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De História e de Filmes
PREÂMBULO PARA UMA LONGA SEGUNDA PARTE
Manual de Contra-História na Antimodernidade
Eduardo Antonio Bonzatto


«...a imagem tem sempre tido uma reputação de facilidade. Na nossa cultura judaico-cristã, a leitura tinha um papel nobre, e a imagem um papel de superficialidade. É verdade que admitimos que a imagem seja polissêmica, mas há muito pouca gente que conheça realmente a natureza da imagem. Na realidade, apesar de a imagem ser mais antiga que a escrita, e a comunicação pela imagem ser igualmente anterior à escrita, sempre se valorizou a transmissão cultural pela escrita.'' '(...)Tem-se uma relação muito ambígua com a imagem. Isso se deve, em parte, ao fato de que é preciso muito esforço para conhecer o alfabeto e ser capaz de decifrar uma página (aliás, trata-se de uma atividade mensurável – consegue-se ou não decifrar uma página), enquanto a leitura de uma imagem é muito complexa e não existe uma ‘boa’ leitura que ultrapasse as outras. Além disso, esquecemos – justamente porque não reconhecemos a utilidade de ensinar imagens – que uma imagem pode sempre esconder um aspecto que nos escapa. Diria que, de alguma maneira, a imagem é um instrumento de manipulação mais sutil do que a escrita. Pois tem ou pode facilmente ter uma dimensão que escapa àquele que quer transmitir a imagem.»
(Saúdo a imagem! E as imagens vos saúdam!)


Este deveria ser um trabalho sobre filmes e história. Sua arquitetura foi pensada para um formato bastante abrangente, incinerando certos cânones acadêmicos ao mesmo tempo em que trata assuntos resolvidos sob diferentes possibilidades de leitura.

O ideal seria que o leitor também tivesse acesso aos filmes. Isso facilitaria, embora seja minha intenção “narrar” o trecho do filme agregado a um conjunto de textos, que são, em sua grande maioria, de história, de diversos autores e tendências historiográficas. Mas a exegese requerida será ampliada para outros materiais escritos, tais como filosofia, quadrinhos, horóscopo, culinária, música, dentre outros.

De ante mão, explico a conexão que me move: textos e filmes implicam em trânsitos de temporalidades muito distintas e variadas, expondo como nenhuma outra a limitação da história oficial, pautada em documentos datáveis e coerências teóricas.

Pedagogicamente abrange todos aqueles que não compartilham plenamente da cultura escrita.

Educação deve ser, em tempos de cólera, subversão. Aliás, na origem, educação emerge como um volumoso crematório, em labaredas que consomem os senhores da prudência. Só depois, assustados com a fúria dos fraticcelli, esses eternos jovens revoltados contra a velha ordem, conceberam a pedagogia, o “tomar pela mão” que é seu significado mais ofensivo.

Em termos mais específicos, devemos nos rebelar contra dois constrangimentos que já estão fazendo água nestes tempos de dormência: a propriedade intelectual e a centralidade da cultura escrita.

O olho, com seus tentáculos extensos sobre a realidade, captura à velocidade da luz a dinâmica de realidades em vórtices que se cruzam, se trombam, se interconectam, se expandem, se recolhem e voltam a assumir a dimensão de universos em que a auto organização é seu arauto. Olho, auto organização, imperativos dinâmicos que recolocam os homens desse tempo em permanente estado educativo.

O olho não tem tempo para minúcias de esclerose, como as letras, que em sua dança imóvel parecem convocar toda a humanidade para o suicídio. A recusa da maioria é sábia e o analfabetismo é seu escudo de pura sobrevivência.

Não quero dizer com isso que devamos ser menos ambiciosos ou generosos, pelo contrário. A busca de uma nova genealogia educacional, fundada na visualidade, é não somente ampla, mas principalmente hegemônica, já que por uma síndrome perversa, educaram o mundo para o consumo fácil das imagens (lucen diffundo) justamente pelo olho e pela janela televisiva. Sabemos tudo sobre a imagem e inscrevemos nosso saber na mais perfeita rede de oralidade, pois é dialógica nossa natureza.

