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Individualidade, Misantropia e Vilania – sob o Renascimento

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«“Facies non omnibus una,/ non diversa tamen”.»
((Ovídio – Metamorfoses)[1])


Autobiografias e pesquisas recentes acerca do cotidiano do homem renascentista patenteiam que, naquela época, poucos tinham medo de parecer conspícuo. Os homens pareciam seguir obstinadamente seus rumos na vida e as leis obedecidas subordinavam-se às próprias personalidades. Como prova da exaltação exterior da individualidade em curso, a moda na Itália por volta de 1390 não seguia nenhum critério coletivo, mas cada príncipe, artista, cortesão, condottiere, humanista, concebia e mandava confeccionar suas roupas, colares, chapéus. Não por acaso o nome de batismo do florentino Amerigo Vespucci transformou-se, por força da divulgação de relatos de viagem – Mundus Novus e Lettera a Soderini -,[2] no correspondente a quarta parte do mundo. – América!

Fruto do cosmopolitismo, sobretudo italiano, a grande diversidade de personalidades em movimento opera, desde o final do século XV até o do século seguinte, um voltar-se para o mundo. Porém, como movimento reflexo, sob o peso da crise da época, em parte de fundo religioso, produz-se - no mesmo passo - o movimento inverso: a retirada dos grandes homens para suas as dificuldades interiores, antecipada por Montaigne. Mais adiante, a obra de Descartes anuncia o processo introspectivo,[3] sobretudo Discours de la Méthode, se tomado de antemão como autobiografia intelectual, contrapondo-se aos relatos das intimidades pessoais como em Cardano e Cellini. E mesmo as Meditationes encontram-se nesse caldo. Descartes herdara toda a desconfiança do século XVI, representada pela descentralização copernicana da Terra, a “dúvida cética” de Montaigne e o ativo das lutas religiosas entre protestantes e católicos, em França. Espelhando o derrancar da dúvida, a personagem literária Don Diego de Miranda, da obra Dom Quixote de la Mancha – “montado numa formosa égua baia, com um gabão de fino pano verde” - personifica o espírito de estabilidade, como “aspiração da idade clássica”.[4]

Contudo, a “típica falta de interioridade do indivíduo do Renascimento nunca será excessivamente sublinhada, e é deste aspecto decisivo que devemos partir para a análise do conceito abertamente rígido e excessivamente generalizado de ‘individualismo’.”[5] Talvez a necessidade de liberdade fosse reduzida ao tempo do Renascimento e as utopias de Morus e Campanella, ambos católicos, devam ser entendidas como expressões de antiindividualidade - “cativeiros entorpecedores” - pois, de certa forma, são já ressacas do Renascimento.

Segundo Engels, o Renascimento - “a maior revolução progressista” - careceu de gigantes e os engendrou.[6] Entretanto, tratava-se um tipo especial de prodígio humano, que se configurou através de um tipo específico de individualidade, de acordo com as necessidades do momento histórico. Se as exigências da época eram as de manter-se atento às situações novas, buscar oportunidades para a ação individual, destacar-se nos meios artísticos e sociais, evolver à velocidade do tempo, fama e glória iluminaram as perspectivas de vida dos “gigantes”. Num mundo feérico, em que os interditos pareciam suprimidos, vivia-se para a exterioridade, a livre expansão dos talentos. O mundo – perpetuum mobile - será tomado como locus de aventuras.[7]

No universo das artes, criou-se a hierarquia de méritos para os artistas, com as seguintes características: ser popular e ter reconhecimento em vida. Petrarca fora coroado em vida, como poeta maior, descortinando tal instituição. Castiglione, Vasari, Leonardo, descreveram e retrataram vidas de todos os grandes e famosos. Retrataram energias e capacidades individuais em plena competição entre artistas. O que seria impossível de ser pensado numa estrutura comunal de vida sob o feudalismo. Assim como os gregos pagãos tramavam todo tempo, entre si e com os deuses, também os renascentistas, libertos em parte do teto ideológico do cristianismo, voltaram a tramar, pois “a individualização requer luta contra os outros.” Porém, o egoísmo renascentista não é de modo algum egocêntrico. O egoísmo da Renascença foi projetado para a criação artística, logo não condenável, pois orientado para o trabalho criativo. Vasari, em Le vite dei più eccellenti pittori, scultori e architetti, toma como absolutamente natural a inveja e a ambição entre os artistas. E Cellini dirá que todos, inclusive Vasari, são capazes de apunhalar pelas costas para conquistar o mérito nas artes. Ocorre que o trabalho artístico individual era entendido como um fim em si. No entanto, o sucesso da obra e o êxito pessoal eram inseparáveis.

