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Em Memória de Errico Malatesta

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Max Nettlau


Errico Malatesta - 1871 à 1889.


Ao meio-dia da sexta-feira, 22 de julho de 1932, morreu em Roma, Errico Malatesta. A morte o libertou de uma cruel doença, mas também de uma refinada privação de liberdade que somente os ex-socialistas autoritários sabem impor, com o desejo de inutilizar suas vítimas libertárias a partir do isolamento.


Lênin isolou Kropotkin em um povoado e soube evitar que fosse se recompor em um clima propício. Mussolini, ex-socialista, isolou Malatesta em sua própria casa, e quando o velho tentou refrescar-se no mar, uma perseguição policialesca o forçou em poucos dias a voltar à cidade calorenta, ardente. Outros socialistas elegeram o deserto como residência aos seus adversários anarquistas, tornando praticamente impossível que os doentes pudessem encontrar algum alívio. O calabouço do tirano era preferível à crueldade hipócrita do isolamento. Além do mais, os socialistas autoritários de todos os tempos conservam os calabouços para povoá-los com outras vítimas.


Malatesta nasceu em 4 de dezembro de 1853, e ultrapassou a idade de Kropotkin (1842-1921) em alguns meses, cedendo a vida de ambos à mesma doença, acentuada e inflamada no curso de uma longa luta contra a morte. O clima da Inglaterra, úmido, debilitou provavelmente a saúde dos dois homens. Kropotkin estava acostumado ao frio seco da Rússia, Malatesta ao clima ameno italiano. Malatesta foi também vítima do trabalho.


Fazia instalações elétricas e teve freqüentemente que trabalhar em condições muito perigosas aos pulmões combalidos. Precisou colocar seu corpo em contato com as pedras frias, entre correntes de ar que lhe trouxeram uma pneumonia em certa ocasião, quase o levando à morte. Seguiu com uma dilatação nos brônquios que o fez precaver-se do tempo, sobretudo no inverno e a primavera. No verão de 1931, que foi extremamente quente, teve de afastar-se do mar, e um companheiro americano que o visitou pôde informar que o velho estava muito mal. Meses depois enfrentou uma grave doença em sua companheira. Quando, ao findar o ano, fortaleceu-se com a melhora de sua companheira, pôde gozar algumas semanas de relativa saúde, mas em abril se viu atacado pela mesma doença que venceu sua vida.


Na última carta que recebi de Malatesta (31 de maio), ele escreve: "Sim, meu amigo, estou bastante mal e longe de sarar. Depois de uma má temporada, tive uma bronquite que me colocou a um passo da morte. Não estou bem, talvez não seja ainda um convalescente, melhoro lentamente e talvez possa salvar a vida de novo". O pior ocorreu entre 15 e 20 de abril, e a partir de então, passou a respirar com auxílio de oxigênio. O coração estava debilitado como conseqüência dos constantes esforços e da alimentação insuficiente. Lutou até o último instante contra a morte. Bertoni me mostrou uma carta de Malatesta recebida em 16 de maio: "Passo uma parte do dia meio dormindo, como um animal. Geralmente não consigo descansar à noite. Vivo uma tragédia íntima, a do afeto que recebo dos companheiros e o tormento de não merecer isto. Há algo pior, é a consciência que tenho de não poder fazer nada. Francamente, quando se sonhou tanto e se esperou por tanto, é doloroso morrer como eu, às vésperas de acontecimentos tão desejados".