O cinema foi a arma imperialista mais eficaz já concebida. Agora, sem o querer, nos apropriamos de sua alma e vamos botar pra quebrar, pois não reconhecemos sua propriedade. Ele só tem posse e a posse é nossa, é de quem o quiser.

Lemos os filmes do nosso jeito e recortamos suas membranas como alegorias prosaicas. Emancipamos-nos ao invés de nos curvarmos. Se não podemos consumir, vamos fazer o deles nosso.

Não estamos brincando de esconder. Aprendemos a evocar velhos deuses pagãos, samurais rebeldes, hienas sorridentes e agora todo esse panorama cultural passa a ser de todos. Somos, juntamente com uma vasta rede de similares, os novos doadores de impropérios. Emissários de um rebolo espasmódico.

Queremos nos educar pela visão e arrancar do coração do poder seus dois servos letais: a propriedade intelectual e a centralidade da cultura escrita.

E como faremos isso? Simples: vamos piratear à exaustão os caros produtos para as massas. Vamos redistribuir simbolicamente a todos aqueles que não se consideram massa (Fecal? Biomassa? Massificada?). Vamos estabelecer uma rede visionária interconectada unicamente pelo olho e pela voz. Vamos subverter toda ideologia contida nestes discos prateados. Vamos vomitar de volta todo o horror que nos impuseram e vamos festejar.

Pois em chinês, “filme” quer dizer “sombras elétricas de letras que dançam”; nada poderia ser mais acalentador para uma educação subversiva e não persuasiva. Sobretudo é forçoso informar que o berçário em que acalantam o nosso presente é tecido de fios, placas, diodos e bytes.

Desse modo, realizamos sem barulho e sem alarde duas peças de puro teatro político: damos bananas para a propriedade intelectual, forjada, ela própria, no roubo descarado de uma meme que absolutamente não tem dono e recusamos a cultura letrada como autoridade única investida do poder de dizer. É uma de nossas batalhas contra o império.

Saudamos todos os analfabetos como irmãos em armas.

O mundo já é dos analfabetos!

Só precisamos reconhecer que o analfabetismo erige o território das conversas, resgata o império dos afetos e recomenda a proximidade futura guardada pelos acenos.

É preciso recuperar a distância imposta pela alfabetização.

A educação e o cinema de bolso são as nossas armas para enfrentar o recôndito multiverso do poder, pois se aqui se cultiva o indivíduo, ali elaboramos o condivíduo, sua contrapartida irônica, coletiva e traquina. O condivíduo é o bando. Se com o poder residem todos os crentes, conosco habitam nuvens de gafanhotos, pragas bíblicas e internets de varal, pois recusamos arbitrariamente a distância e precisamos, sempre urgentemente, do abraço de um novo amigo.

A educação não é outra coisa senão uma recusa enfática da hierarquia entre as pessoas, em práticas que estabeleçam rizomas fundos em nossa humanidade, na colaboração insistente que permeia cada encontro real, na recusa absoluta da virtualidade, das amizades telepáticas, dos amores de lítio e gazes.

A complexidade não é mais do que isso: um abraço real dado com cada troca, com cada troca de palavra, com cada movimento de insurgência que estabeleça com o olhar do outro alguma cumplicidade.

Esta é uma revolta possível.

Contra toda impossibilidade de revolta!

A favor do vento andino que sopra inclemente o corpo das montanhas mais nervosas da terra. Zonda é o seu nome e dele não queremos mais que inspiração, pois de nada adianta saber-lhe o nome: é preciso sentir-lhe a fúria açoitando a pele para que dele jamais nos esqueçamos.

Vamos lá, não perca mais tempo e dê-me cá um abraço!

Divago!

Filmes e historiografias, além de outros aportes, rompem com uma história localizável e, por suas naturezas epocais distintas, presentificam, sempre, a narrativa. Afinal, é do meu presente, e, mais, de minhas subjetividades, que tratamos aqui.

A interpretação que faço pode muito bem colidir com outras interpretações de diretores de uma linguagem que é, por excelência, a linguagem deste tempo.

Todo filme é, antes de tudo, uma teoria.