O indivíduo renascentista era “um indivíduo porque se exteriorizava, e nesse processo de exteriorização veio a conhecer a si próprio e regozijar-se consigo mesmo.” Assim, auto-realização e autofruição da personalidade transformam-se numa finalidade a ser perseguida pela vida afora. A hierarquia era clara: desde o não-essencial até o essencial, que conduzia do dinheiro à criação pura, passando pela glória e pela fama. Talvez, somente Leonardo da Vinci tenha se colocado na contramão desta ordem: contra a hierarquia do dinheiro, da fama e da obra. Para ele, só o trabalho constituía critério de auto-realização. Ele propõe o conteúdo moral – a realização do trabalho como única medida do artista.[8] Ao contrário dessa exteriorização, a interiorização já aparece na obra de Shakespeare, através de suas personagens: conflitos entre a vida externa e a interna, que é propriamente o drama de consciência. As “tragédias” shakespearianas são sua expressão. Anteriormente, a filosofia de Montaigne desmontava as certezas do vulgo, pela análise das opiniões sem sustentação racional.

Se o processo de secularização, iniciado no século XII, está na matriz e em concomitância com o processo de individualização,[9] durante o Renascimento, Lutero findou por secularizar a religião, Maquiavel a política e Bacon a ciência. A arte, por sua vez, foi secularizada pela maioria dos artistas, sobretudo italianos. Para os artistas italianos e flamengos não importava mais o universal concreto – a santidade de Cristo, da Virgem Maria, dos santos – mas o homem comum, o burguês. Todas essas instituições – religião, política, ciência, artes - tenderam a se transformar em “técnicas”. Frente a nova concepção de individualidade, as noções de alma e imortalidade não encontravam nexo com a orientação moral e a vida cotidiana. O Renascimento conheceu um ateísmo prático, mas não aberto. Talvez por um excesso de religiosidade, em crise.

O “mundo (moderno) começava a surgir cada vez mais como um mundo feito de indivíduos, um caleidoscópio de personalidades individuais. Daí em diante, o indivíduo transforma-se no ponto de partida teórico de todos os sistemas psicológicos e éticos.” O tema da autopreservação será tomado como ponto nodal do comportamento humano. Sensações, virtudes e vícios serão convertidos à autopreservação. Trata-se do “início do moderno princípio burguês do egoísmo, a fonte antropológica de todas as teorias do contrato social.” Cultiva-se a primeira tentativa de projetar a sociedade desde os átomos, indivíduos humanos. Na origem, não se encontrava a sociedade, mas o homem. Destarte, Maquiavel teria bem equacionado o problema ao teorizar acerca da natureza humana, umas das direções oblíquas do pensamento político moderno. E mais tarde, Locke pensará a sociedade atomizada em indivíduo - cidadão.

A noção de individualidade[10] também foi defrontada na natureza. A teoria desenvolvida por Giordano Bruno propunha a mônada, o minimum, como unidade indivisível que constitui o elemento fundante de todas as coisas. O individualismo transformara-se num conceito que constituirá a nova imagem do mundo. O universo infinito e único é constituído por um número infinito de mônadas, “tal como a sociedade consiste em totalidades concretas constituídas por unidades de corpo e alma –os indivíduos.” Bruno criou a metáfora orgânica precisa para a época: natureza e mônadas, sociedade e indivíduos.

Do ponto de vista artístico, a pintura do retrato – por vezes, do auto-retrato - é o oportuno destaque para o indivíduo. Basta mediar pelo olhar o Retrato de Federico de Montefeltro, de Piero della Francesca; ou o Retrato de Francesco della Rovere, de Ticiano Vecellio; ou ainda o Retrato de Isabelle d’Este, do mesmo pintor; ou mesmo o Retrato do doge Leonardo Loredan, de Giovanni Bellini. Equivalem a leituras de autobiografias. Mesmo, a Última Ceia, de Leonardo da Vinci, traz individualidades diferentes entre si, além de geometricamente dispostas, pois pela abordagem das individualidades é a própria personalidade que define as reações.

Se na sociedade feudal, o homem era aquilo para o que nascera e não havia papéis dinâmicos, modernamente um título acadêmico ou o desenvolvimento do talento artístico substituem e aliviam a origem social desfavorável. Outrossim, um mesmo homem ocupa atividades diversas e assume, de modo simultâneo, diversos tipos de comportamento. Isto ocorreu ao tempo em que o estatuto econômico se tornou norma universal.

O momento era de separação entre o burguês e o cidadão, que prefigura a divisão e conflito entre a vida privada e a vida pública. Assim, o homem foi cindido para melhor exprimir-se de uma forma relativa ao indivíduo e seu papel. E se, em princípio, durante a Idade Média, a natureza era fonte de estranheza - o grande Outro -, durante o Renascimento será o mundo da política - a cidade - tal lugar. Montaigne - talvez inspirado em Alberti - escreveu: “A opinião pública nada tem a ver com o nosso pensamento, mas o resto nossas ações, nosso trabalho, nossas fortunas, e nossa própria vida, cumpre-nos colocá-la a serviço da coletividade e submetê-la à sua aprovação.”[11]