Ao período de abatimento e, sem dúvida, de esgotamento e debilidade física, seguiu a melhora que se refere a carta de 31 de maio. A melhora se manifesta também por uma avidez por notícias, verdadeira sede de estar junto dos acontecimentos. Era muito difícil agradar a Malatesta, tendo em vista que não se podia falar com liberdade, temendo por violação ou seqüestro de correspondência. O mesmo ocorria com os impressos. Creio que não reagia lendo a correspondência recebida em tão precárias condições. Eu não me atreveria a completar a informação, supondo que demoraria a se curar, ainda que não deixasse por esperar por isso. Ignoro, no entanto, as circunstâncias concretas de sua morte: não sei se faleceu como conseqüência da debilidade de seu coração, por falta de forças para reagir, ou ainda se foi vítima de uma recaída ou ataque violento. O fato é que nos deixa, e como esteve sempre conosco e foi um militante desde 1871, o sentimento é maior na proporção à proximidade que teve de nós em nossos anos de vida anarquista.


Malatesta nasceu de pais da pequena burguesia, ocupados com o crescimento de seus negócios. Morreram cedo, depois de matricularem Errico na educação do Liceu. Tinha apenas dezessete anos quando começou seus estudos de medicina na Universidade de Nápoles. Nesta cidade, viveu, parece, sob a tutela de uma tia idosa que o deixou livre para que se desenvolvesse e instruísse, seguindo suas próprias iniciativas. Na infância, contemplou a ruína do absolutismo dos Bourbons em 1860: uma parte da epopéia de Garibaldi se desenvolveu perto do povoado natal de Malatesta, Santa Maria Capua Vetere, na fortaleza de Cápua, assim como a luta de Volturno, em 1860. Os garibaldinos e o exército piamontês se confundiram. Mazzini e pouco depois Garibaldi cederam e entrou o rei Victor Manuel. Malograram as esperanças republicanas, impondo-se o novo governamentalismo.


Como não haviam conseguido os objetivos nacionais da época (Roma e Veneza), seguiu até 1870 uma década de conspirações, insurreições, intrigas diplomáticas, nas quais se misturava o fantasma da guerra. Republicanos e partidos populares podiam ser úteis, entretanto, à monarquia, e foram por ela manipulados, controlados e submetidos à paralisia, sem permitir a realização de seus próprios desígnios. Tudo parecia viver como possibilidade, em potência. Agitadores e propagandistas não provocaram muitos inconvenientes. A fachada era liberal. Como o Papa dispunha de Roma e do Estado Papal, o anticlericalismo foi a religião oficial da dinastia.


No Liceu de Nápoles, pôde observar o adolescente Malatesta todas estas peculiaridades, mas seu espírito permanecia na antiguidade: o republicanismo austero dos heróis históricos da Grécia e de Roma. Este espírito clássico fascinou Malatesta. Sonhava com a República da igualdade, do tiranicídio, do tribunal popular, na barricada rebelde. O próprio Malatesta descreve estes sentimentos de 1868 em um de seus raros artigos introspectivos, de 1884. Já fora do Liceu, sendo estudante de Medicina, participou de manifestações populares, e para mostrá-lo com suas próprias palavras, transcrevemos as seguintes: "Como republicano, contemplei pela primeira vez o interior de um cárcere da monarquia". Sei por uma carta do próprio Malatesta, que pretendeu entrar em uma organização mazziniana secreta. Os veteranos da mesma, que observavam a conduta do candidato durante certo tempo com o objetivo de aceitar ou não a admissão, informaram, muito justamente, que Malatesta tinha um espírito independente, propício à desobediência, pouco disposto a submeter-se à rigorosa disciplina intelectual e moral que Mazzini impunha aos homens de sua confiança. Como conseqüência de tudo isso, foi negada a candidatura do jovem Malatesta.


Sobreviveu à Comuna de Paris, de março a maio de 1871. Foi um acontecimento que entusiasmou Malatesta, a ele introduzido pelo advogado Carmelo Palladino, homem generoso, situado no ambiente do grupo de Bakunin, no ambiente da Internacional, com suas lutas entre autoritários e anti-autoritários, luta que crescia naquele momento na organização. Ingressou à seção de Nápoles quando tinha dezessete anos e alguns meses, contribuindo para a preponderância que teve, em 1871, a seção fundada em 1869.