Ouso afirmar que toda a noção que temos, por exemplo, da segunda guerra mundial é hollywoodiana. A crença de uma guerra mecanizada vai para o lixo quando sabemos que só a Alemanha utilizou mais de 1 milhão de cavalos que transportavam metade de todo o seu maquinário bélico nesse conflito, enquanto os EUA deslocaram para a Europa nada menos do que 500 mil cavalos em navios e aviões.

Igualmente o é o tempo dos dinossauros. Quando precisou produzir Jurassic Park, o diretor tentou descobrir quem havia descoberto a cor da pele dos dinossauros. Encontrou o autor da façanha: então já velho operário de filmes antigos, do tempo em que os monstros eram produzidos em escala reduzida. Perguntado onde havia lido sobre a cor dos dinossauros respondeu que achava que só poderia ter sido daquele jeito. Ele havia criado as bases para todas as representações de dinossauros construídas a partir de então.

O cinema tem educado o mundo. Nada mais justo, portanto, que utilizá-lo num diálogo possível com a história. Mas a história e o cinema dividem outras idiossincrasias. Ambos foram erigidos como ferramenta de uma cultura central de dominação e ambos compartilham uma justa disputa pela verossimilhança.

Ambos tratam do presente, do seu próprio tempo de produção, embora aparentem tratar de outro tempo. Exemplo memorável foi O Gladiador, filme que tratava do declínio do império americano muito mais do que sua metáfora romana.

Quase sempre aliados, cinema e história divergem, por sua vez, em suas trajetórias. Enquanto a história, por seus próprios e peculiares mecanismos, manteve-se tímida em suas ousadias, conservadora em seus procedimentos e impositiva em suas instituições, o cinema pode criar divergência à vontade.

Tal se deve justamente a um abandono da criatividade por um, no caso a história, e um recurso constante à criatividade por outro, no caso o cinema. A ousadia do segundo, nesse caso, é ferramenta bastante adequada, portanto, para trançar o diálogo requerido entre ele e a história.

Isso só foi possível, justamente devido ao caráter pouco acadêmico do cinema. A trava das possibilidades sempre esteve em condição movediça, sempre prenhe de ousadias que podem auxiliar numa tarefa de ampliação igualmente da história. Para tanto, seria necessário que entendêssemos que a história, antes de tudo, é narrativa. Sua aproximação das ferramentas da ficção é um caminho profícuo na aproximação dela com o cinema e na vergência de uma instauração que é, igualmente, inauguração, no sentido de emergir uma leitura antes agradável que pesada, antes divertida que séria, antes ilimitada, pois livre, que fechada.

Se isso for possível, então esse caminho aqui proposto não é mais que um caminho, cuja estrada pode e deve ser seguida por quem quiser ou quem ousar. Basta para isso propor uma tese, nada acadêmica, nada limitada, mas algo que possamos travar alguma coerência. A esta tese, acrescentamos uma metodologia de ação. Depois é só percorrer o caminho.

O que tento dizer aqui é que não precisamos de nenhuma legitimação para travar contato com a história. Temos, igualmente, a obrigação de não acreditarmos nela, em suas insidiosas confirmações, inclusive esta, que pretendo encetar. Isso, sim, é a verdadeira limitação. Quando acreditamos que a história trata da verdade, então só nos resta conhecê-la. Quando, pelo contrário, acreditamos que é narrativa que legitima o poder, então podemos contar a nossa própria versão da história, dos acontecimentos. Sem, com isso, incorrermos em falha ou falsificações. Nossa impressão, respaldada em alguns recursos, é suficiente para construir e destruir ao mesmo tempo.

Vejamos um exemplo. O ataque às Torres Gêmeas em Nova York. O evento está lá, irrefutável, com seus dramas e suas mortes, um monte de escombros forjados em meio a vidas que se perderam para sempre, levando consigo muito mais que suas memórias.

As investigações, entretanto, geram ações muito precisas. Se foram terroristas muçulmanos os autores dos atentados, isso legitima, como legitimou, retaliações contra aqueles que foram forçosamente ligados aos eventos, no caso o presidente do Iraque, Saddan Houssein, antigo aliado norte americano e detrator intragável do pai do atual presidente, que tivera que sair de lá na primeira guerra do golfo com o rabo entre as pernas.