Herdeiro filosófico de Montaigne, Charron surpreende com a metáfora pele e camisa. Como a dizer: a pele é o que o homem tem de mais profundo, enquanto a camisa é o “papel” externo da pessoa, seu papel público em oposição ao seu próprio eu. Assim, cada um desempenha dois papéis: o público e o privado, que redundam em conflitos. “À medida que as normas e a ética do ‘mundo’ iam mostrando a sua incapacidade para realizar os ideais do Renascimento e começavam até a separar-se progressivamente deles, a ‘intimidade’ e subjetividade passaram cada vez mais a preservar esses ideais espezinhados, o simples cidadão ou ‘sujeito’ que vivia na sociedade burguesa, possivelmente entre condições de refeudalização, era obrigado no seu comportamento ‘exterior’ a acomodar-se às exigências da nova época.” Desempenhar um papel é mediar a dissimulação e a contradição ética. A hipocrisia passa ser considerada norma da atitude, como proclama, cedendo ao anacronismo, o verso do aedo contemporâneo: “reconhecer o valor necessário do ato hipócrita”.[12] A dissimulação será a forma reguladora do comportamento social e privado. Assim sendo, o ato de dissimular equaciona o paradoxo entre essência e aparência. Contudo, o jogo duplo da dissimulação propõe conhecer os homens e conhecer a si mesmo – ambos em situação.

Neste campo, a Inglaterra elisabetana será a pátria do “incógnito” e, por que não, do ocultismo.[13] A propósito Bacon escreveu: “A dissimulação não é senão uma pálida espécie de delicadeza e de sabedoria. É preciso ter espírito forte e coração forte para saber quando se deve falar e proceder com inteira verdade. Por isso a mais fraca espécie de políticos é a dos grandes dissimuladores.”[14]

Duas possibilidades do incógnito: primeiro, o ofensivo, que é o dissimulado ativo, sempre jogando com os homens, em busca do cumprimento dos seus objetivos e; segundo, o defensivo que não é dissimulador ou hipócrita, mas que pretende apenas resguardar-se, esconder o seu “eu”, sua intimidade.

Num escorço teórico, pode-se afirmar que a “acumulação primitiva, a dissolução das antigas tradições, o declínio das restrições feudais e a reestruturação de valores, tudo isto teve lugar no século XVI, num momento em que a interinidade e a subjetividade já se tinham desenvolvido. Tornou-se assim possível apreender o problema em toda a sua complexidade.” As obras de Bacon e Shakespeare são as que melhor a expressam.

Se a Idade Média construiu um conhecimento do homem, expandindo e ampliando a revelação judaico-cristã, com fundamento no ‘ideal de cultura cristã’, projetado por Santo Agostinho, desde o século V d.C., o Renascimento diferentemente - em largo espectro - perseguiu a construção do conhecimento do homem em vista das situações sociais de exposição pública e ao resguardo da privacidade.

Bacon, para quem “a experiência é a base do raciocínio verdadeiro”, admirador da teoria política de Maquiavel, calcada na observação dos fatos políticos, analisou o problema do conhecimento dos homens. Segundo o Barão de Verulamo, a natureza do homem é mais bem compreendida em três situações. Primeira, na intimidade, em que se encontra ausente o sentimento; segunda, na paixão, em que o homem contraria seus preceitos e; terceira, sob experiência nova, quando não é guiado pelo hábito e está longe dos papéis que representa socialmente. Estas situações tendem a realçar a natureza essencial do homem – se é que tal existe -, pois são momentos de quebra da representação social, como em cenas de humor ou de exposição ao ridículo. Bacon tem consciência das formas modernas de desempenho de um papel, que não é, necessariamente, falsidade, mas conformação a princípios e práticas, enquanto produtos da recente divisão capitalista do trabalho.

Quanto à terceira situação, a da experiência nova, Bacon distinguira duas características. Primeira, sem uma certa dose de dissimulação não se pode defender a vida privada e a individualidade e; segunda, se a dissimulação se transforma no comportamento habitual de uma pessoa, transfigurando-se em hipocrisia, o sujeito perder-se-á, pois terá perdido a sua individualidade moral. – É sabido que Bacon entendia bastante do que estava tratando... A experiência cotidiana enriquece o conhecimento dos homens, pondo-os, constantemente, à prova, conscientemente ou não, numa situação artificial e planejada. Esta novidade aparece também em Shakespeare em várias peças teatrais, afinal ele é um dos que melhor expressam a retomada da trama na Modernidade.

Eis o encaminhamento da questão por Bacon: a sinceridade e a hipocrisia absolutas constituem as formas extremas de comportamento. Deve-se procurar um justo meio entre ambas.

No mesmo passo, Bacon critica a noção - muito difundida, endossada até mesmo por Castiglione - de que a expressão facial seria um espelho fiel dos sentimentos. O semblante não é absolutamente revelador, pois a “descoberta do eu de um homem partindo dos traços de seu semblante constitui uma grande fraqueza e é enganadora.”[15] As aparências não são totalmente reveladoras do caráter de um indivíduo, pois podem, quiçá, serem condicionadas, previamente.