A comuna acabou afogada no sangue do povo; Bakunin lutara na Itália contra Mazzini, o inimigo da Comuna; brigava com Marx e Engels em Londres, instigadores de Cafiero, que obedecia então à sua influência, para malograr e paralisar a obra de Bakunin (feito que corresponde à viagem de Lafargue à Espanha um pouco depois). As perseguições das autoridades e a dissolução da seção em agosto, imprimiram uma vida agitada à seção de Nápoles em 1871. Foi Malatesta um dos membros mais ativos. Congregou estudantes e trabalhadores na seção, soube abrir os olhos de Cafiero, que passou a ser seu amigo. Sabe-se que Cafiero, depois de visitar Bakunin em Locarno em 1872, entregou-se totalmente à causa anarquista. Malatesta se complicou durante a perseguição contra os militantes da seção, e quando esta voltou a reconstituir-se mais ou menos ilegalmente com o nome de Federação dos Trabalhadores Napolitanos no inverno de 1871-72, Malatesta atuou como secretário federal e redator do programa onde se incluem habilmente os princípios da Internacional de 1864 e as idéias anarquistas de Bakunin. É o primeiro trabalho intelectual de Malatesta que se conserva. A atividade em favor da Federação da zona de Nápoles continuou em 1872. Não tomou parte da Conferência Constituinte da Federação Italiana que se reuniu em Rímini em agosto, que rompeu com o Conselho Geral de Londres, que o nomeou secretário da seção de estatística, a qual tinha um objeto mais importante do que indica o modesto nome.


Em setembro foi a Zurique e contatou Bakunin e outros delegados italianos de convenções anti-autoritárias. Em Zurique, encontrou os delegados espanhóis que voltavam do Congresso de Haia: Farga Pellicer, Alerini, Morago e Marselau. Em diferentes reuniões com Bakunin, constituíram a Aliança dos Revolucionários Socialistas, grupo internacional secreto. Depois de 1871, Malatesta lia normalmente as publicações da Internacional espanhola como La Federación de Barcelona, e outros. Com certeza vi exemplares encaminhados a Malatesta em uma coleção de Roma, em 1903. Em Zurique, Malatesta conheceu militantes destacados. Com eles, Bakunin e outros camaradas, assistiu ao Congresso anti-autoritário de Saint-Imier (Jura), que atacou profundamente a facção marxista da Internacional. Não queria viver como emigrado e voltou a Nápoles para continuar suas campanhas de propaganda.


Ao dirigir-se à Bolonha para assistir ao Congresso italiano, foi detido, permanecendo cinqüenta e quatro dias na prisão. Foi depois a Locarno, encontrou Bakunin, a quem propôs a idéia de mudar-se para Barcelona ten do em vista os acontecimentos esperados e que ocorreram, efetivamente, pouco tempo depois, em junho, em Sanlúcar de Barrameda, onde estava Morago; em Alcoy, onde estava a Comissão Federal, em Barcelona com a intervenção de J. García Viñas, Paul Brousse e outros.


