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Guerra e Condição Humana – Pausa e Intervalo

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«“Os pais comeram frutos amargos, os filhos têm feridas na boca.”»
((Gregory Bateson))


«“Este é tempo de divisas,

tempo de gente cortada.

De mãos viajando sem braços,

Obscenos gestos avulsos.

(...)

Símbolos obscuros se multiplicam.

Guerra, verdade, flores?”»
((Carlos Drummond de Andrade))


A guerra nos dias que correm é - antes de nada - espetáculo.[1] A Guerra do Golfo prenunciou o ensaio da generalização atual. Passados seis meses dos atentados terroristas às Torres Gêmeas de Nova York, como num circo, o espetáculo não pode parar. A par do discurso do presidente americano, a televisão divulgou cenas inéditas dos atentados, colhidas por dois cinegrafistas franceses. – Imagens do último avião a chocar-se contra a segunda torre e tomadas do desespero dos bombeiros preparando-se para entrar em ação, em meio a fumaça e poeira. Como se o espetáculo em tempo real na transmissão dos fatos originais - de setembro passado - não tivessem sido terríveis à medida. Ocorre que na guerra transformada em espetáculo, o que se derrama não é sangue cênico.

Por mais dificuldades que sugira a discussão sobre a “verdade” de um ponto de vista filosófico[2], desde o início da Era industrial, a “verdade das coisas em si”, como queria Feuerbach, tem migrado para a representação em imagens e, ultimamente, para o acúmulo de imagens. Ainda na Antigüidade, o estóico Marco Aurélio sugeria a “quebra da representação”, de modo que o conhecimento da “verdade em si” pudesse dar-se ao caso, vir à luz. Lembrava que se deve pensar sempre na hora extrema, a hora da morte, para o caso, pagã. Nos dias que correm, como a redução dos modelos ideais da ciência à tecnologia encaminha-se - em larga escala - para a produção bélica, com armas letais de alcance para toda a humanidade e, no mesmo passo, paira uma certa expectativa acerca do “fim do mundo” ou, ao menos, do “fim deste mundo”, dominado sutilmente pela mesma tecnologia produtora de falsas necessidades, que eternizam o controle social, desde a invasão do desejo de cada cidadão. O tema da morte/destruição pendula entre o da guerra e o da condição humana. Cedendo à má comparação, Bin Laden assemelha-se ao Marquês de Sade dos dias da Revolução Francesa. Se Sade radicalizou as premissas do Iluminismo, tomado como suporte da ideologia moderna, pelo viés da obliqüidade moral, - o tema de Julliete é o da apatia estóica frente o espetáculo do “trabalho sexual” -; Bin Laden com seu terrorismo high tech opera o desandar do neoliberalismo, a ideologia yuppie da pós-modernidade. Terrorismo é “pedagogia dos fatos”, que expõe mazelas e fragilidades da tecnoburocracia contemporânea. Ainda, se Sade estetizou a tortura, Bin Laden estetizou a exclusão social. O horror sentido frente às execuções sob a Revolução Francesa e o terror atual são sacrifícios do espírito humano. Sob a vaga de coincidências, Sade e Casanova foram contemporâneos. Certa vez, de passagem por Paris, Casanova ficou tão excitado frente ao espetáculo da execução na guilhotina, que copulou com a companheira de assistência, em público. Daí talvez a necessidade do rufar de tambores para encobrir os gritos subversivos dos condenados. Sem o som dos tambores, os inquisidores do Santo Ofício ordenaram que se costurasse, literalmente, os lábios de Giordano Bruno, de modo a evitar que - durante o trajeto da prisão à fogueira, em que foi queimado vivo – blasfemasse. Isto tudo é menos e mais que espetáculo, pois a guilhotina foi, a seu tempo, a filantropia da execução – a dor sem tortura.

Michel Foucault alertou para a abolição do espetáculo da humilhação e execração públicas, desde a de Danton. Na seqüência, o que deveria aparecer era tão somente o resultado da abjeção, de preferência sem a “cena“ do espetáculo em si, a não ser uma comedida e higiênica notícia a respeito. Porém, com a televisão retomou-se a possibilidade de se mostrar “tudo”. Ocorre que com a queda das Torres Gêmeas, para além do espetáculo, a carnificina trouxe um cheiro insuportável, como simulacro e antecipação das pestes da Antigüidade, Idade Média, Primeira Guerra Mundial... A fetidez denunciando o espetáculo. A peste como metáfora do fim de um tempo.