Bacon prega, contra a hipocrisia, a ética e o êxito, pois crê que a hipocrisia está ligada ao fracasso. E entre as reservas morais de um homem estão a fidelidade e a confiança em si. Porém, distingue três tipos de auto-encobrimento ou a capacidade de tornar-se incógnito. Primeiro, o retraimento, a reserva, o sigilo que se dá quando um homem se apresenta sem permitir a observação, ou a apreensão daquilo que verdadeiramente é. Concedendo à má comparação, Belfagor, o Arquidiabo que se casou, apresenta-se em Florença dissimulado como Rodrigo, em conto homônimo de Maquiavel.[16] Segundo, a dissimulação, na negativa. Se dá quando um homem deixa escapar indicações e argumentos que mostram que não é aquilo que pretende ser ou parecer ser. Como quer o vulgo: o diabo sempre mostra o rabo! Por último, a simulação, na afirmativa. Dá-se quando um homem finge, propositadamente, com habilidade, e pretende ser – parecer ser - aquilo que não é. Ainda de acordo com Bacon, passa-se de incógnito defensivo e passivo para ofensivo e ativo.

Entretanto, “nenhum homem pode ser sigiloso, a menos que se permita um certo campo (de manobra) para a dissimulação; a qual apenas é a margem (de manobra) ou cauda do sigilo.” Nesta atmosfera, a meados do século XVI, Catarina de Medici instituiu o uso da máscara na corte francesa, e, não muito por acaso, no princípio do seguinte, Descartes tomava para si o lema “larvatus prodeo” – caminho mascarado.

Somente os “homens verdadeiramente astutos podem ser abertos e sinceros, pois podem dizer e controlar o dizem; e nos momentos em que pensam que a situação requer dissimulação... usam-na...” Desta forma também, o conhecimento dos homens é um aspecto da phrónesis – pensamento prático; prudência como ação pensada - em torno da qual os outros valores são ordenados: moralidade como redução prática da ética e êxito nas ações humanas.

Lançando mão da metáfora por métrica e rima, Bacon arrematou : “O comportamento de cada homem deve ser como um verso, no qual todas as sílabas são medidas.”

Não por acaso, o locus da acumulação primitiva e da divisão social do trabalho foi também a pátria da expressão dramática destas novidades. “Em Inglaterra, o drama transformou-se no gênero dominante do Renascimento. Nele podemos observar, numa forma condensada, a desintegração do velho mundo e o nascimento do novo. ...Shakespeare apresenta-nos toda uma galeria de vilões que manipulam a contradição entre essência a aparência e, reconhecendo a confiança, a boa fé e o desamparo de homens honrados, recorrem aos seus incógnitos a fim de os utilizarem.” Para os vilões de Shakespeare, a razão funciona como guia na escolha moral, sua descoberta aumenta a liberdade de escolha. Nos jogos humanos, o objetivo secundário é por à prova os talentos e a força de cada um. Assim, um homem se transforma em mero instrumento nas mãos de outros, num processo primário de reificação. O exercício da individualidade atropela outras individualidades e as anula. Como a dizer: “a autonomia moral de um homem só se realiza privando os outros das suas.” Mesmo que, por à prova as pessoas, seja também oportunidade para o autoconhecimento. Eis a questão: por à prova os outros e automanipular-se! Desta forma, as atitudes de Hamlet sugere um ensandecido e Próspero, um déspota.[17]

A questão se reduz a conhecer bem e conhecer mau os homens. E com este conhecimento ser capaz de provocar catarse ou não. Uma vez que a confiança ingênua permite o triunfo do mal, pois a ingenuidade provoca a deslealdade no irmão, no igual. Eis o tema dos grandes protagonistas ingênuos: “a ingenuidade acaba por perder não só sua eficácia como ainda o seu valor moral.” A ingenuidade é inócua e venéfica. É assim que um ingênuo retratado por Shakespeare, enganado em um ou dois atos, finda por concluir, como num processo de indução vulgar, que o mundo é mau e que os homens são, genericamente, maus. A ingenuidade é o porto seguro da desconfiança.

O problema ético que advém desta situação é que a desilusão com o mundo e com os homens transforma-se em misantropia (antropofobia), e, em conseqüência, perde-se qualquer medida de convivência social. Misantropia e melancolia[18] andam de par, como em uma pintura de Dürer. A misantropia propõe tantas mediações entre o homem tomado por tal e os outros homens, entre a vida privada e a pública, que o resultado é a volta ao confinamento em si mesmo –a introspecção. Retorna-se a Heráclito: “...vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular.”

Shakespeare apresenta também vilões inteligentes e audazes, para os quais o conhecimento dos homens transforma-se num princípio do mal, em instrumento que permite manipular os homens. Porém, isto gera um obstáculo psicológico, pois se parte do desprezo pelos seres humanos. Ocorre que vilões inteligentes negam a existência e o poder das virtudes. Como resultado tudo parece ir aos pares: desprezo e ódio; equilíbrio e desequilíbrio; maus versus misantropos. Quem conhece os homens, os ingênuos ou os perversos? Os que crêem nas aparências e sentimentos? Ou os que crêem nas essências e “ocasiões”? Acaso existirá algum tipo de comportamento para além da ingenuidade - tal uma cegueira - e o mal - qual conhecimento astuto? Para Bacon, o segmento de reta parece não ser a menor distância entre dois conhecimentos – de si e dos outros.