Uma viagem de Bakunin e Malatesta a Barcelona tinha que ser necessariamente secreta e exigia cuidadosa preparação e meios. Para pactuar com Malatesta, Cafiero foi rapidamente a Barletta (Apulia), mas o prenderam, sendo libertado seis meses depois sem ser processado. A Internacional foi perseguida na Itália por arbitrários procedimentos em 1873, o que gerou mais de uma insurreição de caráter geral em 1874. Não se tratava de uma insurreição isolada; tratava-se de incorporar aos garibaldinos que ainda atuavam e aos mazzinistas avançados, supondo que podiam chegar a uma subversão como conseqüência das revoltas locais de origem social, tais como falta de alimentos, greves, descontentamento dos camponeses, etc. Malatesta se inteirou do plano ao sair da prisão e se dedicou a trabalhar nisso de Nápoles à Sicília. Houve quem cometesse erros, contudo Malatesta fez tudo o que pôde para conseguir armamentos e preparar a ação. Nem ali todos atenderam à convocação e o que se fez em Apulia do 10 ao 14 ou 15 de agosto de 1874, próximo ao Castelo do Monte, teve poucas repercussões. Tratava-se de um desafio ao Estado e ao sistema atual, ataque este que não pode ser esquecido. Malatesta, vendo que estavam todos presos, dirigiu-se a Locarno sendo preso em Pistoia, antes de chegar. Seguiu-se um enorme processo contra ele e outros companheiros em Trani (Apulia) em agosto de 1875. A atitude dos processados atraiu a simpatia de todos, sendo absolvidos e saudados como heróis vitoriosos. Malatesta se mudou para Lugano, onde viu Bakunin pela última vez, e discutiu com Cafiero em Locarno a reorganização do movimento. Não demorou a fazer sua primeira viagem à Espanha, visitando Morago em Madri e Alerini na prisão em Cádiz. Queria promover a fuga deste último, o qual se negou por acreditar estar próximo da liberdade legal.


Durante o inverno de 1875-76, Malatesta empenhou-se ativamente na propaganda em Nápoles. Foi então que Merlino (1856-1930), seu companheiro do Liceu, entrou no movimento, atraído ao campo das idéias, sem intervenção de Malatesta, depois de trabalhar como advogado no escritório de Gambuzzi, ex-companheiro de Bakunin. Uma reunião em Roma (março de 1876) prepara a organização da Internacional. Malatesta foi um dos que participou, e quem se viu obrigado a voltar a Nápoles. Queria defender os sérvios na guerra contra a Turquia, mas foi detido duas vezes, na Áustria e na Hungria, e devolvido pela polícia à Itália. Interessava-se pela causa das nacionalidades oprimidas, sentindo-se obrigado a interessar-se por aquele prelúdio da grande guerra russo-turca, como se tratasse de uma questão de honra. Em 1874, em Apulia, não chegou realmente a abater-se, e sentia uma espécie de rivalidade vendo que os republicanos garibaldinos lutavam como voluntários. Os internacionalistas desejavam mostrar igual espírito militar combativo.


Ao regressar à Itália, começou a relacionar-se com os companheiros de Florença, e passou certo tempo em Nápoles com Cafiero e Covelli. Concordavam na teoria, sobre passarem do coletivismo ao comunismo anarquista, determinação a que chegaram os primeiros na Itália, discutindo e tratando de reorganizar a Internacional no Congresso de outubro em Florença, para empregar toda a força em um movimento revolucionário de caráter geral, social e anarquista, desta vez sem a cooperação dos republicanos.


Contavam com o descontentamento social do povo urbano e camponês e resolveram começar pelas meridionais italianas, com a intenção de que a revolução poderia ter alguma efetividade antes de ser combatida. Durante este período, supunha-se que os trabalhadores do campo e da cidade se uniriam contra as forças governamentais antes que essas pudessem controlar a situação. A traição de um camponês que tinha influência em uma localidade, e com o qual contavam, comprometeu os conjurados, que se viram obrigados a antecipar o movimento, começando em abril e não em maio. Fazia frio; nas montanhas de Nápoles havia neve, e os revolucionários foram abatidos pelo frio e pelas privações. Cercados pelo exército, 23 revolucionários tiveram que se render, entre os quais estavam Cafiero e Malatesta. Era a noite de 11 para 12 de abril, em uma granja isolada cujo proprietário os traiu, delatando-os aos soldados. Esteve preso muito tempo e quando da morte do rei, grande parte dos supostos delituosos foram anistiados, sendo julgados e absolvidos os restantes em Benevento em agosto de 1878. A população ficou extraordinariamente impressionada, ao constatar a dignidade e integridade dos prisioneiros.