Há uma curta distância entre gênio, louco e criminoso. Tanto Bin Laden nas cavernas, quanto Sade no hospício, são enquadráveis sob a tríade, de modo alternado, como sob o girar de um caleidoscópio. Porém, são expressões pontuais do mal-estar de tempos distintos. – O leitor module a perspectiva!

A pós-modernidade, como uma Segunda Belle Époque, portanto uma farsa, viu a transformação dos trabalhadores em consumidores livres frente às mercadorias predeterminadas. Mas tão somente isto. Por serem as mercadorias descartáveis e objetos de desejo, o pensamento pós-moderno propõe o “lego-mental”. A receita é a seguinte: toma-se os elementos culturais disponíveis, une-os de acordo com a vontade de cada um. A proposta em síntese é faça você mesmo sua ideologia. O que se dá ao acaso juntando cacos da moral, do direito, da religião, da política, da ciência, da filosofia, das artes... De preferência de acordo com o teto de rendimento de cada cidadão.

Por isso, se a responsabilidade se dilui na irresponsabilidade pessoal e social, o criminoso se declara inocente, o ladrão transfigura-se em injustiçado, o ateu prático se traslada em crente penitente... Tais simulacros são postos em xeque pelo terrorismo, que instabiliza pela base o festim neoliberal - ao apagar das Luzes. Regressamos à antiga fórmula: em política também há leis físicas, em especial a da gravidade: sobressai-se, em geral, o que primeiro produz fatos e os divulga abertamente. Política, sob um enfoque imediatista, apresenta-se como a arte do controle social e de desnaturar palavras. Neste último round, o terror parece ter saído à frente. E o “lego-mental” finda incompleto dada a dificuldade de encaixar a peça “terrorismo”, em cena desde os zelotes em guerra de guerrilhas contra os romanos.

Se o terror opera pela “pedagogia dos fatos” e fatos são pedras duras[3], a globalização, que é sinônimo de padronização cultural, econômica, política, não conseguiu – não tem conseguido – assimilá-lo e incorporá-lo. Eis a questão! Eis o desafio. Poderá assimilá-lo? Poderá eliminá-lo? Se nenhum Herman Kahn de plantão nos socorre...

A pós-modernidade é um dançar-agrilhoado, sob uma estrutura social suicidária. Com a guerra atual entre EUA e terrorismo, -ao menos em sua superfície pretende-se tal denotação -, opera-se um retorno à mitologia, como fenômeno extra-agências de publicidade: o enfrentamento entre o tribal e a superpotência. Enquanto o afegão acuado “papa” terra, literalmente, buscando no solo duro, ao menos sais minerais - como faziam os escravos negros em passado recente no Brasil; os norte-americanos, 6% da população mundial, consomem aproximadamente 40% da produção global. Freud numa avaliação sumária, após sua passagem por aquelas plagas, no outono de 1908, comentou com Ernst Jones, seu discípulo e biógrafo: “A América é um equívoco; um gigantesco equívoco, é bem verdade, mas ainda assim um equívoco.”[4]

A guerra atual é desigual, sem nenhuma heroicidade e alegria.[5] A superioridade americana suplanta qualquer possibilidade de o Outro se apresentar em pé de igualdade. De antemão, o exército americano pensa poder destruir o inimigo em vista da sofisticação tecnológica revertida para armamentos e comunicação. Tudo cool, como se pudesse ser... sem heróis, sem bravura, somente espetáculo.