Ora, se tomamos outras interpretações, por exemplo, que uma elite militar norte americana provocou o atentado, como havia provocado num prédio público de Oklahoma alguns anos antes, então não haverá legitimação para a retaliação provocada. Assim serão todos os eventos, passíveis de narrativas que lhes dêem sentido. Sem as narrativas os eventos nada são, exceto montes de escombros e lamentos, cicatrizes vazias de sentido.

Ora, em grande medida quem são os responsáveis por tais construções, além de jornalistas e investigadores, são os historiadores, numa cadeia de elos cuja voz será sempre a voz da autoridade, já que seu reforço e sua fisiologia, com o passar do tempo, se revela cada vez mais orgânica, de tal sorte que dentre os elos, o quarto poder como é chamada a imprensa, apenas no episódico lhe faz contestação, ou quando é solicitado para alterar alianças velhas e novas.

E as justificativas para tais simbioses são muito simples: todas essas partes são elementos de instituições, a vasta rede de interconexões que faz o mundo girar.

Nesse sentido, a história é pouco confiável. No entanto, o cinema pouco está interessado nas questões da verdade, mas está totalmente interessado nas questões das possibilidades, num eterno devir que não tem tempo. Seja o passado, a matéria desse devir, seja o presente, seja o futuro, que não é mais que o presente em possibilidades e releituras. Tudo está no âmbito das possibilidades. E este artifício, mais do que todos os cânones, mais que toda exegese, é capaz de gerir uma realidade mais rica e viva, muito mais adequada aos tempos em que vivemos.

Essa junção da história com o cinema, portanto, expõe um canal de comunicação vívido que pode dialogar com os mais diversos sujeitos. De um lado, atende aqueles fanáticos pela escritura e pelas provas contundentes dos enunciados; de outro, abre-se para os férteis, para aqueles que conferem às imagens estatuto de divindades ou de oráculos.

O que realmente importa na questão que me interessa é o caráter abrangente da conexão e não seu caráter restrito, privilegiado. Sem postulados, a conexão é aberta e generosa, incluindo os duros e os preguiçosos, os devotos e os vagabundos, enfim, aqueles que rezam e aqueles que copulam num grande festim.

Assim, o que se propõe aqui é um trabalho ensaístico cuja trama se dá entre história, filmes (literatura, quadrinhos, propaganda, mitos), presente, passado, subjetividade (perspectiva) e historiografia. O tema geral poderia ser expresso nesses termos: Ensaios sobre a mentira. Sua vinculação epistemológica, teórica e metodológica se resume nessa frase de Jean Baudrilhard: “Sou um dissidente da verdade. Desenvolvo uma teoria irônica cujo objetivo é formular hipóteses. Lanço mão de fragmentos e não de textos unificados por uma lógica rigorosa”.

Exatamente por esta razão trabalharei com citações longas, na tentativa de expressar o melhor possível a idéia do autor e, principalmente, de oferecer os elementos que permitem uma interpretação mais livre, já que neste caso, não serão apenas os fragmentos, soltos, sem ligações, que estarão aí, com exceção de um ou outro tema, para exercício, mas, de resto, minhas próprias hipóteses alinhavam os fragmentos.

Ao longo deste trabalho você encontrará pequenas ilhas de descanso. Os grafites são do britânico Banksy :

Banksy é um pseudônimo. O público nunca viu seu rosto. Os repórteres que o entrevistaram não revelam sua identidade. Sabe-se que é um jovem na faixa dos 30 anos, que usa brinco e aprecia cerveja Guinness. Em entrevista ao jornal The Guardian, afirmou que nem seus pais sabem o que ele faz. Banksy ilustrou a capa do disco Think Tank, da banda Blur, em 2003. Mas diz só aceitar trabalhos nos quais acredita. Ele teria recusado diversas campanhas da Nike. Prefere enfeitar de graça os muros de Hackney e Shoreditch, zonas antes pobres do leste de Londres, mas que passaram a ser freqüentadas por artistas e cineastas e se tornaram bairros da moda nos últimos anos.


Manual de Contra-História na Antimodernidade
Collingwood e a invenção do anacronismo Homo videns Ensaios sobre a mentira

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