Fandom

Protopia Wiki

Folclore

1 764 pages em
Este wiki
Adicione uma página
Discussão0 Compartilhar

Interferência de bloqueador de anúncios detectada!


A Wikia é um site grátis que ganha dinheiro com publicidade. Nós temos uma experiência modificada para leitores usando bloqueadores de anúncios

A Wikia não é acessível se você fez outras modificações. Remova o bloqueador de anúncios personalizado para que a página carregue como esperado.

«Ouvi dizer que a história é a mestra das nossas ações e máxima de princípios: e o mundo foi sempre, de certo modo, habitado por homens que têm sempre as mesmas paixões; e que sempre existiu quem serve e quem manda, e quem serve de bom grado, e quem se rebela ou se rende.»
(Nicolau Machiavelli)


«Uma vez cientes de como é comum o fenômeno da invenção das tradições, descobriremos com facilidade que elas surgiram com freqüência excepcional no período de 30 a 40 anos antes da I Guerra Mundial. Não se pode dizer com certeza que nesse período inventaram-se tradições com maior freqüência do que em qualquer outro, uma vez que não há como estabelecer comparações quantitativas realistas. Entretanto, em muitos países, e por vários motivos, praticou-se entusiasticamente a invenção de tradições.»
(Eric Hobsbawn, A invenção das tradições.)


Ao observar grandes contingentes humanos na Inglaterra do século XVIII se rebelarem contra a fome que sazonalmente assolava aquela região, Thompson sugeriu uma interpretação que se contrapunha radicalmente a todas que até então (década de 50) haviam dado satisfatoriamente uma explicação para o fenômeno . Seus contemporâneos e antecessores consideravam que os dados de produção de trigo, prejudicada por condições climáticas, geravam os movimentos populares registrados em toda a região rural inglesa do período. Já Thompson se afasta do período em busca das tramas da tradição que vinham regendo grupos sociais até então freqüentemente negociadores. Aquilo que parecia reação violenta à fome torna-se demanda política calcada na tradição e no costume que as novas relações capitalistas incipientes vinham solapar. Os vestígios permitem a Thompson demarcar as razões da demanda. Desde tempos imprecisos, os produtores de trigo, os moleiros e os pobres daquelas localidades acordaram que a primeira safra de farinha de trigo deveria ser vendida à porta da moenda a preço justo, sem passar pelo mercado, que inflacionava significativamente os preços. As novas condições do lucro que o capitalismo implementava, aliadas à baixa produtividade oriunda de condições climáticas desfavoráveis, ataques de pragas, dentre outros fatores, tornaram impossível o cumprimento daquelas relações tradicionais. Assim, produtores e moleiros passaram a despachar para o mercado a primeira safra. As rebeliões que se seguiram não tinham tão somente a fome como estimulante, mas a quebra de um compromisso. Demandas políticas semelhantes emergiram por toda a Europa, principalmente a partir das novas e complexas relações que o termo “povo”, cunhado na confluência da Revolução Francesa e da chamada Revolução Industrial, uniformizava. Relações muito diversas e infinitamente mais complexas simplificavam inúmeros fenômenos que estavam pautados por longas demandas locais, por compromissos que as novas urgências teimavam em superar, para sua própria acomodação. Por aqui o fenômeno não deixou de produzir revolta. A mais estranha foi a chamada Revolta do Quebra Quilo, ou como os próprio revoltosos chamavam, de Revolta dos Matutos contra os Doutores . Era o final do ano de 1874 e duas notícias vindas de longe atiçaram os ânimos de Campina Grande e seus arredores, mas que só ganhou horror quando se materializou na hora da feira:

«Foi no município de Campina Grande que teve princípio o movimento popular denominado Quebra-Quilos, na serra Bobopitá, a 4 léguas ao sul da cidade. A causa foi a decretação de novos impostos pela Assembléia provincial da Paraíba em sua sessão desse ano. A notícia chegou a essa população pobre e ignorante de tal modo aumentada e extravagante, que despertou logo um ódio geral contra o governo, que chamava – dos doutores –. Queriam um governo de homens rústicos como eles. Neste estado de exaltação de espírito estava o povo quanto pôs-se em execução a lei que estabelecia o sistema métrico decimal, cuja vantagem, não podendo por ele ser compreendida, fez explodir a mina já preparada. Os novos pesos, para esse povo, simbolizavam o aumento dos impostos, a tirania do governo, e por isto fez convergir para eles o seu ódio. Deste fato veio o nome Quebra-Quilos, dado aos sediciosos, os quais o maior mal que causaram foi a destruição de muitos arquivos públicos.»


Um tal coronel Severiano da Fonseca descreve o momento da explosão:

«“Que o movimento sedicioso desabrochou na feira de Fagundes na ocasião em que um arrematante de impostos cobrava o imposto de chão”; esclarecendo em outro tópico do mesmo documento: “Os arrematanes de impostos levavam o abuso à altura do cinismo. Um pobre homem trazia, às vezes, para a feira, uma certa quantidade de farinha, logo que pousasse no chão o saco que trazia, pagava imediatamente uma certa quantia e se por qualquer circunstancia mudava de lugar tinha que pagar novamente; de modo que, muitas vezes, sem ter ainda vendido o que trazia, já tinha pago ao exigente arrematador grande parte do valor do que trazia para vender...”»


Juntamente com essa mudança na forma de cobrar o imposto, o governo agregou a mudança de pesos e medidas, até então feita exclusivamente por vasilhas, ou seja cuias em acordo direto entre produtores, comerciantes e compradores.

Outra descrição do evento feita por um historiador local:

«Em um dia de feira, na povoação de Fagundes, no mês de novembro de 1874, magotes de matutos surgem proibindo a cobrança de impostos, quebrando cuias de medir, praticando arruaças. A notícia espalha-se. Corre que na primeira feira de Campina Grande irá acontecer o mesmo. O delegado de polícia João Peixoto, previne-se, toma providências, prepara-se para resistir. Os amotinados não aparecem. Mas surgiram no sábado seguinte, 21 do mesmo mês, na hora da feira, em frente ao estabelecimento comercial de Alexandrino Cavalcante. Corre o delegado em companhia de dois soldados para restabelecer a ordem. São recebidos a pedradas. Retiram-se ensangüentados.

Tomam os sediciosos conta da feira, passam livremente a quebrar as medidas arrebatadas aos comerciantes, a despedaçar as cuias encontradas em mãos dos vendedores retalhistas, a recolher os pesos de todos os tamanhos, atirados em seguida ao Açude Velho. Aproveitando a insubordinação desenfreada, o criminoso Neco de Barros, indigitado autor do assassínio de Hipólito Cassiano de Araújo, sub-delegado de Fagundes, resolve tirar seu pai da cadeia, cúmplice do mesmo crime. Junta gente, arma-se, e no dia 23 dirige-se à prisão, bota abaixo as grades a machadadas, solta todos os detentos, mais de vinte. Fatos idênticos reproduzem-se em outras localidades. Os presos entram em férias. O cabeça dessa selvageria foi João Vieira da Silva, vulgo João Carga d’Água. A frente de seu grupo, o mais numeroso, dirigiu-se, no dia 26, primeiramente à coletoria das Rendas Gerais, depois ao cartório do tabelião Pedro Américo de Almeida, em seguida à casa da Câmara Municipal, por fim à agência do correio. Em todas essas repartições forçam os sediciosos as portas, destroem móveis, retiram os livros e documentos, atiram-nos à rua, deitam-lhes fogo, aos gritos de que aqueles papeis eram coisas da maçonaria.

O maior prejuízo causado pelos sediciosos a Campina Grande, e a outros lugares, foi a destruição dos arquivos públicos, mal irreparável, ainda hoje lamentado.»


Como movimento insurgente, não poderia deixar de encampar também os escravos:

«Os escravos também procuraram tirar partido da balbúrdia, na ânsia de liberdade. Em número elevado, revoltados contra os senhores, orientados pelo negro Benedito, casado com escrava, tentam conseguir alforria, coagindo o presidente da Câmara, Bento Gomes Pereira Luna, que se refugiara no sítio Timbauba...Se o momento era de insubordinação, que se insubordinassem também os que estavam sofrendo a iniqüidade do cativeiro.»


Todavia, o protesto era ainda mais profundo: “O fim principal deles foi obstar o pagamento de todo o imposto, a continuação do novo sistema métrico e a execução da nova lei de recrutamento” .Ou seja, tudo aquilo que implicava em interferência do poder público na rotina da vida livre fora objeto de repúdio.

Embora tenha subsistido esses relatos, outros tantos desapareceram encobertos por lendas e mitos. O socorro viria, tanto quanto a gênese, pela palavra. Modificam-se os termos, a nomenclatura, a semântica, a gramática da cultura para que, aliadas a outras pressões, tais demandas sejam silenciadas.

Em 1846, a revista inglesa The Athenaeum, de Londres, publica um artigo do arqueólogo Willian John Thoms. Afirma o autor, sob o título “Folk Lore”, que existiriam “coisas do povo”, uma “ciência do povo”, que daria conta de suas tradições, estabelecendo vasta pesquisa dos usos, costumes, canções, lendas, mitos, ditos populares de diversas regiões da Inglaterra. Era 22 de agosto, dia que ficaria, a partir de então, marcado como Dia Internacional do Folclore. Antes disso, os pensadores do Reno já haviam estabelecido uma formulação do popular que apontava para a criação de uma idéia de povo, já que o povo real não era tão “bom” quanto desejavam. Os indícios dessa idealização podem ser apreciados no poema de T. Carew, poeta contemporâneo de John Donne, no qual se escancara o “mal” que deveria ser domesticado:

«Miserável pobre diabo, és por demais presumido

Ao reivindicares um lugar no céu, na altura,

Só porque tua humilde choça, ou tua tina,

Acalenta alguma virtude indolente ou farisaica

Sob o sol barato ou pelas fontes sombrias

Com raízes e hortaliças; onde tua mão direita,

Arrancando as paixões humanas da cabeça,

Em cujos troncos florescem formosas virtudes,

Degrada a natureza e entorpece os sentidos,

E, mão de Górgona, petrifica homens ativos.

Ó pobres, não precisamos da enfadonha companhia

De vossa compulsória abstinência

Ou da desnaturada estupidez

Que desconhece alegria ou tristeza; nem da forçada

E passiva fortaleza, falsamente exaltada

Como superior à ativa. Esta raça baixa e abjeta

Que se aboleta na mediocridade

Convém a espíritos servis; nós, porém, promovemos

Apenas as virtudes que admitem excessos

Atos bravos e generosos, magnificência régia,

Prudência previdente, magnanimidade

Que não conhece limite, e aquela virtude heróica

Que a antiguidade não batizou de nenhum nome,

Mas deixou modelos como Hércules,

Aquiles e Teseu...Volta, ó pobre, à tua odiosa cela,

E quando vires a nova e ilustrada esfera

Procura ao menos saber quem eram esses heróis.»


Já se podia divisar as trágicas conseqüências que essa “mão de Górgona” representava. Em outro poema (Abel e Caim), de Baudelaire, As flores do mal, o conflito toma corpo e nome, modelados num canto primordial:

«Raça de Abel, só bebe e come,

Deus te sorri tão complacente.

Raça de Caim, sempre some

No lodo miseravelmente

Raça de Abel, teu sacrifício

Doce é ao nariz do Serafim!

Raça de Caim, teu suplício

Será que jamais terá fim?

Raça de Abel, tuas sementes

E teu gado produzirão;

Raça de Caim, sempre sentes

Uivar-te a fome como um cão.

Raça de Abel, não tremas nunca

À lareira patriarcal;

Raça de Caim, na espelunca,

Treme de frio, atroz chacal!

Raça de Abel, pulula! Ama!

`Teu oiro é sempre gerador.

Raça de Caim, alma em flama,

Cuidado com o teu amor.

Raça de Abel multiplicada

Como a legião dos percevejos!

Raça de Caim, pela estrada

Arrasta a família aos arquejos.

Raça de Abel apodrecida

Há de adubar o solo ardente!

Raça de Caim, tua lida

Nunca te será suficiente;

Raça de Abel, eis teu label:

Do ferro o chuço é vencedor!

Raça de Caim, sobe ao céu

E arremessa à terra o Senhor!»


Os dispositivos deveriam tomar forma na realidade numa operação de duplo sentido: ruidosa e silenciosa. O folclore seria o ruído, enquanto a tradição deveria ser calada com a baioneta do silêncio. Eric Hobsbawn mostra como um vasto e complexo jogo de interesses passa a criar tradições que conferiam um movimento duplo: de um lado, sedimenta alguns privilégios de uma casta que necessita justificar seu poder pela via da tradição (o kilt, aquele saiote escocês, foi criado em 1898 e hoje acredita-se que ele existe deste o século XII), de outro (e aqui o autor não entra), erradica de grupos “populares” fundamentados em tradições legítimas suas demandas políticas. No Brasil esta fértil combinação há de criar fundas raízes no imaginário coletivo. Em São Paulo, as elites cafeicultoras buscam arregimentar no bandeirismo prófugo os elementos, maquiados, de sua própria origem “quatrocentona”. Enquanto isso, diversas demandas típicas de resistências localizadas assumem um papel folclórico, ao serem retiradas de seus contextos. O saci-pererê, caracterizado como um “negrinho de uma perna só”, tumultua a fazenda, dando nó na crina do cavalo, assustando as galinhas, perturbando a “paz” do cativeiro com suas “traquinagens”; no “bumba-meu-boi”, o capataz da fazenda mata o boi preferido do patrão para satisfazer um desejo da mulher grávida. Tais ações jamais poderiam ser colocadas na ordem “natural” das coisas senão nesta dimensão, folclorizada, esvaziada de seu potencial de atrevimento e de confronto, exilada de seu contexto.

É Barthes quem nos lembra que na operação de passagem da “história à natureza, o mito...abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética”, mostrando que esse “é o próprio processo da ideologia burguesa. Se a nossa sociedade é objetivamente o campo privilegiado das significações míticas, é porque o mito é formalmente o instrumento mais apropriado para a inversão ideológica que o define” Quanto ao mito do saci, é oriundo dos três troncos étnicos que participaram de nossa formação cultural. Acabou por tomar forma rígida, estática, aquela na qual sua atuação política pudesse representar menor temeridade. Em sua matriz européia, segundo o inquérito biográfico realizado por Monteiro Lobato e referendado por Câmara Cascudo, muitos elementos folclóricos europeus explicam o gorro vermelho e a mão furada do saci. No depoimento do Brasilophilo, recolhido por Monteiro Lobato, atente-se à história da “segunda, terça, quarta” como excelente representante do arraigado componente europeu. O estudo de Renato da Silva Queiroz esclarece este e muitos outros pontos da convergência afro-caipira-tupi-guarani de que este mito está prenhe. Outros estudiosos debruçaram-se sobre ele, dentre os quais Curt Nimuendaju, Leon Cadogan, Alfred Métraux, Pierre Clastres, Ruben Saguier e Marta Amoroso. Egon Schaden assim expressa sua matriz indígena:

(...)A figura do saci, outrora encontrada também entre os Tupinambá litorâneos e de há muito integrada no folclore rural brasileiro de todos os quadrantes, registrei-a entre os Nandéva e os Koyová. Os primeiros, no Araribá, chamavam-no de atsýygyá (...) tem aparência humana e é provido de duas pernas, mas pequeno, pretinho (por isso também conhecido por Kambaí) (...) A sua força mágica está no bastãozinho que leva consigo. Tirando-lhe-se o bastãozinho, perde a força que possui. Gosta muito de fumo e pinga.