Com freqüência se reprovou os anarquistas dizendo que os atos insurrecionais que criam em nome da anarquia são pouco reflexivos, simplistas. Em 1877, assim como em 1874, aconteceu algo fragmentado, uma parte incompleta do plano total, um feito que devido à defesa não poderia se tornar público.


Malatesta conversou posteriormente comigo sobre este assunto, explicando o verdadeiro caráter daqueles movimentos e deve-se considerar que assim como durante os anos 1860-70, a década seguinte, para muitos na Itália, o Estado era débil e havia esperança na possibilidade de mudanças políticas.

Malatesta foi maltratado na Itália, no Egito, na Síria, na França, na Suíça, na Romênia e na Bélgica, em toda a Europa, entre 1878 e 1879, até achar asilo seguro em Londres na primavera de 1881. Foi a Genebra quando da fundação de La Révolte, e esteve em Paris quando surgiram os primeiros grupos anarquistas; na Bélgica quando o blanquismo revolucionário tinha influência. Chegou a Londres quando se preparava o Congresso Internacional Socialista em 1881. Enquanto isso, na Itália a mesma Internacional fôra reduzida ao silêncio, perseguida com grandes processos e quebrada com a deserção de Andrea Costa, que desde 1879 se entregou ao socialismo de aspirações parlamentares e arrastou por seu antigo prestígio os internacionalistas da Romênia. Malatesta, para ater-me só a ele, foi importante para contê-lo, mesmo estando só e distante. Em nenhum lugar encontrou apoio, exceto em Londres, de onde precisamente não podia influenciar o povo italiano contra o parlamentarismo. O Estado italiano se consolidou assim como outros Estados, aos quais o estatismo dava atribuições sociais e grande preponderância que desembocou na guerra universal, no funestíssimo período de 1880 a 1930, aproximadamente. Ainda perduram as formas estranhas e únicas de que se valeu o estatismo. Ninguém protestou como Malatesta contra o desvio, mas não pôde contê-lo e paralisou sua ação impetuosa.


Em Genebra, de princípios de 1879 até sua expulsão da Suíça poucos meses depois, conheceu Kropotkin, vendo-se ambos com freqüência em Londres em 1881 e 1882. Deve-se ressaltar o fato de que um grupo limita- do, íntimo, formado por Bakunin desde 1864 e reconstruído em Genebra em 1872, a Fraternidade Internacional, voltou a reconstituir-se no verão de 1872, elegendo Kropotkin como secretário. Malatesta e Cafiero estavam presos, mas figuravam como membros do grupo. Kropotkin e Malatesta foram os mais ativos propagandistas do reduzido círculo, obtendo confiança ilimitada um no outro, uma confiança que não foi homogênea nas idéias e táticas, apesar de ambos terem sido anarquistas comunistas convictos.


Em um ensaio de Malatesta sobre Kropotkin, publicado em fins de 1930, e na Revista Blanca em 1931, explicou discretamente mas com firmeza, a diferença que o separava de Kropotkin, mostrando que não estavam de acordo na grande maioria dos assuntos. Pode se comprovar a diferença lendo os escritos antigos e os recentes dos dois revolucionários. Unidos por amizade indestrutível, cada um considerava a atividade do outro como de grande importância, abstendo-se mutuamente de diminuir a eficácia com a crítica, já que esta levada às últimas conseqüências produzia separação e cisão. Estiveram tacitamente de acordo em seguir cada um seu caminho, e com o passar do tempo, por este e outros motivos, deixaram de se ver com freqüência. Malatesta explica que a posição crítica não podia continuar quando começou a guerra mundial, encontrando-se com Kropotkin e produzindo-se uma cena penosa para ambos, porque foi um rompimento.


