaram mais terra com métodos agrícolas melhorados, e mais que dobraram sua sociedade. Pela primeira vez na longa vida das comunidades icarianas, foi permitido às mulheres votar e ocupar cargos. A colônia foi oficialmente declarada não-religiosa.


A expansão econômica provocou uma dívida impagável, e a expansão da sociedade resultou logo no surgimento de novas facções, irreconciliáveis. Antes do outono de 1881 a comunidade mais jovem estava se desintegrando e incapaz de satisfazer seus credores. Foram feitos esforços para se mudar para a Califórnia e negociar com a colônia Speranza em Cloverdale, mas enquanto isso o próprio projeto de Cloverdale entrou em colapso, e a propriedade acabou vendida para satisfazer os credores — alguns deles pertenciam aos Novos Icarianos.


O velho partido administrou sua nova comunidade como fizera no passado. Eles plantaram pomares e vinhedos, trabalharam duro, se alimentavam de maneira simples, e se vestiam pobremente — eles usavam seus sapatos até o fim, e se divertiam com música e conferências de seus membros, possuíam uma biblioteca de mais de mil livros, todos em francês. Em 1883 eles tinham trinta e quatro sócios. Seus filhos partiram. Eles envelheceram. Um por um foram se afastando. Ao final do século uma grande proporção dos membros remanescentes já passava dos oitenta anos de forma que já não eram mais capazes de operar a propriedade, venderam-na, saldaram todos os débitos, e o dinheiro restante, bem considerável por sinal, foi dividido pró rata de acordo com o tempo de serviço. Cada sócio ou sócia adquiriu dinheiro suficiente para sustentar, ele ou ela, modestamente até o final de sua vida.


A Nova Icária pelo menos terminou numa mútua boa vontade e com solvência financeira. A utopia de Cabet tinha durado, de uma forma ou de outra, de 1848 até 1901, uma das mais longas vidas de todas as aventuras comunistas seculares. O mais notável de tudo foi ter durado tanto a despeito de suas incríveis dificuldades, sofrimento, e doença, um sectarismo quase que contínuo, trabalho duro, muito desse trabalho desperdiçado por falta de experiência, financiamentos ingênuos e impraticáveis, perda de dinheiro, e acumulação de dívidas. A vida sempre foi pobre nas comunidades icarianas. A vida da Fazenda Brook foi sibarita por comparação. Ao cabo, aquele punhado de sobreviventes ainda era uma entusiástica associação de comunistas, embora seja difícil dizer a qual associação pertenciam. As teorias de Cabet, eram impraticáveis quando definidas. Quando não eram definidas, eram vagas, sentimentais, como em sua posição sobre relações sexuais, direitos das mulheres, e o uso do tabaco, ou destrutivas e irrelevantes. Seu líder carismático foi expulso cedo da vida da colônia e ninguém assumiu seu lugar. Todavia Icária continuou, e a maioria de seus sócios, muitos deles comunistas convictos, migraram para outras comunidades depois que Icária foi vendida.


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