Sua matriz africana foi a mais difundida. Lydia Cabrena, que estuda a difusão da religião africana em Cuba, aponta Ossain, o Dono das Ervas, como o veículo de transposição que materializou por aqui a acomodação mítica. Médico, orixá, bruxo e clarividente, traz consigo um cambiante andar coxo e tem a propriedade de parar pelos caminhos os viajantes, atrás de fogo para o seu pito. O saci amazônico é uma entidade carregada de malefícios em forma de chama azulada, espécie de fogo fátuo que vive a pregar peças aos viajantes e tem o sugestivo nome de Romão ou, como o chamam as crianças, Romãozinho. Sua atuação nas fazendas, sua importuna presença negra materializou um padrão de permanência na cultura brasileira, explicada não somente pela coincidência descritiva, mas principalmente pela acomodação e explicação de atuações efetivamente implementadas no espaço das unidades produtivas que utilizavam mão de obra escrava. A capacidade de deslocamento de ações negativas, de destruição de propriedades, de agressão ao ambiente da fazenda, de sabotagem, não era uma inovação . Uma análise como essa não ignora o conceito de circularidade de cultura, como apontou Mikail Bakhtin, tampouco a visão interclassista embutida no conceito de história das mentalidades. Afirma Ginzburg:

A existência de desníveis culturais no interior das assim chamadas sociedades civilizadas é o pressuposto da disciplina que foi aos poucos se autodefinindo como folclore, antropologia social, história das tradições populares, etnologia européia. Todavia, o emprego do termo cultura para definir o conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas num certo período histórico é relativamente tardio e foi emprestado da antropologia cultural. Só através do conceito de ‘cultura primitiva’ é que se chegou de fato a reconhecer que aqueles indivíduos outrora definidos de forma paternalista como ‘camadas inferiores dos povos civilizados’ possuíam cultura. A consciência pesada do colonialismo se uniu assim à consciência pesada da opressão de classe. Dessa maneira foi superada, pelo menos verbalmente, não só a concepção antiquada de folclore como mera coleção de curiosidades, mas também a posição de quem distinguia nas idéias, crenças, visões de mundo das classes subalternas nada mais do que o acúmulo desorgânico de fragmentos de idéias, crenças, visões de mundo elaboradas pelas classes dominantes provavelmente vários séculos antes.

Quando da emergência das chamadas classes subalternas ao centro do teatro de operações políticas que a Revolução Francesa e a Revolução Industrial proporcionaram, essa engenharia ideológica precisou de um novo e incrementado investimento. Assim, o conceito de folclore, claramente definido, ganha o estatuto disciplinar. Desde meados do século XIX, o americanismo lança seus tentáculos sobre a América, especialmente sobre o Brasil. Agassiz, Thayer, Morgan, todos exploradores americanos, mapearam a natureza e a cultura de vastas regiões brasileiras no cenário conturbado da segunda metade daquele século, no qual figuram a guerra do Paraguai, os extertores da escravidão, o colapso do império e as vagas imigrantistas, redefinindo, no espaço urbano, novos grupos que emergiam com uma pauta inesperada de demandas sociais, políticas, culturais. Entre os estudiosos, avulta a figura de Charles Frederick Hartt e sua atuação na Comissão Geológica do Império . Tais bases, cientificistas, foram paulatinamente aprofundando relações que acabaram por assumir um estatuto perigoso e que alertavam uma significativa camada de intelectuais nativos sobre os perigos do que “é bom para os Estados Unidos é bom para a América”, slogan chave do americanismo na forma que se desenhava naqueles inícios do século XX. O americanismo faz despertar reações de natureza não somente política, mas principalmente filosófica. Em 1926, acontece no Recife o primeiro encontro americano do “regionalismo”, do qual emerge o Manifesto Regionalista, produzido por Gilberto Freire, envolvendo inúmeros intelectuais preocupados com os efeitos da política dos Estados Unidos e Espanha. Afirmava Gilberto Freire:

(...)alguns estudiosos da situação internacional social como ela se tem desenvolvido no mundo desde a Revolução Industrial da Europa – a conquista industrial do mundo baseada em ideais de estandardização de todos os países de acordo com os padrões dos Estados capitalistas mais poderosos – reconhecem a necessidade de um regionalismo criador em oposição aos muitos excessos da centralização e da unificação política e da cultura humana, estimuladas não só politicamente mas economicamente por forças e interesses imperialistas.

Os intelectuais acreditavam que tal fortalecimento teria o poder de impedir que se alastrassem fenômenos danosos como o imperialismo. Duas vertentes se tocam e devem ser conciliadas. De um lado, a tradição, fundamentada no costume e na oralidade, via-se tolhida, conformada, espremida, redimensionada pela “gramática” textual, claramente elitista e limitante. No Brasil, a representação plena desse confronto se dá em Canudos. O mundo letrado se contrapõe ao mundo da oralidade e cria um padrão. A memória se contrapõe à história, a narrativa ao evento, Euclides da Cunha a Euclides da Cunha e as categorias do arcaico, do moderno, consomem a forja que no fundo oculta outro problema, o fato de que, neste novo país que se estava redescobrindo, muitos não poderiam ter direito à existência concreta e material. O folclore, por aqui, teve outra dimensão, outro propósito, que levemente tangencia aquele, d’além mar. Sílvio Romero justifica tal proposição:

Os que sabemos ser a lei máxima de todos os fenômenos da história, como a de todos os fenômenos do mundo físico, a lei da evolução, cuja fórmula mais completa é aquela que é devida ao gênio de Herbert Spencer, os que sabemos que não podem existir fatos sem antecedentes imediatos, sem a passagem de um estado homogêneo e incoerente a um estado de diferenciação e coerência (...).

Assim, o moderno se sobrepunha ao arcaico, do mesmo modo como a escritura se sobrepunha, naturalmente, à oralidade. Uma lei da evolução. Daí o papel do intelectual, preocupado em dimensionar sua energia no sentido da acomodação: de um lado, o fenômeno interno, de forças locais que ganham dimensão nacional (Canudos, a Guerra dos Pelados em Santa Catarina, o episódio na região do Cariri, envolvendo Padre Cícero) e, de outro, a pressão externa, camuflada pelo “universalismo”, cuja melhor resposta viria, segundo alguns intelectuais, pelo fortalecimento do regional diante da vasta rede de complexidades que representava o confronto entre o nacional e o supranacional. Não foi à toa que esses intelectuais se voltaram para o folclore, que acomodava os dois fenômenos, erradicando do primeiro qualquer perigo de transformar-se em demanda política das camadas populares. Todos os intelectuais que passaram a ser também folcloristas têm aproximações com o integralismo (Câmara Cascudo, Alfredo Barroso, etc.), todos eles eivados dos rigores e objetividades que aspiravam para a nova ciência das miudezas humanas. Já em São Paulo esta dinâmica movia grupos de interesses distintos numa pauta cuja contingência não somente os aproximava, mas assumia uma eloqüente uniformidade. Observemos o caso de Afonso D’Escragnole Taunay e de sua operação paulista. A capilaridade intentada por sua história paulista no bojo da história pátria tinha muito mais profundidade que apenas realçar os aspectos hegemônicos de um Estado-locomotiva. Seu compromisso em revelar esta história se deve, em grande medida, a um projeto de Washington Luís, então prefeito da capital e futuro presidente do Estado. No correr da segunda década do século XX, Washington Luís manda publicar farta documentação, tendo São Paulo como centro de preocupações, às expensas do governo do Estado. Além disso, estimula dois historiadores a escarafunchar tal calhamaço de ineditismo: Taunay e Alfredo Ellis Jr. Resultam dessa primeira investida os livros São Paulo nos primeiros anos e São Paulo no século XVI, de Afonso Taunay, e O bandeirismo paulista e o recuo do meridiano, de Alfredo Ellis Jr. Essa junção dos interesses do Estado e de uma casta de historiadores adequava-se perfeitamente à lógica constitutiva de elites já bastante ramificadas no Estado: família Prado, com vários historiadores filiados ao IHGSP, os Souza Queiroz, Piza e Almeida, Mesquita, todas com inúmeros componentes do mesmo instituto . “A história de São Paulo é a própria história do Brasil” . Com esta máxima, no primeiro volume da revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, inaugurava-se oficialmente o projeto hegemônico paulista. A massa documental publicada por Washington Luis seria o impulso necessário desta empreitada. o Goff afirma:

No final do século XIX, Fustel de Coulanges pode ser tomado como um testemunho válido de como documento e monumento se transformaram para os historiadores. Os dois termos encontram-se, por exemplo, nas clássicas páginas do primeiro capítulo de La Monarchie franque [1888, pp29,30,33]: ‘Leis, cartas, fórmulas, crônicas e histórias, é preciso ter lido todas estas categorias de documentos sem omitir uma única...Encontramos no curso destes estudos várias opiniões modernas que não se apóiam em documentos; deveremos estar em condições de afirmar que não são conformes a nenhum texto, e por esta razão não nos cremos com o direito de aderir a elas. A leitura dos documentos não serviria, pois, para nada se fosse feita com idéias pré-concebidas... A única habilidade (do historiador) consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor historiador é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos’.

Esse projeto estratégico haveria de encontrar no modernismo um aliado inesperado. Uma nova estética, definindo uma verdadeira ruptura com a tradicional gramática que uniformizava não somente os confrontos artísticos, mas principalmente suas arcaicas instituições de arquitetura clássica e de envelhecidos rábulas de uma clássica sisudez, ganhava todas as tonalidades argumentativas do progresso e do moderno que o Estado encabeçava. Se a primeira descoberta do Brasil é um fato histórico indiscutível, a segunda, ocorrida após a abertura das comportas coloniais, em pleno século XIX, será uma descoberta científica, com uma miríade de cientistas, botânicos, geólogos, estudiosos que palmilharam a natureza e a população para revelá-las ao mundo; a terceira será cultural, por obra e graça dos próprios brasileiros que, a partir da década de 1920, percorrerão os confins do território na tentativa de registrar as manifestações culturais populares, tais como a missão de pesquisas folclóricas. Essa terceira descoberta há de ser implementada por três grupos de exploradores. Em 1924, Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral viajam pelo interior de Minas Gerais num tour rastreador de um outro Brasil, que irá culminar na missão de pesquisas folclóricas pelas regiões ignotas do nordeste e norte do Brasil em 1938; na educação, patrocinados por Júlio de Mesquita Filho, um grupo de intrépidos educadores avançam sobre os Estados na tentativa de redesenhar uma educação verdadeiramente nacional, dentre os quais Lourenço Filho e Fernando de Azevedo; na história, Gilberto Freire inova, organizando aquele que foi provavelmente o primeiro congresso regionalista realizado em toda a América, no Recife, em 1926; folcloristas ameaçam dar visibilidade a especificidades locais, a sujeitos históricos que, sob a ótica do folclore, serão erradicados de seu contexto, ultrapassando a linha tênue que separa a existência histórica da existência mítica: Alfredo Barroso, Luis da Câmara Cascudo, Amadeu Amaral escarafuncham a nomenclatura de cada uma de suas regiões atrás de uma antiquária popular que fosse harmônica em sua rede de conexões e significados. Naquela viagem, em 1924, um trem para Minas carrega Oswald e Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, dentre outros. A orgulhosa genealogia desta remonta a Tibiriçá, a João Ramalho e a Brás Cubas: é paulista o modernismo e tem algo de Piquerobi em suas admoestações . Daí que o olhar sobre os montes, os casebres e as candongas será um olhar reformador, na medida em que anseia por recolher os dados que a modernidade pode fazer desaparecer. Encarcera-se o arcaico, preservado numa caixa de curiosidades, e instala-se em seu lugar o moderno, voz hegemônica de um centro irradiador. Tarsila do Amaral nos traz algo daquela viagem de descoberta:

Minha pintura a que chamavam de pau-brasil teve sua origem numa viagem a Minas, em 1924, com d. Olívia Guedes Penteado, Blaise Cendrars, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Gofredo da Silva Telles e René Thiollier. O contato com a terra cheia de tradição, as pinturas das igrejas e das moradias daquelas pequenas cidades essencialmente brasileiras – Ouro Preto, Sabará, São João d’El Rei, Tiradentes, Mariana e outras – despertaram em mim o sentimento de brasilidade. Datam dessa época as minhas telas Morro da favela, Religião brasileira e muitas outras.

Alguns anos antes, entre 1894 e 1897, num esforço modernizante nem um pouco isolado, dois engenheiros (Aarão Reis e Francisco Bicalho) responsabilizaram-se pela construção da moderna Belo Horizonte, substituindo a “velha e decadente” Ouro Preto como Capital do Estado, na esperança de que fosse substituído de arraiais coloniais o povo de “faces doentias” e “esgrouvirados das costas” por “novos cidadãos civilizados”, condizentes com esses novos espaços urbanos . Que paradoxo explica o interesse de nossos modernistas por esses rincões tão “atrasados”? Passados os primeiros anos da República, com o final da segunda década do século XX chegara-se à conclusão de que a educação deveria responder às novas demandas que o século trazia, a incorporação de um maior número de indivíduos, oriundos de um aumento geral da população e da emergência de novas camadas sociais. Implementa-se a reforma do ensino, de 1917 a 1920, sob a tutela de Sampaio Dória e de Oscar Thompson, que tinha como meta preparar o novo cidadão para a construção deste novo país. Uma vez mais estava por trás destas ações a questão da raça. O imigrantismo havia sido implementado, dentre outras razões, visando ao branqueamento que esta avalanche europeizante poderia proporcionar . Contudo, as desilusões deste caminho logo se fariam claras, assumindo seu ápice nas greves de 1917 e 1918:

Hoje não há quem não reconheça e não proclame a urgência salvadora do ensino elementar às camadas populares. O maior mal do Brasil contemporâneo é a sua porcentagem assombrosa de analfabetos. (...) O monstro canceroso, que hoje desviriliza o Brasil, é a ignorância crassa do povo, o analfabetismo que reina do norte ao sul do país, esterilizando a vitalidade nativa e poderosa de sua raça.