Sabemos o que há no fundo de tudo isso. Malatesta não carecia de fé revolucionária, e a manteve até a última hora, mas supunha que o otimismo e certa expectativa de Kropotkin careciam de base realista. A espontaneidade criadora, a abundância, a cooperação harmoniosa quase automática, podem se produzir por uma evolução de condições favoráveis, mas não são, evidentemente, dados presentes, atuais, palpáveis e sólidos com os quais se possa contar hoje e amanhã, no dia seguinte que eclodir a revolução e antes desta para que seja eficaz, Malatesta buscava fundamentos mais reais e muito mais exeqüíveis e abundantes do mundo do qual há de sair toda evolução. Daí a simpatia de Malatesta pela organização, a relação mútua, os pactos, a pressão que se explica pela ausência efetiva de abundância, a qual não é ainda um feito, ainda que os depósitos estejam até o limite.


Pensava Malatesta em todas estas coisas e se prevenia à rapidez dos amorfos, dos organizadores, dos que crêem na abundância absoluta e na felicidade automática, etc. Malatesta foi como o estorvo, o alvo predileto dos ataques, odiosos muitas vezes, dos fanáticos de uma prosperidade anarquista. Kropotkin julgava muitas coisas de maneira diferente, e o conhecem pouco aqueles que o julgam por "A conquista do pão". A distância que o separa de Malatesta não o diminui, apesar de tudo. No fundo, as idéias de todo pensador anarquista emanam da ausência íntima do próprio ser, que expressa os desejos limitados pelo próprio caráter. No fundo, Malatesta e Kropotkin são muito diferentes.


Merlino, não tão unido pelos laços indicados antes, iniciou uma crítica às idéias de Kropotkin em certo artigo de revista que foi publicado em novembro de 1893. No mês seguinte, Kropotkin começou a escrever um artigo que numerou como o primeiro de uma série, talvez o prólogo de um livro sobre tais críticas. Em janeiro, Merlino foi detido na Itália e semanas depois La Révolte foi suspensa. A série de artigos não foi escrita, e se foi, não chegou a ser publicada.


De 1879 a 1887, Malatesta se contrapôs à tendência amorfa, partidária da espontaneidade, que torna impossível todo acordo para a ação revolucionária; também se mostrou contra a tendência de Costa, que representava deserção, a escapatória rumo ao parlamentarismo. Buscava uma cooperação para destruir o Estado e o capitalismo com os revolucionários autoritários, imaginando se separar deles no momento da derrubada do atual regime, e até atacá-los se impedissem os anarquistas de realizarem seus feitos característicos. Blanqui e os blanquistas pareciam constituir então um fator sério, mas Blanqui morreu e seus seguidores perderam o brio, que nunca havia sido colocado em prova. Malatesta expôs a idéia no Boletim do Conselho de Londres, e com mais franqueza na carta circular dirigida aos mais próximos da Fraternidade, carta que me enviou em 1930 e que eu preparava para o suplemento de La Protesta interrompido naquela ocasião. Se existiu blanquismo revolucionário, morreu com Blanqui no final de 1880.


Malatesta lutou para dar coesão efetiva à Internacional que pretendia fundar. Os não partidários da organização só admitem um organismo sem outros órgãos além de um escritório que seja por sua vez uma caixa de correio para as cartas. As seções acabariam por não fazer nada para que ninguém oprimisse ou dominasse os outros. Um alemão e um russo constituíam o escritório com Malatesta. Nada se fez; não havia nada para se fazer e nada foi feito, sendo extinto o escritório pouco depois. Para apartar-se daquela inatividade forçada, foi ao Egito em janeiro de 1882 com alguns companheiros italianos desejosos de lutar nas fileiras árabes na insurreição, então, contra os ingleses e outros exploradores europeus no Egito. Era o tempo da insurreição de Arabi Pashá, que tinha certo fundo social. Foi impossível vencer os ingleses, e uns meses depois, no começo de 1883, mudou-se para a Itália, disposto a lutar abertamente contra o desvio de Andrea Costa e a reorganizar a Internacional italiana.