À mesma questão, Shakespeare responde com uma certa utopia, a medida entre fé cega e cinismo. Exemplifica-se com Hamlet, que não é um herói ingênuo, pois conhece os homens notavelmente. Hamlet interroga as pessoas, tira conclusões rápidas, lê nos olhos dos interlocutores. Hamlet ensina a ver nos olhos dos suspeitos, dos inimigos. Ele experimenta as pessoas, mas não joga com elas. O conhecimento dos homens não é simplesmente um meio de fazer justiça, mas o ponto eqüidistante que conduz à honra e à própria vida. Hamlet é o melhor juiz dos homens pelo viés de critérios éticos, mas pode enganar-se. Ao passo que o vilão calculista identifica honestidade com ingenuidade. Para Hamlet o tempo desarranjado já não pode mais ser reparado... E acaba vítima do seu primeiro e único erro quanto ao conhecimento dos homens - havia veneno no florete de seu desafiador -. Afinal, é no mundo da ação que o conflito entre aparência e essência, entre exterioridade e interioridade, deve ser resolvido. Hamlet morrendo balbucia: “...o resto é silêncio.”

O caráter dramático do teatro de Shakespeare - e a sua abertura em relação ao futuro - explicam o fato de a cultura inglesa ser aquela que, dentre todas as renascentistas, melhor compreendeu desde a partida - praticamente no momento do seu nascimento - as contradições do modo de produção capitalista nascente. Se com Thomas Morus lança-se em cena a pauperização dos trabalhadores[19], com Shakespeare é a espetacularização do poder destrutivo do dinheiro dos novíssimos tipos sociais que se desvela no proscênio.

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O desenvolvimento de individualidades, durante o Renascimento, com características pontuais, engendrou o aparecimento de um gênero literário: autobiografia.

À época do Renascimento, com o aparecimento de personalidades individuais extraordinárias e multifacetadas, juntamente com o aparecimento de formas analíticas de autoconhecimento, pode ser considerada como a era de grandes autobiografias. Ao final da Antigüidade, As Confissões de Santo Agostinho – produzidas ao sabor da queda do Império romano e da imediata invasão dos bárbaros – não devem ser consideradas como autobiografia no sentido moderno do termo, pois retrata a trajetória de um homem, porém voltada para o universal concreto: a santidade de Cristo.[20] Durante a Idade Média, sob a hegemonia político - cultural da Igreja, o gênero não teria florescido, independente da existência de individualidades – santos, reis, guerreiros -, que assentaram relatos de suas vidas. Talvez a obra que dividiu águas tenha sido a de Abelardo – não tão santo - com sua Historia Calamitatum, calcada na contradição entre o destino pessoal e a fé religiosa. Porém, sem termo de comparação com as renascentistas. As autobiografias modernas relatam processos pessoais de educação moral, desenvolvimento físico e espiritual, e vocações. Durante o Renascimento, a consciência de si próprio e a auto-análise foram secularizadas, também a autobiografia o foi, com base numa mundividência fundada no ateísmo prático e na imagem do homem a criar a si mesmo e ao mundo. Pelo fato de que as pessoas não podiam escolher o seu destino, não havia autobiografias na Antigüidade. Esta época conheceu biografias breves, como registros de fatos de vidas ilustres e comentários de obras, pela pena de Plutarco e Diógenes Laércio.

O que contêm as autobiografias? “Todas as autobiografias são a história da formação de uma personalidade. Na medida em que descreve a maneira como as experiências educam um ser humano e como através delas ele se forma, constitui um Bildunsgroman (romance de formação). O quinhão de cada um na vida abunda em erros, mas estes erros, e aqueles a que dão origem, fazem evoluir o homem: a experiência significa aprender com os erros do passado. O indivíduo é enriquecido; os êxitos, mesmo quando acidentais, são os êxitos da sua própria personalidade, e os fracassos são relativos, porque servem de lição; a vida do indivíduo nunca é um fiasco, mesmo que fracassem muitas aspirações.”

Mesmo que Montaigne tenha escrito nos Ensaios, “sou o único tema deste livro”, as duas autobiografias modelares do Renascimento são as de Cardano e Cellini. Alguns comentadores incluem no rol autobiografias de Teresa de Ávila e de Ignácio de Loyola.

Acerca do De propria vita, de Cardano (1501-1576), Italo Calvino escreveu: “Domina a autobiografia uma contínua preocupação por si mesmo, pela unicidade da própria pessoa e pelo próprio destino, segundo a observância astrológica, razão pela qual o acúmulo de particularidades díspares em que consiste o indivíduo encontra uma origem e uma razão na configuração do céu ao nascer.” Prossegue Calvino lembrando que “delicado e doentio, Cardano exerce sobre a saúde uma tríplice atenção: de médico, de astrólogo, de hipocondríaco ou, como diríamos hoje, de psicossomático. E assim sua ficha clínica é assaz minuciosa, das doenças que o mantêm muito tempo entre a vida e a morte até minúsculas espinhas no rosto.”[21] Isto é objeto de um dos primeiros capítulos da autobiografia de Girolamo Cardano. A obra é construída com temas díspares: “os pais (‘mater fuit iracunda, memoria et ingenio pollens, parvae staturae, pinguis, pia’), o nascimento e seus astros, o retrato físico (minucioso, impiedado e satisfeito numa espécie de narcisismo ao contrário), a alimentação e os hábitos físicos, as virtudes e os vícios, as coisas que mais lhe dão prazer, a paixão dominante pelo jogo (dados, cartas, xadrez), a maneira de vestir, de andar, a religião e as práticas devotas, as casas onde morou, a pobreza e os danos ao patrimônio, os perigos que correu e os acidentes, os livros escritos, os diagnósticos e as terapias mais bem sucedidas em sua carreira de médico...”[22] – Fígado, rins, baço...