No mesmo texto, Sampaio Dória concluiria que o analfabetismo deveria ser enfrentado sob o risco de o Brasil ser “dentro de algumas gerações absorvido pelo estrangeiro que para ele aflui”. A reforma implementada a partir de 1917 tinha se iniciado com a chamada reforma Caetano de Campos, que instituiu a Escola Modelo, anexa à escola Normal, cujo objetivo explicito era expandir para os outros Estados, consolidando a hegemonia já capitaneada pela economia, com o café. Inúmeros técnicos vêm de outros Estados avalizar o modelo para transplantá-lo a seus Estados de origem . Naquela oportunidade, dava-se ênfase à capacidade de observar, a partir mesmo da formação do professor, que não poderia jamais “ser mestre em tais assuntos sem ter visto fazer e sem ter feito por si”. Na escola Modelo, ele poderia “ver como as crianças eram manejadas e instruídas”. Daí seu princípio irradiador e hegemônico. Podemos apenas inferir sobre a morosidade de sua implementação e o elitismo de seu atendimento. Os limites desse experimento se fizeram logo claros, quando expressivas parcelas da população ameaçavam a ordem. No periódico anarquista A Vida, de 15 de dezembro de 1914, escreve João Penteado:

(...) as escolas sempre mereceram e ainda merecem as mais fortes, as mais sérias preocupações da parte dos mais argutos e perspicazes chefes de nações e ministros religiosos, que se dão ao trabalho de monopolizar o ensino público para se precaverem contra o progresso das idéias novas que levam os trabalhadores à revolta, à luta, à guerra contra todas as explorações do homem pelo homem, contra todas as injustiças, contra todos os privilégios sociais.

Reportando-se a Leibnitz, pronunciavam: “Fazei-me senhor do ensino e eu me encarrego de transformar a face do mundo” . Essa a voz de um sem-número de vozes cada vez mais rebeldes à ordem estabelecida. O grupo paulista colocava a alfabetização como condição sine qua non da nacionalidade. Para tanto, instituiu-se a escola alfabetizante de dois anos, que deveria estender-se à zona rural, para dar conta de enorme clientela imigrante, tendo como método pedagógico o intuitivo, além das seguintes características:

1º - instrumento de aquisição científica, como aprender a ler e escrever; 2º - educação inicial dos sentidos, no desenho, no canto e nos jogos; 3º - educação inicial da inteligência no estudo da linguagem, da análise, do cálculo e nos exercícios de logicidade; 4º - educação moral e cívica, no escotismo, adaptado à nossa terra e no conhecimento de tradições e grandezas do Brasil; 5º - educação física inicial, pela ginástica, pelo escotismo e pelos jogos.

Os princípios da eugenia e do nacionalismo estavam ali contemplados, além de uma moralização que tinha aspiração de uniformidade e homogeneização, numa experiência nova, se pensarmos nas classes maiores que o modelo admitia. Para tanto, procurou-se implementar um modelo arquitetônico cuja monumentalidade garantisse, até certo ponto, parte do impacto que o pedagógico completaria. Tinha início uma longa cadeia organizacional, de vigilância e adestramento patriótico, tão bem captada por Affonso Romano de Sant’Anna, que deixa registrada sua surpresa sob o título O burro, o menino e o Estado Novo:

«(...) e já não há mais fronteira

entre a gravura e meu corpo

entre o menino e a carteira

entre o que é cena primária

e o que é cena brasileira

Tatuado, amarelo e verde, meu corpo

virou bandeira.»


A estas intenções ainda restaria um longo percurso para se acomodarem na prática escolar; essa metafórica invasão dos corpos haveria de começar pela postura e pela civilidade dos gestos e dos rituais urbanos. Essa forma de educação popular, reduzindo de quatro para dois anos o período de alfabetização, gerou inúmeros questionamentos que assumiram um lema geral: “Ensino primário incompleto para todos ou ensino integral para alguns”? Na prática, a resposta seria reajustada de sua matriz liberal, de educação para todos, para uma tentativa de reforma da mentalidade e dos costumes, fruto do choque entre as novas realidades urbanas e o “paupérrimo” cenário rural. Diz-nos Marta Maria de Carvalho, citando Lourenço Filho:

Levar a escola aos sertões brasileiros, banindo a ameaça representada pelo êxodo migratório e enraizar extensivamente os serviços escolares nos grandes centros urbanos são as metas do programa modernizador que as reformas educacionais dos anos 20 põem em cena. Mas na realização desse programa, o lema não é mais a luta contra o analfabetismo. Reformar a Instrução Pública passa a se configurar como estratégia política que gradativamente abandona a matriz liberal que havia norteado a Reforma Sampaio Dória e as campanhas de alfabetização desenvolvidas sob o lema ‘representação e justiça’; estratégia política cujo alvo passa a ser ‘uma grande reforma de costumes, capaz de ajustar os homens a novas condições e valores de vida, pela pertinácia da obra de cultura, que a todas as atividades impregne, dando sentido e direção à organização de cada povo’.

A modernização somente se completaria, quando os rudimentos que haviam provocado Canudos fossem substancialmente alterados. A educação se apresentava como ferramenta mais adequada a este projeto. Além de dar continuidade ao projeto hegemônico do mais moderno de todos os Estados da Federação, o projeto paulista passava a ser entendido como o projeto da nação. Como mecanismo de controle, a educação haveria de sofrer forte correção de método, tendo no comportamento seu ponto fulcral, já que os códigos que promoviam a convivência urbana deveriam ser compartilhados por cada um de seus membros. Essa refringência na nomenclatura comportamental seria efetuada por contágio, mas haveria de atingir os pontos em que se originavam, pelo menos, os migrantes. Mensageiros seriam enviados para os limites da civilização, levando as boas novas dessa educação formativa e, aparentemente apenas, perfunctória.

O projeto hegemônico pode ficar mais claro, se visualizarmos o avanço sobre outros Estados: em 1924, Lourenço Filho vai ao Ceará; no mesmo ano, Carneiro Leão chega ao Rio de Janeiro e Lisímaco da Costa ao Paraná; um ano depois, Anísio Teixeira chega à Bahia e, em 1927, Fernando de Azevedo assume o Distrito Federal; em 1930, Francisco Campos leva a idéia da reforma até Minas Gerais. O que querem estes senhores? Compreendem, como Campos Sales, que

é de lá (dos Estados) que se governa a República por cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da capital da União.

São Paulo deveria canalizar, com sua energia, os métodos e os projetos de governança. Vibrava na pauta política o “entusiasmo pela educação” , mas era preciso cautelosamente erradicá-la de suas implicações políticas. Era de interesse das oligarquias pactuadas deslocar o foco educacional de seu componente crítico, que ameaçaria, com seu esclarecimento, as mesmas oligarquias, para a questão patriótica e técnica, moldando o caráter e preparando mão de obra para o modelo produtivo . Em torno da Associação Brasileira de Educação se constituiu uma verdadeira campanha cívico-educacional que elaborou um eficaz discurso crítico às campanhas de alfabetização aos moldes das Ligas Nacionalistas, das quais Sampaio Dória era integrante. O cerne educacional da reforma Sampaio Dória consistia na redução dos anos de estudo para uma massiva alfabetização popular, caminho pelo qual se acreditava combater as oligarquias fortalecidas e os coronéis que a república havia engendrado. A idéia era republicanizar a república. Para os participantes da Associação Brasileira de Educação, dentre os quais Anísio Teixeira, esse caminho representava um perigo ainda maior. Contra-argumentavam que a pressa em “ensinar a ler, escrever e contar aos adultos iletrados” constituía um perigo, antes deveríamos “cuidar seriamente de educar-lhes os filhos, fazendo-os freqüentar uma escola moderna que instrui e moraliza, que alumia e civiliza” . Promoviam um deslocamento estratégico ao grande mal do analfabetismo. As elites é que deveriam ser educadas, afinal, elas estariam mal preparadas para o governo de tipo republicano. Com um ensino de qualidade, e não com sua massificação, a educação contribuiria para a verdadeira consolidação da República. Os argumentos para alterar os procedimentos que universalizariam a alfabetização embutiam forte apelo político. A instrução passava a ser encarada como uma arma e, como tal, carecia de mediação e, principalmente, de comedimento em sua implementação.

Lourenço Filho desembarcou no Ceará em meados de 1924 e participou de um evento que parecia reencarnar Canudos, confirmando em todos os pontos o acerto do projeto modernizador que ele carregava na bagagem e a legitimidade de sua proposição. Suas aventuras foram descritas no livro Joaseiro do Padre Cícero , obra premiada pela Academia Brasileira. Deixemo-lo tomar nossa mão, guiando-nos através do rubicão ressecado que divide a civilização da barbárie, mesmo que sectário, mas que há de revelar por esse mesmo sectarismo qual projeto o sustém.

Toda expressão de modernidade não resiste à pouca distância que separa o litoral do caminho do sertão. A insalubridade que caracteriza esses dois instantes transforma-os em séculos. Duas metáforas do autor ilustram o caminho em direção ao horror.

A primeira, semântica e a segunda, luminosa:

Ao avistar um adro de igreja, em freguesia pouco arredada da costa, em dia santo, à hora da missa, na vinheta evocativa de um renque de coqueiros esguios, ou de mangabeiras frondosas, debaixo de cujas folhas largas e poeirentas, muito raro, um Ford põe uma única e escandalosa nota de vida presente, há de dizer, por força: ‘Era assim, no tempo do Império...’. Ao verificar, pouco além, as condições da vida rural de muitos pontos do sertão, onde o fator ‘braço humano’ é de tal desvalia que chega a ser empregado, normalmente, no transporte de cargas e se oferece como força motriz às engenhocas de cana e ‘bolandeiras de mandioca’, há de pensar consigo mesmo, irresistivelmente: ‘Devia ter sido assim, no tempo da escravidão...’. E, ao internar-se, depois, pelas vastidões semi-áridas, onde em cada um dos mal assinalados arraiais, uma dezena de homens se entrega à exploração precaríssima da criação de gado bovino ou caprino, onde a alimentação que lhe ofertam é, as mais das vezes, um prato de farinha seca ou uma mancheia de frutos silvestres, onde os tristes casebres, semelham ‘ocas’, e os utensílios mais elementares reproduzem os dos tapuias primitivos, com as mesmas denominações originárias, há de exclamar, convicto: ‘Havia de ter sido assim, na época da Independência...’.

Essa dinâmica retrógrada tem implicações surpreendentes, mas é de bom alvitre assinalar o seu atraso:

A luz elétrica se torna gás acetileno; depois, lampião belga; em seguida, candeeiro; mais tarde, candeia de óleo de mamona...Os muros se tornam sucessivamente cercas de arame, divisões de varas pacientemente trançadas, valados singelos, desaparecendo por fim, para deixar em comum todas as terras...E o ‘mundo velho sem tranqueira!...’ Aí, o sistema tributário chega ao imposto do dízimo ‘in natura’; a medicina, ao ‘chá de pinto’; a linguagem sustenta formas quinhentistas e denominações tapuias das raças primitivas. Raríssimo nessas alturas, o estrangeiro é chamado ainda, colonialmente, de ‘marinheiro’; a capital se assinala com o nome de origem: o ‘forte’; o diabo é o ‘cão’ ou o ‘capiroto’; a forma comum do pedido de socorro evoca o ‘aqui-del-Rei’; a moeda, por muitos pontos, apelida-se de ‘dobrão’; ‘ir queixar-se aos da Bahia’ é uma forma que ainda se ouve para significar reclamação às autoridades; os ‘reisados de bichos’ e o ‘bumba meu boi’ são o melhor divertimento popular...Mil reminiscências seculares, que marcam, pela constância, estranha parada no tempo.

Isso implica uma imprópria miscigenação. Mais ao litoral ainda encontramos o branco ariano, “demonstrando a preponderância de nossa gente de hoje”. Quando avançamos na direção do interior, o forte caldeamento das três raças vai aparecendo, até restar, no fundo desse sertão indômito, índios puros, com idéias cristãs na cabeça e “calças de azulão”. Esse fenômeno que pode ser assinalado em outras e longínquas paragens do interior do Brasil, aqui está ao alcance da estrada de ferro. O autor descreve essa descida aos infernos pela janela do trem que liga Fortaleza a Baturité. O fator mesológico tem influência determinante nesse aspecto geral de atraso e abandono. Secas intermitentes assolam com especial crueldade essas populações, cuja deformidade geral se nos apresenta como uma característica indelével de tardes intermináveis de insolação e miragens, típicas dos desertos. Será no coração do Crato, ponto final da viagem , que nosso autor vai encontrar a chamada “Meca dos Sertões”, a terra do Padre Cícero. Talvez compense trazer a lume o foco irradiador que estava por detrás desse avanço, até certo ponto furioso, sobre as mazelas regionais. Em 15 de novembro de 1925 é publicado em O Estado de São Paulo, por seu proprietário, Julio de Mesquita Filho , o opúsculo A Crise Nacional , no qual o então mecenas, que reunia em torno de si um significativo grupo de intelectuais, tece uma série de reflexões em torno de uma data, mais especificamente o 13 de maio de 1888. No texto o autor louva o grande desenvolvimento dos meios de comunicação, advindos com a república, “permitindo que a ação das elites se tornasse muito mais eficaz no seio das massas esparsas pela vastidão territorial do país” , sobretudo a partir dos eventos do 13 de maio que mergulharam o País num sobressalto jamais enfrentado anteriormente. A imagem utilizada por Julio de Mesquita Filho não deixa dúvidas de seu local de fala, quando, de uma hora para outra, o impacto de um grande número de ex-escravos adquire prerrogativas constitucionais:

A esse afluxo repentino de toxinas, provocado pela subversão total do metabolismo político e econômico do país, haveria necessariamente de suceder grande transformação na consciência nacional que, de alerta e cheia de ardor cívico, passou a apresentar, quase sem transição, os mais alarmantes sintomas de decadência moral.

A linguagem científica e a metáfora biológica agudizam ainda mais a força da imagem. Toxinas, assim o autor escancara a similitude das massas de escravos libertos em 13 de maio, desconsiderando o esfacelamento da instituição escravista que já vinha se acentuando desde, pelo menos, 1850. Seu discurso marca o ponto que aproxima a questão racial do território político. Assim:

(...)já decorridos alguns lustros depois que a lei da libertação do elemento servil fora assinalada e que os seus beneficiários haviam transposto definitivamente os portões da senzala, desceu o nível moral da nacionalidade na proporção da mescla operada. O contato do africano, oprimido e aviltado, sem uma sombra sequer de sentimento cívico, além de quebrar a unidade psíquica indispensável às vibrações da multidão, preparou o terreno para o advento dos costumes políticos a que até hoje estamos sujeitos.

