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Excertos de Para Entender o Poder

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Noam Chomsky

(...)

Pergunta: Você disse certa vez que, no governo Reagan foi a primeira vez que os EUA não tiveram realmente presidente. Poderia discorrer um pouco mais sobre este tema e nos falar sobre o que pensa do futuro deste tipo de governo?


Noam Chomsky: Pessoalmente, acredito que ele tem um grande futuro – na verdade, acho que o governo Reagan foi uma espécie de vislumbre do futuro. É um caminho muito natural. Imaginem-se trabalhando em algum escritório de relações públicas onde seu serviço é ajudar corporações a garantirem que o público importuno não atrapalhe a implementação de políticas já decididas. Eis aí uma idéia brilhante em que ninguém havia pensado: vamos fazer das eleições uma atividade completamente simbólica. A população pode continuar votando, daremos a ela aquele negócio todo, terá campanhas eleitorais, todo o blábláblá, dois candidatos, oito candidatos – mas das pessoas em quem estarão votando será esperado que leiam o texto de um teleprompter e não se esperará que saibam nada além do que alguém lhes diz ou mesmo nem isso.


Isto é, quando você fala lendo um teleprompter – o que eu mesmo já fiz – é uma experiência bem estranha: é como se as palavras entrassem pelos seus olhos e saíssem pela sua boca, sem passarem pelo seu cérebro no meio do caminho. E, quando Reagan fala lendo o teleprompter, eles o ajeitam de forma que sua cabeça possa ficar se mexendo como se ele estivesse passeando o olhar pela platéia, mas na verdade está só passando de um teleprompter para o outro. Bem, se você consegue fazer que as pessoas votem numa coisa dessas, você basicamente chegou lá – afastou-as do processo de tomada de decisões. Mas isso só funciona se você tiver uma mídia obediente que fique se derramando a respeito de que figura maravilhosa e carismática ele é – vocês sabem, “o presidente mais popular da história”, “ele está criando uma revolução”, “a coisa mais impressionante desde a invenção do sorvete” e “como se pode criticá-lo se todo o mundo o ama?”. E você tem que fazer de conta de que ninguém está rindo, e assim por diante. Mas, se você consegue fazer isso, então foi longe, no sentido de marginalizar o público. E acho que nós provavelmente chagamos lá.


Em todos os livros que saíram, de autoria de gente do governo Reagan, foi extremamente difícil esconder o fato de que Reagan não fazia a menor idéia do que se passava ao seu redor. Sempre que não estava devidamente programado, o que dizia soava meio... não eram realmente mentiras, eram como o tatibitate de uma criança. Se uma criança fica falando tatibitate, não são mentiras, é só como estar em outro plano. Para poder mentir, você precisa de um certo grau de competência, tem de saber o que é a verdade. E não parecia haver nenhum indício de que este fosse o caso com Reagan. Então, na verdade, toda aquela conversa, no inquérito Irã - contras, sobre se “Reagan sabia ou não sabia” [sobre as transações ilegais do Conselho de Segurança Nacional com o Irã e os contras na Nicarágua], ou “Ele se lembrava ou não se lembrava?”. Eu, pessoalmente, encarei como um disfarce. Que diferença fazia? Ele não sabia, caso ninguém tenha lhe contado, e ele não se lembrava, caso houvesse esquecido. E que diferença isso faz? Não era para ele saber. A carreira toda de Reagan foi soltar falas escritas para ele por gente rica. Primeiro, foi como porta-voz da General Electric, depois, de alguém mais, e ele simplesmente continuou assim até a Casa Branca: ele dizia as falas escritas para ele pelos ricos, fez isso durante 8 anos, pagavam-lhe bem, ele aparentemente estava gostando, ele parecia viver muito alegre lá, divertia-se muito. Podia dormir até tarde. E eles gostavam, os que pagavam achavam que estava ótimo, compraram uma boa casa para ele e o deixavam sair para pastar no gramado.


É muito impressionante como ele desapareceu. Durante 8 anos, as relações públicas, a indústria e a mídia vinham afirmando que esse cara havia revolucionado a América – vocês sabem, a “Revolução Reagan”, essa figura fantástica e carismática que todo o mundo amava, ele simplesmente mudou nossas vidas. OK, então ele acabou seu trabalho, disseram a ele que fosse embora – e é o final da história. Nenhum repórter sequer sonharia em se abalar para ir ver Reagan agora e perguntar sua opinião sobre alguma coisa – porque todo o mundo sabe que ele não tem opinião sobre coisa alguma. E sabiam disso o tempo todo. No julgamento de Oliver North, por exemplo, surgiu uma história sobre Reagan contar – não gosto de usar a palavra “mentira”, porque, como eu disse, até para mentir é necessário um mínimo de sofisticação intelectual e ali não era definitivamente o caso – mas sobre Reagan fazer declarações falsas ao Congresso, digamos assim. A imprensa nem sequer ligou: está bem, então Reagan mentiu ao Congresso, vamos em frente. A questão é que ele tinha cumprido sua função; portanto, ele se tornou irrelevante. É claro, vão exibi-lo trotando na próxima Convenção Republicana, para que todos possam aplaudir, e é isso aí.

(...)


Para entender o Poder, coletânea de palestras e ensaios de Noam Chomsky no período 1989 a 1999 que cobrem um vasto espectro da história e da vida estadunidense é um livro indispensável a toda a pessoa interessada em sociologia da sociedade contemporânea.

Abaixo, um excerto, das páginas 82 e 83 da versão em português da Obra publicada pela Bertrand Brasil. É um texto com cerca de 20 anos de idade e refere-se ao presidente da república de outro país em outro momento histórico. Qualquer semelhança com presidentes vivos (muito vivos, aliás...) deste país aqui, não é mera coincidência, infelizmente...

LCC – 8/11/2006


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