Cardano, antecipando Nietzsche, circunscreveu em livro um balanço de suas obras. Escreveu com este fim De Libris Propriis.[23] Benvenuto Cellini (1500-1571), refinado maneirista, ourives, escultor e medalhista, desnudou-se em La Vita. Fugindo de ser biografado por Vasari,[24] preferiu auto-apreciar suas mazelas e glórias, sem nenhum prurido moral. A obra, cujo título por inteiro é La Vita di Benvenuto di Mº Giovanni Cellini fiorentino scritta ( per Lui Medesimo) in Firenze, em grande parte ditada, traz, como epígrafe, um soneto de título simplificado, homônimo da obra. Ei-lo:

«»
(“Escrevo minha vida acidentada,

graças rendendo ao Deus da Natureza,

que a alma me deu, tornando-a sem fraqueza;

altas coisas eu fiz na minha estrada.


Minha sorte cruel e malfadada

Negou-me o brilho e as glórias da riqueza,

Negou-se a força, o encontro da beleza,

Não me vindo em partilha quase nada.


Mais só lamento um outro de valia;

o tempo que perdi em ninharia;

o pensamento, o vento no-lo espana.


Não sou, porém, nenhum arrependido

e Benvenuto alegro-me em ter sido

na graça desta terra da Toscana.”[25]
)


Irreverente, mordaz, presunçoso, estes são alguns qualificativos dirigidos a Cellini por seus críticos e comentadores, relativos tanto à sua obra artística, quanto à sua autobiografia e vida, propriamente dita. Através de La Vita, revela-se amoral (praticamente), bissexual, arreliante, assassino de maridos ofendidos em sua honra pela via dos duelos justos, defensor pessoal do papa Clemente VII, no castelo de Sant’Angelo, quando do saque de Roma pela soldadesca de Carlos V,[26] artista excelente. A abertura da autobiografia é reveladora. Escreveu: “Todo homem que produz qualquer obra de mérito deveria, sendo sincero e honesto, escrever com o próprio punho a sua vida; mas essa empresa não deve ser encetada antes dos quarenta anos. Compreendi isto agora, que cheguei aos cinqüenta e oito e me encontro em Florença, minha pátria; pensando nas inúmeras iniqüidades que afligem a espécie humana vejo que nunca estive menos atormentado por elas. Parece-me antes que nunca vivi tão contente de alma e de melhor saúde. Hoje, enfim, que à recordação de alguns instantes felizes vêm juntar-se a de males tão terríveis, admiro-me de haver chegado a esta idade, cinqüenta e oito anos completos, com os quais, felizmente e com a graça de Deus, prossigo o meu caminho.” Cellini é autor do apreciadíssimo Trattato dell’oreficeria.

Resta saber que implicações a praxis do individualismo renascentista trouxe para o desenvolvimento da concepção de homem moderno e contemporâneo. Pascal, Vico, Krause, Stendhal, Marx, Nietzsche, Arendt, que respondam.


Poços de Caldas, Inverno de 2001.