Essa mescla atingiu bem mais que a fisionomia brasileira. Devido ao trato habitual com o escravo, o branco senhorial infenso ao mando logrou operar uma reforma política em sentido inverso, subvertendo nossa “natural” trajetória democrática por um caprichoso arranjo de interesses que colocavam sob sua proteção “quantos pretendessem um lugar nos congressos estaduais ou federais” . Estava decretada a oligarquia, vista aqui como uma reação das elites à enxurrada de negros ex-escravos que subitamente adquiriram status de cidadania política, a enfraquecerem o estado geral da nação com sua árida disposição às práticas políticas. Uma forte migração trouxe das unidades produtivas desorganizadas esses elementos para o espaço urbano, mormente para as grandes cidades do litoral, onde grassava uma intelectualidade sofisticada, que, em pouquíssimo tempo, viu-se alijada de suas prerrogativas, dando lugar a um novo tipo de político profissional, cuja sintonia com as novas e incultas massas celeradas mais os aproximaria dos caudilhos tipificados pelas extensões desse continente de retalhos e rebotalhos. Outra não poderia ter sido a atitude do governo central, principalmente implementada por Prudente de Morais, Campos Sales e Rodrigues Alves, que mantiveram o regime presidencial federativo erradicando-lhe qualquer possibilidade descentralizadora. Completando esse ciclo que arrefeceu nosso impulso nacional, temos o grande afluxo de imigrantes europeus, que para cá afluíram obcecados pelo lucro e indiferentes a qualquer interiorização, quer da vida pública, quer dos aspectos da nacionalidade. Se algum benefício adviera desse novo êxodo, foi escoimar e diluir a pressão que o elemento negro exercitara “negativamente” em nossa prática política.

(...)E se a ação do elemento branco, oriundo do ultramar, se tornava perniciosa enquanto se não dava a sua integração na nacionalidade, a sua presença em determinadas regiões ia afastando a toxina africana, de todo em todo incapaz de participar da nova fase de atividade em que entráramos.

Segundo essa gente, elemento negro deveria estar fora do ciclo histórico que o aprimoramento republicano inaugurava. Mas outro fenômeno estava sendo urdido nos contrafortes da história. De natureza eminentemente econômica, entre o primeiro e o segundo qüinqüênio do século XX, ocorre rumoroso retalhamento das antigas propriedades latifundiárias em inúmeros e prosaicos nichos de pequenos agricultores que representam 45% de todo o território paulista, segundo o autor . Um importante influxo industrialista fez aumentar significativamente a massa de salários geral da população, o que provocou o divórcio entre a população e os políticos profissionais, consubstanciando uma nova fase nos moldes nacionalistas dessa mesma população. Tinha início a campanha civilista, propugnada por Ruy Barbosa. Na análise de Julio de Mesquita Filho estava inscrito um vasto segmento de classe, característico de uma elite ilustrada segundo os moldes spencerianos, impregnado de uma educação intelectual, moral e física, cuja funcionalidade haveria de ser mais aguda na medida mesma de sua uniformização através do território. No diagrama que se abria, parecia ainda obscuro o caminho mais apropriado, exceto que a superação das oligarquias se colocava como imperativo histórico ao desenvolvimento geral que, ironicamente, a própria libertação dos escravos obliterava. Nestes termos ele colocava o problema:

(...) o Brasil está atravessando uma fase de regeneração social, por enquanto apenas sensível em alguns Estados, mas cujos resultados são patentes. O seu aspecto atual, de todo em todo dessemelhante do que se seguiu à implantação da República, explica e ilustra os acontecimentos atuais de maneira bem diversa do que pretendem fazer crer os escribas oficiais. A crise atual nada mais é, pois, do que o resultado da resistência que, à eclosão definitiva das novas energias nacionais, pretende opor o elemento remanescente da época em que o Brasil sofreu o colapso a que não podia fugir, dada a libertação repentina de dois milhões de africanos, em 1888.

O exemplo mais indicado, segundo Mesquita, são os Estados Unidos, que, ao tempo de sua primeira Constituição, enfrentavam problema semelhante, ou seja, Estados em diferentes graus evolutivos. A solução foi guiada “pelos gênios políticos da raça”: conceder autonomia constitucional aos Estados com maior capacidade político administrativa, enquanto os demais aguardavam pela “maturação política indispensável” . Equivocadamente, o Brasil distribuiu as mesmas prerrogativas constitucionais “ao Amazonas e ao Rio Grande do Sul, ao Ceará e a São Paulo, a Mato Grosso e a Minas Gerais”. Excetuando poucos Estados que fatores outros carregaram de uma nova fisionomia de progresso, todos os demais ainda vivenciam as mazelas coloniais, insuflados de prerrogativas constitucionais que não os capacitam às considerações e enfrentamentos de sua precária realidade cotidiana.

O que explica a enorme distância paradigmática entre os dois modelos, Weltanschuung ou sua visão de mundo? Como procedemos nós, brasileiros e latino-americanos em geral? Fundamentados no Direito Romano, começamos de uma idéia de Estado com base na tradição ocidental e engessamos a realidade com essa abstração, cuja função preponderante é “modelar o indivíduo e o povo”.

A teoria se apresenta a priori, como uma forma a que deve se adequar a realidade.

Os anglo-saxões que vieram à América trouxeram a Carta Magna de João I, da Inglaterra, sumária em princípios. Diante dos problemas enfrentados, foram redimensionando de modo harmônico a que a realidade propunha, primeiro numa constituição de princípios, a de Filadélfia e, na medida em que se organizavam e evoluíam, adotando um “referendum” em cada um dos Estados, alterando os pontos necessários à aplicabilidade constitucional em regimentos pontuais.

Operava-se o inverso: a realidade é que exigia a construção teórica do Estado. Este vinha atender às necessidades individuais e coletivas, organizando as instituições segundo uma operosa obra de engenharia política. O cidadão moldava o Estado, seguindo minuciosos plebiscitos de micropolíticas como permanentes rotinas organizativas da sociedade.

Temos por aqui também nossos carros-chefe: São Paulo, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Minas Gerais, Estados que estariam autorizados a apontar as reformas capazes de trazer as outras unidades federadas ao mesmo grau de maturação, que poderá restituirá o equilíbrio nacional.

Para isso, há que estimular o açodamento das pequenas propriedades rurais, formadoras de unidades políticas denominadas de “self-government”, resistentes aos mais sutis avanços da demagogia; o voto secreto, único dispositivo capaz de anular as pressões oligárquicas e, em pouquíssimo tempo, formar uma “massa homogênea” no proletariado emergente. Julio de Mesquita Filho aponta que uma reação das forças conservadoras será capaz de fazer valer a “lei do equilíbrio das forças naturais” . A população rural, “muitíssimo mais numerosa, manteria à respeitável distância o proletariado”, propiciando um equilíbrio pendular entre o capital e o trabalho, como ocorreu nos Estados Unidos e na França. Tais atitudes fariam regenerar as elites intelectuais, que voltariam a apontar o caminho saudável de nosso destino de nação.

O receituário de Julio de Mesquita Filho tinha um propósito bastante definido, qual seja, devolver à nação uma racionalidade perdida pela inépcia de elites que, ao voltarem-se para uma satisfação endógena, puseram toda uma nação na rota do desgoverno e do caos. Forças políticas novas advindas com a imigração massiva, grupos urbanos redefinindo o espaço político, pressões de toda ordem assaltavam a consciência daqueles que deveriam estar no timão desta transição, que a inadvertida precipitação republicana havia acometido, juntamente com toda a sociedade.

É à sua própria classe submergida que ele dirige sua pena:

As elites intelectuais, refugiadas desde o advento da oligarquia nas carreiras liberais, nas letras, na indústria e na agricultura, voltariam à tona, atraídas pela purificação da atmosfera política. Como no ciclo épico das Bandeiras, na luta de independência e no período agitado da maioridade de d. Pedro II, tornariam a florescer em nosso meio aqueles tipos representativos da comunhão, que sucessivamente se encarnaram, de acordo com o momento histórico, nos Fernão Dias, José Bonifácio e Feijó. (MESQUITA FILHO, 1925, P.62)

Era um projeto de nação, mas, antes, um projeto de classe e de hegemonia. E era paulista o projeto. Seria uma resposta de São Paulo aos graves acontecimentos de 1917 na Rússia Imperial, de julho de 1922, no Rio de Janeiro, de 1923, no Rio Grande do Sul e as preocupantes ações que surpreenderam São Paulo em julho de 1924.

Desde 1916, as greves operárias vinham tomando uma dimensão preocupante, a culminar com a greve ocorrida em Santos, nos inícios de 1917; em meados desse mesmo ano, São Paulo era sacudida por outra greve que acarretou um efeito dominó em todos os Estados do sul do País. Em 1915, tem início um grave ciclo de secas em todo o nordeste, atingindo com especial virulência o Maranhão, o Ceará, o Piauí e o Rio Grande do Norte. Em 1818 advém uma das mais graves epidemias de gripe que já assolou o País, atingindo Estados de norte a sul, tendo se iniciado na Bahia. Em 1919, com a morte de Rodrigues Alves, uma vez mais Ruy Barbosa, aclamado pela nação, vê os conchavos políticos preterirem-no a Epitácio Pessoa. Na Bahia, no começo da década de 20, acontece uma insurgência dos chefes políticos contra o governador . O movimento operário volta à carga no Rio de Janeiro. A intranqüilidade atinge seu ápice com a prisão do Marechal Hermes da Fonseca. Segue-se a revolta do Forte de Copacabana, entre 4 e 5 de julho de 1922 e um estado geral de rebelião armada. O estado de sítio é decretado pouco depois, comprimindo a ferida, sem estancá-la. Em julho de 1924, São Paulo enfrenta forte sedição, sendo cenário de inúmeras campanhas militares no interior e nos sertões. Estas as motivações que engendraram A crise nacional, o libelo de Julio de Mesquita Filho.

O que estava na bagagem de Lourenço Filho era um projeto reformista amplo, que compreendia a área pedagógica, cultural, mas sobretudo política. Identificar as oligarquias que demagogicamente usufruíam do povo simples e erradicar seus fundamentos, era o plano de emancipação e modernização de que estas regiões careciam. Lourenço Filho propunha uma solução pela educação.

Sua aproximação da “Meca dos Sertões” é acompanhada de uma verdadeira metáfora da “descida aos infernos”. Cruzes assinalam o caminho, ora marcadas no tronco da imburana, ora improvisadas com dois pedaços de pau; grupos armados hostis circulam o tempo todo pelo caminho, acompanhados por andrajos humanos com atavismo da superstição inscrito em seus rostos; carregando a mesma marca do analfabetismo, já meio mortos de tantas privações e todos, absolutamente todos, acorrem à bênção do “Padrinho”, num ambiente em “todo fora da lei e da razão” .

A essa ruinosa voragem não podiam faltar todos os comprometimentos da ausência de higiene: tracomas, doenças venéreas, bouba atingem 84% dessa população itinerante e fixa, que tantas e tantas vezes para lá acorre sem ter como retornar a seus rincões.

Essa gente, que Lourenço Filho denomina de “farândola dos penitentes”, provém de todo canto do País. Curiosamente o menor número é de cearenses, o que o autor atribui à reputação do Padrinho, furiosamente denunciado quer imprensa e pela Igreja.

Cercado por uma trincheira de casebres depauperados, cortados por vielas que expõem as chagas de seu improviso, verdadeiro bivaque de moléstias sociais, o “Joaseiro” funciona como um cinturão fortificado por todas as pústulas humanas. Em cada um dos casebres, apenas dois furos deixam antever o cano do trabuco, no centro do qual destoa um pequeno comércio e algumas moradias de alvenaria, dentre as quais a do próprio Padre Cícero Romão Baptista, contígua à igreja Nossa Senhora das Dores.

O aguardo da primeira visão do “Padrinho”, descrita por Lourenço Filho, merece ser reproduzido:

Pusemo-nos de pé sobre o carro, para melhor observar aquela multidão agitada; e não logramos perceber, no primeiro instante, senão a malta daqueles mesmos romeiros da estrada, sujos e abatidos, com os seus casacos, os seus largos chapéus de couro ou de palha de carnaúba, os seus bordões e os seus bentinhos, o rifle inseparável e as ‘pracatas’ amarradas à cintura, ou pendentes do cano da arma. À primeira vista, aquela massa tinha unidade; expressões dos mais díspares caldeamentos de raça ali se confundiam, e apenas um ou outro semblante mais puro ressaltava (grifo meu) .

Seu discurso será permeado pelo problema da mistura da raça, imbricado com a falta de higiene, o analfabetismo, a superstição. Por todo lado, “cenas de barbárie num ambiente de demência” . Em torno da casa do Padrinho, uma multidão exprimia todas as loucuras, testemunho de uma insânia que contrastava em todos os sentidos com o interior da casa, onde Lourenço Filho foi arremetido. Ali dentro tudo era equilíbrio e tranqüilidade, voluteavam pássaros de diversas partes do país.

Enquanto isso, lá fora, cantavam os circundantes esta trovinha de cordel:

«Não tenho capacidade

Mas sei que não digo à toa

Padre Ciço é uma pessoa

Da Santíssima Trindade.»


Quem foi esse mitômano, para usar um termo do próprio Lourenço Filho?

Nascido em 24 de março de 1844, Romão Cícero Batista viria a se tornar padre em 1870, dois anos antes de chegar ao arraial do Juazeiro. Quando exercia a função de pároco local foi envolvido em suspeita de milagre: ao ministrar a uma beata a hóstia, esta se transformara em sangue. A polêmica daí resultante viria a encerrar suas atividades religiosas e a dar início a uma forte atividade política que o tornaria o primeiro prefeito do lugar após sua emancipação e vice-presidente do Estado do Ceará.

Quando da conflagração de Canudos, quiseram arrostá-lo a Conselheiro, o que motivou inúmeras manifestações. O juiz de direito de Salgueiro tornava público este telegrama: “Posso garantir ser ele virtuoso sacerdote, completamente hostil ao movimento sedicioso de Canudos e incapaz de atentar contra a ordem pública” . O ano era ainda 1897. Lourenço Filho afirma escreve:

O fanático pode tornar-se com facilidade um revolucionário, não só porque a vitória de suas idéias exige muitas vezes a reforma social, como porque ele se distingue dos mais por uma interpretação moral especialíssima. Para ele não há perfeita separação entre o justo e o injusto, o lícito e o ilícito. Ou, melhor, a lei moral é o seu arbítrio, a sua resolução de momento, porquanto se julga um inspirado, investido do monopólio do bem .