Ao final dos anos oitenta, Francis Fukuyama, com falsas tintas hegelianas, antecipou, equivocadamente, o “fim da história” sob a hegemonia reagan-americana; Samuel Huntington, pretendo-se sombreado por F. Braudel, em The clash of civilizations and the remaking of world order, de 1996, corrige o antecessor e propõe um inventário atualizado da situação, vaticinando acerca dos futuros choques das civilizações e do destino das opositoras da Civilização Ocidental. Ao abrigo do enquadramento “amigos e inimigos”, até a América Latina se encontra em linha anti-ocidental, região potencialmente contrária e adversária da Civilização Ocidental, sob liderança americana. Porém, a oposição mais ferrenha viria do “ressurgimento islâmico”.[6]

Se o movimento acelerado prenuncia o fim (motus in fine velocior), o tempo de expectação em que vivemos se deve, em grande parte, ao cumprimento das premissas do liberalismo, que sintética e hegemonicamente orientou a luta política nos últimos dois séculos. Tal cumprimento promove a abertura de uma temporada de caça a um novo padrão de liberdade, que não cancele as conquistas anteriores, mas que as incorpore e as projete em vista de um patamar superior, tomado como aquisição histórica, tanto quanto o individualismo e a propriedade privada. O cumprimento das premissas das liberdades econômica, política, religiosa e de expressão, em países pós-industriais avançados balizam encontro dos tempos presente e futuro. O exercício da liberdade econômica, no limite, implicaria liberdade de economia. No mesmo passo, a liberdade política corresponderia ao livrar-se da política, acerca da qual os cidadãos têm pouco ou quase nenhum controle. Por sua vez, a liberdade de expressão findaria por livrar-se das reduções e manipulações da opinião pública, exercidas pelas agências de publicidades, ao ditar comportamentos, idéias, estilos de vida - invasoras do universo do desejo. O resultado mecânico e mais geral do cumprimento dos axiomas do liberalismo é a euforia na infelicidade, em que falsas necessidades impostas arbitrariamente findam por perpetuar o estado letárgico da dominação, ápice do patinar no circuito produção/ consumo - um correr para lugar nenhum consumando o vazio político. A perda do halo, a expectação, o desarranjo, o olho do furacão, em que nos encontramos, retratam o descompasso entre o avanço tecnológico linear-ascendente e os restos supra-estruturais, síntese idealizada de estágio anterior da instrumentalização do saber científico, domínio e manipulação das forças da natureza e correspondente desenvolvimento de ordem tecnológica e material.

Se o liberalismo[7] cumpriu suas premissas nos países pós-industriais avançados, na periferia da ordem capitalista perdeu-se o bonde da história. De certa forma, o islamismo – a religião que mais cresce no mundo, caudatário do judaísmo e do cristianismo – tornou-se o último reduto da exclusão social do Terceiro Mundo. E os fundamentalismos conexos são referências neofascistas, próximas de fascismos ordinários de recorrência religiosa. Sem perder de vista, que “o Islã, há mais de mil anos, nunca foi monolítico”.[8]

Desde Tucídides, com inspiração na tragédia grega, guerra é o tema por excelência. Sobre ele se debruçaram teóricos e “práticos” incisivos: o general chinês Sun Tzu, em A arte da guerra; César, com o clássico antigo De bello gallico;[9] Erasmo de Rotterdam e Guerre et Paix[10]; Maquiavel, em A arte da guerra e; o clássico contemporâneo Da Guerra, de Carl Von Clausewitz. A tese da “a guerra como extensão da política”, rapidamente transformou-se em bordão de analistas do assunto desde o século XIX.

No universo do cinema, o tema foi banalizado à exaustão desde a 2ª Guerra Mundial. Destaque para o filme “Catch 22”, em que a guerra é tomada como operação econômica, findando por enlouquecer os comandados dos escalões inferiores ao tomarem consciência dos reais fins bélicos. “O terceiro homem”, dirigido por Carol Reed, com Orson Welles, retrata os bastidores da guerra, o mundo dos espiões, amizades singulares, sumiços exemplares, mais jogos de inteligência. Antes da Chuva, de Milcho Manchevski, cuida dos conflitos étnico-religiosos entre macedônios ortodoxos e albaneses muçulmanos, na atualidade. Da literatura contemporânea, destaque para dois romances de John dos Passos, que estetizam a amargura e o anti-heroísmo dos homens da guerra: Iniciação de um Homem (1919) e Três Soldados (1921). A televisão americana transfigurou estas obras para a série “Mash”, após o sucesso no cinema. Sem esquecer toda literatura sobre a Guerra Civil Espanhola, riquíssima e em expansão. André Malraux, partícipe pelo lado anarquista, escreveu “A condição humana”. Hemingway, outro combatente, legou nos “Por quem os sinos dobram”, com filme homônimo.