Referências

  1. “Nem todos têm igual fisionomia, / mas tampouco diferente”.
  2. Ambos de autoria de Vespucci, ambos tidos como apócrifos. A propósito, conferir TODOROV, Tzvetan – “Viajantes e Indígenas”, In GARIN, Eugenio (org.) – O Homem Renascentista, tradução Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Lisboa, Presença, 1991, pp. 231/248. Conferir também FONTANA, Riccardo – O Brasil de Américo Vespúcio, tradução Edilson Alkmim Cunha e João Pedro Mendes, Brasília, UnB/ Linha Gráfica, 1994, 1995. Ver ainda ZWEIG, Stefan – Américo – Uma Comédia de Erros na História, tradução Claudio G. Hasslocher, Rio de Janeiro, Guanabara, 1943; em especial, os capítulos “Imortalidade proveniente de 32 páginas” e “Dá-se nome a um mundo”, pp. 37/54 e 57/74, respectivamente. Se Vespucci navegou como astrônomo e cosmógrafo e não como piloto, conferir MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas – A Astronomia na época dos descobrimentos – O céu dos navegantes nos séculos XV e XVI – A importância dos árabes e judeus nas descobertas, Rio de Janeiro, Lacerda, 2000, p. 147.
  3. A propósito da “introspecção cartesiana”, conferir In ARENDT, H. – A Condição Humana, 7ª edição, tradução Roberto Raposo, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1995, pp. 293/297.
  4. HAZARD, Paul – Crise da Consciência Européia (1680-1715), tradução Oscar de Freitas Lopes, Lisboa, Cosmos, 1948, pp. 15/16. Conferir “Do que sucedeu a Dom Quixote com um discreto Cavaleiro da Mancha”, In CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de – Dom Quixote de la Mancha, tradução Viscondes de Castilho e Azevedo, S. Paulo, Abril Cultural, 1978, pp. 369/374.
  5. HELLER, Agnes – O Homem do Renascimento, tradução de Conceição Jardim e Eduardo Nogueira, Lisboa, Presença, 1982, p. 163.
  6. “...gigantes com poder de pensamento, paixão, caráter, multilateralidade e sabedoria. Os homens que estabeleceram o moderno domínio da burguesia eram alguma coisa em quase nada limitados pelo espírito burguês. Muito pelo contrário, o caráter aventureiro dessa época neles se refletiu em certa dose. Não existia, então, quase nenhum homem de certa importância que não tivesse feito extensas viagens; que não falasse quatro ou cinco idiomas; que não se projetasse em várias atividades.” ENGELS, F. – A Dialética da Natureza, 6ª edição, Rio de Janeiro, Paz Terra, 2000, p. 16.
  7. Conferir “Il mondo como avventura”, In BATKIN, Leonid M. – L’Idea di Individualità nel Rinascimento Italiano, tradução de Valentina Rossi, Roma-Bari, Laterza, 1992, pp. 160/165.
  8. Segundo Masters, Leonardo da Vinci vivia às voltas com as questões financeiras, pelo não recebimento do devido por parte dos “patronos” (mecenas). Além do que, preocupava-se, ainda segundo Masters, em demasia, o que é de bom alvitre, em guardar um pão para a velhice. Conferir MASTERS, Roger – Da Vinci e Maquiavel: um sonho renascentista – De como o curso de um rio mudaria o destino de Florença, tradução Maria Luiza X. de A Borges, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999, pp. 105/153.
  9. “A moderna perda de fé não é de origem religiosa – não pode ser atribuída à Reforma nem à Contra-Reforma, os dois grandes movimentos religiosos da era moderna - e seu alcance não se limita de modo algum à esfera religiosa. Além do mais, mesmo que admitíssemos que a era moderna teve início com um súbito e inexplicável eclipse da transcendência, da crença de uma vida após a morte, isto não significa absolutamente que esta perda houvesse lançado o homem de volta ao mundo. Ao contrário, a história demonstra que os homens modernos não foram arremessados de volta a este mundo, mas para dentro de si mesmos.” ARENDT, Hannah – Op. cit., pp.265/266.
  10. De individualitas aparece na linguagem filosófica desde as traduções latinas de Avicena. A palavra tornou-se mais usual desde Leibnz.
  11. “Dos costumes e da inconveniência de mudar sem maiores cuidados as leis em vigor”, (Cap. XXIII, Livro I), In MONTAIGNE, M. – Ensaios, 2ª edição, tradução Sérgio Milliet, S. Paulo, Abril Cultural, 1980, p. 62. (Col. “Os Pensadores”)
  12. Canção “O Estrangeiro”, In VELOSO, Caetano – Estrangeiro, Lp, Brasil, Polygram, 1989.
  13. A propósito, conferir “La Filosofia oculta en la época isabelina en Inglaterra”, In YATES, Frances A. – La Filosofia oculta en la época isabelina, tradução Roberto Gómez Ciriza, México, Fondo de Cultura Económica, 1992, pp. 131/276.
  14. “Da simulação e da dissimulação”, In BACON, Francis – Ensaios, 3ª edição, tradução Álvaro Ribeiro, Lisboa, Guimarães, 1992, p. 44.
  15. A propósito, Heller considerou: “É imprudente na medida em que através dela o homem ‘se mostra’ aos outros; e é uma ‘fraqueza’, dado que não pode manter-se sob controle, violando freqüentemente o tato, o decoro e o civismo (e como tal constitui uma manifestação de falta de cultura, de negligência e de brutalidade).” HELLER, Agnes – Op. cit., p. 174.
  16. Ver “Favola”, In MACHAVELLI, N. – Opere, vol. 4, a cura di Luigi Blasucci, Torino, UTET, 1989, pp. 235/244.
  17. Conferir “Próspero, el mago shakespeariano”, In YATES, Frances A – Op. cit., pp. 268/276.
  18. Sombreado por Montaigne, Robert Burton escreveu Anatomy of melancholy, em 1621, sob o pseudônimo de Democritus Minor, relembrando Demócrito, afetado pelo “humor sombrio”.