O ajuntamento de significativa multidão em torno de Juazeiro, num momento de confronto entre latifundiários e comerciantes, analisados por Rui Facó , motivou esta insólita declaração daquele que já foi chamado de braço político de Padre Cícero, Floro Bartolomeu da Costa, a uma consulta dos poderosos da região sobre a possibilidade de remover o crescentemente incômodo padre:

Na realidade, isso não era possível; o povo não o consentiria, havia de rebelar-se e, então, viria a alegação: ‘É o banditismo!’ Iriam as forças e acabava-se com a população. Sabemos como foi Canudos, como foi Contestado...

A ambigüidade da declaração acabava por tornar o Padre Cícero um contendor de tragédias anunciadas.

A chamada “Revolução de 1914”, por seus defensores, ou “sedição de 1914”, pelos detratores, planejada pelo governo central e liderada por Floro Bartolomeu da Costa, com o apoio do padre Cícero, conseguiu depor o presidente do Ceará, coronel Franco Rabelo, conferindo ao obscuro pároco projeção nacional.

O movimento consistiu na rearticulação do pacto oligárquico representado pelo governo Acioli, que tinha sido derrotado pelas forças emergentes, principalmente da burguesia de Fortaleza e que colocara no poder o oficial do exército Franco Rebelo. No Rio de Janeiro, toda a bancada cearense se originava de bases do interior, onde grassava o coronelismo e as eleições a bico de pena, ou seja, a fraude nas próprias atas. O emissário dos coronéis fora Floro Bartolomeu, que regressa ao Ceará em 1913 como virtual presidente do Estado. Restava tomar posse. Implementado o plano, a intervenção do governo de Fortaleza não se fez esperar. Os coronéis, os latifundiários do Cariri estavam preparados. Haviam construído uma enorme vala de trincheira em torno de Juazeiro. Lourenço Filho descreve aqueles momentos de preparação:

Na milícia estadual, composta quase só de sertanejos ignorantes, incapazes de repelir as influências da superstição ambiente, contando mesmo muitos indivíduos fanáticos pelo Padre, seus ‘afilhados’, os ânimos se tinham abatido, de modo incrível. Favoreciam o desanimo as notícias, dia a dia mais impressionantes, de novas remessas chegadas ao Juazeiro, em homens, armas, munições e dinheiro. Para ali tinham acorrido de todos os sertões limítrofes os mais ferozes cangaceiros.Comboios intermináveis de rifles e máuseres chegavam cada noite, via Paraíba ou via Recife...Lá estavam homens que haviam guerreado em Canudos, na defesa de Antonio Conselheiro.

Lourenço Filho aproxima os dois eventos, Juazeiro e Canudos, como grãos da mesma safra:

O governador enviou para agir in loco uma pessoa de sua inteira confiança, o seu próprio secretário de Justiça, Dr. Martins de Freitas. Acompanhavam-no, além de outras pessoas, algumas das figuras de maior relevo na campanha contra a oligarquia Accioly, e por isso mesmo, dos mais dedicados apologistas da situação. Tivera-se a idéia de mandar fundir, em Fortaleza, um pequeno canhão que agora se levava para atirar bombas de dinamite ao acampamento inimigo. Os contratempos determinados pela condução dessa peça primitiva, do ponto terminal da estrada de ferro à zona da luta, lembra, por vezes, mutatis mutandis, o canhão de costa que se juntou à expedição de Arthur Oscar, na campanha de Canudos.

O resultado foi desastroso para as tropas estaduais. Mais uma vez o canhão que aproximava Juazeiro de Canudos serviria de imagem poética a Lourenço Filho:

De toda essa custosa expedição, ficava na zona da luta, apenas, o famoso canhão. Deixaram-no, abandonado, em frente à cadeia de Barbalha, onde o iriam buscar, dois dias mais tarde, os fanáticos do Padre Cícero.

Aquela peça, sobre que repousaram tantas esperanças, seria o primeiro grande troféu da ‘guerra santa’.

O caminho para Fortaleza termina a 14 de março de 1914, com a intervenção federal encabeçada por Fernando Setembrino de

Carvalho, passando o cargo, pouco depois, a Floro Bartolomeu.

Para Lourenço Filho, os asseclas do Padre Cícero, virtual massa de manobras das oligarquias regionais, constituíam-se na “mais afrontosa burla do sistema eleitoral dos nossos tempos” . O pior residia no comprometimento do saneamento político que deveria atingir os verdadeiros responsáveis pela regeneração nacional. Esse malefício foi

(...) a depressão moral que o fato devia levar a todos os cearenses de boa vontade, empenhados na melhoria da administração de sua terra, suas garantias políticas e sociais. Tendo-se banido do Estado uma oligarquia, aí instalada, havia vinte anos, era natural que os novos elementos chamados à direção das coisas públicas se esforçassem por corresponder à confiança do povo; era natural também que o sentimento cívico se fortalecesse, que as novas doutrinas avançassem, que os hábitos políticos melhorassem.

Quanto ao Padre Cícero, segundo seus defensores, foi o responsável, ainda em vida, pela projeção nacional de Juazeiro. Para lá levou as ordens dos capuchinhos e dos salesianos (que receberam todo seu espólio), construiu o campo de futebol e o aeroporto, além das capelas e igrejas principais.

Sob o lema “Oração e trabalho”, fundou jornais e associação de trabalhadores, além de estimular o artesanato local, inaugurando a primeira exposição de arte local. Estimulou a ourivesaria e a agricultura, além da construção de inúmeras escolas, dentre as mais significativas, a Escola Normal Rural e o orfanato Jesus Maria José.

Em 1934, quando de sua morte, conseguira transformar Juazeiro na mais importante cidade do interior cearense, para onde rumam todos os anos milhares de romeiros que acreditam em sua santidade, que motivou este verso de um texto de cordel:

(...) foi ele o propagador do progresso regional, unindo forças opostas de forma descomunal, agindo por excelência sempre com paciência, tratando a todos por igual.

É nesse contexto que devemos compreender suas ações enquanto Lourenço Filho o vê como o fiel da balança entre o nacional e o regional.

Lourenço Filho, no último capítulo, “O Juazeiro no folclore”, trata de dois percursos apenas na aparência distintos: o movimento regionalista encabeçado por Gilberto Freire, no Recife de 1925, e a missão folclórica realizada por Mário de Andrade nas regiões cuja esterilidade cultural encobria enorme riqueza de possibilidades.

Só pelo folclore, defrontamos a grande alma do povo, agitada e confusa. Por ele, vemos como surgem as lendas, como o pensamento comum se alarga e se interpenetra, como se sublima, em símbolos de rara beleza, ou se abastarda, envilecendo sem remédio. Na cantiga popular, podemos surpreender, sob a trama das epopéias ingênuas, mas as vezes de uma eloqüência admirável, os acontecimentos estranhos que deram origem aos mitos e crendices. E, nela, sentimos como a inteligência média da raça interpreta os fatos históricos, critica-os, exalta-os ou os deprime, segundo a orientação dominante das tendências de uma dada época. Como, enfim, no enciclopedismo ingênito de todos os povos, começam a organizar-se elementares doutrinas de um direito, de uma ciência, de uma religião.

O folclore é, assim, a um tempo, a alma coletiva, o seu próprio ambiente e história. Entre os povos analfabetos, em que a literatura escrita, os livros e os jornais não perturbaram ainda a cristalização das lendas, nem alcançaram qualquer coordenação de idéias e sentimentos, há de ser sempre pelo folclore que havemos de auscultar o ritmo profundo da existência moral da raça. Suas verdadeiras manifestações aparecem repassadas ao clarão de inúmeras inteligências ou obscurecidas ao contato de uma multidão de rudes mentalidades; mas, num como noutro caso, se mostram sustentadas pelo carinho ou pela revolta de infinitos corações...Merecem estudo e respeito. Razão porque, um capítulo sobre Juazeiro no folclore se impunha aqui, necessariamente .

O capítulo recebe a epígrafe de Gustavo Barroso: “Todo o folclore sertanejo mostra a formação das almas que habitam aqueles países de sol ardente”.

Parece útil pensarmos o folclore, na altura em que Lourenço Filho escrevia, como um elemento típico do povo. E povo, nesse caso, ágrafo. O desenvolvimento do conceito de “povo” se mostra de fundamental importância para esta discussão. Surgido nos traumas políticos da revolução francesa, durante o século XIX, assume caráter de multidão e de massa pelo entrar do século seguinte. É o informe, a uniformidade plasmada pelo anonimato, pelo indistinto. Para Lourenço Filho, a alma do povo é naturalmente “agitada e confusa”. Cabe ao folclore surpreender as causas primeiras dessa confusão, ao interpelar a conjuração dos fatos em lendas, da mitificação da história, já que impossibilitados do registro gráfico, os fatos e os eventos tendem a uma cristalização ou, nas palavras de Lourenço Filho, à sublimação. Afinal, é assim mesmo que a “alma primitiva” procede.

No Brasil, o folclore assumiu inúmeras possibilidades classificatórias, devido à impossibilidade de uniformizar as manifestações de tão vasto território e de tão complexa mistura racial e cultural. Dividiram o país em zonas aproximativas ou áreas culturais. Nina Rodrigues utilizava o conceito de tipos antropológicos dominantes, Silvio Romero, de zonas sociais, Joaquim Ribeiro se valia das homogeneidades culturais para arrostar os fatos folclóricos; Alceu Maynard de Araújo, das técnicas de subsistência. O importante é assinalar a impossibilidade de explicar o conjunto das práticas populares, sem um retalhamento, acomodações e aproximações.

Segundo Nilza B. Megale , o folclore da região nordeste deve ser compreendido seguindo uma divisão interna própria, que ela denomina de nordeste pastoril e nordeste litorâneo. O nordeste pastoril será marcado pelos tipos místicos, que emergem dos ritos agrários, cuja origem, segundo a autora, pode ser explicada pelo clima, principalmente as severas secas que intermitentemente assolam a região.

Nesse sentido, Gustavo Barroso, embora produza seus estudos ao tempo de Lourenço Filho, há de hierarquizar esta divisão, apresentando como tipo característico cearense o sujeito litorâneo, o pescador. Eleanor Hull, ao conceituar folclore na Inglaterra, utilizava o termo “história das sobrevivências” e a “expressão da psicologia do homem primitivo”, próprio das classes mais humildes da sociedade. Joaquim Ribeiro chegou a admitir a substituição do termo folclore por “populário” . Rossini Tavares de Lima apresenta interessante discussão acerca do termo folclore, em sua utilização análoga ao termo etnografia. Demosofia, demopedia, ciência dêmica são alguns dos termos de que estudiosos têm se valido para o estudo do folclore. Lourenço Filho prefere “demologia”. Se se acredita que o folclore está relacionado ao fato espiritual ou imaterial, o termo etnografia serve para apontar exatamente o fato material. Tal dualismo guarda, em si, uma espécie de primazia, como se a classificação de objetos e vestígios fosse mais apropriada a um cientificismo stricto sensu do que quaisquer delírios das coletividades, intangíveis manifestações da volubilidade subjetiva, pouco afeito às precisões e regularidades epistemológicas.

Sob muitos aspectos, o recurso folclórico estabelece mais que uma sintonia de valores e prédicas. Há uma aproximação lacônica com o distúrbio e o prosaico. O termo “folclórico” está carregado de interlúdios, complementados com simplificações e menosprezos. Ajuizado muito mais por recortes sublunares, o folclore não deixou escapar as tramas de sua própria historicidade e trouxe consigo sua complemetaridade hierárquica, chamada por alguns de elitelore, embora se registre que sua presença seja subliminar, tão somente uma suspeita, uma presença sentida, pressentida.

Elzevir e a linhagem do registro cujo código poucos compartilham. Manifestações erráticas, cabotinagens, a expressão chula do cotidiano, a vasta rede das sobrevivências que precisa ser surpreendida e realocada, extraditada de seu mapa referencial, transformada em objeto, mitificada, já que o mito retira e esvazia toda dimensão política, portanto, histórica, instante transformado em pedra. Uma das formas de entendermos o folclore pode ser recuperando sua historicidade, enunciando seu conceito político e histórico.

Não devemos nos surpreender se Lourenço Filho denomina “demologia” o estudo das coisas do povo. Se etimologicamente nada há que se contrapor, a palavra se presta a equívocos, quando pensamos que o seu objeto de estudo serão as massas de fanáticos seguidores do Padre Cícero, suas representações simbólicas. Sua aproximação com “demonologia” não é meramente casual. O povo, quando mal instrumentalizado, tende a transformar-se em legião.

Para Gustavo Barroso, o estudo do folclore nordestino pode ser dividido em ciclos. O dos bandeirantes está carregado das idiossincrasias da penetração para o interior; o natalino reúne todos os festejos em torno desta data; o dos vaqueiros, trata de uma vasta rede de aprendizados pastoris; o dos cangaceiros nos remete às gestas medievais; o dos caboclos, cuida das incontingências da liberdade indígena e o ciclo messiânico, os eventos de Canudos e as histórias do Padre Cícero. Eduardo Diatahy B. de Menezes elabora quadro esquemático das relações que envolvem as expressões mais comuns das coletividades, recuperando o sentido etimológico do mito grego, que designa “uma palavra formulada, quer se trate de uma narrativa, de um diálogo ou do anúncio de um projeto” , com ênfase em suas relações com a utopia e em franca oposição ao princípio de ideologia, que, em sua apropriação pelas classes privilegiadas, aproxima-se mais da ciência e de seus cânones.

Assim poderíamos surpreender, de um lado, uma isotopia mitológica caracterizada pelas expressões das classes populares, como o cordel e o próprio folclore, e um discurso sobre o mesmo fenômeno elaborado pelos cânones da cientificidade, operando sobre uma isotopia ideológica, própria de um elitelore. O autor identifica três instâncias não necessariamente lineares: uma operação ideológico-repressiva, uma operação ideológico-científica e uma operação ideológico-econômica. No primeiro caso, também chamado de “rejeição”, a manifestação da cultura popular é identificada com o “delito” e a “desordem”, o que justificaria uma ação repressora pelos órgãos oficiais. Numa segunda operação tem-se o estágio da “domesticação”, no qual o fenômeno se apresenta como “objeto de conhecimento” e merece ser estudado, retirado do plano da experiência concreta e realocado no plano analítico da racionalidade objetiva. A terceira etapa, da “recuperação”, internaliza o fenômeno popular nos diversos aparelhamentos ideológicos, como escolas, museus, mídias, transformando o vivido em exotismo, atrativo exposto à visitação pública, sem perigo, sem rasuras, sem traumas, reificado e transformado em objeto de consumo.