Foi detido e encarcerado até o final de 1883. Com Luce Fabbri, Cresatti Merlino e outros companheiros, enfrentou um grande processo. A acusação se referia ao Conselho e à nova Internacional de Londres, tal como haviam feito em Lyon para condenar Kropotkin e tantos outros a muitos anos de prisão. Em liberdade provisória, antes do fim do processo, fundou La Questione Sociale, pensado como Il Popolo, em Florença entre 22 de dezembro de 1883 e 3 de agosto de 1884. Apesar de estar condenado a três anos de reclusão, e Merlino a quatro, apelou e enquanto se resolvia a apelação esteve em liberdade até a decisão inapelável do tribunal, em janeiro de 1885, que confirmou os três anos. Pode-se dizer que às vésperas de ser condenado, tinha certa liberdade para renovar seus crimes de excitação e organização clandestina. De qualquer maneira, conseguiu fazer o melhor periódico que tiveram os anarquistas italianos. Entre camponeses foi escrito para combater aos desvios autoritários e reformistas e constituir grupos numerosos que tiveram desde então relações mais estreitas, apesar de que seu projeto de Internacional, explicado no Programma de organizzazione della Associazone Internazionale dei Lavoratori (Florença, 1884, 64 páginas) não ter sido realizado.


A epidemia de cólera paralisou todos os esforços na segunda metade de 1884, e Malatesta acorreu a Nápoles, onde a situação estava difícil, para atender os doentes no hospital. Ao regressar a Florença, e tendo em vista a iminente condenação, preferiu a rebeldia e se ausentou de novo.


Em fins de 1884 desapareceu e de Florença seguiu para Londres, de onde saiu com uns tantos companheiros militantes para Buenos Aires. Fugido da Itália, expulso de tantos outros países continentais, não sendo possível a atuação eficaz a partir de Londres, preferiu ausentar-se da Europa. Na Argentina, desenvolveu grande atividade propagandística unindo os companheiros de língua italiana e espanhola, fundando uma nova publicação, Questione Sociale (que nunca pude ver), ajudando na formação dos primeiros sindicatos, de espírito muito combativo, como a organização dos padeiros, etc.


Pelo despertar dos elementos vitais, numerosos ainda que dispersos, a propaganda intensiva e coordenada data, na Argentina, da atuação de Malatesta de 1885 a 1889. A ação das massas trabalhadoras na Europa, que parecia anunciar o ano de 1889 e confirmar o seguinte, fizeram-no escolher este último período para voltar à luta. Deve ter chegado à França em meados de julho ou no mais tardar em agosto de 1889.


Termino a evocação de Malatesta em sua primeira juventude, aos trinta e cinco anos, na plenitude do vigor. Posso atestá-lo, já que o conheci em Londres meses depois, em novembro de 1889. Ainda que de mim só pudesse esperar que absorvesse seu tempo, foi, desde que nos conhecemos até sua morte, o companheiro mais amável, em toda nossa relação. As últimas palavras que me dirigiu foram as contidas na citada carta, que é de 31 de maio de 1932. Como sabia que falava então de Barcelona, as últimas palavras da carta diziam: "Minhas grandes lembranças a Urales, a Soledad e a Federica". Nos satisfazia extraordinariamente dizer: "Estou um pouco melhor a cada dia que passa", e logo chegou a notícia irrevogável de sua morte.


  • Este é o primeiro escrito de uma série de três publicados por Max Nettlau em memória de Malatesta. Tradução de Gabriel Passetti, de Max Nettlau. "En memoria de Errico Malatesta" in E. Malatesta. Escritos. Fundación Anselmo Lorenzo, Madri, Colección Clásicos Anarquistas 1, 2002. Republicado na Revista Verve n.4. 2003.
  • Errico Malatesta nasceu a 14 de dezembro de 1853 no povoado de Santa Maria Capua Vetere, próximo a Nápoles. Malatesta. Etineraire, une vie, une pensée. Paris, 1989, no 5/6. [N. do E.]



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