  19. “As grandes utopias do Renascimento são (...) a expressão das camadas indecisas que tiveram de suportar as despesas da transição de uma forma de economia para outra. (...) São exatamente essas camadas que representam a primeira forma de protesto moderno. (...) Os utopistas são testemunhas de como o lucro acumulado de uma economia mercantil se transforma na roda motriz da história. Das riquezas acumuladas nas cidades surgem perante os seus olhos as grandes manufaturas e outros empreendimentos, que derrubam economicamente o velho sistema de corporações e despoletam uma nova forma de produção dominante.” HORKHEIMER, Max – Origens da Filosofia Burguesa da História, tradução Maria Margarida Morgado, Lisboa, Presença, s.d., pp. 75/76. “A utopia renascentista nada mais é do que a secularização do céu medieval. (...) A transformação do cavaleiro em funcionário, do aldeão em súdito obediente, implica numa reviravolta das concepções utópicas.” TRAGTENBERG, Maurício – “As utopias a partir do Renascimento”, In Revista de Cultura Vozes, ano 67, vol. LXVII, nº 1, Petrópolis, Vozes, jan./fev. 1973, p. 15.
  20. Santo Agostinho inicia as Confissões afirmando: “Grande es Tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a tua sabedoria não tem limite “, paráfrase dos salmos 47, 2; 95, 4; 144 ,3; 146, 5. “As Confissões de um Santo Agostinho estão na exata antípoda do que se vê na literatura biográfica moderna. Para o bispo de Hipona seria ocioso e desinteressante (ao menos) prender-se às peripécias de uma vida enquanto descrição de acontecimentos interessantes ou mais ou menos inusitados; o que Agostinho nos relata deve ser encarado em outra perspectiva: a do itinerário de uma alma singular em seus avanços de aproximação da realidade divina.” BORNHEIM, G. “O sujeito e a norma”, In NOVAES, Adauto (org.) – Ética, S. Paulo, Cia. das Letras / Secretaria Municipal de Cultura, 1992, p. 249.
  21. CALVINO, Italo – Por que ler os clássicos, tradução de Nilson Moulin, S. Paulo, Cia. das Letras, 1993, p. 86. “Em um dos rascunhos de suas Confissões, Rousseau menciona de passagem Montaigne e Cardano –o filósofo especulativo da natureza, contemporâneo de Montaigne... Insiste, de certa forma injustamente, em que nada tinha a aprender com esses dois filósofos. (...) Para Rousseau, Montaigne estava ‘à frente de todos esses falsos sinceros que pretendem enganar contando a verdade’; e Cardano, para ele, era ‘tão louco que ninguém poderia aprender alguma coisa com as suas fantasias.” In GAY, Peter – O Coração Desvelado: a experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud, tradução de Sérgio Bath, S. Paulo, Cia. das Letras, 1999, p.389n.
  22. CALVINO, Italo – Op. Cit., p.86/87. “O relato cronológico de sua vida ocupa só um capítulo, bem pouco para uma vida tão movimentada. Mas muitos episódios são contados mais difusamente nos vários capítulos do livro, das aventuras do jogador, na juventude (como logrou a golpes de espada fugir da casa de um trapaceiro, patrício veneziano) e na idade madura (naquele tempo se jogava xadrez a dinheiro e ele era um enxadrista imbatível a ponto de se ver tentado a deixar a medicina para ganhar a vida jogando), à extraordinária viagem através da Europa para chegar à Escócia onde o arcebispo doente de asma esperava seus cuidados (após muitas tentativas, Cardano conseguiu obter melhorias proibindo ao religioso o travesseiro e o colchão de penas), à tragédia do filho decapitado por uxoricídio. Cardano escreveu mais de duzentas obras de medicina, matemática, física, religião, música. (Só não se avizinhou das artes figurativas, como se a sombra de Leonardo, espírito semelhante ao seu sob tantos aspectos, bastasse para cobrir aquele campo.) Escreveu também um elogio de Nero, um estudo sobre a podagra, um tratado de ortografia, um tratado sobre os jogos de azar (De ludo aleae). Esta última obra... é importante como primeiro texto de teoria da probabilidade...” Idem, p. 87.
  23. Conferir MACLEAN, Ian – “Interpreting the De Libris Propriis”, In BALDI, Marialuisa e CANZIANI, Guido (a cura di) – Girolamo Cardano. Le Opere, le Fonti, la Vita, Milano, Francoangeli, 1999, pp. 13/33.
  24. “Na autobiografia..., sabemos de todas as experiências exclusivamente pela mediação daquilo que foi plenamente vivido por nós. Cellini, por exemplo, não se pensou a si próprio no mundo espiritual de Vasari e, no entanto, a figura e a mente de Vasari só nos surgem através dos olhos de Cellini; para nós só existe o Vasari que Cellini viu, enquanto existe para nós um outro Iago, diferente daquele que Otelo viu.” In HELLER, Agnes – Op. cit., p. 200.
  25. CELLINI, Benvenuto – Vida de Benvenuto Cellini – escrita por ele mesmo, 1º vol., S. Paulo, Athena, 1939, p.11.
  26. “A milícia romana e os guardas suíços combateram valorosamente, mas acabaram sendo aniquilados. Clemente, a maioria dos cardeais residentes e centenas de funcionários fugiram para Santo Ângelo, donde Cellini e outros procuraram deter os invasores por meio do fogo de artilharia.” In DURANT, Will – A Renascença – A História da Civilização na Itália de 1304 - 1576, Col. “A História da Civilização”, vol. 5, tradução Mamede de Souza Freitas, 2ª edição, Rio de Janeiro, Record, s.d., p. 509.



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