Lourenço Filho recolhe do itinerário popular inúmeras trovas de cordel, atestando a “sabedoria” numa conjuntura apresentada.

Todos os documentos estão carregados de ideologia, uma vez que apresentados como elementos do trágico e do ridículo que a inocência popular pode produzir:

«Quem for para o Juazeiro

Vá com dor no coração

Visitar Nossa Senhora

E o Padre osto Romão

Aquelas toalhas bentas

Que de sangue vivem cheias

Valei-nos Padrinho osto

E a Mãe de Deus das Candeias!»


É admirável como seu discurso pode iludir. O autor afirma que, entre os povos analfabetos, em suas “rudes mentalidades” poderemos surpreender toda uma visão prática moral. Será espúria uma horda que sincretiza banditismo facinoroso com religiosidade cristã.

«É um pasto delicado,

É a nossa proteção,

É a salvação das alma

O Padre Cisso Romão,

É a justiça divina

Da Santa Religião .


Nada mais tenho a dizê.

Sou João Mendes de Olivêva,

Nesta língua brasilêra

Eu nada pude aprendê,

Porém posso conhecê

De tudo quanto é verdade!

Não tenho capacidade,

Mas sei que não digo à toa:

- Padre Cisso é uma pessoa

Da Santíssima Trindade.»


Nesse trecho, o autor da trova reconhece sua ignorância em relação à cultura letrada. Os argumentos continuam na assertiva de que todo o fanatismo é fruto de um profundo e ignaro primitivismo, de uma total ausência de luzes. Em outro trecho, recolhido da coleção de Leonardo Motta, respondendo à pergunta sobre quem começou a guerra em 1913, um “fanático sedicioso” responde:

- Meu Deus! Isto não começou isturdia? Cumo é que eu não a de me alembrá? Vamicê não sabe que o Rebello inticava com meu Padrim Pade Cisso e só vivia de puxá arenga com nós no Juazeiro, querendo prendê, fazê e acontecê? Nós é que fumo aggredido no princípio. Isso dagora é carrêra que elles tão dando. Apanháro no Crato, na Mutuca, no S.Bento (Miguel Calmon) e tem que apanhá no Ceará. Lá, sim, que o salsêro vai sê grosso. Mas eu só tou é inda havê nesta pruvinça quem inóre que o Rebello é que é o causo de quanta desgraça hai no mundo, de tudo que é descontramantelo .

Ao leitor que já aproximou o fenômeno do Juazeiro ao de Canudos, que experimentou o desconforto trágico de um amontoado de andrajosos descarnados, potencializados por uma crença demente num velho carismático e mitômano, carecia ainda a confirmação de qual embate ele está presenciando: são os códigos da modernidade que lutam para prevalecer. É a sanidade, a higiene, a ordem que estão diante da ruptura suprema, porque impregnada pelo tempo, porque urdida pela tradição e pela história; é o passado contra o futuro! E o rosto do passado detém este anátema:

«Eu te benzo com a cruz, com a luz

E com o sangue de Jesus!

Usagre, fogo selvagem, foge d’aqui,

Que estou com nojo de ti.»


Se nos lembrarmos da epidemia de gripe, dos avanços da medicina, tais argumentos assaltam a mentalidade média urbana como uma sombra aterrorizante. Neste capítulo sobre o folclore do Juazeiro, a história do Padre Cícero e da “guerra santa” são apresentadas em formato de cordel, a típica artesania verbal do povo nordestino. Nessas versões, quem conta um conto aumenta um ponto, já dizia o velho dito popular. A história, conduzida dessa forma, diletante e amadoristicamente, tende a tomar direções imprevistas. Lourenço Filho quer dizer a seus coetâneos e à posteridade que, quando a história é por demais hedionda e perigosa, quando seu caráter pedagógico é copiado e reproduzido, o melhor local para guardá-la não é a história e seus anais, mas o folclore, esse reduto de mitos e lendas desenraizadas, essa imensa massa informe de equívocos e de graça:

A sedição dos fanáticos é comentada com graça, às vezes com ironias tremendas, por cantadores do sertão” .

Seu caminho é distinto do de Euclides da Cunha, que fez da “barbárie” um épico. Toda a “barbárie” representada pelos eventos do Juazeiro deve desaparecer, dissolvida nas cantorias populares, qual um Romãozinho, fogo fátuo azulado para os viajantes. Mas é preciso mais. Além de fazê-la desaparecer nas vozes confusas do populacho, é preciso evitar que eventos semelhantes se repitam. Daí sua reforma educacional ganha visibilidade e sentido . Lourenço Filho inicia o caminho saneador da raça, com duas epígrafes:

Desse destino, de sua fatalidade, só escaparemos por um caminho: o tomarmos a sério, a resolução corajosa de mudar de métodos – métodos de educação, métodos de política, métodos de legislação, métodos de governo. (Oliveira Vianna). A educação pública é a medicina radical. Ela dará ao povo a possibilidade de curar-se por suas próprias mãos, a despeito dos seus usurpadores. (Sampaio Dória)

A despeito desses flagrantes rasgos de ignorância e perfídia nacional, sua reforma educacional não propunha uma ação alfabetizadora massiva. A educação funcionaria mais como uma arma na mão dessa massa já quase ingovernável. Era preciso, antes, reformar um grupo intermediário:

Numa população muito disseminada, vivendo em pequenos focos dispersos, sem relação direta com o progresso do litoral, ao sertanejo atual pouco ou nada lhe valerá o saber ler, apenas. Mais valerá, para cada mil cabeças, dez cabeças bem formadas, adaptadas às necessidades e ao desenvolvimento da região, apetrechadas para lutar, vencer e impor-se aos demais, como exemplo e guia, que novecentos indivíduos que conheçam o ‘abc’, sem outra modificação sensível de suas aptidões intelectuais, sem hábitos de observação e de trabalho, sem energias para pronta reação de adaptação de sua gente ao seu meio .

Para a reforma das elites ou para a formação de novas elites esclarecidas, capazes de soterrar as velhas oligarquias e o ranço do despotismo local, a proposta de Lourenço Filho é a construção de universidades regionais, estrategicamente localizadas para emergência de novos quadros intelectuais, dinâmicos em sua interação com a especificidade local voltados para os modismos do exterior, qual “parasitas” de uma sociedade que se esboroa.

(...)Quanto nos custariam as escolas para os seis milhões de crianças brasileiras? Ademais, elas nada significariam, para a coordenação mental que falta ao país, sem a mesma criação urgente de um aparelho de cultura técnica e superior, que fornecesse à grande massa os seus técnicos, os seus guias, os seus administradores, os seus verdadeiros políticos, capazes de compreenderem as legítimas necessidades e aspirações do país, e de resolvê-las praticamente .

Para que tal projeto seja implementado, bastaria, além de suas diretrizes e propósitos, “maior liberdade política aos escravizados estados do Norte, em distribuição de justiça e educação” . A força do grupo paulista contava muito na forma final a ser implementada, porém, tais projetos não eram proposituras individuadas. Estavam tensionados numa amplo debate nacional que envolvia inúmeras vozes. Carlos Fonseca expõe a luta para uma efetiva escolarização primária, em sentido contrário a Lourenço Filho:

(...) Não tem o professor rural, como o seu colega urbano, uma pessoa, a quem mandar em procura dos alunos calaceiros ou remissos, os quais, quando lhes dá na telha aos pais ou a eles próprios, faltam sem que se julguem na obrigação de mandar ao professor um aviso ou satisfação qualquer. (...) Vive de contínuo à frente de um Golias pavoroso, de enorme corpulência, que a cada dia, a toda hora, o chama a terreiro. O exército de Israel é, neste caso, a civilização, da qual é fragélima vanguarda a escola rural. O gigante filisteu, que é o preconceito, ou melhor, a tenebrosa coligação do preconceito com o obscurantismo e a superstição, empunha a pesada chavasca, traça círculos no ar, a floreá-la e desafia o franzino Davi, o moço professor ao qual lhe dá as vezes, para escutar o que conversam seus discípulos e tem enjôos de ouvir a um deles referências muito sérias e convencidas ao saci, cujo assobio o tem assustado. (grifo meu)

Se o inimigo é comum, em Carlos Fonseca há um claro apelo à melhoria da estrutura do atendimento a todas as crianças, que devem se alfabetizar para superar o obscurantismo. Lourenço Filho, por sua vez, afirma:

Não padece dúvida de que o problema educativo brasileiro, encarado em toda a sua extensão e profundidade, é assaz complexo, não comportando um padrão rígido e único. Será sempre possível contudo, - e mais, é de urgente necessidade – que uma campanha de coordenação de cultura se faça, de qualquer modo. Ela terá que apegar-se às expressões naturais do espírito de comunidade expresso pelo uso de uma língua comum, no amor a certas crenças e tradições, no folclore e nos costumes, no conhecimento do país. E se possível não nos parece um padrão único de ensino primário, em todo caso haverá possibilidade de se fixar um sistema de padrões, suficientemente amoldáveis às necessidades locais, em função de um plano nacional de cultura, suficientemente definido e estável.

O folclore é importante elemento de identidade local, ponto fulcral da proposta de Lourenço Filho de uma educação cuja planificação se dê exclusivamente no âmbito da cultura e dos métodos, mas que respeite a singularidade regional. Uma proposta híbrida aproxima essas duas vozes:

Um só veículo, diz Toledo, límpido e suave, transfundindo de coração a coração, por toda a terra nossa, as nossas tradições, narrando o sofrimento de nossos avós comuns, encarecendo as mesmas esperanças para todos, é o laço unificador por excelência que ao mestre primário cumpre cerrar com carinho e com firmeza. Multipliquem-se as escolas e as estradas, e além de tantos outros benefícios que trarão, a unidade nacional deixará em breve tempo de ser, simplesmente, geográfica.

A disseminação da escola pode atender à unidade nacional pelo respeito e divulgação das tradições. A educação era convocada a estabelecer uma unidade verdadeiramente nacional.

De todos os magnos problemas nacionais, o da educação é, sem dúvida, o de maior alcance, porque é pela educação que se formará a nossa nacionalidade, atualmente ainda imprecisa, e que é mais um aglomerado heterogêneo do que um todo harmônico.

Segundo esse autor, a solução se encontrava na instituição de um ministério da Educação, capaz de superar a inépcia com que os Estados e municípios vêm administrando este setor. Por vezes podemos surpreender o desesperado apelo de um diretor regional no sentido de sensibilizar as autoridades para a construção de uma escola em região de enorme demanda de imigrantes, brasileiros e estrangeiros, para que se fortaleça “nestes e desperte naqueles o sentimento da Pátria Brasileira, que a todos, dali em diante, incumbe cultivar” . Defensores da escola única, Bayeux Silva e Aggêo Pereira Amaral argumentavam:

Só a escola publica poderá, com um trabalho constante, transformar os hábitos e a educação desse povo; fazer-lhe sentir que a bandeira que ali deve tremular, sem menosprezo das outras, é a brasileira; ensinar a língua, a história de nosso país; conquistar brasileirinhos que nasceram e crescem no território paulista amando outra pátria, falando outra língua, aprendendo outra história, respeitando outra bandeira...

O autor estava preocupado com o enorme afluxo de estrangeiros, imigrantes que necessitavam de elementos integradores no organismo social e político novo.

Façamos escolas simples, escolas modestas, baratas, econômicas, de ensino rápido, eficiente e proveitoso, todas de um mesmo tipo, segundo um mesmo padrão, a mesma organização, e servindo tanto ao litoral como ao sertão, tanto às grandes capitais como aos mais remotos vilarejos.

A escola única, com os mesmos programas e métodos de trabalho, segundo seu autor, é a única capaz de proporcionar a paz social almejada, “uma escola nacionalizadora, assimiladora dos elementos alienígenas, niveladora de todas as classes, construtora da unificação real da pátria brasileira” . Já Fernando de Azevedo apresentava proposta que viria se consolidar nas discussões da primeira LDB de 1961.

Assentado o princípio biológico de cada indivíduo à sua educação integral, cabe evidentemente ao Estado a organização dos meios de o tornar efetivo, por um plano geral de educação, de estrutura orgânica, que torne a escola acessível, em todos os seus graus, aos cidadãos a quem a estrutura social do país mantém em condições de inferioridade econômica para obter o máximo de desenvolvimento de acordo com suas aptidões vitais. Chega-se, por esta forma, ao princípio da escola para todos, ‘escola comum ou única’, que, tomando a rigor, só não ficará na contingência de sofrer quaisquer restrições, em países em que as reformas pedagógicas estão intimamente ligadas com a fundamental reconstrução das relações sociais. (...) Afastada a idéia do monopólio da educação pelo Estado num país, em que o Estado, pela sua atuação financeira não está ainda em condições de assumir a responsabilidade exclusiva, e em que, portanto, se torna necessário estimular, sob sua vigilância, as instituições privadas idôneas, a ‘escola única’ se estenderá entre nós, não como uma ‘conscripção precoce’, arrolando, da escola infantil à universidade, todos os brasileiros, e submetendo-os durante o maior tempo possível a uma formação idêntica para ramificações posteriores em vista de destinos diversos, mas antes como escola oficial, única, em que todas as crianças de 7 a 15, todas ao menos que, nessa idade, sejam confiadas pelos pais à escola pública, tenham uma educação comum para todos.

Escolas para todos sim, mas, devido à diversidade das classes sociais e à impotência financeira do Estado, que a iniciativa privada cuidasse de uma parcela desse desafio, desde que comprovada sua idoneidade. Vasta rede de interesses motivam tais discussões, sobretudo se considerarmos que a consolidação nacional se apresentava como uma nevralgia crônica na incompletude republicana. A alternativa educacional constituía um caminho de mais eficácia, já que poderia perpetuar projetos de grupos introjetados pelo todo da nação sem muitos desconfortos. A outra alternativa era a força e sua precária rede de contingências. Na revisão constitucional de 1926, as questões relativas ao ensino primário local e ao ensino religioso, que ali teve sua mais polêmica discussão, deixaram entrever uma outra dimensão: a competência para legislar. Manter a educação chamada fundamental competia às províncias, depois Estados, enquanto os outros níveis, secundário e superior, estiveram sob a tutela federal. Nos primeiros anos da república, a relação Estados/União quanto à política educacional havia variado muito.

A política educacional republicana oscila entre a vertente liberal, federativa com descentralização administrativa e a unidade política centralizada; a vertente positivista, ultrafederalista com descentralização administrativa e política; e a vertente autoritária onde o papel intervencionista do Estado acopla centralização política com pouca descentralização administrativa.