Ainda do universo do cinema, Rainer-Werner Fassbinder dirigiu “Deuses da Peste”, que trouxe à luz os bastidores das células terroristas do Baden-Meinhof, filme superior, porque duro, comparável ao realista, porém partidário, “Estado de Sítio”, de Costa-Gravas. Os dois, em nada comparáveis ao juvenil “O que isso, companheiro!”, de Bruno Barreto. - Impagáveis: romances e filmes!

Leon Tolstoi, anarquista-cristão (que foi soldado, pois se alistou como junker, gentil-homem-voluntário num corpo da artilharia do Exército russo e combateu em Sebastopol, até a queda da fortaleza) escreveu o denso romance Guerra e Paz, a Ilíada moderna. Se a epopéia de Homero tematizava poeticamente a guerra de Tróia, principiada com a descrição da peste e resolvida pela vontade dos deuses - para o lado que os deuses tendiam, tendia a vitória - em Tolstoi, ao contrário, a guerra é decidida pela natureza. Napoleão e seus homens não resistiram ao frio de Moscou incendiada pelos russos e depois abandonada. O exército francês deixa a Rússia em fuga desastrosa e humilhante. Claro que a astúcia do gênio da guerra, o frio e calculista general Kutuzov, é fundamental. O exército russo só fez recuar Rússia adentro, ao invés de avançar e dar combate ao corso.

Ocorre que o romance é muito mais que esta mera objetivação. Tolstoi acerta contas com a Idade Moderna. O título original da obra era 1805, porém o epílogo se passa em 1820. As personagens em desfile são extremamente complexas, tipos humanos em processo de degradação. O próprio Kutuzov, um coração destemido, representa a alma do povo russo e a submissão ao destino. O príncipe André é de uma altura ética e bondade impensáveis para a Rússia czarista do início do século XIX.

Traçando-se um paralelo com a guerra franco-russa, nos dias que correm, pensou-se na possibilidade dos afegãos, mais propriamente os talebans, que significa “estudantes da sagrada doutrina islâmica”, vencerem a guerra lançando mão do mesmo recurso dos russos. Há uma negação no ar.

Se for verdade que os corpos encontram-se em constante atrito, a guerra seria inevitável. Não pela natureza humana, mas pela condição humana.

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Contra todas as certezas, Nietzsche propõe skepsis[11], palavra polissêmica, como mal-estar frente situações de conhecimento por demais precisas, por demais nauseantemente verdadeiras. Contra os homens médios e néscios, a ação e o espírito dilaceradores do aventureiro de coração duro, que sem estratégias, que desculpam covardias, deflagra o ataque, a liquidação, o ato fatal. A filosofia de Nietzsche apresenta-se completamente sem escaramuças, como sem escaramuças são seus aforismos.

A propósito Nietzsche escreveu: “Filosofia, como até agora a entendi e vivi, é a voluntária procura também dos lados execrados e infames da existência. Da longa experiência, que me deu uma tal andança através de gelo e deserto, aprendi a encarar de outro modo tudo o que se filosofou até agora: - a história escondida da filosofia, a psicologia de seus grandes nomes, veio à luz para mim. ‘Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito?’— isso se tornou para mim o autêntico medidor de valor. O erro é uma covardia... cada conquista do conhecimento decorre do ânimo, da dureza contra si, do asseio para consigo... Uma filosofia experimental, tal como a vivo, antecipa experimentalmente até mesmo as possibilidades do niilismo radical; sem querer dizer com isso que ela se detenha em uma negação, no não, em uma vontade de não. Ela quer, em vez disso, atravessar até ao inverso - até a um dionisíaco dizer-sim ao mundo, tal como é, sem desconto, exceção e seleção -, quer o eterno curso circular: - as mesmas coisas, a mesma lógica e ilógica do encadeamento. Supremo estado que um filósofo pode alcançar: estar dionisiacamente diante da existência— minha fórmula para isso é amor fati.[12]” Para o espírito trágico redivivo, eis a fórmula nietzscheana: amar o destino.

