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Horror à Revolução

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Ricardo Flores Magón


"Não queremos lutas fatídicas, não queremos sangue, não queremos guerra", dizem os tementes. E falam em seguida dos horrores da matança: o sangue correndo em abundância, a atmosfera carregada de fumaças espeças, o ruído ensurdecedor das armas de fogo; sangue, agonia, morte, incêndio, que horror!

Que horror! Na verdade, companheiro, nada tem de agradável o espetáculo que oferece a guerra; mas a guerra é necessária. É necessária a guerra quando há algo que se opõe a conquista do bem estar.

É horrível a guerra, custa muitas vidas, muitas lágrimas e muitas dores; mas o que dizer da paz? Que dizer, companheiros, da paz sob o presente sistema de exploração capitalista e de barbárie governamental? Garantiria sequer a vida esta paz?

Por mais horrível que a guerra seja, não ultrapassa o horror da paz. A paz tem suas vítimas, a paz é sombria; mas não porque a paz, por si mesma, seja má, mas porque o conjunto de circunstâncias que a compõe na atualidade. Sem necessidade que haja guerra, há vítimas em tempo de paz, e, segundo as estatísticas, as vítimas em tempo de paz são mais numerosas que as vítimas em tempo de guerra. Basta ler todos os dias os jornais para se convencer de que é uma verdade o que eu digo. Já é uma mina que se acaba e ficam desempregados centenas de milhares de trabalhadores, ou bem, um trem que descarrila e produz a morte dos passageiros; ou um navio que se quebra e sepulta no fundo do mar muitas pessoas. A morte espia a todo ser humano em todos momentos da sua existência. O trabalhador cai dos andaimes e se despedaça o corpo. Outro, manejando uma máquina, corta seu braço, uma perna e fica mutilado ou morre. O número de pessoas que morrem anualmente em virtude de catástrofes mineiras, ferroviárias, marítimas e de outras naturezas é verdadeiramente alarmante. Os que morrem como conseqüência de incêndios em teatros, hotéis e casas alcançam uma cifra desesperadora a cada ano.

Mas não é isso tudo: as condições de insalubridade em que se efetua o trabalho nas fábricas e ateliês; a perda de energia das tarefas; a incomodidade e insalubridade das casas dos trabalhadores, forçados a viver em verdadeiras favelas; os problemas do bairros obreiros; a mal alimentação que o trabalhador pode conseguir com o salário miserável que ganha; e o desgosto que produz o fato de se encontrar sob a influência dos policiais, sob leis bárbaras ditadas pelo estúpido egoísmo das classes abastadas, sob a influência de marionetes descerebradas que fazem a autoridade; tudo isso: insalubridade, mal alientação, trabalho cansativo, inquietudo do que esta por vir, desgosto do presente, minam a saúde das classes pobres, engendram enfermidades espantosas como a tuberculose, a febre tifóide e outras que dizimam os deserdados e cujos estragos alcançam a todos: a homens, mulheres, anciões e crianças. O que não ocorre com a guerra, na qual é raro o mal trato com anciões, às mulheres e crianças, a não ser que se trate de um tirano bestial - como Porfirio Diaz¹ - para quem não há nesta vida criatura respeitável. O tigre morde indistintamente as carnes de um velho, de uma mulher ou de uma criança.

Todas estas calamidades, que sofre a humanidade em tempos de paz são resultado da impotência do governo e da lei para fazer a felicidade dos povos pela razão sensível de que tanto o governo como a lei não são outra coisa do que guardiões do capital; e o capital é nosso cárcere comum. O capital quer ganância e, portanto, não se preocupa com a vida humana. O dono de uma mina não se preocupa que o local de trabalho ofereça riscos para a vida dos que trabalham; não faz as obras necessárias para que o trabalho se efetue na mina em condições de segurança que garantam a vida dos mineiros. Por isso se acabam as minas, ocorrem explosões, os obreiros se desprendem dos elevadores e tantos outros sinistros. O capitalista teria que ganhar menos se protegesse a vida de seus operários, e prefere que estes se explodam em uma catástrofe; que as viúvas e os órfãos pereçam de fome ou se prostituam para poder viver, a gastar algumas somas em favor dos que com seu trabalho o enriquecem, dos que com seu sacrifício o fazem feliz.

Igualmente se pode dizer dos desastres de trens e marítimos. O péssimo material que utilizam para construir os barcos, os carros e os trens, para obter tudo isso ao menor custo possível, e a deterioração que ocorre neles com o uso; o fato das companhias terem que usar tudo até sua máxima duração para gastar menos, esquecendo-se que tudo está em péssimo estado, que há que investir o quanto menos para ganhar o quanto mais, fazem que a insegurança seja efetiva e as catástrofes iminentes.

A ganância que quer o capital é, também, a causa do trabalho nas fábricas e ateliês se faça em condições de insalubridade manifesta. O capitalista teria que gastar dinheiro para que as condições higiênicas dos lugares de trabalho sejam boas, e é precisamente o que não quer. A saúde e a vida dos trabalhadores não entram nos cálculos dos capitalistas. Ganhar dinheiro, não importa como, é a premissa dos senhores burgueses. A miséria, por si só, é mais horrível que a guerra, e causa mais estragos que ela. O número de crianças que morrem cada ano é fabuloso; o número de tuberculosos que morrem a cada ano, é, igualmente, admirável. Esses falecimentos se devem a miséria, e a miséria é o produto do sistema capitalista.

Porque temer a guerra? Se se tem que morrer esmagado pela tirania capitalista e governamental em tempo de paz, porque não morrer melhor combatendo o que nos esmaga? É menos espantoso que se derrame sangue para conquistar a liberdade e o bem-estar, que continue se derramando sob um sistema político e social em proveito de nossos exploradores e tiranos.

Além disso, a guerra não produz tantas vítimas como a paz sob o atual sistema. O número de pessoas que resultam mortas em uma batalha ou em um encontro é reduzidíssimo em comparação com o número de homens que entraram na batalha em ambas as partes; e se fosse possível que toda uma nação estivesse em revolução, se este estado de guerra durasse um ano, ao final desse tempo se veria que, por dificuldades que possuiam o capitalismo para explorar os trabalhadores por estar a maior parte desses com armas na mão, o número de falecimentos decresceria, ou ao menos teria sido igual aos anos de paz. Isto se pode comprovar em países que estiveram em revolução. Os trabalhos se suspendem por causa da guerra; os trabalhadores trocam o mal da fábrica, do ateliê ou da mina, pela vida sã do ar livre, comendo carne em abundância, fazendo exercícios saudáveis, e, sobretudo, tendo reanimado o espírito com a esperança de trocar de condição, ou simplesmente satisfeitos de levantar o rosto e se sentirem livres com seus amos espantados.

É melhor morrer atravessado por uma bala defendendo seu direito de bem-estar e o de seus irmãos, que morrer parado, como uma minhoca, sob os escombros da mina, ou triturado pela maquinaria, ou em uma agonia penosa e lenta em um rincão de fumaça negra. Gritemos com todas nossas forças: Viva a revolução! Morra a paz capitalista!


Ricardo Flores Magón Regeneración, 17 de dezembro de 1910


Tomado de: Regeneración 1900-1918: La corriente más radical de la revolución mexicana de 1910 a través de su periódico de combate, Quinta reimpresión, Ediciones Era, México, 1991.

NT 1: Presidente do México por três períodos durante o último quarteto do século XIX.



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