Propostas de todas as tendências eram apresentadas, desde a completa exclusão da União, até poderes de interferir diretamente nos Estados, quando o assunto fosse educação. As questões regionais também ocupavam um sem-número de foros de discussão e emergiram com firmeza no Congresso Regionalista que aconteceu em Recife naquele mesmo ano. Naquele domingo nordestino, era aberto o 1º Congresso Regionalista pelo dr. Odilon Nestor. Quando a palavra foi dada a Moraes Coutinho, incumbido de assinalar as premissas do programa, evocou este o conceito de Alberto Torres sobre as distinções entre regionalismo e separatismo, mostrando que a federação, no caso do Brasil, somente poderia ser atingida em sua plenitude pelo regionalismo. Na terça feira seguinte, 9 de fevereiro de 1926, lia-se no Diário de Pernambuco:

Não se repelem propriamente regionalismo e nacionalismo, de um lado, e, cosmopolitismo, de outro. À inteligência dos homens é que incumbe a arte difícil de os harmonizar. Esta harmonia é possível, pelo que o orador não vê no séc. XIX, e no seu cosmopolitismo, o perigo de ter trazido ao mundo a vitória de uma estúpida uniformidade que o acabaria acinzentando.

Numa vasta e complexa estrutura política e social, nesse caldeamento, pensar em uniformidade era uma aberração impraticável. Havia fórmulas capazes de harmonizar tanta diversidade, bastava à inteligência humana procurá-las. Amaury de Medeiros conclui sua exposição sobre a relação entre a arquitetura colonial e a higiene moderna:

1. Não há nenhuma incompatibilidade entre o progresso social e a arquitetura tradicional; 2. Sob o ponto de vista da higiene da habitação o estilo colonial pode adaptar-se a todas as exigências das modernas leis sanitárias; 3. Sob o ponto do conforto moderno o estilo colonial pode receber sem prejuízo todos os aperfeiçoamentos da civilização; 4. Sob o ponto de vista estético o estilo colonial é uma reação necessária contra o mau gosto das construções sem caráter que tem mudado desastradamente a fisionomia das nossas cidades; 5. O estilo colonial se presta a todos os edifícios, residências, hospitais, escolas, igrejas, etc.; 6. O movimento a favor da arquitetura tradicional está ficando vitorioso nos principais centros de cultura nacionais.

Havia que compatibilizar o tradicional e o moderno, a fim de frear um modo de vida exógeno que ameaçava toda uma cultura consolidada no sangue e no sacrifício de muitos. Em pouco tempo, erradicaram-se os taipeiros, mestres construtores que detinham uma tecnologia que, com a substituição pelo cimento e tijolos, havia conferido às nossas especificidades climáticas, à nossa convivência privada e à nossa estética imbricada um genuíno e formidável geode de morar. Foi, talvez, a primeira vez que se tratou de uma confluência ao mesmo tempo ecológica e técnica dos problemas regionais de urbanização. Na quarta feira, 10 de fevereiro de 1926, assume a presidência do congresso Gilberto Freire que passa a palavra a Odilon Nestor. Este sugere a criação de uma cadeira de estudos nordestinos na universidade que “naturalmente há de ter muito breve o Nordeste” . Era uma das propostas contidas no libelo de Julio de Mesquita Filho e em Lourenço Filho, que acabariam, em seu estado de origem, viabilizando a fundação da USP, como um centro formador de elites, capazes de guiar adequadamente o povo. Em mais de um ponto os projetos se aproximam. Vejamos o manifesto regionalista, escrito pelo próprio Gilberto Freire. Vinte e cinco anos depois da implementação do movimento, Gilberto Freire revelava um encontro havido entre Prudente de Morais neto, e um modernista ortodoxo, nestes termos:

E Prudente de Morais, neto, ainda há pouco tornou a contar-me como, antes de conhecer-me no Rio em 1926, passara de curioso a simpatizante do movimento do Recife, ouvindo um ‘modernista’ ortodoxo – isto é, graça-aranhista – chegado do Norte, referir-se aos Regionalistas do Recife como a um grupo de lastimáveis retardados mentais. Um desses retardados, contara a Prudente de Morais, neto, o tal ‘modernista’ ortodoxo, que chegara ao exagero de pretender que se devia tolerar o mucambo de palha e até mais: que se devia abrir na cidade um restaurante com ‘comidas de negro’, com uma preta da Costa à porta, assando milho ou fazendo tapioca. Restaurante servido não por garçons convencionais, como os do ‘Leite’, mas por mucamas de xale encarnado e chinelo sem meia e que oferecesse aos fregueses água de côco no próprio côco, garapa de tamarindo, refresco de maracujá pingado de cachaça, ao som não de ‘fox-trote’, mas de modinhas ao violão e cantigas de xangô. Era ou não era uma coisa de doido ou de imbecil?

Esse comentário talvez resuma não somente toda lógica do movimento, mas também a reação de outro movimento, diferentemente cosmopolita, mas igualmente regionalista, que foi o movimento modernista, aspirante a uma hegemonia que a geografia irradiadora do centro sul proporcionou. O movimento regionalista não via nenhuma impossibilidade entre a tradição e a modernidade, sobretudo, numa convergência que se recusava a negar o passado. Seus valores haveriam de ser ressignificados, abrindo-se para a modernidade com uma generosa e reconhecida existência histórica. Quem participou desse congresso? Como movimento, convergiram para o congresso arquitetos, urbanistas, pedagogos, folcloristas, historiadores, sociólogos, numa reunião onde a cultura assumia a primazia do enfoque, em sua complexidade diacrônica e sincrônica:

(...) o modo regional e não apenas provincial de ser alguém de sua terra – manifestado numa realidade ou expresso numa substância talvez mais histórica que geográfica e certamente mais social do que política .

Esse o ponto principal do manifesto: sua vertente social ganhava mais relevo que a política, daí sua natureza até certo ponto inofensiva seja para os Estados que ela superava, o sentimento de “pernambucanidade, de alagoanidade, de paraibanidade”, seja para a federação, já que movimento eminentemente cultural. Pretendia-se impermeável ao americanismo que avançava com suas garras e modismos, sobretudo, mas igualmente a uma hegemonia cultural interna, ao próprio país. Nada do separatismo que chegara a assustar a cúpula política da nação, daí a ênfase nos aspectos culturais sobre os políticos que o movimento propugnava.

A maior injustiça que se poderia fazer a um regionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismo ou com bairrismo. Com antiinternacionalismo, antiuniversalismo ou antinacionalismo. Ele é tão contrário a qualquer espécie de separatismo que, mais unionista que o atual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do estadualismo .

Para superar a crise nacional, já apontada por Mesquita Filho, a melhor fórmula era o regionalismo, que potencializava a compreensão local, suas necessidades, suas aspirações, valorizando os aspectos culturais. Era preciso compreender plenamente o alcance do manifesto, capturar sua dimensão política, seu arroubo de confronto. Em mais de uma ocasião, Gilberto Freire lamenta-se da atenção dada ao movimento modernista iniciado em S. Paulo e no Rio de Janeiro:

(...) o Regionalismo do Recife, quase sumido ao lado do Modernismo do Rio e do de São Paulo, seus parentes ricos e aparecidos um pouco antes. É que ao Regionalismo do Recife, a seu modo também modernista, mas modernista e tradicionalista ao mesmo tempo, faltou, na sua época heróica, propaganda ou divulgação na imprensa metropolitana, então indiferente, senão hostil, ao que fosse ou viesse da província .

Juntamente com o poder econômico, ao movimento modernista coube consolidar a hegemonia que esta região ambicionava no diagrama nacional, apoiada numa forte estrutura de divulgação. As novas idéias que configuravam o moderno haveriam de estar vinculadas com essa estética. Tudo que não pode ser enquadrado em seus cânones sofreu um processo de apagamento sistemático. Sua aliança com a tradição mais ainda o fragilizava no cenário hodierno. Mocambos, negras quituteiras e todos os outros arrestos que lhe conferiam identidade estavam tão impregnados dos estigmas da escravidão que se tornava impossível aproximá-la dos referenciais modernos. Sua marca reside numa espécie de alfândega, de barreira cultural que teria a potencialidade de refundar o país ao promover seu encontro, sua atualidade, com sua primordial originalidade, sem os modismos anglicizados, afrancesados ou americanizados, além de conter as decorrências deletérias que essa influência ocasionou, ou seja, Estados quase imperiais ao lado de arremedos de Estados:

Com a República – esta ianquizada – as Províncias foram substituídas por Estados que passaram a viver em luta entre si ou com a União, impotente, nuns pontos, e, noutros, anárquica: sem saber conter os desmandos para-imperiais dos Estados grandes e ricos, nem policiar as turbulências balcânicas de alguns dos pequenos em população e que deviam ser ainda Territórios e não, prematuramente, Estados .

Este permanente e litigioso estado a corroer as malhas da República havia de ser vencido com a superação exígua dos retalhos, conferindo à dinâmica inter-regional um aparelhado conjunto de complexidades, tanto naturais quanto sociais, cuja interdependência não pode escapar aos legisladores. Nesse espectro, o nordeste não aspira a nenhuma hegemonia; quer simplesmente preservar e oferecer sua solução cultural que, ao superar os limites da cientificidade que retalha os povos, os segrega e os coloca em confronto, harmoniza sob a égide de uma espécie singular de compromisso, que presta contas a um passado de funções definidas que não precisa estar carregado de vergonha. É pela sociologia que esta superação se viabilizará. Silvio Romero já havia intuído este caminho ao debruçar-se sobre o folclore, que é a expressão sintonizada da vocação regional que o Brasil deve abraçar. Como lhe faltasse o apoio de uma verdadeira ciência sociológica, não pôde ele completar o ciclo de análise. O Manifesto há de combinar o antigo com o novo, o consagrado pela tradição com os aspectos modernos da existência. O mocambo, tão peculiar e tão próprio ao clima e ao modus vivendi do homem nordestino, deve ser preservado, sem trazer consigo sua perniciosa admoestação, que não se encontra no mocambo, mas nos locais em que são construídos. A higiene moderna deve ser considerada e o local deve ser adequado:

O mal dos mucambos no Recife, como noutras cidades brasileiras, não está propriamente nos mocambos mas na sua situação em áreas desprezíveis e hostis à saúde do homem: alagados, pântanos, mangues, lama podre. Bem situado, o mucambo – e a casa rural coberta de palha ou de vegetal seco não nos esqueçamos que se encontra também na Irlanda e na própria Inglaterra – é habitação superior a esses tristes sepulcros nem sempre bem caiados que são, entre nós, tantas das casas de pedra e cal, sem oitões livres e iluminadas apenas por tristonhas clarabóias que apenas disfarçam a falta de luz e a pobreza de ar, dentro das quais vive vida breve ou morre aos poucos – quando não às pressas, arrastada pela tísica galopante – a maior parte da gente média da região, nas cidades e até nos povoados .

Defende a permanência de ruas estreitas, tão apropriadas aos países onde o sol é particularmente inclemente e sem sombras. Gilberto Freire é mais enfático em relação aos valores e costumes pelos quais a região deve ser reconhecida e a modernidade, que afinal trouxe Papais Noéis e renas e neve, esqueceu que foi estabelecido com o presépio, mormente feito de barro, tão alteroso como o de Caxixi, nossa relação mais pungente com a natividade. Serão as “panelas de barro, as facas de ponta, cachimbos de matutos, sandálias de sertanejos, miniaturas de almanjarras, figuras de cerâmica (...)” as peças que devem ser cultivadas em museus, preservadas como os valores identitários que a região consagrou. O ponto alto do manifesto consiste em sua aparente defesa ou, melhor, sua aparente superação da divisão entre cultura erudita e “valores plebeus”. Pena que tal superação se dê tão-somente num elogio rasgado à culinária dos botequins, das feiras livres, que merecem a atenção por sua originalidade: sarapatel, tapioca molhada, quitute de tabuleiro, “cousas de negros” como o mamulengo, o bumba-meu-boi, a nau-catarineta. Reconhece igualmente a importante contribuição dos engenhos patriarcais nesse dossel de cores, sabores e harmonizações e a contribuição de nossa corrente portuguesa, cujos pastéis e temperos afrodisíacos tanto favoreceram e estimularam o intercurso sexual cuja resultante está no cadinho de carnes frêmitas, de suores cuja mistura branca, negra e índia produz perfume para as narinas estupefactas do mundo. Tudo no seu devido lugar: os negros dançando o coco; as baianas com seus quitutes e os senhores, bem os senhores aspiram a esses perfumes nas feiras tanto quanto nos solares. Parecia querer dizer que somente pela cultura poderíamos superar as mazelas oriundas de nossas desigualdades. No Manifesto, a cultura pulsa em todas as linhas, cautelosa nomenclatura a superar os preconceitos divisionistas. A integração não devia se dar apenas no nível social e interétnico mas, sobretudo em nível nacional, pela emergência da particularidade. Daí que as cozinhas baiana, nordestina e mineira compunham um panorama que não deveria destoar, mas ser apreciado como num mosaico de ordenações sem relevos. Em poema escrito no mesmo ano de 1926, cujo título O outro Brasil vem aí, Gilberto Freire como que busca sintetizar a generalidade de seu pensamento:

«Eu ouço as vozes

Eu vejo as cores

Eu sinto os passos

De outro Brasil que vem aí

Mais tropical

Mais fraternal

Mais brasileiro

O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados

Terá as cores das produções e dos trabalhos.

Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças

Terão as cores das profissões e regiões

As mulheres do Brasil em vez das cores boreais

Terão as cores variamente tropicais.

Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,

Todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor

O preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.

Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil

Lenhador

Lavrador

Pescador

Vaqueiro

Marinheiro

Funileiro

Carpinteiro

Contanto que seja digno do governo do Brasil,

Que tenha olhos para ver pelo Brasil,

Ouvidos para ouvir pelo Brasil,

Coragem de morrer pelo Brasil,

Ânimo de viver pelo Brasil

Mãos para agir pelo Brasil,

Mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis


Mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil

Mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar),

Mãos livres

Mãos criadoras

Mãos fraternais de todas as cores

Mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,

Sem Irineus

Sem Maurícios de Lacerda

Sem mãos de jogadores

Nem de especuladores nem de mistificadores.

Mãos todas de trabalhadores,

Pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,

De artistas

De escritores

De operários

De lavradores

De pastores

De mães criando filhos

De pais ensinando meninos

De padres benzendo afilhados

De mestres criando aprendizes

De irmãos ajudando irmãos mais moços

De lavadeiras lavando

De pedreiros edificando

De doutores curando

De cozinheiros cozinhando

De vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.