Ainda quase a propósito, Nietzsche escreveu: “... A falta de consideração do pensar é freqüentemente sinal de uma disposição interior discordante, que anseia aturdir-se.” Tal passagem evoca dois lídimos heróis do universo cultural alemão, que fazem sombra e par ao frio general Kutuzov, de Tolstoi. Primeiro herói: Fausto, de Goethe. Uma fala de Fausto a Mefistófeles: “Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira na posse do que o mundo alcunha gozos. O que preciso e quero é atordoar-me. Quero a embriaguez de aflições. Estou curado das sedes do saber; de ora em diante às dores todas escancaro est’alma. As sensações da espécie humana em peso, quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde à vontade a mente minha os abrace, os tateie; assim me torno eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo perdida for, me perderei com ela.” (1765-1775)

Estes versos parecem escritos, com alguma largueza, para os propósitos da condição humana.[13] A condição humana na atualidade tem qualquer coisa, ou muita coisa de “faústica”. E talvez se encontre aí o substrato do modelo de “homem” engendrado por Nietzsche, com desproporções e vertigens ao topar com os vórtices do conhecimento e das paixões.

O segundo herói salta da música de Wagner. Quando o herói Siegfried está para executar o dragão Fafner, Mime dá-lhe conselhos —cuidado com isto e com aquilo, avança daquele lado, toma atenção a não sei que mais, ataca por aqui ou por ali. E o que faz o herói? Ouvidos moucos, pura e simplesmente avança de uma maneira natural, mata o dragão. Para fazê-lo Siegfried não precisou de estratégias, porque não sentia o medo. Por isso o aborrecem os discursos dos outros. Em sua música, Wagner deixa a situação revelar-se com toda a clareza. Como a morte do dragão é para Siegfried um ato tão evidente como o de respirar, ela não é acentuada por nenhuma explosão orquestral. O que seria o caso de imaginar, com que fanfarras e coros Verdi celebraria esse momento crucial. Os personagens verdianos são conspiradores e políticos, que têm necessidade de se enredar na estratégia, de acalentar longamente a coragem que não possuem de pronto, de adormecer o medo, de se enlear a eles próprios nas palavras dos outros. A estratégia é assim uma rede que usamos, não para combater com eficácia, mas para escondermos a nós mesmos o nosso medo imenso.

Siegfried é um coração sem medo, que não pode ser tomado por simplório, pois não se trata de uma questão de inteligência, mas de coragem. Um valor afirmativo da vida, que aliada à força dos signos nietzschianos, só pode vir de um homem bom e forte.

Após séculos de filosofia catedrática, Nietzsche se revoltou contra a mutilação do espírito de aventura desde a oficialização das doutrinas. A seu modo foi um aventureiro. Numa palavra, propôs exercitar o experimentalismo, pois “nós, humanos, somos experiências” — mas também quanto ao pensamento, à busca de ângulos novos, fronteiras inexploradas, renovando sem parar as técnicas de conhecer a si mesmo e os outros.

Isto para que a Filosofia não renunciasse ao privilégio da permanente aventura, a troco da estabilidade que se obtém fechando os olhos ante a fuga vertiginosa das coisas. E “as coisas não são mais que as fronteiras do homem.” O tipo de pensador nietzschiano nunca vende a alma ao estável, ao impassível, porque deseja manter-se fiel ao desconhecido, enfrentando-o com a coragem da aventura.

