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Espere Resistência
CrimethInc


É a noite final do acampamento de jovens músicos, e os pais se reuniram em um jantar de gala para ver os seus jovens prodígios tocarem. Desajeitados às portas da adolescência, embaraçados pela presença de suas famílias, os estudantes inquietos contam os minutos, cada um esperando em terror que chegue a sua vez. O mais desajeitado de todos é o astro pianista, um garoto tímido, escabelado e com as roupas amassadas cuja performance é para ser o destaque da noite.


Seu instrutor escolheu uma peça particularmente difícil, ansioso por exibir as habilidades do seu pupilo ― para não falar do seu treinamento. Ninguém perguntou ao jovem o que ele gostaria de tocar ― ninguém perguntou nada do gênero a ele desde que sua mãe o matriculou para as primeiras lições: eles tomam como certo que ele conhece as suas responsabilidades como vanguarda de uma nova geração de músicos. No que lhe toca, ele quer agradá-los tão desesperadamente ele também nem pensou em considerar a questão.


Ele fará sua performance depois da garota que está tocando seu solo no violino, e ele não consegue fazer suas mãos pararem de tremer. E se ele errar uma nota, e se os seus dedos se atrapalharem? Há um campo minado no meio da composição, uma série de acordes difíceis praticamente uns sobre os outros. Ele daria qualquer coisa para estar do outro lado dos próximos 20 minutos, deixar tudo isto para trás.


A garota se curva pesarosamente aos aplausos educados, e ele assume seu lugar no banco do piano. O silêncio agora não é mera etiqueta; todos olhos estão sobre ele, todos ouvidos alertas. Ele abre a partitura na página adequada, posiciona as suas mãos sobre o teclado e começa.


A música que ressoa é elegante e precisa. Mães cruzam suas mãos e sorriem; pais assentem com a cabeça em aprovação, silenciosamente reprovando os seus próprios filhos pela falta de dedicação. Até mesmo o instrutor parece satisfeito com o seu feito.


O campo minado se aproxima cada vez mais; e agora o garoto já está no trecho mais difícil, navegando por ele como um verdadeiro mestre; e agora ele já passou! Só falta o final da música, quase uma marcha vitoriosa, como um passeio no parque.


Mas de repente, de forma inexplicável, ele toca uma nota errada. Só uma ― mas isso não é tudo: é muito, muito pior, ao contrário de tudo que lhe foi ensinado dolorosamente sobre performance, ele pára abruptamente, congela.


Não há nada mais a fazer: ele volta, continua a peça desde o começo da frase, tocando com toda a graça e delicadeza como se nada tivesse acontecido ― e toca a mesma nota errada. Isto nunca aconteceu nesta composição antes, ou em qualquer outra que ele tivesse tocado nos últimos anos. Estupefato e incrédulo, ele interrompe novamente, e internamente se condena por tê-lo feito.


Com a face em chamas, ele volta e começa mais uma vez ― e, mais uma vez, toca a nota, congelando como se tivesse levado um choque elétrico. No silêncio absoluto do momento, ele fica consciente das outras pessoas na sala ― não apenas a pressão monolítica das suas expectativas, mas da sua presença como indivíduos. Eles também ficam desconfortáveis ― eles precisam que ele supere isso para resgatar tanto a noite quanto o seu orgulho, para proteger a sua fé nos investimentos que fizeram. Cabe a ele salvar a todos da catástrofe iminente, de lutar para chegar no fim da composição e então ir para sua casa e se esconder para sempre.


Ele toca a nota errada de novo. Neste momento ele ficaria feliz se um raio o atingisse, ou se ele morresse de um ataque cardíaco repentino. Tudo sobre o que ele construiu a sua vida ― seu futuro como músico, suas tentativas de corresponder ao que os outros esperam dele ― está em ruínas. Cara a cara com o insuperável, o menino deve ou perecer ou mudar. Nenhum raio o atinge; seu coração continua a bater no seu peito.


Mais uma vez ele volta e toca até chegar na nota de novo ― só que desta vez quando ele chega nela, ele a toca deliberadamente, irrompendo através de seus medos e valores mais profundos para redefinir o significado das amargas notas anteriores. O público não compreende ― estão mortificados e esgotados demais por ter que testemunhar este fiasco. Todos os pais na sala está na ponta do seu assento, todas as mães prendem a sua respiração; eles dariam qualquer coisa para estar em outro lugar, para serem poupados disto. A cada nota que o garoto toca errado, cada vez que ele tenta e fracassa, é como se o fracasso refletisse sobre todos eles, sobre toda humanidade. A mediocridade eles conseguem suportar, mesmo os músicos profissionais na platéia; o fracasso completo é um contaminante que eles temem mais do que a própria morte, um prenúncio de um colapso total.


Ele erra o trecho de novo ― e de novo. A dinâmica se inverte: agora toda pressão que estava sobre o rapaz, o peso das expectativas dos pais, dos professores e dos estudantes e, por extensão, de toda civilização que representam, volta-se contra eles. O garoto tem o total controle, livre pela primeira vez em toda sua vida, e eles estão indefesos, paralisados em uma situação para a qual nada os preparou. A tensão é insuportável. Alguém ri nervosamente, tosse, mexe os dedos. A nota incontrolável soa mais uma vez, e mais uma, e ainda outra, como um disco arranhado, como um alarme de incêndio.


A alguns metros do palco, os olhos da pequena violinista se iluminam: ela compreende. Ele se vira e observa os rostos angustiados do público: é realmente uma visão de almas condenadas no inferno. Espiando pela sala, seu olhar é preso pelo de outra jovem menina a algumas mesas de distância ― seus olhos também brilha. As duas acenam com a cabeça uma para a outra, ambas com sorrisos de orelha a orelha.


O piano se silencia. As Valquírias estão aqui para me guiar para outra vida.

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