Mãos brasileiras

Brancas, morenas, pretas, pardas, roxas

Tropicais

Sindicais

Fraternais.

Eu ouço as vozes

Eu vejo as cores

Eu sinto os passos

Desse Brasil que vem aí.»


A coerência interna que conduz a uma harmonia plácida do revolto lago social é espantosa em sua funcionalidade implacável. Seu endereço era certeiro. Retomemos o texto de Lourenço Filho:

A um filho do sul – habituado a cenas de renovação constante da vida, à ebulição fervilhante de progresso nas cidades cosmopolitas, teatro da agitação dos mais contraditórios interesses, em ânsias e flutuações de um porvir ainda mal definido, mas tendente sempre à melhoria da existência social – a impressão primeira, quando pelo Nordeste se interne, é a de que vai, como num sonho, recuando pelo tempo, a cada passo. A vida parece que desanda, inicia um giro inverso, marcando para traz duas dezenas de anos, em cada dia de viagem...Povo. habitações, aspectos de vilas e cidades, processos de cultura da terra e meios de transporte, modos de falar e vestir, manifestações de toda a existência social e política, de estética ou religiosidade – tudo se lhe mostra sob espessa patina do tempo, ou lhe soa n’alma, com as vozes indefiníveis de alongado pretérito. (Lourenço Filho, Joazeiro do Padre Cícero, op.cit. p.14).

Tais arritmias podem ser creditadas à diversidade de projetos. Se, de um lado, o folclore, as coisas típicas do povo, é motivo de enaltecimento regional, de identidade, de harmonizações múltiplas, tanto internas quanto externas, de outro, o mesmo fenômeno serve como depositário de perigos, como vitrine de um ossuário cuja brancura deve servir tão-somente como curiosa manifestação da volubilidade mitológica e informe dos deserdados que a ignorância prostrou. Mas não nos enganemos, ambos serão projetos mitificadores, propensos a recolocar em seus indevidos lugares atores sociais que demandavam ações políticas e ansiavam por novos espaços que o momento histórico exibia. Participantes de movimento análogo, alguns folcloristas patrocinavam estudos cujo direcionamento era pautado por uma identidade regional tipificada que pudesse compor um painel coerente no alinhavo nacional. Gustavo Barroso investigava no Ceará o típico homem do mar, o jangadeiro , cuja prodigalidade estaria pautada pela solidariedade, tão contrária ao individualismo cosmopolita. Também ele deseja a fundação de um Museu Ergológico, no qual “se poderia ver as artes e ofícios tradicionais da nossa gente, bem como estudar sua origem, evolução e finalidades (...)A paisagem da vida brasileira, da verdadeira vida popular e tradicional que o bulício e o cosmopolitismo das cidades nos faz esquecer” . Sobre essa cautela em sistematizar a vida e os costumes do povo, lembra-nos Ortiz:

O esforço colecionador identifica-se à idéia de salvação; a missão é agora congelar o passado, recuperando-o como patrimônio histórico.

Havia outra intenção, que de meramente extraditar, encarcerar os ritmos da vida ao ambiente parcimonioso dos museus. Urdidores de uma gramática de coesão, esses soldados que se beneficiavam de generosos cargos públicos , procuravam a arquitetura de uma malha identitária capaz de galvanizar adstringências dispersas de norte a sul do País. Acreditavam poder provocar uma afasia política localizada através das tipificações de um heroísmo tangível que, no caso específico de Barroso, estava emblematizado pela valentia do homem diante do mar. Obras como Terra de sol, de 1912; Praias e Várzeas, de 1915, repletas de histórias de pescadores; Heróis e bandidos, de 1917, cuidam de enunciar o território de uma epopéia, cujos protagonistas são os heróis dos fazeres cotidianos, os laboriosos e anônimos senhores do mar, “raça heróica que durante séculos devassara o oceano”. Esse homem do mar está impregnado de nossa mestiçagem e carrega de cada um de seus progenitores ancestrais etos distintivos: o heroísmo vem do colonizador branco, enquanto a preguiça e a tristeza devem ser creditadas aos índios erradios que já não mais existem.

A fórmula que implicava uma determinada visão de folclore, costurada com as idiossincrasias menos notáveis das populações circunscritas, já vinha sendo fermentada desde há muito. Celso Magalhães (1849-1879) publicara em “jornais de Recife e São Luís, em 1873 (...) os primeiros estudos brasileiros sobre cultura popular” , enquanto José de Alencar, ao publicar Iracema (1865), O gaúcho (1870) e O Tronco do Ipê (1871), mergulha no universo regional em busca da especificidade, assim como Morais Filho (1844-1919), autor de Festas e tradições populares no Brasil (1888) e de Serenatas e Saraus (1901/2); Figueiredo Pimentel (1869-1914), aos moldes de Andersen, transporta para a infância os espectros folclóricos em obras como Contos da Carochinha (1894) e Contos da Avozinha (1896). Mas será com Amadeu Amaral (1875-1929), em associação a Monteiro Lobato (1882-1948) para a fundação de sociedades demológicas em São Paulo, que o estudo sobre o folclore ganha estatuto de cientificidade. Sua obra O dialeto paulista, de 1920, é a primeira de dialectologia, estudando o linguajar do caipira paulista, mais especificamente da região do Vale do Paraíba, à luz da lingüística aplicada. Tal sonho seria viabilizado por Mário de Andrade, no Departamento Municipal de Cultura e, depois, por Luís da Câmara Cascudo, que funda no Rio Grande do Norte a Sociedade Brasileira de Folclore.

Essa alternativa analítica, que tinha por objetivo conformar sem ocultar as demandas regionais e locais, estava sendo testada de diversas formas na década de 1920, da grande crise político-institucional, aliada a uma crise mundial da economia.

A década de 1930 assistiria ao paroxismo e ruptura das tensões entre os Estados e a União. Getúlio Vargas, de posse do segundo Governo Provisório da República, dissolve o Congresso Nacional, as assembléias estaduais e as câmaras municipais, nomeando interventores federais numa forte centralização política que teve como resposta o violento protesto de 1932 em São Paulo pelo retorno à autonomia estadual, além de problemas em inúmeros outros Estados. Embora sufocados, esses movimentos forçaram a implantação da Constituição de 16 de Julho de 1934.

A representação profissional que caracterizou a Constituinte foi mantida na nova carta, estabelecendo papéis específicos e atribuições aos Estados, Municípios e União; além disso, criou uma Seção Permanente no Senado Federal, cujos membros eram escolhidos diretamente pelas Assembléias Estaduais com amplos poderes.

Getúlio Vargas acabou sendo confirmado no cargo de presidente pela própria Assembléia, como previa a Constituição. Os quatro anos seguintes não foram capazes de conter o movimento centrífugo dos Estados, a represa jamais poderia ser contida com a força dos braços. Em 1935, um levante sacudiu o Rio de Janeiro, Pernambuco e o Rio Grande do Norte e, em 1937, com a aproximação das eleições, Getúlio justifica o golpe militar: “A crescente agravação dos dissídios partidários tende a resolver-se em termos de violência, colocando a nação sob a funesta contingência da guerra civil” . A 10 de novembro, dissolve o Congresso e outorga a “polaca”, que recebeu esta alcunha por ter sido inspirada pela constituição polonesa Pilsudsky, impregnada de artifícios centralizadores, dando ao presidente poderes para “coordenar os órgãos representativos de grau superior”, para dirigir “a política legislativa de interesse nacional” e superintender “a administração do país” (trechos da Constituição de 1937) .

Chegava ao fim um modelo constitucional em tudo baseado na experiência norte-americana, marcado pelo excesso de fragmentação e pela liberdade de expansão, que acarretara a hegemonia de alguns Estados. O centralismo que lhe usurpava o lugar teria início por um ato simbólico inequívoco: a queima das bandeiras estaduais numa cerimônia que teve muito das expressões galvânicas típicas das vulcânicas erupções das nacionalidades.

Ainda sob os ecos destas palavras proferidas cinco anos antes por Monteiro Lobato: “Ou São Paulo assume a hegemonia política a qual lhe dá a hegemonia de fato que já conquistou pelo seu trabalho no campo econômico e cultura ou separa-se”, acrescidas dos eventos e pressões pela sucessão em 1937 que vinham do Rio Grande do Sul, aparelhado com sua Brigada Militar dos Estados. Escreve um autor atual de história regional sobre a prosaica pirotecnia cerimonial:

Logo após a decretação do Estado Novo, em 10 de dezembro de 1937, presenciou-se num estádio do Rio de Janeiro um singular espetáculo propagandístico. O próprio Getúlio Vargas em pessoa, perante uma arquibancada lotada e atenta, imbuída de fervor cívico, presidiu a chamada cerimônia da queima das bandeiras. As flâmulas estaduais eram, uma a uma, incineradas numa grande pira erguida em meio a pista do estádio. Cada pano colorido devorado pelas chamas, que supunham estar a queimar a serviço de uma pátria unida, colhia os aplausos da multidão. Doravante nenhuma parte da federação teria mais a sua bandeira. Apenas a do Brasil imperaria. Só o chefe da nação, o Presidente Getúlio Vargas, mandaria. Afinal, na prática, também não existia mais a federação, pois cada Estado estava em mãos de um interventor e cada município a mando de um intendente. Por instância dos representantes do Rio Grande do Sul, presentes no espetáculo pírico, encaminhou-se ao ditador o pedido para que a bandeira do nosso estado, a tricolor herança dos farroupilhas, não sofresse o destino das demais. Getúlio Vargas poupou-a. Mas não salvou-se a nossa história regional. Ela foi-se dos livros, banida dos manuais escolares.

A partir daí, seriam necessários muitos anos e inúmeros acontecimentos para que a história regional pudesse ser implementada. O mesmo Estado subitamente centralizado vinha convivendo com os preparativos de uma viagem etnográfica pelos Estados do nordeste. Desde a criação do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, Mario de Andrade, que assumira o cargo de diretor em 1936, vinha defendendo a idéia de resgatar um Brasil desconhecido:

(...) Faz-se necessário e cada vez mais que conheçamos o Brasil. Que sobretudo conheçamos a gente do Brasil. E então, se recorremos aos livros dos que colheram as tradições orais, e os costumes da nossa gente, desespera a falta de valor científico dessas colheitas. São descrições imperfeitíssimas, incompletas, a que muitas vezes faltam dados absolutamente essenciais. São selvas de quadrinhas bem vestidas, numa língua muito correta, em que é manifesta a colaboração do recolhedor. São músicas reduzidas a ritmos simplórios, não se sabe como recolhidas, a maior parte das vezes guardadas na memória, e não colhidas diretamente do cantador popular.

O que vale tudo isso? Além de ser pouco em comparação com a riqueza absurda dos nossos costumes e do nosso folclore, além de ser pouco, vale pouco. É uma documentação mal colhida, anticientífica, deficiente. Há momentos em que o estudioso do assunto desanima ante esse montão de livros mal feitos e tem a impressão desesperada de que tudo deve ser repudiado, e nada pode servir como documentação. (...)

A Etnografia brasileira vai mal. Faz-se necessário que ela tome imediatamente uma orientação prática baseada em normas severamente científicas. Nós não precisamos de teóricos, os teóricos virão a seu tempo. Nós precisamos de moços pesquisadores, que vão à casa do povo recolher com seriedade e de maneira completa o que esse povo guarda e rapidamente esquece, desnorteado pelo progresso invasor. (...).

A viagem de descoberta do Brasil realizada em 1924 havia engendrado novos conceitos de brasilidade que agora tinham condições de ganhar visibilidade. Eram ainda os pressupostos do modernismo, finalmente institucionalizados, ganhando apoio financeiro do estado, possibilitando que se ultrapassasse a estética rigorosa da pianolatria romântica no que tange à questão musical, mas que ia muito mais longe em suas repercussões. A Missão de Pesquisas Folclóricas irá conduzir “moços” pelo nordeste brasileiro atrás das manifestações folclóricas mais inusitadas e provocar esse comentário de Mario de Andrade em carta a Francisco Pati, de 23 de maio de 1938:

(...) E si cuidamos todos na atualidade de abrasileirar o Brasil e torná-lo uma entidade realmente unida, talvez não haja no país região mais afastada da essencialidade nacional que esta região de São Paulo, a mais cruzada de imigrantes de várias procedências (...).

Tal perspectiva, de que o estudo do folclore haveria de abrasileirar São Paulo, pode ser apreciada nessa letra recolhida pela Missão:

(...)

«Vamu dançá minha gente

Cum toda sastifação

Pra mandá nossa cantiga

La pra civilização


São Paulo vae uvi

Coisa que nunca uviu

O côco da nossa terra

Que daqui nunca saiu

(...)


Seu dotô, homê do sul

Nosso adeus vamu lhe dá

E leve nossa cantiga

Lá pro vosso lugá.»


Calada a voz regional em sua materialidade política, parecia querer dizer o governo que muito da força centrífuga até então presente na república haveria de ser revertida num movimento de encantamento cultural, numa onda de refluxo vinda do velho nordeste, capaz de ensinar simplicidade, alegria, compostura, tudo ao som exclusivo da pancada do ganzá. O processo compensatório irá se completar em 1941 com a fundação, no Rio Grande do Norte, da Sociedade Brasileira de Folclore por Luis da Câmara Cascudo e com o I Congresso Nacional de Folclore dez anos depois.

Essa elusiva nacionalidade jamais poderia ser objeto de um relator prospectivo. Viria a ser encenada por miríades de plebiscitos cuja rotina nem mesmo a voz das baionetas faria calar. Estamos condenados pelos entraves de nossa vastidão e de nosso peculiar arranjo cultural a um prosaico e indefinível complexo de lutas, capilarizadas por difusas artérias substantivas cujo reconhecimento não se dá de maneira uniforme. Esse mosaico não pode ser vislumbrado na sua totalidade, já que o distanciamento embaralha a visão e favorece a perda dos detalhes por um estranho processo de miopia coletiva. A lupa de que dispomos tampouco resolve o problema: realça idiossincrasias, amplia sotaques, arma tendenciosa que jamais favorece a harmonia de uma imagem acabada. Fazemo-nos, continuamente, a despeito do que fazem conosco, com nossa história erradia, aprisionando-a em delicadas traves de letras, concebendo cartórios ilustrados onde acreditam que nos acalmamos e adormecemos. “No bucho do analfabeto, letras de macarrão fazem poema concreto”, afirmavam Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo, no Grande Circo Místico; eis uma de nossas possíveis traduções, se muito. Aí se congregam todas as nossas fomes, numa frase musical... mas que imagem se dá a ver aos olhos!? Que poema!!!

Manual de Contra-História na Antimodernidade
Lobisomem Folclore Identidades étnicas

Mais da comunidade Wikia

Wiki aleatória