Em outra passagem, que pode ser relacionada com o fato da filosofia produzida atualmente pretender aproximar-se dos procedimentos da ciência de talhe positivista, Nietzsche, com seu estilo às marteladas, escreveu: “Nós filósofos... não somos rãs pensantes, nem aparelhos de objetivação e máquinas registradoras com vísceras congeladas —temos constantemente de parir nossos pensamentos de nossa dor e maternalmente transmitir-lhes tudo o que temos em nós de sangue, coração, fogo, prazer, paixão, tormento, consciência, destino, fatalidade. Viver —assim se chama para nós, transmudar constantemente tudo o que nós somos em luz e chama; e também tudo o que nos atinge; não podemos fazer de outro modo.”[14]

Se como quer o poeta: “Nós somos os homens ocos/ Os homens estofados/ Uns aos outros apoiados/ Crânio recheado de palha. Ai!/ Em mútuos cochichos/ Nossas vozes secas/ Frouxas sem sentido/ São vento em capim seco/ Pés de rato pisando/ Vidro partido/ Em nossa adega seca./ Figura sem forma, sombra sem cor,/ Força entorpecida, gesto sem expressão;”[15] em contraponto aos antigos, - indianos, egípcios, gregos e romanos -, homens verdadeiros, com ossos, músculos, interioridades. Diluindo e projetando para outro patamar, Nietzsche vaticinou: “No homem estão unidos criador e criatura: no homem está a matéria, o fragmentário, o supérfluo, a argila, a lama, o absurdo, o caos; mas no homem está também o criador, o escultor, a dureza do martelo, o espectador divino e o sétimo dia...” Em Para a Genealogia da Moral, arrematou com a lenda do rei Vishvamitra, “que através de milênios de automartírio, alcançou tal sentimento de poder e confiança em si que empreendeu a tarefa de construir um novo céu: o símbolo apavorante da mais antiga e mais nova experiência dos filósofos na terra - todo aquele que alguma vez construiu um ‘novo céu’, encontrou o poder para isso apenas no próprio inferno...”[16] como nos abismos faústicos, imbuído da coragem de Siegfried.


Parafraseando Guimarães Rosa: Alá é grande, mas o deserto é ainda maior!


Referências

  1. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens. (...) O caráter fundamental tautológico do espetáculo decorre do simples fato que os seus meios são ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.” DEBORD, Guy – A Sociedade do Espetáculo, tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro, Lisboa, Afrodite, 1972, pp.12 e 16.
  2. Em perspectiva, grosso modo: 1. da Antigüidade à Idade Média e início da Idade Moderna, a Filosofia interessou-se pelo “ser”; a realização de tal interesse se deu no campo da metafísica; 2. de Descartes a Kant, pela “verdade” através das disciplinas teoria do conhecimento e teoria transcendental, e; 3. de meados do século XIX em diante, pelo “sentido”, no universo da fenomenologia, da hermenêutica e da análise lógica da linguagem. Para detalhamentos, conferir PORTA, Mario Ariel González – “La unidad de la Filosofia contemporânea desde el punto de vista de la Historia de la Filosofia”, São Paulo, PUC-SP, 2001 (artigo inédito).
  3. “...fatos/ são pedras duras./ Não há com fugir. / Fatos são palavras/ ditas pelo mundo.” In FONTELA, Orides – Teia, 2ª edição, S. Paulo, Geração Editorial, 1996, p. 39.
  4. JONES, Ernest – Vida e Obra de Sigmund Freud, 2ª edição, tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos, Rio de Janeiro, Zahar, 1975, p. 413.
  5. Em 1465, Jean de Bueil escreveu: “A guerra é uma alegre empresa. Todos nós nos amamos tanto em tempos de guerra. Se vemos que a causa é justa e que nossos parentes lutam corajosamente, lágrimas nos acorrem aos olhos. Uma doce alegria nasce em nosso coração, no sentimento de nossa honesta lealdade recíproca e, vendo o amigo tão bravamente arriscar seu corpo ao perigo, a fim de manter e cumprir o mandamento de Deus, resolvemos ir à frente e morrer e viver com ele e nunca deixá-lo por causa de um amorzinho. Isto traz tal deleite que aquele que não sentiu isso tem medo da morte? É impossível! Ele se sente tão fortalecido, tão delicado, que nem mesmo sabe onde está. Realmente, ele nada teme no mundo!” Conferir In ELIAS, Norbert – O Processo Civilizador – Uma história dos costumes, 1º vol., 2ª edição, tradução de Ruy Jugmann, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994, p. 194.
  6. A propósito, conferir a interpretação do Autor acerca do ocorrido recentemente no mundo muçulmano, sob o título de “Guerras de transição: Afeganistão e o Golfo”, In HUNTINGTON, Samuel P. – O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial, tradução de M.H.C. Côrtes, Rio de Janeiro, Objetiva, s.d., pp.312/320. Parece esquecer que o Oriente é uma “invenção” do Ocidente, pela óptica de E. W. Said, perspectiva secundada desde a inversão dos termos por R. Garaudy, que findou convertido ao islamismo.
  7. “As instituições liberais deixam de ser liberais tão logo são alcançadas: mais tarde, não há piores e mais radicais danificadores da liberdade, do que instituições liberais. Sabe-se, até, o que elas conseguem: minam a vontade de potência, são a nivelação de montanha e vale transformada em moral, tornam pequeno, covarde e guloso – com elas triunfa toda vez o animal de rebanho. Liberalismo: dito em alemão, animalização em rebanho...” De “Crepúsculo dos Ídolos”, In NIETZSCHE, F. – Obras Incompletas, 2ª edição, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, S. Paulo, Abril Cultural, 1978, p. 341.
  8. ALI, Tariq – “Em nome do choque de civilizações”, In Cadernos Diplô – Le Monde Diplomatique, nº 3, S. Paulo, Le Monde Diplomatique/Unesp, janeiro 2002, p. 8.
  9. “Os comentários de César deveriam realmente constituir o breviário de todos os homens de guerra, pois ele próprio é o modelo soberano da arte militar.” Conferir cap. XXXIV, “Observações acerca dos meios que Júlio César punha em prática na guerra”, In MONTAIGNE, M. – Ensaios, tradução de Sérgio Milliet, 2ª edição, S. Paulo, Abril Cultural, 1980, p. 335 ss. (Col. “Os Pensadores”)
  10. Ver ERASMO – Guerre et Paix, tradução de Jean-Claude Margolin, Paris, Aubier-Montaigne, 1973.
  11. Mesmo que em algumas passagens da obra o Autor utilize o termo para designar a desconfiança do moralmente fraco frente a verdade do homem forte e bom.
  12. “Fragmentos Póstumos” (publicados inicialmente sob o título A vontade de potência, parág. 1041), In NIETZSCHE, F. – Obras Incompletas, 2ª edição, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, S. Paulo, Abril Cultural, pp.392/393.
  13. “Goethe modificou a fundo o teor das lendas que envolvem a figura do Doutor Fausto, famoso mago, astrólogo e quiromante dos inícios do século XVI que, segundo reza a tradição, foi carregado pelo diabo a quem cedera a alma em troca de poderes e prazeres terrenos. O Fausto de Goethe, ao contrário, é salvo pela graça divina e pela intervenção do amor transformado em símbolo místico do ‘eternamente feminino’. E é salvo porque — eis precisamente o sentido que o termo ‘faústico’ veio a ter — sendo representante extremado do homem, é um ser cuja essência é anseio, aspiração, eterno impulso de ir além de si mesmo.” “O vasto poema dramático de Fausto simboliza a busca prometéica do homem, do seu desejo ardente de transcender seus limites físicos e espirituais, à procura de uma resposta aos eternos problemas da vida humana e do universo. E é, ao mesmo tempo, símbolo dos descaminhos e abismos aos quais se expõe aquele que segue esse anseio titânico.” In ROSENFELD, Anatol – História da Literatura e do Teatro Alemães, S. Paulo/ Campinas, Perspectiva/ Edusp/ Editora da Unicamp, 1993, pp.225/226.
  14. “Prefácio da Segunda Edição, Parágrafo 3” de A Gaia Ciência, In NIETZSCHE, F. – Obras Incompletas, 2ª edição, tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, S. Paulo, Abril Cultural, 1978, pp. 190/191.
  15. “Os homens ocos”, In ELIOT. T.S. – Poemas – 1910 – 1930, tradução de Idelma Ribeiro de Faria, S. Paulo, Hucitec, 1980, p.63.
  16. NIETZSCHE, F. – Genealogia da Moral – Uma Polêmica, tradução de Paulo César de Souza, S. Paulo, Cia. das Letras, 1998, p. 105.



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